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sexta-feira, 18 de abril de 2025

O drama da cruz / El drama de la cruz / The drama of the cross

 

A crucificação de Jesus foi cercada de vários aspectos que poderiam servir para abreviar a sua morte. Ele já tinha sido açoitado e torturado pelos soldados, estava faminto e tinha sede, recusou beber a mistura de vinho com fel que lhe serviria de entorpecente, os cravos em suas mãos e pés tinham por objetivo provocar uma hemorragia, recebeu vinagre para beber e ainda tinha sido ferido em seu ventre. A crucificação foi por volta das 9 horas da manhã no monte chamado Gólgota, que quer dizer “caveira”. Hoje o chamamos de monte do Calvário. Jesus expirou por volta das três horas da tarde. Antes de expirar, Jesus clamou em aramaico como um sinal de seu grande sofrimento. Ele não estava afirmando que Deus o havia abandonado. A expressão enkatelipes deve ser mais bem traduzida como “deixar em apuros”. Mateus registra que a morte de Jesus foi acompanhada de alguns fenômenos sobrenaturais: começou com o período de trevas desde o meio dia até as três da tarde, a cortina que dividia o lugar santo do lugar santíssimo no templo se rasgou de alto a baixo, houve um terremoto, os sepulcros se abriram, alguns mortos ressuscitaram. Esses fatos levaram o centurião e os soldados que acompanhavam a crucificação a reconhecerem que Jesus era realmente o Filho de Deus.

Jesus veio ao mundo em cumprimento de uma promessa divina para a redenção dos homens. Muitos profetas anunciaram a sua vinda afirmando ser ele um rei. E o próprio Evangelho de Mateus usa a designação de rei oito vezes para referir-se a Jesus Cristo como tal. Ele foi reconhecido como rei pelos magos que vieram do oriente, na época do seu nascimento (conforme Mateus 2.2). Ele foi aclamado rei pela multidão, quando entrou em Jerusalém pela última vez (Mateus 21.5). Ele mesmo se apresentou como sendo rei (Mateus 25.24 e 40). E foi julgado por ser apontado como rei dos judeus, o que significaria uma alta traição para o governo romano que dominava aquela região (Mateus 27.11). A inscrição na cruz era uma informação a respeito do crime pelo qual Jesus estava sendo punido, por ter falado a verdade de que ele era o Messias. Embora aquela expressão proclamasse uma verdade, Jesus é muito mais que um rei. Ele é o Senhor de todos os povos e tem sobre si todo o poder.

Se notarmos bem o que aconteceu ali durante a crucificação, Jesus foi maltratado por três grupos diferentes de pessoas: os que iam passando (Mateus 27.39), os religiosos importantes (Mateus 27.41) e os salteadores que foram crucificados com ele (Mateus 27. 44). Poderíamos dizer que Jesus sofreu o escárnio devido à ignorância das pessoas (pelos passantes), por pura discriminação religiosa (pelos sacerdotes, escribas e anciãos) e por puro ressentimento (pelos salteadores crucificados). Aquele que foi desprezado entre os seus, era verdadeiramente o “Filho amado” do Pai que “veio para os que eram seus e os seus não o receberam, mas a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, a saber, aos que creem em seu nome” (João 1.11-12).

O clamor de Jesus na cruz foi uma expressão de extremo sofrimento físico, moral e espiritual. Ali, Jesus se fez pecado por nós, carregando sobre si os pecados de toda a humanidade, com o propósito de salvar a todo o que nele crê. Como ser humano, Jesus sentiu-se isolado e abandonado, durante aquelas quase seis horas de sofrimento, das quais três horas corresponderam a um período de trevas. Era necessário que Jesus chegasse ao auge do sofrimento para que, assim, ele pudesse ser perfeitamente Salvador e substituto de todos nós, pecadores. Só assim podemos afirmar que ele morreu em nosso lugar, pagando o preço pela nossa própria salvação.

A morte de Jesus foi o sinal mais evidente do amor de Deus por todos os homens. Jesus foi crucificado para o perdão de nossos pecados. Não haveria outro motivo pelo qual Deus viesse consentir com tamanho sofrimento de seu Filho, quando de sua vida entre os homens. A morte na cruz significou um grande sofrimento para Jesus. Ele foi obediente em tudo, deixou-nos o seu exemplo de resignação e amor, em tudo foi submisso ao Pai para cumprir todo o propósito de Deus. Tudo isso para que pudesse garantir liberdade de acesso a Deus. O pecado, a maior barreira que separa o homem e Deus, foi vencido ali na cruz, concedendo pleno perdão a todo aquele que o busca pela fé.

Mateus 27.55-56 chama a atenção do leitor para as mulheres que serviam a Jesus e acompanhavam todo aquele drama até o momento final da sepultura (v. 61). Nem todos os seguidores de Jesus haviam fugido, as mulheres haviam permanecido fiéis até o fim. Mateus fala também de um discípulo chamado José de Arimateia, que era homem rico, membro do Sinédrio (Marcos 15.43) e amigo de outro judeu ilustre chamado Nicodemos que o ajudou (João 19.18.39), que providenciou o sepultamento de Jesus em um túmulo novo de sua propriedade. Uma tradição essência dá conta de que o crucificado pelos mesmos motivos alegados contra Jesus deveria ser sepultado no mesmo dia de sua morte [1]. Além disso, logo a tarde seria finda e o sábado teria início, quando ninguém poderia fazer qualquer trabalho, muito menos tocar em um morto, considerado um serviço imundo. Os fariseus demonstraram que, no fundo, acreditavam no poder miraculoso de Jesus ao solicitar a Pilatos uma guarda especial para o sepulcro e providenciar um selo para pedra que o fechava. A ideia do embuste era só uma desculpa.

(Extraído do meu livro Mateus, o evangelho do Reino, disponível em: https://a.co/d/id6yeMi ).



[1] Jean Dominic CROSSAN. Quem matou Jesus? As raízes do anti-semitismo na história evangélica da morte de Jesus. Rio de Janeiro: Imago, 1995. p. 195.

quinta-feira, 18 de abril de 2019

O banquete de Jesus na Páscoa / The feast of Jesus at Easter/ El banquete de Jesús en la Pascua


Durante o banquete da última Páscoa de Jesus entre nós, ele reuniu seus discípulos para deixar uma mensagem de vida e de encorajamento. A Páscoa é uma festa judaica que o cristianismo adotou como uma de suas datas mais expressivas. Por ocasião dela, os discursos em torno da compaixão, do perdão, da fraternidade e da esperança se renovam. Quando Jesus pediu que seus discípulos preparassem a última ceia de Páscoa, ele não queria só um banquete, mas chamar seus discípulos a um novo modo de entender sua ação no mundo. E tudo começava a partir da presença de todos em torno da mesa.
O cardápio da última ceia foi certamente comum a uma comunidade de pobres e peregrinos. Não havia tempo para o preparo nem recursos para adquirir muita coisa. Mas foi quando eles estavam em torno dessa mesa simples e pobre que tudo começou a ganhar sentido. Os alimentos eram representativos da condição que viviam. E em meio ao que havia na mesa, Jesus escolheu o pão e o vinho para dizer que eram símbolos de sua vida e missão.
Outro fato que chama a atenção no último banquete de Jesus foi a presença dos comensais. O critério de escolha dos participantes da mesa foi o da inclusão. Ninguém ficou de fora, nem mesmo o traidor. A mesa de Jesus é um espaço de acolhimento em que todos têm lugar. Os que se tornam mais íntimos têm o privilégio de poder recostar sua cabeça nos ombros de Jesus. Já os que carregam consigo a culpa, qualquer palavra lhe soa como acusatória.
O gesto que marcou a preparação para o banquete foi o da humildade do anfitrião. Jesus lavou os pés dos seus discípulos como demonstração do seu amor, um amor que o colocava a serviço do outro. Seu gesto deveria ser visto como sinal de que ele mesmo está pronto a nos atender em nossas necessidades, mas principalmente deveria servir como exemplo para que coloquemos a nossa vida a serviço do próximo. Aquele que nos chama para sua mesa nos intima a servirmos a mesa para um mundo que precisa de afeto e acolhida.
Houve também um discurso naquele banquete. A mensagem ficou marcada pela afirmação do mandamento do amor. Era um novo mandamento, o amor que tem em Jesus seu maior praticante. Amar uns aos outros não é amar a quem nos ama, mas amar como Jesus nos amou.
Mas na última ceia houve também um apelo em favor dos lugares vazios naquela sala. Jesus lembrou que seu sangue seria derramado por muitos para perdão dos pecados. Jesus lembrou-se dos excluídos, dos desprezados do mundo, daqueles que estão de fora. Há muitos que precisam ser convidados ao banquete de Jesus, para tomar parte de sua comunhão e receber a dádiva de sua obra redentora.
A mesa de Jesus não tinha só pão e vinho. Tinha também solidariedade, disposição de servir, acolhida e justiça. Jesus à mesa com seus discípulos representa um chamado a um deslocamento para o lugar do outro. A ceia, portanto, é um dos símbolos da Páscoa de Jesus, tão grande quanto a sua morte de cruz e sua ressurreição. Foi aquele banquete de Jesus com seus discípulos que deu início a toda sequência dos episódios pascais lembrados pelos cristãos. Se quisermos comemorar a Páscoa de Jesus dignamente, lembremos que estar em torno da mesa tem um sentido missional, de fazermos um deslocamento para o lugar daqueles que necessitam desse amor que serve.

sexta-feira, 30 de março de 2018

Mística da Paixão / Mystic of the Passion / Mística de la Pasión


“[...] tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim” (João 13.1).
O que levou Jesus a morrer numa cruz? A teologia tradicional nos dirá que Jesus escolheu assim para nos substituir de forma completa, para pagar o preço de nossos pecados. E nos dirá com toda convicção que o próprio Pai enviou seu filho, por amor, para morrer em nosso lugar. Ele foi dado em sacrifício vivo e perfeito para a nossa salvação.
Essas informações foram passadas para nós como se fossem verdades absolutas. Porém, a morte na cruz não pode ser tratada como um fato isolado, independente do contexto em que Jesus Cristo viveu. Podemos dizer que ela é resultado de algo muito maior e muito mais complexo. A crucificação é resultado da paixão.
Primeiramente, a paixão de um Deus pela humanidade. Tomado de um amor louco, Deus toma a decisão de encarnar a nossa humanidade de forma plena, cercado por todas as nossas ambiguidades, contradições e fragilidades, mas também de virtudes e valores. Ele escolheu nascer numa manjedoura entre animais, comer e andar com pecadores e morrer crucificado entre marginais, embora tivesse tudo para viver de outro modo. Nasceu em uma família de sangue nobre, herdeira de um trono; foi educado entre mestres e doutores para ser como um deles; e teve várias oportunidades de escapar da perseguição e da morte durante a sua vida. Isso nos leva a perguntar: o que alguém tomado de paixão é capaz de fazer? Levar às últimas consequências seu amor sem medida.
Em segundo lugar, a paixão de uma pessoa que viveu de modo que só poderia resultar em uma morte implacável. Jesus afrontou as autoridades judaicas ao acusar sua hipocrisia e injustiça. De um lado, seus ensinos colocavam em questão a validade da tradição e apresentavam novos significados e possibilidades de interpretação. Por outro, desafiou os costumes da época, fazendo coisas que rompiam com certos hábitos: ele curou no sábado, tocou em pessoas imundas, acusou a maldade de fariseus e doutores da lei. Mas Jesus também afrontou as autoridades romanas. Ele escolheu estar ao lado de gente vulnerável, desprezada por sua condição de pobreza. Por causa de suas posturas, muitas vezes foi tomado como um revolucionário, que seria capaz de conduzir o povo à superação das formas dominantes de opressão e de exploração. Jesus desafiou as estruturas políticas e religiosas de seu tempo.
Em terceiro lugar, os episódios que cercaram o período que chamamos de paixão de Cristo foram marcados por um conflito: não só Jesus foi preso, açoitado, condenado e consequentemente crucificado pela fúria de seus inimigos, mas também foi traído, negado e abandonado pelos seus amigos. As narrativas da paixão não só demonstram a maldade dos inimigos, mas também a traição dos amigos. E elas não só despertam uma reflexão crítica sobre a condição humana, mas também nos indica caminhos para a nossa realização. O remorso da traição e da maldade pode nos conduzir à fuga, à indiferença ou até mesmo ao suicídio. Mas o amor louco de alguém que escolheu viver como viveu, ao ponto de assumir até o fim as consequências disso, nos conduz a um reencontro, a uma nova oportunidade, a uma atitude de transformação de nossa maneira de viver.
Alguém que escolheu viver como Jesus viveu só poderia morrer como ele morreu. Não foi Jesus que escolheu a cruz, foram os homens que rejeitaram a oferta de vida de Jesus e o conduziram à cruz. A morte de Jesus na cruz é da mesma natureza da morte de quem morre lutando por direitos dos mais frágeis. A cruz é uma vergonha para nós, pois representa a nossa escolha humana de rejeitar a oferta do amor divino pela humanidade. Um amor que não compreendemos, mas que necessitamos. A cruz é o símbolo do amor rejeitado, embora sejamos tão carentes dele. Contemplar a cruz nos remete às minhas próprias carências como também à minha própria dificuldade de acolher o amor divino.
A paixão de Jesus é um mistério. Ela expõe a nossa humanidade, mas ao mesmo tempo revela o amor e a justiça de Deus. Tanto fala de nossas carências e fraquezas, como nos fala da graça redentora. Ela aponta para a nossa finitude, como também nos oferece uma abertura para o que está além de nós mesmos. Pensar na paixão pela via da teologia tradicional pode nos conduzir a equívocos. Uma justiça, ainda que divina, que precisa da morte de alguém para produzir seus efeitos é falha. Um pai, ainda que seja o Pai Nosso, que manda seu filho para morrer tem um amor muito duvidoso. Um Deus que precisa do sacrifício de alguém para aplacar sua ira por causa dos pecados do outro é um deus fraco. A cruz desconstrói a nossa ideia de um Deus racional e imutável e nos remete ao encontro com o Deus que se faz presente de forma silenciosa na dor de quem morreu por amor.
Mas a paixão de Jesus não só não é um fato isolado, como também não possui um fim em si mesma. A paixão não se consuma na cruz. Ela se realiza na ressurreição. O encarnado e crucificado, ressuscitou. E as narrativas da paixão que encontramos nos evangelhos têm o cuidado de nos contar toda a história: Jesus foi traído, preso, torturado, condenado, crucificado, sepultado e ressuscitado. Sem a ressurreição, a morte na cruz não passaria de um martírio ou sacrifício. Mas ela é mais que isso, é o chamado para a realização da vida de Deus na nossa vida.

sábado, 15 de abril de 2017

Sete palavras da cruz / Seven words from the cross / Siete palabras de la cruz

Nenhum púlpito, tribuna ou cátedra foi tão eloquente como a cruz. A crucificação de Jesus foi um espetáculo público que envolveu todo tipo de espectadores: familiares, seguidores, executores, curiosos e até inimigos e algozes. O horror da cruz falava por si só.
Ali na cruz, Jesus assumiu sobre si o mistério de Deus para resgatar a humanidade. Ele exerceu na cruz o papel de um mestre em sua cátedra ao proclamar sete breves frases carregadas de amor. Elas são as últimas palavras de alguém que teve uma vida expressiva, ocupado com a dor de gente como a gente.
A primeira, uma palavra de perdão. “Jesus disse: ‘Pai, perdoa-lhes, pois não sabem o que estão fazendo’. Então eles dividiram as roupas dele, tirando sortes” (Lucas 23.34). Ela fala que somos acolhidos por Deus, não importa o tamanho de nossos pecados.
A segunda, uma palavra de esperança. Jesus lhe respondeu: ‘Eu lhe garanto: Hoje você estará comigo no paraíso’” (Lucas 23.43). Ela fala de que o melhor de Deus já está preparado para nós, mesmo que tudo pareça dar errado.
A terceira, uma palavra de compaixão. Quando Jesus viu sua mãe ali, e, perto dela, o discípulo a quem ele amava, disse à sua mãe: ‘Aí está o seu filho’, e ao discípulo: ‘Aí está a sua mãe’. Daquela hora em diante, o discípulo a levou para casa” (João 19.26,27). Ela fala nada foge ao olhar misericordioso de Deus, até nossos sentimentos mais íntimos.
A quarta, uma palavra de revelação. “Por volta das três horas da tarde, Jesus bradou em alta voz: ‘Eloí, Eloí, lamá sabactâni?’ que significa: ‘Meu Deus! Meu Deus! Por que me abandonaste?’” (Mateus 27.46). Ela fala que Jesus é o messias divino, o abandonado de Deus, que se esvazia a si mesmo para se revelar tão próximo.
A quinta, uma palavra de humanidade. Mais tarde, sabendo então que tudo estava concluído, para que a Escritura se cumprisse, Jesus disse: ‘Tenho sede’” (João 19.28). Ela fala que Jesus era gente como a gente, com necessidades e possibilidades humanas, a fim de que sejamos gente como ele foi.
A sexta, uma palavra de missão. Tendo-o provado, Jesus disse: ‘Está consumado!’ Com isso, curvou a cabeça e entregou o espírito” (João 19.30). Ela fala que Deus está em missão, realizando a obra da redenção, que Jesus cumpriu de forma cabal ao assumir nossa humanidade até a morte na cruz.
A sétima, uma palavra de entrega. Jesus bradou em alta voz: ‘Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito’. Tendo dito isso, expirou” (Lucas 23.46). Ela fala que a morte não é o fim, mas nela está o começo de uma nova vida, que já pode ser experimentada aqui como nova criatura que renasce com a entrega por fé da vida inteira a Jesus.

domingo, 27 de março de 2016

O que farei de Jesus? / What shall I do then with Jesus / ¿Qué pues haré de Jesús?

Que farei então com Jesus, chamado Cristo? Mateus 27.22 
Diante do evento histórico do nascimento, morte e ressurreição de Jesus, uma pergunta não pode deixar de ser feita: o que farei de Jesus? Essa pergunta foi feita por ninguém menos que Pilatos, aquele governador romano responsável por conduzir o julgamento e a condenação de Jesus. Ele estava diante de um homem inocente, que havia feito o bem por onde passou, que trouxe uma proposta de vida nova para todas as pessoas, mas que havia contrariado os poderosos de seu tempo.
Você pode ignorá-lo. Essa foi a atitude dos líderes judeus. Eles ignoraram o fato de que Jesus era a manifestação de Deus na história: ali estava o encarnado, o Deus que vem a nós. Os sinais históricos da revelação de Deus em Cristo tinham sido dados. Até Pilatos sabia da trama sórdida dos líderes dos judeus. O autor do evangelho registra: Porque sabia que o haviam entregado por inveja” (Mateus 27.18). Há muitos que agem da mesma forma. Ignoram o fato de que Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo. Jesus não foi um mero acontecimento. Ele foi o enviado de Deus para nos trazer a Boa Nova de paz e salvação.
Você pode condená-lo. Essa foi a atitude da multidão. Eles gritaram: Crucifica-o! (Mateus 27.22). Esse é o resultado da maldade no coração humano. A morte de Jesus na cruz é o resultado da rejeição humana ao modo de vida com que Jesus viveu. Para todos aqueles que encontrou, Jesus disse: “segue-me”. Porém, isso implica uma mudança de atitude e de rumo. E são poucos os que estão dispostos a tomarem essa decisão.
Você pode divinizá-lo. Essa foi a atitude da esposa de Pilatos. Ela disse: Não se envolva com este inocente, porque hoje, em sonho, sofri muito por causa dele (Mateus 27.19). Para ela, era muito mais fácil colocar Jesus em um altar, tratá-lo como divino apenas, venerá-lo à distância, como quem diz: “reconheça como Deus, mas fique bem longe dele”. E são muitos os que ainda o veem dessa forma.
Você pode se tornar indiferente. Essa foi a atitude de Pilatos. Ele disse: Estou inocente do sangue deste homem; a responsabilidade é de vocês (Mateus 27.24). E lavou as suas mãos à vista de todos. Ele havia percebido a trama dos líderes judeus, acusando-o sem prova. Seu pior crime foi ter dito que era o Filho de Deus. Só um louco diria tal coisa. E somente pessoas de pouco entendimento seriam capazes de entender que se tratava de um engano. E ainda há muitos que acham que seguir a Jesus e crer em sua proposta de nova vida é uma coisa para pessoas com falta de entendimento.
Você pode acolhê-lo em amor. Diante do episódio da cruz, ninguém poderia imaginar que ali estava o salvador do mundo. Somente aqueles que andaram com Jesus, que partilharam da sua dor e paixão, poderiam compreender que se tratava de alguém especial, o Deus conosco, aquele que nos amou até o fim. Somente aqueles que o acolheram em amor poderia atribuir o real sentido daquele gesto na cruz. E ainda hoje só é possível compreender o verdadeiro sentido da Páscoa cristã se acolhermos a Jesus, sua mensagem e seu Reino, em uma resposta de amor ao seu chamado.
Portanto, o que podemos fazer de Jesus hoje? Eu diria que é nos oferecermos a ele como instrumentos para encarnarmos sua vida e mensagem num mundo de tantos conflitos como este em que vivemos.

domingo, 5 de abril de 2015

Ressurreição e vida / Resurrection and life / La resurrección y la vida

“Disse-lhe Jesus: ‘Eu sou a ressurreição e a vida. Aquele que crê em mim, ainda que morra, viverá’.” João 11.25
O teólogo alemão Jürgen Moltmann afirmou que “uma fé cristã que não é fé na ressurreição não pode por isso ser chamada nem de cristã nem de fé.” Crer na ressurreição é reconhecer aquele que foi ressuscitado como o mesmo que suportou a cruz e é também confiar naquele que o ressuscitou. O testemunho de fé dos discípulos e a ousadia da proclamação do evangelho fortalecem a convicção de que a ressurreição foi um fato que se deu na história e que produziu efeitos históricos sobre a humanidade toda.
Crer na ressurreição de Jesus é tomar por inteiro a realidade da revelação divina. Em Cristo, Deus assumiu a nossa humanidade. A encarnação não seria humana se não incluísse a morte. Na cruz, Deus morreu. Em sua morte estavam também todas as crenças, todas as esperanças, todas as ilusões. Mas aqueles que creram puderam vê-lo ressuscitado, vivo, em todo o seu esplendor.
Em que acreditamos quando afirmamos a fé na ressurreição de Jesus? Em primeiro lugar, aquele que foi crucificado apareceu aos seus discípulos e a quem mais amava. Em segundo lugar, aquele que apareceu vivo dentre os mortos é o mesmo que veremos quando estivermos face a face com ele. E em terceiro lugar, aquele que nem mesmo a morte pode deter é o que está conosco e nos estimula a caminhar. Você crê nisso?
E o que acontece por crermos na ressurreição? Em primeiro lugar, isso fortalece a nossa confiança naquele em quem cremos. Em segundo lugar, isso restaura a nossa esperança em relação ao futuro que teremos. E em terceiro lugar, isso nos motiva a cumprir a missão que recebemos. A fé na ressurreição desperta a vida que renasce a partir do encontro com aquele que ressurgiu.
Quando os primeiros discípulos, testemunhas oculares, viram a Jesus ressuscitado, isso lhes fez lembrar a promessa da glória divina que encheria a Terra e fez com que aumentasse a esperança de que esta mesma glória seja consumada no futuro. Quem crê na ressurreição consegue visualizar a glória futura e conceber o que até então não era possível ao entendimento humano: nos o veremos em toda a sua glória.
A ressurreição é o começo do fim. Estava diante daquelas pessoas o símbolo da ressurreição futura, da vitória sobre o medo e a morte e a expectativa do que nos aguarda no futuro. Sem isso, toda a fé se torna sem sentido. “Se Cristo não ressuscitou, é inútil a nossa pregação, como também é inútil a fé que vocês têm” (1 Coríntios 15.14).

sexta-feira, 3 de abril de 2015

Um dia para viver / A day to live / Un día para vivir

O que você faria se soubesse que tem apenas um dia de vida? Este foi o dilema de Jesus nas últimas 24 horas antes de sua crucificação. Porém, ele fez coisas e deixou lições que valeram para toda a humanidade.
Como lidar com a ambiguidade da vida e ainda assim deixar um legado para as próximas gerações? Viver cada momento como se fosse o último, mesmo em situações adversas, pode ser determinante para as escolhas que temos a fazer.
Você certamente já conhece a série de tevê norte-americana “24 horas”, em que um agente secreto tem apenas 24 horas para desvendar um caso. O mais curioso da série é o título em inglês que ela recebe: “Deadline”, que pode ser traduzido como “prazo final” ou mesmo “tempo determinado”. Literalmente quer dizer “linha da morte”. O termo é usado para definir o prazo de entrega de um determinado projeto ou serviço.
Isso lembra a necessidade de aproveitar bem o tempo e as oportunidades. Para não perder nem uma coisa nem outra, você precisa ter propósito naquilo que faz, principalmente quando a vida de outros está implicada. Precisamos aprender a conviver com o fato de que a vida é limitada e as oportunidades são únicas e decisivas para a nossa realização pessoal.
Mais do que isso: a nossa vida é uma oportunidade única para sermos aquilo para o qual Deus nos criou. Se levarmos em consideração o que o astrônomo brasileiro Marcelo Gleiser tem afirmado, chegaremos à conclusão de que, de fato a vida é rara. Ele disse: “temos que repensar nossa importância cósmica, como seres pensantes num universo em que a vida é extremamente rara.O físico inglês Stephen Hawking reconhece que não só a Terra, mas o universo inteiro é propício à vida, e em particular à vida humana. Isso deve nos levar a celebrar a vida e a fazer dela mais significativa. Os dinossauros e os neandertais viveram milhares de anos neste planeta sem precisar de automóveis, avião ou celular. Nós, no entanto, temos inteligência suficiente para torná-la mais significativa sem que isso signifique um risco para a sua manutenção.
Viver, por si mesmo, não tem um plano. Nós é que precisamos dar à vida um sentido de existência. E o prazo que temos para fazer isso é agora. Ninguém pode decidir o que acontecerá amanhã, por isso é que se torna muito importante fazer bom uso de cada momento vivido. As coisas que fazemos, nossas escolhas e os relacionamentos que desenvolvemos hoje são oportunidades únicas de fazermos com que nossa vida seja mais significativa tanto para nós mesmo quanto para aqueles que amamos.
Nas últimas horas de Jesus, ele tomou decisões importantes e realizou coisas expressivas para aqueles a quem amava que tiveram consequências para toda a humanidade. Em seu último dia de vida antes da cruz, ele fez questão de estar em comunhão com seus amigos, foi traído por um dos seus, gastou tempo a sós com Deus, foi preso e julgado injustamente e ainda trilhou o caminho humilhante da cruz. A maneira como enfrentou cada circunstância, mesmo as mais duras e contraditórias, foi enfrentá-las como oportunidades únicas para deixar uma lição de vida.
O tempo que passamos ao lado de pessoas queridas, a maneira como lidamos com aqueles que nos fazem mal, nossa intimidade com Deus, os juízos que nos são lançados e as lutas que temos que enfrentar são situações que estão sempre presente em nosso cotidiano. Elas exigem de nós escolhas e atitudes que podem deixar marcas profundas que vão afetar as pessoas a quem amamos.
Jesus deixou seu exemplo de vida até mesmo no seu último dia. A cruz não foi o seu fim, mas o começo de uma grande obra transformadora que atinge a toda a humanidade. E ele soube aproveitar cada momento em que aqui viveu para colocar a sua vida toda a disposição do propósito divino de salvar a humanidade. Isso deve nos levar a pensar no que fazer neste tempo que nos resta, não importa o quanto seja.

quinta-feira, 17 de abril de 2014

Páscoa, ressurreição e vida / Easter, resurrection and life / Pascua, la resurrección y la vida

Disse-lhe Jesus: ‘Eu sou a ressurreição e a vida’. [...]” João 11.25
Páscoa é recomeço, chamada para uma nova vida, um novo tempo em que novas oportunidades tornam-se possíveis. Celebrar a Páscoa é celebrar a vida.
Foi assim para os hebreus. Na antecipação da travessia para a terra da promessa, uma pausa para reunir a família e a comunidade de fé para refletir sobre o que há de vir.
Foi assim para Jesus. Na véspera da cruz, uma pausa para reunir seus seguidores e amigos para um último banquete e refletir sobre os rumos da fé.
A Páscoa aponta para um fim. É lá que está o começo da vida plena. Para chegar ao fim, há que se fazer a trajetória toda, com todas as implicações da caminhada. Inclusive a morte.
Em tempos de individualismos e de tanta maldade, celebrar a Páscoa é voltar os olhos para a nossa condição humana e construir as pontes de justiça, solidariedade e compaixão que nos ajudem a fazer a caminhada toda.
A salvação consiste em encontrar forças para seguir caminho. Elas estão na relação com aquele que se fez caminho. Sua ressurreição é a garantia de que o caminho é seguro. Nele está a salvação e a vida.
Na figura daquele que foi humanamente divino, Jesus de Nazaré, encontramos a força para seguir adiante, a esperança no futuro, a certeza de que toda maldade terá um basta, de que a vida se renova e que novos começos são possíveis.

Feliz Páscoa com Jesus. Sem ele, não há recomeços.

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Mística da cruz / Mystic of the cross / Mística de la Cruz

Lucas narra a trajetória de Jesus até a cruz de forma muito curiosa. No capítulo 23, logo após o julgamento, Jesus inicia sua caminhada observado por muitas pessoas. Certamente, a maioria que estava ali não era a favor da condenação, mas assistia com diferentes olhares aquele homem enfraquecido pelos açoites carregando uma cruz.
Quem eram as pessoas que estavam ali na via crucis da história? Eram pessoas com identidades distintas, mas que acabavam encontrando a si mesmas diante daquele escandaloso espetáculo. A primeira pessoa a ser mencionada é Simão, o cireneu, que nem era dali. Constrangido a ajudar a Jesus, teve que carregar o peso da cruz, mesmo sem vontade de fazê-lo. Era um visitante que veio à Jerusalém para a festa da Páscoa. Nenhum seguidor de Jesus foi compelido a carregar a cruz, mas sim um estranho.
Lucas fala da multidão que se estendia ao longo do caminho. A grande quantidade de curiosos era marcada pela dor e repulsa por aquele momento trágico. O espetáculo da crucificação levou as pessoas a baterem no peito, que era o sinal de luto. Poderia ser também um sinal de contrição, clamando por misericórdia por si mesmos, o que não acontecia naquele momento. As mulheres geralmente acompanhavam os funerais com cânticos e choro, produzindo muito barulho. A multidão, entretanto, apenas acompanhava a execução.
Ao chegar ao Calvário, o monte da crucificação, Jesus foi crucificado entre dois criminosos. A condenação à cruz era destinada aos crimes mais hediondos. Um zombava de Jesus, mas o outro o identificou como aquele que pode perdoar e propor uma nova vida, ainda que no restinho dela.
As autoridades que executaram a crucificação zombaram de Jesus, argumentando contra a sua condição de Messias e Salvador. Ao final, o centurião, chefe da tropa que comandou a execução, teve que reconhecer a inocência de Jesus e glorificou a Deus.
Não podemos nos esquecer daqueles que eram seguidores de Jesus, que apenas ficaram contemplando a tudo de longe. As mulheres mencionadas eram as que serviram a Jesus. Talvez não fosse aconselhável envolver-se demais.
O trajeto percorrido por Jesus até a cruz acabou se constituindo num exercício espiritual repetido através da história do cristianismo, em que fiéis são conduzidos a meditar em cada parada de Jesus durante a caminhada, que ficou conhecido como via crucis, ou via sacra, ou mesmo via dolorosa. Atualmente, esse exercício inclui 14 estações que lembram etapas desse trajeto, que são relembradas no chamado período da Quaresma, que antecede a Páscoa. Muitos religiosos escreveram meditações para esse exercício, entre eles os dois últimos papas João Paulo II e Bento XVI. Os católicos costumam se referir a Jesus na via sacra como o Senhor dos Passos.
Lutero desenvolveu sua teologia a partir da cruz. Para ele, a nossa condição de pecadores nos impede de conhecer Deus em sua glória. A sabedoria humana jamais permitirá um conhecimento de Deus como ele é. A forma com que o homem pode conhecer Deus é através do sofrimento da cruz. É na cruz que encontramos a nossa redenção e é nela que Deus revela seu amor. Olhar para a cruz é encontrar Deus, não no lugar onde queremos vê-lo, mas no lugar onde ele se revela em toda a sua plenitude.
Na cruz, Deus se mostra humano: impotente diante da morte, humilhado pela culpa que tomou para si. Ali, todas as nossas ideias sobre quem ele é e sobre quem nós somos são lançadas por terra. O que fica é a confrontação com alguém que se faz frágil, que se entrega ao sofrimento e se expõe ao escândalo. Muitos querem encontrar Deus em meio às circunstâncias da vida, perguntando-se por onde ele está. Só o encontraremos se o buscarmos no lugar mais escondido, nas noites escuras da vida que envolvem o comprometimento com a morte de Jesus na cruz. Isso nos humaniza, porque nos expõe à nossa própria fragilidade. Sem a experiência com o caminho de Jesus até a cruz, a fé se torna vazia.

A cruz nos chama para uma espiritualidade que nos impõe um paradoxo. Muitos seguem a Jesus até o partir do pão, mas poucos assumem o desafio do cálice da paixão. Muitos buscam a Jesus por causa dos seus milagres, mas poucos o seguem até a cruz. Muitos querem um cristianismo de boas realizações, mas poucos compreendem a entrega de si na cruz. Refletir sobre a cruz é encontrar-se consigo mesmo no lugar em que Deus, na história, se revelou como um de nós.

quarta-feira, 31 de março de 2010

Páscoa, espiritualidade e significado / Easter, spirituality and meaning / La Pascua, la espiritualidad y el sentido

Quando foi instituída a primeira Páscoa, o povo hebreu estava em uma situação limite. Eles precisavam fazer a escolha: ou ficavam no lugar onde havia cebolas e carne ou saíam em peregrinação para o lugar que mana leite e mel. Mas não era uma escolha de paladares e sabores. Era a escolha de confiar na promessa divina ou não. O Egito era um lugar de esforço e escravidão. A terra da promessa seria um lugar de outro tipo de esforço, mas onde seria possível experimentar a liberdade. O problema é que isso implicava um exílio. Em meio a expectativas da partida do Egito para o lugar da promessa, Deus pede para que seu povo celebre um banquete, cuja marca predominante é o sangue do cordeiro como marca de livramento e de confiança. O povo tinha que estar preparado para partir a qualquer momento.
Quando Jesus comeu sua última páscoa com seus discípulos, era também uma situação limite. Voltar a Jerusalém não foi uma decisão fácil. Da última vez, Jesus fora rejeitado. Dessa vez, podia ser a última e isso estava cercado de temores. Ao chegarem, eles não sabiam sequer aonde iriam se reunir. Encontrar um homem com um cântaro de água não seria uma coisa tão simples numa cidade como aquela. Em meio à incerteza, a notícia de que um dos doze iria trair. Durante a refeição, típica das famílias judaicas da época, Jesus interrompe o banquete, toma o pão e o cálice de vinho e diz: isto é o meu corpo e o meu sangue.
Muito provavelmente Jesus tinha na mesa os ingredientes básicos de uma ceia judaica: além de pão asmo e vinho, havia também cordeiro assado e ervas amargas. Cada elemento se revestia de uma simbologia que apontava para Cristo. O cordeiro era a lembrança do sacrifício que traz perdão. João 1.29. As ervas amargas lembravam o sofrimento que seria tomado sobre si pelo messias prometido. Isaías 53.4-5. O pão teria que ser sem fermento, o pão asmo, para lembrar a necessidade de uma vida desprendida. 1 Coríntios 5.7-8, João 6.35 e 50. E o vinho representava o sangue que propiciava o perdão e a reconciliação com Deus. Mateus 26.38, 1 João 1.7.
A Páscoa é esse momento que nos remete a algumas atitudes de nossa fé. Tanto na primeira vez quanto na última ceia de Jesus somos lembrados de que, para uma experiência de Deus que possa gerar vida, se fazem necessários alguns deslocamentos: de tempo – quando deixamos de ser dominados por uma temporalidade marcada pela finitude e pela incompletude para viver na dimensão do oportuno, do vivido e do eterno; de espaço – quando deixamos de lado um a preocupação centrada no eu para vivermos no espaço do outro, como um exílio de si mesmo; de ordem – quando deixamos a lógica que rege as ações humanas para vivermos a graça.
A Páscoa é essa afirmação do humano que descobre em Cristo que pode e deve viver diante de Deus como humano. Somos livres para assumir a nossa humanidade e, assim viver diante de Deus em total responsabilidade. Liberdade e responsabilidade se encontram como termos correlatos e é isso que nos aponta para nós mesmos, em nossa condição, para vivenciarmos a experiência de Deus com a consciência livre por meio de Cristo.

quinta-feira, 9 de abril de 2009

O significado contemporâneo da Páscoa / The contemporary meaning of Easter / El sentido contemporáneo de la Pascua

Durante estes dias você vai ouvir em algum lugar alguém contar a história da morte e ressurreição de Jesus. Quando eu era criança, os cinemas mudavam sua programação para apresentar os filmes clássicos da paixão de Jesus, os religiosos faziam procissões, autos e encenações pelas ruas, uma tentativa de reproduzir a via crucis. Já na minha juventude, a semana santa era tempo de ouvir os sermões e assistir as cantatas dentro dos templos que recontavam a mesma história. Não sei quantas vezes já a ouvi ao longo dessa minha vida. Creio que foram tantas vezes quantas eu precisei relembrar que houve um momento único na história da humanidade em que alguém de fato se importou com a minha condição humana.
Talvez você se surpreenda com o que vou afirmar: Jesus foi único que de fato se importou com o homem e com sua condição humana a ponto de lhe apontar uma alternativa, uma saída, um caminho para a realização plena. Ele foi o maior ser humano que já viveu e o maior mestre sobre nós mesmos que já existiu. E o que ele fez e o que ele ensinou não perdeu seu prazo de validade. Por isso que sua história precisa ser contada e recontada. Nunca será demais repeti-la.
Quando Jesus viveu, ele não pediu aos seus discípulos para que comemorassem o seu nascimento. Isso o fazemos porque nos alegra contar o tempo e relembrar aqueles momento em que nos achávamos mais felizes. Mas ele pediu que fizéssemos de sua morte um memorial. Isso precisamos fazer como um exercício de encontro com a nossa própria realidade.
A história da crucificação nos constrange porque nos vemos nela. Ela é uma denúncia daquilo que como humanos somos capazes de fazer. Ela nos traz de volta à nossa realidade e nos lembra que não temos condição nenhuma de dar conta de nós mesmos. Mas a história da ressurreição nos impulsiona a seguir adiante, ela nos aponta para um futuro e para uma esperança. Crucificação e ressurreição fazem parte de um jogo que envolve memória e imaginário. É a dupla expressão que nos leva para dentro de nós mesmos. A memória de que somos criaturas e que caminhamos fatalmente para o fim. O imaginário de que temos a possibilidade de construir uma vida melhor com Deus. Memória que nos confronta com o fato de que somos falhos. Imaginário que nos acende a fé para ser aquilo para o qual Deus nos criou.
Poderíamos dizer isso de outro modo. A Páscoa traz em sua forma a expressão de nossa própria contradição, a de que vivemos a tensão entre determinismo e liberdade, entre o já e o ainda não. É por causa dessa história que podemos entender melhor o quanto Deus se importa conosco e como foi intenso o seu esforço em nos proporcionar um encontro com sua graça.
Para os cristãos, Páscoa é paixão de um Deus que nos ama loucamente e nos chama para desfrutar do seu amor. Amor que se doa a ponto de se fazer morte, morte de cruz. Para os judeus, Páscoa é a festa da passagem, da mudança, da transitoriedade. Lembrança de um Deus que se faz caminho e nos chama para seguir por ele. Para nós precisa ser o encontro com Deus, que se fez homem, que se foz morte, que se fez ressurreição, que se fez vida nova pela fé em Jesus Cristo. Eu não posso me esquecer que isso se deu em um momento muito especial de nossa história.

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