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sábado, 21 de maio de 2022

Jesus e as forças de caráter: como Jesus nos ensina a ser feliz / Jesus and character strengths: how Jesus teaches us to be happy / Jesús y las fuerzas del carácter: cómo Jesús nos enseña a ser felices

Nosso tempo tem sido marcado por uma busca imperiosa pela felicidade. O tema passou a ter uma relevância maior no cuidado com a saúde mental, principalmente com o avanço dos sintomas de angústia, depressão e ansiedade causados pelo modo de vida competitivo e cheio de exigências imposto pela cultura de mercado em vigor.

A necessidade de se ter sucesso a qualquer preço despertou a descoberta de que ele não é determinante para que alguém seja feliz, mas que a felicidade é imprescindível para se chegar ao sucesso. Isso quer dizer que o maior esforço que precisamos fazer não é ter o emprego dos sonhos, perder uns três quilos, ser promovido ou mesmo morar em um lugar paradisíaco. É preciso estar bem consigo mesmo. As pesquisas recentes no campo da psicologia têm demonstrado um novo paradigma, que é exatamente o oposto dessa mentalidade: a felicidade é que promove o sucesso, e não o contrário.

O campo de estudo que tem se dedicado à felicidade é o da Psicologia Positiva, que aponta formas objetivas para identificar os fatores que contribuem para o desenvolvimento pessoal e o bem-estar. Por essa razão, grandes universidades como Harvard e Unicamp têm promovido cursos com o tema da Felicidade com grande procura de alunos interessados em todos as áreas de conhecimento há mais de 10 anos.

Martin E. Seligman, no livro Felicidade autêntica, apresenta uma proposta de construção da felicidade a partir da conjugação de virtudes e forças de caráter. O trabalho foi resultado de uma ampla investigação em várias culturas, concepções filosóficas e expressões religiosas a respeito do que as pessoas fazem em busca do bem-estar, da felicidade e do desenvolvimento pessoal.

Foram identificadas 6 virtudes essenciais, que podem ser identificadas através de 24 forças de nossa personalidade que nos auxiliam em nossos modos de pensar, de sentir e de se comportar.

Veja a relação das virtudes humanas mais comuns e suas respectivas forças de caráter:

a) Sabedoria – Criatividade, curiosidade, critério ou pensamento crítico, gosto pelo aprendizado e perspectiva.

b) Coragem – Bravura, perseverança, integridade e vitalidade.

c) Humanidade – Amor, generosidade e inteligência social.

d) Justiça – Justiça, liderança e trabalho em equipe.

e) Temperança – Perdão, humildade, prudência e autocontrole.

f) Transcendência – Apreciação da beleza e da excelência, gratidão, esperança, bom humor e espiritualidade.

Para se alcançar a felicidade autêntica, é preciso dar atenção à maneira como desenvolvemos as virtudes e as forças de caráter, e qual o impacto disso em nossa saúde física, mental e coletiva. Por essa razão, a busca da felicidade se torna apenas um ingrediente na busca de amadurecimento. Muitas vezes, precisamos tomar decisões que podem trazer novos sentidos para a vida, mas que não são muito confortáveis. Também precisamos manter muitos relacionamentos que não nos fazem felizes.

As forças de caráter nos auxiliam na busca pelo florescimento, construindo em nós virtudes essenciais para viver no mundo e interagir com as pessoas. 

Seligman propôs, então, uma nova abordagem sobre a busca da felicidade no livro Florescer: uma nova compreensão sobre a natureza da felicidade e do bem-estar. Para ele, era preciso enfatizar o florescimento através do fortalecimento das emoções positivas, do engajamento, dos relacionamentos positivos, do propósito e da realização. Esses cinco elementos foram inseridos para que pudessem fortalecer nossa trajetória de vida. Ele compreende que as virtudes e as forças de caráter sustentam esses elementos. A maneira como nos empenhamos em buscar o bem-estar é que produz mais sentido de realização pessoal.

Florescer é despertar o humano que há em nós. A felicidade está mais relacionada com o se sentir bem mesmo em situações adversas. Para tanto, o modo como construímos nossa trajetória de vida é fundamental para que possamos experimentar o florescimento. Porém, uma vida feliz e satisfeita envolve critérios tanto subjetivos quanto sociais. Como diz Seligman, “o bem-estar não pode existir somente na nossa cabeça”.

A felicidade, portanto, é uma conquista que precisa ser feita continuamente. A mensagem e o ensino de Jesus visavam a formação de um novo sentido de humanidade. É possível fazer uma análise dos mesmos e identificar como ele desenvolveu as virtudes essenciais e as forças de caráter como fatores importantes para que possamos alcançar a vida feliz.

As seis virtudes (sabedoria, coragem, humanidade, justiça, temperança e transcendência) estão presentes nos ensinos de Jesus. Entretanto, Jesus se ocupou com a felicidade e com o bem-estar na perspectiva da salvação, como uma experiência de sentido para a vida toda. Para quem perdeu o sentido da vida, Jesus convida a aprender com ele o que significa viver plenamente.

Isso lembra o refrão de Tom Jobim e Luiz Bonfá: “Tristeza não tem fim / Felicidade sim”. É um engano pensar que conseguiremos a felicidade apenas pelas nossas forças. Ela não é uma conquista individual com também não conseguiremos ser felizes sozinhos enquanto muitos à nossa volta sofrem. Todos nós enfrentamos tanto circunstâncias que nos trazem felicidade quanto as que nos fazem sofrer. A vida não é um monótono programa de realizações pessoais. Ela é formada de uma sucessão de sucessos e fracassos, de conquistas e perdas, de realizações e frustrações. Jesus nos deixou claro que podemos ser felizes encontrando razões de viver tão significativas que façam com que até mesmo nas situações difíceis encontremos forças para seguir em frente.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2021

Quem é feliz? / Who is happy? / ¿Quien esta feliz?

Há duas palavras em grego para descrever a felicidade. A primeira delas é eudaimonia. Ela foi usada por Aristóteles para se referir à condição a ser alcançada a partir do cultivo de virtudes. Pode ser traduzida como realização pessoal ou como a definição de um estado para se viver a vida boa, quer seja relacionada a aspectos morais, quer seja materiais. Havia até uma compreensão de que, para ser feliz, era preciso ter uma origem boa. O belo, o forte e o rico seriam pessoas naturalmente felizes. Entretanto, para os que não eram dotados dessas qualidades precisavam de uma forma mais inteligente de viver.

Para Epicteto, a busca da felicidade dependia da saúde física e da tranquilidade da alma. Isso implicava o controle dos desejos e o cultivo dos hábitos essenciais ao bem-estar. Para tanto, seria necessário desenvolver a sabedoria para se viver de forma feliz com o mínimo necessário. A raiz é daimon, que está relacionada a divindades mitológicas, responsáveis por nossos temperamentos, nossas escolhas e até nosso destino. Na verdade, é a voz da nossa própria consciência que está em permanente conflito com o nosso inconsciente.

A segunda palavra é makarios, que difere da primeira e pode ter o sentido de afortunado, sortudo ou mesmo bem-aventurado. O radical makar lembra uma pessoa que é abençoada. O grego clássico usava a expressão makarites para se referir a alguém que recebeu a bênção dos deuses e, por isso, foi livrado do mal. Aristóteles usou essa palavra para se referir a ideais mais elevados que o homem tem em si mesmo que o conduz aos atos nobres. Trata-se de uma felicidade que resulta da vida contemplativa. No Egito essa palavra era usada como uma saudação. No Novo Testamento, porém, Jesus a usou para descrever as bem-aventuranças.

André Chouraqui, em sua tradução do evangelho de Mateus, afirma que, de um modo geral, é um erro traduzirmos a expressão makarioi somente pelo seu sentido grego, que seria o de felicidade. Ele entende que Jesus pronunciou essa palavra com o mesmo sentido de ashrei, termo hebraico encontrado em alguns salmos, como 1 e o 119, que quer dizer marchar, andar, seguir em frente, conduzir por uma linha reta. A noção de felicidade, então, não estaria na formação da frase, mas em seu significado, que aponta para a dinâmica da salvação “introduzida na vida do homem em marcha em direção ao Reino”, disse Chouraqui. A felicidade, nesse sentido, estaria na própria alegria de quem acolhe o convite amoroso de tomar parte do Reino de Deus.

Jesus usou a palavra makarioi de diversas formas, não só para se referir às bem-aventuranças. A felicidade em Jesus está intimamente relacionada com a salvação. Ele declarou que veio buscar e salvar o que se perdeu, que é todo aquele que perdeu o sentido da vida, que se perdeu de si mesmo. Jesus afirmou: [...] ‘Antes, felizes são aqueles que ouvem a palavra de Deus e lhe obedecem’” (Lucas 11.28). A busca da felicidade depende de um certo exercício de escuta da palavra que gera vida, que aponta caminhos, que confere força e coragem para quem perdeu o ânimo de viver.

As duas formas linguísticas gregas de se referir a quem é feliz podem ser compreendidas como sendo as duas faces da felicidade: de um lado, a felicidade possui em si um aspecto moral que nos remete a uma relação com o outro; mas, de outro, a felicidade implica também o exercício de uma vida contemplativa, em que estão presentes valores que transcendem as nossas ações. Pode-se afirmar que a felicidade tanto tem a ver com a maneira como nos relacionamos como também com o que estamos fazendo com a vida que temos. São formas de felicidade qualitativamente diferentes, mas que se complementam. Não dá para ser feliz sem desenvolver virtudes em nossas relações e sem, ao mesmo tempo, cuidar das condições concretas de existência no mundo.

A cultura contemporânea reduziu a felicidade ao prazer e o prazer ao gozo do momento. Felicidade, prazer e gozo são sensações distintas, mas para o senso comum acabaram se tornando expressões sinônimas de uma falta, a ausência de sentido para a própria vida. Aprendemos a aplacar a dor com um analgésico. Da mesma forma, é mais fácil substituir a falta de realização pessoal pelo consumo, a alegria de viver pelo efeito de um entorpecente, a angústia por um ansiolítico, o sofrimento pela alienação.

Então, quem é feliz? Essa pergunta nos remete ao cuidado com a vida. É feliz quem consegue desenvolver uma atitude de contentamento com a vida de tal modo que possa agir de maneira responsável para o bem comum e das gerações futuras. Quem é feliz encontrou uma certa alegria de viver, que faz da vida em todas as suas expressões um constante objeto de cuidado. Não se trata de um prazer de momento, mas da busca de uma forma de vida que seja boa para todos e todas: o prazer de viver. Felicidade é ter prazer de viver e de lutar para que todos e todas desfrutem da vida.

quinta-feira, 19 de março de 2020

Dez conselhos para quarentena / Ten advices for quarantine / Diez consejos de cuarentena


1. Distância social não significa isolamento social. Comunique-se.
2. Encontre novas formas de demonstrar afeto, diferentes de aperto de mão, abraço e beijo. Seja gentil e afetuoso com suas palavras.
3. Lave sempre as mãos com água e sabão, use álcool gel, mantenha alimentação saudável, beba muito líquido, não saia de casa. E lembre-se de quem vive em situação de rua. Eles precisam do mesmo cuidado. Encontre formas de ser solidário.
4. Quem receita remédio é médico. Nada de automedicação nesse momento, nem nunca. Para se cuidar em tempo de pandemia do coronavírus, siga orientações da OMS para a sociedade.
5. Cuide dos idosos. Ajude-os nas compras, na higienização de suas casas e nas tarefas domésticas. Eles são os mais vulneráveis.
6. Se você tem prestadores de serviço que o auxiliam, libere-os para ficar em casa, mas pague-os como se tivessem comparecido para trabalhar.
7. Pratique formas e expressões culturais. Assista filmes, leia livros, ouça músicas em casa. Explore o que melhor há na internet.
8. Desenvolva uma atividade prática ligada ao seu talento. Escreva, componha música, faça bordado, tricô ou croché, costure, desenhe, pinte, faça escultura ou qualquer outra forma. É importante ocupar sua mente com aquilo que lhe dá prazer.
9. Desenvolva espiritualidade. Pratique meditação, reserve um tempo para orar, leia mais a Bíblia. Isso ajudará você a ter esperança.
10. Aprenda a usar a tecnologia para o bem. Use as redes sociais para se comunicar com familiares e amigos, para saber como eles estão, para compartilhar notícias boas e participar de videoconferências como uma forma de valorizar a vida.

sábado, 27 de agosto de 2016

Dízimo / Tithes / Diezmos

“Todos os dízimos da terra, seja dos cereais, seja das frutas das árvores, pertencem ao Senhor; são consagrados ao Senhor.” Levítico 27.30
O dízimo tem em si um mistério que somente aqueles que o praticam conseguem experimentar. Não conheço nem nunca ouvi falar de dizimistas enfrentando crise em suas finanças pessoais, ainda que sejam pessoas de poucos recursos. E digo mais: os maiores dizimistas que conheci não eram pessoas com renda elevada. Em toda a minha vida pastoral tenho visto que entre os dizimistas mais fiéis encontram-se os mais pobres. Como o sábio um dia afirmou: Há quem dê generosamente, e vê aumentar suas riquezas; outros retêm o que deveriam dar, e caem na pobreza” (Provérbios 11.24).
O dízimo não é barganha, não é prestação, não é voto e não é pagamento de promessa. Ser um dizimista é reconhecer que tudo pertence ao Senhor e que nós temos o privilégio de sermos administradores do que é dele, para a glória dele e para a consumação dos propósitos dele. É a partir dessa afirmação que entendo que o dízimo tem quatro perspectivas.
A primeira é que dízimo é mandamento. Foi uma ordem dada por Deus para que o serviço religioso tivesse sustento. Alguns podem até argumentar que era uma lei para um povo e uma cultura, em um tempo passado. Porém, é bom lembrar que Jesus não condenou essa prática. Antes, a elogiou e recomendou a sua observância como modelo para as práticas de misericórdia.
A segundo é que dízimo é dívida. Porém, não é para ser cobrada como uma fatura vencida. Pessoas que não entregam o dízimo estão fraudando a administração dos recursos de que dispõe. Quem não consegue administrar o pouco não pode esperar o muito. Quem não consegue destinar uma parte do pouco para aquilo que acredita, jamais se contentará com o muito.
A terceira é que dízimo é simbólico. Ele é representativo de nossa confiança no cuidado divino. Pessoas dizimistas são fiéis. A entrega do dízimo é um ato de fidelidade. Por isso que ele é voluntário, pois cada um sabe de sua capacidade e qual é a sua necessidade. Ninguém deve entregar o dízimo por constrangimento ou por barganha, mas confiar nas promessas divinas.
E a quarta é que dízimo é princípio. Deus espera mais de nós do que a fidelidade. Ele espera também generosidade. Pessoas generosas são capazes de ofertar além do dízimo. Pessoas que são dizimistas, embora seja até elogiável, podem agir como legalistas e usarem sua prática para oprimir e manipular seus semelhantes.
Quem acha que o dízimo é para enriquecer religiosos engana-se e esconde com esse discurso o seu próprio egoísmo. Pense nisso.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Calcule os riscos / Take the risk / Asumir el riesgo

“[...] Até quando vocês vão oscilar entre duas opiniões? [...]” 1 Reis 18.21 
Toda vez que você for investir em algo, é importante analisar o custo de fazer bem como o custo de não fazer. Há um custo de se fazer o que se deseja e o custo de não fazer o que se deseja. Você pode pagar um preço por ter o que quer ou pagar um preço por ter perdido uma oportunidade.
O risco pode ser entendido como a probabilidade de vir a acontecer uma situação adversa que pode causar consequências, problemas ou danos. A análise de riscos exige uma certa transparência, uma avaliação mais abrangente da complexidade que envolve uma determinada decisão e até uma tomada de decisão que vise sanar dúvidas e orientar o processo de gestão que a ação demanda. A análise de risco, portanto, implica na avaliação, na gestão e na comunicação dos riscos a serem enfrentados.
A melhor maneira de correr risco é avaliar o custo de encará-los ou não, uma vez que é impossível evitá-los. Os custos podem ser monetários, mas há também os custos não monetizados. É preciso desenvolver um modo de reconhecer os riscos, aceitá-los, interpretá-los e de enfrentá-los de forma consciente, uma vez que eles estão presentes em todos as circunstâncias desta vida.
Ben Carson, em seu livro Risco calculado: aprenda a decidir com ousadia, sugere um modelo de análise das situações que demandam nossas escolhas segundo as melhores e as piores possibilidades. Ele argumenta que sempre que esteve diante de uma decisão difícil ou uma situação de risco, tanto na vida pessoal quanto na vida profissional, orientou o seu pensamento, sua análise de risco e o seu planejamento a partir de quatro simples perguntas:
a) Qual seria a melhor coisa que poderia acontecer se fizesse isso?
b) Qual seria a pior coisa que poderia acontecer se fizesse isso?
c) Qual seria a melhor coisa que poderia acontecer se não fizesse isso?
d) Qual seria a pior coisa que poderia acontecer se não fizesse isso?
Nossas escolhas têm consequências, por isso é difícil escolher bem. Fazer a escolha certa é sempre acompanhado de dúvidas e incertezas, e isso pode provocar conflitos. Porém, isso resulta também em crescimento e aprendizado. Em função disso, Ben Carson diz:aprendi que grandes responsabilidades geralmente são acompanhadas de grandes honras e oportunidades”.
Nem sempre na vida vamos ter os sinais verdes para nós. É preciso também compreender os sinais amarelos e identificar com clareza quando o sinal vermelho acende. Ter medo dos riscos pode inibir a criatividade e a liberdade. Uma vida sem riscos seria o ambiente propício para o autoritarismo e a alienação. Pessoas que não assumem correr riscos acabam ensimesmadas, entediadas e até agressivas. É a possibilidade de correr riscos que nos conduz a novas descobertas, o risco da derrota nos ensina novos sentidos do que é sucesso, vitória e realização pessoal.
Vivemos em uma cultura que nos ensina a evitar os riscos, buscando a segurança e o conforto. Porém, quando procuramos nos proteger, perdemos a oportunidade de experimentar a vida em suas melhores expressões.
Não podemos nos esquecer de que a vida é feita de incertezas. Embora possamos nos cercar de tantos recursos e estratégias para nos sentirmos seguros, não temos a garantia de que estamos livres dos imprevistos. O improvável, o imponderável e a incerteza fazem parte do nosso cotidiano mais do que aquilo que podemos provar, conhecer ou ter convicção.
Em todo o tempo, somos desafiados a deixar a nossa zona de conforto e a agir. É isso que pode definir o que somos e o que podemos nos tornar. Aquele que conseguir ir mais longe é o que teve a ousadia de se arriscar um pouco mais.

domingo, 13 de abril de 2014

Aprovado em Cristo / Approved in Christ / Aprobado en Cristo

Saúdem Apeles, aprovado em Cristo.” Romanos 16.10
Não se sabe quem foi Apeles a não ser pela referência do apóstolo Paulo de que ele era um “aprovado em Cristo”. Claro, ele era um membro ativo da igreja em Roma, admirado pelas pessoas. Nada disso, porém, diz muito sobre sua vida, sua atuação, seus relacionamentos, seu testemunho.
De todas as possibilidades de caracterização de quem foi esse personagem que merecia tal saudação, é evidente ter curiosidade a respeito do que faça dele um “aprovado em Cristo”. Aprovado é quem passa por uma prova e isso já tem em si mesmo muito a nos dizer.
Quando se dizia entre os primeiros cristãos que alguém passava por uma prova não correspondia a uma circunstância dolorosa da vida, ou a uma tentação, ou mesmo a uma indecisão que exige de nós uma escolha.
O que estava em jogo nas provas vividas pelos cristãos primitivos era o desafio da afirmação da fé num mundo que hostilizava de forma cruel o cristianismo. Ser provado era ser confrontado com a escolha de viver ou não viver por amor a Cristo. Ser reprovado nesse tipo de exame era negar a fé para livrar-se do martírio. Morrer não significava ser reprovado, mas uma forte expressão de amor e de convicção.

Ser um aprovado em Cristo hoje pode significar outras renúncias naqueles momentos em que nossa fé é colocada sob questão. Viver a fé de forma autêntica é sempre um grande desafio de tal maneira que ser aprovado é uma conquista que precisa ser feita diariamente.

terça-feira, 26 de junho de 2012

O princípio da solidariedade / The principle of solidarity / El principio de solidaridad

Certa vez Betinho disse que solidariedade não se agradece, comemora-se. Nunca se falou tanto em solidariedade. Empresas se especializam em desenvolver programas que promovam a solidariedade. A razão para isso é a necessidade latente de uma mudança de atitude que traga novas perspectivas para hoje, diante de tantas carências. Porém, cada vez mais se compreende que há recursos suficientes para todos. O problema é que vivemos num mundo marcado pela individualização e pela globalização. A lógica que rege as relações é voltada para o consumo, para a ganância e para a competição.
A solidariedade é um valor que orienta a ação humana a partir do sentimento de identificação com o outro com a finalidade de permitir a vida em comunhão, em que são fortalecidos o respeito mútuo e o sentido de realização pessoal. Nasceu da necessidade da vida em comum, que se acentua com o surgimento do ideal de civilização. Mas mesmo nas sociedades menos desenvolvidas já se veem os princípios da vida solidária entre os pertencentes do mesmo grupo.
Esse é um ideal humano antigo. O primeiro princípio constitucional da república brasileira é o de construir uma sociedade livre, justa e solidária. Aristóteles já compreendia em seu tempo que ninguém pode bastar-se a si mesmo. “Aquele que não precisa dos outros homens, ou não pode resolver-se a ficar com eles, ou é um deus, ou um bruto”, disse. Na Utopia de Thomas More defendeu-se a ideia de que a natureza “quer que o bem-estar seja igualmente dividido entre todos os membros do gênero humano, e, desse modo, adverte-nos que não devemos perseguir os nossos interesses à custa da infelicidade alheia.” Para Dürkheim, a solidariedade é como as pessoas se mantêm unidas na dinâmica da vida social, como um sentimento de pertença e de semelhança.
A Bíblia toda ensina a sermos solidários. Há muita sabedoria nessa afirmação: “Aquele que oprime o pobre com isso despreza o seu Criador, mas quem ao necessitado trata com bondade honra a Deus”, Provérbios 14.31. O profeta Isaías chegou a questionar qual seria a melhor maneira de agradar a Deus: “Não é partilhar sua comida com o faminto, abrigar o pobre desamparado, vestir o nu que você encontrou, e não recusar ajuda ao próximo?” Isaías 58.7.
Jesus ensinou que o princípio da nossa ação deve ser orientado pela maneira como gostaríamos de ser tratados se estivéssemos na mesma situação do outro. Para Jesus, solidarizar é colocar-se no lugar do outro. Ele disse no Sermão do Monte: “Assim, em tudo, façam aos outros o que vocês querem que eles lhes façam; pois esta é a Lei e os Profetas”, Mateus 7.12.
Precisamos construir juntos uma nova experiência de Deus em que sejam superadas a desigualdade e a injustiça, em que o sentido de propriedade e de liberdade ganhe uma nova conotação que estimule a vida em comunidade. É possível a construção de uma sociedade solidária? Seguindo a lógica da competição vigente na atualidade, não. Mas seguindo a orientação do Espírito Santo, sim. Foi isso que os primeiros cristãos experimentaram.
Solidariedade é o tema da pauta por um mundo melhor. Entretanto, para usar uma expressão de Antoine de Saint-Exupéry, “a verdadeira solidariedade começa quando não se espera nada em troca.” Apenas por desejarmos uma vida mais humana, tal como Deus sonhou para nós.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Como lidar com o dinheiro/ How to deal with the money? / ¿Cómo lidiar con el dinero?

A relação com o dinheiro é uma área que todos temos problemas. Ainda não aprendemos a melhor maneira de lidar com esse recurso que a sociedade desenvolveu para regular as relações econômicas entre as pessoas.
De um modo geral, o imaginário criou alguns personagens que tipificam bem a maneira como as pessoas se relacionam com o dinheiro: o avarento, o pródigo, o ganancioso, o aproveitador.
Isso acontece porque vivemos numa sociedade que substituiu os laços de afinidade antigos pelas relações impessoais. O dinheiro é o meio que estabelece novos vínculos entre as pessoas. Lidar com ele demanda uma nova inteligência, que ponha de lado a demonização da riqueza e do poder monetário que se estabeleceu desde o começo da Modernidade, para dar lugar a uma construção de relacionamentos em que o dinheiro possa ser considerado como ele realmente é: um medidor das diferenças qualitativas entre as coisas e as pessoas, como um agente libertador dos indivíduos da tutela do estado, da igreja, da família e da sociedade.
Assista ao vídeo que editei com imanges produzidas pela HistoryChannel para a série Os Sete Pecados Capitais, episódio A Avareza.


Avareza - Como lidar com o dinheiro
Enviado por Irenio. - Explore mais vídeos sobre vida em família.

domingo, 15 de fevereiro de 2009

O futuro sumiu / The future disappeared / El futuro desapareció

Ontem tomei um café na universidade onde trabalho. Até aí nada de anormal. Posicionei-me diante da nova máquina de café, que fica entre o caixa automático do banco e a geladeira, também automática. Coloquei a moeda no lugar indicado e o display acusa que a partir daquele momento a máquina estava em funcionamento. Apertei a opção “capuccino”. Um pequeno braço mecânico se estende até o lugar de onde sairá a bebida. Barulho de braço mecânico se movimentando. A máquina emite outro ruído diferente, o que acusa que o grão de café torrado está sendo moído na hora, que a água quente e outros ingredientes também são adicionados. Logo o display ordena: “retire o copo”. Puxo o copo do braço mecânico e constato que tenho em minhas mãos um delicioso café capuccino na dose certa, adoçado e com uma colherzinha descartável dentro. É só mexer e degustar.
Enquanto me dirijo para a sala de aula, para falar de tecnologia educacional para futuros pedagogos, sou forçado a pensar: o futuro chegou e ainda não nos demos conta disso. E o que acontece é que não se fala mais no futuro. Nossos olhos estão voltados para o imediato, para o agora. Vivemos a cultura do instantâneo, do “em tempo real”, em que qualquer espera que demore alguns segundos parecem uma eternidade.
Lembra-se da década de 1970? Era quando se falava da nova era, a era de aquários. Depois veio a década de 1980, quando só se pensava no ano 2000 e a pergunta de como seria viver no século XXI. Aí chegou a década de 1990 e, com ela, a desilusão da nova era, a angústia de continuarmos tão humanos como sempre fomos.
E agora? Seria esse o tal fim da história? A verdade é que o futuro chegou e estamos desconfortáveis nele. A grande realidade que descobrimos é que vivemos em um tempo em que perdemos o controle. Tudo está fragmentado. Tudo muda muito rápido
A crise que atravessamos não é especificamente financeira ou mercadológica. A crise é de falta de referência. Olhando de um outro modo, a nossa relação com o mundo tornou-se assumidamente simbólica. Tudo que se vê é através de uma interface.
Não, isso não é novo. Sempre fomos assim. O problema é que nos damos conta disso somente hoje. Por isso que essa descoberta gera conflitos. Esse indivíduo fragmentado que nasce nesse contexto precisa encontrar caminhos para superar a ilusão. A Modernidade ocidental nos ensinou que somos sujeitos autônomos, dotados de vontade, que têm controle do seu próprio destino. O que fazer diante disso? É daí que surge o consumo como alternativa para afirmação de identidade. Como não se consegue assimilar as mudanças, o consumo passou a ser a medida para o contentamento.
Essa mudança foi anunciada há muito tempo. Além disso, ela foi lentamente construída. Hoje estamos adentro dela, que se instalou e definiu nossas ações. A nova máquina de café da universidade e o seu contexto é apenas uma prova disso. Tomei o meu café e joguei o copinho no lixo. Logo em seguida, pensei conformado: mais um trabalhador desempregado...

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Como enfrentar um tempo de crise / how to win in a time of crisis? / cómo ganar en un momento de crisis

O ano de 2009 tem sido anunciado como um ano de crise. Em seu discurso de posse, o presidente norte-americano Barack Obama reconheceu isso. Ele afirmou ainda: “Hoje eu lhes digo que os desafios diante de nós são reais. São sérios e são muitos. Eles não serão superados facilmente ou num curto período de tempo.”
Embora todos os indicativos apontem para um tempo de crise, a melhor atitude não é fugir ou ter medo. Mesmo que a crise não nos afete, a melhor atitude não é também olhar para os lados e simplesmente suspirar de alívio dizendo que isso não é conosco. A Bíblia nos aponta um caminho mais seguro para enfrentar esse tempo de crise.
Diante da crise, o salmista pergunta: “Quando os fundamentos estão sendo destruídos, que pode fazer o justo?” Salmos 11.3. Se a pergunta é: o que é possível fazer diante da crise? O conselho bíblico é: “Olhem para o Senhor e para a sua força; busquem sempre a sua face”. 1Crônicas 16.11.
Atitude correta daquele que confia no Senhor é reconhecer que, sem Deus, não há esperança, mas com Deus tudo fica bem melhor. “Temam o Senhor, vocês que são os seus santos, pois nada falta aos que o temem”. Salmos 34.9.
Pode ser que você diga que isso não te afeta, afinal a crise econômica não ameaça o seu emprego. Mas quando a gente houve falar que grandes corporações demitiram dez, vinte mil funcionários de uma vez, isso pode afetar toda a cadeia produtiva e, de alguma forma, um dia vai chegar até você. Quando se fala de demissões, não se fala só de números, mas de pessoas que têm compromissos, família, sonhos.
A atitude mais adequada, numa hora como essa que a crise toma a todos, é perguntar para você mesmo: de que maneira ou posso ajudar as pessoas a superar esse momento de crise? Ou então: como posso influenciar as pessoas que estão mais próximas de mim a enfrentarem a crise de um outro modo?
O mundo está em crise há muito tempo. A crise econômica atual é apenas um lado do problema. Gostaria de sugerir algumas atitudes para enfrentar crises, sejam elas de que natureza for. Em primeiro lugar, apresente para Deus seu problema. Jó não teve dúvidas. Veja o que ele fez: “Por isso não me calo; na aflição do meu espírito desabafarei, na amargura da minha alma farei as minhas queixas”. Jó 7.11. Reconheça a grandeza de Deus. Não importa o que aconteça, Deus não vai te desamparar. “Deus é o nosso refúgio e a nossa fortaleza, auxílio sempre presente na adversidade. Por isso não temeremos, ainda que a terra trema e os montes afundem no coração do mar, ainda que estrondem as suas águas turbulentas e os montes sejam sacudidos pela sua fúria”. Salmos 46.1-3 .
Peça forças ao Senhor. A Bíblia diz: “Recorram ao Senhor e ao seu poder; busquem sempre a sua presença”. Salmos 105.4. E, acima de tudo, mantenha o seu foco nas promessas divinas. “Por isso não desanimamos. Embora exteriormente estejamos a desgastar-nos, interiormente estamos sendo renovados dia após dia, pois os nossos sofrimentos leves e momentâneos estão produzindo para nós uma glória eterna que pesa mais do que todos eles. Assim, fixamos os olhos, não naquilo que se vê, mas no que não se vê, pois o que se vê é transitório, mas o que não se vê é eterno”. 2Corítios 4.16-18

terça-feira, 13 de novembro de 2007

Viver com contentamento / Living with satisfaction

Ter é uma grande armadilha. Sansão é um grande exemplo de uma pessoa que não soube conviver com os excessos na Bíblia. Suas decisões o levaram a um grande conflito, a confusão emocional na qual ele se envolveu tornou-se maior do que ele. O resultado em sua vida foi um período de escuridão e sofrimento.
Sansão foi criado por seus pais desde o nascimento para servir a Deus. Ele era consagrado ao Senhor, inclusive com um voto de dedicação. Um símbolo dessa consagração era o fato de que seu cabelo não havia sido cortado. Mas as ofertas e os prazeres atraíram o jovem e isso o levou a ter uma vida dissoluta. Até que casou-se com uma mulher de um povo inimigo ao seu. Apesar disso, Sansão continuou sendo abençoado por Deus com uma força extraordinária, que livrava Israel de seu inimigo mais feroz, os filisteus.
O poder que desfrutou em vida funcionava como um cartão de crédito sem limites em suas mãos. Ele conseguia realizar proezas e conquistas com muita facilidade. E as conquistas geravam mais sede de poder. Uma conspiração, porém, através de sua própria esposa, o levou a revelar o segredo de seu voto. Cortaram o seu cabelo e ele foi aprisionado com facilidade.
A Bíblia diz que, por causa disso, o Espírito do Senhor se ausentou de Sansão. O fim de sua vida foi muito triste. Uma vez ali, sem alternativas, envergonhado e humilhado, Sansão tomou a única decisão possível: de colocar a sua vida a disposição de Deus para que, num único ato, pudesse honrar o nome do Senhor. Essa história pode parecer estranha para você, mas muitas vezes Deus usa de várias maneiras para nos mostrar que só há uma coisa que importa em nossa vida, que é pertencermos a Ele.
Sansão, quando se viu só e perdido em seu desespero, clamou ao Senhor pelas dádivas do contentamento. De um modo geral, as dádivas do contentamento estão aí mesmo disponíveis, ao nosso alcance, para serem desfrutadas. São como presentes simples que nos trazem um sentimento de satisfação, de completude. Robert Johnson, em seu livro Contentamento, fala dessas dádivas. Observe pelo menos quatro dessas dádivas que Sansão vivenciou:
A dádiva de parar. Você precisa diminuir o ritmo, dar um tempo para você mesmo. Algumas vezes somos forçados a isso, quando somos obrigados a ficar parados em meio as atividades corriqueiras (fila de espera no banco, no aeroporto etc.). Sansão teve que parar o ritmo quando foi preso pelos filisteus. Ele pôde refletir sobre a importância de sua vida e os propósitos de Deus. A Bíblia, no Salmo 37 tem três conselhos úteis para fazermos na hora em que paramos: “Deleite-se no Senhor, e ele atenderá os desejos do seu coração. Entregue o seu caminho ao Senhor, confie nele e ele agirá (...) Descanse no Senhor e aguarde por ele com paciência...” Salmos 37.4, 5 e 7.
A dádiva da fidelidade ao momento. É uma atenção concentrada e deliberada com o que está a sua volta. A narrativa bíblica conta que Sansão foi levado pelos filisteus a uma grande festa. Quando estava ali naquela grande construção, envergonhado e humilhado, fez uma sondagem das circunstâncias em que se encontrava. “Sansão disse ao jovem que o guiava pela mão: ‘Ponha-me onde eu possa apalpar as colunas que sustentam o templo, para que eu me apóie nelas”. Juízes 16.26.A Bíblia nos diz que a graça nos satisfaz e ela só pode ser experimentada em meio à vida no mundo. “Porque a graça de Deus se manifestou salvadora a todos os homens. Ela nos ensinou a renunciar à impiedade e às paixões mundanas e a viver de maneira sensata, justa e piedosa nesta era presente”. Tito 2.11-12
A dádiva da energia. Quando chegamos a uma falência de energia, precisamos encontrar formas de recarregar as baterias e deixar Deus agir. Naquele momento em que se encontrava, Sansão tomou a decisão mais importante de sua vida. Diz a Bílbia: “E Sansão orou ao Senhor: ´Ó Soberano Senhor, lembra-te de mim! Ó Deus, eu te suplico, dá-me forças mais uma vez...’” Juízes 16.28. O desejo de Jesus para todo ser humano é: “... eu vim para que tenham vida, e a tenham plenamente”. João 10.10.
Finalmente, a dádiva da reparação. Faça um inventário de sua vida e reconheça onde você está errado. Admita o erro. Procure as pessoas lesadas e repare o seu erro. Isso exige humildade e ajuda a vencer o sentimento de culpa. Sansão procurou reparar o seu erro de uma forma inusitada. “... disse: ‘Que eu morra com os filisteus!’” Josué 16.30. A Bíblia diz que houve mais perdas para os filisteus naquele momento que em toda a vida de Sansão. Lembra-se da experiência do filho pródigo? Ele tomou uma decisão: “Eu me porei a caminho e voltarei para meu pai, e lhe direi: pequei contra o céu e contra ti”. Lucas 15.18
Você pode viver com contentamento em meio a esse tempo consumista. Só depende de você.

domingo, 11 de novembro de 2007

Vencendo os excessos / Winning the excesses

Você está satisfeito com o modo como você vive hoje? Houve alguma época em que você já esteve contente de verdade? A resposta a essas perguntas tem a ver com o modo como você conduz a sua vida, se você é ou não direcionado pelos apelos do consumo.
Você já reparou como há uma variedade de ofertas para cada coisa que você faz? A vida parece um grande supermercado em que você encontra um sortimento muito grande de coisas para você escolher. Isso não está relacionado somente a uma variedade de produtos no mercado. Há também uma variedade de idéias, de concepções morais, de religiões. Podemos ir mais adiante. Essa variedade tem se refletido nos excessos que acontecem a nossa volta. Excesso de violência, de informação, de alternativas, de diferenças, de preferências...
Não que a diversidade seja de todo ruim, mas o excesso tem causado uma séria crise: a oferta tem sido maior que a nossa capacidade de assimilar. E isso tem provocado um certo medo tomar decisões, de fazer escolhas. O receio de fracassar ou de tomar uma decisão agora e depois se deparar com uma situação melhor.
A maneira como se constitui a sociedade contemporânea, todos os apelos se destinam a criar sentimentos de desejo ou aversão nas pessoas. Ir atrás de coisas novas ou diferentes nunca satisfaz, e jamais você terá satisfação se entrar num ciclo interminável de ganhar e gastar, de desejar e se arrepender.
O antídoto para o sentimento de ansiedade provocado pelos excessos é o contentamento.
Contentamento é a experiência de estar satisfeito. A Bíblia ensina isso. Jesus afirmou: “não se preocupem com sua própria vida”, Mateus 6.25-27. O apóstolo Paulo afirmou: “ninguém tenha de si mesmo um conceito mais elevado do que deve ter”, Romanos 12.3. E: “... aprendi o segredo de viver contente em toda e qualquer situação...” Filipenses 4.12.
O contentamento não é o resultado de fazer ou ter. Não basta reorganizar a vida somente do lado de fora, adotando um estilo de vida isento do consumismo. É claro que há virtude em simplificar a vida. Vale a pena adotar um estilo de vida mais simples, ter uma dieta mais natural, diminuir o número de prestação, reduzir suas dívidas, reservar mais tempos com os amigos e família.
O contentamento é uma experiência interior, um modo de ser que não é dominado pelos apelos externos. O que pode causar insatisfação na vida das pessoas? Um fator é a projeção, que é o erro de atribuir um aspecto de sua vida interior a alguém ou algo exterior. Você transfere a pessoas ou coisas a responsabilidade de torná-lo feliz ou infeliz. É o que leva você a elogiar ou a culpar pessoas. Projetamos nos outros atributos negativos (preguiçoso, ganancioso, invejoso, covarde, medroso etc.) e positivos (confiável, amoroso, fiel etc.). Movidos pela projeção, agimos de modo emocional, compulsivo e desproporcional. A maneira de superar as projeções e parar de culpar o mundo pela sua insatisfação é aceitar honestamente quem você é, aceitar a realidade da sua vida aqui e agora.
Outro fator é a Inflação, que é uma visão distorcida de quem você é, quando pensamos e agimos como se fôssemos mais do que realmente somos, cheios de expectativas e até mesmo de arrogância. A vida cotidiana nos estimula a inflação, voltada para o progresso, para o consumo, para o excesso. Toda as vezes que nos inflamos, pagamos um preço. Toda a inflação é seguida de uma deflação, que é uma visão de si mesmo menor do que você é realmente, um sentimento de insuficiência, de negatividade, de alienação, de solidão. O contentamento só pode ser encontrado no equilíbrio.
O contentamento requer que você seja quem é, nem mais, nem menos. Isso implica em ser o que você é e querer o que você tem. Para isso, precisamos de uma fonte de consolo que vá além do eu. Algo em que estabeleçamos uma relação significativa, que nos permite conectar a algo maior. O contentamento nos chega como resultado da graça.

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