quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Ascese, espiritualidade e discipulado / Asceticism, spirituality, and discipleship / Ascetismo, espiritualidad y discipulado

 

“Seja a atitude de vocês a mesma de Cristo Jesus” (Filipenses 2.5). 

O grupo de discípulos de Jesus foi uma verdadeira escola de espiritualidade. Eles aprenderam com o maior mestre de espiritualidade que a humanidade conheceu sobre práticas que visavam o conhecimento de si e o cuidado de si e do outro de uma forma peculiar. Eles compreenderam sobre como é viver guiados pelo Espírito e a respeito das práticas de espiritualidade no seguimento de Jesus.

Ao contrário das influências do judaísmo, das religiões de mistério e das práticas dos movimentos filosóficos de seu tempo, Jesus desenvolveu uma espiritualidade mais equilibrada em relação aos rigores de alguns grupos. Jesus não se orientou pelos costumes do ascetismo de seu tempo. Ao contrário, ele inovou com a preocupação com uma vida de interioridade e de desprendimento para o cuidado com o próximo.

Havia muitos grupos religiosos que desenvolveram práticas monásticas e eremitas, com ênfase rigorosa em orações, abstenções e períodos de isolamento. Entre os movimentos ascéticos do judaísmo no tempo de Jesus, havia o grupo dos essênios. Eles eram uma seita formada por judeus que existiu desde o século II AEC. Viviam em comunidade e buscavam a pureza, a partilha dos bens e o silêncio. Eram dedicados ao estudo das Escrituras, desenvolviam rituais de purificação e praticavam a imersão como rito de iniciação. Essa seita ficou mais conhecida depois que foram descobertos os Manuscritos do Mar Morto, em uma gruta na localidade de Qumran.

Havia também a prática dos nazireus, que eram os judeus que faziam votos voluntários de consagração de vida a Deus, através de práticas de abstenções e de não cortar o cabelo por um período. Eles procuravam seguir rigorosamente as orientações do livro de Números 6.1-21. Não se tratava de uma seita ou grupo, mas de práticas que podiam ser desenvolvidas por qualquer judeu, homem ou mulher, que quisesse ter uma experiência de Deus ou mesmo de demonstrar gratidão.

Havia anda um movimento conhecido como os terapeutas, formado por judeus da diáspora, especialmente na região de Alexandria, no Egito. Entre as práticas ascéticas, estavam: o celibato, a renúncia aos bens materiais, a prática do jejum, a oração e o isolamento social, para se dedicaram a uma vida santa e se preservarem para o fim dos tempos. Esse grupo foi descrito pelo filósofo judeu Filo de Alexandria no século I da Era Comum.

No Novo Testamento, encontramos relatos sobre as práticas religiosas dos fariseus. Eles formavam um grupo político influente dos judeus, conhecidos por sua devoção rigorosa à Torah, à interpretação literalista das Escrituras e à tradição oral. A escola rabínica foi responsável por moldar a prática religiosa a partir das sinagogas e da interpretação das Escrituras.

Além dos movimentos de espiritualidade judaicos, a região onde Jesus viveu e formou o seu grupo de discípulos era influenciada pela cultura greco-romana e pelas tradições dos povos vizinhos, como os egípcios, os edomitas, os sírios, os fenícios e os samaritanos. A influência das religiões de mistério e das escolas filosóficas como a dos estoicos também se faziam presentes. Cada cultura tinha sua identidade própria e desenvolvia suas crenças e práticas religiosas. Dessa forma, a espiritualidade naquela região era pluralista e marcada pela diversidade.

A espiritualidade que Jesus ensinou aos seus discípulos tinha três características predominantes: a integração à vida social, o exercício do domínio próprio e a ênfase na prática do amor fraternal. Jesus confrontou a prática ritual e o formalismo, propondo uma nova relação com o sagrado, baseada na proposta de vida na perspectiva do Reino de Deus.

A espiritualidade dos discípulos de Jesus se consolidou quando do início da atuação como igreja. Toda ascese dos primeiros cristãos era voltada para a vida em comum, para o cuidado uns dos outros, para o compartilhamento e para o cumprimento da missão. Podemos chamá-la de espiritualidade do caminho pelo fato de que se realiza à medida que se a partir da própria caminhada como cristãos no mundo.

É a espiritualidade como discipulado, como aprendizado constante, como busca permanente para se tornar mais identificado com o exemplo deixado por Jesus de Nazaré. O objetivo era ser como o Mestre. Isso não dependia de estruturas religiosas, dogmas ou mesmo hierarquias. Havia a compreensão de que a vida era guiada pelo Espírito Santo e que o objetivo principal de uma vida cheia da graça era se tornar um instrumento vivo para o bem comum.

As regras de vida monástica e aquilo que conhecemos como ascese cristã só vieram posteriormente e se firmaram no século II em diante. O início foi marcado pela espontaneidade, pelo desejo de consagrar a vida inteira aos propósitos divinos, ainda que fosse preciso colocar em risco a própria vida. Ela era, por assim dizer, uma espiritualidade plural, livre de qualquer tipo de normatizações e de rituais rigorosos.

Essa espiritualidade do caminho e do caminhar faz falta nos dias atuais. O nosso tempo é marcado por uma diversidade de experiências e de práticas de espiritualidade que carecem de uma reflexão sobre o significado daquilo que fazemos. Os discípulos de Jesus praticavam orações, jejuns, meditação, períodos de reclusão e de solitude, autocontrole e testemunho de vida, tudo voltado para a vida em comunhão e para o cumprimento da missão.

Rever o modo como os discípulos de Jesus desenvolveram sua espiritualidade contribui para que possamos repensar sobre as razões pelas quais oramos, consagramos a vida ou mesmo prestamos serviços religiosos. Em última instância, permite que possamos entender melhor o que faz da gente cristãos e cristãs autênticos num mundo tão diverso.

(Assista à série de reflexões Espiritualidade dos discípulos de Jesus na playlist do Youtube: https://www.youtube.com/playlist?list=PL4NVfVIy5Bi5UCfJp5ohxoBGKl8tgcPA_).

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