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terça-feira, 16 de junho de 2026

Salvação, conversão e significado / Salvation, conversion and meaning / Salvación, conversión y sentido

 

“E todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo!” (Atos 2.21). 

Uma expressão comum entre os evangélicos brasileiros é “aceitar Jesus”. Ela tanto serve para descrever a experiência de conversão pessoal quanto para convidar pessoas a adotarem uma nova posição religiosa, acolhendo a fé evangélica. Ou seja, não só é uma expressão ligada à iniciação na fé, mas também um argumento proselitista.

Essa expressão se estabeleceu a partir da estratégia discursiva dos pregadores chamados evangelistas, desde os grandes oradores dos meios de comunicação, que enchiam auditórios, até mesmo os mais humildes nas comunidades periféricas e interioranas. Tornou-se um convite universal para que as pessoas experimentassem uma mudança de atitude em relação à fé.

As mensagens de arrependimento e de perdão divino, os chamados sermões evangelísticos, eram sempre encerradas com o apelo para aceitar Jesus. O gesto para isso era simples. Bastava manifestar com o levantar de uma das mãos durante o apelo, geralmente acompanhado de hinos e orações. Com isso, a pessoa demonstrava o seu desejo de experimentar uma nova forma de vida que a libertasse de tudo aquilo que tirava a sua dignidade.

O apelo para aceitar Jesus como Senhor e Salvador foi a forma mais emblemática usada pela igreja evangélica para restaurar a esperança pessoas que viviam de um modo degradante. Era direcionado a quem vivia oprimido pelas dívidas, pelas condições sociais, pelos vícios, pela violência, pelo medo e até pela falta de perspectiva para o futuro.

Quem aceitava Jesus passava a se sentir empoderado para experimentar uma vida mais autônoma, livre da opressão da vida cotidiana. Havia até canções que enalteciam esse gesto: “desde o dia em que aceitei Jesus, a minha vida se transformou; agora sou feliz, agora vivo bem; Jesus salvou a mim e salva a ti também”.

A partir dessa escolha, o novo convertido se tornava uma pessoa melhor, um melhor pai, uma melhor mãe, um melhor filho ou filha, um melhor trabalhador ou trabalhadora, um melhor patrão ou patroa e até mesmo um melhor cidadão ou cidadã. De fato, as pessoas melhoravam de vida até mesmo do ponto de vista socioeconômico, adotando novos hábitos de consumo e novas perspectivas de vida.

O apelo para aceitar Jesus em uma manifestação pública é resultado do movimento evangelicalista norte-americano sobre a igreja evangélica brasileira. A prática surgiu no século XIX através de lideranças avivalistas. Um deles foi Charles Finney, um dos pregadores do chamado “segundo grande avivamento” dos Estados Unidos. E foi trazido para o Brasil pelos missionários que trouxeram o protestantismo de missão a partir do século XIX.

Teologicamente, o apelo em si implica a ideia de uma conversão imediata, em que a pessoa reconhece a sua condição pecadora, arrepende-se e entrega-se à graça salvadora de Jesus Cristo. Pressupõe a ideia da justificação pela graça, que é gratuita e imediata. Aceitar Jesus implica também reconhecê-lo como Senhor e envolve submeter a vida de forma voluntária a seus ensinos e princípios.

O momento de aceitação ao apelo tem o sentido do acolhimento ao convite amoroso de Jesus, a dizer sim para o projeto redentor divino consumado no nascimento, vida e morte de Jesus na cruz. Essa atitude está diretamente relacionada à ação do Espírito Santo que é quem convence a pessoa do pecado e o encoraja ao “novo nascimento” e a se tornar uma “nova criatura”.

Essa prática ainda é muito forte e presente nas igrejas evangélicas históricas e tradicionais. Porém, as novas influências teológicas vindas dos Estados Unidos apontam para outras formas de proselitismo. Teologias como as da prosperidade e do domínio defendem a adoção de atitudes mais secularizadas, de conformação à mentalidade dominante de consumo e de adesão a um estilo de vida ligado ao ter e à aparência.

A consequência dessa mudança de abordagem trouxe o esvaziamento da proposta do seguimento de Jesus, da mudança de atitude, do aprendizado a respeito dos ensinos de Jesus de Nazaré e da vivência dos valores genuinamente cristãos no mundo, como a prática do amor, da justiça e da paz.

Um dos fatores que contribuíram para o crescimento dos evangélicos no Brasil tem a ver com os sentidos desse apelo. Pessoas que “aceitam Jesus” se dispõem a mudar de vida, a transformar a sua mentalidade a respeito da vida, a aprender aquilo que Jesus ensinou como valor para a vida e a experimentar uma vida livre de amarras religiosas, vivendo em uma nova comunidade na qual podem partilhar experiências de vida.

(Assista às mensagens da série Aceitar Jesus: O que isso significa? em meu canal no Youtube. Acesse pelo link: https://www.youtube.com/playlist?list=PL4NVfVIy5Bi6YBxpjO6ioVYz-hRpb3e9Z)

sexta-feira, 20 de março de 2026

Revolução do amor: por uma espiritualidade dos afetos (novo e-book) / Revolution of love: towards a spirituality of affections / Revolución del amor: hacia una espiritualidad de los afectos

Em um tempo marcado por tanta guerra, ódio, injustiça, maldade e indiferença, falar do amor parece um contrassenso. Mas esse tema tornou-se urgente, não para impor um dever de amar, mas para nos lembrar que somos capazes de amar.

Neste livro, vamos explorar a temática do amor pelos caminhos da filosofia, da psicanálise, da teologia, das ciências bíblicas e da espiritualidade para falar do mal-estar que atravessa a humanidade em nosso tempo. Dizemos que o amor está em falta, mas o que deveríamos dizer é que o amor foi substituído por outras atitudes que têm destruído a vida no planeta. O amor está sufocado, escondido, disfarçado no mundo.

De um modo geral, ouvimos também falar que temos a obrigação de amar, que o mundo está mal porque as pessoas não se amam e, por isso, procuramos os culpados pela falta de amor no mundo. Acabamos construindo uma mentalidade que condiciona o amor a uma lei punitiva, uma força repressora, como algo impossível de acontecer de forma livre e espontânea.

O amor se torna, assim, uma abstração, algo distante de nossa realidade. “Falamos de amor, mas vivemos com ódio: odiamos em nome do amor. O ódio é o nosso protesto contra a ‘impossibilidade do amor’”, disse Thomas Merton no prólogo do livro de Ernesto Cardenal, Vida em amor.[1]

Uma imagem que ficou eternizada nos protestos contra a guerra retrata um jovem colocando flores nos fuzis de soldados. O fato aconteceu em 22 de outubro de 1967 e a foto foi tirada pelo fotojornalista Bernie Boston durante um protesto pacifista em Washington, contra a guerra no Vietnã. A foto recebeu o nome de “Flower power” e concorreu ao Prêmio Pulitzer daquele ano. Ela lembra que o amor é a única força que pode vencer a maldade.

O amor é um dos temas mais difíceis para ser abordado em um estudo ou reflexão. A dificuldade de escrever sobre o amor envolve tanto a abrangência do tema quanto as nossas próprias limitações e carências de amar e ser amado. Por isso que reunir as reflexões que fazem parte deste livro se tornou um grande desafio para mim. Primeiro porque o amor precisa ser aperfeiçoado em mim, e segundo porque o amor está em falta no mundo.

Não dá para se referir ao amor por palavras. Há que se viver, praticar, compartilhar. Exatamente pelo fato de que o amor não é um sentimento. Ele é uma atitude.

Há uma crise no mundo, que é da escassez do amor, que tem afetado todas as esferas da vida. Ela é maior do que as crises, econômica, política, social, ambiental e relacional. Ela também está por trás delas e provoca todas as demais crises pelas quais a humanidade passa.

A falta de amor está disfarçada de muitas formas. Ela pode se confundir com o medo de estar só, com a busca de realização pessoal, com o ideal de perfeição e até com o narcisismo. A falta de amor é o sintoma mais sério da perdição humana.

O ponto de virada para sair dessa crise aponta para uma mudança radical de mentalidade, uma conversão de si para deixar de ser alguém fechado em si mesmo a fim de se tornar aberto ao mundo e ao outro.

Para superar a falta de amor, somente uma grande revolução para nos apontar caminhos de construção dessa atitude que tanto faz falta. A revolução do amor tem a ver com uma transformação radical e profunda das estruturas humanas para que se possa estabelecer uma nova perspectiva de vida, centrada no amor.


[1] Cardenal, Ernesto. Vida em amor. Salamanca: Sigueme, 1987. p. 9.

Imagem criada por IA.

Para adquirir e ler mais no e-book, acesse: https://www.amazon.com.br/dp/B0GS479YJM

sábado, 9 de setembro de 2023

Justiça Ambiental: desigualdade, desproporcionalidade e responsabilidade dos riscos / Environmental Justice: inequality, disproportionality and responsibility for risks / Justicia Ambiental: desigualdad, desproporcionalidad y responsabilidad por los riesgos

Nos dias atuais, assistimos a biodiversidade ser perdida em velocidade nunca vista antes. O futuro de nossas crianças e jovens está ameaçado pelas consequências das mudanças climáticas. É urgente que haja uma mudança de mentalidade a fim de que haja tratamento justo na distribuição de oportunidades entre todas as criaturas. A Justiça nos chama a uma conversão de natureza ecológica. À medida que nos juntarmos a esse rio poderoso de Justiça e Paz criamos esperança de um mundo melhor para todos e todas.

Para reverter o atual cenário da crise ambiental, as ações individuais não são suficientes, embora imprescindíveis. Precisamos de um poderoso movimento de Justiça, aliada à Paz, a fim de cobrar as ações de governos e do setor produtivo por mudanças. Esses são os principais responsáveis pela emissão dos gases poluentes e de resíduos que são lançados na natureza, bem como pelas políticas públicas que envolvem a preservação do meio ambiente.

A Justiça ambiental, que também é social, climática, hídrica e alimentar, envolve o pagamento de dívidas históricas. As conferências do clima promovidas pela ONU já reconheceram que, em nível global, as nações com mais poder e controle da riqueza têm o dever de lidar de forma justa e honesta em favor das comunidades que mais sofrem com os fenômenos ambientais e climáticos.

Preservar a biodiversidade, manter a expectativa de aumento do clima do planeta abaixo de 1,5° C de aquecimento global, promover responsabilização dos danos ecológicos, garantir acesso a direitos às comunidades mais afetadas pelos fenômenos climáticos e ambientais, buscar soluções justas e urgentes para acesso à água e à alimentação para todos e todas. Essas são ações que reacendem a esperança de um mundo melhor para todos e todas, para que um rio poderoso de justiça e paz inunde a vida no planeta.

O profeta Isaías anunciou no passado que Deus estava realizando uma grande obra de Justiça para toda a humanidade: “Pois estou prestes a realizar algo novo. Vejam, já comecei! Não percebem? Abrirei um caminho no meio do deserto, farei rios na terra seca” (Isaías 43.19). Sua misericórdia, bondade e amor, que são os Seus modos fazer Justiça, iriam fluir em abundância até nos desertos. Nos lugares onde há desigualdade e onde os riscos recaem mais sobre os oprimidos e carentes, ali vai jorrar o manancial de Justiça e de Paz que vêm do Senhor.

Somos convidados a nos juntarmos a esse rio de justiça e de paz em favor da criação e fazer convergir todos os nossos esforços em favor de uma nova mentalidade em que todos e todas tenham direito à Justiça ambiental, à Justiça climática, à Justiça hídrica e à Justiça alimentar. Como os afluentes se unem para formar um caudaloso rio, assim devemos agir juntos para que a Justiça e a paz fluam de forma poderosa.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2022

Recomeçar / Restart / Volver a empezar

 

Recomeçar é uma decisão que implica coragem e disposição. Embora seja da natureza a sua renovação, começar de novo, tentar outra vez ou ter uma segunda chance são oportunidades que envolvem a nossa condição humana de estar aberto para novas possibilidades, mesmo quando enfrentamos fracassos, perdas ou derrotas.

A letra da música escrita por Paulo Vanzoline em 1962, eternizada na voz de Maria Betânia e de outros cantores, lembra a gente disso: “Reconhece a queda e não desanima. Levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima”. A decisão de recomeçar, porém, não é fácil. É preciso encarar a dor, o medo e até a solidão que marcaram a destruição de um sonho, de um projeto, de um relacionamento e de uma trajetória de conquistas que precisam ser recomeçados.

Na natureza, as árvores precisam perder suas folhagens para poderem florescer. Muitas vezes, no processo de recomeçar, é preciso abrir mão de determinadas condições para que possamos experimentar a vida de outro modo. Trata-se de um tempo para rever nossos valores, nossas estratégias, nossos conceitos e até os nossos propósitos. O maior equívoco que se pode ter é tentar fazer a mesma coisa outra vez cometendo os mesmos erros.

O pensamento humano está repleto de ideias sobre recomeços, como uma lei do próprio universo em que tudo se renova como um ciclo na perpétua manutenção da vida. Por isso, recomeçar é revigorante, traz em si uma sensação de liberdade e de abertura para o que está adiante. É como uma disposição para seguir em frente e experimentar novas possibilidades de se realizar.

Nas religiões orientais, como no hinduísmo e zen-budismo, fala-se dos ciclos da vida. O tempo não é linear, é cíclico e se repete constantemente. A circularidade da vida é marcada pelo eterno retorno, como um renovar constante.

Na mitologia grega, encontramos o mito de Sísifo, um personagem controverso que era capaz de enganar os próprios deuses e a morte. Quando morreu, sua alma foi considerada rebelde e condenada a rolar por toda a eternidade uma enorme pedra de mármore até o cume de uma montanha. O problema era que, toda vez que estava quase chegando ao topo, a pedra rolava montanha abaixo de volta ao início. E Sísifo tinha que reiniciar o esforço de levá-la para cima.

Albert Camus viu no mito de Sísifo a representação da existência humana na busca do sentido da vida, mas que se depara com um mundo ininteligível, dominado por crenças e ideologias. Diante da falta de sentido para a vida, a melhor solução não deveria ser o suicídio, mas a capacidade de se revoltar.

Na Filosofia, desenvolveu-se a noção de Eterno Retorno para se referir ao fato de que toda existência é marcada pela recorrência. Esse conceito já se encontrava presente em Heráclito e nos pitagóricos, pensadores pré-socráticos no século V AEC, e também no estoicismo. Friedrich Nietzsche, porém, elaborou a teoria do Eterno Retorno para indagar se seríamos capazes de suportar uma vida em que nossas experiências de prazer e dor pudessem se repetir eternamente. Essa condição serve como um desafio ético para que possamos desejar viver de maneira digna e a nos conduzir a uma reflexão mais profunda sobre os valores que norteiam a vida.

A Bíblia também fala de recomeços. No livro de Eclesiastes, encontramos essa afirmação: O que foi tornará a ser, o que foi feito se fará novamente; não há nada novo debaixo do sol” (Eclesiastes 1.9). Esse texto traz consigo a ideia de que, apesar de todas as mudanças que a vida possa experimentar, permanecemos os mesmos. O profeta Jeremias lembra que a misericórdia divina se renova para continuar sempre ao alcança daqueles que Deus ama:Graças ao grande amor do Senhor é que não somos consumidos, pois as suas misericórdias são inesgotáveis. Renovam-se cada manhã; grande é a tua fidelidade!” (Lamentações 3.22,23).

A mensagem bíblica nos lembra de que recomeçar é uma possibilidade até mesmo para os que podem ser considerados justos: Pois ainda que o justo caia sete vezes, tornará a erguer-se, mas os ímpios são arrastados pela calamidade” (Provérbios 24.16). E diz ainda que Deus não se encontra alheio aos recomeços: O Senhor ampara todos os que caem e levanta todos os que estão prostrados” (Salmos 145.14).

Os evangelhos apresentam a mensagem de Jesus que propõe uma nova oportunidade de vida a partir do seguimento de seu exemplo e da prática de seus ensinos. O Novo Testamento nos diz que Deus está preparando novos céus e nova terra. Por isso: Todavia, de acordo com a sua promessa, esperamos novos céus e nova terra, onde habita a justiça” (2 Pedro 3.13).

O poeta Roberto Gaefke registrou: “Recomeçar é dar uma nova chance a si mesmo… É renovar as esperanças na vida e, o mais importante: acreditar em você de novo” (esse texto, que também se chama “Faxina da alma”, tem sido atribuído a Carlos Drummond de Andrade por engano). A vida é um eterno recomeço. Pode ser um novo dia que se inicia, um novo mês, um novo ano, uma nova descoberta, um novo relacionamento, um novo emprego. Enfim, a vida está em aberto, só precisamos nos permitir tentar mais uma vez, fazer de outro modo, acreditar nas novas possibilidades.

quarta-feira, 7 de setembro de 2022

Eleições 2022 e Democracia: Análise de Conjuntura / Elections 2022 and Democracy in Brazil: Analysis of the Conjuncture / Elecciones 2022 y Democracia en Brasil: Análisis de la Coyuntura

As eleições 2022 são atípicas. Um grave risco de ruptura democrática ronda a sociedade brasileira. No momento em que a campanha chega em sua reta final, há uma tentativa de interferência de forças reacionárias em todo o processo eleitoral. A principal origem de ataques é o próprio governo federal e seus apoiadores.

Diante da gravidade do momento, há quatro perguntas que devem ser feitas a fim de orientar as escolhas e se tomar atitudes para frear o que vem sendo tramado. Sem querer ser alarmista ou provocar pânico, as circunstâncias apontam para a necessidade de fortalecimento de uma frente ampla em defesa da democracia.

A primeira pergunta é: há uma ameaça de golpe nas eleições 2022? A resposta é sim. Esse golpe já vem sendo tramado desde a eleição anterior, quando se abriu o caminho para o avanço da extrema direita através da farsa da operação Lava Jato, do impeachment de Dilma e a prisão do ex-presidente Lula. Esse ataque é orquestrado pelas forças que dão sustentação ao governo atual e vem sendo realizado a partir de uma trajetória discursiva. Primeiramente, começou com a suspeição da confiabilidade nas urnas eletrônicas, que serviu para promover a aproximação de representantes das Forças Armadas do sistema eleitoral. Com a afirmação da segurança sistema eleitoral, passou-se à suspeição do processo de apuração, com tentativas de controlar os resultados através da ação de setores da Policia Federal e das próprias Forças Armadas. O objetivo final é fazer com que as eleições sejam manipuladas por representantes desses setores.

A segunda pergunta é: quais as chances reais de cada candidato? Até o presente momento, três candidatos despontam na corrida eleitoral para Presidência da República: Lula, que representa o segmento de esquerda e que tem a aprovação da maioria com grandes chances de vencer no primeiro turno; Bolsonaro, que recebe o apoio daqueles que nutrem o ódio às esquerdas e a Lula, principalmente de setores que são contra os direitos sociais bem como que defendem ideias fascistas; e Ciro, que é o candidato que desenvolve uma campanha baseada na reprodução do discurso de ódio a Lula, embora afirme ter projeto para o país, mas não passou da casa de um dígito nas pesquisas. Os demais candidatos formam uma minoria que não consegue alcançar resultados significativos nas pesquisas.

A terceira pergunta é: o que mais preocupa a campanha eleitoral no primeiro turno? Há três ameaças reais surgindo e aumentando suas possibilidades a cada dia: a primeira é a ameaça aos movimentos progressistas, tomados por um ódio de classe, e contra movimentos que lutam por direitos de trabalhadores, negros, mulheres, população LGBT, povos originários, pobres e meio ambiente; a segunda é o aumento da desinformação, com grupos disseminadores de fake news agindo livremente através das redes sociais; e a terceira é o aumento da insegurança social, com o crescimento da miséria, do desemprego, do custo de vida e da fome, que pode ser usada como oportunidade para o governo emitir “pacotes de bondade” para se aproximar dos setores mais vulneráveis, embora seja o único responsável pelo quadro atual.

A quarta pergunta é: o que mais preocupa no segundo turno? Havendo a necessidade de um segundo turno, que provavelmente será entre Lula e Bolsonaro, as possibilidades de agravamento das tensões aumentam. Podemos afirmar que há riscos reais de convulsão social e de aumento dos conflitos envolvendo as instituições que têm o dever de proteger a democracia. O aumento do acesso ao porte de arma, o crescimento do poder e interferência das milícias e a impunidade nas denúncias de crime de responsabilidade do governo contribuem para acreditar que algo muito ruim poderá acontecer.

Nessas eleições, os movimentos sociais e as organizações de defesa dos direitos civis têm o dever de impedir que as forças reacionárias que ameaçam a democracia avancem. Defender a democracia hoje no Brasil é defender a candidatura de Lula no primeiro turno, visto que é o único que tem compromisso com a manutenção do Estado Democrático de Direito.

sábado, 7 de novembro de 2020

Biden é eleito novo Presidente dos Estados Unidos: a democracia revigorada / Biden elected new President of the United States: a reinvigorated democracy / Biden elegido nuevo presidente de los Estados Unidos: una democracia revitalizada

Depois de quatro dias de apuração após a eleição de 3 de novembro de 2020, os Estados Unidos da América conhecem quem será o seu novo presidente a partir de 20 de janeiro de 2021. O candidato democrata somou a maioria de cadeira do colégio eleitoral, superando, assim, o atual presidente e candidato Donald Trump. A volta do Partido Democrata ao poder representa uma grande conquista para aqueles que lutam contra o preconceito racial e pelos direitos dos grupos identitários.

Quando foi eleito em 2016, Trump representou um retrocesso no processo democrático de tal modo que afetou o mundo inteiro. Os reflexos da política reacionária de Trump estão nos protestos antirracistas, como Vidas Negras Importam (Lack Lives Matters). A vitória de Biden é uma conquista histórica por várias razões: primeiramente, põe fim às ameaças que Trump simboliza; em segundo lugar, Biden teve o maior número de votos em toda história e, em terceiro, pela primeira vez uma mulher negra, Kamala Harris, se elegeu como vice-presidente dos Estados Unidos.

A grande luta travada nas eleições norte-americanas foi entre a democracia e as forças conservadoras. O conservadorismo se aliou ao que há de pior na política, inclusive utilizando-se de um falso discurso religioso que arregimentou grandes setores evangélicos. A extrema-direita assumiu para si a pauta conservadora, com argumentos fundamentalistas e simpáticas a ideias fascistas, mas cobrou um alto preço: o de tutelar a democracia.

O mundo vem assistindo ao avanço das forças reacionárias e do fascismo, que se apropria, sobretudo, de discursos religiosos. Entretanto, uma nova tendência emerge, que é a do desenvolvimento de uma atitude de bom senso e de diálogo, sensível à ameaça aos Direitos Humanos, à crise do capitalismo e aos problemas ambientais. Esses reflexos encontram-se presentes também na América Latina, com a eleição de representantes de esquerda na Argentina e na Bolívia, como também a vitória no plebiscito contra a constituição ditatorial do Chile.

A democracia norte-americana tem servido como modelo para o exercício das democracias modernas desde o século XIX. Embora possua um sistema eleitoral antigo, que faz uso de procedimentos arcaicos em um mundo tecnologicamente avançado, o cidadão norte-americano se orgulha disso e se envolve com muito interesse em todo o processo, com a participação de muitos voluntários. Sem dúvida, já existem sistemas eleitorais mais avançados, com uso de tecnologia de ponta e segura. O próprio modelo eleitoral brasileiro é um deles. Porém, o modo de tratar o sistema democrático nos Estados Unidos é peculiar ao seu processo histórico.

A eleição de Joe Biden traz novos ares para a democracia no mundo. Em termos de política interna norte-americana, é um sinal de vitalidade e de retomada da força das instituições democráticas daquele país, que estiveram ameaçadas durante o mandato de Trump. Mas também é um sinal de que a democracia norte-americana precisa renovar seus atores. Biden foi eleito com 77 anos de idade. Bill Clinton se elegeu com 46 anos e Barack Obama com 48, ambos também do Partido Democrata.

O resultado dessas eleições terá, sem dúvida alguma, reflexos na política brasileira. A atitude de alinhamento com Trump, adotada por Bolsonaro, chega ao seu final. Sobretudo nas áreas de política externa e de cuidado com o meio ambiente, o governo brasileiro terá que rever suas estratégias e trabalhar com uma perspectiva de diálogo mais afinada com as tendências que o mundo aponta. O mundo tende pelo caminho da multilateralidade, da cooperação entre as economias e da garantia de direitos identitários.

Que os ventos que sopram na democracia dos Estados Unidos soprem também por aqui.

(Foto: CNN Brasil).

domingo, 1 de setembro de 2019

A teia da vida: a biodiversidade como bênção divina / The web of life: biodiversity as a divine blessing / La red de la vida: la biodiversidad como una bendición divina


Todos nós fazemos parte de uma teia de vida, maravilhosamente complexa e única, que foi criada pelas mãos de Deus. Essa é a ideia que tem mobilizado cristãos para interceder por um mundo mais sustentável e justo, onde todos possam viver de modo digno e ainda venhamos garantir às gerações futuras as mesmas condições de existência que hoje temos.
Vivemos hoje uma realidade desconcertante: a crise ambiental que coloca em risco a vida no planeta e que tem como causa principal a ação do próprio homem. Essa crise tem cinco sintomas: (1) a biodiversidade vem sendo reduzida; (2) os ecossistemas vêm sendo destruídos; (3) os recursos naturais renováveis estão sendo esgotados; (4) a poluição tem aumentado; e (5) há um maior risco de desastres ambientais provocados pela ação do homem. Essa crise é resultado de uma desarticulação entre os processos cíclicos da vida na natureza e as técnicas de extração, transformação e emprego dos recursos que ela oferece. E a causa é clara: é preciso dar conta da demanda de consumo de uma sociedade cada vez mais exigente em termos de bem-estar, segurança e padrões de beleza e saúde.
Dentre as consequências da crise que vêm sendo apontadas por vários estudiosos da questão ambiental, duas são alarmantes. A primeira é que o planeta não dispõe de recursos naturais suficientes para atender à necessidade de todas as pessoas, conforme o hábito de consumo que a sociedade industrial e do capital desenvolveu. Se as pessoas mais pobres consumirem o mesmo que os mais ricos, serão necessários pelo menos mais dois planetas como o nosso. O segundo é que a vida humana na Terra está em risco de extinção, por conta do aquecimento global, que já se pode ser sentido com os vários efeitos de desequilíbrio nas geleiras e camadas polares, nos cumes das cordilheiras, nos grandes biomas como a Amazônia, o Cerrado, a Caatinga e Mata Atlântica, entre outros no nosso país e também no mundo.
Diante desse quadro de crise, surge a necessidade de se pensar a vida a partir de paradigmas distintos daqueles que levaram a humanidade ao caos ecológico que nos deparamos. O teólogo brasileiro Leonardo Boff, em seu livro Ecologia: grito da terra, grito dos pobres, entende que é preciso compreender a Terra como um organismo dinâmico e complexo, que possui identidade e harmonia. Para isso, surge a necessidade de se formar um novo paradigma, que supere a lógica da razão instrumental, e se valorize mais uma razão simbólica e cordial, que envolve todos os nossos sentidos e sentimentos, que aponta para uma atitude de encantamento e que desperte a gratidão por ser parte de uma totalidade de vida.
Esse cuidado com a vida remete a um conjunto integrado de ações, que deve envolver uma dimensão científica que seja capaz de compreender o impacto da ação humana sobre o meio ambiente, uma dimensão política que estabeleça políticas públicas e princípios de governança vinculados a compromissos globais, uma dimensão ética que seja capaz de questionar nossas ações humanas diante das condições de vida no planeta e o enfrentamento responsável dessa crise, e uma dimensão de espiritualidade que aponte para a fé e a esperança de que seremos capazes de juntar esforços para cuidarmos de nossa casa comum e de superarmos os grandes obstáculos que estão no meio do caminho.
Em meio a uma diversidade de formas de vida, há também uma diversidade de culturas que nos ajuda a compreender a humanidade como uma família que convive numa mesma comunidade cósmica enfrentando os mesmos desafios e caminhando para um destino comum. Tudo isso precisa ser amado e cuidado a fim de que seja possível florescer a vida em sua plenitude em todos os seus aspectos. Uma das formas de se fazer isso é resgatar o sentido bíblico da criação, na metáfora do cuidado com o jardim já presente no Gênesis.
A crise ambiental destrói a diversidade das condições de vida na Terra. A perda da biodiversidade está vinculada também às condições de pobreza, visto que são os pobres e migrantes que mais sentem os efeitos da ruína dos sistemas naturais que sustentam a vida. Para estancarmos essa tragédia, precisamos dar um sim à vida. Isso implica compreendermos que toda a forma de vida assim como todo modo como ela se manifesta é criação divina. Deus ama a diversidade, por isso criou a natureza desse modo. Temos uma dupla tarefa no cuidado com a vida: devemos respeitar a diversidade como também temos a responsabilidade de preservá-la. E pessoas que afirmam amarem a Deus devem demonstrar o seu amor pela sua criação. Uma espiritualidade que cuida da criação começa por compreender a natureza e culmina em colocar-se a serviço da vida em sua diversidade como o mundo criado e amado por Deus.
A Bíblia começa dizendo que Deus reconheceu que tudo na criação foi “muito bom”. Cada espécie foi cuidadosamente criada e reflete aspectos do cuidado divino com a vida. Quando uma pequena criatura, por menor que seja, é extinta, desaparece também a chance de contemplarmos a riqueza do amor de Deus por sua criação. Cristãos de um modo geral têm o dever moral de dar uma resposta a essa crise ambiental, como expressão de justiça e de zelo pela dignidade da vida em toda sua complexidade e especificidade, como parte da missão.

domingo, 8 de janeiro de 2017

Novos começos, pequenos começos / New beginnings, small beginnings / Nuevos comienzos, pequeños comienzos

“Ora, quem despreza o dia das coisas pequenas?” (Zacarias 4.10 RAA).
O começo de um novo ano é sempre tempo de fazer novos planos. Começar um novo curso, aprender um novo idioma, fazer aquela dieta tantas vezes adiada, economizar dinheiro para realizar sonhos, praticar exercícios físicos. Enfim, não passam de planos. Muitos não resistem à primeira semana e, quando chegarmos a dezembro, vamos ver que a maior parte deles não conseguiu ser concretizada.
Se você fizer um balanço da sua vida, vai verificar que todo ano é a mesma coisa: fazemos planos e praticamos muito pouco do que gostaríamos. Por que a maioria dos nossos alvos para o Ano Novo não são colocados em prática e a maior parte deles é até esquecida? Basicamente porque é próprio de nossa condição humana fazer planos. Somos pessoas com abertura para o futuro.
Embora não possamos prever o futuro, temos condições de idealizá-lo. Para isso, dois aspectos são determinantes: nossos desejos e nossa memória. Os desejos orientam nossa vida. A memória nos lembra nossas carências. Os desejos nascem das carências, a memória as apontam. Desejo e memória estão inter-relacionados de tal modo que um não existe sem o outro.
Por causa dos desejos, nos tornamos capazes de sonhar. Afinal, por que você quer um carro melhor, um celular novo, conhecer um lugar diferente, comprar um bem, desfrutar de um serviço de qualidade? Somos seres dotados de desejo e pessoas que desejam sonham.
Por causa da memória, reportamos ao nosso passado, lembramos daquilo que nos constitui como pessoas. Nossa história de vida, nossas vitórias e fracassos, nossos temores e até o que nos aflige passam em nosso pensamento o tempo todo como um filme repetido, lembrando aquilo que temos mais necessidade.
Por causa do desejo e da memória, cada passo dado na direção do futuro se torna tanto um desafio quanto uma conquista. O desejo nos encoraja a dar um novo passo e a memória nos ajuda a fazer ajustes. O desejo aponta a direção do próximo passo, a memória nos orienta a passada. O desejo nos impulsiona, a memória registra a caminhada. O desejo constrói planos, a memória lhes dá significados.
Por isso que cada pequeno começo é dotado de uma pluralidade de sentidos. Todo grande projeto depende de um pequeno começo ligado a um sonho e a uma história. Por essa razão, o profeta indaga: “quem despreza o dia das pequenas coisas?”
Certa vez, Elias se refugiou no monte Carmelo, escondendo-se da seca e da fúria do rei Acabe. Havia a promessa de que Deus enviaria a chuva, mas no céu não havia uma nuvem sequer. Elias pediu ao seu ajudante para vigiar o céu, até que este disse: “uma nuvem tão pequena do tamanho da mão de um homem está se levantando do mar” (1 Reis 18.44). Então Elias mandou avisar ao rei para que se apressasse, pois a chuva já estava chegando.
Assim são os pequenos começos. Eles significam um passo dado de cada vez em direção às grandes realizações. Não vale a pena desprezá-los.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Desejos para o Ano Novo / Wishes for the New Year / Deseos para el Año Nuevo

Ele fez tudo apropriado a seu tempo. Também pôs no coração do homem o anseio pela eternidade.” Eclesiastes 3.11.
Desejo que no Ano Novo...
... Não apenas conquiste o sonho da casa própria, mas que gaste mais tempo com sua família.
... Não apenas troque de carro, mas que redescubra o gosto de caminhar na natureza.
... Não apenas compre um celular novo, mas reinvente modos de se conectar com as pessoas mais próximas.
... Não apenas adquira uma TV de última geração, mas que aprenda a ver o mundo com outros olhos.
... Não apenas consiga um salário melhor, mas que mude seu modo de investir o que tem.
... Não apenas faça a viagem dos sonhos, mas que dê asas à sua imaginação a respeito de um mundo melhor.
... Não apenas tenha saúde, mas que não abra mão de ser generoso e solidário.
... Não apenas tenha muito dinheiro no bolso, mas que tenha abundância de gestos de gentileza.
... Não apenas tenha sucesso em seus empreendimentos, mas que saiba como fazer novos amigos.
... Não apenas seja feliz, mas que pratique bondade até mesmo naquelas circunstâncias que não são agradáveis.
... Não apenas ame mais, mas que releve as pequenas ofensas.
... Não apenas seja próspero, mas que esbanje carinho com quem está perto.
... Não apenas tenha paz, mas que seja a mudança que deseja ver no mundo.

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Eleição de Trump: democracia e retrocesso / Trump's Election: Democracy and Recession / Elección de Trump: la democracia y retroceso

A eleição de Donald Trump para a presidência da principal potência econômica mundial é a vitória de uma tendência que pode ser verificada em várias partes do mundo: a construção de um discurso populista de direita que rejeita as transformações sociais e econômicas que o mundo vem experimentando. É a vitória de alguém que tem desafiado os novos valores que vêm sendo construídos para dar conta de um mundo mais solidário e plural. O discurso reacionário de ódio encontrou ressonância em uma camada da população que teme sofrer perdas econômicas e de identidade com tais mudanças.
A sombra da tragédia de 11/9 desencadeou a explosão eleitoral do 9/11. O medo das incertezas falou mais alto. Isso não é o fim do mundo. Mas sãos os sinais do fim do mundo tal como o conhecemos até agora. O levantamento das forças de extrema direita e conservadoras no mundo inteiro é uma consequência de algo maior, que tem a ver com a crise pela qual o capitalismo global passa.
Uma nova classe média que luta para sobreviver se sente ameaçada pelas mudanças de valores e crescente transferências dos centros de poder. O que mais importou nessas eleições não foi o programa de governo, mas o resgate da dignidade perdida e a reafirmação dos valores tradicionais que estão ameaçados. A campanha foi marcada por pronunciamentos inflamados, em que predominou o ódio e o descontentamento com ações mais à esquerda que vinham desagradando a um setor da população pouco ouvido: a tal classe média.
O eleitor de Trump é branco, de classe média e evangélico/protestante. Quem votou em Trump tinha uma certa intencionalidade, que é de demonstrar que a maneira como as mudanças vêm acontecendo provoca medo e insegurança. É preferível aliar-se a alguém que tenha um discurso voltado pela defesa de valores tradicionais e resgate da identidade nacional do que em alguém que simbolize aquilo que provoca as incertezas deste tempo. Mesmo que seja alguém deplorável. E foi o que aconteceu nas eleições norte-americanas: o eleitor conservador votou em Trump, com seu discurso reacionário, e rejeitou Hillary, com seu discurso da política do sistema vigente. Só a história julgará se esse ato foi acertado.
Em sintonia com os resultados da eleição norte-americana, acontecem outros movimentos no mundo: a vitória da direita na Argentina, a resistência de direita na Venezuela, o golpe jurídico-parlamentar no Brasil, a vitória do “não” no referendo do acordo de paz na Colômbia, a crise dos refugiados, o fenômeno do Brexit, o enfraquecimento da liderança de centro-esquerda na Alemanha, os ataques terroristas na Europa, para citar alguns.
A crise do capitalismo é global, mas os seus efeitos são localizados. O capitalismo demonstra sinais de fracasso com o crescimento das desigualdades sociais no mundo e a consequente concentração de renda. Daí as políticas internacionais penderem entre o livre comércio e as práticas protecionistas, entre a garantia do direito das minorias e o fortalecimento das ideias liberais, entre o atendimento da necessidade dos mais vulneráveis e a construção de barreiras para impedir o acesso aos centros de poder.
A sociedade construída sob a égide do capitalismo vai ruindo aos poucos. O conceito de estado nacional também vai demonstrando seu caráter autenticamente burguês e liberal. O mundo é um grande navio à deriva em mar desconhecido. Os instrumentos para retomar o rumo são complexos e as manobras para reorientar a navegação são trabalhosas. E a gente vai descobrir logo, logo que isso não é tarefa para um só. Porém, ainda vai levar um tempo para a tripulação entender que estamos todos no mesmo barco, que o resgate dele depende do empenho e da consciência de cada um (Foto: Larry Smith/EPA).

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Brasil pós-impeachment / The Brazil post-coup / El Brasil después del golpe

Que Brasil esperar pós-impeachment? O longo processo que foi a destituição de Dilma da presidência da República desgastou as relações e provocou ainda mais o desinteresse da população pela política. Por outro lado, a esquerda que sempre foi fragmentada no Brasil, sai desse processo fragilizada e desacreditada, enquanto a direita mais extremista – que abarca os segmentos mais opressores da sociedade – sai mais fortalecida que já é.
As instituições democráticas revelaram que não estão preparadas para enfrentar tempos de forte turbulência. O impeachment não será suficiente para pôr fim a quase dois anos de ataque à política econômica e à sede de poder por parte dos partidos que deram sustentação às manobras perpetradas por alguém que traiu à confiança de sua aliada mancomunado com alguém que procurou se vingar para se safar de seu trágico fim político.
Em pleno período eleitoral, o efeito desse desgosto para com a política pode ser ainda mais devastador na medida em que oportunistas procurarão tirar proveito do momento com discursos moralistas e culpabilizadores, prometendo soluções ilusórias e aprofundando ainda mais o estado de alienação da população.
O objetivo do processo não foi só tirar do cargo uma pessoa que cometeu um crime de responsabilidade que carece ainda de tipificação jurídica. Ele se constitui numa articulação de forças conservadoras e oligárquicas com o objetivo claro de pôr fim a um projeto de governo vitorioso nas urnas por quatro eleições seguidas para que outro projeto seja aplicado em seu lugar. Trata-se do mesmo projeto trabalhista que vem sendo perseguido desde o governo de Getúlio Vargas e que sofreu oposição dos mesmos segmentos conservadores e oligárquicos.
Se considerarmos os conflitos políticos por conta desse embate programático, veremos que todos os presidentes que tentaram enveredar por um entendimento favorável ao projeto trabalhista sofreram tentativas de golpe. O resultado é que, nos últimos 60 anos, o saldo foi o seguinte: um presidente se suicidou, outro renunciou, outro foi deposto por golpe militar e agora temos uma que foi afastada por um processo parlamentar de impeachment. Em todas as ocasiões, essas manobras foram entendidas como tentativas e efetivação de golpe.
Temo pelo nosso futuro. O que se segue após o arbítrio é o fracasso, o que se segue após a injustiça são os excessos e o que se segue após o golpe é a tirania. Infelizmente, só é possível dizer o que a história nos permite: o pior ainda está por vir. Após momentos em que vontade de uma elite dominante prevalece sobre a soberania popular, tem acontecido um período de grave instabilidade em que se percebe abalos nas relações sociais, políticas, financeiras e econômicas. Isso significa, mais recessão, mais desemprego, mais desigualdade social, ao mesmo tempo em que significa menos capacidade de compra, menos capacidade de investir e menos poder de crédito.
A tendência em cenários semelhantes – e poderíamos citar aqui vários exemplos recentes de nossa história – é o emprego de práticas de exceção para conter as críticas e os descontentamentos. Ainda mais quando a gente se depara com a realidade de que as investigações de corrupção começam a bater à porta dos que hoje assumem o poder e daqueles que dão sustentação ao novo governo.
O fato é que senadores corruptos foram determinantes com seu voto a favor do afastamento de uma pessoa idônea. É mais um golpe na história praticado pelos mesmos de sempre. Uma verdadeira injustiça foi praticada diante do mundo. Se formos capazes de não nos indignarmos com a injustiça, seja ela de que natureza for, somos os mais desprezíveis dentre os humanos.
Embora o impeachment passe a ser uma página virada, a história não termina por aqui. Os desdobramentos das investigações continuam. O Brasil aprendeu a conviver com a transparência e com as conquistas sociais trazidas pelos governos Lula e Dilma. Será muito difícil buscar a confiança da população em meio aos anúncios de medidas impopulares e das delações contra os integrantes do novo governo.

sexta-feira, 24 de junho de 2016

“Brexit”, crise e retrocesso: o mito de Europa revisitado / "Brexit", crisis and regression: Europe myth revisited / "Brexit", Crisis y el retroceso: El nuevo mito de Europa

Na mitologia grega, Europa era uma princesa que, quando estava à beira da praia, sonhando com a liberdade de viajar livremente pelos mares, despertou os desejos de Zeus. Tomado por uma paixão incontrolável e pelo medo dos ciúmes de sua mulher, Zeus se transforma num dócil touro e se oferece à Europa para que ela passeasse sobre seu dorso. Quando a atraiu, Zeus a sequestra para a ilha de Creta, assume a forma humana e lá vive com ela e tem três filhos.
Neste dia histórico de 24 de junho de 2016, a decisão do plebiscito no Reino Unido de romper com a União Europeia reacende o que está por traz do mito: o desejo onipotente de possuir o “velho mundo”, de transformá-lo em um bloco sólido e competitivo. Esse sonho hoje é colocado em risco.
O que está por trás dessa decisão é o avanço da extrema direita nacionalista e a crise que envolve os refugiados, dois problemas graves que perseguem a Europa nestes tempos de crise econômica e de instabilidade mundial. O Reino Unido é o país que mais recebeu imigrantes: mais de meio milhão entre europeus e não europeus. A decisão disfarça a xenofobia, mas também esconde seu real motivo: a crise econômica que afeta a Europa.
As regras de livre circulação afetam a autonomia dos países da UE para barrar a chegada de refugiados. Isso sobrecarrega os programas sociais, de educação e de saúde, além de diminuir a oportunidade de empregos para os nacionais. Porém, é bom lembrar que a maior parte das exportações britânicas se destinam à União Europeia. Essa relação econômica é que gera muitos empregos e renda para o Reino Unido. Além disso, o crescimento dos atentados terroristas na Europa – sobretudo na França e na Bélgica – despertam preocupações com a segurança interna e a defesa de interesses com relação à política externa na luta contra o terror.
O que esperar disso? Além do fim da centralização das políticas econômicas, do fim da livre circulação de pessoas e da revisão dos vistos de permanência dos imigrantes, é possível prever que aconteça um efeito cascata, com o aumento de número de países em que partidos de extrema direita vão forçar para que se adote o mesmo procedimento britânico, o que revelaria um sentimento anti-europa unida latente. É possível prever também o retrocesso na política externa dos países que formam o bloco europeu, relembrando os critérios que marcaram os períodos em que foram deflagradas a Primeira e a Segunda Guerra mundiais e a guerra fria.
Como afirmou a revista britânica The Economist, o plebiscito revelou um Reino “desunido”, uma Grã-Bretanha nem tão grande assim. O que se espera é uma economia menos vibrante, com menos emprego, menos receita e mais austeridade. Uma vez que aquilo que era impensável há um ano atrás tornou-se uma realidade, a Europa e a Inglaterra caminham em direção ao desconhecido.
O sonho de uma Europa unida fracassou. Embora o parlamento europeu e países como Alemanha, França e Itália defendam uma retomada das negociações sobre o fortalecimento da União Europeia, a decisão britânica vai exigir uma revisão de práticas econômicas na zona do Euro e a reorientação das políticas internas, com a repactuação e a reformulação do tratado Europeu.
Hoje é a Europa que desperta de sua paixão pelo sonho de onipotência. Isso é um sinal de alerta para outros blocos políticos e econômicos, principalmente os que o Brasil toma parte: o Mercosul e os Brics. Com a União Europeia fragilizada, o mundo tornou-se mais vulnerável. As rápidas transformações pelas quais a humanidade passa exigem o fim das ilusões. Quem está em crise de fato é o capitalismo mundial, com sua preocupação em concentrar renda e aumentar o controle das formas de produção da riqueza. A Europa está desiludida e junto com ela o capitalismo que inventou.

quarta-feira, 11 de maio de 2016

Impeachment e poder: os caminhos do golpe / Impeachment and power: the ways of the coup / Impeachment y el poder: los caminos del golpe de Estado

O Brasil enfrenta o segundo impeachment de sua história nos últimos 25 anos, desta vez para cassar o mandato da presidente Dilma Roussef. A maneira como o atual processo de impeachment se desenvolveu seguiu um roteiro que faz dele um golpe parlamentar para que um grupo de representantes políticos ligados aos movimentos de direita e do conservadorismo pudessem voltar a governar o país.
O atual processo de impeachment, ao contrário do que se imagina, não é contra a corrupção, mas contra um projeto político de esquerda que está em exercício no poder há 13 anos, depois de quatro vitórias nas últimas eleições majoritárias, em favor de elites conservadoras que sempre interferiram na vida do país.
O impeachment, enquanto ato político com efeitos jurídicos, faz parte do ordenamento legal brasileiro desde 1950 e tem por finalidade a destituição do mandato executivo. Ele foi estabelecido como lei para servir de remédio contra maus governos que viessem a se valer de atos criminosos para se perpetuarem no poder. A partir da sua formulação, todos os presidentes eleitos na república brasileira enfrentaram ameaças de impedimento. Com a Constituição Federal de 1988, o mecanismo de perda do mandato do presidente da república passou a ser uma constante no parlamento de modo que todos os presidentes sofreram pedidos de instauração do processo.
No caso do processo de impeachment que vai se consumando, ele vem sendo construído lentamente, desde o inquérito que ficou conhecido como Mensalão, em 2005. Porém, o partido vitorioso nas urnas em 2002 conseguiu reeleger-se no pleito seguinte e ainda eleger e reeleger seu sucessor nas eleições posteriores.
Para conseguir realizar o intento de voltar ao cargo máximo do país, os segmentos conservadores de direita se valeram de três estratégias. Em primeiro lugar, uma forte ênfase nos atos de corrupção em setores específicos da vida pública, notadamente os que envolviam a maior empresa pública, ligada ao setor do petróleo. Em segundo lugar, uma articulação midiática, com a espetacularização das denúncias de corrupção e dos processos investigatórios. O instrumento da delação premiada – que se baseia no depoimento de réus em processos – serviu de base para criminalização antecipada de empresários, partidos e políticos através da grande imprensa. E, em terceiro lugar, o desmonte da base aliada que dava sustentação ao governo no parlamento. Partidos com menor representatividade, que formavam a coligação governista inclusive com cargos no primeiro escalão, foram cooptados para se aliarem à oposição de direita.
O que está em jogo neste processo é o fim de um projeto político, que é de natureza trabalhista, para dar lugar a um projeto liberal e conservador que interessa aos meios elitistas. O impeachment começou a acontecer de fato com o rompimento de acordos entre os setores produtivos, principalmente a FIESP (a federação das indústrias do estado de São Paulo), e o governo. Com isso, o país começou a mergulhar num quadro de recessão econômica, com ameaças da volta da inflação e do aumento do desemprego.
Para se tornar realidade, dependeu da atitude vingativa e de retaliação do então presidente do Congresso Nacional, Eduardo Cunha, considerado como réu pela Suprema Corte. Para se manter no cargo e proteger seu mandato, aceitou um dos pedidos de impeachment feito com base em práticas contábeis tratadas como crimes de responsabilidade fiscal.
É bom que se diga que o presidente do Congresso, embora fosse membro do principal partido da base aliada, elegeu-se com o apoio de um grupo de parlamentares que o protegeu e lhe deu quórum para uma série de medidas que visavam inviabilizar o governo. Além disso, toda essa trama não seria possível sem a articulação da oposição derrotada nas urnas.
O impeachment se consolidou também com as ações conspiratórias do Vice-Presidente da República, Michel Temer, que agiu como traidor tendo em vista beneficiar-se com a vacância do cargo. Todo esse jogo de artimanhas aconteceu sob os olhares complacentes da Suprema Corte, que se limitou a judicializar o processo a fim de lhe conferir validade, sem tratar do mérito. Trata-se, portanto, de um processo político que visa destituir do cargo quem foi legitimamente eleita para tal, com 54 milhões de votos.
Não foi conferida à presidente eleita o amplo direito de defesa como se é constitucionalmente previsto, até porque não houve o devido processo legal que tipificasse o crime. Ainda paira dúvida se as tais práticas contábeis são crimes ou não. Como elas são comuns a vários governos, no momento em que a Suprema Corte vier interpretá-las como crime, a maioria de governadores e prefeitos deverão também serem afastados dos seus cargos pelos mesmos atos. Não houve sequer nomeação de CPI, denúncia de crime pelo Ministério Público ou mesmo indícios de atentados praticados pela presidência no exercício do mandato.
O processo se restringiu até aqui ao cumprimento de um rito, marcado por manobras articuladas por setores interessados no poder, que se reveste de uma aparente legalidade. É um golpe, como os muitos já levados a efeito na história da república, tramado pelas elites conservadoras.
Porém, não se trata de um golpe isolado. Ele se insere numa conjuntura que abrange tanto a vida interna do país como as relações externas. O golpe atinge as relações do Brasil no grupo de países emergentes – os BRICS – que desafiam as grandes potências mundiais. O golpe está inserido nos movimentos da direita conservadora na América Latina, que pretende retomar o poder como vem acontecendo na Argentina, na Venezuela e no Peru. O golpe põe em risco a soberania nacional nas atuais operações ligadas à extração do pré-sal. O golpe põe um freio nas políticas públicas relacionadas às conquistas sociais e trabalhistas nos últimos anos. O golpe envolve personalidades e partidos políticos citados em crimes de corrupção em processos de investigação ainda em andamento, como a Lava Jato, a Lista de Furnas e envios de remessas para o exterior.
Com a decisão deste dia 11 de maio, o Brasil entra num hiato político que pode durar até 180 dias – período em que o Senado se transforma num tribunal político –, com um vice-presidente assumindo a interinidade, sem as prerrogativas constitucionais da presidência. Mesmo que o governo atual possa ser definitivamente interrompido pela consumação do processo de impeachment, não há como apagar o legado histórico que deixa. Nesse período, o Brasil saiu do mapa da fome mundial. Milhões de pessoas saíram do estado de pobreza extrema, conquistaram a casa própria e empregos. O país conheceu sua única fase de pleno emprego, hoje colocada em risco. O país experimentou também o mais longo período de estabilidade econômica, com controle da inflação e distribuição de renda. Foram ampliadas ofertas de vagas em universidades e se permitiu o acesso a elas aos mais pobres. Além disso, a dívida externa foi saneada, a balança comercial experimentou constantes superávits e reservas internacionais foram aumentadas.
O projeto político que vem governando o país se constitui no mais longo período em que um partido de esquerda levou a efeito no mundo ao chegar ao poder pelas vias eleitorais. O que esperar a partir desse golpe que atinge a democracia em seu cerne? É um risco dizer que não há esperança. Porém, ela não está no discurso dos partidos e políticos que tramam o golpe. No que diz respeito ao projeto liberal que vem sendo arquitetado pelos que querem retomar o poder, não há o que se esperar em termos de conquistas sociais, diminuição da desigualdade e melhoria na distribuição de renda.
Entretanto, não dá para esquecer que há uma massa de pessoas que ascendeu socialmente e que, com isso, aprendeu a gostar dos padrões de consumo médio. A essa gente lhes resta seguir adiante ampliando seu conhecimento e investindo mais em sua força produtiva, independentemente dos caminhos que a política venha a tomar.
Não espero um período melhor, nem mesmo a superação da crise na qual o país foi mergulhado. Mas acredito na força do trabalho dos brasileiros. Não espero o fim da corrupção, que continuará a ser praticada, só que de forma velada. Mas acredito que não mais será possível compactuar com os malfeitos de quem quer que seja que assuma o governo.

quarta-feira, 30 de março de 2016

Carta aos brasileiros: crise, impeachment e democracia / Crisis, impeachment and democracy / Crisis, impeachment y la democracia

Estamos assistindo, nestes últimos dias, ao agravamento de uma crise política que afeta a vida de todos os brasileiros. Crise essa que envolve a articulação de forças e o exercício do poder no Brasil.
O quadro de polarização a que se chegou cria grupos opostos que se hostilizam, além de provocar um clima de instabilidade na convivência das famílias, dos grupos sociais, em escolas, prestação de serviços e até em grupos religiosos.
Essa polarização é alimentada por atores que têm a responsabilidade de gerenciar os fatos ligados à vida pública. De um lado, vemos a atuação de forças conservadoras, formada pelos que detém o controle dos meios de produção e de informação, que sempre dominaram o cenário político, firmados em um desejo – que é legítimo – de buscar o desenvolvimento voltado para o lucro e o ganho de capital.
De outro lado, vemos a atuação de segmentos mais progressistas, representados por forças de esquerda, que defendem uma perspectiva de desenvolvimento calcado na melhoria das condições de vida – que também é legítimo –, acessível a todos e voltada para as reformas sociais que visam corrigir as desigualdades econômicas entre os brasileiros.
Essa polarização não é nova. Ela acompanha a formação do estado brasileiro desde a instalação do regime republicano, que já nasceu com o fim de fortalecer os setores ligados aos meios de produção predominantes, que na época se concentravam na cultura do café e na pecuária. Essa polarização passa ainda pela formação da mentalidade industrial e urbana que influenciou a república brasileira a partir da década de 1930. Para que essa mentalidade se consolidasse, foi preciso enfrentar um longo processo de conquistas trabalhistas e de configuração do espaço urbano que reflete claramente hoje os polos opostos. Um processo que ainda se encontra em curso.
Esse processo tem acontecido de forma lenta, visto que exige investimentos e ações que esbarram nessa polarização, o que tem impedido o avanço de políticas públicas ligadas às necessidades das pessoas menos favorecidas, como a habitação, a terra para produzir alimentos, o saneamento básico, a educação, a saúde, a previdência, a geração de emprego e a distribuição de renda.
Depois de um período longo de ditadura, o Brasil estabeleceu o Estado Democrático de Direito, de tal modo que já são 24 anos – desde o impeachment do presidente Collor, o primeiro de toda a América Latina – de conquistas democráticas. Nesse período, observou-se um conjunto acentuado de conquistas sociais, com a ampliação do nível de emprego, o controle da inflação e a diminuição da miséria. São conquistas alcançadas a partir da luta em favor da democracia.
A defesa da democracia é o único modo através do qual podemos ver direitos respeitados, conquistas sociais consolidadas e a liberdade garantida. O que temos assistido é um retrocesso aos tempos em que havia uma prática política voltada para interesses de determinados setores dominantes, marcada por articulações e tramas que visavam chegar ao poder por meio de um golpe. A tentativa de usar um expediente legal sem base jurídica por lideranças envolvidas em denúncias de corrupção é, no mínimo, uma atitude suspeita.
Nesta hora, é preciso uma tomada de consciência crítica que seja capaz de reconhecer as conquistas atuais, mas também de que seja capaz de constatar que ainda conservamos na sociedade resquícios de um tempo marcado por uma política de apadrinhamentos, pela busca do poder por outras vias diferentes do voto, pela prática de conchavos e facilitações com o uso do dinheiro público.
Nesse momento crucial de nossa história, é preciso que se posicione de forma a se distanciar de tal polarização, independentemente da consciência ideológica que se defenda, a fim de encontrar um equilíbrio.
É hora de se lutar pelo respeito ao voto com a convicção de que este deve ser sempre o único caminho para que se tenha acesso ao poder. É hora de enfatizar o Estado Democrático de Direito, com o emprego justo e correto dos instrumentos legais para a garantia do exercício independente dos poderes constituídos. É hora de defender e apoiar a investigação dos crimes cometidos contra a coisa pública tendo em vista o desmantelamento dos esquemas que sempre favoreceram a corrupção. É hora de defender o direito à livre manifestação e à liberdade de opinião por um Brasil mais justo, não importa o lado em que se encontre. É hora de haver entendimento entre os poderes constituídos a fim de que seja possível o diálogo e a construção de soluções para a grave crise econômica que atinge diretamente à classe trabalhadora.
É preciso fazer um apelo à consciência dos cidadãos de bem, para que haja bom senso e discernimento neste momento. Que o diálogo seja possível em lugar das expressões de ofensa, preconceito e ódio. É preciso fazer um apelo ainda a que, independente de crença ou ideologia, se estabeleça um movimento de intercessão pela superação daquilo que nos aflige como povo e nação. Aos não religiosos, que promovam uma mentalidade voltada para a promoção da paz e o bem comum como ideais maiores. Aos religiosos, que invoquem a bênção divina sobre mentes e corações para que a concórdia prevaleça, tendo em vista os mesmos ideais.
Nesse quadro de crise que nos encontramos, somos todos brasileiros, estamos no mesmo barco. Se fracassarmos naquilo que há de mais nobre em nós, que é a capacidade de refletir e de agir com bom senso, todos sofreremos as consequências.

domingo, 13 de março de 2016

Seja um intercessor / Be an intercessor / Sea un intercesor

“Antes de tudo, recomendo que se façam súplicas, orações, intercessões e ação de graças por todos os homens; pelos reis e por todos os que exercem autoridade, para que tenhamos uma vida tranquila e pacífica, com toda a piedade e dignidade.” 1 Timóteo 2.1,2
Nunca precisou-se tanto de intercessores como nos dias atuais. Vivemos um quadro de crise moral, política e econômica que vem destruindo as esperanças de nosso povo.
É fato que a crise não é só brasileira, mas ela ganha contornos especiais no Brasil tendo em vista a nossa realidade socioeconômica e histórica.
É fato também que é uma crise historicamente construída. Suas bases estão ligadas muito mais às forças de dominação que atuam sobre nossa terra, desde que Pedro Álvares Cabral deixou aqui um degredado e que se aprofundou desde que as oligarquias destituíram o imperador para dar início à famosa república “café com leite”.
A crise atual cria um quadro que ameaça o Estado Democrático de Direito – conquistado a duras penas –, que põe em risco a paz social, que aprofunda as desigualdades sociais e que compromete as conquistas sociais até aqui construídas.
Com base na nossa crença, podemos dizer que aquele que ora é um agente de transformação no mundo em que vivemos. Esta é a maior revolução que se pode realizar. Se alguém ora pelo fim de algo que aflige a sociedade, se solta o grito de “basta” como um clamor em nome dos que sofrem, isso se torna um fenômeno capaz de restaurar a esperança.
Se você sabe pelo que orar, este é o primeiro passo para saber o que fazer. É preciso se dar conta de que as formas pelas quais o poder se organiza na sociedade são complexas e dependem da atuação de diversos entes em várias instâncias e esferas. Não basta encontrar um culpado, uma vítima ou um herói. Nesse processo, estamos todos implicados.
Ore para que haja paz nas cidades; ore para que a justiça prevaleça; ore para que os mais desprovidos sejam socorridos; ore para que as desigualdades sociais diminuam; ore para que haja oportunidades iguais para todos. Se você está consciente disso, interceda por aqueles que têm a responsabilidade de colocar em prática os mecanismos para que seus motivos de oração se estabeleçam.
Seja um intercessor pelas autoridades, diz Paulo ao jovem Timóteo. Meus pastores me diziam isso também em plena ditadura militar. Para mim, especialmente, foi muito difícil colocar em prática. Mas obedeci clamando por uma mudança de coração em favor daqueles que sofreram.
Num tempo de polarizações, intercessor não é aquele que está de um lado ou de outro, mas o que sabe encontrar o equilíbrio. Interceder é colocar-se no meio, entre o que carece e aquele que pode de fato socorrer.
Pense nisso. O maior protesto que um cristão pode realizar é aquele que parte do sentimento de compaixão por aqueles que sofrem. A intercessão é a atitude que está ao nosso alcance para transformar a realidade em que vivemos.

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