“Seja a atitude de vocês a mesma de Cristo Jesus” (Filipenses 2.5).
O grupo de
discípulos de Jesus foi uma verdadeira escola de espiritualidade. Eles
aprenderam com o maior mestre de espiritualidade que a humanidade conheceu
sobre práticas que visavam o conhecimento de si e o cuidado de si e do outro de
uma forma peculiar. Eles compreenderam sobre como é viver guiados pelo Espírito
e a respeito das práticas de espiritualidade no seguimento de Jesus.
Ao contrário das
influências do judaísmo, das religiões de mistério e das práticas dos
movimentos filosóficos de seu tempo, Jesus desenvolveu uma espiritualidade mais
equilibrada em relação aos rigores de alguns grupos. Jesus não se orientou
pelos costumes do ascetismo de seu tempo. Ao contrário, ele inovou com a
preocupação com uma vida de interioridade e de desprendimento para o cuidado
com o próximo.
Havia muitos grupos
religiosos que desenvolveram práticas monásticas e eremitas, com ênfase
rigorosa em orações, abstenções e períodos de isolamento. Entre os movimentos
ascéticos do judaísmo no tempo de Jesus, havia o grupo dos essênios. Eles eram
uma seita formada por judeus que existiu desde o século II AEC. Viviam em
comunidade e buscavam a pureza, a partilha dos bens e o silêncio. Eram
dedicados ao estudo das Escrituras, desenvolviam rituais de purificação e
praticavam a imersão como rito de iniciação. Essa seita ficou mais conhecida
depois que foram descobertos os Manuscritos do Mar Morto, em uma gruta na
localidade de Qumran.
Havia também a
prática dos nazireus, que eram os judeus que faziam votos voluntários de
consagração de vida a Deus, através de práticas de abstenções e de não cortar o
cabelo por um período. Eles procuravam seguir rigorosamente as orientações do
livro de Números 6.1-21. Não se tratava de uma seita ou grupo, mas de práticas
que podiam ser desenvolvidas por qualquer judeu, homem ou mulher, que quisesse
ter uma experiência de Deus ou mesmo de demonstrar gratidão.
Havia anda um
movimento conhecido como os terapeutas, formado por judeus da diáspora,
especialmente na região de Alexandria, no Egito. Entre as práticas ascéticas,
estavam: o celibato, a renúncia aos bens materiais, a prática do jejum, a
oração e o isolamento social, para se dedicaram a uma vida santa e se
preservarem para o fim dos tempos. Esse grupo foi descrito pelo filósofo judeu
Filo de Alexandria no século I da Era Comum.
No Novo Testamento,
encontramos relatos sobre as práticas religiosas dos fariseus. Eles formavam um
grupo político influente dos judeus, conhecidos por sua devoção rigorosa à
Torah, à interpretação literalista das Escrituras e à tradição oral. A escola
rabínica foi responsável por moldar a prática religiosa a partir das sinagogas
e da interpretação das Escrituras.
Além dos movimentos
de espiritualidade judaicos, a região onde Jesus viveu e formou o seu grupo de
discípulos era influenciada pela cultura greco-romana e pelas tradições dos
povos vizinhos, como os egípcios, os edomitas, os sírios, os fenícios e os
samaritanos. A influência das religiões de mistério e das escolas filosóficas
como a dos estoicos também se faziam presentes. Cada cultura tinha sua
identidade própria e desenvolvia suas crenças e práticas religiosas. Dessa
forma, a espiritualidade naquela região era pluralista e marcada pela
diversidade.
A espiritualidade
que Jesus ensinou aos seus discípulos tinha três características predominantes:
a integração à vida social, o exercício do domínio próprio e a ênfase na
prática do amor fraternal. Jesus confrontou a prática ritual e o formalismo,
propondo uma nova relação com o sagrado, baseada na proposta de vida na
perspectiva do Reino de Deus.
A espiritualidade
dos discípulos de Jesus se consolidou quando do início da atuação como igreja.
Toda ascese dos primeiros cristãos era voltada para a vida em comum, para o
cuidado uns dos outros, para o compartilhamento e para o cumprimento da missão.
Podemos chamá-la de espiritualidade do caminho pelo fato de que se realiza à
medida que se a partir da própria caminhada como cristãos no mundo.
É a espiritualidade como
discipulado, como aprendizado constante, como busca permanente para se tornar
mais identificado com o exemplo deixado por Jesus de Nazaré. O objetivo era ser
como o Mestre. Isso não dependia de estruturas religiosas, dogmas ou mesmo
hierarquias. Havia a compreensão de que a vida era guiada pelo Espírito Santo e
que o objetivo principal de uma vida cheia da graça era se tornar um
instrumento vivo para o bem comum.
As regras de vida
monástica e aquilo que conhecemos como ascese cristã só vieram posteriormente e
se firmaram no século II em diante. O início foi marcado pela espontaneidade,
pelo desejo de consagrar a vida inteira aos propósitos divinos, ainda que fosse
preciso colocar em risco a própria vida. Ela era, por assim dizer, uma
espiritualidade plural, livre de qualquer tipo de normatizações e de rituais
rigorosos.
Essa espiritualidade
do caminho e do caminhar faz falta nos dias atuais. O nosso tempo é marcado por
uma diversidade de experiências e de práticas de espiritualidade que carecem de
uma reflexão sobre o significado daquilo que fazemos. Os discípulos de Jesus
praticavam orações, jejuns, meditação, períodos de reclusão e de solitude, autocontrole
e testemunho de vida, tudo voltado para a vida em comunhão e para o cumprimento
da missão.
Rever o modo como os
discípulos de Jesus desenvolveram sua espiritualidade contribui para que
possamos repensar sobre as razões pelas quais oramos, consagramos a vida ou
mesmo prestamos serviços religiosos. Em última instância, permite que possamos
entender melhor o que faz da gente cristãos e cristãs autênticos num mundo tão
diverso.
(Assista à série de
reflexões Espiritualidade dos discípulos
de Jesus na playlist do Youtube: https://www.youtube.com/playlist?list=PL4NVfVIy5Bi5UCfJp5ohxoBGKl8tgcPA_).

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