Mostrando postagens com marcador comunhão. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador comunhão. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 11 de julho de 2024

Formas de amar: O amor é uma expressão plural / Ways of loving: Love is a plural expression / Formas de amar: El amor es una expresión plural

 

O amor é a marca distintiva da fé cristã. É impossível imaginar um cristão que não seja capaz de amar. O amor é essa força que nos aproxima uns dos outros e faz com que possamos viver em comunidade.

A Bíblia aponta gestos e atitudes que podem ser colocados em prática que fazem com que possamos nos aproximar uns dos outros, criando uma realidade vivencial em que todos e todas possam se sentir acolhidos e amados.

Jesus deixou seu mandamento de amor que é válido para todos os seres humanos, não só para os seguidores de Jesus. O cristão tem o dever de amar, porém essa é uma atitude que faz falta para toda a humanidade. Uma das críticas mais fortes contra a igreja nos dias atuais é que ela fala tanto do amor, mas pouco pratica.

Para que possamos colocar o amor em prática, precisamos ir além das palavras, transformando o amor em uma atitude. Que atitudes podem evidenciar o amor? O Novo Testamento possui quatro palavras que descrevem práticas que demonstram que de fato a gente ama. São atitudes que só podem ser realizadas se houver amor.

As palavras são: comunhão, uns aos outros, compaixão e fraternidade. São quatro atividades que cristãos devem desenvolver como formas de expressar o amor. São práticas que produzem laços fortes de unidade e de aproximação uns dos outros.

Essas expressões trazem consigo a ideia de que existem várias formas de amar, de que toda forma de demonstrar amor é válida. Existem outras práticas que também demonstram o amor de forma prática, como a solidariedade, a generosidade, o cuidado com a criação, a disposição de servir, a defesa da justiça, a promoção da paz e até a democracia.

O amor é uma atitude plural, que comporta diferentes maneiras de ser demonstrado de forma prática. Ele não pode ser formatado em um conjunto de regras e de obrigações. Por isso que a melhor forma de demonstrar amor é através dos gestos e atitudes. Pessoas que amam de fato são conhecidas por seu compromisso de caminhar em direção ao outro.

segunda-feira, 15 de abril de 2024

O desafio do amor: o que impede o amor? / The challenge of love: what stops love? / El desafío del amor: ¿qué detiene el amor?

A Bíblia diz que o amor pode ser interrompido. O autor da carta aos Hebreus diz: Seja constante o amor fraternal” (Hebreus 13.1 NVI). Ele usa a metáfora do fluxo de um rio, em que a água precisa superar obstáculos que impedem sua correnteza contínua. Embora a Bíblia afirme em outra passagem que o amor jamais acaba (cf. 1 Coríntios 13.8), existem barreiras que podem impedir sua realização.

O texto fala do amor como uma atitude que correspondia ao relacionamento entre os cristãos, como uma relação de amizade entre irmãos: a philadelphia. Essa relação fraterna é que conduz ao verdadeiro amor cristão. Não há outra forma de seguir a Cristo que não seja através da prática do amor fraternal.

Esse versículo é registrado em outras traduções da seguinte forma:

- “Continuem a amar uns aos outros como irmãos em Cristo” (NTLH).

- “Permaneça o amor fraternal” (ARC).

- “O amor fraterno permaneça” (Hebreus 13.1 BJ).

O amor fraternal é um dom precioso que não podemos permitir que diminua ou se apague, visto que ele é expressão do amor divino por toda a criação. Quando amos uns aos outros demonstramos que estamos comprometidos com aquilo que move o coração de Deus.

Porém, descobrimos que o amor pode passar por instabilidades, pode crescer ou diminuir, pode surgir e desaparecer, pode inclusive cessar, sobretudo o amor fraternal. Jesus alertou que o amor de muitos esfriaria com a chegada dos tempos do fim (Mateus 24.12).

O apelo do autor para que ele seja constante significa que o amor já existia entre os irmãos. naquela comunidade de fé para onde era destinada a Carta aos Hebreus, e que precisava continuar. Apesar de todas as diferenças, provocações e decepções, o amor fraternal precisa ser praticado de forma constante.

O que pode impedir o amor? O que pode sufocá-lo? Há três fatores que aniquilam o amor: o egoísmo, a indiferença e maldade. Eles agem como verdadeiras barreiras que impedem que o amor aconteça.

O egoísmo aponta para a autossuficiência do eu. É a atitude de arrogância por se achar melhor do que os demais. O egoísta é aquele que tem um apego exagerado pelos seus próprios interesses sem se importar com os outros.

A indiferença se baseia na falta de comprometimento com a dor do outro. A intolerância para com o próximo nos impede de conviver com o diferente.

A maldade nasce de nossas próprias escolhas provocadas pela ganância, pela inveja e pelo preconceito.

O que impede o amor pode ser vencido por aquilo que o nutre e alimenta: o altruísmo, a empatia e a bondade. Esses fatores fortalecem o amor e lança o desafio de amar, como um chamado a sermos solidários e cooperadores uns com os outros. Essas atitudes aperfeiçoam o amor em nós e nos levam a agirmos de forma mais humana com o próximo. 

segunda-feira, 3 de abril de 2023

Dimensão comunitária do discipulado: O que faz diferença no seguimento de Jesus / Community Dimension of Discipleship: What Makes a Difference in Following Jesus / Dimensión comunitaria del discipulado: lo que marca la diferencia en el seguimiento de Jesús

Discipulado é o modo como fazemos o seguimento de Jesus. Ser discípulo de Jesus não é uma aventura solitária, embora sejamos responsáveis pela maneira como seguimos Jesus. Não é ser um autodidata, embora envolva um aprendizado. Não é ser um aluno receptor de informações, embora haja um Mestre.

Na verdade, ser discípulo é ser imitador de Jesus, alguém que assume reproduzir em sua vida o caráter e o ensino de Jesus. Isso implica tomar parte da comunidade daqueles e daquelas que seguem Jesus e se ajudam mutuamente a se aperfeiçoar nisso a cada dia. Além disso, o discípulo é o melhor exemplo de vida transformada pela graça que as pessoas à sua volta podem ter.

Os primeiros discípulos viviam em comunidade. Jesus apresentou durante seus discursos dois tipos de convite: ele disse para alguns “segue-me” e disse para uma multidão “vide a mim”. O convite “segue-me” exigia mudanças no modo de viver e de orientar a vida. Tanto que muitos largaram tudo o que faziam para seguir Jesus. Não era só uma mudança de hábitos ou costumes, mas de valores e de estratégias de vida como a profissão e os relacionamentos.

O convite “vinde a mim” foi dirigido a pessoas cansadas de uma vida marcada pela opressão. Àqueles que andavam errantes como ovelhas sem pastor, perdidas de si mesmo, agora poderiam aprender um novo modo de orientar a vida com quem exercitava a humildade e a mansidão.

Nunca foi fácil seguir Jesus, nem para os primeiros discípulos, nem para nós nesses tempos. Entretanto, Jesus sempre procurou educar seus discípulos sobre o que significa segui-lo. E o fez ao longo da caminhada realizada junto com eles. Jesus foi um mestre por excelência, fazendo com que seus seguidores reproduzissem em suas vidas o seu próprio modo de viver.

O discipulado envolve novos hábitos, novo estilo de vida, novos interesses, novas perspectivas, novo modo de pensar, nova forma de compreender a vida, enfim, nova forma de ver o mundo. Não é um programa ou estratégia para se fazer novos adeptos, mas um novo modo de ser e de agir no mundo.

Envolve um aprendizado que requer mudança de mentalidade. Isso implica abandonar hábitos e concepções influenciados pela religião e pela ideologia dominantes para dar lugar aos valores do Reino de Deus. Exige de cada um o compromisso de ser a melhor expressão da graça de do amor de Deus por toda a criação.

O discípulo aprende em comunidade a dar novos significados a práticas essenciais como a oração, o conhecimento das Escrituras, a vida em comunhão, o testemunho público da fé e o cuidado uns com os outros. Normalmente, aprendemos que a oração, a leitura da Bíblia, o compromisso com a igreja, o testemunho e a prática do bem são atitudes individuais apenas. Mas elas precisam ser compreendidas a partir de uma ótica comunitária, como ações que visam o bem comum.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

Quaresma, Diálogo e Compromisso: Focos da Campanha da Fraternidade 2021 / Lent, Dialogue and Commitment: Focus of the 2021 Fraternity Campaign / Cuaresma, Diálogo y Compromiso: Enfoque de la Campaña Fraternidad 2021

 

A Campanha Ecumênica da Fraternidade 2021, que começa hoje, enfatiza o diálogo e o compromisso da prática do amor fraternal como tema orientador, a fim de que cristãs e cristãos possam refletir sobre missão e prática no mundo. A campanha é liderada pela CNBB – Conferência Nacional dos Bispos do Brasil e pelo CONIC – Conselho Nacional de Igrejas Cristãs, entidades representativas de segmentos cristãos brasileiros, incluindo tanto o catolicismo romano quanto denominações protestantes.

A campanha é realizada anualmente pela CNBB durante o tempo da Quaresma, que no calendário religioso começa na quarta-feira de cinzas e se encerra no período da Páscoa. Desde o ano 2000, a cada cinco anos, a campanha também assume a forma ecumênica, com a participação de outros segmentos cristãos, abordando temas humanos e com o objetivo de valorizar o que há de comum entre as comunidades cristãs.

O objetivo da Campanha é “pensar, avaliar e identificar caminhos para a superação das polarizações e das violências que marcam o mundo atual”, como diz o texto base divulgado. A proposta é de fazer isso sob a inspiração do cuidado amoroso de Cristo que motiva a todas e todos ao diálogo e à vida em unidade em meio à diversidade. A base bíblica para esse propósito da campanha é a palavra do apóstolo Paulo que afirma que “[Jesus Cristo] é a nossa paz, o qual de ambos fez um e destruiu a barreira, o muro de inimizade” (Efésios 2.14).

Os organizadores assumem o desafio de denunciar a violência que é praticada em nome da fé, encorajar a prática da justiça que restaura a dignidade das pessoas, estimular ações concretas de amor pelo outro, promover a cultura do amor em vez da cultura do ódio e fortalecer a convivência ecumênica e o diálogo inter-religioso. Em tempos de pandemia, esses desafios envolvem o enfrentamento dos discursos negacionista, de violência contra a mulher e população LGBTQI+, de preconceito e intolerância, sobretudo em relação ao negro e as pessoas dos segmentos progressistas. São situações que ganharam novos contornos com o avanço da extrema-direita ao governo.

Ao tratar dessa forma o tema da fraternidade e do diálogo, a campanha deste ano foi antecedida por uma manifestação hostil de grupos católicos fundamentalistas e ultraconservadores contra ela. Tais grupos têm demonstrado toda sua animosidade ao realizar uma contracampanha com o sentido de lançar ataques ao ecumenismo e ao esforço de lutar por um mundo mais justo e humano para todas e todos.

Parece ironia, mas enquanto há cristãos que procuram formas de unir as pessoas em torno do bem comum, da solidariedade e da comunhão, existem outros dispostos a promover a desunião e a incentivar o ódio de forma impiedosa, com uso de desinformação (as chamadas fake news) e com discursos reacionários que se utilizam de ideias fascistas. São religiosos que praticam uma fé anacrônica e descontextualizada, que não admitem a convivência com o outro e o diferente, nem mesmo quando são informados que essa é a proposta da prática do amor fraternal anunciada pelo próprio Cristo que afirmam seguir.

A ideia da fraternidade é um convite a viver o Evangelho de forma integral em dias tão difíceis como estes que estamos vivendo. O tema da campanha deste ano, bem como seus objetivos e propostas de engajamento, mostra o caminho de uma igreja comprometida com as pessoas deste tempo, atenta aos problemas emergentes decorrentes da mentalidade consumista, exploradora e dominadora que vem influenciado as políticas e as formas de organização da sociedade.

Serão 40 dias de promoção da fraternidade e do amor fraternal. Em tempos de tantas animosidades, soa como vento fresco a expressão de cristãs e cristãos que procuram viver o evangelho de Jesus de Nazaré de forma mais humana e voltada para as necessidades dos mais vulneráveis, dos pobres e dos injustiçados. Ao colocar o dedo na ferida, já era de se esperar a reação daqueles que se entregaram aos extremismos que promovem o ódio e a segregação. Mas, como afirma a nota do presidente da CNBB: “Não desanimemos. Não desistamos. Unamo-nos”.

domingo, 2 de agosto de 2020

O Reino entre nós / El reino entre nosotros / The Kingdom Among Us


“[...] eis que o reino de Deus está entre vós” (Lucas 17.21).
 Jesus disse que o seu Reino não é deste mundo (João 18.36), mas é a esfera de realização da vontade de Deus entre nós (Mateus 6.10). Jesus ensinou seus discípulos a orarem assim, a buscarem o Reino (Mateus 6.33), que o Reino pertence aos pobres (Lucas 6.20), aos que sofrem perseguição por causa da justiça (Mateus 5.10) e às crianças (Mateus 19.14), dado aos humildes como um presente divino (Lucas 12.32). Essas afirmações de Jesus nos permitem entender que o Reino de Deus é uma esfera de cuidado: cuidado de Deus pela humanidade e cuidado para com o próximo.
O Reino de Deus abrange a integralidade de nossas relações na esfera pública. Não é uma experiência exterior, subjetiva, mas algo que se realiza em nossos espaços de convivência e de existência. Por essa razão, o Reino de Deus tem uma dimensão social e política, visto que nos impulsiona a viver publicamente a nossa humanidade como pessoas libertas e conduzidas em uma nova experiência de vida no Espírito.
Não se trata de uma ruptura com o mundo, mas da imersão do divino e do sagrado em nossas relações. É um acontecimento histórico que oferece oportunidades de contemplar a presença salvífica do Senhor no mundo, que traz vida e libertação a todos. Mas também é um acontecimento cósmico, pois restaura a esperança de redenção para toda a criação.
O Reino de Deus implica uma proposta de transformação do mundo a partir da mudança da pessoa, trazendo novos valores, princípios e condutas. Para entrar no Reino de Deus é preciso romper com o reino do mundo, dominado por estruturas de poder, sistemas de dominação e sentimentos de ganância. Não existem vínculos possíveis com formas de governo ou de domínio, nem mesmo em nome de uma supremacia divina. Tentativas humanas de implantar o Reino de Deus na Terra sempre resultaram em alienação, exploração e opressão, sobretudo dos mais vulneráveis.
O convite para entrar no Reino é amoroso, e requer acolhida em amor. A vida no Reino é voltada para a prática da justiça, para a promoção da paz, para a vida em comunhão, para o bem de toda a criação e para a construção de uma nova alegria de viver. Jesus garantiu que o Reino não vem de forma espetacular nem pode ser notado em um lugar ou outro: “[...] O reino de Deus não vem com aparência exterior. Nem dirão: Ei-lo aqui, ou: Ei-lo ali [...]” (Lucas 17.20,21). Não é algo que está num céu distante, nem mesmo num determinado lugar ou num tempo da história. A realidade do Reino perpassa toda relação humana e se manifesta como ação redentora que nos habilita para uma vida digna no mundo e nos prepara para a vida eterna com Deus.
Pertencer a esse Reino implica abraçar a proposta do Evangelho de viver neste mundo com uma nova mentalidade, aquela que coloca a vida a serviço do outro e que tem o cuidado de promover o bem comum. Serviço e cuidado são duas faces de nossas ações como cidadãos do Reino: servimos uns aos outros em espírito de solidariedade e cuidamos uns dos outros como participantes da unidade do corpo de Cristo. Servir e cuidar são expressões de entrega, renúncia e doação de si em favor da dignidade da vida. Jesus também ensinou seus discípulos a fazerem assim. Ele também disse que em seu Reino os maiores são aqueles que servem. E quem serve cuida.

sexta-feira, 2 de novembro de 2018

Reconciliação: Reconectar o que se perdeu / Reconciliation: Reconnect what was lost / Reconciliación: Reconectar lo que se perdió


Em tempos de tantos desentendimentos, falar de reconciliação parece algo impossível. Entretanto, para que possamos restaurar sentimentos feridos, resgatar valores perdidos e até para restabelecer vínculos afetivos, precisamos aprender a arte de reconciliar. Diante dos conflitos que a vida nos oferece, a reconciliação é um esforço necessário para que possamos encontrar novas possibilidades para os relacionamentos que estão feridos. E isso é um assunto que a fé cristã tem muito a contribuir.
A palavra reconciliação aparece em duas ocasiões nos escritos do apóstolo Paulo, na Carta aos Romanos e na Segunda Carta aos Coríntios. Ela foi retirada do contexto do mercado de câmbio dos gregos antigos, correspondendo a uma troca por valores equivalentes. Paulo nos dá a entender que há a necessidade de um ajuste de contas diante do cuidado de Deus em nos perdoar e nos acolher como seus filhos. O ato divino em nos reconciliar com Ele deve nos conduzir a uma nova atitude diante de tudo o que se perdeu desde quando nos afastamos de Seu propósito.
Reconciliar é literalmente tentar de novo o concílio, que por sua vez, é uma palavra vem da tradição cristã. Já traz implícita a ideia de uma diversidade de ideias. Concílio dizia respeito a uma concentração de esforços para que pudessem chegar a um acordo, um entendimento comum, diante de uma controvérsia. Tinha o sentido de uma união. Vem do latim concilium, que é a junção de duas expressões: cum, que quer dizer “junto”, e silium, que corresponde a “assento” (mas também pode ser de cillia, que quer dizer “movimento”). A igreja usou essa designação como uma convocatória para que os cristãos em conflito pudessem se reunir, com o sentido de sentarem juntos mesmos, para discutir problemas e chegar a um consenso. Posteriormente, essa palavra ganhou nova significação, relacionada ao sentido do verbo conciliare, que quer dizer acordo ou um ajuste de interesses. A palavra “conciliar” em português pode significar também: ficar em paz, acalmar, combinar e tranquilizar.
A carta de Paulo a Filemom traz um magnífico exemplo de reconciliação. Filemom era um cristão admirável, de uma família tradicional e bem-sucedido em seus negócios Tanto que, mesmo sendo cristão, era proprietário de escravos, o que era uma prática comum para a sociedade de seu tempo. Porém, um daqueles seus escravos fugiu. O nome dele era Onésimo.
A carta não trata das razões da fuga de Onésimo. O que o teria feito fugir? Pode ser que tivesse feito algo muito ruim, como roubar o seu senhor. Pode ser também que tivesse se rebelado por causa dos maus tratos, das condições injustas e opressoras que lhes eram impostas de forma incoerente com a fé que o senhor dizia professar. Ou pode ser ainda que possuísse um esclarecimento a respeito da sua condição social e tenha resolvido lutar por sua liberdade tentando construir uma outra história de vida. Não importa o motivo da fuga, o fato foi que a graça do evangelho alcançou Onésimo e ele veio a tomar parte do movimento cristão e ser um dos seguidores de Jesus que acompanhavam o apóstolo Paulo.
Paulo, então, envia Onésimo de volta a Filemom com um apelo para que fosse acolhido não mais como escravo, mas como um irmão na fé. Era preciso que ambos construíssem uma nova relação, que fosse fundada no amor. Não seria mais uma relação entre senhor e escravo, mas entre cooperadores na fé. Não mais uma relação servil, mas fraterna.
Reconciliar é restaurar conexões perdidas, recuperar as possibilidades de conciliar uma diversidade de situações contraditórias. Não significa voltar ao que era antes, mas dar chance para começar uma nova caminhada juntos. A reconciliação se faz necessária quando a gente se dá conta de que o que se perdeu é maior do que nós mesmos, de que o outro é importante e indispensável para nós. Para a reconciliação acontecer, é preciso reconhecer os próprios erros, perdoar os erros do outro e respeitar a presença e a opinião do outro. Quando a reconciliação não é buscada, corremos o risco do isolamento. Sem reconciliação, só nos resta a solidão.
A reconciliação tem em Deus seu maior realizador. Ele tomou a iniciativa de aproximar o que não é conciliável. Ele é o Deus que vem a nós. Para isso, ele esvaziou-se, fez-se como um de nós. Ele se revelou como o Deus conosco para que nos tornássemos um com Ele, a fim de que exercitássemos a reconciliação como um serviço ao próximo.

quinta-feira, 26 de julho de 2018

A igreja de Jesus / The Church of Jesus / La iglesia de Jesús


Jesus Cristo não criou a igreja tal como ela se configura hoje, como uma instituição dotada de liturgias, hierarquia, sistemas doutrinários e ritos. Ele reuniu um grupo inicial que contava com mais ou menos setenta pessoas que era capaz de mobilizar gente em torno de seus ensinos e de seus feitos milagrosos. A igreja que Jesus formou tinha mais a ver com a dinâmica dos relacionamentos do que com formas institucionais de organização.
Ele mesmo disse que edificaria sua igreja. Mas, o que Jesus tinha em mente quando se referiu à sua igreja? Com certeza não eram rituais, vestes, sacramentos, dias santos, clero ou santuário. Esses são representações elaboradas pelos seus seguidores carregadas de significados históricos construídos ao longo das muitas experiências culturais e de formas de expressão da fé. Jesus estava interessado em atrair pessoas para si e transformá-las em novas criaturas.
Em princípio, é preciso ter em mente que Jesus foi um judeu, criado por seus pais dentro dos costumes do judaísmo do seu tempo. Os evangelhos enfatizam que os fatos envolvendo a gravidez, o nascimento, a infância e a adolescência de Jesus foram marcados pela cultura dominada pela fé judaica. Lucas deixa claro que era “[...] conforme o costume” (Lucas 2:42). Mateus salienta que tais acontecimentos eram em cumprimento a profecias bíblicas.
Jesus foi consagrado no templo quando bebê de acordo com a tradição judaica. Ele possuía uma genealogia que só os judeus mais nobres poderiam relatar. Tinha uma proximidade com os mestres da religião desde o início de sua adolescência. Atuou como um mestre extraordinário, empregando habilidosamente recursos retóricos e didáticos do seu tempo. Era convidado a falar nas sinagogas, o que era uma prática comum aos fariseus. Dialogou com os doutores da lei e confrontou os fariseus por conhecê-los de uma forma bem peculiar, como quem tivesse intimidade com eles. Foi chamado por muitos de seus interlocutores de rabbi e por seus discípulos de rabbouni, termos que eram atribuídos aos mestres religiosos. Ele mesmo tratou seus primeiros seguidores como discípulos ou aprendizes.
Apesar disso – e talvez por isso mesmo –, Jesus confrontou as formas religiosas de seu tempo. Jesus nunca esteve preocupado em formar uma nova religião nem de criar uma instituição. Tudo o que sabemos hoje sobre igreja está presente nos ensinos dos apóstolos, nas cartas escritas por eles para dar direção ao movimento que a fé cristã foi ganhando à medida que expandia e avançava pelo mundo, sobretudo no Ocidente. Os discursos de Jesus, porém, falam mais de uma relação.
O foco de Jesus era criar as condições para a inauguração do seu Reino. Para isso, atraiu pessoas para conviverem com ele por um tempo. Ofereceu a essas pessoas ensinos e experiências que influenciariam suas condutas após a sua crucificação. Os ensinos não eram sobre teorias de liderança, fórmulas doutrinárias ou estratégias de crescimento, mas princípios para uma vida significativa no mundo. As experiências não eram voltadas para a prática de curas, atos religiosos ou exorcismos, mas para que eles tivessem uma vivência do que é ter uma vida marcada pela compaixão.
Quando se diz que a igreja de hoje precisa retornar ao tempo da igreja primitiva ou à dos primeiros apóstolos, penso que esse retorno deveria se dar para um pouco antes, para ouvir de novo o que Jesus tem a dizer sobre sua igreja. É preciso retomar os ensinos de Jesus, rever com mais atenção as narrativas sobre suas práticas com seus discípulos e redescobrir um novo jeito de ser igreja que esteja para além do domingo, do clero e do templo.
A igreja como conhecemos hoje passou e tem passado por muitas transformações. Não resta a menor dúvida de que toda mudança foi resultado da necessidade de agir no mundo, de encontrar modos de se cumprir missão, de dialogar com as expressões organizacionais de cada tempo. Para isso, ela tanto desenvolveu relações de poder como configurou um espaço onde fosse possível ter uma experiência de encontro. Algumas dessas formas foram cristalizadas e resultaram na multiplicidade de eclesiologias que conhecemos.
Jesus não estabeleceu regras para a continuidade histórica de sua igreja. Compreende-se que ele encarregou seus discípulos dessa responsabilidade. Para tanto, eles estariam livres em todo o tempo para encontrar maneiras de se reunir como povo de Deus e cumprir a missão que Jesus designou de levar a todo o mundo a boa notícia do amor de Deus a toda criatura.
A igreja precisa resgatar sua identidade de povo de Deus, deixar de ser um lugar para se ir para se tornar um modo de ser. Para isso, é preciso ouvir de novo o que Jesus tem a dizer sobre a comunhão daqueles que ele atraiu para si, aos quais ele quis que estivessem ligados a ele como ramos da videira, e não como adeptos de um segmento religioso.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Relacionamento: buscar sentido a partir das relações / Relationship / Relación

O que seria de nós, humanos, se não fossem as redes de relações que nos constroem? O ser humano é isso: resultado de um complexo somatório de relações sociais, biológicas e espirituais. Em princípio, ser humano é ser alguém no plural.
Somente quando nos damos conta da presença do outro, do mundo e de Deus é que podemos descobrir quem somos. Por isso que ausências e distâncias são significativas.
Somos um projeto em aberto, sempre em construção. Começa em nossas interações em família, passa pela vizinhança, escola, comunidade, igreja e as formas organizadas da sociedade. É dessa forma que nos constituímos como pessoas, sujeitos e cidadãos.
Há relações que nos destroem. São aquelas que se baseiam no preconceito, na intolerância, no ódio. Mas há relações que promovem mais a nossa condição humana, construídas a partir da generosidade, da gentileza, da solidariedade e do amor.
Há atitudes que inibem as relações. É o que o egoísmo, a vaidade e o orgulho fazem. E há atitudes que estimulam ainda mais os relacionamentos: a bondade, o companheirismo, a sinceridade, o respeito.
Há relacionamentos que nos aperfeiçoam e há relacionamentos que nos adoecem. Da mesma forma, podemos proporcionar saúde e doença, solução e problema, limites e possibilidades para o outro e para o mundo.
Relacionamos-nos porque somos diferentes e essas diferenças não se excluem. Antes, se completam. Relacionamentos são aberturas que temos para Deus, para o mundo, para os outros e para nós mesmos, a fim nos realizarmos como pessoas que somos.
São também possibilidades de experimentar o novo, de assumir desafios e de construir uma vida melhor. É a partir das relações que percebemos identidades e diferenças, que atribuímos dignidade ao outro pelo fato de possuirmos valores em nós mesmos. Por isso, quando estamos insatisfeitos ou nos sentimentos incompletos, aí está um sinal de que precisamos investir mais em nossas relações.
Nossas redes de relações nos dão suporte para alcançar o bem-estar, para desenvolver as habilidades que nos ajudam a viver melhor, mas acima de tudo nos apontam para aquele que se ofereceu para estabelecer uma relação de amor conosco.
Não há nada que aconteça na vida do outro e na natureza que não nos afete. Estamos interligados, conectados e sintonizados o tempo todo com tudo e com todos. Se alguma peça dessa engrenagem não for levada em conta, se algo ficar de fora, haverá esse vazio de significados que nos assola. Por isso que uma vida que não se dá conta de todas as relações em que se está implicado não tem sentido. Viver é, acima de tudo, buscar sentidos a partir de relações.
Portanto, para se ter vida abundante, as relações precisam estar a serviço da vida. Caso contrário, a vida não passará de confronto, de competição e de manipulação. Não passa de sobrevivência. Antes, viver é construir uma rede de relações e se construir a partir delas. E é nisso que o propósito de deus se consuma.

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Cultura do encontro / Meeting culture / La cultura del encuentro

A cultura do encontro é um dos temas desafiadores trazidos pelo atual Papa Francisco que, ao meu ver, deve nos conduzir a uma reflexão sobre a conduta de cristãos de todos os segmentos. Entretanto, não se trata de um fato novo. Desde o Concílio Vaticano II, há uma recomendação que consta do documento Gaudium et spes para que se considere o próximo como um “outro eu” tendo em vista a formação de uma vida mais digna. Diz o documento: “sobretudo em nossos dias, urge a obrigação de nos tornarmos o próximo de todo e qualquer homem, e de o servir efetivamente quando vem ao nosso encontro”.
O chamado para a consolidação de uma “cultura do encontro” foi apresentado pelo Papa Francisco em 2013, principalmente em quatro ocasiões, como uma alternativa à cultura da exclusão e da indiferença: na homilia proferida na missa com os religiosos, por ocasião da XXVIII Jornada Mundial da Juventude; na mensagem do dia Mundial do Migrante e Refugiado; na aula magna da Pontifícia Faculdade Teológica da Sardenha; e na exortação apostólica Evangellii Gaudium.
No primeiro discurso, ele afirmou que a igreja precisa ter a coragem de ir de encontro à cultura do descartável e de desenvolver uma atitude que favoreça a solidariedade. Segundo ele, “o encontro e o acolhimento de todos, a solidariedade [...] e a fraternidade são elementos que tornam a nossa civilização verdadeiramente humana. Temos de ser servidores da comunhão e da cultura do encontro”.
Na segunda oportunidade, o Papa Francisco disse que: “O mundo só pode melhorar se a atenção é dirigida, em primeiro lugar, à pessoa; se a promoção da pessoa é integral, em todas as suas dimensões, inclusive a espiritual; se não se deixa ninguém de lado, incluindo os pobres, os doentes, os encarcerados, os necessitados, os estrangeiros (cf. Mt 25, 31-46); caso se passe de uma cultura do descartável para uma cultura do encontro e do acolhimento.”
A cultura do encontro implica uma preocupação com a condição humana atual em função da crise econômico-financeira, bem como a que afeta as condições de vida humana no âmbito da ecologia, da moral e do conhecimento, que põe em risco o presente e o futuro. Uma crise que envolve o ocidente com implicações para todo o mundo e que tem a ver com o modo como a humanidade realiza sua existência no mundo. No terceiro discurso, o Papa acrescentou: “Penso não só que há um caminho para percorrer, mas que precisamente o momento histórico que vivemos nos impele a procurar e encontrar caminhos de esperança, que abram horizontes novos à nossa sociedade”, afirmou. E mais: “Esta é uma proposta: cultura da proximidade. O isolamento e o fechamento em si mesmo ou nos próprios interesses nunca são o caminho para voltar a dar esperança e realizar uma renovação, mas é a proximidade, a cultura do encontro. O isolamento, não; a proximidade, sim. Cultura do confronto, não; cultura do encontro, sim.”
A proposta da cultura do encontro está afinada com a defesa que o próprio Papa Francisco faz por uma igreja “em saída”, que consiste na ideia de uma igreja que sai ao encontro das pessoas em sua circunstância de vida. No documento Evangellii Gaudium, ele afirma:[...] prefiro uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas, a uma Igreja enferma pelo fechamento e a comodidade de se agarrar às próprias seguranças. Não quero uma Igreja preocupada com ser o centro, e que acaba presa num emaranhado de obsessões e procedimentos. Se alguma coisa nos deve santamente inquietar e preocupar a nossa consciência é que haja tantos irmãos nossos que vivem sem a força, a luz e a consolação da amizade com Jesus Cristo, sem uma comunidade de fé que os acolha, sem um horizonte de sentido e de vida. Mais do que o temor de falhar, espero que nos mova o medo de nos encerrarmos nas estruturas que nos dão uma falsa proteção, nas normas que nos transformam em juízes implacáveis, nos hábitos em que nos sentimos tranquilos, enquanto lá fora há uma multidão faminta e Jesus repete-nos sem cessar: ‘Dai-lhes vós mesmos de comer’ (Mc 6, 37).”
As condições de vida no mundo atual interpelam a práxis cristã de modo que “torna-se necessária uma evangelização que ilumine os novos modos de se relacionar com Deus, com os outros e com o ambiente, e que suscite os valores fundamentais”. Nesse sentido, a igreja é chamada a ser servidora dum diálogo difícil”. E acrescenta: “Neste tempo em que as redes e demais instrumentos da comunicação humana alcançaram progressos inauditos, sentimos o desafio de descobrir e transmitir a ‘mística’ de viver juntos, misturar-nos, encontrar-nos, dar o braço, apoiar-nos, participar nesta maré um pouco caótica que pode transformar-se numa verdadeira experiência de fraternidade, numa caravana solidária, numa peregrinação sagrada. Assim, as maiores possibilidades de comunicação traduzir-se-ão em novas oportunidades de encontro e solidariedade entre todos.”
O evangelho possui uma dimensão social que interpela e convida a que o cristianismo saia de sua zona de conforto e desenvolva uma atitude que supere a desconfiança e o medo de ser invadido. “A verdadeira fé no Filho de Deus feito carne é inseparável do dom de si mesmo, da pertença à comunidade, do serviço, da reconciliação com a carne dos outros. Na sua encarnação, o Filho de Deus convidou-nos à revolução da ternura.”

segunda-feira, 16 de março de 2015

Juntos na caminhada / Together in walking / Juntos en la caminata

“Um ao outro ajudou, e ao seu companheiro disse: Esforça-te.” Isaías 41.6 
Tem coisas que só dá pra fazer quando estamos juntos. Em tempos de supervalorização do individualismo e de escolhas centradas no eu, não custa lembrar que somos pessoas criadas para viver em comunidade.
O ser humano é o único ser vivo que depende do outro para viver. Várias espécies animais já nascem andando e lutando pelo seu alimento. As plantas nascem, crescem e morrem no solo sem que precise de qualquer intervenção humana. Mas nós precisamos da ajuda do outro durante a vida inteira para existirmos. Isso acontece desde o nascimento até a morte.
No século XIII, o imperador Frederico, da Germânia, achava que seria muito útil para os homens saberem qual teria sido o primeiro idioma dos homens: Hebraico? Grego? Latim? Intrigado, Frederico mandou que se fizesse a seguinte experiência: vários bebês seriam isolados de qualquer convívio com os demais seres humanos. Argumentava que, sem nenhum contato com os idiomas falados, tais bebês se expressariam naquilo que teria sido o idioma original dos homens. A alimentação dos bebês foi confiada a amas de leite, cuja única função seria amamentá-los. Mas antes tiveram que fazer o juramento de que jamais produziriam qualquer som junto desses bebês. Assim, em completo silêncio, faziam elas o seu trabalho. Desde o instante do nascimento, os bebês jamais ouviram qualquer palavra ou som de um ser humano. Um ano depois, divulgou-se o resultado da experiência: todos os bebês haviam morrido.
Viver em comunhão estimula o nosso sentido de existência e nos mobiliza a ações que fazem com que a vida ganhe novos significados. É interessante observar que a racionalidade humana foi capaz de criar muitas tecnologias para facilitar a vida, mas fez muito pouco para aperfeiçoar nossas relações em comunidade. Conforme o conhecimento científico veio avançando, desenvolvemos a capacidade de nos isolar e alimentar a ilusão de que podemos viver sozinhos.
O resultado disso é que a mesma razão que inventa e cria novas tecnologias para proporcionar bem-estar é capaz de usá-las para destruir e aniquilar o outro. Chegamos ao ponto em que a humanidade se encontra, sob ameaça real de extinção. Entretanto, para superarmos essa tendência, encontra-se a nossa capacidade de encorajarmos uns aos outros.
A Bíblia estimula essa capacidade e nos chama a uma relação baseada na ação de uns para com os outros. Viver em comunhão é parte do propósito divino desde a criação. Este propósito se concretiza na pessoa de Jesus, que convoca a todos a que se voltem para tomar parte do projeto de restauração do sentido de humanidade. Crer em Jesus e segui-lo é resgatar o que há de mais humano em nós e nos abrirmos a uma relação em que o outro está implicado.

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Compromisso, missão e serviço / Commitment, mission and service / El compromiso, la misión y el servicio

Uma das marcas de nosso tempo é a ausência de compromisso. Isso não quer dizer que as pessoas não têm comprometimento algum. A grande maioria está mais interessada com aquelas situações que satisfazem um sentimento individualista repleta de narcisismo. Vivemos em meio ao complexo de Carolina, aquela da música de Chico Buarque de Hollanda, para quem o tempo passou na janela e só Carolina não viu.
Pessoas sem compromisso desconhecem seu potencial e as possibilidades de transformações da realidade a partir de sua própria ação. Desconhecem também o fato de que não vivemos sozinhos. Precisamos uns dos outros para realizar nossos sonhos e desejos. A ideia de compromisso lembra um acordo em que o outro está implicado como parceiro.
O primeiro paço para uma grande mudança é estar comprometido com aquilo que queremos nos tornar. Isso implica mudar a mentalidade, fazer ajustes, estabelecer metas e redefinir estratégias, o que pode provocar um deslocamento de nossa zona de conforto. Essa talvez seja a maior dificuldade de se assumir compromissos que gerem mudança. Queremos melhorias, mas estamos pouco preocupados em fazer as mudanças daquilo que nos dá segurança e comodidade.
Jesus foi um grande exemplo de uma pessoa comprometida. A maior razão para que ele realizasse o seu ministério humano com tantos resultados extraordinários e para que influenciasse tanto a humanidade não estava em sua natureza divina ou poder sobrenatural. Jesus estava comprometido com uma missão, e ela consistia na realização histórica do Reino de Deus.
A maneira como Jesus se comprometeu com sua missão pode ser melhor compreendida pela menção profética de Isaías: Eis o meu servo, a quem sustento, o meu escolhido, em quem tenho prazer. Porei nele o meu Espírito, e ele trará justiça às nações. Não gritará nem clamará, nem erguerá a voz nas ruas. Não quebrará o caniço rachado, e não apagará o pavio fumegante. Com fidelidade fará justiça; não mostrará fraqueza nem se deixará ferir, até que estabeleça a justiça sobre a terra. Em sua lei as ilhas porão sua esperança.” Isaías 42.1-4.
A maneira como Jesus viveu e serviu é um convite para colocar a vida a serviço da mesma causa. Jesus serviu de forma integral como consequência de sua mensagem a respeito do Reino de Deus. Em última análise, isso significa experimentar a salvação que vem de Deus. A vida de serviço cristão tem seu fundamento e justificativa na própria vida de serviço de Jesus de Nazaré. Ele mesmo disse que envia seus discípulos da mesma forma com que foi enviado.
A missão do discípulo, daquele que segue a Cristo, consiste em levar às últimas consequências o testemunho do evangelho. Pessoas comprometidas com a causa do evangelho formam a comunidade daqueles que cumprem missão no mundo, que é o verdadeiro sentido de ser igreja. Resumir a missão a um conjunto de práticas, ainda que seja a pregação ou a assistência aos necessitados, é reduzir o sentido da missão. A igreja que serve de forma integral não é um refúgio, mas um lugar de acolhida que nos capacita para seguir caminho.

Ninguém faz ideia do que gente comprometida é capaz. Pessoas com compromisso de estarem juntas para cumprir missão é o que dá sentido e forma à caminhada cristã no mundo. Não há razão de uma igreja existir apenas como mais uma forma de fazer religião, a não ser que seus participantes estejam comprometidos em fazer a diferença para o contexto em que estão inseridos.

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Família, campo missionário / Family, mission field / La Familia, campo de misión

A maneira como tem se configurado o tratamento da família na contemporaneidade demonstra que, cada vez mais, ela é um campo missionário fértil e oportuno. O conflito que se percebe na formação e na dissolução de famílias, bem como a mudança de expectativas nas relações interpessoais, demonstra que as pessoas estão cada vez mais carentes de algo que as complete e que possa trazer novas perspectivas para a vida.
A família é parte tão importante na vida humana que o que acontece nela repercute na vida da pessoa. Da mesma forma, nossos conflitos e conquistas pessoais têm consequências na vida em família. Há uma inter-relação entre a pessoa humana e a família de tal maneira que, usando a expressão do papa João Paulo, o futuro da humanidade passa por ela.
Nesse contexto, nossos familiares são as principais testemunhas oculares de quem somos. Eles conhecem nossas virtudes e nossas falhas. Diante daqueles que convivem diariamente conosco, não há como fingir ser mais santo ou exercitar uma espiritualidade aparente. Por isso, estimular a fé em Jesus Cristo e a busca pelo conhecimento de Deus em família se constitui num grande desafio.
Certa vez, uma pessoa que fora grandemente abençoada por Jesus sentiu o desejo de segui-lo por todos os lugares. Era o endemoninhado de Gadara, liberto de uma vida de opressão. A transformação de vida dele era mais do que evidente e poderia servir como um forte apelo para que outros abraçassem a fé. Porém, Jesus não permitiu que o acompanhasse naquele momento e ainda recomendou: “Vá para casa, para a sua família e anuncie-lhes quanto o Senhor fez por você e como teve misericórdia de você.” Marcos 5.19.
A espiritualidade se torna mais relevante e significativa quando vivida em família do que no contexto da própria igreja. É nela que podemos exercitar atitudes como perdão, paciência e compaixão; é nela que podemos desenvolver valores morais e afetivos; é nela que podemos alimentar sonhos e esperança quanto ao nosso futuro; é nela também que podemos vivenciar a fé e aprofundar o nosso conhecimento de Deus.
A família é o nosso primeiro campo missionário porque é ela a primeira e maior beneficiada quando a salvação acontece. Jesus disse que a salvação havia chegado à casa de Zaqueu por causa de sua mudança de vida. Os discípulos Paulo e Silas disseram ao carcereiro de Filipos que toda sua família poderia ser salva se ele tão somente depositasse a sua fé em Jesus Cristo.

Viver em família e não se importar com ela é um dos extremos do individualismo. Para superar essa tendência, a Bíblia convida a restaurar o cuidado pessoal com a família. Ela nos diz: “Se alguém não cuida de seus parentes, e especialmente dos de sua própria família, negou a fé e é pior que um descrente.” 1 Timóteo 5.8.

domingo, 11 de maio de 2014

O remédio para a solidão / Solution to loneliness / El remedio para la soledad

Deus dá um lar aos solitários [...].” Salmos 68.6
O melhor remédio contra a solidão é a vida em família. Seria suficiente dizer que é a Bíblia quem diz e, se a Bíblia falou, está certo. Porém, não é uma questão tão simples assim. Há muitas pessoas que vivem solitárias em família.
Não se trata de uma solução que já vem pronta. Ela precisa ser construída pelas nossas atitudes. Quero apresentar algumas razões para que a família seja, de fato, o melhor remédio para a solidão.
A família precisa ser o espaço do encontro. Pessoas podem realizar em família relacionamentos profundos e duradouros.
A família precisa ser o lugar em que se pode ser o que é. Pessoas não precisam mudar seu status de pai, mãe, filho ou filha, avo ou avó, por serem o que são.
A família precisa oferecer oportunidades de vivenciar a nossa humanização. Pessoas solidárias e generosas têm maiores chances de se realizarem se desenvolverem tais atitudes em família.
A família precisa proporcionar encorajamento para a vida. Pessoas se sentem mais encorajadas quando encontram apoio por parte da família.
A família precisa ser um convite para a fé. Pessoas que têm fé e esperança são os melhores rostos de Deus que alguém pode ver.
Entretanto, a família só será remédio para a solidão na medida em que cada um vai descobrindo seu valor e o quanto se é relevante para o outro. Só assim poderemos sonhar com uma vida melhor. Quando a família é vista apenas como espaço para realização de nossos interesses, aí ela se torna um pesadelo.

sexta-feira, 1 de março de 2013

Uma fé que precisa do outro / A faith that needs the other / Una fe que necesita del otro

O que é a fé senão uma experiência de encontro? Muitos a veem como uma dádiva concedida para que, através de sua posse, sejamos salvos. Outros a veem como um saber adquirido, um conjunto de prescrições, valores e princípios que orientam a vida. Sim, a fé é isso: dádiva e conquista, o que orienta a vida, o que dá sentido à existência. Isso não é uma mera faculdade humana. É graça à qual temos acesso pelo ouvir.
Entretanto, quero apontar um terceiro modo de entender a fé: experiência de encontro. O cristianismo se apropriou de uma palavra que os gregos usavam para descrever a fé: pistis. Essa palavra significava uma confiança que a pessoa poderia adquirir ou receber por dar credibilidade a alguma coisa ou a alguém. Implicava uma conduta, uma relação com o outro. Daí a ideia de fidelidade. Só posteriormente que recebeu um sentido de convicção, no sentido de um destino final.
A cultura judaica já conhecia esse sentido primordial da fé como confiança. A palavra hebraica aman significava “ser digno de confiança”. Sendo assim, a fé é elemento fundador de uma relação, de acolher e de ser acolhido pelo outro. O cristianismo é isso: resultado de uma experiência de encontro com o Cristo vivo, que nos acolhe por amor e deseja que o acolhemos em amor.
A fé assim implica encontro com o que está para além de nós, com o transcendente. E o fazemos na medida em que percebemos esse transcendente como uma pessoa que se faz ausente e distante. É na ausência de Deus que podemos elaborar uma experiência de busca e, em meio a isso, permitir que Deus revele a nós quem ele é.
A fé que é encontro também nos confronta com o outro. Não é um isolamento monástico, um afastamento do mundo, uma reclusão. Antes, é a abertura para as interpelações que o outro me impõe na medida em que ele mesmo se mostra para a mim e me reconhece como pessoa. É como um espelho em que tudo o que se dá não passa de representações que exigem múltiplas interpretações. Gestos, palavras e expressões compõem o misterioso universo do dito, do não dito e do interdito que atravessa nossas interações com o outro.
A fé como encontro é um mergulho no ser, um encontro consigo mesmo. Implica coragem de desvendar para si o que está por trás das muitas máscaras que se usa e que acabam confundindo e iludindo a respeito de quem se é. Uma fé que não ajuda a descobrir a si mesmo não passa de alienação, de delírio, de entorpecimento. Um exercício de introspecção que não contribui em nada se não servir para me lançar de volta a uma busca de Deus e a uma caminhada com o outro com todos os perigos que isso envolve.
Por isso que os cristãos primitivos usavam tanto a expressão “uns aos outros”. A experiência de fé exige uma aceitação do outro do jeito que é. Exige o exercício de paciência a fim de que as condições históricas de uma caminhada possível se concretizem. Exige um exercício de parceria, de solidariedade, que implica muito mais o que se tem a oferecer do que o que se tem a receber. Exige uma vivência em amor, nos moldes do que Cristo viveu ao assumir o perigo da cruz.
A fé que não pode ser partilhada como uma experiência “uns aos outros” parece estranha à proposta do cristianismo. Ao contrário, a fé é condição para ser cristão porque nos tira no isolamento, do e egoísmo e da morte para nos devolver à vida e nos remeter de volta ao que nos dá sentido. O que nos tira disso é pecado: “o que não provém da fé é pecado”. Romanos 14.23.

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

O princípio da comunhão / The communion principle /El principio de la comunión

É preciso resgatar o sentido e a alegria de se viver em comunhão. O ponto de partida para se construir a vida em comunhão é conscientizar-se do quanto Deus nos ama e que este amor nos capacita a amar os outros. Não há como se pensar em comunhão de forma plena fora do âmbito do relacionamento com Deus, porque ele é o único capaz de nos amar como somos e nos acolher para um relacionamento profundo.
Diante do Deus que ama, a sua palavra nos diz que temos que decidir amar uns aos outros. Amar é um mandamento. Nossa decisão de amar é um ato de obediência. Deus considera o amor de uns para com os outros tão essencial que nos diz que é nosso dever amar. A essência do amor não é o que pensamos, fazemos ou providenciamos para os outros, mas como nos entregamos a eles. Nosso amor nos impulsiona a deixar de lado nossas necessidades próprias a fim de nos entregarmos totalmente à tarefa de suprir as necessidades dos outros.
A Bíblia diz também que fomos criados para a comunhão. Isso se opõe à tendência que a humanidade tem tomado. As pessoas de um modo geral têm desenvolvido uma atitude cada vez mais individualista. Numa sociedade de pessoas centradas no eu, de egos absolutos, não há lugar para a solidariedade e para a partilha. Esses requisitos são essenciais para se viver em comunhão. E onde não há oportunidade de comunhão, a comunidade não acontece. Não passa de uma multidão. Num ajuntamento de pessoas que são guiadas pelo seu eu, o resultado é uma sociedade marcada pela violência.
A comunhão não acontece automaticamente. Isso implica uma escolha de viver de um modo que a nossa vida possa ser um estímulo para o fortalecimento da comunhão. Jesus nos chamou para viver uma nova dimensão na vida em relação aos outros. A nova vida em Cristo consiste em tomar parte de uma família. É o que os primeiros apóstolos ensinaram: Do qual toda a família nos céus e na terra toma o nome.” Colossenses 3.15. E: “Pois vocês não receberam um espírito que os escravize para novamente temer, mas receberam o Espírito que os adota como filhos, por meio do qual clamamos: ‘Aba, Pai’.” Romanos 8.15.
O que é preciso fazer para fortalecer a vida em comunhão como um valor essencial? Em primeiro lugar, reconhecer que fazemos parte de um contexto maior, no qual Deus está envolvido. Quando a gente reconhece a soberania de Deus, abre-se espaço para que a vida em comunidade aconteça. Deixamos de ser individualistas e uma multidão violenta para nos abrirmos para o outro.  Em segundo lugar, é preciso substituir a competição pela comunhão. Numa sociedade individualista, só há lugar para a competição, mas quando deixamos Deus ser o Senhor, surge o ambiente para a comunhão. Em terceiro lugar, precisamos assumir uma vida de compromisso, em vez de seguir um programa ou uma agenda. Uma vida centrada no eu alimenta expectativas equivocadas sobre a ação do outro e coloca uma pesada e desnecessária agenda sobre os ombros do outro. Não podemos esquecer de que fomos chamados para viver em liberdade. E em último lugar, precisamos tomar a decisão por uma vida impulsionada pelo Espírito e não por uma lei. Isso é ser autêntico. Viver em comunidade exige responsabilidade. Significa assumir os riscos e a alegria de ser quem você é. Só haverá espaço para a vida em comunhão se as pessoas puderem compartilhar seus choros e alegrias, seus medos e convicções, suas vitórias e seus fracassos, suas expectativas e decepções, sem o risco de serem reprimidas ou rejeitadas.
É a Bíblia que nos encoraja a viver em comunhão. Portanto, vocês já não são estrangeiros nem forasteiros, mas concidadãos dos santos e membros da família de Deus.” Efésios 2.9. Uma vida assim todos nós estamos a procura. Portanto: Façam todo o esforço para conservar a unidade do Espírito pelo vínculo da paz.” Efésios 4.3.

terça-feira, 26 de junho de 2012

O princípio da solidariedade / The principle of solidarity / El principio de solidaridad

Certa vez Betinho disse que solidariedade não se agradece, comemora-se. Nunca se falou tanto em solidariedade. Empresas se especializam em desenvolver programas que promovam a solidariedade. A razão para isso é a necessidade latente de uma mudança de atitude que traga novas perspectivas para hoje, diante de tantas carências. Porém, cada vez mais se compreende que há recursos suficientes para todos. O problema é que vivemos num mundo marcado pela individualização e pela globalização. A lógica que rege as relações é voltada para o consumo, para a ganância e para a competição.
A solidariedade é um valor que orienta a ação humana a partir do sentimento de identificação com o outro com a finalidade de permitir a vida em comunhão, em que são fortalecidos o respeito mútuo e o sentido de realização pessoal. Nasceu da necessidade da vida em comum, que se acentua com o surgimento do ideal de civilização. Mas mesmo nas sociedades menos desenvolvidas já se veem os princípios da vida solidária entre os pertencentes do mesmo grupo.
Esse é um ideal humano antigo. O primeiro princípio constitucional da república brasileira é o de construir uma sociedade livre, justa e solidária. Aristóteles já compreendia em seu tempo que ninguém pode bastar-se a si mesmo. “Aquele que não precisa dos outros homens, ou não pode resolver-se a ficar com eles, ou é um deus, ou um bruto”, disse. Na Utopia de Thomas More defendeu-se a ideia de que a natureza “quer que o bem-estar seja igualmente dividido entre todos os membros do gênero humano, e, desse modo, adverte-nos que não devemos perseguir os nossos interesses à custa da infelicidade alheia.” Para Dürkheim, a solidariedade é como as pessoas se mantêm unidas na dinâmica da vida social, como um sentimento de pertença e de semelhança.
A Bíblia toda ensina a sermos solidários. Há muita sabedoria nessa afirmação: “Aquele que oprime o pobre com isso despreza o seu Criador, mas quem ao necessitado trata com bondade honra a Deus”, Provérbios 14.31. O profeta Isaías chegou a questionar qual seria a melhor maneira de agradar a Deus: “Não é partilhar sua comida com o faminto, abrigar o pobre desamparado, vestir o nu que você encontrou, e não recusar ajuda ao próximo?” Isaías 58.7.
Jesus ensinou que o princípio da nossa ação deve ser orientado pela maneira como gostaríamos de ser tratados se estivéssemos na mesma situação do outro. Para Jesus, solidarizar é colocar-se no lugar do outro. Ele disse no Sermão do Monte: “Assim, em tudo, façam aos outros o que vocês querem que eles lhes façam; pois esta é a Lei e os Profetas”, Mateus 7.12.
Precisamos construir juntos uma nova experiência de Deus em que sejam superadas a desigualdade e a injustiça, em que o sentido de propriedade e de liberdade ganhe uma nova conotação que estimule a vida em comunidade. É possível a construção de uma sociedade solidária? Seguindo a lógica da competição vigente na atualidade, não. Mas seguindo a orientação do Espírito Santo, sim. Foi isso que os primeiros cristãos experimentaram.
Solidariedade é o tema da pauta por um mundo melhor. Entretanto, para usar uma expressão de Antoine de Saint-Exupéry, “a verdadeira solidariedade começa quando não se espera nada em troca.” Apenas por desejarmos uma vida mais humana, tal como Deus sonhou para nós.

quinta-feira, 31 de maio de 2012

O princípio para compartilhar / Sharing principle / Principio de compartir

Há uma antiga história que conta que Deus um dia convidou um rabino para conhecer o céu e o inferno. Ao abrirem a porta do inferno, viram uma sala em cujo centro havia um caldeirão no qual se cozinhava uma suculenta sopa. Em volta dele, estavam sentadas pessoas famintas e desesperadas. Cada uma delas segurava uma colher de cabo tão comprido que lhe permitia alcançar o caldeirão, mas não suas próprias bocas. O sofrimento era imenso. Em seguida, Deus levou o rabino para conhecer o céu. Entraram em uma sala idêntica à primeira, havia o mesmo caldeirão, as pessoas em volta, as colheres de cabo comprido. A diferença é que todos estavam saciados. “Eu não compreendo”, disse o Rabino, “por que aqui as pessoas estão felizes, enquanto na outra sala morrem de aflição, se é tudo igual?” Deus sorri e responde: “Você não percebeu? É porque aqui eles aprenderam a compartilhar.”
Compartilhar significa participar junto com o outro, dividir o mesmo espaço, desfrutar do mesmo direito. A mentalidade consumista substituiu a ideia de compartilhar pelo ato de dar. A diferença é grande. A ideia de dar tem em si mesma a noção de propriedade. Você dá do que tem, de acordo com o seu critério de administração dos seus bens. Tem o sentido de caridade ou gratidão. E isso é um conceito falso quando o que está em jogo é a vida do outro.
Jesus ensinou isso aos seus discípulos: “Vocês receberam de graça; deem também de graça.” Mateus 10.8. Esse é o princípio do compartilhamento. Jesus enviou seus discípulos a fim de que estes levassem a pessoas perdidas uma mensagem de encorajamento e esperança. Jesus estava certo de que as pessoas precisam de outros meios para superarem sua própria aflição, que não podem ser comprados ou adquiridos para servirem como nossa propriedade exclusiva. A mídia tenta nos mostrar que, para nos sentirmos realizados, precisamos emagrecer, cuidar da pele, trocar de carro, mudar a mobília da casa ou consumir determinados produtos. Jesus, porém, nos convida a descobrir que nós precisamos de algo maior para nossa realização que não tem nada a ver com uma mentalidade consumista e pode ser compartilhado por todos aqueles que desfrutam de sua graça. Isso tem a ver com os valores, o conhecimento, a esperança e a fé com que orientamos a nossa vida.
Precisamos compartilhar valores como a melhor maneira de superar a intolerância e o preconceito. Os valores estão relacionados com a maneira como construímos a felicidade. Ter uma noção clara de valores é saber de fato quem você é. Você compartilha seus valores quando se abre para um relacionamento com o outro.
Precisamos compartilhar conhecimento como a melhor maneira de superar a ignorância. O conhecimento tem a ver com a memória. É com o conhecimento que armazenamos um conjunto de informações e modelos que nos auxiliam na hora de fazer escolhas. O conhecimento de que necessitamos vem mais da vivência do que de um programa sistemático de ensino. Ele deve visar o desenvolvimento de competências e habilidades. Você compartilha conhecimento quando abre a sua mente para novas possibilidades de compreender a realidade.
Precisamos compartilhar a esperança como a melhor maneira de superar a dor. A esperança nos dá sentido para a vida, nos aponta um caminho a seguir mesmo quando tudo parece impossível. Pessoas que têm esperança não desistem de seus sonhos e consegue realizar projetos até o fim. Você compartilha esperança quando encoraja outros a também não desistirem de seus sonhos e os estimula a seguir adiante.
Precisamos compartilhar a fé como a melhor maneira de superar angústia. A fé nos ajuda a entender que a vida como está pode se tornar melhor, que Deus sempre tem um plano melhor. Ter uma vida de fé é mais do que desenvolver uma experiência religiosa. Embora religião e fé estejam inter-relacionadas, precisamos aprender a distinguir o que é a essência da fé e a expressão da fé. Você compartilha a fé quando oferece a sua própria história de vida como um exemplo de mudança.

LinkWithin

Related Posts with Thumbnails