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sexta-feira, 23 de agosto de 2024

Igreja humana, demasiadamente humana / Human church, all too human / Iglesia humana, demasiado humana

“[...] mas Cristo é tudo e está em todos” (Colossenses 3.11).

A igreja é uma comunidade de seres humanos que têm em comum a disposição de serem seguidores dos ensinos de Jesus de Nazaré, que se congregam em torno do seu nome e assumem o compromisso de levarem adiante a causa do Reino de Deus no poder do Espírito Santo.

É imprescindível que a Igreja que se afirma como uma comunidade de seguidores de Jesus se pareça mais com ele do que com a mentalidade que rege a contemporaneidade, que é individualista, gananciosa e competidora.

Há três fatos que estão relacionados à igreja. Primeiro, ela é uma comunhão de pessoas que atenderam ao convite amoroso de Deus. Segundo, os participantes da igreja têm a tarefa de encarnar a mensagem de Jesus na vida. E terceiro, a vida de comunhão da Igreja é uma tarefa inacabada, que precisa sempre ser renovada, revitalizada e atualizada. Dito de outro modo, a igreja deve assumir a sua própriaco0ndição humana. Quando assume a sua humanidade, ela também se compromete com aquilo que promove a dignidade da pessoa humana.

Jesus declarou que tinha muitas pessoas que precisam ser alcançadas, mas que ainda não tinham sido alcançadas. “Tenho outras ovelhas que não são deste aprisco. É necessário que eu as conduza também. Elas ouvirão a minha voz, e haverá um só rebanho e um só pastor” (João 10.16). Em uma igreja mais humana, todos são tratados como filhos de Deus iguais.

A igreja se torna mais humana a medida em que se assemelha mais ao caráter de Cristo. O cerne da mensagem do evangelho é que Jesus é o enviado de Deus para assumir toda a nossa humanidade em sua encarnação, vida e morte. Ele se fez o humano demasiadamente humano.

Como afirmou Irineu de Lyon, no século II, Jesus assumiu toda a condição humana a fim de restaurar em sua vida toda a nossa humanidade. “O que não foi assumido pelo Verbo não foi redimido”, disse Irineu. Ele se fez como um de nós para que sejamos como ele é.

Paulo, em sua Carta aos Colossenses, relembra que a humanidade de Jesus foi o gesto divino para nos redimir de tudo aquilo que nos desumaniza. “Mas agora ele os reconciliou pelo corpo físico de Cristo, mediante a morte, para apresentá-los diante dele santos, inculpáveis e livres de qualquer acusação (Colossenses 1.22). A obra da redenção implica a restauração do que há de mais humano em nós.

Paulo tinha todos os motivos para compreender de forma prática a humanidade de Jesus. Ele estava preso em Roma por causa de sua fé e serviço a Cristo. Ele conheceu de perto as formas da maldade humana durante sua última viagem de Jerusalém a Roma como um prisioneiro.

Agora ele podia testificar com sua própria vida que não há nada mais importante para a fé do que trabalhar em favor da dignidade da vida em todas as suas formas.

A igreja de Colossos não era fruto direto do trabalho missionário de Paulo e provavelmente não fazia parte do seu círculo direto de cuidado e de relacionamento. No entanto, ele escreve uma carta por causa de Epafras, provavelmente um dos fundadores daquela comunidade de fé (Colossenses 1.7). Ele também havia se tornado um cooperador no cuidado com a igreja e um companheiro de Paulo em sua prisão (Filemom 1.23).

A atuação de Paulo em favor dos colossenses incluía outras igrejas da região como a de Laodiceia (Colossenses 2.1) e Hierápolis (Colossenses 4.13). Por essa razão, a carta servia para ambas as igrejas. Paulo fala ainda de uma carta aos laodicenses, que se perdeu.

Através da Carta aos Colossenses podemos fazer uma leitura de nossas próprias ações como seguidores de Jesus que vivem num mundo marcado por tantas formas que nos desumanizam. O objetivo é fazer com que nos tornemos participantes ativos de uma comunidade de pessoas que assumem o compromisso de se tornaram mais humanos, demasiadamente humanos.

terça-feira, 6 de junho de 2023

Desafio para a obra missionária: o lugar do outro / Challenge for missionary work: the place of the other / Desafío para la obra misionera: el lugar del otro

A obra missionária, tal como a conhecemos hoje, é resultado de estratégias que o cristianismo desenvolveu a partir da colonização. As atividades missionárias, via de regra, são definidas com termos retirados das práticas de intervenção desenvolvidas pelo colonialismo ocidental. Expressões como cruzada, conquista e campo missionário são representativas dessa forma de lidar com a evangelização mundial.

O maior desafio da obra missionária em pleno século 21 é resgatar o sentido do envio que está presente no discurso de Jesus e dos primeiros cristãos. Não se tratava de implantar um domínio ou um novo princípio moral, mas de se viver o evangelho da graça de forma plena no contexto de uma nova cultura como testemunhas do amor de Deus. Por essa razão, os primeiros seguidores de Jesus foram chamados de cristãos, por serem as melhores representações de Cristo no mundo.

Fazer missão é fazer um movimento na direção do outro, para dentro de sua realidade concreta de vida no mundo. A principal tarefa da obra missionária, que é evangelizar, não se restringe a conquistar novos adeptos para a religião cristã. Evangelizar é anunciar a boa notícia de que uma nova vida é possível.

O mundo em que a igreja está inserida é completamente diferente tanto dos cristãos primitivos quanto da época das conquistas territoriais do Ocidente e do desenvolvimento das estratégias de missões modernas. Entretanto, a demanda por uma igreja que esteja em sintonia com as necessidades das pessoas permanece como um incômodo chamado para repensar o modo como realizamos a obra missionária hoje.

A igreja é a comunidade dos que são chamados a sair de sua posição de conforto e fazer um movimento para dentro do mundo, não para fora ou para longe dele. A palavra grega ekklesia lembra isso. Ela é iniciada com a preposição ek-, que tem o sentido de um movimento para fora.

A igreja se reúne para orar uns pelos outros, para cuidar uns dos outros, para encorajar uns aos outros e para instruir uns aos outros. Mas o espaço de reunião não é seu local de permanência. A igreja não existe para viver enclausurada num lugar sagrado. Ela existe para fazer diferença no mundo. A igreja só é igreja quando faz o movimento em direção ao outro em suas condições concretas de vida no mundo.

Quais são os desafios para a evangelização mundial e para a obra missionária no mundo atual? Podemos alistar algumas:

- Restaurar a dignidade humana.

- Promover justiça.

- Semear a paz.

- Reacender a esperança.

- Praticar o amor fraternal.

- Cuidar da vida em todas as suas formas e expressões.

Em resumo, o maior desafio da obra missionária em pleno século 21 é levar paz, consolo e esperança para quem enfrenta situações que colocam a vida em risco. Temas como mudanças climática, ameaças de guerra, fome e crise migratória demandam atitudes que emanam do evangelho da graça.

Quem almeja realizar a obra missionária tem o dever de estar antenado e bem informado sobre o que faz o outro sofrer. As causas do sofrimento não são apenas circunstanciais, mas também estruturais. O chamado de Jesus para missões implica levantar os olhos e ver os campos prontos para a colheita, sentir compaixão das pessoas que andam errantes como ovelhas sem pastor, ir às cidades pregar a boa nova do Reino de Deus. O mundo mudou, mas o chamado continua o mesmo.

sábado, 11 de março de 2023

Cartas para a igreja: as sete cartas do Apocalipse para hoje / Letters to the Church: The Seven Letters of Revelation for Today / Cartas a la Iglesia: Las siete cartas del Apocalipsis para hoy

O que Jesus diria para a igreja de hoje que vive no limiar do fim dos tempos? A humanidade nunca viveu tão próxima de sua própria extinção. Esse tema tem ocupado os meios de comunicação e acadêmicos há algum tempo, com estudos, diagnósticos e até previsões de um fim catastrófico para a vida no planeta.

Um desses recursos é o relógio do Apocalipse, um contador de tempo simbólico que existe desde 1947 (criado pelo comitê que organiza o Boletim dos Cientistas Atômicos da Universidade de Chicago), que aponta para o fato de que vivemos a poucos minutos do fim catastrófico da vida no planeta provocado por uma guerra nuclear. Esse relógio conta os minutos que falta para o que chamam de “meia-noite”, o momento crucial para o qual convergem decisões políticas, sociais, econômicas, diplomáticas e militares globais somados aos acontecimentos ligados à mudança climática, pandemias, terrorismo e até o uso de inteligência artificial.

No começo do ano de 2023, o relógio do Apocalipse, também chamado de Relógio do Juízo Final ou Doonsday Clock, chegou a apontar que faltavam apenas 90 segundos para a catástrofe final que exterminaria com a civilização, sobretudo após a invasão da Ucrânia pela Rússia em 24 de fevereiro de 2022. Desde 1991, quando o relógio marcava 17 minutos, esse tempo vem sendo reduzido, indicando que vivemos o risco iminente de um conflito de proporções globais. Nunca estivemos tão próximos da meia-noite. Isso tem levado a um apelo insistente para que governos, órgãos de defesa, instituições que visam promover a paz e até grupos humanitários atuem para que a ameaça de uma catástrofe nuclear seja afastada.

O que a igreja tem a ver com isso? Qual a mensagem que cristãos e cristãs têm a dar para o mundo diante das crises globais? O que Jesus diria para a sua igreja sobre como viver em comunhão, servir, testemunhar, celebrar e até evangelizar em dias tão complexos? Essas questões nos remetem para o final do século I da Era Comum, quando a fé cristã se deparou com situações que lembravam os discursos escatológicos de Jesus nos evangelhos. Para aqueles primeiros seguidores de Jesus, seria fácil presumir que viviam os tempos do fim.

Eram tempos de perseguição, intolerância religiosa e até de desigualdade social. A maioria dos frequentadores da igreja era de origem escrava, despossuídos e excluídos da vida social. Mesmo assim, representavam uma ameaça ao poder imperial romano, pois eram confundidos como subversivos em relação às leis que obrigavam o culto ao imperador. Isso fez com que sofressem a mais sangrenta perseguição da história do cristianismo.

Um importante documento dessa época encontra-se no livro do Apocalipse de João. Em sua experiência com a revelação divina, o Apóstolo João é orientado a escrever a sete igrejas de sua área de atuação a fim de que cristãos e cristãs fossem consolados e encorajados a viverem a fé uma vez dada aos santos sem desanimar. Trata-se de um trecho, abrangendo os capítulos 2 e 3, que contém as sete cartas às igrejas do Apocalipse, ou sete cartas às igrejas da Ásia Menor (atual Turquia), a região onde elas se encontravam.

São pequenos recados, que continham elogios e exortações, repreensões e promessas. Cada igreja vivia aqueles momentos angustiantes a partir do lugar onde foram construídas, em suas inter-relações com a sociedade e em suas condições internas de vida em comunidade. Para cada uma dessas igrejas, João ressalta aspectos sobre como podemos enfrentar tempos difíceis sem perder a fé e a esperança, sem deixar de se colocar como agentes da graça num mundo onde há tanta maldade e engano.

O que a comunidade da fé enfrentava não era o fim. Apesar da dor, das perdas, do sofrimento, da perseguição, da insjustiça e da desigualdade social, aquela situação não era final. A igreja precisava ser lembrada da missão de Deus entregue a ela por Jesus, de ser testemunha da graça em qualquer circunstância. Os problemas não tinham o poder de dar a palavra final sobre a vida, sobre a prática do amor, sobre a disposição de seguir Jesus, sobre a vida em comunhão, sobre a solidariedade, sobre a generosidade, sobre a vida cristã autêntica e tantos outros temas tão caros à fé cristã, mais até do que princípios doutrinários, tradições e dogmas.

Cristãos e cristãs precisam ser lembrados que quem tem a palavra final sobre a vida é Deus, mesmo nos dias atuais. Embora vivamos o risco de um fim iminente, a fé lembra que quem conduz o curso da história é Deus e a esperança aponta para o fato de que no fim Ele já está lá. Como viver essa fé e essa esperança como seguidores de Jesus hoje? As cartas do Apocalipse também nos ensinam a conduzir a vida a partir dos ensinos de Jesus.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2023

Fé cristã e esfera pública: uma hermenêutica a partir de Romanos 13.1 / Christian faith and the public sphere: a hermeneutics from Romans 13.1 / La fe cristiana y la esfera pública: una hermenéutica desde Romanos 13.1 /

A ética baseada no amor envolve uma expressão pública. Isso quer dizer que a vida pela fé tem implicações sociais e políticas. A nossa atuação como cristãos nos espaços públicos deve corresponder a uma cidadania consciente.

Todos devem sujeitar-se às autoridades governamentais, pois não há autoridade que não venha de Deus; as autoridades que existem foram por ele estabelecidas” (Romanos 13.1).

A ação cristã não é anarquista, subversiva, fascista ou totalitária. Entretanto, ela não é acrítica, indiferente ou alienada. Ela promove a cidadania responsável e consciente, está ao lado da justiça e do direito e coopera com a sociedade para a superação daquilo que lhe causa mal.

Paulo lembra o papel do Estado e do cidadão:

a) Papel do Estado: cuidar do bem comum como expressão do cuidado divino.

[... A autoridade] serva de Deus, agente da justiça para punir quem pratica o mal” (Romanos 13.4).

b) Papel do cristão como cidadão: cooperar com o Estado para a realização do bem comum.

“[...] é necessário que sejamos submissos às autoridades, não apenas por causa da possibilidade de uma punição, mas também por questão de consciência” (Romanos 13.5).

A recomendação para a “submissão” às autoridades não é universal, absoluta ou cega. Mas uma atitude crítica em relação às leis vigentes e os propósitos divinos. Não cabe ao cristão uma submissão subserviente ao Estado totalitário, tirano, ditatorial ou despótico.

A desobediência civil passa a ser um dever cristão diante de leis injustas, quando o Estado deixa de cumprir o seu papel e quando os critérios políticos estão distantes dos valores do Reino de Deus. Desobediência civil não é rebelião, mas resistência à opressão promovida pelo Estado.

Exemplos de desobediência civil: Mahatma Gandhi, Martin Luther King Jr. e Desmond Tutu, que eram religiosos.

(Extraído da apostila Espiritualidade Contagiante: Estudo bíblico na Carta aos Romanos, disponível em PDF no blog da igreja da Orla Oceânica: http://orlaoceanica.blogspot.com/p/lideranca.html

domingo, 2 de agosto de 2020

O Reino entre nós / El reino entre nosotros / The Kingdom Among Us


“[...] eis que o reino de Deus está entre vós” (Lucas 17.21).
 Jesus disse que o seu Reino não é deste mundo (João 18.36), mas é a esfera de realização da vontade de Deus entre nós (Mateus 6.10). Jesus ensinou seus discípulos a orarem assim, a buscarem o Reino (Mateus 6.33), que o Reino pertence aos pobres (Lucas 6.20), aos que sofrem perseguição por causa da justiça (Mateus 5.10) e às crianças (Mateus 19.14), dado aos humildes como um presente divino (Lucas 12.32). Essas afirmações de Jesus nos permitem entender que o Reino de Deus é uma esfera de cuidado: cuidado de Deus pela humanidade e cuidado para com o próximo.
O Reino de Deus abrange a integralidade de nossas relações na esfera pública. Não é uma experiência exterior, subjetiva, mas algo que se realiza em nossos espaços de convivência e de existência. Por essa razão, o Reino de Deus tem uma dimensão social e política, visto que nos impulsiona a viver publicamente a nossa humanidade como pessoas libertas e conduzidas em uma nova experiência de vida no Espírito.
Não se trata de uma ruptura com o mundo, mas da imersão do divino e do sagrado em nossas relações. É um acontecimento histórico que oferece oportunidades de contemplar a presença salvífica do Senhor no mundo, que traz vida e libertação a todos. Mas também é um acontecimento cósmico, pois restaura a esperança de redenção para toda a criação.
O Reino de Deus implica uma proposta de transformação do mundo a partir da mudança da pessoa, trazendo novos valores, princípios e condutas. Para entrar no Reino de Deus é preciso romper com o reino do mundo, dominado por estruturas de poder, sistemas de dominação e sentimentos de ganância. Não existem vínculos possíveis com formas de governo ou de domínio, nem mesmo em nome de uma supremacia divina. Tentativas humanas de implantar o Reino de Deus na Terra sempre resultaram em alienação, exploração e opressão, sobretudo dos mais vulneráveis.
O convite para entrar no Reino é amoroso, e requer acolhida em amor. A vida no Reino é voltada para a prática da justiça, para a promoção da paz, para a vida em comunhão, para o bem de toda a criação e para a construção de uma nova alegria de viver. Jesus garantiu que o Reino não vem de forma espetacular nem pode ser notado em um lugar ou outro: “[...] O reino de Deus não vem com aparência exterior. Nem dirão: Ei-lo aqui, ou: Ei-lo ali [...]” (Lucas 17.20,21). Não é algo que está num céu distante, nem mesmo num determinado lugar ou num tempo da história. A realidade do Reino perpassa toda relação humana e se manifesta como ação redentora que nos habilita para uma vida digna no mundo e nos prepara para a vida eterna com Deus.
Pertencer a esse Reino implica abraçar a proposta do Evangelho de viver neste mundo com uma nova mentalidade, aquela que coloca a vida a serviço do outro e que tem o cuidado de promover o bem comum. Serviço e cuidado são duas faces de nossas ações como cidadãos do Reino: servimos uns aos outros em espírito de solidariedade e cuidamos uns dos outros como participantes da unidade do corpo de Cristo. Servir e cuidar são expressões de entrega, renúncia e doação de si em favor da dignidade da vida. Jesus também ensinou seus discípulos a fazerem assim. Ele também disse que em seu Reino os maiores são aqueles que servem. E quem serve cuida.

sexta-feira, 27 de março de 2020

Como cristãos enfrentam grandes epidemias? / How do Christians face major epidemics? / ¿Cómo enfrentan los cristianos grandes epidemias?


Uma das decisões que a maioria dos países tem tomado para tentar impedir a propagação do Coronavírus é a orientação para evitar as aglomerações e o contato social. Sem levar em consideração toda consequência social e econômica que tal decisão provoca, isso afeta diretamente a forma de ser das igrejas, sobretudo as evangélicas, que se baseiam principalmente no relacionamento afetuoso, nas reuniões celebrativas e no contato físico do abraço, do aperto de mão e da troca de beijos. Muitos líderes se levantaram para desafiar essa medida, enquanto outros recomendam a prudência. Os primeiros alegam a liberdade de culto; Já para os segundos, a igreja pode demonstrar sabedoria para encontrar novas formas de adorar e de servir usando as novas tecnologias.
O problema não é novo. A história da humanidade é atravessada por pandemias, epidemias, pestes e pragas. Os cristãos nunca agiram de forma indiferente a elas desde o surgimento da igreja. Ao contrário, envolveram-se diretamente com cada problema de tal forma que a maneira como enfrentaram a doença, o contágio, o sofrimento e até a morte influenciou de forma decisiva o modo como a sociedade passou a compreender a fé cristã. O jeito como cristãos agiram em cada situação não só atraiu a simpatia das pessoas como também serviu de exemplo para decisões dos governos diante dos males.
Uma das primeiras grandes epidemias que envolveram a atuação dos cristãos ficou conhecida como Peste Antonina, no século II, ao tempo do imperador romano Marco Aurélio. Essa peste causou grande devastação em Roma, no ano 166, espalhou-se por toda a Itália e durou até o ano 189. O próprio imperador Marco Aurélio foi um dos infectados. Essa epidemia é considerada como um marco importante para o início do declínio do império romano como também para a aproximação da igreja cristã com o Estado.
Na época, surgiram duas lendas a respeito da origem da peste antonina: alguns achavam que ela foi provocada por punição divina por violarem a promessa de não saquearem a cidade de Selêucia; outros acreditavam que tudo começou quando uma tumba de ouro foi violada, no templo de Apolo, na Babilônia. Mas havia até quem culpasse os cristãos, pois teriam irritado aos deuses com sua mensagem e crescimento. Houve inclusive, em 177, um levante contra os cristãos, acusados que foram de canibalismo e incesto, conduzindo muitos à morte pela recusa a algumas leis romanas e por ofensa aos deuses.
Entretanto, a ação dos cristãos chamou a atenção das pessoas pela mensagem de esperança que proclamavam, em contraste com a mentalidade do medo e da punição. O discurso cristão apontava para o sentido da vida e da morte, mas também falava de esperança de superação das aflições nesta vida e na vida futura. E ainda havia o consolo para os familiares daqueles que morreram como cristãos, com a promessa de que receberiam uma recompensa no céu. Essa era a essência da mensagem da salvação pela fé em Jesus Cristo. Além do forte discurso salvífico, muitos cristãos arriscavam suas próprias vidas, expondo-se ao contágio, para levar consolo e cuidado para quem sofria o flagelo da doença. Enquanto o Estado romano e a sociedade em geral baniam os doentes para longe e os excluíam da convivência, os cristãos se ofereciam para cuidar deles.
No século III, uma nova peste assolou o Ocidente, de 249 a 262, ainda mais letal. O bispo Dionísio de Alexandria assim registrou sobre a atitude da sociedade em geral: “No início da doença, eles empurraram os doentes para longe e expulsavam seus próprios entes queridos de casa, jogando-os nas estradas, antes mesmo de morrerem, e tratando cadáveres não enterrados como terra, esperando assim evitar a propagação e o contágio da doença fatal; mas, mesmo fazendo tudo o que podiam, achavam que seria difícil escapar”. Os cristãos, porém, serviam aos doentes e muitos morreram contaminados. Isso serviu de testemunho vivo sobre o amor e a misericórdia cristãos. Assim se expressou o bispo Dionísio: “Muitos de nossos irmãos cristãos mostraram amor e lealdade ilimitados, nunca poupando a si mesmos e pensando apenas no seu próximo. Indiferentes ao perigo, eles cuidaram dos enfermos, atendendo a todas as suas necessidades e ministrando-os em Cristo, e com eles partiram desta vida serenamente felizes; pois foram infectados por outros com a doença, provocando em si mesmos a doença de seus vizinhos e aceitando alegremente suas dores”. E, na biografia de Dionísio, foi registrado: “Não há nada de extraordinário em apreciar meramente nosso próprio povo com as devidas atenções de amor, mas esse alguém pode se tornar perfeito, que deve fazer algo mais do que homens ou publicanos pagãos, alguém que, vencendo o mal com o bem, e praticando uma bondade misericordiosa como a de Deus, deveria amar seus inimigos também… Assim, o bem foi feito a todos os homens, não apenas à família da fé”.
Essa demonstração de cuidado amoroso e serviço altruísta impactou o mundo ocidental e promoveu um crescimento exponencial da igreja à medida que aqueles que foram beneficiados pela maneira como foram cuidados se convertiam. Enquanto a preocupação da sociedade em geral era com se preservar e se proteger, os cristãos se ofereceram para servir a todos num espírito de comunhão, sem preconceito e sem distinções, aproveitando aquela oportunidade para testemunhar a nova vida em Cristo.
Um gesto que deixou marcas na história foi a criação das santas casas de misericórdia. Em 1498, surgiu em Lisboa, a primeira delas, criada pela Rainha Leonor, viúva do Rei Dom João II, para cuidar dos doentes e inválidos em uma época de muitas tragédias provocadas por guerras e epidemias. Era também o tempo dos grandes descobrimentos. A ordem religiosa que foi criada para cuidar das santas casas era formada por pessoas movidas por um sentimento de solidariedade. Logo elas se espalharam pela Europa, Ásia e África, chegando também às Américas. Atualmente, existem mais de 2.000 santas casas em diversas cidades do Brasil.
Em 1527, Lutero foi indagado sobre como cristãos deveriam se portar diante de uma “praga mortal”. O mundo já havia experimentado a peste negra dois séculos antes, que varreu a Europa. Ele escreveu, por essa razão, uma carta intitulada Se Alguém Deve Fugir de uma Praga Mortal, na qual trata das responsabilidades dos cristãos em tempos de calamidades, principalmente quando se refere a pestes e pragas. O cuidado com os doentes não se limita aos profissionais de saúde. Os ministros são exortados a cuidarem dos mais doentes, dos moribundos e dos fragilizados, a fim de promover consolo e encorajamento. Ele desafiou aos cristãos em geral a encontrarem oportunidades de cuidarem dos doentes como se estivessem cuidando do próprio Cristo. Mas ele também orientou aos fiéis a agirem com prudência e a não se exporem ao perigo sem necessidade. O cristão tem o dever de cuidar do seu corpo como um exercício de santidade. Ele defendia que cristãos deveriam respeitas as medidas sanitárias e as quarentenas, cuidados pessoais com a higiene e a buscar socorro médico em caso de necessidade. Ele compreendia que Deus deu sabedoria aos médicos para saberem cuidar das pessoas da mesma forma que deu os remédios como dádivas para nossa saúde.
Durante essa nova pandemia no mundo, cristãos de todas as partes reagem de forma a colocarem suas vidas a serviço do cuidado. Há uma mobilização de igrejas e pastores responsáveis para encontrar formas criativas de manterem a adoração e a comunhão usando as novas tecnologias, mas sem abrirem mão de cuidarem uns dos outros respeitando as práticas de higiene e prevenção recomendadas pela Organização Mundial de Saúde. Quem se coloca contrário a isso recebe severas críticas e reprovações. Um dos exemplos vem da cidade de Bérgamo, na Itália, que registrou a morte de sete padres numa semana por terem contraído o Coronavírus e contraído a doença durante a prática da confissão e do cuidado com os enfermos. O bispo local, monsenhor Francesco Beschi, assim se pronunciou: “a generosidade dos sacerdotes continua, estamos próximos das pessoas, com as devidas precauções, mas conscientes de que, por um lado, carregamos Jesus e, por outro, podemos tornar-nos portadores do vírus”.
Agora, quando o mundo inteiro é afetado pela pandemia do Coronavírus e a doença Covid-19, os cristãos são chamados mais uma vez e desafiados a se colocarem a serviço dos que se encontram aflitos. Esse não é um momento de angústia ou de medo, mas de assumir o desafio da comunhão, do serviço e do testemunho. Na parábola das ovelhas e dos bodes, Jesus disse às ovelhas: “estive doente e vocês cuidaram de mim”. E todos perguntaram: “quando te vimos doente?”. Aos justos, Jesus respondeu: “o que vocês fizeram aos meus menores irmãos, a mim o fizeram” (Mateus 25.36, 39 e 40).

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

Como cuidar da igreja em tempos pós-modernos? / How to take care of the church in postmodern times? / ¿Cómo cuidar de la iglesia en los tiempos posmodernos?


A igreja de Jesus precisa de cuidados. Mas, quem tem o dever de cuidar da igreja? Responder que Deus cuida da sua igreja é, ao mesmo tempo, uma verdade e uma fuga. Sim, Deus cuida da sua igreja de tal modo que as portas do inferno não prevalecem contra ela. Mas ele também entregou a tarefa de cuidar da igreja a pessoas.
Se a igreja chegou até aqui nesses dois mil anos de sua existência, é porque alguém cuidou dela. Ela foi administrada, nutrida, protegida e atualizada pela ação de pessoas. E, para continuar avançando, alguém precisa assumir o seu cuidado hoje. Chegou a vez de essa geração atual fazer a sua parte.
A igreja tem uma história e está presente na história. Ela enfrentou e promoveu perseguições, teve adversários e defensores, recebeu críticas e elogios. A igreja, em toda a sua história, nunca experimentou um período sem passar por situações de tensão. Martírio, oposições, preconceitos, crises internas, ameaças, ataques e conflitos sempre fizeram parte da caminhada da igreja em toda parte.
A história da igreja não é a dos vencedores, mas a de um movimento em processo de construção em todo o tempo. Cada situação de tensão desencadeou novas formas de organização, de percepção do mundo e de crença que deixaram marcas profundas. Muitos pagaram um alto preço com suas próprias vidas, foram incompreendidos, rejeitados e até viveram como peregrinos para manterem viva a fé em Jesus Cristo.
A história da igreja é marcada por aqueles que se dedicaram em manter viva a fé uma vez dada aos santos. Ela se confunde com a história humana de tal modo que não dá para compreender uma sem estabelecer vínculos com a outra. A cultura ocidental, especialmente, está impregnada da presença da igreja e de sua mensagem.
Cada um que cuidou da igreja em sua caminhada exerceu um importante papel na consolidação de seus propósitos. Em todo tempo, a igreja avançou por causa das pessoas que foram usadas por Deus para cuidar dela e permitir o cumprimento da sua missão no mundo. Nem sempre isso se deu da forma ideal ou desejada, mas todos quantos atuaram ao longo do tempo contribuíram para o cuidado da igreja.
Se fizermos um levantamento do que esses cuidadores da igreja fizeram, vamos verificar que há cinco coisas comuns a todos eles, independentemente de como ou o que tenham realizado. De um modo geral, todos eles estiveram envolvidos com o serviço voluntário, com o esforço de viver em comunhão, com o compromisso de cooperação, com a vida de oração e com o testemunho pessoal.
Como essas formas de cuidado com a igreja podem se dar num tempo como o nosso, em meio às condições de existência num mundo marcado pela pós-modernidade? O voluntariado, a comunhão, a cooperação, a oração e o testemunho são praticados pelos cristãos desde o surgimento da igreja no mundo. Os primeiros seguidores de Jesus se constituíram em comunidades locais para servirem uns aos outros e para cumprirem a missão de Deus no mundo como resposta ao chamado de Jesus. E ainda hoje essas atitudes continuam sendo necessárias para manterem vivas essas comunidades de fé.
A pós-modernidade é caracterizada principalmente tanto pelo fim dos discursos hegemônicos modernos como também pela suspeita em relação às instituições que estabeleceram os saberes considerados como verdades absolutas. A igreja é uma dessas instituições sob suspeita. A superação desse enfrentamento não se dá pela defesa de discursos consolidados na modernidade, nem mesmo dos que foram construídos e difundidos desde o período medieval. A relevância da igreja será atestada pela maneira como seus seguidores vivem em comunhão, colocam suas vidas a serviço do bem comum e encarnam a mensagem do evangelho em suas próprias vidas.
Pessoas que servem voluntariamente, que vivem em comunhão umas com as outras, que cooperam com a vida e com recursos, que sustentam umas às outras em oração e que dão bom testemunho da graça de Deus em suas vidas são verdadeiras bênçãos para a expansão da fé no mundo. A igreja que Jesus sonhou não combina com ministros profissionais, grandes ajuntamentos, vendas de serviços e utensílios, aproximação com o poder ou mesmo com a dominação. A igreja de Jesus é aquela que se faz presente no mundo como corpo de Cristo para trazer a boa notícia do amor de Deus a todos e todas.

domingo, 25 de agosto de 2019

O Espírito da Evangelização/ The Spirit of Evangelization / El espíritu de la evangelización


A evangelização é uma característica básica e essencial da ação pastoral cristã. O verbo “evangelizar” designa o ato de anunciar a boa notícia a respeito da mensagem e vida de Jesus. Aquele que prega o evangelho é chamado de “evangelista”. A própria palavra evangelho vem de uma expressão grega que quer dizer “boa notícia”. Ela foi usada pelo primeiro evangelista, Marcos, para designar o conjunto de relatos a respeito de Jesus Cristo.
O sentido bíblico da evangelização é anunciar a boa notícia de que Deus ama a toda criação com a voz e com a vida. Essa relação entre palavra e ação é que consiste na essência da evangelização. Teólogos ligados à área de missão concordam em afirmar que a evangelização se dá através do diálogo e da comunicação, visto que ambas as atividades estão interligadas. Uma está presente na outra. Não há comunicação possível onde não há diálogo, assim como não há diálogo quando não há algo relevante para se comunicar.
A mensagem de salvação trazida pelo evangelho é sempre nova para um mundo que se perdeu de si mesmo. Ao longo da história humana, as várias tentativas de encontrar solução para os dilemas vividos pela humanidade resultaram em fracassos. Podemos dizer que nenhuma corrente de pensamento, teoria ou mesmo religião encontrou uma resposta para o conflito humano. A boa notícia é que o cristianismo remete à relação com uma pessoa, que assumiu plenamente o humano em sua vida e ensino, e que essa relação produz salvação, libertação e vida. A boa notícia é um convite amoroso para seguir Jesus Cristo como caminho, verdade e vida.
Evangelizar é uma ação para a qual o Espírito Santo capacita a todo que é alcançado pela graça. Todo cristão é, por natureza, um evangelista. Não é uma chamada especial, como uma vocação, mas um jeito de viver o evangelho de tal modo que a própria maneira como realizamos o diálogo com o mundo e nos aproximamos das pessoas para servi-los já é anúncio do evangelho.
Jesus delegou a obra da evangelização aos seus discípulos como uma tarefa urgente. Em Mateus 24.14, Jesus diz que a pregação do evangelho a todas as pessoas é um prenúncio do fim: “E este evangelho do Reino será pregado em todo o mundo como testemunho a todas as nações, e então virá o fim”. E em João 9.14, ele diz para aproveitarmos a ocasião para trabalhar pelo evangelho: “Enquanto é dia, precisamos realizar a obra daquele que me enviou. A noite se aproxima, quando ninguém pode trabalhar”. Durante seu ministério, Jesus capacitou, comissionou e enviou seus discípulos para pregar o evangelho.
O apóstolo Paulo, por sua vez, apresenta a tarefa da evangelização sob três aspectos: (1) evangelizar é um propósito: “Todavia, não me importo, nem considero a minha vida de valor algum para mim mesmo, se tão-somente puder terminar a corrida e completar o ministério que o Senhor Jesus me confiou, de testemunhar do evangelho da graça de Deus” (Atos 20:24); (2) evangelizar é uma obrigação “Contudo, quando prego o evangelho, não posso me orgulhar, pois me é imposta a necessidade de pregar. Ai de mim se não pregar o evangelho!” (1 Coríntios 9.16); (3) e também é uma necessidade: “Mas, que importa? O importante é que de qualquer forma, seja por motivos falsos ou verdadeiros, Cristo está sendo pregado, e por isso me alegro. De fato, continuarei a alegrar-me” (Filipenses 1.18). Para essa tarefa, todo tempo é oportuno: “Pregue a palavra, esteja preparado a tempo e fora de tempo [...]” (2 Timóteo 4.2).
Trilhar o caminho da fé é, acima de tudo, ser um anúncio vivo do que Jesus Cristo realiza. Quando os discípulos de Francisco de Assis perguntavam-lhe sobre como seria a obra da evangelização, ele dizia: “pregue o evangelho, se necessário use palavras”. Nada fala tão alto a respeito da mensagem de Jesus do que a própria conduta daquele que afirma que crê e o segue. Crer em Jesus é abrir-se para um Outro, que nos interpela e nos remete de volta para o outro a quem devemos amar e servir.
As condições de vida no mundo nunca foram favoráveis à evangelização. A história da igreja é marcada pela perseguição quer seja de ordem policial, política ou ideológica. O cristianismo subsistiu diante dos cenários históricos dos mais hostis em todo o mundo. Por essa razão, sempre será um grave equívoco defender determinada bandeiras políticas, morais ou ideológicas. O cristão deve sempre ser portador da boa nova de salvação, um anunciador da justiça, da paz e da alegria que encontramos em Jesus Cristo.
É preciso ressaltar ainda que evangelizar não é alcançar adeptos, falar de uma doutrina, implantar uma ordem moral ou defender a religião. Evangelizar é dizer ao mundo com a voz e com a vida que há esperança para a humanidade perdida. É resultado de uma experiência de amor à vida, da alegria de fazer parte da família de Deus, de desenvolver uma espiritualidade engajada com as dores do mundo e uma disposição de assumir o lugar de intercessor daqueles que sofrem.

quinta-feira, 26 de julho de 2018

A igreja de Jesus / The Church of Jesus / La iglesia de Jesús


Jesus Cristo não criou a igreja tal como ela se configura hoje, como uma instituição dotada de liturgias, hierarquia, sistemas doutrinários e ritos. Ele reuniu um grupo inicial que contava com mais ou menos setenta pessoas que era capaz de mobilizar gente em torno de seus ensinos e de seus feitos milagrosos. A igreja que Jesus formou tinha mais a ver com a dinâmica dos relacionamentos do que com formas institucionais de organização.
Ele mesmo disse que edificaria sua igreja. Mas, o que Jesus tinha em mente quando se referiu à sua igreja? Com certeza não eram rituais, vestes, sacramentos, dias santos, clero ou santuário. Esses são representações elaboradas pelos seus seguidores carregadas de significados históricos construídos ao longo das muitas experiências culturais e de formas de expressão da fé. Jesus estava interessado em atrair pessoas para si e transformá-las em novas criaturas.
Em princípio, é preciso ter em mente que Jesus foi um judeu, criado por seus pais dentro dos costumes do judaísmo do seu tempo. Os evangelhos enfatizam que os fatos envolvendo a gravidez, o nascimento, a infância e a adolescência de Jesus foram marcados pela cultura dominada pela fé judaica. Lucas deixa claro que era “[...] conforme o costume” (Lucas 2:42). Mateus salienta que tais acontecimentos eram em cumprimento a profecias bíblicas.
Jesus foi consagrado no templo quando bebê de acordo com a tradição judaica. Ele possuía uma genealogia que só os judeus mais nobres poderiam relatar. Tinha uma proximidade com os mestres da religião desde o início de sua adolescência. Atuou como um mestre extraordinário, empregando habilidosamente recursos retóricos e didáticos do seu tempo. Era convidado a falar nas sinagogas, o que era uma prática comum aos fariseus. Dialogou com os doutores da lei e confrontou os fariseus por conhecê-los de uma forma bem peculiar, como quem tivesse intimidade com eles. Foi chamado por muitos de seus interlocutores de rabbi e por seus discípulos de rabbouni, termos que eram atribuídos aos mestres religiosos. Ele mesmo tratou seus primeiros seguidores como discípulos ou aprendizes.
Apesar disso – e talvez por isso mesmo –, Jesus confrontou as formas religiosas de seu tempo. Jesus nunca esteve preocupado em formar uma nova religião nem de criar uma instituição. Tudo o que sabemos hoje sobre igreja está presente nos ensinos dos apóstolos, nas cartas escritas por eles para dar direção ao movimento que a fé cristã foi ganhando à medida que expandia e avançava pelo mundo, sobretudo no Ocidente. Os discursos de Jesus, porém, falam mais de uma relação.
O foco de Jesus era criar as condições para a inauguração do seu Reino. Para isso, atraiu pessoas para conviverem com ele por um tempo. Ofereceu a essas pessoas ensinos e experiências que influenciariam suas condutas após a sua crucificação. Os ensinos não eram sobre teorias de liderança, fórmulas doutrinárias ou estratégias de crescimento, mas princípios para uma vida significativa no mundo. As experiências não eram voltadas para a prática de curas, atos religiosos ou exorcismos, mas para que eles tivessem uma vivência do que é ter uma vida marcada pela compaixão.
Quando se diz que a igreja de hoje precisa retornar ao tempo da igreja primitiva ou à dos primeiros apóstolos, penso que esse retorno deveria se dar para um pouco antes, para ouvir de novo o que Jesus tem a dizer sobre sua igreja. É preciso retomar os ensinos de Jesus, rever com mais atenção as narrativas sobre suas práticas com seus discípulos e redescobrir um novo jeito de ser igreja que esteja para além do domingo, do clero e do templo.
A igreja como conhecemos hoje passou e tem passado por muitas transformações. Não resta a menor dúvida de que toda mudança foi resultado da necessidade de agir no mundo, de encontrar modos de se cumprir missão, de dialogar com as expressões organizacionais de cada tempo. Para isso, ela tanto desenvolveu relações de poder como configurou um espaço onde fosse possível ter uma experiência de encontro. Algumas dessas formas foram cristalizadas e resultaram na multiplicidade de eclesiologias que conhecemos.
Jesus não estabeleceu regras para a continuidade histórica de sua igreja. Compreende-se que ele encarregou seus discípulos dessa responsabilidade. Para tanto, eles estariam livres em todo o tempo para encontrar maneiras de se reunir como povo de Deus e cumprir a missão que Jesus designou de levar a todo o mundo a boa notícia do amor de Deus a toda criatura.
A igreja precisa resgatar sua identidade de povo de Deus, deixar de ser um lugar para se ir para se tornar um modo de ser. Para isso, é preciso ouvir de novo o que Jesus tem a dizer sobre a comunhão daqueles que ele atraiu para si, aos quais ele quis que estivessem ligados a ele como ramos da videira, e não como adeptos de um segmento religioso.

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Celebrar a Reforma / Celebrate the Reformation / Celebrar la Reforma

A geração atual tem o privilégio de comemorar o quinto centenário da Reforma Protestante de uma forma única na história. Nunca antes o cristianismo pode celebrá-la tal como tem sido marcado, com conferências, publicações e reconhecimentos do mérito e do legado dos reformadores, envolvendo não só protestante, mas também católicos.
Há duas razões para isso. A primeira é a superação dos mal-entendidos produzidos pela contrarreforma católica, não só com as tentativas reformadoras do concílio de Trento, de 1545 a 1563, como também pelas campanhas difamatórias empreendidas pela igreja católica contra Lutero. Em 1529, Johannes Cochlaeus, que era um adversário do luteranismo e também o primeiro biógrafo de Lutero, descreveu o Reformador como “tendo sete cabeças”, filho “ilegítimo de Satanás”, “instrumento do demônio” que trouxe “à Alemanha e à cristandade a desgraça e a miséria” e “uma cópia humana de Lúcifer”. E essa foi a ideia que se nutriu por muito tempo.
A compreensão sobre a pessoa de Lutero só começou a ser alterada a partir do começo do século XX, com o trabalho do teólogo católico Yves Congar, que considerou a obra de Cochlaeus como “uma imundície que não pode ser desculpada nem mesmo pela intenção do autor de servir à sua igreja” (apud Elben M. Lenz Cesar, em Conversas com Lutero). Por ocasião do quinto centenário do nascimento de Martinho Lutero, em1983, o Papa João Paulo II escreveu uma carta ao cardeal Johannes Willebrands, então Secretário para a União dos Cristãos, sobre a necessidade de se chegar a uma compreensão “justa” sobre a imagem de Lutero como alguém que contribui decisivamente para as transformações da igreja no Ocidente. Recentemente, o atual Papa Francisco tem afirmado a necessidade de diálogo e aproximação entre católicos e protestantes em face das comemorações dos 500 anos da Reforma.
Quando a Reforma completou o seu primeiro centenário, a Europa estava mergulhada nos atos provocados pela inquisição católica. Somente entre os séculos XVI e XVII, os tribunais católicos efetuaram mais de mil execuções. A perseguição aos movimentos protestantes huguenotes na França e valdenses na Itália foi violenta. A repressão ao protestantismo ceifou milhares de vidas.
Quando a Reforma completou o seu segundo centenário, a Europa estava tomada por uma nova mentalidade científica. O Iluminismo nascente apregoava a superioridade da razão sobre a fé. Voltaire começava seus discursos sobre as liberdades civis e a necessidade de uma reforma racional, por meio do progresso da ciência e da tecnologia, em que a religiosidade não poderia mais ter lugar.
Quando a Reforma completou seu terceiro centenário, o mundo passava por uma grande transformação política e econômica. Emergia o conceito de estado burguês, assim como um crescimento vertiginoso da concentração de renda motivado pela revolução industrial. As antigas colônias buscavam sua emancipação, o capitalismo ampliava suas bases teóricas, o cientificismo tomava conta dos meios acadêmicos e o romantismo marcava a estética e a arte literária daquele tempo.
Quando a Reforma completou seu quarto centenário, o mundo estava em guerra. Era o auge da Primeira Guerra Mundial e as revoluções populares que levaram ao fim do czarismo na Rússia e às transformações sociopolíticas em todo o mundo. Pela primeira vez, as tropas usavam tecnologia para a destruição do inimigo. A humanidade, que havia sonhado com o tempo em que poderia voar e se locomover em maior velocidade, agora via o uso do avião, da metralhadora e do automóvel como armas de combate. É o começo do grande desencantamento e a afirmação do niilismo.
Quando a Reforma completa o seu quinto centenário, o mundo não está em paz e muito menos tem se transformado em um lugar melhor para se viver. Pela primeira vez, a humanidade se vê diante de uma possibilidade real de extinção em que a principal causa é o próprio homem. Problemas como o aquecimento global, a crise migratória, o crescimento da mentalidade de extrema direita e até as novas faces dos fundamentalismos religiosos colocam em risco a vida humana no planeta. Lembrar a Reforma e trazer de volta um sentido de espiritualidade que restaura a compreensão em um Deus de graça e misericórdia, que resgata o homem de sua própria perdição por meio da fé em Jesus Cristo.
Celebrar a Reforma hoje não pode se restringir a uma declaração ufanista de um movimento que deu certo, até por que teve seus problemas. É claro que deve haver um reconhecimento do importante papel que ela exerceu no campo da política, da economia, da teologia, da filosofia e das relações sociais. Entretanto, faz-se necessário compreender o espírito dos reformadores, que não quiseram apenas dividir a igreja, mas renová-la para enfrentar as grandes transformações que o mundo atravessava e que ainda vem atravessando.
Celebrar a Reforma tem um sentido de gratidão pela coragem dos primeiros reformadores, mas também de um chamamento a uma resistência à tendência de se prender a um conservadorismo paralisante, um moralismo discriminatório e a um fundamentalismo obscurantista. Celebrar a Reforma deve ser muito mais um ato de resistência às muitas formas de cercear a liberdade, de impor mais opressão e de exercício de totalitarismos. É promover a grande revolução que restaura o sentido de humanidade e que nos conduz a uma vida mais humana diante de Deus e uns dos outros.

terça-feira, 31 de outubro de 2017

O Futuro da Reforma / The future of the Protestant Reformation / El futuro de la Reforma Protestante

Após cinco séculos da Reforma Protestante, a pergunta que se levanta é: qual é o seu futuro? Isso remete a outras indagações: precisamos de uma nova reforma hoje? As transformações que o cristianismo precisa experimentar hoje são da mesma natureza das do tempo da Reforma de Lutero? As respostas a essas indagações são complexas e exigem um olhar crítico para o momento pelo qual a fé cristã atravessa no mundo.
As causas da Reforma são mais profundas do que os desvios morais e a corrupção do clero da igreja do Ocidente. Nas confissões protestantes – principalmente a luterana de Augsburg e a anglicana de Westminster –, haverá mais preocupação com questões teológicas do que morais, haverá mais ênfase à comunhão dos santos do que aos ofícios. “A tese segundo a qual os Reformadores teriam deixado a Igreja romana porque ela estava repleta de devassidões e impurezas é insuficiente”, dirá o historiador Jean Delumeau em Nascimento e afirmação da Reforma. Da mesma forma, as consequências da Reforma vão além do cisma na igreja ocidental. Ela se desdobra em novas conquistas sociais num mundo em grande transformação.
A Reforma Protestante trouxe uma nova perspectiva política, econômica e cultural num mundo em efervescência. Não se pode separar os acontecimentos da Reforma dos movimentos ligados à afirmação dos estados nacionais na Europa, do surgimento da economia de mercado e as raízes do capitalismo, da formação do pensamento liberal e o humanismo nascente. Os pensadores da Reforma dialogaram com as grandes correntes de pensamento de seu tempo e influenciaram de forma decisiva as ideias emergentes. A Reforma Protestante contribuiu para a uma nova compreensão do papel da cultura, do conhecimento e da participação social do indivíduo. Isso se deu a partir do esforço de trazer a Bíblia para as línguas nacionais, ao propor um projeto educacional extensivo às populações mais pobres e até ao fortalecer as formas de organização das sociedades que tiveram uma experiência reformista.
Karl Marx, em sua Crítica da filosofia do direito de Hegel, reconheceu: “Sem dúvida, Lutero venceu a servidão por devoção porque pôs no seu lugar a servidão por convicção. Quebrou a fé na autoridade porque restaurou a autoridade da fé. Transformou os padres em leigos, transformando os leigos em padres. Libertou o homem da religiosidade exterior, fazendo da religiosidade o homem interior. Libertou o corpo dos grilhões, prendendo com grilhões o coração”. Para ele, a Reforma foi um acontecimento revolucionário, que transformou a Alemanha, não como solução, mas como “o modo correto de colocar o problema”.
Se no período renascentista o cristianismo passava por uma crise interna que envolvia a moral e o exercício da autoridade eclesiástica, hoje há uma crise que tem mais a ver com a maneira como a fé cristã enfrenta os dilemas e as dores do mundo. Se as causas da Reforma diziam respeito a um retorno à essência do cristianismo, hoje há a necessidade de se buscar relevância. O que se faz necessário hoje não é uma “reforma”, mas uma revisão dos rumos, do discurso e da práxis do cristianismo. Se as causas da Reforma eram internas, hoje as transformações precisam se dar na esfera pública.
O cristianismo perdeu relevância. Uma das evidências disso é que, quando alguém procura uma experiência de espiritualidade, o último lugar em que se vai buscar é a igreja. Há mais sentido para o mundo na espiritualidade dos movimentos orientais, da vida alternativa e até da autoajuda do que na vida de devoção ou mesmo no seguimento de Cristo. E isso se deve à maneira como ficou configurado aquilo que o cristianismo tem de pior: o fundamentalismo religioso, a pretensão de religiosidade hegemônica e a incapacidade de dialogar com o mundo.
Se os reformadores enfatizavam o livre exame da Escrituras, o sacerdócio universal dos crentes e a justificação pela fé como orientadores de uma nova teologia, as igrejas herdeiras da reforma precisam apontar suas reflexões e condutas não para reafirmar ou rever tais princípios, mas para reorientar sua ação no mundo. Nesse sentido, a esfera pública faz emergir uma nova compreensão teológica que dê conta de uma igreja comprometida com o chamado divino de ser servidora de um mundo perdido. Afinal, essa foi a proposta de Jesus de Nazaré ao comissionar seus discípulos: “Antes, dirijam-se às ovelhas perdidas de Israel” (Mateus 10.6).
Uma igreja que se ocupa da esfera pública precisa rever a maneira como se identifica como povo de Deus, não como sectário, mas como corpo de Cristo no mundo. Há uma necessidade de se empreender um esforço ecumênico para se ressaltar mais o que une os cristãos no mundo do que aquilo que os divide. A igreja cristã precisa se afirmar como uma família de muitos irmãos e irmãos, e não como um gueto ou um lugar de fuga do mundo.
Uma igreja que se ocupa da esfera pública precisa desenvolver um sentido de comunhão para além da sua realidade interna. Isso implica o resgate do sentido de comunidade, que se desloca do círculo restrito das relações eclesiásticas e se estende para dentro do mundo. A igreja precisa deixar de ser a expectadora de um mundo em naufrágio, como se vivesse uma realidade distante, para ser coparticipante do cuidado com o mundo como sendo parte dele. É preciso ver o mundo como nossa casa comum, e não como um além.
Uma igreja que se ocupa da esfera pública precisa possuir um sentido de missão voltada para o ser humano em sua totalidade. A igreja não é portadora de uma verdade absoluta, imutável e inquestionável. Ela é anunciadora da boa nova de salvação a toda criação: o ser humano em suas múltiplas relações e complexidades. Ela não tem que defender verdades, mas ser agente de transformação e de libertação num mundo que perdeu-se de si mesmo. Foi Jesus quem lançou as bases para uma nova vida a fim de que possamos viver de forma humana diante de Deus. A igreja tem a missão de levar a toda humanidade a boa notícia de que é possível uma vida humana mais digna, justa e solidária conforme Jesus ensinou e viveu.
Após 500 anos, é importante entender o que foi a Reforma, não para repeti-la ou reafirmá-la, mas para inspirar um novo movimento em direção a uma vida cristã mais autêntica no mundo. O momento é de gratidão pelo legado da Reforma, o que ela contribuiu para a história da igreja como um todo. Mas também é de crítica, reconhecendo limitações e falhas que a igreja vem enfrentando ao longo do tempo.

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Reforma protestante e pluralidade / Protestant reform and plurality / Reforma protestante y pluralidad

Quando se fala de Reforma Protestante, não se refere a um movimento único e uniforme. Ela precisa ser compreendida a partir de uma perspectiva plural, que aconteceu em um contexto de pluralidade, desenvolveu-se de forma variada e configura-se também por uma diversidade. O correto seria falar de reformas protestantes ao se tratar do fenômeno de transformação que o cristianismo experimentou no limiar da Modernidade.
Entretanto, esse aspecto plural nunca foi visto como um fator positivo, identificado como promotor de uma relação entre “inimigos de si mesmos”, para usar a expressão empregada no título do livro de Rowland Croucher que faz uma abordagem sobre o fenômeno do evangelicalismo, do socialismo evangélico e do neopentecostalismo característicos do movimento protestante a partir da década de 1960.
O pluralismo protestante tem sido objeto de um diálogo impossível, marcado muito mais por aspectos organizacionais, doutrinários, litúrgicos e até moralistas do que aqueles voltados para a essência da fé, da comunhão e do amor cristão.
Como afirmou Claudio de Oliveira Ribeiro, no artigo Espiritualidades plurais da Reforma: “a vivência comunitária e a pluralidade constituem privilegiado potencial de geração de utopia e que a ausência de referenciais utópicos dá lugar a formas de individualismos exacerbados, de lógicas de exclusão e de sectarismos, de imediatismos políticos, de racionalismos e de absolutismos, o que enfraquece a vivência autêntica e gratuita da fé e a noção de diaconia como canal de solidariedade, partilha e serviço. Tal pressuposição está em íntima sintonia com os princípios teológicos da Reforma”.
Essa pluralidade está refletida na formação histórica, na proposta teológica e na concepção eclesiológica. Não há uma história única do protestantismo: a reforma aconteceu de forma distinta na Alemanha, na Suíça, nos Países Baixos, na Inglaterra, Europa Central. Houve também movimentos que foram duramente combatidos na França, na Itália e Espanha. Também não é possível se falar de uma única teologia protestante: a chamada “teologia reformada” pode ser entendida a partir de tendências luterana, calvinista e as que marcaram a chamada reforma radical, com os grupos anabatistas e grupos separatistas. Da mesma forma, não se pode falar de uma única eclesiologia protestante, visto que os grupos foram adotando diversas formas de organização e de estrutura, como os presbiterianos, os congregacionais, os metodistas, uns mais hierárquicos e outros mais democráticos.
Embora haja essa diversidade histórica de expressões da Reforma, essa condição de surgimento, formação e configuração não representa uma oportunidade de diálogo fácil entre as várias manifestações do protestantismo nem com outras formas de expressão do cristianismo.
É preciso desenvolver uma análise crítica das condições de construção do que ficou conhecido como Reforma Protestante e identificar suas várias tendências bem como os fatores que promovem aproximações e distanciamentos entre eles. Nesse sentido, é possível falar de antecedentes, de ações e de desdobramentos que são plurais em seu âmbito.
1) Antecedentes plurais – Os séculos XIII-XIV foram marcados por movimentos após o chamado Grande Cisma que reivindicavam mudanças na igreja do Ocidente que envolviam dois aspectos. O primeiro, voltado para a reforma da fé e da hierarquia eclesiástica, com a atuação de expoentes como Pedro Valdo, John Wycliff, João Huss, Comênio e Savanarola. O segundo, que propunha uma mudança de costumes, mais voltado para aspectos morais, como foi o caso da reforma humanista de Erasmo.
No fim da Idade Média, especialmente nos séculos XIV e XV, havia uma grande insatisfação popular envolvendo questões sociais e ações religiosas que provocavam um clima de insegurança. Como consequências desse quadro, podemos citar a contestação ao clero e a busca por justiça social.
Podemos encontrar pelo menos três vertentes que antecederam a Reforma:
a) Uma vertente acadêmica, marcada pelo declínio da escolástica e o apelo à volta da simplicidade do Evangelho. Um dos textos conhecidos é Imitação de Cristo, de Tomás de Kempis.
b) Uma vertente popular, marcada por movimentos marginais que se inspiravam em antigas ordens religiosas, como as dos franciscanos e dos dominicanos. Havia um apreço à vida monástica, um apego à prática de flagelos e penitências e a defesa de crenças escatológicas.
c) Uma vertente mística, marcada pela vida contemplativa e a ênfase numa teologia apofática. O Mestre Eckhart é um de seus representantes.
2) Ações plurais – Embora Lutero seja a figura de destaque do movimento da Reforma, o luteranismo não foi único. Outras expressões aconteceram ao longo de toda a Europa. Não podemos esquecer da participação de nomes como Zwinglio e Calvino, do anglicanismo, dos huguenotes franceses, de grupos radicais como os anabatistas e os separatistas ingleses, dos movimentos de reforma da Escócia e da Espanha, das comunidades mendicantes dos Países Baixos e do desdobramento místico do alemão Jacob Boehme e do espanhol João de Valdez. Outro teólogo que atuou de forma marcante foi Thomas Müntzer, que liderou um movimento de camponeses assumindo uma dimensão política e revolucionária do pensamento da Reforma, mas acabou sendo derrotado, preso e morto pelos próprios luteranos.
3) Desdobramentos plurais – Embora a Reforma Protestante tenha acontecido no final do período renascentista, ela se desenvolveu ao longo da Modernidade. Os acontecimentos históricos acabam se entrelaçando com outros eventos significativos desse período. Entre eles podemos mencionar a formação dos estados nacionais, o surgimento do pensamento liberal e a ênfase ao individualismo. Max Weber, inclusive, já tem identificado uma grande afinidade entre o protestantismo e o espírito do capitalismo, sistema político-econômico que se afirma no contexto da Modernidade.
No contexto do luteranismo alemão, surge o movimento pietista, que enfatizava a dimensão individual da experiência de Deus, com uma forte inclinação moralista e um apelo ao estudo das Escrituras. O pietismo defendeu crenças e práticas como a necessidade da conversão pessoal, da fuga do mundo e da prática piedosa da caridade e da tolerância.
Já no contexto inglês, onde se deu a reforma anglicana, surge outro movimento, o puritano, que procurar retirar os vestígios do catolicismo que foram mantidos na igreja da Inglaterra. O puritanismo pode ser considerado como um esforço pelo avivamento da igreja com importantes consequências para a expansão da compreensão da missão da igreja no mundo. Quando o puritanismo foi levado para a América, ali se expandiu e estabeleceu bases para a formação dos Estados Unidos como nação democrática.
Essa condição plural do protestantismo tem sido objeto de diversas investigações a respeito de suas causas e consequências. Entretanto, o que se pode notar é que, em meio a sua diversidade, há um distanciamento do espírito e das intenções que marcaram a Reforma Protestante.
O protestantismo é marcado hoje por pelo menos três características predominantes, cada uma delas como uma pluralidade de possibilidades:
a) Um viés fundamentalista.
b) Um viés carismático.
c) Um viés progressista.
O fenômeno do pluralismo protestante é um fator de divisão que tem desencadeado uma identidade marcada pela falta de diálogo interno. Essa falta de diálogo se reflete na esfera pública, com práticas e discursos que deixam claro que uma nova onda de “reforma” precisa acontecer. Os grupos protestantes são mais conhecidos pelo que proíbem do que pelo que defendem.
Essa diversidade decorre de princípios orientadores que precisam ser revisitados hoje no sentido de se contribuir bases para relações ecumênicas e de diálogo inter-religioso. Rubem Alves, no livro Protestantismo e repressão, identificou que o protestantismo foi, em seu primeiro momento, “a explosão de um grito reprimido de liberdade”. Entretanto, como salientou Bonhoeffer em sua Ética, a igreja protestante encarna o tema de nosso tempo, que é o da decadência.

sábado, 28 de outubro de 2017

O princípio protestante / The Protestant Principle / El principio protestante

Para Paul Tillich, a realidade que configura o movimento protestante está ligada a um dado poder, a um dinamismo que perpassa esse acontecimento histórico, ao qual denominou de “princípio protestante”. Diz ele, em A Era Protestante: “O princípio protestante é o juiz de qualquer realidade religiosa e cultural, incluindo a religião e a cultura que se chamem ‘protestantes’” (TILLICH, 1992, p. 183). E mais: “É o julgamento profético contra o orgulho religioso, a arrogância eclesiástica, e a autossuficiência secularizada com suas consequências destruidoras” (TILLICH, 1992, p. 183).
“O princípio protestante pode ser proclamado por movimentos pertencentes tanto ao domínio religioso como ao secular, mas sem qualquer filiação eclesiástica ou institucional, bem como por grupos ou indivíduos que, por meio de símbolos cristãos ou protestantes, ou sem eles, expressam a verdadeira situação humana em face do absoluto e do incondicional. Se nessas situações proclamam-se e vive-se melhor e com mais autoridade o princípio protestante do que nas igrejas oficiais, então é aí e não nas igrejas que o protestantismo se torna vivo no mundo atual” (TILLICH, 1992, p. 221).
A realidade que envolve a pluralidade da igreja protestante se apresenta de forma paradoxal na medida em que contrasta com o discurso de afirmação da unidade da fé cristã e se lança como um desafio para repensar os rumos do movimento nos dias atuais. Para Tillich, “[no poder da cruz, a] igreja protestante haverá de se manter na medida em que tiver consciência do significado de sua existência” (TILLICH, 1992, p. 216).
A própria dinâmica da proposta inicial do protestantismo, de uma igreja em reforma, já é em si um projeto arriscado. “A igreja protestante corre permanentemente o risco de se esquecer do seu sentido. Sua grande tragédia tem sido a insistência em possuir a ‘pura doutrina’, como se possuísse a verdade invulneravelmente” (TILLICH, 1992, p. 216). Contudo, essa é a sua principal característica: comportar em si a pluralidade que envolve a experiência de Deus no mundo.
“A Reforma deve continuar”, disse certa vez Friedrich Schleiermacher ao se rebelar contra a mentalidade dominante do protestantismo de sua época (apud James Luther Adams In: TILLICH, 1992, p. 285). Os primeiros cinco séculos de protestantismo – que Paul Tillich chamou de “era protestante” – foi marcado por transformações e contradições. Começou com a Reforma dialogando com o Humanismo, evoluiu através do diálogo com o pensamento liberal e o Iluminismo, acompanhou o período da revolução industrial e a consolidação do capitalismo, atravessou o século XX em meio a lutas e incertezas e chegou ao século XXI com o desafio de repensar sua continuidade.

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Igreja reformada sempre se reformando / Reformed church always reforming / Iglesia reformada siempre reformando

Uma das máximas que a Reforma Protestante produziu é a que diz: “Igreja reformada, sempre reformando”. A ideia que essa frase traz em si é um desafio para a igreja cristã de hoje. Uma igreja reformada não tem a ver com uma inovação nem mesmo uma reafirmação de valores antigos com novas roupagens. Assim como uma igreja que está sempre se reformando não corresponde a introduzir práticas, ritos e costumes novos em sua liturgia e ação.
Embora esteja alicerçada no espírito dos reformadores, a frase não esteve na boca nem na pena de Lutero, Zwinglio ou Calvino, mas dos representantes do que podemos chamar de “segunda reforma”, principalmente da vertente ligada ao pietismo. Sua origem remonta a uma frase atribuída a Santo Agostinho: “A igreja está sempre sendo reformada” que em latim é: Ecclesia semper reformanda est. Lutero era um monge agostiniano e muito provavelmente foi influenciado por essa ideia.
A frase só vai aparecer no contexto da Reforma através Jodocus von Lodestein (1620-1677), uma proeminente figura do pietismo reformado alemão, que achava que a igreja não deveria ser chamada de reformada, mas de “reformanda”. Para ele, a Reforma havia afetado a igreja, mas a vida das pessoas precisava sempre também ser reformada. Outros entendem que ela foi citada por Gisbertus Voetius (1589-1676) por ocasião o sínodo de Dort (1618-1691), na Holanda, com a forma: Ecclesia Reformata et Semper Reformanda Est. Esse lema foi expandido para Ecclesia reformata semper reformanda est secundum verbum Dei. Ou seja: Uma igreja reformada sempre sendo reformada segundo a palavra de Deus.
Richard Baxter (1615-1691), um puritano inglês, chegou a indagar: “Como podemos achar que a Reforma está terminada quando nos livramos de algumas cerimônias e mudamos alguns trajes, gestos e formas? Não, Senhores! Converter e salvar almas é a nossa real atividade. Essa é a principal parte da Reforma”, conforme citado por Michel Reeves, em A chama inextinguível.
Mais tarde, Karl Barth (1886-1968) a reafirmou em seu tratado de teologia dogmática, argumentando que os limites da reforma da igreja se encontram dentro da própria dinâmica da vida comunitária, na maneira como Cristo toma forma como Senhor da igreja, construindo não só a maneira como ela se constitui internamente, mas também como ela se expande e alcança o mundo. Nessa construção, ela precisa compreender os limites de ser uma igreja reformada e as implicações de uma igreja sempre em reforma. As possibilidades e as necessidades de mudança da igreja devem abranger suas regras, suas estruturas e até suas concepções doutrinais à luz daquilo que foi ligado ao longo do desenvolvimento histórico da fé cristã.
A frase também está implícita nos documentos do Concílio Vaticano II, que reconheceu a necessidade de uma igreja sempre em reforma, ao afirmar, no documento Lumen Gentium, que “a Igreja, contendo pecadores no seu próprio seio, simultaneamente santa e sempre necessitada de purificação, exercita continuamente a penitência e a renovação”.
Como se pode notar, esse lema da reforma contempla tanto o mais piedoso conservador, como também o mais radical revolucionário. O que se pretende não é preservar valores e princípios somente por causa da tradição, nem mesmo mudar apenas pela mudança. Ele tem uma dimensão ecumênica e lança uma proposta de reflexão a respeito da maneira como a igreja realiza sua missão historicamente.
Nesse sentido, o lema precisa ser revisto à luz do próprio sentido de missão da igreja. Não se trata de mudar a igreja apenas ao sabor das transformações da cultura e do conhecimento, mas de rever os valores e princípios de origem para tornar a mensagem mais compreensível às pessoas em seu tempo, mas também para se viver de uma forma mais coerente a fé e a graça salvadora para aqueles que nos são contemporâneos.
O próprio lema pode nos levar a compreender de maneira equivocada que a igreja pode ser agente autônoma da sua própria reforma. Não se pode esquecer que a igreja é campo de trabalho de Deus. A ideia não é de uma igreja que se reforma, mas que vem sendo reformada pelo Espírito Santo. Isso desperta a necessidade de refletir sobre a sua própria identidade, mas também a sua relevância: a igreja existe para cumprir a Missio Dei no mundo.
Quando a reforma para, a igreja se deforma. E quando a igreja se deforma, ela se conforma. A igreja sempre sendo reformada pelo Espírito à luz da palavra de Deus para cumprir sua missão no mundo, essa é a transformação radical que necessária em nossos dias. Alguém certa vez orou: “Deus nos livre de um novo Lutero!” E hoje precisamos clamar por uma renovação na vida da igreja.

sexta-feira, 3 de março de 2017

Ser igreja / Church / Ser iglesia

A igreja não é um lugar para ir, mas um modo de ser. Essa afirmação traz consigo uma série de implicações que exigem uma reflexão mais aprofundada. Falar de igreja não é uma coisa fácil. Primeiramente, é preciso que se diga de que tipo de igreja estamos falando: se uma comunidade local, se uma estrutura mais ampla que abarca as comunidades locais ou se a comunidade universal de todos os crentes.
Quando Jesus disse aos seus discípulos que edificaria a sua igreja, não tinha em mente nenhuma dessas características. Ele falava de uma relação em torno de sua pessoa. A igreja é a reunião de todas as pessoas que Jesus Cristo reivindica para si, através das quais toma forma no mundo
John Stott, em seu livro A igreja autêntica, afirma que “a igreja está no centro do propósito de Deus para a humanidade”. Entretanto, ela é uma das instituições que tem sofrido uma transformação acentuada ao longo da sua existência e que mais tem perdido credibilidade em tempos pós-modernos.
O que chamamos de igreja hoje é resultado de uma construção social e histórica que envolve um percurso que começa com os primeiros cristãos. A igreja teve seu início como um movimento daqueles que tinham uma experiência com Cristo e que estavam dispostos a seguir seus ensinos e seu exemplo. Quando chegou à Roma, a igreja se constituiu como uma instituição, e tomou a forma de uma religião como as muitas religiões que existiam no império Romano. Com a chegada à América, ela se tornou uma organização, assumindo cada vez mais a natureza corporativa e burocrática que a revolução industrial produziu.
A igreja movimento era centrada na paixão de seus frequentadores, comprometidos com aquilo que acreditavam e com a experiência que possuíam. Ela atraía seguidores pela atitude dos que eram fiéis, que vivem em solidariedade, eram generosos e misericordiosos com todos e se encorajavam uns aos outros diante das perseguições.
A igreja instituição era voltada para a manutenção da devoção e da herança doutrinária que recebeu dos apóstolos. Seus fiéis tinham a obrigação de seguir um credo, cumprir um rito, obedecer aos superiores hierárquicos. A adesão de fiéis era marcada pelo medo da ira futura, como fuga da danação eterna. A solidariedade deu lugar às obras de caridade e esmolas, generosidade foi substituída pela obrigação, a misericórdia se transformou em uma penitência, a vida passou a ser encarada como um vale de lágrimas e a dinâmica da fé passou a ser vista a partir de uma relação de poder.
A igreja organização era voltada para o sentido de missão, mas não como compromisso de realizar os propósitos divinos na vida humana, mas como tarefa de gerenciar resultados. Seus fiéis foram transformados em consumidores, seus líderes em gestores e a fé como um produto a ser consumido de forma cada vez mais facilitada. A Missio Dei foi substituída por uma estratégia de crescimento e o mundo compreendido como um grande mercado em expansão.
A constatação mais ingênua diante desse processo é imaginar que precisamos retornar à igreja movimento, abrindo mão de todo arcabouço histórico, teológico e até material que a instituição e a organização da igreja conquistaram. Não podemos negar que a igreja é herdeira de um passado de conquistas, ela não chegou até aqui somente fundada em erros, mas também em muitos acertos que influenciaram decisivamente os rumos da história e da vida humana. Até por que, se a ideia de ser um movimento suficiente por si mesmo fosse o bastante, não teria se desenvolvido para os modelos seguintes.
Sim, a igreja precisa aprender a ser movimento, instituição e organização. Isso quer dizer que: como movimento, precisa despertar nossa paixão; como instituição, precisa ser a nossa identidade e, como organização, precisa orientar nossa ação no mundo. O que a igreja não precisa é cristalizar-se apenas como um movimento, senão não passa de uma tendência; nem apenas como instituição, senão se torna um costume; nem mesmo apenas como organização, senão vira um negócio.
A igreja que Jesus tinha em mente não era nada disso. Ela deveria ser uma comunhão. A igreja está para além do domingo, do clero e do templo. Também está para além do dogma, do credo e do sínodo. Diria mais, ela está para além da liturgia, do magistério e até da eucaristia. Antes todas as ações devem fazer com a igreja comunhão sobressaia, caso contrário não vai passar de movimento, de instituição e de organização.
A igreja comunhão se faz em meio ao discipulado, à evangelização e ao ato celebrativo. Implica um senso que coloca a vida a serviço do outro e do mundo, que desperta um sentido de pertença, que produz uma vida de testemunho e que fortalece os laços da vida comunitária. Uma igreja assim ganha relevância diante do mundo e é um convite para restaurar nossa relação com Deus. Porém, uma igreja diferente disso é um sinal de que a enfermidade que contamina e destrói a humanidade também já chegou até nós.

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