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quarta-feira, 6 de maio de 2026

Espiritualidade dos discípulos de Jesus: Disciplina e exercícios espirituais [Novo E-book] / The Spirituality of Jesus' Disciples: Discipline and Spiritual Exercises / La espiritualidad de los discípulos de Jesús: disciplina y ejercicios espirituales

A igreja cristã da atualidade precisa deixar de lado a sua institucionalidade para se dedicar mais à espiritualidade. Jesus nunca teve em mente uma instituição hierárquica, fundada em um sistema de crenças, voltada para a manutenção de monumentos suntuosos. Ele chamou um grupo de pessoas rudes e humildes e as transformou em seus discípulos.

Quando se fala de espiritualidade, fala-se sobre exercícios e práticas de vida interior, de disciplina espiritual, de exame de si, de esvaziamento de si, de busca de uma experiência mais profunda de Deus. E foi isso que Jesus procurou transmitir ao seu corpo de discípulos.

Quem quiser ter uma experiência significativa de Deus é convidado a fazer uso dos exercícios e das práticas espirituais que vêm de alguma tradição religiosa. Nem mesmo os discípulos de Jesus escaparam a isso. Eles precisaram refletir sobre alguns exercícios e práticas que Jesus mesmo observa em sua vida.

Os discípulos de Jesus não foram obrigados a fazer mais do que Jesus fez ou pediu. Eles apenas precisavam fazer o percurso que o Mestre lhes apontou. E o fizeram com muita seriedade e profundidade, levando esses exercícios e práticas para as vivências das primeiras comunidades de fé.

Os exercícios e as práticas de espiritualidade não são novos e nem se restringem ao ambiente cristão. Outro aspecto importante é que a espiritualidade é um exercício subjetivo e de liberdade que exige de cada pessoa renúncias e dedicação.

Jesus fez uso dos exercícios e das práticas que já eram conhecidas em sua época, especialmente no judaísmo de seu tempo, e as ressignificou a partir da sua mensagem, as colocou em prática em sua própria vida e as ensinou aos seus discípulos. Ele se tornou o maior exemplo de alguém que fez da disciplina espiritual seu modo de vida.

Os primeiros discípulos de Jesus levaram esses exercícios e práticas para a vida da igreja primitiva, influenciando os novos seguidores, multiplicando, atualizando e dando novo direcionamento ao que o Mestre de espiritualidade ensinou.

Em meu novo livro, minha intenção é explorar quais foram os principais exercícios e práticas de espiritualidade que Jesus orientou seus discípulos realizar.

Como seguidores de Jesus em nosso tempo, é importante revisitar as práticas dos primeiros discípulos não só para conhecê-las, mas também para repensar as nossas.

Por que oramos, jejuamos, lemos a Bíblia, comungamos, confessamos, fazemos penitência ou nos consagramos do jeito que fazemos? Como o cristianismo primitivo desenvolveu suas práticas mais comuns? Quais eram as práticas mais relevantes para Jesus? Essas perguntas precisam de respostas que nos apontem diretrizes para a nossa espiritualidade hoje.

(Extraído da apresentação do livro Espiritualidade dos discípulos de Jesus: Disciplina e exercícios espirituais).

Para saber mais, leia o livro Espiritualidade dos discípulos de Jesus: Disciplina e exercícios espirituais, disponível no formato E-book Kindle da Amazon.

Acesse:

https://www.amazon.com.br/dp/B0GZPC4Y9D

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Ascese, espiritualidade e discipulado / Asceticism, spirituality, and discipleship / Ascetismo, espiritualidad y discipulado

 

“Seja a atitude de vocês a mesma de Cristo Jesus” (Filipenses 2.5). 

O grupo de discípulos de Jesus foi uma verdadeira escola de espiritualidade. Eles aprenderam com o maior mestre de espiritualidade que a humanidade conheceu sobre práticas que visavam o conhecimento de si e o cuidado de si e do outro de uma forma peculiar. Eles compreenderam sobre como é viver guiados pelo Espírito e a respeito das práticas de espiritualidade no seguimento de Jesus.

Ao contrário das influências do judaísmo, das religiões de mistério e das práticas dos movimentos filosóficos de seu tempo, Jesus desenvolveu uma espiritualidade mais equilibrada em relação aos rigores de alguns grupos. Jesus não se orientou pelos costumes do ascetismo de seu tempo. Ao contrário, ele inovou com a preocupação com uma vida de interioridade e de desprendimento para o cuidado com o próximo.

Havia muitos grupos religiosos que desenvolveram práticas monásticas e eremitas, com ênfase rigorosa em orações, abstenções e períodos de isolamento. Entre os movimentos ascéticos do judaísmo no tempo de Jesus, havia o grupo dos essênios. Eles eram uma seita formada por judeus que existiu desde o século II AEC. Viviam em comunidade e buscavam a pureza, a partilha dos bens e o silêncio. Eram dedicados ao estudo das Escrituras, desenvolviam rituais de purificação e praticavam a imersão como rito de iniciação. Essa seita ficou mais conhecida depois que foram descobertos os Manuscritos do Mar Morto, em uma gruta na localidade de Qumran.

Havia também a prática dos nazireus, que eram os judeus que faziam votos voluntários de consagração de vida a Deus, através de práticas de abstenções e de não cortar o cabelo por um período. Eles procuravam seguir rigorosamente as orientações do livro de Números 6.1-21. Não se tratava de uma seita ou grupo, mas de práticas que podiam ser desenvolvidas por qualquer judeu, homem ou mulher, que quisesse ter uma experiência de Deus ou mesmo de demonstrar gratidão.

Havia anda um movimento conhecido como os terapeutas, formado por judeus da diáspora, especialmente na região de Alexandria, no Egito. Entre as práticas ascéticas, estavam: o celibato, a renúncia aos bens materiais, a prática do jejum, a oração e o isolamento social, para se dedicaram a uma vida santa e se preservarem para o fim dos tempos. Esse grupo foi descrito pelo filósofo judeu Filo de Alexandria no século I da Era Comum.

No Novo Testamento, encontramos relatos sobre as práticas religiosas dos fariseus. Eles formavam um grupo político influente dos judeus, conhecidos por sua devoção rigorosa à Torah, à interpretação literalista das Escrituras e à tradição oral. A escola rabínica foi responsável por moldar a prática religiosa a partir das sinagogas e da interpretação das Escrituras.

Além dos movimentos de espiritualidade judaicos, a região onde Jesus viveu e formou o seu grupo de discípulos era influenciada pela cultura greco-romana e pelas tradições dos povos vizinhos, como os egípcios, os edomitas, os sírios, os fenícios e os samaritanos. A influência das religiões de mistério e das escolas filosóficas como a dos estoicos também se faziam presentes. Cada cultura tinha sua identidade própria e desenvolvia suas crenças e práticas religiosas. Dessa forma, a espiritualidade naquela região era pluralista e marcada pela diversidade.

A espiritualidade que Jesus ensinou aos seus discípulos tinha três características predominantes: a integração à vida social, o exercício do domínio próprio e a ênfase na prática do amor fraternal. Jesus confrontou a prática ritual e o formalismo, propondo uma nova relação com o sagrado, baseada na proposta de vida na perspectiva do Reino de Deus.

A espiritualidade dos discípulos de Jesus se consolidou quando do início da atuação como igreja. Toda ascese dos primeiros cristãos era voltada para a vida em comum, para o cuidado uns dos outros, para o compartilhamento e para o cumprimento da missão. Podemos chamá-la de espiritualidade do caminho pelo fato de que se realiza à medida que se a partir da própria caminhada como cristãos no mundo.

É a espiritualidade como discipulado, como aprendizado constante, como busca permanente para se tornar mais identificado com o exemplo deixado por Jesus de Nazaré. O objetivo era ser como o Mestre. Isso não dependia de estruturas religiosas, dogmas ou mesmo hierarquias. Havia a compreensão de que a vida era guiada pelo Espírito Santo e que o objetivo principal de uma vida cheia da graça era se tornar um instrumento vivo para o bem comum.

As regras de vida monástica e aquilo que conhecemos como ascese cristã só vieram posteriormente e se firmaram no século II em diante. O início foi marcado pela espontaneidade, pelo desejo de consagrar a vida inteira aos propósitos divinos, ainda que fosse preciso colocar em risco a própria vida. Ela era, por assim dizer, uma espiritualidade plural, livre de qualquer tipo de normatizações e de rituais rigorosos.

Essa espiritualidade do caminho e do caminhar faz falta nos dias atuais. O nosso tempo é marcado por uma diversidade de experiências e de práticas de espiritualidade que carecem de uma reflexão sobre o significado daquilo que fazemos. Os discípulos de Jesus praticavam orações, jejuns, meditação, períodos de reclusão e de solitude, autocontrole e testemunho de vida, tudo voltado para a vida em comunhão e para o cumprimento da missão.

Rever o modo como os discípulos de Jesus desenvolveram sua espiritualidade contribui para que possamos repensar sobre as razões pelas quais oramos, consagramos a vida ou mesmo prestamos serviços religiosos. Em última instância, permite que possamos entender melhor o que faz da gente cristãos e cristãs autênticos num mundo tão diverso.

(Assista à série de reflexões Espiritualidade dos discípulos de Jesus na playlist do Youtube: https://www.youtube.com/playlist?list=PL4NVfVIy5Bi5UCfJp5ohxoBGKl8tgcPA_).

A série foi publicada em livro e está disponível no formato E-book Kindle ba Amazon. Adquira e leia: https://www.amazon.com.br/dp/B0GZPC4Y9D


terça-feira, 23 de dezembro de 2025

Natal, o amor encarnado / Christmas, love incarnate / Navidad, el amor encarnado

O Natal é a mais sublime história de amor já contada e vivida pela humanidade. O nascimento de Jesus traz consigo a mensagem de que o amor de Deus se tornou visível e real entre nós. Esse amor que moveu o coração de Maria e seus parentes, que levou José a acolher a sua prometida esposa grávida de outro, que mobilizou criaturas celestes e pessoas humildes a se juntarem em reconhecimento desse grandioso gesto de amor.

O evangelho de João não possui uma narrativa sobre o nascimento de Jesus, como o fazem Mateus e Lucas. Toda a mensagem sobre o início da vida de Jesus de Nazaré se concentra na encarnação de Deus em Cristo. Ela consiste o prólogo, que é a parte inicial do evangelho, dos versículos de 1 a 14. Nele, João se refere ao conceito de logos, muito presente na filosofia ocidental e que marcou muitos pensadores judeus que procuravam uma aproximação com o Ocidente.

Os primeiros filósofos gregos se debruçaram sobre esse termo, referindo-se a ele como uma ideia inicial, formadora de toda a nossa compreensão da realidade. Um deles foi Heráclito, que o entendia como um princípio universal, racional e divino que governa e sustenta o cosmos em unidade. Platão ampliou esse significado, relacionando-o à razão e ao conhecimento, como o fundamento das ideias verdadeiras.

A palavra grega corresponde ao substantivo do verbo legein, que significa “dizer”. O logos é aquilo que é dito, como um discurso, uma fala. O logos é mais do que Palavra, Verbo ou equivalente. O logos é aquilo que não sabemos o que é, mas temos apenas uma ideia. É a base do discurso, como aquilo que se diz de algo, como um saber que se desvela. Por isso que a tradução do vocábulo grego, em filosofia, é “ideia”. Quem a traduziu para “verbum” foi a edição em latim conhecida como Vulgata.

No prólogo de João, o logos remete à sabedoria divina, como um princípio orientador e organizador do universo que está em permanente mudança. Essa sabedoria foi revelada como Palavra de Deus e entregue aos homens. Muito provavelmente João se apropriou da noção ontológica do logos que Filo de Alexandria apresentou naquela mesma época. Filo entendeu o logos como um ser divino intermediário, que atua entre a criação e a transcendência divina, como um mediador da revelação divina. Por isso, João declara: “No princípio, era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus” (João 1.1 ARC).

O logos de João remete à sabedoria divina, como um princípio criador, orientador e organizador do universo que está em permanente mudança. Essa sabedoria foi revelada como Palavra de Deus e entregue aos homens. João afirma: “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do Unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade” (João 1.14 ARC).

João deixa claro que aquilo que era apenas uma ideia se tornou humano, o divino habitou entre nós, o sagrado se tornou carne, Deus virou gente como a gente. A palavra grega usada é sarcs, que quer dizer corpo formado pela complexa constituição de carne, sangue, ossos, órgãos, tecidos e sistemas vitais, como a natureza sensível do ser humano. O divino tornou-se corpo vivo e sensível.

Dessa forma, os gestos de amor divino puderam ser vistos de forma concreta nos gestos de Jesus. O amor se tornou encarnado. João diz que essa ideia encarnada de perfeito e pleno amor “habitou” entre nós. Ele usa a palavra grega skenoo para dizer que Jesus “fixou sua tenda” entre nós. E o fez cheio de graça e de verdade.

Mais adiante, João amplia o significado do amor encarnado ao dizer que ele é extensivo a toda e qualquer pessoa. “Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (João 3.16 NAA)

O amor do Pai pela criação e o amor do Filho pelo seu Pai se uniram desde o início para trazer salvação para a humanidade perdida. Jesus é a expressão do amor divino pela humanidade, um amor apaixonado, capaz de renunciar a tudo para colocar a vida inteira a serviço de quem se ama.

Esse amor encarnado nos convoca a tomarmos parte dele, a encarnarmos esse amor na nossa própria vida. “Como o Pai me amou, assim eu os amei; permaneçam no meu amor” (João 15.9). O amor encarnado se realiza quando somos capazes de reconhecer no outro o rosto de Deus, quando somos impelidos a transformar em ações o cuidado para que o outro seja tratado como um ser humano digno e amado por Deus.

No amor encarnado, o sagrado e o humano se unem nas práticas cotidianas. Somos interpelados a cumprirmos a missão de Deus no mundo (a Missio Dei) a fim de torná-lo mais justo e solidário, em que todos e todas tenham acesso a uma vida mais digna.

O Natal nos remete à encarnação do amor na nossa própria vida, e esse amor encarnado corresponde à nossa própria humanização. Um Feliz Natal cheio de amor para toda humanidade.

sábado, 15 de novembro de 2025

O maior desafio do amor: Campanha 40 Dias de amor / The greatest challenge of love: 40 Days of Love / El mayor desafío del amor: 40 días de amor

“[...] Amem os seus inimigos, façam o bem aos que os odeiam”
(Lucas 6.27).
O maior desafio do amor é amar os inimigos, exatamente pelo fato de que o amor é a única força capaz de superar o ódio e pôr fim à violência. Mateus registra com muita clareza o que Jesus disse: Vocês ouviram o que foi dito: ‘Ame o seu próximo e odeie o seu inimigo’. Mas eu lhes digo: Amem os seus inimigos e orem por aqueles que os perseguem” (Mateus 5.43-44).
Martin Luther King, em um sermão que pregou sobre o tema “Amando seu inimigo”, apontou algumas formas de colocar em prática esse princípio. O primeiro passo é fazer uma análise de si mesmo. Precisamos admitir que alguém não goste do jeito que somos, ou que carregue um ressentimento sobre algo que fizemos no passado, ou que haja algum traço de nossa personalidade que desperte o ódio da pessoa por nós.
O segundo passo é fazer o esforço de encontrar no outro, mesmo que nos odeie ou que nos faça mal, algo de bom que exista nele. Ninguém é bom ou mal o tempo todo. Platão chegou a representar a alma humana como um cocheiro que guia uma carruagem com dois cavalos teimosos, cada um querendo seguir sua própria direção. Todos nós temos algo que está em desajuste, que precisa de ajuda para encontrar a harmonia, a prudência e  o bom senso necessários para orientar a tomada de decisões.
Martin Luther King Jr. lembra que Jesus disse para amar os inimigos, não para gostarmos dele. Por isso, propos uma nova maneira de lidar com aqueles que nos odeiam que é a resistência não violenta às forças da maldade. Isso significa se negar a odiar sob qualquer circunstância. Temos muito a ganhar simplesmente por não alimentar o ódio em nossos corações.
Pense com você mesmo: quais são os inimigos a quem devemos amar? Os que nos ofendem, os que são violentos, os que nos ameaçam, os que nos exploram, os que nos excluem. Se você consegue identificar quem é o seu inimigo, já temos um fator a menos para nos preocupar. O problema é que, na verdade, o nosso pior inimigo é aquele que se disfarça de amigo para nos prejudicar. Que Deus nos livre de maldade de gente boa.
O que fazer com o inimigo? Jesus disse para fazer o bem a ele, para abençoá-lo e para orar por ele. Jesus disse: “[...] Amem os seus inimigos, façam o bem aos que os odeiam,  abençoem os que os amaldiçoam, orem por aqueles que os maltratam” (Lucas 6.27-28).
E por que devemos tratar os nossos inimigos assim? Mateus registra que essa é a forma de ser dos filhos de Deus. Em hipótese alguma, o ódio cabe na vida de quem foi transformado por Jesus (Mateus 5.45). Já Lucas registra que há uma recompensa para quem escolhe amar, em vez de odiar (Lucas 6.35).

(Participe da Campanha 40 Dias de Amor: assista à série de mensagens “Vivendo em amor no mundo” no Youtube; faça a leitura diária e pratique os projetos de vida semanais que estão na descrição de cada vídeo; reúna familiares e amigos para lerem juntos e debaterem sobre esse texto).


quinta-feira, 13 de novembro de 2025

Ele nos amou: Campanha 40 Dias de Amor / God loved us: 40 Days of Love / Dios nos amó: 40 días de amor

“[...] Farei que [...] reconheçam que eu amei você” (Apocalipse 3.9).
No livro do Apocalipse, encontramos quase que despercebidamente uma frase que o Espírito Santo diz a uma das igrejas, a de Filadélfia, sobre o amor. Deus quer fazer com que todos reconheçam o amor que Ele tem por nós. Você já parou para pensar sobre quais seriam as razões para Deus amar gente como a gente?
Por que Deus escolheu um povo tão instável como o israelita? Porque Ele amou. “O Senhor não se afeiçoou a vocês nem os escolheu por serem mais numerosos do que os outros povos, pois vocês eram o menor de todos os povos. Mas foi porque o Senhor os amou [...]” (Deuteronômio 7.7-8).
Por que Deus se importa tanto com pessoas que não fazem Sua vontade e que vivem distantes de Seu propósito? Porque Ele ama. “Visto que você é precioso e honrado à minha vista, e porque eu o amo [...]” (Isaías 43.4).
Amar é o modo de Ser de Deus. É o que define Deus. Tudo o que Ele é e tudo o que Ele faz é proveniente do Seu amor. Essa é a única razão pela qual Deus se importa com gente como a gente.
O que pode fazer com que a humanidade reconheça que Deus ama cada pessoa? Há três ideias que podem prover esse reconhecimento.
A primeira é que a Criação é um ato do amor divino. Somente um Ser amoroso seria capaz de criar um mundo com as condições ideais para a vida de sua maior criação, a humanidade. Quem ama cuida. A natureza criada é a maior demonstração do cuidado de Deus com a vida. Por isso que somos impelidos pelo amor: “Nós amamos porque ele nos amou primeiro” (1 João 4.19).
A segunda é que a redenção de nossa própria perdição é um ato do amor divino. Somente um Criador amoroso seria capaz de se importar com o sofrimento de quem escolheu se afastar de sua vontade. Quem ama se importa com o sofrimento do outro. A obra da redenção em Jesus Cristo é uma iniciativa unicamente do amor de Deus. O evangelho nos diz: “Porque Deus tanto amou o mundo que deu o seu Filho Unigênito, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna” (João 3.16).
E a terceira é que a liberdade de escolher é um ato do amor divino. Somente um Pai amoroso seria capaz de permitir que seus filhos tenham liberdade de escolha. Quem ama permite que o outro seja livre. Somos livres para escolher, mas somos responsáveis pelas consequências. E ainda assim Deus cuida de nós com Seu amor infinito. O amor de Deus nos torna livres de tudo aquilo que nos oprime e nos desumaniza: “Portanto, se o Filho os libertar, vocês de fato serão livres” (João 8.36).
Nossa vida é um grande testemunho que Deus ama a toda a humanidade. À medida que permitimos que seu amor se concretize e tome forma em nossa vida, tornamo-nos exemplos vivos desse amor.
(Participe da Campanha 40 Dias de Amor:assista à série de mensagens "Vivendo em amor no mundo" no Youtube; faça a leitura diária e pratique os projetos de vida semanais que estão na descrição de cada vídeo; reuna familiares e amigos para lerem juntos e debaterem sobre esse texto).

domingo, 2 de novembro de 2025

O amor como projeto de vida: Campanha 40 Dias de Amor / Love as a life Project: 40 Days of Love / El amor como proyecto de vida: 40 días de amor

“Sigam o caminho do amor [...]” (1 Coríntios 14.1).

Nada é mais importante na vida do que os relacionamentos e ninguém entendeu melhor isso que Jesus. Você precisa descobrir como desenvolver atitudes que restaurem a saúde e a riqueza nos seus relacionamentos em família, com seu cônjuge, com seus amigos e em todas as relações de sua vida.
O que você faria para melhorar os relacionamentos mais importantes de sua vida?
O que você estaria disposto a dar de si mesmo para mudar de forma radical aquilo que é mais importante em suas relações pessoais?
Descubra de que maneira você pode construir atitudes que o ajudarão a cumprir os propósitos de Deus em seus relacionamentos.
O objetivo principal do ministério de Jesus aqui na Terra foi nos mostrar como é possível amar as pessoas neste mundo.
Como é possível amar mais a Deus?
Como é possível amar mais nossa família?
Como é possível amar mais nosso cônjuge?
Como é possível amar mais nosso vizinho?
Como é possível amar mais a nós mesmos?
Vamos poder descobrir juntos um amor que é paciente, que é amável, que perdoa, que não é egoísta e que fala sempre a verdade. O amor é a grande utopia cristã. Por isso, deve ser o alvo e o desafio de todo cristão.
Qual o alvo principal de sua vida? Sua resposta a essa pergunta vai revelar o valor que direciona a sua vida. Todo mundo é guiado por um valor. É o que inconscientemente serve de base para nossas escolhas e influenciam nossa tomada de decisões. Jesus ensinou que o amor deve ser o nosso valor dominante. De fato, Jesus disse certa vez que, de todos os mandamentos na Bíblia, apenas dois são mais importantes: amar a Deus com todo seu coração e amar o próximo como a si mesmo.
O amor, para o cristão, não é uma escolha ou um sentimento. O amor é um mandamento.
(Reflexão para pequenos grupos, durante a Campanha de 40 Dias de Amor)
(Participe da Campanha 40 Dias de Amor:assista à série de mensagens "Vivendo em amor no mundo" no Youtube; faça a leitura diária e pratique os projetos de vida semanais que estão na descrição de cada vídeo; reuna familiares e amigos para lerem juntos e debaterem sobre esse texto).

sexta-feira, 18 de abril de 2025

O drama da cruz / El drama de la cruz / The drama of the cross

 

A crucificação de Jesus foi cercada de vários aspectos que poderiam servir para abreviar a sua morte. Ele já tinha sido açoitado e torturado pelos soldados, estava faminto e tinha sede, recusou beber a mistura de vinho com fel que lhe serviria de entorpecente, os cravos em suas mãos e pés tinham por objetivo provocar uma hemorragia, recebeu vinagre para beber e ainda tinha sido ferido em seu ventre. A crucificação foi por volta das 9 horas da manhã no monte chamado Gólgota, que quer dizer “caveira”. Hoje o chamamos de monte do Calvário. Jesus expirou por volta das três horas da tarde. Antes de expirar, Jesus clamou em aramaico como um sinal de seu grande sofrimento. Ele não estava afirmando que Deus o havia abandonado. A expressão enkatelipes deve ser mais bem traduzida como “deixar em apuros”. Mateus registra que a morte de Jesus foi acompanhada de alguns fenômenos sobrenaturais: começou com o período de trevas desde o meio dia até as três da tarde, a cortina que dividia o lugar santo do lugar santíssimo no templo se rasgou de alto a baixo, houve um terremoto, os sepulcros se abriram, alguns mortos ressuscitaram. Esses fatos levaram o centurião e os soldados que acompanhavam a crucificação a reconhecerem que Jesus era realmente o Filho de Deus.

Jesus veio ao mundo em cumprimento de uma promessa divina para a redenção dos homens. Muitos profetas anunciaram a sua vinda afirmando ser ele um rei. E o próprio Evangelho de Mateus usa a designação de rei oito vezes para referir-se a Jesus Cristo como tal. Ele foi reconhecido como rei pelos magos que vieram do oriente, na época do seu nascimento (conforme Mateus 2.2). Ele foi aclamado rei pela multidão, quando entrou em Jerusalém pela última vez (Mateus 21.5). Ele mesmo se apresentou como sendo rei (Mateus 25.24 e 40). E foi julgado por ser apontado como rei dos judeus, o que significaria uma alta traição para o governo romano que dominava aquela região (Mateus 27.11). A inscrição na cruz era uma informação a respeito do crime pelo qual Jesus estava sendo punido, por ter falado a verdade de que ele era o Messias. Embora aquela expressão proclamasse uma verdade, Jesus é muito mais que um rei. Ele é o Senhor de todos os povos e tem sobre si todo o poder.

Se notarmos bem o que aconteceu ali durante a crucificação, Jesus foi maltratado por três grupos diferentes de pessoas: os que iam passando (Mateus 27.39), os religiosos importantes (Mateus 27.41) e os salteadores que foram crucificados com ele (Mateus 27. 44). Poderíamos dizer que Jesus sofreu o escárnio devido à ignorância das pessoas (pelos passantes), por pura discriminação religiosa (pelos sacerdotes, escribas e anciãos) e por puro ressentimento (pelos salteadores crucificados). Aquele que foi desprezado entre os seus, era verdadeiramente o “Filho amado” do Pai que “veio para os que eram seus e os seus não o receberam, mas a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, a saber, aos que creem em seu nome” (João 1.11-12).

O clamor de Jesus na cruz foi uma expressão de extremo sofrimento físico, moral e espiritual. Ali, Jesus se fez pecado por nós, carregando sobre si os pecados de toda a humanidade, com o propósito de salvar a todo o que nele crê. Como ser humano, Jesus sentiu-se isolado e abandonado, durante aquelas quase seis horas de sofrimento, das quais três horas corresponderam a um período de trevas. Era necessário que Jesus chegasse ao auge do sofrimento para que, assim, ele pudesse ser perfeitamente Salvador e substituto de todos nós, pecadores. Só assim podemos afirmar que ele morreu em nosso lugar, pagando o preço pela nossa própria salvação.

A morte de Jesus foi o sinal mais evidente do amor de Deus por todos os homens. Jesus foi crucificado para o perdão de nossos pecados. Não haveria outro motivo pelo qual Deus viesse consentir com tamanho sofrimento de seu Filho, quando de sua vida entre os homens. A morte na cruz significou um grande sofrimento para Jesus. Ele foi obediente em tudo, deixou-nos o seu exemplo de resignação e amor, em tudo foi submisso ao Pai para cumprir todo o propósito de Deus. Tudo isso para que pudesse garantir liberdade de acesso a Deus. O pecado, a maior barreira que separa o homem e Deus, foi vencido ali na cruz, concedendo pleno perdão a todo aquele que o busca pela fé.

Mateus 27.55-56 chama a atenção do leitor para as mulheres que serviam a Jesus e acompanhavam todo aquele drama até o momento final da sepultura (v. 61). Nem todos os seguidores de Jesus haviam fugido, as mulheres haviam permanecido fiéis até o fim. Mateus fala também de um discípulo chamado José de Arimateia, que era homem rico, membro do Sinédrio (Marcos 15.43) e amigo de outro judeu ilustre chamado Nicodemos que o ajudou (João 19.18.39), que providenciou o sepultamento de Jesus em um túmulo novo de sua propriedade. Uma tradição essência dá conta de que o crucificado pelos mesmos motivos alegados contra Jesus deveria ser sepultado no mesmo dia de sua morte [1]. Além disso, logo a tarde seria finda e o sábado teria início, quando ninguém poderia fazer qualquer trabalho, muito menos tocar em um morto, considerado um serviço imundo. Os fariseus demonstraram que, no fundo, acreditavam no poder miraculoso de Jesus ao solicitar a Pilatos uma guarda especial para o sepulcro e providenciar um selo para pedra que o fechava. A ideia do embuste era só uma desculpa.

(Extraído do meu livro Mateus, o evangelho do Reino, disponível em: https://a.co/d/id6yeMi ).



[1] Jean Dominic CROSSAN. Quem matou Jesus? As raízes do anti-semitismo na história evangélica da morte de Jesus. Rio de Janeiro: Imago, 1995. p. 195.

sexta-feira, 4 de outubro de 2024

A arte de perguntar / The art of asking / El arte de preguntar

Interrogou-o com muitas perguntas, mas Jesus não lhe deu resposta” (Lucas 23.9).

Quantas vezes você já se perguntou sobre qual é o sentido da vida, como será o futuro, quem é você ou mesmo qual é o seu valor como pessoa? Fazer perguntas é uma habilidade humana diante daquilo que não conhecemos. Jesus ouviu muitas dessas perguntas e procurou conduzir as pessoas a uma busca pelas respostas mais adequadas.

Por que perguntamos? Perguntamos quando somos confrontados diante daquilo que desconhecemos. As perguntas funcionam como chaves que abrem portas para o nosso entendimento. Só é capaz de fazer perguntas quem admite sua própria ignorância.

As perguntas estimulam o conhecimento em todos os campos de saber. A ciência só consegue avançar quando o próprio cientista reconhece que não tem conhecimento sobre um assunto. Quando as perguntas são feitas de forma adequada, elas podem gerar diversas possibilidades de respostas, podem despertar novas investigações e podem promover mudanças de entendimento que parecem consolidados há muito tempo.

O ato de perguntar ou de ser perguntado dá origem a novas descobertas , nos mobiliza a construir novos conceitos e aponta novas formas de compreensão da realidade. As perguntas têm o poder de despertar novos sentidos. Se nós não formos capazes de indagar a respeito dos problemas que enfrentamos, podemos nos tornar pessoas que se queixam de tudo sem buscar soluções.

A arte de perguntar é milenar. Os primeiros filósofos procuravam compreender os fenômenos naturais a partir da indagação sobre a causa dos próprios fenômenos. Sócrates desenvolveu um método próprio de fazer perguntas, chamado de maiêutica. Seu objetivo com isso era descobrir o que seus interlocutores tinham certeza a respeito do que sabiam. Através de um jogo de perguntas com base na ironia, Sócrates levava seus alunos e seus oponentes a novas descobertas.

Os tempos mudaram, o volume de informações aumentou e nossas demandas por conhecimento se tornaram mais urgentes. O conhecimento não está mais na capacidade de obter respostas, mas em fazer novas perguntas. Qualquer um de nós é capaz de olhar em volta e se perguntar a respeito do significado ou utilidade das coisas. As crianças descobrem isso desde cedo e começam a perguntar sobre o que é e o por quê das coisas.

Em tempos de novas tecnologias de informação e de inteligência artificial, quando alguém quer saber sobre algo, a recomendação mais fácil é: “dá um Google”. Mas a realidade é que não há ninguém que tenha uma inteligência tão extraordinária que seja capaz de resolver todos os problemas. Sempre haverá a necessidade de se fazer novas perguntas diante de novas possibilidades.

Nos evangelhos, encontramos Jesus ouvindo muitas perguntas de diversas pessoas a respeito de vários assuntos relacionados à vida. Ricos e pobres, autoridades e pessoas comuns, religiosos ou não, todos procuravam Jesus para perguntar sobre aquilo que angustia a todos nós: o sentido da vida, quem somos, para onde vamos. Jesus, porém, aproveitou essas oportunidades para desenvolver um diálogo com essas pessoas a respeito daquilo que mais as interpelavam.

Isso faz lembrar a ideia filosófica de que por traz de uma pergunta há sempre outras que não são ditas, mas que estão ali implícitas. Houve questões, entretanto, que não foram respondidas, como no caso de Herodes antes da crucificação. Houve outras que Jesus devolveu com um chamado à autorreflexão, como no caso da mulher pega em adultério. Houve também perguntas a respeito da sua pessoa, como a que foi feita pelos discípulos de João Batista, que só a observação dos fatos poderia oferecer a melhor resposta. E ainda houve as que Jesus aproveitou a ocasião para passar grandes ensinamentos, como no caso da cura do cego de nascença.

Se a fé nasce da busca de entendimento, como afirmou Anselmo de Cantuária, ela se faz através de muitas perguntas. Para ele, a busca de Deus é permeada de indagações: onde podemos encontrá-lo? Por que não o vemos? De que forma podemos buscá-lo? São algumas das muitas perguntas que também podemos fazer hoje. A fé cristã não é passiva, mas uma inquietante atitude diante do imponderável.

sexta-feira, 23 de agosto de 2024

Igreja humana, demasiadamente humana / Human church, all too human / Iglesia humana, demasiado humana

“[...] mas Cristo é tudo e está em todos” (Colossenses 3.11).

A igreja é uma comunidade de seres humanos que têm em comum a disposição de serem seguidores dos ensinos de Jesus de Nazaré, que se congregam em torno do seu nome e assumem o compromisso de levarem adiante a causa do Reino de Deus no poder do Espírito Santo.

É imprescindível que a Igreja que se afirma como uma comunidade de seguidores de Jesus se pareça mais com ele do que com a mentalidade que rege a contemporaneidade, que é individualista, gananciosa e competidora.

Há três fatos que estão relacionados à igreja. Primeiro, ela é uma comunhão de pessoas que atenderam ao convite amoroso de Deus. Segundo, os participantes da igreja têm a tarefa de encarnar a mensagem de Jesus na vida. E terceiro, a vida de comunhão da Igreja é uma tarefa inacabada, que precisa sempre ser renovada, revitalizada e atualizada. Dito de outro modo, a igreja deve assumir a sua própriaco0ndição humana. Quando assume a sua humanidade, ela também se compromete com aquilo que promove a dignidade da pessoa humana.

Jesus declarou que tinha muitas pessoas que precisam ser alcançadas, mas que ainda não tinham sido alcançadas. “Tenho outras ovelhas que não são deste aprisco. É necessário que eu as conduza também. Elas ouvirão a minha voz, e haverá um só rebanho e um só pastor” (João 10.16). Em uma igreja mais humana, todos são tratados como filhos de Deus iguais.

A igreja se torna mais humana a medida em que se assemelha mais ao caráter de Cristo. O cerne da mensagem do evangelho é que Jesus é o enviado de Deus para assumir toda a nossa humanidade em sua encarnação, vida e morte. Ele se fez o humano demasiadamente humano.

Como afirmou Irineu de Lyon, no século II, Jesus assumiu toda a condição humana a fim de restaurar em sua vida toda a nossa humanidade. “O que não foi assumido pelo Verbo não foi redimido”, disse Irineu. Ele se fez como um de nós para que sejamos como ele é.

Paulo, em sua Carta aos Colossenses, relembra que a humanidade de Jesus foi o gesto divino para nos redimir de tudo aquilo que nos desumaniza. “Mas agora ele os reconciliou pelo corpo físico de Cristo, mediante a morte, para apresentá-los diante dele santos, inculpáveis e livres de qualquer acusação (Colossenses 1.22). A obra da redenção implica a restauração do que há de mais humano em nós.

Paulo tinha todos os motivos para compreender de forma prática a humanidade de Jesus. Ele estava preso em Roma por causa de sua fé e serviço a Cristo. Ele conheceu de perto as formas da maldade humana durante sua última viagem de Jerusalém a Roma como um prisioneiro.

Agora ele podia testificar com sua própria vida que não há nada mais importante para a fé do que trabalhar em favor da dignidade da vida em todas as suas formas.

A igreja de Colossos não era fruto direto do trabalho missionário de Paulo e provavelmente não fazia parte do seu círculo direto de cuidado e de relacionamento. No entanto, ele escreve uma carta por causa de Epafras, provavelmente um dos fundadores daquela comunidade de fé (Colossenses 1.7). Ele também havia se tornado um cooperador no cuidado com a igreja e um companheiro de Paulo em sua prisão (Filemom 1.23).

A atuação de Paulo em favor dos colossenses incluía outras igrejas da região como a de Laodiceia (Colossenses 2.1) e Hierápolis (Colossenses 4.13). Por essa razão, a carta servia para ambas as igrejas. Paulo fala ainda de uma carta aos laodicenses, que se perdeu.

Através da Carta aos Colossenses podemos fazer uma leitura de nossas próprias ações como seguidores de Jesus que vivem num mundo marcado por tantas formas que nos desumanizam. O objetivo é fazer com que nos tornemos participantes ativos de uma comunidade de pessoas que assumem o compromisso de se tornaram mais humanos, demasiadamente humanos.

segunda-feira, 17 de junho de 2024

Um amor sem medida / A love without measure / Un amor sin medida

Um pouco antes da festa da Páscoa, sabendo Jesus que havia chegado o tempo em que deixaria este mundo e iria para o Pai, tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim” (João 13.1).

Jesus é apresentado nos evangelhos como a maior expressão do amor divino por toda humanidade. Somente alguém com tanto amor gastaria seu tempo para salvar gente como a gente. O Evangelho de João, principalmente, está cheio de referências desse cuidado amoroso de Deus através de Jesus Cristo.

Nos capítulo 13 a 17 de João encontramos o relato de uma ação de Jesus através da qual ele procura demonstrar como é esse amor sem igual, incompreensível ao nosso modo de entender. João registra a última reunião de Jesus com seus discípulos antes de ser crucificado. Era a época da Páscoa. Jesus participou de um banquete (capítulo 13), fez seu discurso de despedida (capítulos 15 e 16) e intercedeu em oração por eles (capítulo 17) antes de ser preso, condenado e crucificado.

No capítulo 13, podemos tomar parte da intimidade do colégio apostólico, ter uma ideia do modo como Jesus demonstrava afeto e atenção aos seus discípulos, como agia com humildade e ternura, como exercia sua liderança e como convivia em comunhão.

A primeira expressão que chama a atenção é o fato de que Jesus amou aqueles que o seguiam até o fim. Trata-se de uma forma de dizer que Jesus amou seus discípulos de maneira completa, até as últimas consequências e em todo tempo. Assim é o amor do Senhor por todos nós. Sem medidas. E é tudo o que nós precisamos para viver no mundo.

Nessa passagem, que começa com o relato do gesto de Jesus em lavar os pés dos seus discípulos, podemos perceber que Jesus propõe uma mudança radical de atitude. Trata-se de um ponto de virada no ministério apostólico. Os discípulos de Jesus deveriam compreender que dali para frente teriam que dar conta de si mesmos, de seguirem adiante colocando em prática tudo o que haviam aprendido.

Era o momento de assumir o sentido de missão para a vida de cada um deles, por isso precisavam compreender o sentido do amor, tanto pelo fato de teriam sido amados de forma incondicional quanto pelo compromisso de amar sem medida. Viver a fé em Jesus é viver em amor. Seguir Jesus é colocar o amor em prática. Ser cristão é, acima de tudo, amar.

O capítulo 13 de João, portanto, é crucial para essa descoberta de o quanto somos amados e de quais implicações esse amor tem para a nossa vida. Jesus nos amou até o fim para que pudéssemos aprender o sentido de amar. Somente dessa forma conseguiremos colocar em prática o mandamento do amor.

terça-feira, 6 de junho de 2023

Desafio para a obra missionária: o lugar do outro / Challenge for missionary work: the place of the other / Desafío para la obra misionera: el lugar del otro

A obra missionária, tal como a conhecemos hoje, é resultado de estratégias que o cristianismo desenvolveu a partir da colonização. As atividades missionárias, via de regra, são definidas com termos retirados das práticas de intervenção desenvolvidas pelo colonialismo ocidental. Expressões como cruzada, conquista e campo missionário são representativas dessa forma de lidar com a evangelização mundial.

O maior desafio da obra missionária em pleno século 21 é resgatar o sentido do envio que está presente no discurso de Jesus e dos primeiros cristãos. Não se tratava de implantar um domínio ou um novo princípio moral, mas de se viver o evangelho da graça de forma plena no contexto de uma nova cultura como testemunhas do amor de Deus. Por essa razão, os primeiros seguidores de Jesus foram chamados de cristãos, por serem as melhores representações de Cristo no mundo.

Fazer missão é fazer um movimento na direção do outro, para dentro de sua realidade concreta de vida no mundo. A principal tarefa da obra missionária, que é evangelizar, não se restringe a conquistar novos adeptos para a religião cristã. Evangelizar é anunciar a boa notícia de que uma nova vida é possível.

O mundo em que a igreja está inserida é completamente diferente tanto dos cristãos primitivos quanto da época das conquistas territoriais do Ocidente e do desenvolvimento das estratégias de missões modernas. Entretanto, a demanda por uma igreja que esteja em sintonia com as necessidades das pessoas permanece como um incômodo chamado para repensar o modo como realizamos a obra missionária hoje.

A igreja é a comunidade dos que são chamados a sair de sua posição de conforto e fazer um movimento para dentro do mundo, não para fora ou para longe dele. A palavra grega ekklesia lembra isso. Ela é iniciada com a preposição ek-, que tem o sentido de um movimento para fora.

A igreja se reúne para orar uns pelos outros, para cuidar uns dos outros, para encorajar uns aos outros e para instruir uns aos outros. Mas o espaço de reunião não é seu local de permanência. A igreja não existe para viver enclausurada num lugar sagrado. Ela existe para fazer diferença no mundo. A igreja só é igreja quando faz o movimento em direção ao outro em suas condições concretas de vida no mundo.

Quais são os desafios para a evangelização mundial e para a obra missionária no mundo atual? Podemos alistar algumas:

- Restaurar a dignidade humana.

- Promover justiça.

- Semear a paz.

- Reacender a esperança.

- Praticar o amor fraternal.

- Cuidar da vida em todas as suas formas e expressões.

Em resumo, o maior desafio da obra missionária em pleno século 21 é levar paz, consolo e esperança para quem enfrenta situações que colocam a vida em risco. Temas como mudanças climática, ameaças de guerra, fome e crise migratória demandam atitudes que emanam do evangelho da graça.

Quem almeja realizar a obra missionária tem o dever de estar antenado e bem informado sobre o que faz o outro sofrer. As causas do sofrimento não são apenas circunstanciais, mas também estruturais. O chamado de Jesus para missões implica levantar os olhos e ver os campos prontos para a colheita, sentir compaixão das pessoas que andam errantes como ovelhas sem pastor, ir às cidades pregar a boa nova do Reino de Deus. O mundo mudou, mas o chamado continua o mesmo.

segunda-feira, 3 de abril de 2023

Dimensão comunitária do discipulado: O que faz diferença no seguimento de Jesus / Community Dimension of Discipleship: What Makes a Difference in Following Jesus / Dimensión comunitaria del discipulado: lo que marca la diferencia en el seguimiento de Jesús

Discipulado é o modo como fazemos o seguimento de Jesus. Ser discípulo de Jesus não é uma aventura solitária, embora sejamos responsáveis pela maneira como seguimos Jesus. Não é ser um autodidata, embora envolva um aprendizado. Não é ser um aluno receptor de informações, embora haja um Mestre.

Na verdade, ser discípulo é ser imitador de Jesus, alguém que assume reproduzir em sua vida o caráter e o ensino de Jesus. Isso implica tomar parte da comunidade daqueles e daquelas que seguem Jesus e se ajudam mutuamente a se aperfeiçoar nisso a cada dia. Além disso, o discípulo é o melhor exemplo de vida transformada pela graça que as pessoas à sua volta podem ter.

Os primeiros discípulos viviam em comunidade. Jesus apresentou durante seus discursos dois tipos de convite: ele disse para alguns “segue-me” e disse para uma multidão “vide a mim”. O convite “segue-me” exigia mudanças no modo de viver e de orientar a vida. Tanto que muitos largaram tudo o que faziam para seguir Jesus. Não era só uma mudança de hábitos ou costumes, mas de valores e de estratégias de vida como a profissão e os relacionamentos.

O convite “vinde a mim” foi dirigido a pessoas cansadas de uma vida marcada pela opressão. Àqueles que andavam errantes como ovelhas sem pastor, perdidas de si mesmo, agora poderiam aprender um novo modo de orientar a vida com quem exercitava a humildade e a mansidão.

Nunca foi fácil seguir Jesus, nem para os primeiros discípulos, nem para nós nesses tempos. Entretanto, Jesus sempre procurou educar seus discípulos sobre o que significa segui-lo. E o fez ao longo da caminhada realizada junto com eles. Jesus foi um mestre por excelência, fazendo com que seus seguidores reproduzissem em suas vidas o seu próprio modo de viver.

O discipulado envolve novos hábitos, novo estilo de vida, novos interesses, novas perspectivas, novo modo de pensar, nova forma de compreender a vida, enfim, nova forma de ver o mundo. Não é um programa ou estratégia para se fazer novos adeptos, mas um novo modo de ser e de agir no mundo.

Envolve um aprendizado que requer mudança de mentalidade. Isso implica abandonar hábitos e concepções influenciados pela religião e pela ideologia dominantes para dar lugar aos valores do Reino de Deus. Exige de cada um o compromisso de ser a melhor expressão da graça de do amor de Deus por toda a criação.

O discípulo aprende em comunidade a dar novos significados a práticas essenciais como a oração, o conhecimento das Escrituras, a vida em comunhão, o testemunho público da fé e o cuidado uns com os outros. Normalmente, aprendemos que a oração, a leitura da Bíblia, o compromisso com a igreja, o testemunho e a prática do bem são atitudes individuais apenas. Mas elas precisam ser compreendidas a partir de uma ótica comunitária, como ações que visam o bem comum.

sábado, 11 de março de 2023

Cartas para a igreja: as sete cartas do Apocalipse para hoje / Letters to the Church: The Seven Letters of Revelation for Today / Cartas a la Iglesia: Las siete cartas del Apocalipsis para hoy

O que Jesus diria para a igreja de hoje que vive no limiar do fim dos tempos? A humanidade nunca viveu tão próxima de sua própria extinção. Esse tema tem ocupado os meios de comunicação e acadêmicos há algum tempo, com estudos, diagnósticos e até previsões de um fim catastrófico para a vida no planeta.

Um desses recursos é o relógio do Apocalipse, um contador de tempo simbólico que existe desde 1947 (criado pelo comitê que organiza o Boletim dos Cientistas Atômicos da Universidade de Chicago), que aponta para o fato de que vivemos a poucos minutos do fim catastrófico da vida no planeta provocado por uma guerra nuclear. Esse relógio conta os minutos que falta para o que chamam de “meia-noite”, o momento crucial para o qual convergem decisões políticas, sociais, econômicas, diplomáticas e militares globais somados aos acontecimentos ligados à mudança climática, pandemias, terrorismo e até o uso de inteligência artificial.

No começo do ano de 2023, o relógio do Apocalipse, também chamado de Relógio do Juízo Final ou Doonsday Clock, chegou a apontar que faltavam apenas 90 segundos para a catástrofe final que exterminaria com a civilização, sobretudo após a invasão da Ucrânia pela Rússia em 24 de fevereiro de 2022. Desde 1991, quando o relógio marcava 17 minutos, esse tempo vem sendo reduzido, indicando que vivemos o risco iminente de um conflito de proporções globais. Nunca estivemos tão próximos da meia-noite. Isso tem levado a um apelo insistente para que governos, órgãos de defesa, instituições que visam promover a paz e até grupos humanitários atuem para que a ameaça de uma catástrofe nuclear seja afastada.

O que a igreja tem a ver com isso? Qual a mensagem que cristãos e cristãs têm a dar para o mundo diante das crises globais? O que Jesus diria para a sua igreja sobre como viver em comunhão, servir, testemunhar, celebrar e até evangelizar em dias tão complexos? Essas questões nos remetem para o final do século I da Era Comum, quando a fé cristã se deparou com situações que lembravam os discursos escatológicos de Jesus nos evangelhos. Para aqueles primeiros seguidores de Jesus, seria fácil presumir que viviam os tempos do fim.

Eram tempos de perseguição, intolerância religiosa e até de desigualdade social. A maioria dos frequentadores da igreja era de origem escrava, despossuídos e excluídos da vida social. Mesmo assim, representavam uma ameaça ao poder imperial romano, pois eram confundidos como subversivos em relação às leis que obrigavam o culto ao imperador. Isso fez com que sofressem a mais sangrenta perseguição da história do cristianismo.

Um importante documento dessa época encontra-se no livro do Apocalipse de João. Em sua experiência com a revelação divina, o Apóstolo João é orientado a escrever a sete igrejas de sua área de atuação a fim de que cristãos e cristãs fossem consolados e encorajados a viverem a fé uma vez dada aos santos sem desanimar. Trata-se de um trecho, abrangendo os capítulos 2 e 3, que contém as sete cartas às igrejas do Apocalipse, ou sete cartas às igrejas da Ásia Menor (atual Turquia), a região onde elas se encontravam.

São pequenos recados, que continham elogios e exortações, repreensões e promessas. Cada igreja vivia aqueles momentos angustiantes a partir do lugar onde foram construídas, em suas inter-relações com a sociedade e em suas condições internas de vida em comunidade. Para cada uma dessas igrejas, João ressalta aspectos sobre como podemos enfrentar tempos difíceis sem perder a fé e a esperança, sem deixar de se colocar como agentes da graça num mundo onde há tanta maldade e engano.

O que a comunidade da fé enfrentava não era o fim. Apesar da dor, das perdas, do sofrimento, da perseguição, da insjustiça e da desigualdade social, aquela situação não era final. A igreja precisava ser lembrada da missão de Deus entregue a ela por Jesus, de ser testemunha da graça em qualquer circunstância. Os problemas não tinham o poder de dar a palavra final sobre a vida, sobre a prática do amor, sobre a disposição de seguir Jesus, sobre a vida em comunhão, sobre a solidariedade, sobre a generosidade, sobre a vida cristã autêntica e tantos outros temas tão caros à fé cristã, mais até do que princípios doutrinários, tradições e dogmas.

Cristãos e cristãs precisam ser lembrados que quem tem a palavra final sobre a vida é Deus, mesmo nos dias atuais. Embora vivamos o risco de um fim iminente, a fé lembra que quem conduz o curso da história é Deus e a esperança aponta para o fato de que no fim Ele já está lá. Como viver essa fé e essa esperança como seguidores de Jesus hoje? As cartas do Apocalipse também nos ensinam a conduzir a vida a partir dos ensinos de Jesus.

terça-feira, 18 de outubro de 2022

Lançamento de novo E-book: Orar como Jesus orou / New E-book Launch: Pray Like Jesus Prayed / Lanzamiento del nuevo libro electrónico: Ora como Jesús oró

Há alguns anos tenho me dedicado ao estudo sobre oração a partir do exemplo e dos ensinos de Jesus. Agora, essas anotações se transformaram em e-book que está disponível na Amazon. Adquira e leia. Tem feito bem pra mim, vai ser bom pra você também.
Veja a Sinopse:
A vida nem sempre acontece como planejamos. Em todo tempo, enfrentamos barreiras e obstáculos que parecem intransponíveis, que nos levam a pensar que não somos capazes de ir adiante ou que não vamos conseguir superar. A boa notícia é que Deus quer nos ajudar a lidar com cada situação de dúvida, de incerteza e até de fraqueza. Ele está sempre pronto e disposto a nos socorrer e a nos dar um novo ânimo. Ele está sempre pronto a nos encorajar. Mas isso não acontece naturalmente. O encorajamento acontece quando você O procura. E a maneira como você procura o Senhor é através da oração.
Ao longo deste livro você aprenderá a cultivar uma poderosa e contagiante vida de oração, assim como você experimentará o encorajamento para enfrentar os grandes desafios em seus relacionamentos, em suas dificuldades financeiras, em sua conduta pessoal, em seus problemas de saúde e em muitas outras áreas de sua vida. O poder da vida de oração não está em quem ora, mas em quem responde a todas as orações. Ter um relacionamento íntimo com Deus é a forma de experimentar o seu poder.
Orar como Jesus orou: Reflexões sobre a vida de oração de Jesus. Autor: Irenio Silveira Chaves. Investimento: R$ 9,99.
Disponível no site da Amazon>>

segunda-feira, 18 de abril de 2022

Representações de Deus nos discursos de Jesus / Symbol of God: Representations of God in Jesus' Discourses / Símbolo de Dios: Representaciones de Dios en los Discursos de Jesús

O teólogo jesuíta norte-americano Roger Haight propôs uma nova compreensão cristológica diante das transformações do pensamento humano na pós-modernidade, que é considerar Jesus como o símbolo de Deus (em seu livro Jesus, Símbolo de Deus). Jesus, em sua vida, mensagem, morte e ressurreição, simbolizou Deus. Por isso, pode dizer: Quem me vê, vê o Pai...” (João 14.9).

João Batista testemunhou que Ninguém jamais viu a Deus, mas o Deus Unigênito, que está junto do Pai, o tornou conhecido” (João 1.18). Em sua carta aos Colossenses, Paulo afirmou que Ele é a imagem do Deus invisível [...]” (Colossenses 1.15). Essa definição está em sintonia com o que Jesus falou a respeito de si nos evangelhos. Ele disse aos discípulos: Se vocês realmente me conhecessem, conheceriam também o meu Pai [...]” (João 14.7). E disse às multidões: “[...] Ninguém conhece o Filho a não ser o Pai, e ninguém conhece o Pai a não ser o Filho e aqueles a quem o Filho o quiser revelar” (Mateus 11.27).

O simbólico é a dimensão das representações, a forma como expressamos o que está em nosso imaginário. De acordo com a gramaticalidade, a ideia de simbólico vem de symbolos, palavra formada por dois radicais gregos: o prefixo sym-, que traz a ideia de síntese, de união, e bolos, que lembra a ideia de arremessar e de lançar. O simbólico tem a ver com os sentidos que atribuímos a tudo o que diz respeito à nossa existência, que nos aproxima do conhecimento e da realidade. Leonardo Boff, no livro A águia e a galinha, lembra que isso difere do diabólico, que é o que nos afasta. A diferença está no uso do prefixo dia-, que quer tem a ideia de um movimento, com o sentido de “através de”. O diabólico tem a ver com o separa, nos afasta e desagrega.

O simbólico, portanto, confere sentido à nossa existência, enquanto que o diabólico causa impedimentos à nossa realização, como uma rejeição, resistência ou negação ao que nos constitui como pessoas. Todos nós carregamos essa capacidade tanto de construir e agregar valor à nossa existência quanto de descontruir e de destruir. Temos em nós tanto o sentido da vida quanto da morte, o que nos dá esperança e o que nos causa medo, o que nos fortalece e o que nos ameaça. Vagueamos o tempo todo entre o simbólico e o diabólico.

Jesus desenvolveu atitudes que fortalecem uma compreensão de Deus que tem a ver com a ideia de um Pai amoroso que se importa com as condições de vida de toda a criação, que faz justiça aos mais vulneráveis e que nos interpela a uma vida mais solidária. Ele procurou viver de um modo que fosse uma expressão do cuidado de Deus por toda a criação, demonstrou a justiça de Deus, expressou o amor de Deus através de suas atitudes e encorajou a vida de comunhão entre todos e todas que atraiu para si.

domingo, 30 de janeiro de 2022

Felicidade em meio às adversidades / Happiness in adversity / Felicidad en medio de la adversidad

Jesus chamou pessoas excluídas, desprezadas e despossuídas para sem seus discípulos. Ele conhecia bem suas aflições e quais eram as suas causas. Por isso, procurou orientá-las a dar valor às circunstâncias vividas como oportunidades de experimentar uma nova forma de viver. No início do Sermão do Monte, Jesus ressaltou o fato de que seus discípulos eram bem-aventurados por tomarem parte daquele momento, apesar de todas as lutas pelas quais passavam. Afinal, eles estavam diante do novo, de uma nova proposta de experimentarem a concretização das promessas divinas em suas vidas.

As bem-aventuranças podem ser compreendidas como o retrato de quem os discípulos eram e em que eles iriam se tornar por terem aceitado o desafio de seguir Jesus. A expressão era bem conhecida da tradição judaica. Os salmos já declaravam que era bem-aventurado aquele “[...] que não segue o conselho dos ímpios, não imita a conduta dos pecadores, nem se assenta na roda dos zombadores” (Salmos 1.1); “[...] aquele que tem suas transgressões perdoadas e seus pecados apagados” (Salmos 32.1); “[...] os que obedecem aos seus estatutos e de todo o coração o buscam” (Salmos 119.2). “[...] o homem que nele se refugia” (Salmos 34.8); “[...] quem teme ao Senhor, quem anda em seus caminhos” (Salmos 128.1).

A tradição judaica estava repleta de referências que ressaltam a felicidade de tomar a atitude de orientar a vida pela direção divina. Diz o sábio: “Como é feliz o homem que acha a sabedoria, o homem que obtém entendimento” (Provérbios 3.13). E ainda recomenda: “Quem examina cada questão com cuidado, prospera, e feliz é aquele que confia no Senhor” (Provérbios 16.20).

Jesus se utiliza de um estilo literário já conhecido pela literatura sapiencial judaica para ressaltar que as pessoas que vivem de um modo extraordinário mesmo em meio as suas circunstâncias de luta são felizes por serem especiais para Deus. Trata-se do estilo baseado no uso da parênese, construído través de paralelismo característico da poesia hebraica-judaica. A parênese era um estilo literário que consistia numa exortação acompanhada de um conselho para a vida.

Na relação das bem-aventuranças, Jesus se refere àqueles que são considerados felizes por causa da sua condição e os que são felizes por aquilo que fazem. Quem são os bem-aventurados para Jesus? São os pobres, os que sofrem, os humildes e os que são injustiçados. Não são situações que possam fazer alguém feliz, mas porque estão contemplados na promessa de realização do Reino de Deus. Os excluídos do reino deste mundo são acolhidos no Reino de Deus.

E o que fazem os bem-aventurados? Eles são misericordiosos, puros de coração, promovem a paz, perseguidos por praticarem a justiça e injuriados por causa de sua fé. Não é fácil praticar tais atos. A felicidade tem um preço, e ele é recompensado pelo Senhor do Reino.

As bem-aventuranças estão registradas em duas passagens dos evangelhos, uma em Mateus 5.3-12 e outra mais resumida em Lucas 6.20-23. Mateus é acusado de espiritualizar as condições concretas vividas pelas pessoas, enquanto Lucas se refere aos problemas de forma mais humanizada.

Em ambas as listas das bem-aventuranças, há uma correspondência entre cada condição humana de fragilidade e uma promessa divina. Isso nos leva descobrir que há felicidade para quem enfrenta a desigualdade social para quem sente angústia, para quem vive humilhado, para quem passa fome, para quem se compadece dos que sofrem, para quem age com bondade, para quem promove a paz, para quem sofre injustiça e para quem enfrenta preconceito e discriminação.

Jesus contraria a compreensão do seu tempo e de sua cultura para afirmar que pessoas excluídas e desprezadas também podem ser felizes. A felicidade não está relacionada a um mérito ou a uma conquista, mas a uma dádiva concedida pelo amor divino. Todos e todas podem experimentar a felicidade mesmo em meio a adversidades.

domingo, 18 de abril de 2021

Jesus e as sinagogas / Jesus and the synagogues / Jesús y las sinagogas

 

Ensinava nas sinagogas, e todos o elogiavam” (Lucas 4.15).

Jesus usou os espaços religiosos de seu tempo para `compartilhar a sua mensagem. Ele o fez como um cidadão, como um religioso e como o Messias. Jesus participava de uma comunidade e praticava uma religião. Ele era da região da Galileia, da pequena cidade de Nazaré, e era um judeu.

Embora os evangelhos façam menção diretamente às sinagogas de Cafarnaum e Nazaré, duas cidades da região da Galileia, Jesus estava familiarizado com a frequência a esse espaço de devoção do judaísmo.

As sinagogas são espaços de devoção e de espiritualidade dos judeus até os dias atuais. Elas foram criadas provavelmente após a destruição do primeiro templo, por volta do ano 586 a.C., para ser um espaço de oração e de leitura das Escrituras. No tempo de Jesus, era o segundo lugar mais importante para o exercício da espiritualidade judaica, ficando atrás apenas do templo. Por essa razão, muitas vezes foi chamada de pequeno santuário.

No tempo de Jesus devia haver centenas delas espalhada por todo o território de Israel. Estima-se que só em Jerusalém houvesse cerca de 400 sinagogas. Para que surgisse uma sinagoga, era necessária a presença de pelo menos dez homens da fé judaica. Com a diáspora, esse costume também se espalhou nos lugares em que os judeus estabeleciam suas comunidades.

As sinagogas deveriam possuir três elementos essenciais: a urna para conter os livros sagrados, uma lâmpada acesa permanentemente como símbolo da instrução das Escrituras e o púlpito onde as Escrituras eram lidas. Os oradores da sinagoga eram rabinos que possuíam experiência no exercício de interpretação das Escrituras, que consistia nos livros da Torah (os livros da lei), nos livros poéticos (especialmente o de Salmos) e nos profetas.

As reuniões das sinagogas começavam com a recitação do shema: que é a referência a Deuteronômio 6.4: “Ouça, ó Israel: O Senhor, o nosso Deus, é o único Senhor”. A espiritualidade judaica compreendia que ali era o lugar do encontro com o sagrado, para ouvir o que Deus tem a falar.

Jesus demonstrou familiaridade com os hábitos das sinagogas e era tratado como rabi ou rabino, um mestre que podia falar durante os atos cerimoniais. Jesus também demonstrou que era uma pessoa letrada, conhecedora do idioma hebraico, que tinha condições de fazer leituras públicas a partir de traduções orais dos textos bíblicos, conhecidas como targuns. E que tinha autoridade para interpretar as Escrituras.

Isso nos leva a compreender que Jesus não rejeitou a religião, mas a ressignificou. A religião não é apenas um sistema de controle e de domínio, como uma estratégia de poder, embora ela tenha sido usada pelas estruturas de poder ao longo dos tempos – inclusive nos dias atuais. Ela é uma experiência humana de encontro consigo, que estimula a transcendência e a descoberta de si. Jesus tratou os espaços religiosos não mais como espaços de interdição, mas de transformação, de libertação e de construção de nossa humanidade.

Por essa razão, Jesus não se identifica com o homo religiosus de Mircea Eliade, mas com o humano, demasiadamente humano (conforme o título da obra de Nietzsche), como aquele que compreende que a vida toda é sagrada, que o humano está acima dos rituais e que a história é o tempo de construção de nossa existência.

Os evangelhos registram quatro momentos de Jesus discursando nas sinagogas: Marcos 1.21-27, correlato com Lucas 4.31-37; Marcos 3.1-6, correlato com Mateus 12.9-13; Lucas 4.16-22, correlato com Marcos 6.16 e Mateus 13.53-58; João 6.51-59. Em cada uma dessas ocasiões ele aproveitou para pregar sobre temas que estavam ligados à vivência humana, valorizando sempre a dignidade da pessoa, em detrimento do cerimonial.

A intimidade de Jesus com a sinagoga pode ser percebida em outras situações narradas nos evangelhos, como a cura da filha de Jairo, o chefe da sinagoga, em Marcos 5.21-43, Mateus 9.18-26 e Lucas 8.40-56. Para Jesus, a sinagoga era espaço de compartilhamento da boa notícia do amor de Deus (Mateus 4.23, Mateus 9.35, João 18.20), de cura para as dores humanas (Lucas 13.10-17), de construção de nossa identidade (Lucas 7.4-50), de confrontação com a religiosidade hipócrita (Mateus 6.2 e 5, João 12.42), de enfrentamento das formas de dominação (Marcos 12.39, Mateus 23.6, Lucas 11.43, Lucas 20.46, João 9.22) e de espaço de testemunho e martírio (Marcos 13.9, Mateus 10.17, Mateus 23.34, Lucas 4.24-30, Lucas 12.11, Lucas 21.12, João 16.2).

As comunidades cristãs primitivas procuraram reproduzir a experiência das sinagogas. Muitas vezes, igrejas cristãs nasceram a partir dos ensinos de Paulo nas sinagogas espalhadas pelo mundo greco-romano. Refletir sobre a experiência cristã nos espaços religiosos nos remete ao diálogo necessário entre religião e espiritualidade, vida religiosa e vida intramundana. Esse foi o exemplo deixado por Jesus.

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