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domingo, 15 de janeiro de 2017

Inabalável: relação entre fé e cultura a partir de Daniel / Unshakeable: considerations about faith and culture from Daniel / Inamovible: la relación entre la fe y la cultura en Daniel

Daniel, você é muito amado. [...]” (Daniel 10.11). 
Daniel é um exemplo de alguém que viveu a fé em seu tempo de maneira autêntica. Há uma relação entre fé e cultura e entre fé e realização histórica que não é levada em consideração pela maioria das pessoas que segue uma religião. A vida de Daniel, porém, conforme narrada na Bíblia, demonstra que ele enfrentou suas circunstâncias pessoais dentro de uma compreensão de seu tempo sendo perseverante e determinado em tornar-se um instrumento nas mãos de Deus para influenciar seus contemporâneos.
Daniel era um judeu de uma família nobre. Quando os caldeus dominaram a cidade de Jerusalém, em 605 a.C., ele e alguns outros jovens foram levados como escravos para Babilônia. O rei dos caldeus, Nabucodonosor, ordenou que fossem escolhidos aqueles mais capazes para que fossem preparados para servi-lo em seu palácio. E Daniel, juntamente com seus três companheiros Hananias, Misael e Azarias, estava entre os escolhidos.
Tomando por base a narrativa bíblica, dá para entender que Daniel passou o resto da sua vida naquela mesma região. Ele enfrentou várias situações que colocavam em risco sua vida, mas permaneceu firme em suas convicções de fé. Apesar de todas as provações, conseguiu desempenhar funções importantes dentro da dinâmica da vida social até o fim do império babilônico, que veio a cair diante do império medo-persa em 539 a.C. Mesmo na velhice, Daniel ainda serviu por alguns anos no governo desse novo império mantendo uma fé inabalável.
Sua fidelidade e determinação em fazer a vontade de Deus fizeram com que Daniel fosse reconhecido como um homem “muito amado” (Daniel 10.11). No livro do profeta Ezequiel, Daniel é mencionado como um dos grandes exemplos de justiça e retidão em meio a todo cenário do cativeiro babilônico, alguém tão digno como os exemplos de Noé e Jó (Ezequiel 14.12 e 20).
Essas suas credenciais permitiram que ele fosse usado pelo Senhor para ser portador de uma mensagem que trazia uma nova perspectiva história a respeito dos propósitos de Deus para a humanidade. Essa mensagem permanece viva e atual.
Através de uma linguagem simbólica, retirada da cultura de seu tempo, fica claro que ele apresenta o curso da história, apontando significados e esquadrinhando seu desenvolvimento até um final de acordo com um propósito divino. Sua narrativa demonstra que o Deus que criou o universo e a vida humana está no controle do tempo e conduz a história para um fim conforme a sua vontade.
Claro que isso não acontece sem que haja uma tensão entre os fatos históricos e as promessas divinas, entre os fenômenos culturais e a fé. O problema é que somos herdeiros de uma teologia que construiu uma separação entre revelação divina e realização histórica, entre fé e cultura. Porém, é preciso compreender que a as promessas divinas se realizam historicamente e que a fé deve ser expressa no contexto de uma cultura. E o livro de Daniel nos ajuda a compreender isso.
Para Daniel, a história humana e as manifestações sobrenaturais do poder de Deus estão inter-relacionadas. Por conta disso, podemos assumir uma atitude mais otimista diante de crises, catástrofes, conflitos e dominações. Essa compreensão bíblica da histórica nos ajuda a desenvolver a esperança e a ter uma mensagem encorajadora para aqueles que sofrem a opressão, a injustiça, a perda e a exploração.
Daniel nos ajuda a entender que a realização histórica necessita de um horizonte, caso contrário será sempre compreendida apenas como uma sucessão de acontecimentos. Os propósitos divinos apontam para um sentido da história. Por essa razão, o livro bíblico é considerado como parte de uma literatura apocalíptica, que aponta para o fato de que Deus está no controle da história, subvertendo relações de poder e trazendo seu reino aos homens a fim de que seus propósitos eternos se cumpram.

domingo, 22 de março de 2015

As estações da vida / The seasons of life / Las estaciones de la vida

Veja! O inverno passou; as chuvas acabaram e já se foram. Cânticos 2.11
A vida pode ser comparada ao ciclo das estações do ano. A natureza se reveste de uma circularidade em que a vida se refaz e ganha novos sentidos à medida em que se passa pelas fases sempre na esperança da chegada de um novo tempo.
Relacionar as fases da vida às estações do ano é um exercício do imaginário. Usamos cada estação como metáforas dos diferentes momentos em que a beleza da vida se revela em suas diferentes fases. Afinal, só dá para se compreender a vida a partir de suas contradições.
As estações do ano têm seu tempo certo de começar e de terminar. A vida, nem tanto. A cada estação, a natureza passa por perdas que são restituídas na estação seguinte. Na vida, nem sempre. A natureza conhece bem cada estação e entende a sua linguagem e importância. Na vida, nem tudo está tão claro. Porém, tal como na natureza, as fases da vida são necessárias para a nossa existência.
No outono, a vida se renova. Para isso, as folhas caem, os ventos sopram de forma impiedosa como se as árvores não pudessem resistir, a estiagem proporciona um ambiente árido e desalentador. Entretanto, a beleza do degradê das folhagens colorem as paisagens de uma forma sem igual. Quantas vezes a vida já se mostrou sem esperança, em que nos sentimos desprotegidos e até sem recursos? Porém, o outono da vida passa, e só restam a lembrança dos momentos belos vividos em meio às lutas.
No inverno, a vida se retrai. O frio paralisa, faz diminuir a marcha da vida. Animais hibernam, as formigas cessam seu trabalham, até as cigarras deixam de cantar. Entretanto, o frio e os instantes de recolhimento são oportunidades únicas de acolhimento e de convívio mais próximo com quem se ama. Quem já não se sentiu paralisado pela frieza dos acontecimentos e até de pessoas? Porém, o inverno da vida passa, e só restam as lembranças das vezes em que acolhemos e fomos acolhidos.
Na primavera, a vida floresce. Tudo se renova, a natureza se reveste de cor, a vida se refaz. A vida é feita de sonhos e esperança. Eles se renovam e se tornam mais vivos após um período de lutas e turbulências. Entretanto, nem mesmo as plantas florescem sem esforço. Há que se experimentar o feliz processo de se renovar de dentro para fora. Quem nunca precisou abandonar o que ficou para trás para viver novas oportunidades? Porém, a primavera da vida passa, e o que fica é a vida em sua beleza e vitalidade.
No verão, a vida pulsa. O sol e a alegria trazem euforia e vigor. Entretanto, ninguém está isento de seus efeitos. Quem nunca se desencantou, se enganou ou se iludiu com o brilho efêmero da vida? Porém, o verão passa, e só resta a experiência de ter aproveitado bem cada momento vivido.

domingo, 24 de agosto de 2014

Encorajamento / Encouragement / Ánimo

Espere no Senhor. Seja forte! Coragem! Espere no Senhor.” Salmos 27.14
O maior milagre operado por Deus na vida humana é o encorajamento. Somos criaturas marcadas pela fragilidade, incompletude, ambiguidade e até pelo temor e a dúvida. São condições que nos constituem como pessoas. Em meio às nossas limitações, Deus sempre se revela como aquele que nos dá força e coragem para seguir adiante.
Há orações que não fazem o menor sentido, principalmente diante do fato de que Deus sabe o que necessitamos antes mesmo de pedir. Há orações desnecessárias diante do fato de que Deus já revelou sua vontade em relação a vários fenômenos da vida. E há orações ineficazes porque pedimos coisas que satisfazem apenas os nossos interesses, distantes dos propósitos de Deus. Mas também há orações imprescindíveis.
Diante da angústia e da dor, a única oração possível é aquela que ecoa o grito desesperado de “até quando”. É o clamor de quem eleva os seus olhos para os montes e, por não ver saída, indaga: “de onde me virá o socorro?” Algumas outras expressões podem até acontecer, do tipo: “por que você me abandonou?”, “Se possível, passa de mim esse cálice”. Mas logo se aquieta e espera que Deus intervenha com o seu “basta”.

A única oração que faz sentido, necessária e eficaz é aquela que clama por força e coragem. Deus é especialista em nos capacitar com isso a fim de que possamos seguir adiante. Só aqueles que são encorajados por Ele poderão experimentar o que é ter vitória.

sábado, 27 de julho de 2013

Keep Calm: Mantenha a calma e siga adiante / Keep Calm and Carry On / Mantener la calma y seguir adelante


“Mantenha a calma” foi a mensagem que o governo britânico encaminhou para a população diante da ameaça de que as tropas alemãs invadiriam a Inglaterra durante a Segunda Guerra Mundial. Ela foi preparada para ser divulgada através de um cartaz que fazia parte de um conjunto de ações para encorajar as pessoas a enfrentarem aqueles tempos difíceis. Era o ano de 1939, quando a guerra começou.
Outros dois cartazes já haviam sido publicados e afixados em lugares públicos como fachadas de casas e trens. O primeiro dizia: “Sua coragem, sua alegria, sua determinação nos trarão a vitória”. O segundo tinha os seguintes dizeres: “A liberdade está em perigo, defenda-a com toda sua força”. O terceiro ficou guardado para o caso de uma situação crítica mais intensa. Ele dizia: “Mantenha a calma e siga adiante”. Somente 61 anos depois, este terceiro cartaz foi encontrado perdido em uma livraria antiga e acabou se tornando um “meme” que invadiu a internet e as redes sociais.
Na época, essas mensagens de ânimo e motivação em meio à crise foram alvos de crítica e censura por parte da imprensa. No entanto, a frase simples e objetiva é um dos maiores conselhos para tempos trabalhosos. O que fazer quando se passa pelo sofrimento, quando se enfrenta barreiras, quando a fé acaba ou quando o fracasso acontece? Mantenha a calma e siga em frente.
A importância do cartaz não está em seu acabamento artístico. O design é simples, com letras grandes e fundo vermelho. O que impressiona é a atualidade de sua mensagem como uma voz que ecoa através da história. A maneira como essa mensagem simples, mas necessária, vem sendo reproduzida, parafraseada e parodiada fez com que se transformasse numa marca deste começo de século. Uma mensagem que nos remete ao fato de que, quando chega o dia mau, só nos resta prosseguir.
Este é o conselho de Jesus: “Tenham ânimo”. Foi também o conselho de Deus a Moisés e todo povo durante o êxodo: “Marchem!” Esta é a melhor atitude para as situações difíceis da vida: não entre em desespero, siga em frente. Toda crise passa e o que fica é o que nos motivou a perseverar.

domingo, 20 de janeiro de 2008

Como enfrentar as pressões do dia-a-dia / Facing daily pressures

Como você enfrenta as pressões do dia-a-dia? Segundo uma pesquisa realizada no Brasil pela International Stress Management Association (Isma-Brasil), 83% das pessoas não podem ser consideradas capazes de suportar pressão. Ainda de acordo com o estudo, 80% desses entrevistados têm mais chances de desenvolver problemas emocionais como depressão e ansiedade; 75% de apresentar sintomas físicos como dores de cabeça e musculares, azia e alergias; e 72% de ter desvios comportamentais como agressividade, passividade e dependência química.
Pesquisas à parte, o fato é que diariamente enfrentamos pressões de toda sorte. Quando o apóstolo Paulo resolveu abrir o coração e desabafar um pouco a respeito das coisas que o inquietavam, ele afirmou: “Mas temos esse tesouro em vasos de barro, para mostrar que este poder que a tudo excede provém de Deus e não de nós. De todos os lados somos pressionados, mas não desanimados; ficamos perplexos, mas não desesperados; somos perseguidos, mas não abandonados; abatidos, mas não destruídos” (2 Coríntios 4.7-9).
As pressões do dia-a-dia interferem diretamente em nosso comportamento. Eduardo Carmello, um consultor do mundo corporativo, argumenta que 80% das pessoas têm suas competências diminuídas ou ocultadas quando passam por situações adversas e não conseguem lidar bem com elas.
O que mais pode causar pressão no dia-a-dia? Diariamente nos deparamos com adversidades que envolvem todos os problemas ligados à enfermidades, violência, acidentes naturais e acidentes provocados. Nos relacionamos com pessoas com problemas, Em todos os lugares há pessoas com problemas de ordem psicológica, psiquiátricas e neurológicas. Enfrentamos a rotina que, embora seja necessária, não pode ser entendida como um fim em si mesma. E ainda estamos sujeitos a tentações. Você não escolhe ser tentado, você escolhe a maneira como enfrenta as tentações. Nem mesmo Jesus ficou livre das tentações.
A primeira constatação que podemos fazer é que as pressões no dia-a-dia provocam estresse. Mas, ao contrário do que muitos pensam, o estresse não é de todo ruim. Estresse pode se transformar numa energia potencial para solucionar problemas, resolver conflitos, atingir metas e alcançar a realização pessoal.
De que maneira as pessoas reagem a situações de estresse? Algumas pessoas têm tendência à resignação. Costuma-se dizer que tais pessoas sofrem da "Síndrome da Gabriela" porque afirmam com freqüência: "eu nasci assim, eu cresci assim, sempre fui assim. Gabriela... Sempre Gabriela...". Outras, têm tendência à reação. O ambiente é que comanda sua satisfação pela vida. Suas reações são reclamar e praguejar, sendo que nem ao menos tomam alguma atitude efetiva para a mudança. A revolta é uma das principais características de comportamento dessas pessoas. A verdade é que poucas pessoas são capazes de suportar situações de estresse.
A capacidade de suportar pressões no dia-a-dia tem recebido um nome: resiliência. O que é a capacidade de resiliência? Resiliência, expressão que no dicionário é definida como a capacidade de um objeto de resistir a choques. Transportada para campo das relações humanas, pode ser traduzida como a capacidade de um indivíduo ir de um extremo ao outro dos seus limites, como se fosse um elástico, sem se romper. Se você não possui essa capacidade, precisa começar a desenvolvê-la rapidamente.
Earle E. Cairns, no livro Cristianismo através dos séculos, conta uma impressionante história de capacidade de suportar pressão. Por volta do ano 203, uma mulher jovem de boa posição chamada Perpétua, que amamentava ainda seu filho recém-nascido, foi martirizada por ter se convertido. Seu martírio foi registrado por Tertuliano. Ela morreu em companhia de dois escravos, Felicidade e Revocato, e outros dois jovens cristãos, chamados Saturnino e Secúndulo.
Quando Perpétua e seus companheiros foram presos, seu pai tentou convencê-la a abandonar a fé e assim salvar a sua vida. Mas ela afirmou que, assim como cada coisa tem seu nome e é inúltil tratar de mudá-lo, ela tinha o nome de cristã e não podia mudá-lo. Felicidade estava grávida, o que fez com que o martírio fosse atrasado até que que dessa à luz a uma menina, que foi adotada por uma irmã na fé. Quando era ofendida pelos carcereiros, Felicidade dizia com simplicidade:
- Agora meus sofrimentos são só meus. Mas quando tiver que enfrentar as bestas haverá outro que viverá em mim, e sofrerá por mim, posto que eu estarei sofrendo por ele.
Os rapazes foram sacrificados primeiro. Saturnino e Revocato morreram rapidamente, mas a Secúndulo, nenhuma fera quis atacá-lo. O javali que soltaram, acabou ferindo um dos soldados em vez de atacar o cristão. O urso negou-se a sair ao seu encontro. Por fim, o próprio Secúndulo anunciou ao carcereiro que um leopardo o mataria com uma só dentada, e assim foi.
Quando chegou a vez de Perpétua e Felicidade, anunciaram que haviam preparado uma vaca furiosa que as chifrasse. Pepétua foi chifrada e jogada para o alto, mas conseguiu levantar-se, ajeitar a roupa e o cabelo para retirar o sinal de luto que a colocaram, afirmando que aquele era um momento feliz em sua vida. Logo foi ao encontro da amiga que estava gravemente ferida, abraçou-a e indagou a todos:
- Onde está a famosa vaca?
Finalmente, as duas se reuniram no centro da arena, despediram-se com o ósculo da paz, aguardando a morte por espada. O carrasco que atacou Perpétua tremia e não conseguia feri-la de morte. Ela teve que tomar a mão do carrasco orientando-o a feri-la na garganta. Nesse ponto da narrativa, Tertuliano comenta: "Talvez o demônio a temesse tanto que não se atrevia matá-la sem que ela o quisesse".

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