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quarta-feira, 28 de julho de 2021

Novo Normal: como viver como um cristão na pós-pandemia / New Normal: How to Live Like a Christian in Post Pandemic / Nueva normalidad: cómo vivir como un cristiano en la pospandémica

O conceito de “Novo Normal” está muito presente no debate a respeito do que acontecerá no mundo após o fim da pandemia de Covid-19. A ideia de normalidade está envolvida com conceitos a respeito daquilo que é comum, mas acima de tudo àquilo que está presente em uma certa regularidade. O normal seria aquilo que é esperado dentro de um ambiente conhecido e a partir de determinadas expectativas. Entretanto, essa pandemia deixou claro que a vida é orientada por imprevisibilidades, pelo imponderável e por incertezas.

O sociólogo português Boaventura de Souza Santos escreveu um livro sobre a cruel pedagogia do novo Coronavírus, pois confronta a fragilidade das ações humanas em meio ao que se convencionou chamar de normalidade. Isso nos ajuda a entender que a normalidade da vida humana é marcada pelo que é excepcional, pela flexibilidade das possibilidades, pelas nossas vulnerabilidades e pela pluralidade das formas de existência.

A espécie humana, que alcançou uma capacidade tecnológica fantástica com as conquistas da ciência, se viu ameaçada por um vírus invisível. A vida social foi afetada em todos os níveis. A humanidade deve que parar literalmente. O impacto disso se notou até mesmo nos controles dos fenômenos sísmicos. Cidades inteiras ficaram com suas ruas vazias, o comércio fechado e escolas com aulas presenciais suspensas. O mercado produtivo teve que encontrar meios de realizar o trabalho remoto provocando grandes mudanças no cenário econômico.

A pandemia atingiu também a igreja de modo muito direto. Religiosos foram afetados por colocarem suas vidas em risco para cuidar de pessoas enfermas, mas também por duvidarem e negarem as informações científicas a respeito da contaminação e das medidas de prevenção. Igrejas tiveram que seguir os protocolos sanitários para suas reuniões públicas. A grande maioria fechou seus espaços de culto durante muito tempo para evitar aglomerações. Por conta disso, tiveram que encontrar outras formas de conectar pessoas através de meios digitais para continuar servindo na oração mútua, no aconselhamento, no estudo, na evangelização e até na adoração.

As famílias precisarem redescobrir o valor da convivência em uma mesma casa. A exigência de ficar em casa, a necessidade de se trabalhar de home office e até o estudo remoto despertou a necessidade de se ressignificar os espaços dentro do lar. O lazer, o entretenimento, o bate-papo e até as reuniões em família tiveram que acontecer em outras modalidades. De repente, todos em família precisarem aprender a respeitar e reconhecer o papel do outro e a usar as novas tecnologias para construir relacionamentos.

A volta ao que tínhamos como normalidade antes da pandemia não acontecerá de forma fácil. A retomada do emprego, a recuperação dos conteúdos escolares, a reorganização das atividades econômicas e até o retorno às atividades regulares da igreja não acontecerão de forma imediata. Será necessário nos perguntarmos que tipo de sociedade queremos ser após as perdas e os impactos causados pela pandemia. Não podemos esquecer que o mundo que tínhamos anteriormente não era perfeito, nem podemos deixar de levar em conta que famílias inteiras estão fragmentadas pelas perdas de seus entes queridos, que colegas de trabalho e de turma faleceram ou ficaram debilitados, que amigos se foram, que igrejas perderam seus membros e até seus pastores.

Outras grandes “pandemias” atingem o planeta. O aquecimento global ameaça a vida no planeta com a morte de indivíduos de todas as espécies, inclusive seres humanos. A desigualdade social atinge milhões de pessoas em todo o mundo que padecem por causa de problemas sanitários, atendimento em saúde e fome em função da má distribuição de renda e pela precariedade de políticas públicas para a erradicação da miséria. A migração de comunidades inteiras que fogem da guerra, da violência, da xenofobia, da seca, da fome e do desemprego tem levado a vida de muitos que perecem em naufrágios e jornadas arriscadas.

Vencer a pandemia da Covid-19 já se torna uma possibilidade em várias partes do mundo. O desafio será encontrar respostas para as muitas outras ameaças à vida. O que está presente nas discussões a respeito da vida na pós-pandemia é a necessidade que todos nós temos de segurança. Precisamos nos cercar de atitudes que restaurem o que há de mais humano em nós, que nos ajudem a viver de forma civilizada no mundo, que nos conduza à construção de novos valores ligados à solidariedade, à generosidade e à humildade.

Esse debate deve conduzir cristãos a uma reflexão mais profunda sobre sua experiência de fé. Que igreja teremos após a pandemia? Como será viver a fé cristã num mundo com tantas fragilidades? Quais os valores que deverão orientar a missão de cristãos e cristãs em suas comunidades? São questões que devem orientar novas condutas, novos modos de ver o mundo e até novas formas de construirmos nossas relações.

sábado, 27 de fevereiro de 2021

Para que todos tenham vida: Vacina para todos / For everyone to have life: Vaccine for all / Para que todos tengan vida: Vacuna para todos

O Brasil completa um ano de convivência com a pandemia de Covid-19 com dados que são alarmantes: o número de mortos ultrapassa a casa dos 250 mil, os casos de contágio e de óbitos indicam o pior momento da doença e a campanha de vacinação segue em ritmo lento. Não há como negar o fato de que esses fatores são resultado de um descuido por parte do governo em tratar do problema sem a responsabilidade necessária e por promover mais dificuldades nas políticas públicas de enfrentamento, sobretudo no que diz respeito à aplicação do programa de imunização com a vacina.

Embora a ciência já tenha encontrado vacinas para a imunização contra os efeitos do vírus causador da doença, o Coronavírus com suas várias mutações, e os laboratórios estejam disponibilizando doses desde o fim do ano de 2020, há uma campanha de desinformação em curso contra a vacinação. E, para piorar o quadro, há também uma escassez de vacinas que possam atender às demandas das aplicações nas populações de maior risco três meses depois de definido o plano nacional de imunização. Apenas 3% da população foram vacinadas em quase dois meses.

A vacinação terá que seguir o programa de imunização, apesar das dificuldades que vão sendo encontradas, a maior parte por conta da logística e da demora das autorizações do governo para a aquisição de insumos. Porém, a maior dificuldade a ser superada neste momento é a tarefa de convencer a população a ser imunizada. E, para isso, se faz necessário uma campanha intensa de esclarecimento e de informação.

É fato notório, neste momento, não há como esperar grandes incentivos por parte do governo para esclarecer a população. Daí a necessidade de mobilizar grupos e setores da sociedade em geral para uma grande campanha em favor da vacinação para todos. E, dentre os muitos setores da sociedade, o segmento cristão é o que reúne as maiores possibilidades de mobilização.

Por que cristãos podem e devem se envolver na campanha de vacinação? Porque é o grupo com maior capacidade de articulação. Onde o dinheiro e o poder não chegam, a presença da igreja está lá, levando conforto e esperança para as pessoas. Seja nos grandes centros urbanos, em comunidades de periferia, em áreas rurais ou em comunidades indígenas ou quilombolas, ali há a presença de grupos cristãos. Entretanto, é preciso superar o obscurantismo promovido por concepções fundamentalistas em relação ao conhecimento científico.

É preciso, primeiro e ao mesmo tempo, uma campanha de conscientização das comunidades cristãs. Em primeiro lugar, com a afirmação da confiança de que Deus capacita pessoas para cumprirem seus propósitos e construir soluções para os grandes problemas humanos. A ciência é um desses empreendimentos humanos para os quais Deus capacita pessoas. E em segundo lugar, como consequência, desenvolver a consciência de que cristãos estão presentes no mundo para servirem como agentes do bem para toda a humanidade.

O vírus é real. Ele traz dor e sofrimento para as pessoas. Só quem teve um familiar infectado ou quem perdeu um ente querido para a doença sabe aquilatar o tamanho do problema. Os cristãos têm o dever de agir com compaixão e solidariedade como um imperativo divino para com as pessoas que sofrem. Essa atitude de cuidado com as pessoas em tempos de tragédias tem sido uma marca da história do cristianismo em todo o mundo.

Pastores, pastoras e lideranças cristãs têm o compromisso com o conhecimento verdadeiro, de passar para os fiéis em geral informações confiáveis e que estimulem à busca do bem comum. E a vacinação é hoje o único remédio contra a doença, além das práticas de prevenção como o uso de máscaras, a higiene das mãos e o distanciamento social. É dever dessa liderança agir a fim de não permitir que o povo pereça por causa da ignorância e da desinformação.

A ação missional da igreja tem essa dimensão de cuidado, que é pastoral. O cuidado com o outro é parte essencial da missão de Deus no mundo. Por que devemos nos preocupar com a vacinação? Há três motivos para isso: (a) cremos que Deus capacita a humanidade para produzir ciência; (b) consagramos nossa vida a servir como bênção para o outro; e (c) somos chamados a agir em amor pelos outros. A vacinação não só vai imunizar a mim, mas vai servir para que toda a sociedade possa superar a pandemia e, assim, retomar a normalidade.

Isso lembra o compromisso de Jesus. Ele afirmou que toda a sua obra e mensagem tinham como propósito trazer vida para as pessoas. Ele disse: “[...] eu vim para que tenham vida, e a tenham plenamente” (João 10.10). Vida plena inclui também a superação das grandes aflições que afligem a humanidade. Essa é uma forma de testemunhar o cuidado divino por todas as pessoas nesses tempos tão difíceis. Então, por que ser uma voz em favor da campanha de vacinação para todos: para que todos tenham vida.

terça-feira, 21 de abril de 2020

Qual o lugar de Deus em tempos difíceis? / What is God's place in difficult times? / ¿Cuál es el lugar de Dios en tiempos difíciles?


Nossa geração não tinha vivido até então um tempo como esse, marcado por uma pandemia. A última que se tem notícia foi em 1918, por ocasião da chamada “gripe espanhola”, que matou mais pessoas do que a própria guerra mundial que acontecia naquele tempo. Tivemos outras epidemias, sem dúvida, que afetaram grupos sociais e regiões – como o da Aids, do vírus Ebola, do vírus Influenza, para falar das mais recentes – mas nada se compara à proporção que o Coronavírus tem alcançado. Nós nos surpreendemos ao verificar que a humanidade não estava preparada para enfrentar esse fenômeno. Tanto a ciência, quanto as estruturas econômicos e os poderes políticos acreditavam que poderiam superar todos os problemas humanos, que teríamos todas as respostas e que seríamos capazes de vencer até os limites da morte. Inclusive a igreja não estava preparada para isso, sem saber como dar uma palavra de consolo para as pessoas que estão sofrendo.
Em tempos difíceis, levanta-se uma questão: qual é o lugar de Deus? Onde Ele está? A resposta tem a ver com o mesmo lugar que Jesus ocupa. Deus está onde Jesus toma forma. Um texto bíblico importante para entender isso é aquele que fala de Jesus como uma pedra angular: “À medida que se aproximam dele, a pedra viva — rejeitada pelos homens, mas escolhida por Deus e preciosa para ele — vocês também estão sendo utilizados como pedras vivas na edificação de uma casa espiritual para serem sacerdócio santo, oferecendo sacrifícios espirituais aceitáveis a Deus, por meio de Jesus Cristo” (1 Pedro 2.4,5). Esse texto lembra que há uma maneira de Deus cuidar das nossas dores, feridas e fraquezas. O modo de Deus nos alcançar com sua graça com sua ação de consolo é através da pessoa de Jesus Cristo, que se faz presente entre nós, que age em nós por meio do seu Espírito.
Pedro diz que Jesus é essa pedra rejeitada pelos homens, mas escolhida por Deus para nos dar esperança e mudar a nossa realidade. Jesus é tudo o que temos. Jesus é o bem mais precioso que os cristãos possuem. E essa pedra preciosa, que é o modo de Deus cuidar da humanidade, nos chama para sermos como cristos no mundo. Cristo quer tomar forma no mundo através da nossa vida. Jesus escolheu gente como a gente para ser a presença dele no mundo, portadores de esperança e de uma palavra de vida para esse mundo que sofre. Deus está conosco através desse Jesus vivo que se manifesta por meio das pessoas que aceitaram o privilégio de encarnar o amor de Deus para o mundo. Os cristãos precisam ser para o mundo a encarnação da mensagem de amor, de paz, de esperança, de libertação e de justiça que Deus trouxe para o mundo através da pessoa de Jesus. Deus está conosco desse modo em que Jesus toma forma em nossa vida, até mesmo nas horas mais difíceis. Jesus também experimentou a dor, a perda, a tristeza e até mesmo a agonia da morte para que pudesse dizer que é possível anunciar vida para um mundo perdido.
Se Jesus é a resposta de Deus para um mundo em crise, tem algumas perguntas que se tornam inevitáveis. A primeira delas é: quem é Deus diante da crise, da dor da humanidade, desse fenômeno que parou o mundo inteiro? Não importa qual seja a sua definição sobre Deus, é preciso dizer que Ele é maior do que a crise. E se Deus é maior, Ele tem poder suficiente para agir na vida daqueles sofrem nesse momento. Ele é maior até que todos as nossas certezas e crenças, e está pronto a abençoar.
A segunda pergunta é: se Deus é tão grande assim, o que Deus faz em tempos difíceis? O que Ele deve estar fazendo nessa hora? Por que ele ainda não eliminou esse vírus, ou não curou as pessoas, ou não deu inteligência para os cientistas descobrirem logo uma vacina? A resposta que temos é que Deus está trabalhando incansavelmente em favor da humanidade. Deus continua trabalhando através do seu cuidado por toda a criação, desde a criação. A Bíblia diz que, após criar todas as coisas, Ele descansou da criação. Mas ele não parou de trabalhar pelo cuidado de toda criação. E, ao agir como Criador, Ele deu a todas as suas criaturas a capacidade de se autorreproduzir e de autocuidar, de gerar nova vida e ter liberdade de agir. E isso é prova do seu amor. Ele não é um Deus despótico, dominador, controlando quem vive e quem morre, quem sofre e quem se livra. Todas as criaturas podem viver de forma livre. O trabalho de Deus é o de garantir a nossa liberdade, para sermos pessoas livres. Ele nos dá força e coragem para vivermos a nossa liberdade no mundo. É o maior milagre que Deus pode realizar na nossa vida, o de nos dar a esperança de poder seguir em frente apesar da dor, da tragédia e todas as aflições. Ele nos dá força e coragem para passarmos por tempos difíceis. Essa é a sua resposta ao nosso clamor.
Mas a outra pergunta que fazemos na hora da dor é: onde Ele está na hora da crise? Cadê Deus? Ele está entre nós. Deus está ao lado dos que sofrem, sentido sua dor, aflição e temor. E Ele quer cuidar de nós, nos abraçar, demonstrar seu amor. Muitas vezes Deus se manifesta que está entre nós através do seu silêncio. Ele prometeu que estaria conosco. Toda a Escritura está cheia de suas promessas. Ele prometeu aos patriarcas da fé, também o fez através dos salmos, dos profetas e, finalmente, da pessoa de Jesus. Deus não está nem acima nem abaixo, Ele está entre nós. Não abriu mão de seguir em frente conosco.
Ao fazer a pergunta “quem é Deus?”, lembre-se: Ele é maior. Ao perguntar “o que Ele faz?”, lembre-se: Ele nos dá força e coragem. E ao perguntar “onde ele está?”, lembre-se: Ele está entre nós. Deus é maior que nossas aflições, Ele está pronto a nos fortalecer e encorajar, Ele está pronto a nos acolher em amor.
(Mensagem apresentada durante o período da quarentena por conta da pandemia do Coronavírus e do Covid-19).

sexta-feira, 3 de abril de 2020

Como será a vida depois da quarentena? / How will be the life after quarantine? / ¿Cómo será la vida después de la cuarentena?


O mundo que conhecíamos até o começo deste ano não existe mais. E não será mais o mesmo quando a quarentena por conta da pandemia provocada pelo Coronavírus terminar. Sim, a quarentena vai acabar, a pandemia vai passar e a vida retomará seu rumo. Mas o mundo não será mais do mesmo jeito, os relacionamentos não serão mais os mesmos e, muito provavelmente,  não nutriremos as mesmas ideias e ideais.
A pandemia do Covid-19 tem sido uma experiência dolorosa em todo o planeta. Os relatos das pessoas em quarentena, das famílias enlutadas e das perdas econômicas formam um quadro muito triste que permanecerá por muitos anos na memória dessa geração. Embora se possa acreditar que há uma vida pós-quarentena, a única coisa que se pode afirmar sobre ela é que o mundo não voltará ao normal.
Os epicentros dessa pandemia têm sido as grandes cidades. O vírus ganhou urbanidade, está inserido na polis. Portanto, alcançou dimensão política. A batalha contra ele não é biológica simplesmente, mas, também, política. O uso político da Medicina, da Epidemiologia, da Infectologia vai determinar os caminhos a seguir. Para o bem ou para o mal. As decisões que tomarmos agora serão decisivas para o que virá quando tudo isso passar.
Há um aprendizado promovido pelo sofrimento. As épocas de calamidade deixam marcas profundas na vida social, e as pessoas em geral experimentam uma transformação no seu modo de pensar e de ver o mundo. E isso também acontece com a humanidade. Após períodos de grandes epidemias, ou mesmo de grandes guerras ou de cataclismos, o mundo procurou encontrar novas alternativas para a vida. Um bom exemplo disso foi o período da peste negra, que varreu o Ocidente. Associada ao avanço das forças otomanas sobre a Europa e à necessidade de encontrar respostas para os graves dilemas humanos, a cultura ocidental se abriu para uma nova mentalidade no campo das Artes, da Ciência, da Política e da Religião com o movimento renascentista. Ideias humanistas de valorização da liberdade e da dignidade da pessoa humana, bem como a afirmação da capacidade do homem pensar por si mesmo, resultaram no que conhecemos como mundo moderno ou modernidade.
Neste mundo de agora, açoitado por uma crise sem precedentes, será urgente refletirmos sobre três grandes questões. A primeira relaciona-se à forma como o capitalismo chegou até aqui, favorecendo a concentração de renda de uma minoria e lançando na miséria um grande número de pessoas. A segunda indaga a respeito do cenário geopolítico em meio ao avanço da tecnologia da informação, da inteligência artificial e da internet das coisas, que influencia o surgimento de uma sociedade do controle e as mudanças nas relações de trabalho. E a terceira considera a ameaça à vida no planeta, com o esgotamento dos recursos naturais para o consumo, com o desequilíbrio ambiental e o aquecimento global.
A pandemia veio acrescentar, ainda, uma questão a mais para a humanidade: como reagimos quando tudo aquilo que acreditamos que nos daria segurança e bem-estar se torna insuficiente diante de um vírus de alto poder de contágio? Ainda não se tem uma resposta a respeito disso. Trata-se de uma questão nova, que nos conduz a uma total revisão daqueles  valores que orientam a maneira como vivemos. A busca por respostas, que não serão  únicas nem definitivas, deve mobilizar agora todas as áreas do conhecimento humano, em todas as culturas e em todos os espaços. Esse vírus fez com que as pessoas parassem seu ritmo de vida a fim de que pudessem perceber que há algo mais que é preciso aprender juntos a respeito do nosso valor e de nossa condição humana. E temos aprendido coisas novas
Aprendemos que a vida não é feita de pressa ou prazos, e que precisamos de bem menos para viver. Pessoas têm encontrado novas formas de consumir, de partilhar os recursos, de produzir bens e serviços. De repente, as pessoas descobrem o valor da vida em família, o quanto os nossos idosos são importantes, como é possível deixar um legado significativo para as gerações futuras. As pessoas têm descoberto o valor da vida em comunidade, de encontrar novas formas de se relacionar com os vizinhos que enfrentam as mesmas circunstâncias que nós.
Aprendemos que a natureza precisa de um alívio. É sim possível parar o ritmo frenético das cidades, das fábricas e do comércio para dar tempo à natureza para que se recomponha nos permita um ar mais puro, um ambiente com menos lixo e com menor taxa de agressões ambientais. As pessoas estão aprendendo a reduzir  aquilo que descartam, a dar importância à reciclagem e a cuidar de assuntos como contaminação, proteção e preservação de uma forma prática, aplicada à necessidade de sobrevivência.
Aprendemos que a economia neoliberal é a pior face do Capitalismo, que acima do mercado está a vida. E vimos que é possível pará-la. De nada adiantará um mundo com tanta capacidade econômica se isso não for aplicado na promoção e implementação de medidas emergenciais para preservar a vida.  O capital acumulado não serve para nada se as pessoas morrerem nessa pandemia. E, lembremos de que pessoas também morrem de fome, de doenças graves, de violência e de exclusão. O vírus veio nos mostrar que o neoliberalismo fracassou, pois nunca precisamos tanto do Estado e das políticas públicas, sobretudo nas áreas de saúde, educação e assistência social. O poder econômico tem que estar a serviço da vida, e não o contrário. O poder econômico precisa ser usado para frear a ganância dos poderosos, para promover justiça, diminuir as desigualdades sociais e oferecer oportunidades iguais a todos.
Aprendemos que a solidariedade , essa sim, é o que realmente nos humaniza. Diante de uma ameaça deste porte, nossas ideologias se tornam inadequadas e sem sentido. Percebemos que estamos todos fragilizados, que o vírus não poupa ninguém. A mensagem de que habitamos numa mesma casa comum começa a ganhar força. Isso tem suas implicações. As soluções que serviram para a China podem servir para os Estados Unidos. O que Itália, Espanha e França enfrentam servem de alerta para o resto do mundo. Os recursos desenvolvidos por um podem atender a necessidade de todos.
Aprendemos que a Fé não precisa do templo, do domingo ou do clero. Ela precisa de algo que nos impulsione para aquilo que está além de nós mesmos. As estruturas religiosas jamais deveriam estar engessadas em fórmulas, hierarquias, calendários ou mesmo espaços sagrados. É preciso descobrir que não há nada mais sagrado que a vida, que santidade é cuidar da vida de tal modo que toda ela seja importante, que a grande sabedoria de viver é permitir que o outro desfrute das mesmas chances que eu tenho. A Fé se realiza no encontro com o outro e com o transcendente, com esse sentimento de pertença ao outro e ao transcendente, ao mesmo tempo.
Aprendemos o valor do conhecimento, da cultura, da educação e da ciência. O que seria de nós se não fossem as universidades e os centros de pesquisas para lutarem por buscas de soluções para os problemas? O que seria de nós, sem a Arte e a Literatura para superarmos o tédio desses dias? São contribuições que trabalham com o imaginário, que nos ajudam a sonhar e a ter esperança de que tudo isso vai passar e que, novamente, poderemos seguir nosso rumo.
Segundo o historiador israelense Yuval Noah Harari, em artigo no jornal inglês Financial Times, de 20 de março de 2020, a tempestade da pandemia passará, sobreviveremos, mas será outro planeta, já que muitas das medidas atuais de emergência deverão ser estabelecidas como rotinas fixas. O mundo que teremos depois dessa crise dependerá das decisões políticas que serão tomadas no decorrer dessa quarentena. Mas, passada a pandemia, teremos a chance de fazer a escolha se queremos retomar a vida de antes ou se queremos nos lançar em uma nova forma de viver.
Byung-Chul Han, filósofo coreano radicado na Alemanha, em artigo no jornal El País do dia 22 de março de 2020, disse: “Precisamos acreditar que, após o vírus, virá uma revolução humana”. Em meio aos acontecimentos, sobressai o exemplo daqueles que cuidam. Desde o modo correto de lavar as mãos até o desprendimento revelado ao se dedicarem ao serviço pelo outro, os profissionais de saúde nos ensinam como podemos cuidar e nos cuidarmos. A característica principal dessa “revolução humana” haverá de ser o cuidado, firmado no princípio da solidariedade entre todos e com todas as expressões da vida, ou não teremos aprendido nada. E os grandes revolucionários desse tempo serão aqueles que se levantam para cuidar da vida.
A quarentena vai acabar, a humanidade vencerá mais essa pandemia, isso é certo. Mas tudo o que não queremos – ou pelo menos tudo o que não deveria acontecer – é retomarmos as coisas que fazíamos do jeito que fazíamos anteriormente. A pergunta que precisa ser feita agora é: será realmente necessário fazermos as mesmas coisas que fazíamos, produzir as mesmas coisas que produzíamos, consumir do mesmo jeito que consumíamos e viver do mesmo modo que vivíamos? A resposta que nós, como humanidade, dermos à essa questão orientará a maneira como reagiremos às transformações que virão.
(Texto publicado originalmente no site do Coletivo Bereia >>.

sexta-feira, 27 de março de 2020

Como cristãos enfrentam grandes epidemias? / How do Christians face major epidemics? / ¿Cómo enfrentan los cristianos grandes epidemias?


Uma das decisões que a maioria dos países tem tomado para tentar impedir a propagação do Coronavírus é a orientação para evitar as aglomerações e o contato social. Sem levar em consideração toda consequência social e econômica que tal decisão provoca, isso afeta diretamente a forma de ser das igrejas, sobretudo as evangélicas, que se baseiam principalmente no relacionamento afetuoso, nas reuniões celebrativas e no contato físico do abraço, do aperto de mão e da troca de beijos. Muitos líderes se levantaram para desafiar essa medida, enquanto outros recomendam a prudência. Os primeiros alegam a liberdade de culto; Já para os segundos, a igreja pode demonstrar sabedoria para encontrar novas formas de adorar e de servir usando as novas tecnologias.
O problema não é novo. A história da humanidade é atravessada por pandemias, epidemias, pestes e pragas. Os cristãos nunca agiram de forma indiferente a elas desde o surgimento da igreja. Ao contrário, envolveram-se diretamente com cada problema de tal forma que a maneira como enfrentaram a doença, o contágio, o sofrimento e até a morte influenciou de forma decisiva o modo como a sociedade passou a compreender a fé cristã. O jeito como cristãos agiram em cada situação não só atraiu a simpatia das pessoas como também serviu de exemplo para decisões dos governos diante dos males.
Uma das primeiras grandes epidemias que envolveram a atuação dos cristãos ficou conhecida como Peste Antonina, no século II, ao tempo do imperador romano Marco Aurélio. Essa peste causou grande devastação em Roma, no ano 166, espalhou-se por toda a Itália e durou até o ano 189. O próprio imperador Marco Aurélio foi um dos infectados. Essa epidemia é considerada como um marco importante para o início do declínio do império romano como também para a aproximação da igreja cristã com o Estado.
Na época, surgiram duas lendas a respeito da origem da peste antonina: alguns achavam que ela foi provocada por punição divina por violarem a promessa de não saquearem a cidade de Selêucia; outros acreditavam que tudo começou quando uma tumba de ouro foi violada, no templo de Apolo, na Babilônia. Mas havia até quem culpasse os cristãos, pois teriam irritado aos deuses com sua mensagem e crescimento. Houve inclusive, em 177, um levante contra os cristãos, acusados que foram de canibalismo e incesto, conduzindo muitos à morte pela recusa a algumas leis romanas e por ofensa aos deuses.
Entretanto, a ação dos cristãos chamou a atenção das pessoas pela mensagem de esperança que proclamavam, em contraste com a mentalidade do medo e da punição. O discurso cristão apontava para o sentido da vida e da morte, mas também falava de esperança de superação das aflições nesta vida e na vida futura. E ainda havia o consolo para os familiares daqueles que morreram como cristãos, com a promessa de que receberiam uma recompensa no céu. Essa era a essência da mensagem da salvação pela fé em Jesus Cristo. Além do forte discurso salvífico, muitos cristãos arriscavam suas próprias vidas, expondo-se ao contágio, para levar consolo e cuidado para quem sofria o flagelo da doença. Enquanto o Estado romano e a sociedade em geral baniam os doentes para longe e os excluíam da convivência, os cristãos se ofereciam para cuidar deles.
No século III, uma nova peste assolou o Ocidente, de 249 a 262, ainda mais letal. O bispo Dionísio de Alexandria assim registrou sobre a atitude da sociedade em geral: “No início da doença, eles empurraram os doentes para longe e expulsavam seus próprios entes queridos de casa, jogando-os nas estradas, antes mesmo de morrerem, e tratando cadáveres não enterrados como terra, esperando assim evitar a propagação e o contágio da doença fatal; mas, mesmo fazendo tudo o que podiam, achavam que seria difícil escapar”. Os cristãos, porém, serviam aos doentes e muitos morreram contaminados. Isso serviu de testemunho vivo sobre o amor e a misericórdia cristãos. Assim se expressou o bispo Dionísio: “Muitos de nossos irmãos cristãos mostraram amor e lealdade ilimitados, nunca poupando a si mesmos e pensando apenas no seu próximo. Indiferentes ao perigo, eles cuidaram dos enfermos, atendendo a todas as suas necessidades e ministrando-os em Cristo, e com eles partiram desta vida serenamente felizes; pois foram infectados por outros com a doença, provocando em si mesmos a doença de seus vizinhos e aceitando alegremente suas dores”. E, na biografia de Dionísio, foi registrado: “Não há nada de extraordinário em apreciar meramente nosso próprio povo com as devidas atenções de amor, mas esse alguém pode se tornar perfeito, que deve fazer algo mais do que homens ou publicanos pagãos, alguém que, vencendo o mal com o bem, e praticando uma bondade misericordiosa como a de Deus, deveria amar seus inimigos também… Assim, o bem foi feito a todos os homens, não apenas à família da fé”.
Essa demonstração de cuidado amoroso e serviço altruísta impactou o mundo ocidental e promoveu um crescimento exponencial da igreja à medida que aqueles que foram beneficiados pela maneira como foram cuidados se convertiam. Enquanto a preocupação da sociedade em geral era com se preservar e se proteger, os cristãos se ofereceram para servir a todos num espírito de comunhão, sem preconceito e sem distinções, aproveitando aquela oportunidade para testemunhar a nova vida em Cristo.
Um gesto que deixou marcas na história foi a criação das santas casas de misericórdia. Em 1498, surgiu em Lisboa, a primeira delas, criada pela Rainha Leonor, viúva do Rei Dom João II, para cuidar dos doentes e inválidos em uma época de muitas tragédias provocadas por guerras e epidemias. Era também o tempo dos grandes descobrimentos. A ordem religiosa que foi criada para cuidar das santas casas era formada por pessoas movidas por um sentimento de solidariedade. Logo elas se espalharam pela Europa, Ásia e África, chegando também às Américas. Atualmente, existem mais de 2.000 santas casas em diversas cidades do Brasil.
Em 1527, Lutero foi indagado sobre como cristãos deveriam se portar diante de uma “praga mortal”. O mundo já havia experimentado a peste negra dois séculos antes, que varreu a Europa. Ele escreveu, por essa razão, uma carta intitulada Se Alguém Deve Fugir de uma Praga Mortal, na qual trata das responsabilidades dos cristãos em tempos de calamidades, principalmente quando se refere a pestes e pragas. O cuidado com os doentes não se limita aos profissionais de saúde. Os ministros são exortados a cuidarem dos mais doentes, dos moribundos e dos fragilizados, a fim de promover consolo e encorajamento. Ele desafiou aos cristãos em geral a encontrarem oportunidades de cuidarem dos doentes como se estivessem cuidando do próprio Cristo. Mas ele também orientou aos fiéis a agirem com prudência e a não se exporem ao perigo sem necessidade. O cristão tem o dever de cuidar do seu corpo como um exercício de santidade. Ele defendia que cristãos deveriam respeitas as medidas sanitárias e as quarentenas, cuidados pessoais com a higiene e a buscar socorro médico em caso de necessidade. Ele compreendia que Deus deu sabedoria aos médicos para saberem cuidar das pessoas da mesma forma que deu os remédios como dádivas para nossa saúde.
Durante essa nova pandemia no mundo, cristãos de todas as partes reagem de forma a colocarem suas vidas a serviço do cuidado. Há uma mobilização de igrejas e pastores responsáveis para encontrar formas criativas de manterem a adoração e a comunhão usando as novas tecnologias, mas sem abrirem mão de cuidarem uns dos outros respeitando as práticas de higiene e prevenção recomendadas pela Organização Mundial de Saúde. Quem se coloca contrário a isso recebe severas críticas e reprovações. Um dos exemplos vem da cidade de Bérgamo, na Itália, que registrou a morte de sete padres numa semana por terem contraído o Coronavírus e contraído a doença durante a prática da confissão e do cuidado com os enfermos. O bispo local, monsenhor Francesco Beschi, assim se pronunciou: “a generosidade dos sacerdotes continua, estamos próximos das pessoas, com as devidas precauções, mas conscientes de que, por um lado, carregamos Jesus e, por outro, podemos tornar-nos portadores do vírus”.
Agora, quando o mundo inteiro é afetado pela pandemia do Coronavírus e a doença Covid-19, os cristãos são chamados mais uma vez e desafiados a se colocarem a serviço dos que se encontram aflitos. Esse não é um momento de angústia ou de medo, mas de assumir o desafio da comunhão, do serviço e do testemunho. Na parábola das ovelhas e dos bodes, Jesus disse às ovelhas: “estive doente e vocês cuidaram de mim”. E todos perguntaram: “quando te vimos doente?”. Aos justos, Jesus respondeu: “o que vocês fizeram aos meus menores irmãos, a mim o fizeram” (Mateus 25.36, 39 e 40).

terça-feira, 24 de março de 2020

Como manter a saúde mental durante a quarentena / How to maintain mental health during quarantine / Cómo mantener la salud mental durante la cuarentena


Após a segunda semana de impacto da chegada da pandemia, começamos a nos dar conta de que não estávamos preparados para um tempo longo de isolamento social. É como uma negação de nossa condição humana, que nascemos como seres que vivem em comunidade. O Coronavírus é um vilão que veio para destruir o sentido de comunhão, para afastar-nos uns dos outros. Mas ele não provocou nada novo. Já vínhamos fazendo isso de outros modos, mas veladamente, mantendo muitos disfarces para nos afastarmos uns dos outros, para sermos indiferentes com o outro.
A solidão, o isolamento, a indiferença são fatores que contribuem para o surgimento e o agravamento de problemas ligados à saúde mental. Medo, angústia, ansiedade, esgotamento, desespero e até depressão fazem parte de um elenco de males que podemos enfrentar em tempos de quarentena, se não cuidarmos de nossa saúde mental com o mesmo esforço com que cuidamos de nosso corpo. É interessante que, para a saúde física, há campanhas educativas para se lavar as mãos, usar álcool em gel, alimentar-se com as fibras das frutas e legumes, ingerirmos muito liquido, praticarmos exercícios. E para a mente, o que precisamos fazer?
Perguntei a minha esposa o que ela recomendaria. Solange é psicóloga clínica, com mestrado em psicologia do trabalho e organizacional, especialista em arteterapia e psicologia positiva. Sua experiência em tratar da saúde e do bem-estar das pessoas em relações coletivas fornecem contribuições interessantes para nós em um tempo como esse. Ela, então, parou suas leituras e anotou uma lista de perguntas que podemos fazer a nós mesmos. Veja o que ela escreveu:
“Como extrair coisas boas do isolamento social? Dicas para uma boa reflexão:
1.         Qual é o meu propósito de vida, qual o sentido e o significado dela?
2.         Qual é a minha missão aqui?
3.         Qual a importância da minha família, dos amigos e daqueles que não são tão próximos a mim?
4.         O que tenho feito até aqui? Devo continuar fazendo?
5.         Quem é a pessoa que me tornei? Devo continuar sendo?
6.         Qual a minha importância e missão no mundo?
7.         Qual a minha responsabilidade como ser humano?
8.         Como enxergo as pessoas que estão a minha volta?
9.         Tenho a compreensão de que o outro é a extensão de mim?
10.     Tenho feito algo em favor do crescimento do outro?
11.     Tenho doado um pouco do meu tempo para ouvir o outro falar das suas angústias?
12.     Quando eu não estiver mais aqui, será que deixarei saudades? Como contarão a minha história?”
Tudo leva a crer que essa quarentena pode durar bem mais do que a gente imagina. Em Wuhan, a cidade onde se deu o epicentro do Coronavírus, deve observar cerca de 76 dias de isolamento social. O primeiro caso de infecção foi registrado no Brasil em 26 de fevereiro de 2020. Mas, no Rio de Janeiro, a quarentena começou oficialmente hoje (24 de março), embora o governo estadual oriente medidas de contenção desde o dia 13 de março. As previsões no Brasil apontam que devemos ter que observar essa restrição por mais uns dois ou três meses. A recomendação para não sair de casa é séria e deve ser observada por todos. Não é só uma questão de esforço individual, mas uma consciência coletiva de que não há outra saída. Embora se fale de outras possibilidades, a sociedade não pode abrir de nenhuma delas.
Essa pandemia veio revelar sentimentos que possuíamos que estavam escondidos nas sombras: desprezo aos idosos, mentalidade consumista, egoísmo e despreparo para agir em comunidade. Mas também veio nos apontar que somos capazes de superar, de construir novas formas de relacionarmos, de ver o mundo de outro modo, de se abrir para o que está além de nós mesmos. A pandemia vai passar, a quarentena não vai durar para sempre. Uma boa iniciativa é começar a cuidar de nós mesmos para sairmos dessa situação  como pessoas melhores.
Minha esposa se chama Solange Maia da Silva Chaves, psicóloga, mestre em Psicologia Social com concentração em psicologia organizacional e do trabalho, e tem especializações em Marketing, Arteterapia e Psicologia Positiva. Se precisar de ajuda, deixe um comentário logo a seguir.

domingo, 22 de março de 2020

Coronavírus: Aprendizagens em tempo de calamidade / Coronavirus: Learning in times of calamity / Coronavirus: El aprendizaje en tiempo de calamidad


Que lições podemos aprender dessa pandemia que assola o mundo? Estamos em um tempo de calamidade. Talvez você esteja entre aqueles que não concordam com isso e até ache que há um certo exagero e uma histeria com isso. Mas não duvide que estamos apenas na fase inicial da contaminação e que a tendência – levando em consideração com o que aconteceu na China e com o que acontece na Itália – é que teremos tempos muito difíceis pela frente. Vai ser um tempo que vai exigir muito de todos nós, da economia e das políticas públicas. Os que são mais ricos terão que entender que será necessário abrir mão de seus ganhos em favor de quem não tem nada. Essa fase vai ser de muitos sacrifícios, e talvez de algumas perdas, e temos que nos prepararmos para o que está por vir a fim de ajudarmos uns aos outros.
Toda fase de crise tem uma lição a ser aprendida. Qual a lição que podemos tirar desse tempo de pandemia do coronavírus? Precisamos reportar a um momento da história do cristianismo para podermos encontrar caminhos de aprendizagem para hoje. O apostolo Pedro, ao orientar os primeiros cristãos diante das perseguições da época, disse: “para que, no tempo que lhe resta, não viva mais para satisfazer os maus desejos humanos, mas sim para fazer a vontade de Deus” (1 Pedro 4.2). Essa palavra serve para nós também. Estamos vivendo um tempo de perplexidade diante das possibilidades que estão por vir.
As pessoas mais conceituadas que têm emitido opiniões sobre os últimos acontecimentos e sobre o que podemos fazer diante do que está acometendo a humanidade em geral, todos usam uma palavra em comum: solidariedade. A única coisa que podemos fazer é sermos solidários. Essa palavra tem chamado a atenção das pessoas no mundo todo. A humanidade está perplexa. Chegamos a um ponto de descobrirmos que éramos orientados por uma grande ilusão. Tínhamos a ilusão de que possuíamos o controle de tudo, que a ciência poderia dar todas as respostas, de que tínhamos um sistema econômico que podia comprar soluções para todos os problemas, que detínhamos o poder nas mãos e que havíamos chegado ao auge de nossa capacidade de criação e de produção. Na Itália, as famílias não conseguem sequer sepultar os seus mortos nem se despedir deles.
Será que esse vírus não veio para dizer para a humanidade toda que somos limitados, que precisamos abrir mão de nossos preconceitos, que é hora de reconhecermos que somos membros de uma mesma família humana e vivemos numa mesma casa comum, que precisamos da graça de Deus em nossa vida? Há relatos de que as pessoas estão redescobrindo belezas naturais e valores sociais e culturais que haviam sido esquecidos. Tudo isso tem ajudado a vermos que a humanidade adotou um modo de vida completamente distante do propósito de Deus para a vida, diferente do que seria ideal para as pessoas, que vivemos até aqui um grande engano. No meio dessa dor, de luta e de busca de respostas contra o avanço do vírus, a gente começa a ter esses vislumbres de que estávamos errados até aqui, que alguma coisa escapou do controle e que está na hora de restaurar isso.
Em vez de ficarmos enclausurados esperando alguma resposta milagrosa chegar ou que algum remédio mágico possa ser encontrado, vamos aproveitar para aprender algumas lições a partir dessas situações dolorosas que estamos vivendo. No dia 22 de março, o filósofo italiano Domenico de Masi escreveu no jornal A Folha de São Paulo sobre sua perplexidade ao ver a gloriosa cidade de Roma, onde vive, vazia e sem ninguém nas ruas. Ele afirmou: “Talvez tenhamos aprendido que o caso agora é de vida ou de morte e que ninguém pode enfrentar sozinho um vírus tão ardiloso e potente”.
Isso lembra um conselho de Paulo a Tito: “[A graça] nos ensina a renunciar à impiedade e às paixões mundanas e a viver de maneira sensata, justa e piedosa nesta era presente” (Tito 2.12). Nesse tempo, precisamos descobrir o quanto estamos precisando da graça de Deus em nossa vida, o quanto carecemos do amor, da misericórdia e da compaixão de Deus. Essa graça maravilhosa, que faz falta na vida, foi deixada para trás. A humanidade a abandou em troca de conhecimento, de poder e de capacidade econômica. Mas é ela que vai nos ajudar a viver nesse tempo de maneira sensata, justa e piedosa, que pode nos levar a rejeitar paixões ilusórias, que vai nos libertar do engano que o conhecimento, o poder e a economia nos proporcionaram até aqui. Essa graça vai nos conduzir adiante para uma nova vida daqui para frente.
Se é isso que pode acontecer, precisamos pensar em alguns sentidos da graça, de como ela se realiza na vida. Há quatro sentidos da graça na vida que precisam ser resgatados. O primeiro deles é o da comunhão. Graça tem a ver com a oportunidade de estarmos juntos e de descobrirmos que o outro é o melhor retrato que temos de Deus para nós. Fazemos parte de uma aldeia global em que todos que estão produzindo alguma coisa em termos de conhecimento e de cultura importam. Precisamos descobrir que precisamos de todos e todas, de todos os saberes e de todas as formas de vida. O segundo sentido é o da solidariedade. Não se iluda, não há ainda (até este presente momento) um remédio na farmacologia para essa pandemia. A doença provocada pelo coronavírus só tem um remédio, que é a solidariedade. O terceiro sentido é o da esperança. As pessoas estão entrando em pânico, mas é preciso desenvolver a crença de que todos sairemos dessa, de que Deus está cuidando de nós e que precisamos fazer a nossa parte também. Isso nos leva a pensar que toda vida importa, que o nosso compromisso é de lutar até a última pessoa a ser salva. Precisamos estar juntos ao combinar nossas ações com o cuidado divino até superarmos tudo isso. O quarto sentido é o da humanidade. A graça nos ajuda a sermos humanos melhores, ela restaura o humano que há em nós, ela desperta em nós o desejo por atos que promovam a dignidade da pessoa humana. As políticas públicas, as práticas econômicas, as decisões corporativas devem estar voltadas para a garantia de direitos que valorizam a dignidade humana.
Esse tempo de calamidade, de pandemia, de peste é uma oportunidade para termos mais comunhão, sermos mais solidários, a termos mais esperança e a sermos mais humanos. A graça nos ajuda a construirmos essa condição. É preciso relembrar a experiência de Jó. Em meio aos momentos de aflição que enfrentou, ele não abriu mão de crer que á uma chance de restauração. Ele dizia: Eu sei que o meu Redentor vive, e que no fim se levantará sobre a terra” (Jó 19.25). Os prognósticos apontam para o fato de que o quadro geral vai piorar. Mas tenha certeza que a vitória vai chegar e que poderemos enfrentar esse tempo juntos.

quinta-feira, 19 de março de 2020

Dez conselhos para quarentena / Ten advices for quarantine / Diez consejos de cuarentena


1. Distância social não significa isolamento social. Comunique-se.
2. Encontre novas formas de demonstrar afeto, diferentes de aperto de mão, abraço e beijo. Seja gentil e afetuoso com suas palavras.
3. Lave sempre as mãos com água e sabão, use álcool gel, mantenha alimentação saudável, beba muito líquido, não saia de casa. E lembre-se de quem vive em situação de rua. Eles precisam do mesmo cuidado. Encontre formas de ser solidário.
4. Quem receita remédio é médico. Nada de automedicação nesse momento, nem nunca. Para se cuidar em tempo de pandemia do coronavírus, siga orientações da OMS para a sociedade.
5. Cuide dos idosos. Ajude-os nas compras, na higienização de suas casas e nas tarefas domésticas. Eles são os mais vulneráveis.
6. Se você tem prestadores de serviço que o auxiliam, libere-os para ficar em casa, mas pague-os como se tivessem comparecido para trabalhar.
7. Pratique formas e expressões culturais. Assista filmes, leia livros, ouça músicas em casa. Explore o que melhor há na internet.
8. Desenvolva uma atividade prática ligada ao seu talento. Escreva, componha música, faça bordado, tricô ou croché, costure, desenhe, pinte, faça escultura ou qualquer outra forma. É importante ocupar sua mente com aquilo que lhe dá prazer.
9. Desenvolva espiritualidade. Pratique meditação, reserve um tempo para orar, leia mais a Bíblia. Isso ajudará você a ter esperança.
10. Aprenda a usar a tecnologia para o bem. Use as redes sociais para se comunicar com familiares e amigos, para saber como eles estão, para compartilhar notícias boas e participar de videoconferências como uma forma de valorizar a vida.

terça-feira, 17 de março de 2020

Espiritualidade em tempo de Coronavírus / Spirituality in times of Coronavirus / Espiritualidad en tiempos de Coronavirus



Qual é a espiritualidade que podemos desenvolver nesses tempos de pandemia de Coronavírus? Essa fase de crise, de calamidade, de surto é importante para aprendermos algumas lições necessárias para a vida. Quem imaginou, há dois meses, que o mundo passaria por esse quadro, que tem afetado as economias de todos os países? Uma das coisas que temos a ressaltar é que muitas notícias que chegam até nós está repleta de desinformação e de temores.
Em termos sociais, temos visto o quanto as políticas de saúde pública são importantes, o quanto o trabalho científico é fundamental e o quanto a cultura é relevante. Essa é uma fase importante para revermos conceitos sobre economia e política de modo que haja planejamento e ações que sirvam de prevenção para as nossas fragilidades.
Mas é uma fase importante também para aprendermos algumas coisas que a Bíblia procura nos mostrar. E a primeira delas é a de que Deus cuida de nós. Qual é a palavra para hoje, para o mundo que está com medo de ser infectado pelo vírus e de ver alguém querido ser atingido pela doença, ou quem sabe de perder alguém que ama? É a boa notícia de que Deus tem cuidado de nós. A Bíblia diz: Lancem sobre ele toda a sua ansiedade, porque ele tem cuidado de vocês” (1 Pedro 5.7).
Não conheço outra promessa mais preciosa para a humanidade do que essa, de que Deus está cuidando da gente. Pode até parecer que Deus esteja indiferente, que Ele se esqueceu de nós, que o mundo está abandonado por Deus, mas essa não é a realidade. Nós vivemos no mundo orientado tanto pela nossa responsabilidade quanto pelo exercício da liberdade. É nesse meio entre responsabilidade e liberdade que se encontra o cuidado divino. Deus trabalha por nós, provê o sustento, mantém sua promessa, mas não tira a nossa responsabilidade nem a nossa liberdade.
Nós estamos diante de uma sociedade que desenvolveu uma cultura do medo, e até de uma teologia do medo, que se baseia na crença de que os males e doenças que nos assolam são resultado da ação de um deus severo e castigador. Essa não é a mensagem bíblica. A fé cristã é firmada na promessa divina e na esperança. Precisamos desenvolver uma teologia do cuidado que nos leve a nos preocuparmos com as pessoas desse tempo. Como podemos, dentro de uma situação de medo e de ameaça, desenvolver uma teologia do cuidado? É através de uma espiritualidade nova.
Uma espiritualidade para esse tempo de crise, em que as pessoas estão tomadas pelo medo, envolve pelo menos três aspectos que seriam necessários destacar. Muitas vezes a religião foi utilizada como instrumento de medo, mas essa não é a realidade experimentada pelos cristãos em todo o tempo. O fato é que a história da igreja e do cristianismo foi atravessada por vários episódios de surtos, de epidemias doenças graves. Parece que a história da humanidade de epidemia em epidemia. E, em todos esses episódios, os cristãos se destacaram como aqueles que servem como pessoas que cuidam, muitas vezes colocam em risco sua própria vida, de se contaminarem e de se envolverem diretamente com os que sofrem, para poder cuidar de pessoas em tempo de crise. Essa é a marca do cristianismo em tempo de crise. Os cristãos sempre foi o grupo de pessoas que se destacou por se mobilizar, de se motivar e colocar a sua vida a serviço do cuidado. Uma espiritualidade do cuidado é aquela que permite Deus agir entre nós, fazendo de cada um de nós seus instrumentos para expressar o seu cuidado divino sobre a humanidade.
O primeiro aspecto da espiritualidade do cuidado diz respeito à nossa relação com Deus. Precisamos abrir espaço para experimentar um novo modelo de vida, que emerge da palavra de Deus. De um modo geral, temos visto como Deus tem sido lançado para fora da espiritualidade, ao ponto de falarmos de uma espiritualidade sem Deus, diferente daquela que foi ensinada nas Escrituras. Isso afeta inclusive a muitos cristãos, que afirmam que amam a Deus, mas vivem como se Deus não existisse, com sentimentos estranhos e práticas morais estranhas aos ensinos bíblicos. Muitos desses cristãos são líderes e autoridades religiosas que desenvolvem um discurso completamente distante da proposta do amor divino. A Bíblia ensina que o cuidado de Deus sobre a humanidade se dá a partir de dois aspectos: o da justiça e o da misericórdia. Deus sempre age por justiça, ao lado da justiça, Ele não se familiariza com a injustiça de qualquer natureza. E Deus também age orientado por sua misericórdia, que conduz ao acolhimento e à prática do amor. Precisamos desenvolver uma espiritualidade como se Deus estivesse agindo por meio de nossas mãos, de nossos pés, de nossa voz, de nosso pensamento e até do nosso coração.
O segundo aspecto dessa espiritualidade do cuidado tem a ver com o espaço do outro em nossa relação. Cada vez mais, temos nos afastados uns dos outros, seja pelo individualismo, seja pela indiferença ou até mesmo o preconceito. Nessa fase de tratamento dos riscos do coronavírus, precisamos cuidar também dos riscos do afastamento social. Hoje dispomos de um meio para nos aproximar, que é a internet, e também de um instrumento, que é o celular. Embora muitos digam que a internet e o celular afastaram as pessoas, podemos descobrir novas possibilidades de relacionamento em tempos de quarentena a partir desses modos de comunicação, como uma tecnologia que nos aproxima uns dos outros, para construir relações que nos consolam, que nos edificam e nos transformam. Esse é um tempo para praticarmos novas expressões de nossa humanidade, a partir da solidariedade, do respeito mútuo e da atenção à necessidade do outro a fim de cuidar, cuidar-se e de ser cuidado.
O terceiro aspecto dessa espiritualidade é a necessidade que temos de aprender a desenvolver esperança. A graça de Deus nos confere a possibilidade de desenvolver esperança. Deus está cuidando de nós, e a primeira marca disso é que ele deixou promessas. Diante da calamidade, é muito comum se levantarem anunciadores de um fim iminente. Alguns até usam argumentos bíblicos para dizer que o fim dos tempos será assim, com guerras, catástrofes e epidemias. Mas Jesus alertou para o fato de que não deveríamos ter medo, pois esse ainda não é o fim. Ele disse: “[...] É necessário que tais coisas aconteçam, mas ainda não é o fim” (Marcos 13.7). Mas ele disse também: “Será para vocês uma oportunidade de dar testemunho” (Lucas 21.13). Nós estamos vivendo uma fase em que a humanidade é chamada a enfrentar desafios. E nós vamos superar mais essa como já passamos por tantas outras. Podemos ter esperança de dias melhores porque Deus prometeu cuidar de nós até o fim. A promessa divina fala também de novos céus e nova terra, das mansões celestiais que estão sendo preparadas para nós. Sabemos que podemos passar por muitas provações e lutas, mas no final dessa trajetória tem uma vitória garantida por Deus. Podemos ter esperança, porque Deus está conosco e Ele nos dará a vitória.
Nesse tempo estranho de pandemia em que a gente é tentado a pensar que Deus abandonou a humanidade, é bom lembrar que Deus está nos chamando a uma relação Ele. Precisamos abrir espaço em nossa vida para uma nova relação com Deus, para uma relação de cuidado com o outro e para aprender a desenvolver esperança. O grande recado divino para todas as pessoas é que Deus está cuidando de cada uma delas e que ele quer continuar fazendo isso através de nós.

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