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sábado, 19 de novembro de 2022

Racismo e Reforma Protestante / Racism and Protestant Reformation / El racismo y la Reforma Protestante

O protestantismo assistiu a história da escravidão negra com um misto de crítica, de passividade e de silenciamento em relação às práticas que produziram toda sorte de desumanidade, genocídio e preconceito. Poderíamos afirmar que os vínculos com o racismo são históricos, quer seja por uma relação conivente com a formação do discurso racista, quer seja pela omissão em seu combate, quer seja pela sua validação.

Embora teólogos como John Wesley tratassem a escravidão como uma aberração, não foram poucos que encontravam justificativas bíblicas para a dominação, assim como não foram poucos os líderes religiosos que se calaram diante da violência contra indígenas e negros, tanto na América Latina quanto na África.

A escravidão negra foi um empreendimento global levado a efeito, sobretudo, a partir do interesse de nações de base protestante, como a Alemanha, a Holanda, a Dinamarca e a Inglaterra. Entretanto, a efetivação de seu emprego se deu a partir das colônias controladas por nações católicas e protestantes, incluindo-se a França, a Espanha e Portugal.

Para entender a dinâmica do racismo em meio às teses reformistas de liberdade e de afirmação dos princípios das Escrituras que proclamam a universalidade da condição humana, é preciso levar em conta o que estava por trás de toda argumentação. Podemos apontar três questões teológicas que afetam a relação do protestantismo e a escravidão negra.

A primeira questão é de natureza antropológica: o que é o ser humano? É preciso observar o modo como a cultural ocidental desenvolveu a identificação do negro como pessoa de segunda categoria, com limitações intelectuais e espirituais. O Vaticano levou quase dois séculos discutindo se o indígena na América Latina poderia ser considerado como ser humano. Ainda no século XIX, antropólogos funcionalistas discutiam se os negros do Sul da África eram algum elo perdido no desenolvimento do Homo Sapiens.

A segunda questão é de natureza política: o que é colonização? O processo de colonização é uma invenção do capitalismo moderno, como base no liberalismo econômico, que definia os territórios conquistados como propriedade dos conquistadores. A colonização foi definida por três construtos ocidentais: o capitalismo, o patriarcado e o cristianismo.

E a terceira é de natureza moral: o que é pecado? A partir da ideia de que não há pecado ao sul da linha do equador, houve uma licença para toda sorte de exploração, dominação e extermínio dos povos originários dos territórios conquistados. Primeiramente com a lógica do escravagismo, que define o trabalho como castigo e punição. O trabalho é para negros. Quem não se submete ao trabalho servil é indolente e preguiçoso. Aos brancos, porém, cabe serem sustentados pelo Estado. Posteriormente, essa mentalidade se converteu em cerceamento dos direitos do trabalho e supervalorização do rentismo.

A relação entre protestantismo e escravidão envolve as perspectivas políticas e econômicas que sustentam o racismo, a intolerância às religiões de matriz africana, o preconceito e violência contra a mulher e a rejeição das pautas que colocam em risco a hegemonia branca e ocidental.

O supremacismo branco, o racismo, a xenofobia e outras intolerâncias e preconceitos que neguem, anulem ou apaguem a diversidade humana são incompatíveis com a mensagem do evangelho. Quando a Bíblia afirma que Deus amou o mundo de tal maneira, isso implica compreender cada pessoa em sua condição, respeitando a beleza da multiforme condição humana.

O caminho do pluralismo e do respeito à diversidade reclama um diálogo a partir das epistemologias do Sul, que implica a decolonização de todo o saber que dá validação à intolerância e ao racismo, que resgate os valores dos povos originários da América Latina e das comunidades tradicionais formadas pelos povos africanos.

Foto: Estadão, 2015.

(Texto apresentado durante a Consulta Teológica FTL Brasil “Revisitando a Reforma Protestante desde a América Latina”, em 19/11/2022).

terça-feira, 27 de abril de 2021

Missão Integral e compromisso com o mundo: a morte de René Padilla abre uma lacuna na Teologia Latino-Americana / Integral Mission and commitment to the world: the death of René Padilla opens a gap in Latin American Theology / Misión integral y compromiso con el mundo: la muerte de René Padilla abre una brecha en la teología latinoamericana

A primeira vez que li um texto de René Padilla estava cursando Teologia no Seminário Teológico Batista do Sul do Brasil, lá pelos anos de 1980. Eu era muito jovem, tomado pelo arroubo do pensamento crítico, ávido de conhecimento para desbravar o campo da Teologia e da Filosofia.

Era um tempo de grandes transformações, ainda em meio aos anos de regime de exceção que tomou conta do Brasil. Ler Padilla e sua Missão Integral era um bálsamo para os meus ideais e um estímulo para a construção de minha consciência em relação à missão e ao ministério pastoral. Era uma de minhas leituras subversivas, aquelas que não eram recomendadas por professores e nem faziam parte do currículo. Junto com Padilla, se somaram Leonardo Boff, Hans Küng, Paul Tillich e tantos outros que fizeram minha cabeça. Lia por fome, por diletantismo, por vontade, por curiosidade.

Conheci René Padilla pessoalmente apenas em 2015 quando fui à consulta FTL setor Brasil em São Paulo. Estavam ali os três principais fundadores da teologia da missão integral na América Latina ainda vivos à época: Samuel Escobar, Pedro Arana e o próprio René. Foi um encontro inesquecível, em que pude conversar com ele, abraçá-lo e agradecer pela influência que exerceu na minha vida.

Equatoriano, nascido em 12 de outubro de 1932, ele foi criado na Colômbia, educado nos Estados Unidos e serviu como pastor na Argentina. Participou da famosa Conferência de Lausanne em 1974, exercendo grande influência na elaboração do documento sobre o compromisso social da igreja. Alguns o consideravam como um “evangelicalista”, mas logo se distanciou desse movimento, identificando-se com a realidade latino-americana, comprometido com um cristianismo evangélico voltado par o diálogo, para o atendimento dos mais vulneráveis, para o cumprimento da missio Dei e para realização do Reino de Deus no mundo.

Na tarde de hoje, René Padilla faleceu. Depois de um tempo enfermo, não resistiu. Deixa-nos aos 88 anos. Uma lacuna se abre na teologia latino-americana, sobretudo no âmbito do movimento evangélico. Nesses tempos em que o fundamentalismo parece hegemônico, a voz de alguém como Padilla vai fazer muita falta.

Atualmente, recai sobre meus ombros a tarefa de coordenar no Brasil e instituição que Padilla ajudou a fundar, a Fraternidade Teológica Latino-Americana, a FTL, juntamente com o Rogério Donizete. Com essa notícia, sinto-me pequeno diante desse imenso desafio. Padilla sonhava com um espaço em que todos e todas tivessem voz, em que fosse possível construir um pensamento a partir da realidade latino-americana que dialogasse com o mundo.

Bem, o desafio está posto. Padilla descansou. A vida continua.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2020

Pentecostalismos e participação política / Pentecostalisms and political participation / Pentecostalismos y participación política

A atuação dos movimentos pentecostais envolve muito mais que o uso da linguagem, da experiência de culto e do carismatismo. Os muitos pentecostalismos, que deve incluir também os neopentecostais, têm desenvolvido discursos e práticas relativos a questões sociais que os segmentos mais progressistas não se deram conta: pautas morais, como rejeição ao aborto e às uniões homoafetivas; a demonização do espiritismo e da religiosidade afro-brasileira, e práticas mercadológicas e comunicacionais.
Há um tipo de pentecostalismo com mais penetração entre jovens de classe média, e há um movimento pentecostal que tem mais adesão nas comunidades mais carentes. Esses movimentos não se misturam. Andando pelas periferias dos grandes centros constata-se sem muita dificuldade que o pentecostalismo conquistou mais fiéis do que as Comunidades Eclesiais de Base da Teologia da Libertação e de qualquer outro segmento religioso.
O cristianismo, de um modo geral, tem se tornado mais carismatizado e mais pentecostalizado. A presença pentecostal é uma marca desse tempo. É um movimento que tem sua origem nos grupos cristãos pertencentes a igrejas protestantes históricas dos Estados Unidos que buscavam uma renovação espiritual, no final do século XIX e começo do século XX. A ênfase era desvendar a obra do Espírito Santo e aprofundar essa experiência a partir da manifestação do falar em línguas estranhas, semelhante ao episódio ocorrido entre os primeiros cristãos e narrado no livro de Atos dos Apóstolos. Esse episódio ocorreu no dia de Pentecostes, uma data do calendário judaico.
A primeira experiência pública dessa manifestação aconteceu historicamente em 1906, na igreja da rua Azusa, em Los Angeles, Estados Unidos. A propagação dessa experiência se deu sob a forma de contágio, na medida em que pessoas que visitavam aquela igreja e recebiam a manifestação do dom de línguas tornavam-se propagadores da mensagem dessa experiência para diversas partes do mundo.
Aquela igreja chamava-se Missão Apostólica da Fé, mas em 1914 passou a chamar Assembleia de Deus. A Missão da rua Azusa é, por assim dizer, a mãe do movimento pentecostal. O trabalho dessa missão influenciou os principais pregadores que deram início ao movimento pentecostal no Brasil. Primeiramente, com o missionário Louis Francescon, que iniciou a Congregação Cristã do Brasil em São Paulo, em 1910. Depois, com Gunnar Vingren e Daniel Berg, que iniciaram a Assembleia de Deus no Brasil, em 1911, na cidade de Belém, Pará.
Uma das características da religiosidade pentecostal é procurar uma aproximação aos ensinamentos e ao estilo de adoração dos primeiros cristãos, com uma interpretação literal e alegórica da Bíblia. O termo pentecostal hoje abrange uma diversidade de grupos e igrejas, diferentes em termos de perspectiva teológica, formas de organização, costumes e liturgias. Trata-se de um movimento descentralizado, sem qualquer controle ou hierarquia, que pode estar presente em qualquer grupo cristão. O mais correto seria nos referirmos a pentecostalismos.
O fator comum é a ênfase na experiência do charisma, ou dom, recebido como uma experiência de iniciação, chamado de batismo do Espírito Santo. O pentecostalismo é um movimento essencialmente urbano. Outro aspecto relevante é que o movimento pentecostal teve sua origem em igrejas formadas por negros e pessoas de baixa renda, e ganhou maior projeção entre os mais pobres e excluídos da sociedade. Esse fato pode ser observado inclusive em sua expansão na América Latina. Também é preciso ressaltar o papel da mulher, que ao longo dos anos tem participado cada vez mais da vida eclesial da igreja, assim como os leigos, embora ainda haja uma resistência ao seu papel como pastora ou pregadora em alguns grupos. Há igrejas neopentecostais lideradas por mulheres, como bispas e apóstolas. Antes, elas eram tratadas apenas como profetizas, missionárias ou líderes de círculo de oração. Hoje, elas ocupam também os púlpitos, o que de início era proibido.
O desenvolvimento do pentecostalismo no Brasil, e de um modo geral na América Latina, pode ser compreendido através de três etapas:
a) O pentecostalismo clássico – de 1911 à década de 1950, com a Congregação Cristã do Brasil e a Assembleia de Deus.
b) O pentecostalismo de segunda geração – através da expansão com as campanhas de evangelização pelo interior do país, que resultaram no surgimento da Igreja do Evangelho Quadrangular e da Igreja o Brasil para Cristo. Em 1960, surgem novos grupos, como a Igreja de Nova Vida, a Igreja Deus é Amor e a Casa da Bênção.
c) Os neopentecostais – a partir da década de 1970, como a Igreja Universal do Reino de Deus, a Igreja Internacional da Graça e a Igreja Renascer em Cristo.
A expansão dos grupos pentecostais se dá a partir das rupturas internas das igrejas, que se dividem por motivos políticos, doutrinários ou morais, dando lugar hoje a uma infinidade de igrejas autônomas que se espalham por todas as localidades. O movimento pentecostal afetou diretamente a vida das chamadas igrejas protestantes históricas, promovendo movimentos de renovação em muitas delas e dando origem a novas igrejas pentecostalizadas, ou igrejas renovadas.
Mas, mais do que isso, a participação dos pentecostais na sociedade tem afetado diretamente várias áreas, desde a relação com a criminalidade – interferindo na maneira de tratar ex-criminosos que se convertem – até a definição de candidaturas e de pautas políticas para o país. Entre os muitos pentecostalismos, inclusive os neopentecostalismos, há um projeto único de poder que inclui uma forma de entender os Direitos Humanos de forma relativa, de tratar o estado laico com restrições, de suspeitar quanto a dinâmica do Estado Democrático de Direito, de questionamento da garantia dos direitos das minorias, principalmente em relação às pautas identitárias, às questões de gênero e direitos reprodutivos, e de intolerância religiosa. Mas, acima de tudo, esse projeto de poder é alinhado aos interesses da direita, com um viés de demonização de qualquer ideologia de esquerda.
A influência do pentecostalismo e do neopentecostalismo aponta para o fato de que esses movimentos se apresentaram como uma resposta imediata ao crescimento da miséria provocada pelos muitos regimes de exceção na América Latina. Nesse sentido, adotaram um caráter fundamentalista para oferecer algumas respostas religiosas que permitem, ao menos em curto prazo, uma eficiente superação da crise. Trata-se de um tipo de fundamentalismo religioso que ajuda a enfrentar a experiência de crise com uma resposta absoluta a situações relativas de forma imediata. Os pentecostalismos dessa natureza também têm a capacidade de transformar uma experiência de crise em uma aquisição de poder. Uma crise social ou pessoal se converte em uma experiência religiosa de poder. Os conflitos sociais se projetam como expressões e interferências do sobrenatural, que contrapõem o bem e o mal. A mensagem pentecostal e neopentecostal é de cunho escatológico dispensacionalista, prometendo uma intervenção repentina do poder de Deus diante dos males do mundo.
Podemos afirmar que nos movimentos pentecostal e neopentecostal se encontram setores sociais com interesses econômicos neoliberais e com um programa político de incorporação do Brasil e da América Latina à cultura norte-americana. Nesse sentido, esses movimentos, juntamente com o fundamentalismo evangélico que está presente nas igrejas protestantes históricas, é ao mesmo tempo cúmplice de exploradores e explorados, de dominadores e despojados, das elites e da pobreza. Por isso, o ecumenismo que se mostra impossível em termos eclesiológicos e doutrinais torna-se viável diante desse projeto de poder. São superadas paulatinamente as velhas fronteiras confessionais, de forma que os movimentos se juntam para polarizar em um ecumenismo do poder e um projeto político de controle da vida. O resultado é que a maioria dos fieis desse segmento votou a favor da ultradireita nas eleições de 2018. 
Publicado no site do Coletivo Bereia, em 16/12/2019. Acesse: https://coletivobereia.com.br/pentecostalismos-e-participacao-politica-implicacoes-do-caso-do-bonde-de-jesus/

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Celebrar a Reforma / Celebrate the Reformation / Celebrar la Reforma

A geração atual tem o privilégio de comemorar o quinto centenário da Reforma Protestante de uma forma única na história. Nunca antes o cristianismo pode celebrá-la tal como tem sido marcado, com conferências, publicações e reconhecimentos do mérito e do legado dos reformadores, envolvendo não só protestante, mas também católicos.
Há duas razões para isso. A primeira é a superação dos mal-entendidos produzidos pela contrarreforma católica, não só com as tentativas reformadoras do concílio de Trento, de 1545 a 1563, como também pelas campanhas difamatórias empreendidas pela igreja católica contra Lutero. Em 1529, Johannes Cochlaeus, que era um adversário do luteranismo e também o primeiro biógrafo de Lutero, descreveu o Reformador como “tendo sete cabeças”, filho “ilegítimo de Satanás”, “instrumento do demônio” que trouxe “à Alemanha e à cristandade a desgraça e a miséria” e “uma cópia humana de Lúcifer”. E essa foi a ideia que se nutriu por muito tempo.
A compreensão sobre a pessoa de Lutero só começou a ser alterada a partir do começo do século XX, com o trabalho do teólogo católico Yves Congar, que considerou a obra de Cochlaeus como “uma imundície que não pode ser desculpada nem mesmo pela intenção do autor de servir à sua igreja” (apud Elben M. Lenz Cesar, em Conversas com Lutero). Por ocasião do quinto centenário do nascimento de Martinho Lutero, em1983, o Papa João Paulo II escreveu uma carta ao cardeal Johannes Willebrands, então Secretário para a União dos Cristãos, sobre a necessidade de se chegar a uma compreensão “justa” sobre a imagem de Lutero como alguém que contribui decisivamente para as transformações da igreja no Ocidente. Recentemente, o atual Papa Francisco tem afirmado a necessidade de diálogo e aproximação entre católicos e protestantes em face das comemorações dos 500 anos da Reforma.
Quando a Reforma completou o seu primeiro centenário, a Europa estava mergulhada nos atos provocados pela inquisição católica. Somente entre os séculos XVI e XVII, os tribunais católicos efetuaram mais de mil execuções. A perseguição aos movimentos protestantes huguenotes na França e valdenses na Itália foi violenta. A repressão ao protestantismo ceifou milhares de vidas.
Quando a Reforma completou o seu segundo centenário, a Europa estava tomada por uma nova mentalidade científica. O Iluminismo nascente apregoava a superioridade da razão sobre a fé. Voltaire começava seus discursos sobre as liberdades civis e a necessidade de uma reforma racional, por meio do progresso da ciência e da tecnologia, em que a religiosidade não poderia mais ter lugar.
Quando a Reforma completou seu terceiro centenário, o mundo passava por uma grande transformação política e econômica. Emergia o conceito de estado burguês, assim como um crescimento vertiginoso da concentração de renda motivado pela revolução industrial. As antigas colônias buscavam sua emancipação, o capitalismo ampliava suas bases teóricas, o cientificismo tomava conta dos meios acadêmicos e o romantismo marcava a estética e a arte literária daquele tempo.
Quando a Reforma completou seu quarto centenário, o mundo estava em guerra. Era o auge da Primeira Guerra Mundial e as revoluções populares que levaram ao fim do czarismo na Rússia e às transformações sociopolíticas em todo o mundo. Pela primeira vez, as tropas usavam tecnologia para a destruição do inimigo. A humanidade, que havia sonhado com o tempo em que poderia voar e se locomover em maior velocidade, agora via o uso do avião, da metralhadora e do automóvel como armas de combate. É o começo do grande desencantamento e a afirmação do niilismo.
Quando a Reforma completa o seu quinto centenário, o mundo não está em paz e muito menos tem se transformado em um lugar melhor para se viver. Pela primeira vez, a humanidade se vê diante de uma possibilidade real de extinção em que a principal causa é o próprio homem. Problemas como o aquecimento global, a crise migratória, o crescimento da mentalidade de extrema direita e até as novas faces dos fundamentalismos religiosos colocam em risco a vida humana no planeta. Lembrar a Reforma e trazer de volta um sentido de espiritualidade que restaura a compreensão em um Deus de graça e misericórdia, que resgata o homem de sua própria perdição por meio da fé em Jesus Cristo.
Celebrar a Reforma hoje não pode se restringir a uma declaração ufanista de um movimento que deu certo, até por que teve seus problemas. É claro que deve haver um reconhecimento do importante papel que ela exerceu no campo da política, da economia, da teologia, da filosofia e das relações sociais. Entretanto, faz-se necessário compreender o espírito dos reformadores, que não quiseram apenas dividir a igreja, mas renová-la para enfrentar as grandes transformações que o mundo atravessava e que ainda vem atravessando.
Celebrar a Reforma tem um sentido de gratidão pela coragem dos primeiros reformadores, mas também de um chamamento a uma resistência à tendência de se prender a um conservadorismo paralisante, um moralismo discriminatório e a um fundamentalismo obscurantista. Celebrar a Reforma deve ser muito mais um ato de resistência às muitas formas de cercear a liberdade, de impor mais opressão e de exercício de totalitarismos. É promover a grande revolução que restaura o sentido de humanidade e que nos conduz a uma vida mais humana diante de Deus e uns dos outros.

terça-feira, 31 de outubro de 2017

O Futuro da Reforma / The future of the Protestant Reformation / El futuro de la Reforma Protestante

Após cinco séculos da Reforma Protestante, a pergunta que se levanta é: qual é o seu futuro? Isso remete a outras indagações: precisamos de uma nova reforma hoje? As transformações que o cristianismo precisa experimentar hoje são da mesma natureza das do tempo da Reforma de Lutero? As respostas a essas indagações são complexas e exigem um olhar crítico para o momento pelo qual a fé cristã atravessa no mundo.
As causas da Reforma são mais profundas do que os desvios morais e a corrupção do clero da igreja do Ocidente. Nas confissões protestantes – principalmente a luterana de Augsburg e a anglicana de Westminster –, haverá mais preocupação com questões teológicas do que morais, haverá mais ênfase à comunhão dos santos do que aos ofícios. “A tese segundo a qual os Reformadores teriam deixado a Igreja romana porque ela estava repleta de devassidões e impurezas é insuficiente”, dirá o historiador Jean Delumeau em Nascimento e afirmação da Reforma. Da mesma forma, as consequências da Reforma vão além do cisma na igreja ocidental. Ela se desdobra em novas conquistas sociais num mundo em grande transformação.
A Reforma Protestante trouxe uma nova perspectiva política, econômica e cultural num mundo em efervescência. Não se pode separar os acontecimentos da Reforma dos movimentos ligados à afirmação dos estados nacionais na Europa, do surgimento da economia de mercado e as raízes do capitalismo, da formação do pensamento liberal e o humanismo nascente. Os pensadores da Reforma dialogaram com as grandes correntes de pensamento de seu tempo e influenciaram de forma decisiva as ideias emergentes. A Reforma Protestante contribuiu para a uma nova compreensão do papel da cultura, do conhecimento e da participação social do indivíduo. Isso se deu a partir do esforço de trazer a Bíblia para as línguas nacionais, ao propor um projeto educacional extensivo às populações mais pobres e até ao fortalecer as formas de organização das sociedades que tiveram uma experiência reformista.
Karl Marx, em sua Crítica da filosofia do direito de Hegel, reconheceu: “Sem dúvida, Lutero venceu a servidão por devoção porque pôs no seu lugar a servidão por convicção. Quebrou a fé na autoridade porque restaurou a autoridade da fé. Transformou os padres em leigos, transformando os leigos em padres. Libertou o homem da religiosidade exterior, fazendo da religiosidade o homem interior. Libertou o corpo dos grilhões, prendendo com grilhões o coração”. Para ele, a Reforma foi um acontecimento revolucionário, que transformou a Alemanha, não como solução, mas como “o modo correto de colocar o problema”.
Se no período renascentista o cristianismo passava por uma crise interna que envolvia a moral e o exercício da autoridade eclesiástica, hoje há uma crise que tem mais a ver com a maneira como a fé cristã enfrenta os dilemas e as dores do mundo. Se as causas da Reforma diziam respeito a um retorno à essência do cristianismo, hoje há a necessidade de se buscar relevância. O que se faz necessário hoje não é uma “reforma”, mas uma revisão dos rumos, do discurso e da práxis do cristianismo. Se as causas da Reforma eram internas, hoje as transformações precisam se dar na esfera pública.
O cristianismo perdeu relevância. Uma das evidências disso é que, quando alguém procura uma experiência de espiritualidade, o último lugar em que se vai buscar é a igreja. Há mais sentido para o mundo na espiritualidade dos movimentos orientais, da vida alternativa e até da autoajuda do que na vida de devoção ou mesmo no seguimento de Cristo. E isso se deve à maneira como ficou configurado aquilo que o cristianismo tem de pior: o fundamentalismo religioso, a pretensão de religiosidade hegemônica e a incapacidade de dialogar com o mundo.
Se os reformadores enfatizavam o livre exame da Escrituras, o sacerdócio universal dos crentes e a justificação pela fé como orientadores de uma nova teologia, as igrejas herdeiras da reforma precisam apontar suas reflexões e condutas não para reafirmar ou rever tais princípios, mas para reorientar sua ação no mundo. Nesse sentido, a esfera pública faz emergir uma nova compreensão teológica que dê conta de uma igreja comprometida com o chamado divino de ser servidora de um mundo perdido. Afinal, essa foi a proposta de Jesus de Nazaré ao comissionar seus discípulos: “Antes, dirijam-se às ovelhas perdidas de Israel” (Mateus 10.6).
Uma igreja que se ocupa da esfera pública precisa rever a maneira como se identifica como povo de Deus, não como sectário, mas como corpo de Cristo no mundo. Há uma necessidade de se empreender um esforço ecumênico para se ressaltar mais o que une os cristãos no mundo do que aquilo que os divide. A igreja cristã precisa se afirmar como uma família de muitos irmãos e irmãos, e não como um gueto ou um lugar de fuga do mundo.
Uma igreja que se ocupa da esfera pública precisa desenvolver um sentido de comunhão para além da sua realidade interna. Isso implica o resgate do sentido de comunidade, que se desloca do círculo restrito das relações eclesiásticas e se estende para dentro do mundo. A igreja precisa deixar de ser a expectadora de um mundo em naufrágio, como se vivesse uma realidade distante, para ser coparticipante do cuidado com o mundo como sendo parte dele. É preciso ver o mundo como nossa casa comum, e não como um além.
Uma igreja que se ocupa da esfera pública precisa possuir um sentido de missão voltada para o ser humano em sua totalidade. A igreja não é portadora de uma verdade absoluta, imutável e inquestionável. Ela é anunciadora da boa nova de salvação a toda criação: o ser humano em suas múltiplas relações e complexidades. Ela não tem que defender verdades, mas ser agente de transformação e de libertação num mundo que perdeu-se de si mesmo. Foi Jesus quem lançou as bases para uma nova vida a fim de que possamos viver de forma humana diante de Deus. A igreja tem a missão de levar a toda humanidade a boa notícia de que é possível uma vida humana mais digna, justa e solidária conforme Jesus ensinou e viveu.
Após 500 anos, é importante entender o que foi a Reforma, não para repeti-la ou reafirmá-la, mas para inspirar um novo movimento em direção a uma vida cristã mais autêntica no mundo. O momento é de gratidão pelo legado da Reforma, o que ela contribuiu para a história da igreja como um todo. Mas também é de crítica, reconhecendo limitações e falhas que a igreja vem enfrentando ao longo do tempo.

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Reforma protestante e pluralidade / Protestant reform and plurality / Reforma protestante y pluralidad

Quando se fala de Reforma Protestante, não se refere a um movimento único e uniforme. Ela precisa ser compreendida a partir de uma perspectiva plural, que aconteceu em um contexto de pluralidade, desenvolveu-se de forma variada e configura-se também por uma diversidade. O correto seria falar de reformas protestantes ao se tratar do fenômeno de transformação que o cristianismo experimentou no limiar da Modernidade.
Entretanto, esse aspecto plural nunca foi visto como um fator positivo, identificado como promotor de uma relação entre “inimigos de si mesmos”, para usar a expressão empregada no título do livro de Rowland Croucher que faz uma abordagem sobre o fenômeno do evangelicalismo, do socialismo evangélico e do neopentecostalismo característicos do movimento protestante a partir da década de 1960.
O pluralismo protestante tem sido objeto de um diálogo impossível, marcado muito mais por aspectos organizacionais, doutrinários, litúrgicos e até moralistas do que aqueles voltados para a essência da fé, da comunhão e do amor cristão.
Como afirmou Claudio de Oliveira Ribeiro, no artigo Espiritualidades plurais da Reforma: “a vivência comunitária e a pluralidade constituem privilegiado potencial de geração de utopia e que a ausência de referenciais utópicos dá lugar a formas de individualismos exacerbados, de lógicas de exclusão e de sectarismos, de imediatismos políticos, de racionalismos e de absolutismos, o que enfraquece a vivência autêntica e gratuita da fé e a noção de diaconia como canal de solidariedade, partilha e serviço. Tal pressuposição está em íntima sintonia com os princípios teológicos da Reforma”.
Essa pluralidade está refletida na formação histórica, na proposta teológica e na concepção eclesiológica. Não há uma história única do protestantismo: a reforma aconteceu de forma distinta na Alemanha, na Suíça, nos Países Baixos, na Inglaterra, Europa Central. Houve também movimentos que foram duramente combatidos na França, na Itália e Espanha. Também não é possível se falar de uma única teologia protestante: a chamada “teologia reformada” pode ser entendida a partir de tendências luterana, calvinista e as que marcaram a chamada reforma radical, com os grupos anabatistas e grupos separatistas. Da mesma forma, não se pode falar de uma única eclesiologia protestante, visto que os grupos foram adotando diversas formas de organização e de estrutura, como os presbiterianos, os congregacionais, os metodistas, uns mais hierárquicos e outros mais democráticos.
Embora haja essa diversidade histórica de expressões da Reforma, essa condição de surgimento, formação e configuração não representa uma oportunidade de diálogo fácil entre as várias manifestações do protestantismo nem com outras formas de expressão do cristianismo.
É preciso desenvolver uma análise crítica das condições de construção do que ficou conhecido como Reforma Protestante e identificar suas várias tendências bem como os fatores que promovem aproximações e distanciamentos entre eles. Nesse sentido, é possível falar de antecedentes, de ações e de desdobramentos que são plurais em seu âmbito.
1) Antecedentes plurais – Os séculos XIII-XIV foram marcados por movimentos após o chamado Grande Cisma que reivindicavam mudanças na igreja do Ocidente que envolviam dois aspectos. O primeiro, voltado para a reforma da fé e da hierarquia eclesiástica, com a atuação de expoentes como Pedro Valdo, John Wycliff, João Huss, Comênio e Savanarola. O segundo, que propunha uma mudança de costumes, mais voltado para aspectos morais, como foi o caso da reforma humanista de Erasmo.
No fim da Idade Média, especialmente nos séculos XIV e XV, havia uma grande insatisfação popular envolvendo questões sociais e ações religiosas que provocavam um clima de insegurança. Como consequências desse quadro, podemos citar a contestação ao clero e a busca por justiça social.
Podemos encontrar pelo menos três vertentes que antecederam a Reforma:
a) Uma vertente acadêmica, marcada pelo declínio da escolástica e o apelo à volta da simplicidade do Evangelho. Um dos textos conhecidos é Imitação de Cristo, de Tomás de Kempis.
b) Uma vertente popular, marcada por movimentos marginais que se inspiravam em antigas ordens religiosas, como as dos franciscanos e dos dominicanos. Havia um apreço à vida monástica, um apego à prática de flagelos e penitências e a defesa de crenças escatológicas.
c) Uma vertente mística, marcada pela vida contemplativa e a ênfase numa teologia apofática. O Mestre Eckhart é um de seus representantes.
2) Ações plurais – Embora Lutero seja a figura de destaque do movimento da Reforma, o luteranismo não foi único. Outras expressões aconteceram ao longo de toda a Europa. Não podemos esquecer da participação de nomes como Zwinglio e Calvino, do anglicanismo, dos huguenotes franceses, de grupos radicais como os anabatistas e os separatistas ingleses, dos movimentos de reforma da Escócia e da Espanha, das comunidades mendicantes dos Países Baixos e do desdobramento místico do alemão Jacob Boehme e do espanhol João de Valdez. Outro teólogo que atuou de forma marcante foi Thomas Müntzer, que liderou um movimento de camponeses assumindo uma dimensão política e revolucionária do pensamento da Reforma, mas acabou sendo derrotado, preso e morto pelos próprios luteranos.
3) Desdobramentos plurais – Embora a Reforma Protestante tenha acontecido no final do período renascentista, ela se desenvolveu ao longo da Modernidade. Os acontecimentos históricos acabam se entrelaçando com outros eventos significativos desse período. Entre eles podemos mencionar a formação dos estados nacionais, o surgimento do pensamento liberal e a ênfase ao individualismo. Max Weber, inclusive, já tem identificado uma grande afinidade entre o protestantismo e o espírito do capitalismo, sistema político-econômico que se afirma no contexto da Modernidade.
No contexto do luteranismo alemão, surge o movimento pietista, que enfatizava a dimensão individual da experiência de Deus, com uma forte inclinação moralista e um apelo ao estudo das Escrituras. O pietismo defendeu crenças e práticas como a necessidade da conversão pessoal, da fuga do mundo e da prática piedosa da caridade e da tolerância.
Já no contexto inglês, onde se deu a reforma anglicana, surge outro movimento, o puritano, que procurar retirar os vestígios do catolicismo que foram mantidos na igreja da Inglaterra. O puritanismo pode ser considerado como um esforço pelo avivamento da igreja com importantes consequências para a expansão da compreensão da missão da igreja no mundo. Quando o puritanismo foi levado para a América, ali se expandiu e estabeleceu bases para a formação dos Estados Unidos como nação democrática.
Essa condição plural do protestantismo tem sido objeto de diversas investigações a respeito de suas causas e consequências. Entretanto, o que se pode notar é que, em meio a sua diversidade, há um distanciamento do espírito e das intenções que marcaram a Reforma Protestante.
O protestantismo é marcado hoje por pelo menos três características predominantes, cada uma delas como uma pluralidade de possibilidades:
a) Um viés fundamentalista.
b) Um viés carismático.
c) Um viés progressista.
O fenômeno do pluralismo protestante é um fator de divisão que tem desencadeado uma identidade marcada pela falta de diálogo interno. Essa falta de diálogo se reflete na esfera pública, com práticas e discursos que deixam claro que uma nova onda de “reforma” precisa acontecer. Os grupos protestantes são mais conhecidos pelo que proíbem do que pelo que defendem.
Essa diversidade decorre de princípios orientadores que precisam ser revisitados hoje no sentido de se contribuir bases para relações ecumênicas e de diálogo inter-religioso. Rubem Alves, no livro Protestantismo e repressão, identificou que o protestantismo foi, em seu primeiro momento, “a explosão de um grito reprimido de liberdade”. Entretanto, como salientou Bonhoeffer em sua Ética, a igreja protestante encarna o tema de nosso tempo, que é o da decadência.

sábado, 28 de outubro de 2017

O princípio protestante / The Protestant Principle / El principio protestante

Para Paul Tillich, a realidade que configura o movimento protestante está ligada a um dado poder, a um dinamismo que perpassa esse acontecimento histórico, ao qual denominou de “princípio protestante”. Diz ele, em A Era Protestante: “O princípio protestante é o juiz de qualquer realidade religiosa e cultural, incluindo a religião e a cultura que se chamem ‘protestantes’” (TILLICH, 1992, p. 183). E mais: “É o julgamento profético contra o orgulho religioso, a arrogância eclesiástica, e a autossuficiência secularizada com suas consequências destruidoras” (TILLICH, 1992, p. 183).
“O princípio protestante pode ser proclamado por movimentos pertencentes tanto ao domínio religioso como ao secular, mas sem qualquer filiação eclesiástica ou institucional, bem como por grupos ou indivíduos que, por meio de símbolos cristãos ou protestantes, ou sem eles, expressam a verdadeira situação humana em face do absoluto e do incondicional. Se nessas situações proclamam-se e vive-se melhor e com mais autoridade o princípio protestante do que nas igrejas oficiais, então é aí e não nas igrejas que o protestantismo se torna vivo no mundo atual” (TILLICH, 1992, p. 221).
A realidade que envolve a pluralidade da igreja protestante se apresenta de forma paradoxal na medida em que contrasta com o discurso de afirmação da unidade da fé cristã e se lança como um desafio para repensar os rumos do movimento nos dias atuais. Para Tillich, “[no poder da cruz, a] igreja protestante haverá de se manter na medida em que tiver consciência do significado de sua existência” (TILLICH, 1992, p. 216).
A própria dinâmica da proposta inicial do protestantismo, de uma igreja em reforma, já é em si um projeto arriscado. “A igreja protestante corre permanentemente o risco de se esquecer do seu sentido. Sua grande tragédia tem sido a insistência em possuir a ‘pura doutrina’, como se possuísse a verdade invulneravelmente” (TILLICH, 1992, p. 216). Contudo, essa é a sua principal característica: comportar em si a pluralidade que envolve a experiência de Deus no mundo.
“A Reforma deve continuar”, disse certa vez Friedrich Schleiermacher ao se rebelar contra a mentalidade dominante do protestantismo de sua época (apud James Luther Adams In: TILLICH, 1992, p. 285). Os primeiros cinco séculos de protestantismo – que Paul Tillich chamou de “era protestante” – foi marcado por transformações e contradições. Começou com a Reforma dialogando com o Humanismo, evoluiu através do diálogo com o pensamento liberal e o Iluminismo, acompanhou o período da revolução industrial e a consolidação do capitalismo, atravessou o século XX em meio a lutas e incertezas e chegou ao século XXI com o desafio de repensar sua continuidade.

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Igreja reformada sempre se reformando / Reformed church always reforming / Iglesia reformada siempre reformando

Uma das máximas que a Reforma Protestante produziu é a que diz: “Igreja reformada, sempre reformando”. A ideia que essa frase traz em si é um desafio para a igreja cristã de hoje. Uma igreja reformada não tem a ver com uma inovação nem mesmo uma reafirmação de valores antigos com novas roupagens. Assim como uma igreja que está sempre se reformando não corresponde a introduzir práticas, ritos e costumes novos em sua liturgia e ação.
Embora esteja alicerçada no espírito dos reformadores, a frase não esteve na boca nem na pena de Lutero, Zwinglio ou Calvino, mas dos representantes do que podemos chamar de “segunda reforma”, principalmente da vertente ligada ao pietismo. Sua origem remonta a uma frase atribuída a Santo Agostinho: “A igreja está sempre sendo reformada” que em latim é: Ecclesia semper reformanda est. Lutero era um monge agostiniano e muito provavelmente foi influenciado por essa ideia.
A frase só vai aparecer no contexto da Reforma através Jodocus von Lodestein (1620-1677), uma proeminente figura do pietismo reformado alemão, que achava que a igreja não deveria ser chamada de reformada, mas de “reformanda”. Para ele, a Reforma havia afetado a igreja, mas a vida das pessoas precisava sempre também ser reformada. Outros entendem que ela foi citada por Gisbertus Voetius (1589-1676) por ocasião o sínodo de Dort (1618-1691), na Holanda, com a forma: Ecclesia Reformata et Semper Reformanda Est. Esse lema foi expandido para Ecclesia reformata semper reformanda est secundum verbum Dei. Ou seja: Uma igreja reformada sempre sendo reformada segundo a palavra de Deus.
Richard Baxter (1615-1691), um puritano inglês, chegou a indagar: “Como podemos achar que a Reforma está terminada quando nos livramos de algumas cerimônias e mudamos alguns trajes, gestos e formas? Não, Senhores! Converter e salvar almas é a nossa real atividade. Essa é a principal parte da Reforma”, conforme citado por Michel Reeves, em A chama inextinguível.
Mais tarde, Karl Barth (1886-1968) a reafirmou em seu tratado de teologia dogmática, argumentando que os limites da reforma da igreja se encontram dentro da própria dinâmica da vida comunitária, na maneira como Cristo toma forma como Senhor da igreja, construindo não só a maneira como ela se constitui internamente, mas também como ela se expande e alcança o mundo. Nessa construção, ela precisa compreender os limites de ser uma igreja reformada e as implicações de uma igreja sempre em reforma. As possibilidades e as necessidades de mudança da igreja devem abranger suas regras, suas estruturas e até suas concepções doutrinais à luz daquilo que foi ligado ao longo do desenvolvimento histórico da fé cristã.
A frase também está implícita nos documentos do Concílio Vaticano II, que reconheceu a necessidade de uma igreja sempre em reforma, ao afirmar, no documento Lumen Gentium, que “a Igreja, contendo pecadores no seu próprio seio, simultaneamente santa e sempre necessitada de purificação, exercita continuamente a penitência e a renovação”.
Como se pode notar, esse lema da reforma contempla tanto o mais piedoso conservador, como também o mais radical revolucionário. O que se pretende não é preservar valores e princípios somente por causa da tradição, nem mesmo mudar apenas pela mudança. Ele tem uma dimensão ecumênica e lança uma proposta de reflexão a respeito da maneira como a igreja realiza sua missão historicamente.
Nesse sentido, o lema precisa ser revisto à luz do próprio sentido de missão da igreja. Não se trata de mudar a igreja apenas ao sabor das transformações da cultura e do conhecimento, mas de rever os valores e princípios de origem para tornar a mensagem mais compreensível às pessoas em seu tempo, mas também para se viver de uma forma mais coerente a fé e a graça salvadora para aqueles que nos são contemporâneos.
O próprio lema pode nos levar a compreender de maneira equivocada que a igreja pode ser agente autônoma da sua própria reforma. Não se pode esquecer que a igreja é campo de trabalho de Deus. A ideia não é de uma igreja que se reforma, mas que vem sendo reformada pelo Espírito Santo. Isso desperta a necessidade de refletir sobre a sua própria identidade, mas também a sua relevância: a igreja existe para cumprir a Missio Dei no mundo.
Quando a reforma para, a igreja se deforma. E quando a igreja se deforma, ela se conforma. A igreja sempre sendo reformada pelo Espírito à luz da palavra de Deus para cumprir sua missão no mundo, essa é a transformação radical que necessária em nossos dias. Alguém certa vez orou: “Deus nos livre de um novo Lutero!” E hoje precisamos clamar por uma renovação na vida da igreja.

sábado, 14 de outubro de 2017

Sacerdócio universal dos crentes / Universal Priesthood of Believers / Sacerdocio universal de los creyentes

Mas vós sereis chamados sacerdotes do Senhor, e vos chamarão ministros de nosso Deus [...]” (Isaías 61.6).
O sacerdócio universal de todos os crentes é um dos mais caros princípios da Reforma Protestante. É uma espécie de confrontação com a divisão que o cristianismo ocidental havia construído na Idade Média de separação entre clérigos e leigos no interior da igreja.
Esse princípio se baseia na descoberta de que a Bíblia apresenta Jesus como o grande sacerdote, o único mediador entre Deus e os homens. E a mesma Bíblia também diz que todos aqueles que seguem a Jesus em fé e praticam seus ensinos partilham do seu sacerdócio. A Bíblia diz: Mas vós sois [...] o sacerdócio real (1 Pedro 2.9) e e nos fez reino, sacerdotes para Deus(Apocalipse 1.6).
O Novo Testamento não fala de uma ordem sacerdotal para a igreja. Ela ficou restrita ao templo judaico. O clericalismo é um dos maiores equívocos desenvolvidos pela cristandade. Foi Tertuliano, no final do século II, que se referiu aos líderes da igreja pela primeira vez como “sacerdotes”. Eram eles que tinham o dever de ofício de ministrar a eucaristia como um sacrifício.
Ao analisar as implicações da justificação pela fé e a graça salvadora, Lutero aprofundou sua compreensão de que a salvação não é um mérito humano, mas um dom divino a todo aquele que acolhe a obra de Cristo consumada na cruz. Essa graça é libertadora de todo pecado, do medo da morte e da condenação eterna, como também expressa a justiça divina sobre toda a criação. Isso confere uma condição de plena liberdade ao que crê.
Numa obra de 1520, intitulada A liberdade do cristão, Lutero afirmou que “somos sacerdotes; isto é muito mais que ser reis, porque o sacerdócio nos torna dignos de aparecer diante de Deus e rogar pelos outros”. E disse mais: “Tu perguntas: ‘Que diferença haveria entre os sacerdotes e os leigos na cristandade, se todos são sacerdotes?’ A resposta é: as palavras ‘sacerdote’, ‘cura’, ‘religioso’ e outras semelhantes foram injustamente retiradas do meio do povo comum, passando a ser usadas por um pequeno número de pessoas denominadas agora ‘clero.’ A Escritura Sagrada distingue apenas entre os doutos e os consagrados, chamando-os de ministros, servos e administradores, que devem pregar aos outros a Cristo, a fé e a liberdade cristã. Já que, embora sejamos todos igualmente sacerdotes, nem todos podem servir, administrar e pregar.”
Embora seja uma ideia revolucionária para o seu tempo (o século XVI), o princípio do sacerdócio universal traz em si algumas implicações que precisam ser levadas em consideração hoje. Alguns o veem como a base do individualismo evangélico e outros o consideram como uma expressão da ideia da autonomia do sujeito trazida pela racionalidade moderna, já presente no pensamento da Reforma Protestante. Mas há algo mais.
Primeiramente, o fato de que os cristãos em geral são sacerdotes se constitui em um privilégio, e não uma exclusividade. Por sermos sacerdotes, temos acesso a Deus com liberdade, mas isso não nos faz melhores ou piores do que as demais pessoas. Isso deve despertar em nós ma espiritualidade mais humanizadora.
Em segundo lugar, o sacerdócio universal tem uma dimensão comunitária. Não somos sacerdotes de nós mesmos. Somos sacerdotes uns dos outros. Ninguém pode ser cristão sozinho. Formamos a communio sanctorum – a comunhão dos santos. A Bíblia nos ensina que o Espírito Santo capacita a todos com dons a fim de que possam ministrar uns aos outros a graça recebida.
Em terceiro lugar, todos os crentes – inclusive pastores e ministros – são leigos. A palavra não se refere a uma pessoa indouta ou desconhecedora. Ela deriva do grego laós, que quer dizer povo. Somos todos participantes do povo de Deus. E, mais do que isso, acolhidos como filhos do mesmo pai. Isso não impede que haja liderança e liderados, apenas lembra que o papel do líder é servir aos demais.
Toda vez que algum líder religioso se arvora com uma autoridade sobre os demais seguidores da fé, o princípio do sacerdócio universal é vilipendiado. O Senhor não colocou na igreja uns com poderes superiores a outros, nem mesmo uns com autoridade sobre os demais. Antes, a vida de fé deve ser desfrutada de forma harmoniosa entre todos aqueles que comungam da mesma graça.

domingo, 8 de outubro de 2017

Sentidos da graça / Senses of grace / Sentidos de la gracia

Porque a graça de Deus se manifestou salvadora a todos os homens” (Tito 2.11). 
A palavra graça possui uma pluralidade de sentidos. Ela nos remete a um universo de significados que envolve toda a nossa compreensão da realidade que nos cerca, desde a maneira como nos relacionamos com o sagrado até nossas relações com o que menos gostamos.
A maneira como nós a empregamos na língua portuguesa vem do latim gratia, que nos remete a uma atitude de reconhecimento das qualidades do outro, que nos desperta gratidão e apreço. Mas ela também está presente na língua grega, como Charis, que eram as deusas mitológicas do banquete, do encanto, da sorte e da prosperidade. Eram dotadas de beleza e simbolizavam a harmonia e a alegria. Na literatura grega e na arte ocidental em geral, elas sempre foram representadas por três jovens que dançam nuas entre si.
A palavra também está presente no hebraico, tanto como chen quanto hesed. A primeira lembra o transbordamento da bondade divina apesar do pecado humano. Deus abomina o pecado, porém a sua bondade ainda é maior. A primeira vez que ela aparece na Bíblia é em Gênesis 6.8, traduzida muitas vezes como benevolência: A Noé, porém, o Senhor mostrou benevolência. Tem o sentido de curvar-se, o ato de alguém maior ser capaz de se aproximar de alguém menor. A segunda é traduzida costumeiramente como misericórdia, resultado de um sentimento de amor e de fidelidade de Deus para com sua criação.
No uso cotidiano, graça aparece em várias situações:
- como um favor: “por graça”;
- como um ato de bondade: “agiu com graça”;
- como simpatia: “caiu na graça, foi agradável”;
- como elegância: “cheia de graça”;
- como uma qualidade de vida: “estava em estado de graça”;
- como bom humor: “fazer graça”;
- como uma recompensa: “gratificar”;
- como gratidão: “deu graças”;
- como louvor: “rendeu graças”;
- como identidade: “qual é sua graça”;
- como descoberta: “deu o ar da graça”;
- como expressão de poder: “dispensou sua graça”;
- como perdão: “recebeu o indulto”.
Em Filosofia, Agostinho afirma que a graça é o meio pelo qual podemos exercer a nossa liberdade para a escolha do bem. Para ele, o homem não pode conhecer nada sem o auxílio da graça divina. Tomás de Aquino, que escreveu um tratado sobre a graça, disse que ela consiste em um motor para alma, como um princípio para as ações de bondade, que se expressa como uma participação na natureza divina. A graça também foi entendida como uma espécie de beleza, uma concepção estética da relação entre liberdade e necessidade. Friedrich Schiller, no final do século XVIII, a chamou de beleza em movimento, pois é resultante da liberdade. Ela deixa transparecer o caráter moral do homem.
Na Bíblia, a graça é um dom e promove dons. Ela tanto é um presente que Deus nos concede como é também uma capacitação para que possamos partilhar uns com os outros seu amor, bondade e misericórdia. A graça se realiza entre nós como charismata, mais conhecida como dons espirituais. Pedro aconselha a que administremos a graça em seus aspectos multiformes: Cada um exerça o dom que recebeu para servir aos outros, administrando fielmente a graça de Deus em suas múltiplas formas” (1 Pedro 4.10). A expressão “múltiplas formas” se refere ao universo de cores que existe na natureza. A ideia é de que há uma variedade de possibilidades de agirmos com graça e por graça uns com os outros. Isso nos lembra que Deus ama a diversidade.
Na Teologia, a graça está relacionada à ação divina, ao modo como Deus se manifesta na história e age para poder atrair para si a humanidade perdida. A maior expressão da graça é a revelação de Deus em Cristo. A maneira como Jesus veio ao mundo, viveu, ensinou, se relacionou com pessoas, morreu, foi ressuscitado e recebido na glória é o discurso mais eloquente da graça divina. Para ter acesso à graça divina, nenhuma de nossas obras  sejam elas caridosas ou religiosas – é suficiente. Temos acesso a ela somente pela fé. Essa graça divina é salvadora porque restaura o homem de sua própria perdição. Ela é também libertadora, porque livra o homem da ilusão de ter todo o poder para dar conta de si.
Pensando nisso, Paulo disse certa vez: Mas, pela graça de Deus, sou o que sou, e sua graça para comigo não foi em vão; antes, trabalhei mais do que todos eles; contudo, não eu, mas a graça de Deus comigo” (1 Coríntios 15.10).

domingo, 1 de outubro de 2017

O legado da Reforma Protestante para hoje / The Legacy of the Protestant Reform for Today / El legado de la Reforma Protestante para hoy

A Reforma Protestante foi um movimento de renovação da igreja cristã que aconteceu no século XVI. A data do marco histórico é 31 de outubro de 1517, ocasião em que o frade agostiniano Martinho Lutero afixou suas 95 teses na porta da capela do castelo de Wittemberg, na Alemanha.
A igreja no Ocidente já vinha enfrentando problemas internos desde o século XIII, com cismas políticos, corrupção do clero e a implantação da Inquisição para conter os dissidentes. Entretanto, as causas da Reforma vão além das crises internas, abrangendo as esferas política e econômica. A Europa experimentava o surgimento dos Estados Nacionais e o fortalecimento do poder monárquico, bem como um novo regime econômico ganha força, que lançavam as bases do capitalismo.
O termo protestante surgiu com um sentido mais pejorativo, para designar a atitude dos governantes que apoiavam o movimento de Lutero. Eles lançaram um protesto de maneira formal a respeito de um edital de Roma, em 1529, que proibia o ensino das ideias reformistas luteranas nas localidades do Sacro Império Romano-Germânico. O protestantismo foi largamente difundido na Alemanha, mas também na Suécia, Dinamarca, Noruega e Islândia.
Podemos falar de uma diversidade de movimentos que envolveram a Reforma Protestante. Além do luteranismo, houve outro reformador que influenciou o protestantismo na Suiça e no sul da Alemanha: Ulrico Zwinglio. Seu movimento é conhecido como “Segunda Reforma”. Houve também o que chamamos de “Reforma Radical”, ou “Terceira Reforma”, marcada pela atuação dos grupos anabatistas. Houve também a atuação de João Calvino, que, a partir de Genebra, influenciou o protestantismo com uma teologia mais consistente. Houve ainda a Reforma na Inglaterra, que desencadeou novos movimentos, como o anglicanismo e os grupos separatistas, resultando em algumas denominações históricas como conhecemos hoje: o presbiterianismo, o metodismo, o congregacionalismo e as igrejas batistas.
Os problemas que motivaram a Reforma Protestante são diferentes dos que orientam o protestantismo de hoje. As preocupações que envolviam as pessoas no século XVI estavam voltadas para critérios de certeza. Elas estavam preocupadas com a busca da verdade, do absoluto e da eternidade. As discussões giravam em torno de temas como provas da existência de Deus, relação entre fé e razão e a existência do céu e do inferno. De fato, os protestantes não queriam inovar, mas restaurar valores e conhecimentos do cristianismo primitivo.
O ponto de partida foi a rejeição à prática da venda de indulgências, com a consequente defesa da justificação pela fé. Nesse esforço de reformar a igreja, eles enfatizavam a soberania da graça, o valor da fé, a autoridade das Escrituras, o senhorio de Jesus Cristo e o propósito de se fazer tudo para o louvor e a glória de Deus. Daí os cinco princípios protestantes expressos em latim: Sola Fide, Sola Gratia, Sola Scriptura, Solus Christus e Soli Deo Gloria (que corresponde a somente pela fé, somente pela graça, somete através da Escritura, somente por Cristo e somente para a glória de Deus.
O que esses princípios têm a ver com a expressão de fé dos grupos herdeiros da Reforma Protestante hoje? É possível orientar a vida pelos mesmos princípios hoje? Embora tenham acontecido grandes transformações sociais, políticas, econômicas e até tecnológicas, a preocupação com aspectos ligados à vida de fé e aquilo que consiste na essência do próprio cristianismo continua sendo uma necessidade.
Nossos compromissos com os valores cristãos, nossa experiência de conhecimento e de relacionamento, bem como nossos vínculos com a comunidade da fé continuam clamando por uma reforma ou atualização constante. Refletir sobre o que significa ser cristão hoje ou sobre como viver a fé cristã num contexto não cristã é uma demanda de nossos dias. O futuro do cristianismo passa por essa reflexão necessária.

sexta-feira, 7 de abril de 2017

Por que ainda sou evangélico? / Why am I still an evangelical? / ¿Por qué sigo siendo evangélico?

Sou cristão, ligado à vertente protestante, filiado a uma igreja batista. Como tal, fui instruído com base em uma teologia reformada em um seminário confessional mantido pela denominação batista mais tradicional. Isso me identifica como uma pessoa de confissão evangélica. Porém, essa afirmação não é suficiente para descrever a minha condição de religiosidade.
O que é ser evangélico? Essencialmente, deveria corresponder a uma pessoa que orienta sua vida, suas práticas, seu discurso, suas relações e suas esperanças pelo evangelho. A palavra “evangelho” vem do termo grego que corresponde a “boa notícia”, aquela que é alvissareira, que aponta um olhar para o futuro. O evangélico deveria ser, então, alguém que anuncia uma notícia boa para um mundo cansado de notícias desalentadoras, que declara que há saída para um mundo perdido.
Mais recentemente, o termo “evangélico” passou a designar um tipo de religioso, que faz parte de um segmento do cristianismo originário do movimento protestante. Sendo assim, faz referência a um contexto que comporta uma diversidade de formas e expressões. Quando se fala de evangélico, deve se ter em mente a pluralidade que isso comporta. Entretanto, nota-se o crescimento de uma tendência de se rotular de evangélico todo cristão adepto de igrejas que são marcadas por uma teologia simpática ao individualismo e ao consumismo, com uma moral conservadora e uma atitude fundamentalista.
Enquanto segmento religioso, os evangélicos não são todos iguais. Há evangélicos que são de esquerda e de direita, que lutam por direitos sociais e que defendem interesses do capital, que se importam com a causa do oprimido e que apoiam a bandeira da propriedade privada, que têm uma posição mais aberta para as questões de gênero e que são radicais e tradicionais nesse assunto, que buscam uma espiritualidade mais humanizadora e que professam a fé com base em uma teologia fundamentalista, que desenvolvem uma análise mais crítica das Escrituras e que afirmam a inerrância bíblica.
Além disso, as igrejas evangélicas se diversificam quanto as formas de organização, liderança e de culto. Daí a infinidade de denominações cristãs. E essa diversidade não é de forma alguma prejudicial. Cada igreja procura se estruturar para dar conta de suas necessidades e conflitos. Mesmo dentro de uma determinada denominação, há uma variação de condutas. Isso se dá pelo fato de que as denominações não são formas sagradas, divinas, reveladas, mas resultados de relações políticas em que estão em jogo interesses e exercício de poder.
Em tempo de maus exemplos e escândalos envolvendo bancada evangélica e lideranças evangélicas, é muito comum encontrar representações esquivando-se do uso desse termo. Ao longo dessa minha jornada evangélica, tenho visto pessoas que condenam essas atitudes, mas conservam um desejo pelo poder. Já vi pessoas que criticavam as estruturas denominacionais até terem uma oportunidade de exercer um cargo e já vi pessoas que ocupavam cargos, mas que passaram a criticar essas mesmas estruturas após serem destituídas ou demitidas. Enfim, essa atitude condenatória, embora tenha uma causa justificável, está mais para um certo ressentimento do que para uma análise crítica, que se faz necessária.
Continuo afirmando minha condição de evangélico. Não deixei de ser evangélico porque desejo ser anunciador de boas notícias, com a palavra e com a vida, para um mundo que está desorientado. E, como tal, reafirmo meus vínculos com o segmento protestante, com uma teologia reformada e com a igreja batista, que são expressões que remetem a essa condição. E o faço não porque julgue tais expressões como melhores ou mais perfeitas, mas que estão ligadas à minha história de vida.
Sou protestante porque rejeito as formas simbólicas com que a religiosidade ocidental se configurou. O meu protesto se direciona para a estrutura hierárquica da autoridade eclesiástica, para a centralização do poder da igreja, para a afirmação de uma teologia dogmática que não comporta o diálogo, para as formas engessadas de expressões litúrgicas.
Sou adepto da teologia reformada porque entendo que há uma depravação humana que tem uma causa originária, para a qual as Escrituras apontam a graça revelada na pessoa de Jesus Cristo como única esperança de salvação. É por meio da graça que posso compreender Deus como sendo uma Trindade, que está comprometido com uma missão e que reivindica para si toda a criação para tomar parte do seu Reino. Por ser uma teologia reformada, ela se faz por meio do diálogo e aberta a estar sempre se reformando. Fora disso, a vida é sem graça.
Pertenço a uma igreja batista porque é a única denominação cristã que tem em seus princípios a defesa da liberdade de expressão e da tolerância religiosa. Pelo menos em seus princípios. A realização prática é outra história. Foi na igreja batista que aprendi com meus antigos pastores o respeito à diversidade religiosa e de culto, a separação completa entre igreja e Estado, a prática da democracia e a defesa do direito de livre expressão.
Sei que essa forma de ser parece estar na contramão do que a maioria tem colocado em prática. Entretanto, procuro construir uma espiritualidade à luz dessa compreensão, que esteja voltada para o humano a partir dos mais vulneráveis, que respeite as diferenças e que valorize a liberdade. É a partir do lugar em que sou construído como evangélico que posso dialogar com outras expressões e contribuir de algum modo para o debate sobre as necessidades humanas. Nesse sentido, sou evangélico crítico e comprometido com as demandas do evangelho de Jesus.

sábado, 29 de outubro de 2016

Legado protestante: celebração dos 499 anos da Reforma / Protestant legacy / Herencia protestante

O conceito de igreja protestante se refere às denominações que se originaram da Reforma Protestante, seja diretamente ou como consequência do movimento iniciado por Martinho Lutero. O protestantismo, enquanto movimento de transformação da igreja no Ocidente, se deu em um contexto de mudança radical pelo qual passava a cultura ocidental com o fim da Idade Média e o início da Modernidade.
A Reforma Protestante aconteceu em 1517, na Alemanha, como uma reação a algumas doutrinas e práticas do cristianismo ocidental, representado pelo catolicismo romano. Em 31 de outubro daquele ano, Martinho Lutero fixou 95 teses na porta da capela do castelo de Wittenberg para convocar pessoas interessadas em discutir temas relativos à salvação, especialmente com respeito a práticas de indulgência e penitência.
Lutero teve a intenção clara de empreender a reforma da igreja, suas ações e seu discurso indicavam isso. Afinal a instituição de seu tempo não era um bom exemplo para o próprio cristianismo, dominada por um apego extremo ao dinheiro e ao poder. Isso quer dizer que a igreja de sua época era tomada por toda sorte de corrupção e problemas morais.
A essência do pensamento protestante encontra-se na definição que engloba cinco pontos fundamentais: “sola fide, sola scriptura, solus Christus, sola gratia, soli deo gloria”, expressões em latim para afirmar aquilo que caracterizava o movimento. O propósito era afirmar a natureza da igreja como realizadora da missão de Deus no mundo.
Embora as muitas denominações protestantes que existem hoje possam divergir em aspectos doutrinais, litúrgicos e até morais, as igrejas desse segmento cristão carregam consigo um legado comum, que consiste em três pontos fundamentais. São eles:
Sacerdócio universal de todos os crentes – a ênfase do protestantismo não está no clero, mas no chamado missionário que cada crente possui. Ele propõe uma valorização da vida em comunhão.
A autoridade das Escrituras – a fonte de orientação da fé protestante é a interpretação das Escrituras, que se dá de forma livre e por mediação do Espírito Santo. Ele propõe um retorno à Bíblia.
Justificação somente pela graça – a salvação não depende de ações humanas, mas tão somente da graça revelada em Jesus Cristo, que apresenta a todos perante Deus justificados de todo pecado. Ele propõe uma nova perspectiva salvífica.
Entretanto, o que há de mais comum na fé protestante, e que remete a um diálogo com as diferentes expressões cristãs, é o reconhecimento de que a misericórdia divina alcançou a humanidade e é o que desperta a mensagem que a igreja tem a comunicar para os dias atuais.
Ser protestante é ser um cristão que não se deixa limitar por formas predefinidas estabelecidas por entidades religiosas. Trata-se de uma espiritualidade que se dá para além do templo, para além do domingo e para além do clero. Que se realiza através de uma pastoral voltada para os mais vulneráveis e uma atuação missional diante das necessidades do mundo.
Há um lema da Reforma que tem sido muito lembrado, que é: “uma igreja reformada sempre se reformando”. Esse lema nos remete à situação de tensão em que se dá a atuação cristã no mundo. Ao mesmo tempo em que não dá para engessar formas e modelos, não dá para abrir mão do essencial da mensagem do evangelho. Ao mesmo tempo em que é preciso repensar as circunstâncias históricas e culturais de expressão da fé, é preciso também reconstruir um discurso que dialogue com a contemporaneidade.
Enfim, ao chegar ao seu quinto centenário, a Reforma Protestante tem muito a comemorar, como também tem muito a se questionar. Penso que não será possível fazer isso apenas no âmbito das denominações protestantes, embora não possa acontecer sem o engajamento delas. Penso que isso demanda um diálogo franco e aberto, na esfera pública, a fim de que se possa encontrar caminhos para que a fé cristã se torne relevante num mundo secularizado.

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