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segunda-feira, 22 de abril de 2024

Etarismo e Decolonialidade: o que a Igreja tem a ver com isso / Ageism and Decoloniality: what does the Church have to do with it / Edadismo y decolonialidad: qué tiene que ver la Iglesia con esto

 

A OMS define etarismo, também conhecido pelo termo idadismo, como o conjunto de práticas orientadas por estereótipos, preconceitos e discriminação direcionados a pessoas por questões de idade. A idade é uma das primeiras coisas que percebemos no outro, quando o identificamos como pessoa. Você certamente já ouviu essa frase: “você não tem mais idade para isso”.

No início de março de 2023, viralizou nas redes sociais no Brasil um vídeo em que jovens universitárias criticavam a presença de uma aluna de 40 anos de idade em sua turma. “Mano, ela tem 40 anos já. Era para estar aposentada”, disse uma delas. Recentemente soube de uma professora universitária que foi demitida aos 50 anos, mas que não consegue mais se inserir no mercado de trabalho por que está velha demais para conseguir um emprego mas nova demais para se aposentar (CAMPEZZI, 2023).

Esse tipo de preconceito está presente nos meios sociais mais do que podemos imaginar. E a igreja não fica de fora desse tipo de prática. Ele pode atingir diferentes faixas etárias, mas as maiores consequências recaem sobre as pessoas mais idosas. Ele surge quando as relações entre as diferentes faixas etárias tipificam umas as outras para causar divisão, promover exclusão, provocar tratamento desigual e injustiças. “O [etarismo] se refere a estereótipos (como pensamos), preconceitos (como nos sentimos) e discriminação (como agimos) direcionados às pessoas com base na idade delas” (OMS, 2021, p. 3).

Esse tipo de preconceito se apresenta como um desencadeador de riscos para a saúde física e mental, para o bem-estar e para o envelhecimento saudável. O etarismo pode ser interpessoal, quando é praticado entre dois indivíduos, como o juízo de que pessoas mais idosas não podem fazer curso superior, por exemplo, ou quando tem que ceder lugar para um idoso ou idosa no transporte público. O etarismo pode ser também autodirigido, quando vagas de emprego são negadas a pessoas com base na idade ou quando alguém sofre preconceito por iniciar um movimento por direitos relativos à sua faixa etária. O etarismo pode ser ainda institucional, quando se refere às leis, regras, normas sociais, políticas e práticas de instituições que restringem as oportunidades e prejudicam pessoas devido à idade.

Em todas as esferas da sociedade, encontramos situações que cerceiam o direito e favorecem o preconceito e discriminação contra os idosos, sobretudo nas organizações que prestam serviços de saúde e assistência aos mais velhos. Um dos problemas mais comuns em todo o mundo é o racionamento à assistência à saúde a pessoas idosas.

O relatório da OMS indica que, a cada duas pessoas, uma pratica algum tipo de violação contra os idosos, em nível mundial. Na Europa, a cada três pessoas, uma afirma ter sido vítima do etarismo. “Para pessoas idosas, o [etarismo] está associado a uma menor expectativa de vida, pior saúde física e mental, recuperação mais lenta de incapacidade e declínio cognitivo. O [etarismo] piora a qualidade de vida das pessoas idosas, aumenta seu isolamento social e sua solidão (ambos os fatores estão associados a graves problemas de saúde), restringe sua capacidade de expressar sua sexualidade e pode aumentar o risco de violência e abuso contra as pessoas idosas” (OMS, 2021, p. 4).

A origem do etarismo está intimamente relacionada ao modo como a modernidade ocidental desenvolveu as suas próprias concepções civilizatórias, voltada para o modo capitalista de produção da riqueza. Um dos conceitos afetados pela racionalidade moderna está vinculado à ideia de novo, compreendido como atual ou moderno, em contraposição ao antigo, velho ou ultrapassado.

Trata-se de uma concepção linear das relações de conhecimento, que implica uma valorização do progresso e do desenvolvimento, com o rechaço dos conceitos fundadores e da própria arqueologia dos saberes. A linearidade do conhecimento e da ciência estabelece uma certa relação de poder que influencia a compreensão das relações humanas, atribuindo ao idoso as ideias de ultrapassados e antiquados.

Essa concepção moderna e ocidental orientou as estratégias de colonização, tratando as Américas, por exemplo, como Novo Mundo. O problema é que nesse “novo mundo” já existia um conjunto de práticas e saberes com base na valorização da ancestralidade.

Um exemplo disso vem dos indígenas Kadiwéu, que habitam em Porto Murtinho, na fronteira entre Brasil e Paraguai. A principal habilidade deles é a arte da pintura corporal e da cerâmica que encantou vários exploradores e pesquisadores, como o italiano Guido Boggiani, no final do século XIX e o antropólogo Claude Lévi-Strauss na década de 1930. O também antropólogo Darcy Ribeiro, que viveu entre os Kadiwéu na década de 1940, classificava a variedade de estilos dos desenhos abstratos e os padrões de pintura de rosto e de corpo dos Kadiwéu como “a mais elaborada manifestação artística dos índios americanos”. Os desenhos são feitos até hoje pelas mulheres, especialmente as mais velhas (DURAN, 2015).

A ancestralidade dos povos originários da América Latina se aproxima muito da perspectiva defendida nas Escrituras sobre o lugar do idoso na cultura hebraica. Essas afirmações podem ser encontradas tanto na Torah quanto na tradição poética dos Salmos e na literatura sapiencial.

A concepção cristã é herdeira dessa tradição hebraico-judaica. Ela está presente em formas de organização eclesial, como o tratamento dado aos presbíteros, que quer dizer anciãos, e também ao conselho ao cuidado com os mais idosos. Conselhos de Paulo a pastores sobre o tratamento com os idosos: Não repreenda asperamente ao homem idoso, mas exorte-o como se ele fosse seu pai [...] as mulheres idosas, como a mães [...] (1 Timóteo 5.1-2). Ensine os homens mais velhos a serem sóbrios, dignos de respeito, sensatos, e sadios na fé, no amor e na perseverança. Semelhantemente, ensine as mulheres mais velhas a serem reverentes na sua maneira de viver [...] (Tito 2.2-3).

A igreja é desafiada a agir em favor da construção de um mundo para todas as idades. Veja algumas ações eclesiais que podem contribuir para uma consciência maior a respeito do lugar dos idosos e das idosas;

a) Conscientizar a comunidade a respeito do direito do idoso. O Brasil criou, em 2003, o Estatuto da Pessoa Idosa, que é a Lei n° 10.741.

b) Criar espaços para que idosos desenvolvam atividades comunitárias que visem solução de problemas comuns.

c) Desenvolver ações de acolhimento para idosos e idosas desamparados.

d) Desenvolver uma hermenêutica bíblica que prepare a igreja para uma práxis em que todos e todas desfrutem de uma velhice saudável.

Referências:

CAMPEZZI, Heitor. Vídeo de universitárias de SP debochando de colega por ter '40 anos' viraliza e gera indignação. G1, 11 Mar 2023. Disponível em: < https://g1.globo.com/sp/bauru-marilia/noticia/2023/03/11/video-de-universitarias-de-sp-debochando-de-colega-por-ter-40-anos-viraliza-e-gera-indignacao.ghtml > Acesso em 23 Mar 2023.

DURAN, Maria Raquel da Cruz. Leituras antropológicas sobre a arte kadiwéu. Cadernos de Campo. n 24. p.43-70. São Paulo, 2015.

NATIONAL GEOGRAPHIC BRASIL. Etarismo: o que é e como isso afeta a vida das pessoas? In: Revista National Geographic Brasil. 15 mar. 2023. Disponível em: <https://www.nationalgeographicbrasil.com/cultura/2023/03/etarismo-o-que-e-e-como-isso-afeta-a-vida-das-pessoas> Acesso em 23 mar 2023.

OMS. Relatório mundial sobre o idadismo: resumo executivo. 2021. Disponível em: <https://www.who.int/pt/publications/i/item/9789240020504> Acesso em 23 mar 2023.

quinta-feira, 20 de outubro de 2022

Novo E-book: Bem Viver, Decolonialidade e Cuidado com a Criação / New E-book: Good Living, Decoloniality and Care for Creation / Nuevo E-book: Buen Vivir, Decolonialidad y Cuidado de la Creación /

A vida está em risco. Porém, a saída não será encontrada se a matriz filosófico-teológica não for encarada com a devida seriedade. A solução para a crise ambiental é acima de tudo moral, pois diz respeito às nossas relações com o meio ambiente. Sendo assim, precisamos ter uma resposta a respeito do que estamos fazendo com a vida que temos. Do ponto de vista cristão, é preciso resgatar o sentido original da criação, em que a vida é dádiva que precisa ser cuidada e preservada. Nesse sentido, precisamos de uma teologia da criação que diga que toda forma de vida importa. A vida é o espaço sagrado onde Deus habita. Toda forma de vida importa para Deus porque ele está nelas.

É nesse contexto de compreensão que emerge o campo epistemológico do Bem Viver, do pensamento decolonial e do cuidado com a Criação.

Este livro é resultado de um trabalho de investigação sobre religião e Teologia na América Latina desenvolvido ao longo dos anos últimos anos.

São considerados três eixos de compreensão a respeito da proposta de leitura e diálogo teológico a partir da vivência e o contexto da América Latina: o do Bem Viver, o da decolonialidade e o do cuidado da vida.

Ao final, são apresentadas propostas de abordagens teológicas a partir das epistemologias do Bem Viver, da decolonialidade e do cuidado com a vida. A primeira delas, relacionada com os discursos de Jesus numa perspectiva do Bem Viver e do pensamento decolonial. A segunda, sobre a proposta de uma teologia da criação a partir da ética do Cuidado com a Criação.

Bem Viver, Decolonialidade e Cuidado com a Vida: Teologia Pública em diálogo a partir da América Latina
Investimento: R$ 9,99 (aproximadamente US$1,90, dependendo da cotação)
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terça-feira, 10 de março de 2020

Bem viver: um conceito plural / Well Living: a plural concept / Vivir Bien: un concepto plural


O conceito de Bem Viver é uma oportunidade para imaginar outros mundos, como afirma Alberto Acosta no livro O Bem Viver. Trata-se de um conceito que se contrapõe às noções de bem-estar e de la dolce vitta construídos pelo pensamento ocidental. Entretanto, delimitar a sua abrangência é uma tarefa que implica conhecer as várias experiências vividas pelos povos originários da América do Sul e sua relação com a natureza.
Em espanhol, os equatorianos se referem ao Buen Vivir, enquanto os bolivianos falam do Vivir Bien. Em português, o Bem Viver comporta uma pluralidade de significados. Todas essas expressões surgiram como traduções de formas linguísticas dos povos originários em seus modos de construir formas coletivas de vida. Referem-se, portanto, a uma visão de mundo desenvolvida por aqueles que habitavam o continente antes da chegada dos europeus.
Aquilo que tem sido chamado de Bem Viver nos estudos e nas práticas sociais e políticas de organização da sociedade tem a ver com um esforço de resgatar os saberes dos povos originários e elaborar uma alternativa viável à lógica exploratória e dominadora trazida pelos colonizadores. É um conceito em construção que visa superar a ideia do desenvolvimentismo, do consumismo e da lógica da acumulação, para dar lugar a uma visão mais abrangente, plural e decolonial. É uma tarefa tanto social quanto política, como afirma o próprio Acosta: “Nosso mundo tem de ser recriado a partir do âmbito comunitário. Como consequência, temos de impulsionar um processo de transições movido por novas utopias. Outro mundo será possível se for pensado e organizado comunitariamente a partir dos Direitos Humanos – políticos, econômicos, sociais, culturais e ambientais dos indivíduos, das famílias e dos povos – e dos Direitos da Natureza” (p. 26).
Uma das proposta para compreensão do Bem Viver é resgatar a diversidade linguística que os povos originários possuíam e que, de alguma forma, foram preservados após mais de 500 anos de colonização. Cada grupo ou etnia tinha sua forma de compreender e de construir seu jeito de ser e expressavam isso através de suas linguagens.
Quatro expressões se destacam, quando se tenta fazer um inventário linguístico a respeito do sentido do Bem Viver para os povos originários da América do Sul: Sumak Kawsai do povo Quíchua, Suma Qamaña do povo Aymara, Teko Porã dos Guaranis e Küme Mongen do povo Mapuche.
Sumak Kawsai é uma expressão do idioma quíchua, que abrange tribos no Equador e Peru, e quer dizer “viver plenamente” ou “plenitude da vida”. Trata-se de uma forma de enfrentar os desafios da vida, estimulando a assumir compromissos com a qualidade de vida tanto pessoal quanto de toda a humanidade. É a busca de uma harmonia do ser humano consigo, com o outro e com a natureza. É um princípio que se opõe a uma mentalidade voltada para a morte.
O princípio do Sumak Kawsai abrange três espaços vitais que orientam a conduta das pessoas, a ética, as ciências e até a religião. São eles: (a) O mundo de cima – que é mais do que a representação celeste, pois envolve o mistério e o sagrado. A relação com o mundo de cima promove um ideal de bondade e de perfeição, de práticas de adoração e de oração. Cada pessoa deve almejar alcançá-lo. (b) O mundo daqui – a nossa casa comum, marcado pelos fenômenos da natureza. Cada pessoa deve compreender que é parte do mundo, visto que cada ser contribui para o bem viver. E (c) o mundo de baixo – que envolve os poderes da destruição e do mal, representado pelas profundezas. É preciso desenvolver uma atitude respeitosa com esses poderes, como também evitar e afastar-se deles.
Os povos Aymara, que vive na Bolívia, se referiam ao Bem Viver com a expressão Suma Qamaña, que quer dizer, “bem conviver”. Significa “habitar com alguém” de maneira que ambos se protejam e se cuidem dos perigos, dos inimigos e até dos conflitos interpessoais e da fadiga. Isso se dava em torno de um círculo que as comunidades formavam em torno de si, que estabelecia o espaço para vida comum. Guando se diz que alguém vive bem tem o sentido de que todo o contexto em que a vida se dá é bom. Para viver bem, é preciso saber conviver com outro, acolhê-lo e apoiá-lo, mas também é preciso aproveitar bem as oportunidades e condições de vida que a natureza oferece. Trata-se de um equilíbrio entre a vida pessoal e as formas de existência no mundo, como experiência de possuir o necessário para se viver e de trabalhar por condições para que todos possuam os mesmos direitos e recursos. É um modelo de vida de austeridade e de satisfação com o que se tem em que ninguém deve ser excluído, nem as pessoas, nem a divindade, nem os demais seres vivos, nem a natureza. O Bem Conviver, portanto, envolve uma nova perspectiva de vida que implica cuidado com o outro, solidariedade, comunhão, reciprocidade, respeito e tolerância. O princípio do Bem Conviver não tem por objetivo mudar o mundo ou transformá-lo, mas aceitá-lo como ele é e viver nele de forma comunitária.
Teko Porã é a forma da língua Guarani traduzir o Bem Viver. Significa literalmente “vida boa”ou até mesmo “belo caminho”. Os guaranis ocupam grande parte da Bolívia, do Paraguai, Uruguais e Argentina, além da região Sul do Brasil e do Mato Grosso do Sul, onde são conhecidos também como Kaiowás. O Guarani, juntamente com o quíchua, é uma família linguística pré-colombiana das mais faladas na América Latina. O ideal de Bem Viver guarani se baseia no princípio da reciprocidade. A vida é caracterizada pela relação com a terra e a convivência com todos os seres que existem nela. Trata-se de uma relação que define o modo de ser, a cultura, as relações econômicas e sociais, a política e a religião. É o lugar “onde somos o que somos”. O guarani precisa da sua terra para para viver sua condição social e cultural.
Para os guaranis, a colonização foi um grande mal que os privaram de sua terra. O estilo de vida trazido pelos colonizadores é um “mal viver”, dominado pela exploração, pela ganância e pela competição. A história da colonização é marcada pela progressão do mal. Para vencê-lo, o Bem Viver é como uma utopia que conduz à prática da generosidade e da liberdade de expressão. Bens e palavras precisam circular livremente nas comunidades guaranis. A verdadeira liberdade só é possível através da convivência entre as pessoas um,a relação de complementaridade.
Küme Mongen, na linguagem do povo Mapuche, que habita o Chile e o Sul da Argentina, quer dizer viver em harmonia, como uma sabedoria de vida que contempla tanto os valores materiais como imateriais, o conhecimento de si, as relações interpessoais e as relações sociopolíticas. É uma preocupação com a qualidade de vida que Viver bem implica a conquista de condições ou características que tipificam o que é comumente chamado de integralidade do ser.
A proposta de Bem Viver dos mapuches consiste em dois aspectos: (a) a relação com a terra e a vida coletiva para viver em harmonia com a natureza e os demais; e (b) A reivindicação dos saberes ancestrais para a vida continue se expressando em toda a sua diversidade. O Papa Francisco, quando de sua visita ao Chile em janeiro de 2018, disse em sua homilia: “Todos nós que, de certo modo, somos povo formado da terra (cf. Gn 2, 7), estamos chamados ao bom viver (Küme Mongen), como no-lo recorda a sabedoria ancestral do povo Mapuche. Quanto caminho a percorrer, quanto caminho para aprender! Küme Mongen, um anseio profundo que brota não só dos nossos corações, mas ressoa como um grito, como um canto em toda a criação. Por isso, irmãos, pelos filhos desta terra, pelos filhos dos seus filhos, digamos com Jesus ao Pai: que também nós sejamos um só; fazei-nos artesãos de unidade.”
O Bem Viver mapuche está associado a uma profunda integração com a natureza, em equilíbrio com as forças e os seres que a habitam. Devemos reconstruir um modo de vida na sociedade capaz de entender a vida com um sentido mais digno, mais solidário e mais recíproco para todos, para todas as culturas, para todos os povos, com respeito à diversidade. É uma luta pelo amor à vida, pelo amor de todos os povos.
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terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

Povos originários e a invenção da América Latina / Native peoples and invention of Latin America / Pueblos originarios y la invención de América Latina



A América Latina apresenta uma grande diversidade étnica. E isso se deve à sua formação que se deu a partir de ciclos migratórios ao longo do tempo, desde a chamada Era do Gelo. É um engano – e uma agressão histórica – situar a história da América Latina no período dos grandes descobrimentos. Quando os europeus aqui chegaram, já havia uma realidade civilizatória assim como contatos com outras etnias já havia acontecido.
De um modo geral, os ciclos migratórios se deram por etapas: primeiramente com a formação pré-colombiana, a chegada dos colonizadores, a diáspora africana e o que podemos chamar de migrações modernas e contemporâneas. A América Latina tem uma história secular de fluxos milenar que possibilitou diversidade e contradições. O aspecto multicultural e os processos de formação socio-histórica, no entanto, carecem de um lugar epistemológico para a problematização no âmbito das ciências humanas.
Essa diversidade de povos e raças que formou a população latino-americana demanda uma pesquisa antropológica mais abrangente que leve em consideração a questão das identidades latino-americanas. Entretanto, a maneira como se desenvolvem hoje os estudos sobre a realidade social latino-americana tem sido limitada por concepções eurocêntricas e norte-americanas que predominam no campo da pesquisa antropológica, como também em todas as ciências sociais e até na teologia. E isso afeta diretamente o reconhecimento e o tratamento do fenômeno a respeito dos povos originários.
Um novo debate em torno da questão latino-americana deve levar em consideração problematizações acerca da noção do que é América, do que vem a ser latino e também a ideia do que é indígena. As propostas mais difundidas dão conta de que os povos originários das Américas são descendentes tanto de asiáticos, quanto de europeus e africanos. Uma das teorias mais difundidas é a das correntes migratórias através do Estreito de Bering, entre 24.000 e 9.000 anos atrás, com evidências em estudos antropológicos e arqueológicos. Entretanto, há uma ruptura epistemológica, que se deu com a descoberta do fóssil de Luiza.
Interessante constatar que o primeiro mapa do continente feito pelos descobridores trazia o nome “América” na parte sul. O continente como num todo (Norte, Centro e Sul) era chamado na Europa de “Novo Mundo”. Posteriormente, os mapas designariam todo o continente do Novo Mundo como América. Era uma alusão a Américo Vespúcio, explorador italiano que descreveu pela primeira vez a “descoberta” de Colombo não era a costa da Ásia, mas um novo território desconhecido os europeus. Mas no século XIX, o nome passaria a ser aplicado apenas aos Estados Unidos, após a chamada “Doutrina Monroe”, primeiramente com a designação de norte-americano e, posteriormente, como simplesmente América ou americano.
A América do Sul passou a ser, então, tratada como América Latina, com uma carga de discriminação e depreciação. Desde então, passou-se a designar de americano tão somente o cidadão dos Estados Unidos da América e de latino-americano a todos provenientes a partir da fronteira com o México. A parte sul do continente perdeu o seu nome e sua identidade, mas ganhou nova significação com a denominação de latina, por sua origem espanhola, portuguesa e francesa, ao contrário da formação do norte, de origem anglo-saxônica, dinamarquesa, holandesa. Todas as tentativas de formar uma unidade americana, como o movimento pan-americano de Simon Bolívar no século XIX, fracassaram. Em grande parte em função da oposição dos Estados Unidos à formação de um bloco de estados na parte sul da América.
Alguns problemas a respeito do tratamento das profundas mudanças experimentadas no interior das diversas etnias latino-americanas:
a) A formação da América Latina foi submetida a um mesmo processo histórico em que estão em questão tanto o conservadorismo como o progresso, que é o colonialismo.
b) Os interesses de uma elite financeira, rural e industrial estão conjugados entre si e com os interesses da burguesia. Não há um conflito de classes nesse sentido, mas uma parceria. Os questionamentos da estrutura social partem dos movimentos populares.
c) A América Latina emerge com sua diversidade cultural e étnica, suas linguagens, seus fatos políticos e sociais, sua relação com a natureza como elementos orientadores da luta frente à exploração do capitalismo global.
Numa proposta de uma perspectiva geográfica dos povos originários, podemos identificar: os povos da América Central ou Mesoamérica (toltecas, astecas, maias); os povos andinos ou das terras altas (incas, quíchuas, aymaras, mapuches); os povos do Brasil ou das terras baixas (tupis-guaranis, tapuias, aruaques, maipurés, caraíbas); e os povos do Sul ou do Gran Chaco (chiriguanos, guaycurus, mataco e vilelas).
O estudo dos povos originários tem se dado por diversas marcas antropológicas, mas essencialmente se direciona a partir da análise das grandes famílias linguísticas. Até o momento, eles apontam para uma pluralidade de formas de organização, de linguagens, de cultura e de religião. As análises a partir dos grandes grupos de povos originários remanescentes que estão mais avançadas correspondem aos Aymaras, Quíchuas, Guaranis e Mapuches.
A aproximação com a cultura e a religiosidade dos povos originários se dá em meio a um ambiente de tensão e conflitos desde a colonização. E um dos fatores de maior dificuldade diz respeito ao aspecto religioso. Primeiramente pelo fato de que a religiosidade dos povos originários das Américas tem sua forma própria de realização, que não se dá pela sistematização teológica e acadêmica da teologia ocidental. Mas também se deve à realidade de que não existe um mapeamento das expressões religiosas dos povos originários.
Os pesquisadores de um modo geral têm encontrado muita dificuldade para enquadrar a religiosidade ameríndia aos padrões de pensamento ocidental a respeito da religião, tanto pelo ineditismo da pesquisa científica da experiência religiosa dos povos originários em face da tradição oral, quanto pela repressão às expressões religiosas e à mitologia das civilizações pré-colombianas.
Uma das primeiras contribuições no campo da pesquisa antropológica foi a do francês Claude Lévi-Strauss, quando viveu em São Paulo. Ele demonstrou que aquilo que os europeus chamavam de “pensamento selvagem” tem uma lógica própria que não é estranha ao pensamento ocidental. Em sua antropologia estrutural, procurou investigar traços universais da cultura, como o mito, a linguagem e o uso de símbolos.
Atualmente, há muitos esforços para a elaboração de uma teologia índia, para demonstrar o saber acerca de Deus presente na cultura, como uma gramática que permite novos diálogos e caminhos de libertação. Há um movimento acadêmico a fim de se dar voz às teologias índias. O que se pretende não é um retorno às religiões indígenas, mas um modo de compreender nossas origens e elaborar uma visão de mundo em que elas servem como referencial de uma identidade mais profunda.
Como traços comuns da religiosidade dos povos originários, podemos destacar a atividade comunitária, a relação com a natureza como espaço vital e a relação respeitosa com o sagrado e o mistério. Esses traços conduzem a uma perspectiva teológica desses mesmos povos, marcada pelo politeísmo, animismo, costumes xamânicos e práticas de ofertórios e sacrifícios. Em muitos desses casos, o termo “teologia” é inadequado para descrever a religiosidade ameríndia.
O contato dos europeus com o chamado “Novo Mundo” e os enfrentamentos coloniais trouxeram grandes transformações etnográficas. Mesmo porque o processo colonizador se deu por critérios que mais se aproximavam de uma invasão, por conta da exploração, do extermínio e até da evangelização. Daí a necessidade de uma proposta decolonial, sobretudo a de Boaventura de Sousa Santos de pensar a partir do Sul, de lançar um desafio de superar a mentalidade colonial, capitalista e católica engendrada pelos europeus. Essa proposta decolonial aponta para o resgate e afirmação do princípio do Bem Viver.
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terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

Decolonialidade: epistemologia a partir do sul / Decoloniality: epistemology from the south / Decolonialidad: epistemología del sur

A América Latina é resultado de um processo de formação histórico que conhecemos como colonialismo. Mas um colonialismo de tipo próprio com a presença marcante de uma religião calcada na concepção sacrificial e punitiva, que exige vítimas para satisfazer as necessidades do poder. As elites sempre se valeram da religião para fortalecer as estruturas de dominação. Isso permite afirmar que a América Latina passou pelo processo histórico de descolonização, mas não experimentou ainda a decolonialidade.
A descolonização se deu com a emancipação política dos estados sul-americanos e caribenhos, uma superação do colonialismo. Entretanto, as formas de controle econômico como também as estruturas do poder e de produção do conhecimento continuam dominadas pela mentalidade engendrada pelos colonizadores. É dessa constatação que emerge o pensamento decolonial, que procura ir além da mentalidade colonizadora, influenciada tanto pela racionalidade moderna, quanto pelo sistema capitalista e pelo patriarcado.
Antes de se empreender uma análise do que seja o pensamento decolonial, é preciso fazer algumas identificações dos termos: colonialismo, que é estratégia de ocupação e exploração do território por europeus; colonialidade, que é a mentalidade engendrada que favoreceu a dominação, como uma forma de saber que valoriza as metodologias do norte e discrimina a sabedoria dos povos do sul; decolonização, que corresponde à superação dos processos de dominação; decolonialidade, que propõe a construção de uma nova epistemologia a partir dos saberes locais, dos povos colonizados.
A proposta da decolonialidade surgiu nos meios acadêmicos latino-americanos de ciências sociais e humanas, a fim de oferecer respostas às questões levantadas nos estudos da lógica da colonialidade tendo em vista permitir outras propostas políticas, culturais, econômicas e religiosas, o que implica novas formas de saber, novas formas de ver o mundo e novas relações. Por isso, uma das noções para entender esse processo é o que tem sido chamado de “giro decolonial”, formulado para dar conta de outras formas de vivências e produção de conhecimento, inclusive no campo religioso.
A ideia do pensamento decolonial foi elaborada a partir dos debates sobre a condição pós-colonial da sociedade latino-americana, que ainda era marcado pela influência do eurocentrismo, das epistemologias do norte, incluindo-se também o pós-estruturalismo e a pós-modernidade. Os estudos se voltaram para o campo da literatura e da arte, de onde surgiu uma nova problematização, que se distingue do pós-colonialismo na medida em que se percebeu uma diferença na relação entre colonizador e colonizado, como uma relação antagônica.
Essa proposta emergiu no interior do Grupo Modernidade/Colonialidade, um coletivo formado por intelectuais latino-americanos situados em diversas universidades das Américas. Esse coletivo realizou um movimento epistemológico fundamental para a renovação crítica e utópica das ciências sociais na América Latina no século XXI: a radicalização do argumento pós-colonial no continente por meio da noção de “giro decolonial”. Para esse grupo, o processo de colonização está profundamente impregnado do paradigma da Modernidade racional e liberal.
O pensamento decolonial envolve as temáticas sobre a colonialidade do poder, a colonialidade do saber e o que tem sido chamado de giro decolonial.
Anibal Quijano, sociólogo peruano falecido em março de 2018, desenvolveu o conceito de colonialidade do poder para descrever o processo pelo qual o sistema colonial foi fundado a partir de uma microfísica complexa que envolve o controle da economia, da autoridade, da natureza e dos recursos naturais, de gênero e da sexualidade, da subjetividade e do conhecimento. A colonialidade se reproduziu em três dimensões: a do poder, a do saber e a do ser. Como a modernidade está “intrinsecamente associada à experiência colonial, não é capaz de apagá-la: não existe modernidade sem colonialidade”, disse Quijano no artigo Colonialidad y modernidad / racionalidad.
Para Quijano, a colonialidade é um dos elementos constitutivos e específicos do padrão mundial de poder capitalista que se funda na imposição de uma classificação étnica da população do mundo que orienta as relações de controle e de domínio. Essa forma de compreender tem origem e se universaliza a partir da América. O capitalismo mundial foi construído a partir da classificação das noções de raça, gênero e trabalho, que fundamenta as relações de exploração e de dominação. A identificação dos povos e a caracterização de suas diferenças, tendo sempre o europeu como modelo, serviram como princípio organizador que justifica toda prática exploratória, discriminatória e excludente.
Esse pensamento é reforçado por Enrique Dussel, filósofo argentino radicado no México, para quem a modernidade é um mito que oculta a colonialidade. A civilização moderna descreve a si mesma como superior e desenvolvida, o que lhe autoriza a agir sobre os povos mais primitivos a fim de lhes impor seus padrões de comportamento, de produção e de conhecimento. Como os povos colonizados resistem a essa dominação, isso legitima a prática da violência, que é tida como inevitável, pois consideram os povos primitivos como verdadeiros culpados que se opõem ao processo que supostamente visara a sua emancipação.
Quijano elabora também uma concepção da colonialidade do saber, visto que “a elaboração intelectual do processo de modernidade produziu uma perspectiva de conhecimento e um modo de produzir conhecimento que demonstram o caráter do padrão mundial de poder: colonial/moderno, capitalista e eurocentrado”. Ou seja, a colonização do poder se baseia numa colonização do saber.
O pensamento decolonial corresponde, então, a uma virada, como um pensamento de fronteira “que não pode ignorar o pensamento da modernidade, mas que não pode tampouco subjugar-se a ele, ainda que tal pensamento moderno seja de esquerda ou progressista”, disse Walter Mignolo em La ideia de America Latina. Esse pensamento fronteiriço resiste às cinco principais ideologias que surgiram com a da modernidade: o cristianismo, o liberalismo, o marxismo, o conservadorismo e o colonialismo.
O pensamento decolonial é, portanto, um discurso crítico que coloca em questão a colonialidade do poder e do saber da modernidade, mas também que aponta novas esferas de produção do conhecimento. O que se pretende é contribuir para que se transcenda o pensamento hegemônico engendrado pelo processo colonizador. “O paradigma decolonial luta por fomentar a divulgação de outra interpretação que põe em evidência uma visão silenciada dos acontecimentos e também mostra os limites de uma ideologia imperial que se apresenta como a verdadeira e única interpretação”, diz Mignolo. A decolonialidade visa abrir espaços para “outros mundos” de tal forma que muitos mundos possam coexistir.
Boaventura Sousa Santos elaborou o conceito de “Epistemologias do Sul” para se referir a um certo domínio da produção de conhecimento que escapa ao domínio colonial, que permite perceber a diversidade de epistemologias tanto no nível acadêmico quanto dos saberes populares. “Epistemologias do sul são o conjunto de intervenções epistemológicas que denunciam essa supressão, valorizam os saberes que resistiram com êxito e investigam as condições de um diálogo horizontal entre conhecimentos”, disse Boaventura de Souza Santos no livro Epistemologias do Sul. Corresponde a aprender que existe o sul, a aprender a ir para o sul e aprender a partir do Sul e com o Sul.
Imagem: “América invertida”, desenho do uruguaio Joaquin Torres Garcia, de 1943.

terça-feira, 12 de novembro de 2019

América Latina, decolonialidade e religião: provocações a partir da crise na Bolívia / Latin America, decoloniality and religion: provocations from the crisis in Bolivia / América Latina, descolonialidad y religión: provocaciones de la crisis en Bolivia


A América Latina passa por um retrocesso no cenário político. Depois de um breve período de ascensão social e econômica, alavancado pelo acesso de segmentos progressistas ao governo de alguns países, assistimos ao avanço das forças tidas como conservadoras retomando espaços que sempre foram dominados por uma oligarquia reacionária e patrimonialista.
Veja um brevíssimo retrospecto: assistimos a um golpe de Estado em 2009-2010 em Honduras, no Paraguai em 2012 e no Brasil em 2016. Em todos esses atos, havia uma questão de fundo – a atenção para com os direitos sociais – e uma estratégia – o uso do aparato militar em alguns casos de forma clara e, no caso do Brasil, de forma branda. Nesse meio tempo, as forças representativas da direita venceram no Chile, Argentina e Colômbia. O Peru tem passado por um complexo processo de afirmação política. Já neste ano de 2019, assistimos às tentativas de levantes de direita na Venezuela. Porém, os protestos populares no Equador e no Chile e a vitória da esquerda nas eleições argentinas e uruguaia (ainda que no primeiro turno) acenderam o alerta conservador. A tentativa de golpe na Bolívia é um sintoma disso.
Embora o quadro seja preocupante, não podemos nos esquecer de que a realidade latino-americana segue uma trajetória que se repete. A história da América Latina é marcada pela luta constante entre uma oligarquia branca, colonizadora, e forças políticas representativas dos trabalhadores, dos povos originários, de quilombolas e de quem sempre foi tratado como minoria. Os regimes ditatoriais que aconteceram desde a década de 1960 são a prova disso.
Nos últimos levantes populares no Equador e no Chile, bem como no golpe de Estado em curso na Bolívia, pode se notar a face explícita de um fascismo presente. A história se repete como farsa. Oligarquias se valem do fascismo, do fundamentalismo religioso e do neoliberalismo para exercerem o poder como sempre fizeram. Tempos difíceis se aproximam, de muita luta por parte dos oprimidos. O que as forças políticas conservadoras não contam, porém, é que existe uma grande massa de pobres e miseráveis que não suportam mais a opressão.
Retomando uma afirmação de Boaventura de Souza Santos, em Epistemologias do sul, a América Latina é resultado de um processo de formação marcado por três grandes influências: o colonialismo, o patriarcado e o capitalismo. Porém, precisamos acrescentar mais um elemento nesse processo, que é a presença marcante da religião calcada na concepção sacrificial e punitiva, que exige vítimas para satisfazer as necessidades do poder. As elites sempre se valeram da religião para fortalecer as estruturas de dominação, e, nesses episódios mais recentes, para dar lugar a uma mentalidade fascista e neoliberal.
O colonialismo foi superado historicamente, mas as estruturas da colonialidade ainda resistem. O patriarcalismo reproduz o discurso dominante da supremacia branca. O capitalismo procura dar conta de uma agenda neoliberal, que retira direitos sociais e favorece o capital financeiro internacional, e não mais o capital produtivo. E tudo isso debaixo dos olhares consensuais da religião. Primeiramente com a bênção do clero católico romano, ultimamente com o apoio do fundamentalismo religioso tanto evangélico quanto carismático.
Quando o fascismo se aproveita da religião para dominar, aumenta sua força destruidora de forma avassaladora. Quando o neoliberalismo faz uso da religião, se torna o mais pernicioso e iníquo sistema econômico que já existiu. É a nova face do estado exceção que estabelece uma forma de dominação que produz mais desigualdade e injustiças sociais, que põe as instituições democráticas sob risco constante e despreza as conquistas do Estado Democrático de Direito. Resistiremos.

quinta-feira, 24 de outubro de 2019

Bem Viver e Decolonialidade: uma abordagem a partir dos discursos de Jesus / Living Well and Decoloniality: An Approach from Jesus' Discourses / Buen Vivir y decolonialidad: una aproximación desde los discursos de Jesús


A cultura ocidental vivencia uma crise profunda que coloca em questão os valores relativos à vida e ao próprio modelo civilizatório que vem sendo adotado, sobretudo a partir da Modernidade. A humanidade chegou a um ponto em que a desigualdade social, a ascensão de formas autoritárias de poder e o aquecimento global colocam em xeque o padrão desenvolvimentista e consumista que vem sendo praticado pelas sociedades atualmente.
É nesse sentido que emerge uma cosmovisão que se baseia na mentalidade dos povos originários no contexto latino-americano, voltada para um novo paradigma que pode nos ajudar a superar os problemas que temos enfrentado. Trata-se do Bem Viver como princípio organizador das relações com a natureza, abrangendo aspectos sociais, econômicos, políticos e espirituais.
O Bem Viver tem a ver com a experiência das comunidades e povos indígenas na América Latina, com um conjunto de elementos que podem nos inspirar a repensar valores e práticas da cultura contemporânea. O trabalho de resgate dessa forma de pensar tem mobilizado antropólogos, cientistas sociais e políticos bem como teólogos para apontar para a humanidade uma nova utopia no sentido de se construir uma sociedade mais solidária e sustentável.
O Bem Viver vivenciado pelas culturas indígenas difere dos ensinamentos éticos do Ocidente, como a busca pela vida boa, do bem-estar e da felicidade. Ele se opõe à exploração e à dominação. Por isso, deve ser reinterpretado para se tornar um projeto de vida concreto, capaz de revolucionar nossas maneiras de pensar, nossas formas de interagir com a natureza e nossas relações humanas.
Assim como não podemos falar de uma única experiência cultural dos povos originários da América Latina, também não é possível compreender o Bem Viver a partir de um único viés. Precisamos falar de varias formas de Bem Viver, que podem ser percebidas através das várias linguagens desses mesmos povos. Sendo assim, podemos falar de um tratamento da vida em sua plenitude, de um modo de conviver com a natureza e as pessoas, de contentamento e até de um jeito de se relacionar que leva em consideração a temporalidade, a alteridade e a relação com a natureza.
De um modo geral, o Bem Viver procura superar a dicotomia homem-natureza trazida pelos colonizadores europeus. De acordo com essa mentalidade, a América Latina deveria servir como fornecedora de recursos naturais e de mão de obra para dar conta do padrão de vida das nações que se consideravam desenvolvidas. Entretanto, esse modelo tem se mostrado insuficiente e superado, sobretudo a partir da década de 1980, que coincide com o neoliberalismo que se levantou na economia, ao mesmo tempo em que a natureza começou a dar sinais de esgotamento de seus recursos renováveis.
O Bem Viver, então, se apresenta como um pensamento em construção, que procura resgatar os saberes dos povos originários, sobretudo das comunidades andinas, acompanhado por uma reflexão acadêmica a respeito dos movimentos sociais e da necessidade de implementação de políticas públicas voltadas para a superação dos graves problemas decorrentes da economia exploratória e de mercado. Uma das marcas desse processo de construção foi a inserção do Bem Viver nas leis fundamentais do Equador e da Bolívia, assim como o surgimento de várias experiências de aplicação das práticas em comunidades em várias partes do continente.
O Bem Viver, portanto, é um conceito plural que precisa ser analisado a partir da interação com outros saberes voltados para o cuidado com a natureza, à crítica ao modelo socioeconômico que orienta o consumo e a uma reelaboração do modo de pensar a vida e o bem-estar nos dias atuais. O Bem Viver é, por assim dizer, uma forma decolonial de pensar, ou seja, se se desvencilhar da influência da mentalidade colonizadora e construir respostas a partir de sua própria experiência cultural. É uma forma de pensar em aberto, o que torna possível inclusive dialogar com outros saberes tradicionais e buscar respostas que emanam da experiência de povos marginalizados e explorados em outras partes do mundo. Segundo a particularidade de cada povo, emergem conceitos que se complementam e apontam caminhos para o diálogo.
Uma das possibilidades de diálogo é com a Teologia. Os povos originários da América Latina foram influenciados por uma visão cristã dualista, que opõe corpo e alma, céu e inferno, mundo e espiritualidade. A aproximação da teologia com a ideia do Bem Viver passa pelo resgate da relação entre o homem e a natureza como uma unidade integradora, na medida em que ambos estão interligados e são coexistentes.
Para dialogar com as formas do Bem Viver, uma das possibilidades é fazer uma releitura dos discursos de Jesus a respeito do sentido da vida e dos valores imprescindíveis para uma vida digna no mundo. Jesus não se preocupou apenas com uma vida no porvir, mas com a vivência de forma plena já aqui nesse tempo presente. Ele ensinou princípios de vida, deixou mandamentos, fez advertências e recomendou práticas para que as pessoas pudessem viver bem umas com as outras e também experimentassem uma vida de realizações no mundo.
A aproximação dos ensinos de Jesus com o Bem Viver nos ajuda a perceber que a mensagem do evangelho é para toda criatura, que se atualiza e se insere no contexto das culturas para promover o resgate do que há de mais humano.

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