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terça-feira, 16 de junho de 2026

Salvação, conversão e significado / Salvation, conversion and meaning / Salvación, conversión y sentido

 

“E todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo!” (Atos 2.21). 

Uma expressão comum entre os evangélicos brasileiros é “aceitar Jesus”. Ela tanto serve para descrever a experiência de conversão pessoal quanto para convidar pessoas a adotarem uma nova posição religiosa, acolhendo a fé evangélica. Ou seja, não só é uma expressão ligada à iniciação na fé, mas também um argumento proselitista.

Essa expressão se estabeleceu a partir da estratégia discursiva dos pregadores chamados evangelistas, desde os grandes oradores dos meios de comunicação, que enchiam auditórios, até mesmo os mais humildes nas comunidades periféricas e interioranas. Tornou-se um convite universal para que as pessoas experimentassem uma mudança de atitude em relação à fé.

As mensagens de arrependimento e de perdão divino, os chamados sermões evangelísticos, eram sempre encerradas com o apelo para aceitar Jesus. O gesto para isso era simples. Bastava manifestar com o levantar de uma das mãos durante o apelo, geralmente acompanhado de hinos e orações. Com isso, a pessoa demonstrava o seu desejo de experimentar uma nova forma de vida que a libertasse de tudo aquilo que tirava a sua dignidade.

O apelo para aceitar Jesus como Senhor e Salvador foi a forma mais emblemática usada pela igreja evangélica para restaurar a esperança pessoas que viviam de um modo degradante. Era direcionado a quem vivia oprimido pelas dívidas, pelas condições sociais, pelos vícios, pela violência, pelo medo e até pela falta de perspectiva para o futuro.

Quem aceitava Jesus passava a se sentir empoderado para experimentar uma vida mais autônoma, livre da opressão da vida cotidiana. Havia até canções que enalteciam esse gesto: “desde o dia em que aceitei Jesus, a minha vida se transformou; agora sou feliz, agora vivo bem; Jesus salvou a mim e salva a ti também”.

A partir dessa escolha, o novo convertido se tornava uma pessoa melhor, um melhor pai, uma melhor mãe, um melhor filho ou filha, um melhor trabalhador ou trabalhadora, um melhor patrão ou patroa e até mesmo um melhor cidadão ou cidadã. De fato, as pessoas melhoravam de vida até mesmo do ponto de vista socioeconômico, adotando novos hábitos de consumo e novas perspectivas de vida.

O apelo para aceitar Jesus em uma manifestação pública é resultado do movimento evangelicalista norte-americano sobre a igreja evangélica brasileira. A prática surgiu no século XIX através de lideranças avivalistas. Um deles foi Charles Finney, um dos pregadores do chamado “segundo grande avivamento” dos Estados Unidos. E foi trazido para o Brasil pelos missionários que trouxeram o protestantismo de missão a partir do século XIX.

Teologicamente, o apelo em si implica a ideia de uma conversão imediata, em que a pessoa reconhece a sua condição pecadora, arrepende-se e entrega-se à graça salvadora de Jesus Cristo. Pressupõe a ideia da justificação pela graça, que é gratuita e imediata. Aceitar Jesus implica também reconhecê-lo como Senhor e envolve submeter a vida de forma voluntária a seus ensinos e princípios.

O momento de aceitação ao apelo tem o sentido do acolhimento ao convite amoroso de Jesus, a dizer sim para o projeto redentor divino consumado no nascimento, vida e morte de Jesus na cruz. Essa atitude está diretamente relacionada à ação do Espírito Santo que é quem convence a pessoa do pecado e o encoraja ao “novo nascimento” e a se tornar uma “nova criatura”.

Essa prática ainda é muito forte e presente nas igrejas evangélicas históricas e tradicionais. Porém, as novas influências teológicas vindas dos Estados Unidos apontam para outras formas de proselitismo. Teologias como as da prosperidade e do domínio defendem a adoção de atitudes mais secularizadas, de conformação à mentalidade dominante de consumo e de adesão a um estilo de vida ligado ao ter e à aparência.

A consequência dessa mudança de abordagem trouxe o esvaziamento da proposta do seguimento de Jesus, da mudança de atitude, do aprendizado a respeito dos ensinos de Jesus de Nazaré e da vivência dos valores genuinamente cristãos no mundo, como a prática do amor, da justiça e da paz.

Um dos fatores que contribuíram para o crescimento dos evangélicos no Brasil tem a ver com os sentidos desse apelo. Pessoas que “aceitam Jesus” se dispõem a mudar de vida, a transformar a sua mentalidade a respeito da vida, a aprender aquilo que Jesus ensinou como valor para a vida e a experimentar uma vida livre de amarras religiosas, vivendo em uma nova comunidade na qual podem partilhar experiências de vida.

(Assista às mensagens da série Aceitar Jesus: O que isso significa? em meu canal no Youtube. Acesse pelo link: https://www.youtube.com/playlist?list=PL4NVfVIy5Bi6YBxpjO6ioVYz-hRpb3e9Z)

quarta-feira, 6 de maio de 2026

Espiritualidade dos discípulos de Jesus: Disciplina e exercícios espirituais [Novo E-book] / The Spirituality of Jesus' Disciples: Discipline and Spiritual Exercises / La espiritualidad de los discípulos de Jesús: disciplina y ejercicios espirituales

A igreja cristã da atualidade precisa deixar de lado a sua institucionalidade para se dedicar mais à espiritualidade. Jesus nunca teve em mente uma instituição hierárquica, fundada em um sistema de crenças, voltada para a manutenção de monumentos suntuosos. Ele chamou um grupo de pessoas rudes e humildes e as transformou em seus discípulos.

Quando se fala de espiritualidade, fala-se sobre exercícios e práticas de vida interior, de disciplina espiritual, de exame de si, de esvaziamento de si, de busca de uma experiência mais profunda de Deus. E foi isso que Jesus procurou transmitir ao seu corpo de discípulos.

Quem quiser ter uma experiência significativa de Deus é convidado a fazer uso dos exercícios e das práticas espirituais que vêm de alguma tradição religiosa. Nem mesmo os discípulos de Jesus escaparam a isso. Eles precisaram refletir sobre alguns exercícios e práticas que Jesus mesmo observa em sua vida.

Os discípulos de Jesus não foram obrigados a fazer mais do que Jesus fez ou pediu. Eles apenas precisavam fazer o percurso que o Mestre lhes apontou. E o fizeram com muita seriedade e profundidade, levando esses exercícios e práticas para as vivências das primeiras comunidades de fé.

Os exercícios e as práticas de espiritualidade não são novos e nem se restringem ao ambiente cristão. Outro aspecto importante é que a espiritualidade é um exercício subjetivo e de liberdade que exige de cada pessoa renúncias e dedicação.

Jesus fez uso dos exercícios e das práticas que já eram conhecidas em sua época, especialmente no judaísmo de seu tempo, e as ressignificou a partir da sua mensagem, as colocou em prática em sua própria vida e as ensinou aos seus discípulos. Ele se tornou o maior exemplo de alguém que fez da disciplina espiritual seu modo de vida.

Os primeiros discípulos de Jesus levaram esses exercícios e práticas para a vida da igreja primitiva, influenciando os novos seguidores, multiplicando, atualizando e dando novo direcionamento ao que o Mestre de espiritualidade ensinou.

Em meu novo livro, minha intenção é explorar quais foram os principais exercícios e práticas de espiritualidade que Jesus orientou seus discípulos realizar.

Como seguidores de Jesus em nosso tempo, é importante revisitar as práticas dos primeiros discípulos não só para conhecê-las, mas também para repensar as nossas.

Por que oramos, jejuamos, lemos a Bíblia, comungamos, confessamos, fazemos penitência ou nos consagramos do jeito que fazemos? Como o cristianismo primitivo desenvolveu suas práticas mais comuns? Quais eram as práticas mais relevantes para Jesus? Essas perguntas precisam de respostas que nos apontem diretrizes para a nossa espiritualidade hoje.

(Extraído da apresentação do livro Espiritualidade dos discípulos de Jesus: Disciplina e exercícios espirituais).

Para saber mais, leia o livro Espiritualidade dos discípulos de Jesus: Disciplina e exercícios espirituais, disponível no formato E-book Kindle da Amazon.

Acesse:

https://www.amazon.com.br/dp/B0GZPC4Y9D

domingo, 25 de janeiro de 2026

Religião como expressão humana: uma reflexão necessária para este tempo / Religion as a human expression: a necessary reflection for our time / La religión como expresión humana: una reflexión necesaria para nuestro tiempo

Um dos fatos mais surpreendentes a respeito da religião é que ela permanece ativa mesmo num mundo secularizado, cético e cientificista como o que nos vivemos. Alguém chegou a dizer que a religião iria desaparecer, mas ela tem se reafirmado em toda sua diversidade e pluralidade.

O meu livro O que é religião? é resultado de uma investigação que venho fazendo há muitos anos. Foi publicado pela primeira vez em 2005 e agora encontra-se disponível como e-book, revisado e atualizado com informações que venho abordando em artigos e textos em periódicos, anotações de aulas, apostilas de cursos ministrados e em meu blog de filosofia, espiritualidade e psicanálise.

O livro físico está esgotado. Daí a necessidade de disponibilizar esse conteúdo de forma digital. Desde que foi lançado, serviu de leitura recomendada em muitas faculdades de teologia, ciências da religião e áreas afins. Com a nova edição em e-book, creio que será ainda mais interessante para quem procura aprofundar seu conhecimento a respeito do assunto.

Falar de religião é sempre transitar em um terreno nebuloso, cheio complexidades e de subjetividades. Trata-se de um sistema complexo que envolve crenças, enigmas, esperanças, temores, mistérios e até aquilo que não se consegue exprimir em palavras, coisas que todos nós carregamos conosco. Lidar com o sagrado, com o sobrenatural, com o inefável ou com a finitude causa sempre um certo desconforto, pois nos confronta com nossa realidade existencial e nos interpela a assumirmos posições e a darmos direção à vida. Embora muitos nem sejam religiosos, na acepção mais realista do termo, não há quem não se detenha a refletir sobre seus temas diante das situações limites da vida.

Espero que a leitura deste pequeno livro ajude aos religiosos a serem mais críticos e sinceros em sua devoção. E espero que os não religiosos reflitam sobre a importância dessa experiência em sua prática cotidiana.

Para ler o e-book, acesse: https://www.amazon.com.br/dp/B0GHT2ZCHK

terça-feira, 23 de dezembro de 2025

Natal, o amor encarnado / Christmas, love incarnate / Navidad, el amor encarnado

O Natal é a mais sublime história de amor já contada e vivida pela humanidade. O nascimento de Jesus traz consigo a mensagem de que o amor de Deus se tornou visível e real entre nós. Esse amor que moveu o coração de Maria e seus parentes, que levou José a acolher a sua prometida esposa grávida de outro, que mobilizou criaturas celestes e pessoas humildes a se juntarem em reconhecimento desse grandioso gesto de amor.

O evangelho de João não possui uma narrativa sobre o nascimento de Jesus, como o fazem Mateus e Lucas. Toda a mensagem sobre o início da vida de Jesus de Nazaré se concentra na encarnação de Deus em Cristo. Ela consiste o prólogo, que é a parte inicial do evangelho, dos versículos de 1 a 14. Nele, João se refere ao conceito de logos, muito presente na filosofia ocidental e que marcou muitos pensadores judeus que procuravam uma aproximação com o Ocidente.

Os primeiros filósofos gregos se debruçaram sobre esse termo, referindo-se a ele como uma ideia inicial, formadora de toda a nossa compreensão da realidade. Um deles foi Heráclito, que o entendia como um princípio universal, racional e divino que governa e sustenta o cosmos em unidade. Platão ampliou esse significado, relacionando-o à razão e ao conhecimento, como o fundamento das ideias verdadeiras.

A palavra grega corresponde ao substantivo do verbo legein, que significa “dizer”. O logos é aquilo que é dito, como um discurso, uma fala. O logos é mais do que Palavra, Verbo ou equivalente. O logos é aquilo que não sabemos o que é, mas temos apenas uma ideia. É a base do discurso, como aquilo que se diz de algo, como um saber que se desvela. Por isso que a tradução do vocábulo grego, em filosofia, é “ideia”. Quem a traduziu para “verbum” foi a edição em latim conhecida como Vulgata.

No prólogo de João, o logos remete à sabedoria divina, como um princípio orientador e organizador do universo que está em permanente mudança. Essa sabedoria foi revelada como Palavra de Deus e entregue aos homens. Muito provavelmente João se apropriou da noção ontológica do logos que Filo de Alexandria apresentou naquela mesma época. Filo entendeu o logos como um ser divino intermediário, que atua entre a criação e a transcendência divina, como um mediador da revelação divina. Por isso, João declara: “No princípio, era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus” (João 1.1 ARC).

O logos de João remete à sabedoria divina, como um princípio criador, orientador e organizador do universo que está em permanente mudança. Essa sabedoria foi revelada como Palavra de Deus e entregue aos homens. João afirma: “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do Unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade” (João 1.14 ARC).

João deixa claro que aquilo que era apenas uma ideia se tornou humano, o divino habitou entre nós, o sagrado se tornou carne, Deus virou gente como a gente. A palavra grega usada é sarcs, que quer dizer corpo formado pela complexa constituição de carne, sangue, ossos, órgãos, tecidos e sistemas vitais, como a natureza sensível do ser humano. O divino tornou-se corpo vivo e sensível.

Dessa forma, os gestos de amor divino puderam ser vistos de forma concreta nos gestos de Jesus. O amor se tornou encarnado. João diz que essa ideia encarnada de perfeito e pleno amor “habitou” entre nós. Ele usa a palavra grega skenoo para dizer que Jesus “fixou sua tenda” entre nós. E o fez cheio de graça e de verdade.

Mais adiante, João amplia o significado do amor encarnado ao dizer que ele é extensivo a toda e qualquer pessoa. “Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (João 3.16 NAA)

O amor do Pai pela criação e o amor do Filho pelo seu Pai se uniram desde o início para trazer salvação para a humanidade perdida. Jesus é a expressão do amor divino pela humanidade, um amor apaixonado, capaz de renunciar a tudo para colocar a vida inteira a serviço de quem se ama.

Esse amor encarnado nos convoca a tomarmos parte dele, a encarnarmos esse amor na nossa própria vida. “Como o Pai me amou, assim eu os amei; permaneçam no meu amor” (João 15.9). O amor encarnado se realiza quando somos capazes de reconhecer no outro o rosto de Deus, quando somos impelidos a transformar em ações o cuidado para que o outro seja tratado como um ser humano digno e amado por Deus.

No amor encarnado, o sagrado e o humano se unem nas práticas cotidianas. Somos interpelados a cumprirmos a missão de Deus no mundo (a Missio Dei) a fim de torná-lo mais justo e solidário, em que todos e todas tenham acesso a uma vida mais digna.

O Natal nos remete à encarnação do amor na nossa própria vida, e esse amor encarnado corresponde à nossa própria humanização. Um Feliz Natal cheio de amor para toda humanidade.

domingo, 2 de novembro de 2025

O amor como projeto de vida: Campanha 40 Dias de Amor / Love as a life Project: 40 Days of Love / El amor como proyecto de vida: 40 días de amor

“Sigam o caminho do amor [...]” (1 Coríntios 14.1).

Nada é mais importante na vida do que os relacionamentos e ninguém entendeu melhor isso que Jesus. Você precisa descobrir como desenvolver atitudes que restaurem a saúde e a riqueza nos seus relacionamentos em família, com seu cônjuge, com seus amigos e em todas as relações de sua vida.
O que você faria para melhorar os relacionamentos mais importantes de sua vida?
O que você estaria disposto a dar de si mesmo para mudar de forma radical aquilo que é mais importante em suas relações pessoais?
Descubra de que maneira você pode construir atitudes que o ajudarão a cumprir os propósitos de Deus em seus relacionamentos.
O objetivo principal do ministério de Jesus aqui na Terra foi nos mostrar como é possível amar as pessoas neste mundo.
Como é possível amar mais a Deus?
Como é possível amar mais nossa família?
Como é possível amar mais nosso cônjuge?
Como é possível amar mais nosso vizinho?
Como é possível amar mais a nós mesmos?
Vamos poder descobrir juntos um amor que é paciente, que é amável, que perdoa, que não é egoísta e que fala sempre a verdade. O amor é a grande utopia cristã. Por isso, deve ser o alvo e o desafio de todo cristão.
Qual o alvo principal de sua vida? Sua resposta a essa pergunta vai revelar o valor que direciona a sua vida. Todo mundo é guiado por um valor. É o que inconscientemente serve de base para nossas escolhas e influenciam nossa tomada de decisões. Jesus ensinou que o amor deve ser o nosso valor dominante. De fato, Jesus disse certa vez que, de todos os mandamentos na Bíblia, apenas dois são mais importantes: amar a Deus com todo seu coração e amar o próximo como a si mesmo.
O amor, para o cristão, não é uma escolha ou um sentimento. O amor é um mandamento.
(Reflexão para pequenos grupos, durante a Campanha de 40 Dias de Amor)
(Participe da Campanha 40 Dias de Amor:assista à série de mensagens "Vivendo em amor no mundo" no Youtube; faça a leitura diária e pratique os projetos de vida semanais que estão na descrição de cada vídeo; reuna familiares e amigos para lerem juntos e debaterem sobre esse texto).

sexta-feira, 4 de julho de 2025

Deus cuida de mim: Você não está só / God takes care of me: You are not alone / Dios cuida de mí: Usted no está solo

 

 

“Lancem sobre ele toda a sua ansiedade, porque ele tem cuidado de vocês” (1 Pedro 5.7).

A poesia da música “Deus cuida de mim”, de Kleber Lucas, é uma das mais impactantes letras do cenário evangélico brasileiro. A música foi lançada em 1999 e ganhou repercussão em todos os segmentos religiosos então. Esse foi o título do terceiro álbum do cantor e é a sua composição de maior sucesso. O álbum chegou a vender mais de 100 mil cópias no promeiro ano e recebeu o Globo de Ouro no ano 2000.

Grandes cantores da música gospel a regravaram, alcançando sucesso nas vozes de Eyshila e Paulo César Baruk, entre outros, inclusive o padre Fábio de Melo. Grupos históricos, carismáticos e pentecostais, tanto no catolicismo quanto no protestantismo, entoam essa canção em seus cultos e celebrações. Ela tem sido cantada até mesmo por grupos afro-brasileiros e em rodas de pagode. Em 2022, a música ganhou maior projeção quando Kleber Lucas gravou um clip com um dos maiores cantores da música popular brasileira Caetano Veloso, que já se declarou ateu convicto.

A canção de Kleber Lucas conseguiu agradar tanto ao gosto do público no canto congregacional quanto nas programações de rádio. Ela compõem o imaginário da espiritualidade brasileira e orienta as práticas de oração e buscas de experiências de Deus de quem a ouve, pelo fato de a sua letra apontar para o o sentido teológico da presença divina.

Quando a Escritura declara que Deus cuida de nós, isso implica algumas definições teológicas fundamentais para o exercício da fé. Ela declara que o Deus da vida se faz presente entre nós em qualquer circunstância. É uma afirmação de que o Deus que é amor se faz comunhão e fortalece a crença e a esperança de que o Deus de Justiça age em favor da paz.

O Deus que cuida de nós está conosco é o mesmo que se afasta para que possamos compreendê-lo. O Deus onipresente muitas vezes se mostra ausente para que possamos cuidar de nós mesmos. O Deus que está próximo ao mesmo tempo está distante para que possamos busca-lo. A relação com Deus é sempre atravessada por uma tensão que envolve presença-afastamento, onipresença-ausência, proximidade- distância.

Experimentar o Deus que cuida de nós implica um exercício de aprendizado sobre quem Ele é, acolher o seu convite amoroso, desfrutar de seu cuidado e amar os espaços em que ele se revela. A canção nos traz essa proposta de espiritualidade de encontro com Deus, conosco e de comunhão.

Assista às mensagens da série “Deus Cuida de Mim: Não estamos sozinhos” em meu canal do Youtube>>: https://www.youtube.com/playlist?list=PL4NVfVIy5Bi7ZJ0eQhXMEB4vBOhP0RDlX ).

terça-feira, 10 de junho de 2025

O Reino em Família: Tudo começa em casa / The Kingdom in Family: It all starts at home / El Reino en Familia: Todo comienza en casa

Os valores do Reino de Deus são apontados nos evangelhos para que tenhamos uma vida mais humana no mundo. Assim como acontece em tudo oque diz respeito ao nosso desenvolvimento pessoal e às nossas relações interpessoais, tudo começa em família. Nesse sentido, o melhor lugar para aprendermos a colocar em prática os valores do Reino de Deus é a vida em família.

Os valores do Reino de Deus ensinados por Jesus nos ajudam a conviver melhor em família, na igreja e na sociedade. Eles estão voltados para práticas pouco enfatizadas na vida em comum, como a compaixão, a justiça, a esperança e o amor fraternal. Você não encontrará apelos para uma vida marcada por esses valores a não ser nas palavras de Jesus que falam do Reino de Deus.

Jesus convidou seus ouvintes para tomarem parte de seu Reino. Ao dizer que seu Reino era chegado, ele estava apontando para uma nova mentalidade que deve orientar a humanidade. O Reino de Deus é espaço para nos tornarmos mais humanos, com uma identidade própria e com mais consciência de quem somos.

Isso envolve um processo que chamamos de subjetivação, o qual construímos ao longo da vida, através de nossas relações com o mundo e uns com os outros. Donald Winnicott, em Tudo começa em casa, reconheceu que o ambiente familiar é importante para o desenvolvimento saudável de qualquer indivíduo. A casa e a família são o ponto de partida para a formação da personalidade, das relações sociais e da saúde mental.

Dessa forma, desenvolvemos o processo de subjetivação quando nos tornamos capazes de pensar, de sentir e de agir diante das condições de vida no mundo. As experiências em família são espelhadas na vida comunitária, formando a consciência crítica dos sujeitos a respeito do seu papel, a maneira de compreender o mundo e as formas de exercer influência para a vida em comum.

O caminho para a nossa construção como sujeitos passa pela vida em família. Ela é lugar de profundos aprendizados dos valores essenciais para a vida em comum. É nela que aprendemos a viver em comunhão. Da mesma forma, nela podemos aprender os valores do Reino de Deus como esse lugar de relações e de formação.

Algumas razões para compreendermos a importância do ambiente familiar para o nosso bem-estar:

- A casa é onde a vida começa e onde a vida se realiza.

- A casa é o nosso refúgio, o berço das nossas memórias e o palco dos nossos sonhos.

- O lar é o lugar onde nos sentimos seguros, amados e onde podemos ser nós mesmos.

- A casa é um espelho da nossa alma, mostrando o que somos e o que queremos.

- Em casa, aprendemos a amar, a perdoar, a respeitar e a construir relações sólidas.

Quando os valores do Reino de Deus são vivenciados em família, podemos compreender melhor o que é fundamental para a vida em comum na sociedade. A compaixão, a justiça, a esperança, o cuidado e a paz são valores essenciais para a vida em família que estão em sintonia com o que Jesus propôs como marcas da presença do Reino entre nós. São sinais que apontam para a prática do amor, do perdão e da reconciliação que podem ser aprendidos em família, mas que também fazem falta no mundo atual.

Na epígrafe de seu livro, Winnicot cita o trecho de uma poesia de T.S. Eliot:

“O lar é nosso ponto de partida. À medida que crescemos

O mundo se torna mais estranho, mais complexos os padrões

De morrer e viver. Não o momento intenso

Isolado, sem antes nem depois.

Mas uma vida ardendo em cada momento.”

Quando descobrimos a importância da vida em família para o desenolvimento e o bem-estar das pessoas, o ambiente familiar se torna mais acolhedor e propício a um relacionamento mais saudável. A família é como um pequeno reino, com suas próprias características e contextos, mas que pode ser reflexo do Reino maior, a fim de que seus membros possam se tornar cidadãos do Reino de Deus no mundo.

(Assista às mensagens da série O Reino em Família: Valores para a vida em comum >> em meu canal no Youtube).

sexta-feira, 6 de junho de 2025

Censo 2022: O Brasil se torna mais plural quanto à religião / Census 2022: Brazil becomes more religiously plural / Censo 2022: Brasil se vuelve más pluralista en lo religioso

Os dados preliminares do Censo Demográfico 2002: Religiões, divulgados pelo IBGE neste dia 6 de junho de 2025, revelam que o Brasil se tornou mais plural em termos religiosos. Levando em consideração os dados dos últimos censos, especialmente o de 2010, verifica-se que a diversidade religiosa é uma realidade em todo o país.

A cada época, o Brasil vai deixando de ser um país predominantemente cristão para se tornar um espaço em que todas as crenças vão ocupando novas posições no cenário religioso. Desde o primeiro censo, em 1872, em que a população do Brasil era formada por 99,7% de católicos, o aumento da diversidade tem avançado de tal modo que se constitui um desafio para a projeção do que poderá acontecer daqui para a frente.

Principais índices verificados:

a) Redução de 8,3 pontos percentuais dos Católicos, que saem de 65,0% em 2010, para atuais 56,7%, uma redução um pouco menor do que na década anterior que foi de 9,0 pontos percentuais.

b) Os evangélicos tiveram aumento de 5,2 pontos percentuais, passando de 21,7% em 2010 para 26,9% em 2022. Esse índice foi de 6,7% entre 2000 e 2010.

b) Aumento nas proporções das religiões Umbanda e Candomblé, que saíram de 0,3 % em 2010, para 1,0%, em 2022, um aumento de 0,7 pontos percentuais.

c) Aumento de 1,3 pontos percentuais entre 2010 e 2022 dos que se declararam Sem Religião, passando de 7,8% para 9,3%.

d) Declínio na religião Espírita de 0,3 pontos percentuais, passando de 2,1% para 1,8%.

(Fonte: IBGE).

Em algumas regiões, esses índices apresentam variações. Por exemplo, as regiões Norte e Centro-Oeste têm maior concentração de evangélicos. O Acre é o estado com maior percentual de evangélicos no país. O catolicismo é maioria em todas as regiões, mas tem maior concentração nas regiões Nordeste e Sul. Os estados com maior número de católicos são Piauí e Ceará. Espíritas e seguidores de religiões afro-brasileiras têm maior concentração no Sul e no Sudeste e a maioria dos Sem Religião estão no Sudeste.

Outro dado importante apontado nessa amostra preliminar é a participação de negros e brancos nos grupos religiosos. A religião mais negra do Brasil continua sendo a evangélica. Das pessoas que se declararam pretas, 30% se identificaram com a religião evangélica e 2,3% com as religiões afro-brasileiras. Entre os que se declararam pardos, 29,2% se declararam evangélicos. Esse percentual chega a 32,2% da população indígena que se declara evangélica.

A tendência verificada em 2010 do aumento do grupo de pessoas que se declara Sem Religião continuou nessa amostra do Censo 2022. Hoje, de cada 10 brasileiros, 1 afirma ser Sem Religião. Se juntarmos os grupos católicos e evangélicos, verifica-se que o número de cristãos vem caindo a cada censo, contando atualmente com 56,7% da população. Isso se deve a dois fatores: a queda do 8,4 pontos percentuais de católicos em relação ao 2010 e o crescimento de 5,2% dos evangélicos, considerado abaixo do esperado tendo em vista que a população cresceu 6,5% no mesmo período.

Os dados do censo também levantaram o nível de instrução por religião. O número de pessoas que se declarou sem instrução e que possui apenas formação no ensino fundamental constitui a maioria em todas as religiões, exceto entre os Sem Religião e os Espíritas. Estes últimos têm o maior índice de participantes com curso superior completo e o menor índice dos que não têm instrução.

Esses números apontam para alguns fatos importantes:

a) O Brasil caminha para deixar de ser um país predominantemente cristão para ser marcado pelo pluralismo religioso.

b) Tanto o pluralismo religioso e quanto a multiculturalidade emergem como valores sociais que devem orientar a formação de um estado laico onde todas as crenças e tradições religiosas possam ter espaço.

c) O fenômeno do pluralismo religioso e a laicidade não significam o fim da religião, mas atestam o fato de que o povo brasileiro continua sendo um povo religioso.

d) As religiões católicas e evangélicas têm o grande desafio de investir na formação dos seus membros.

e) A diversidade da religião evangélica no Brasil não foi contemplada nessa mostra preliminar. O IBGE ainda não divulgou o percentual por denominação nem o índice dos que se declaram sem vínculo com uma igreja.

f) As mulheres continuam sendo predominantes em todos os grupos religiosos.

Os dados divulgados são preliminares e, por isso, não permitem um diagnóstico mais abrangente da condição religiosa dos brasileiros. Porém, é possível perceber que há uma mudança sensível no comportamento religioso, em que as pessoas se sentem mais à vontade para falar de suas crenças e assumir sua pertença religiosa. É um novo cenário que emerge, resultado de uma mudança cultural que substitui o catolicismo hegemônico pela diversidade religiosa. Essa tendência pode também interferir nas decisões políticas do país, com a influência cada vez maior dessas novas expressões.

Imagens: IBGE

quinta-feira, 8 de maio de 2025

Papa Leão XIV: promessa de diálogo e continuidade de uma Igreja de Portas Abertas / Pope Leo XIV: promise of dialogue and continuity of a Church with Open Doors / Papa León XIV: promesa de diálogo y continuidad de una Iglesia de puertas abiertas

 

Na tarde deste dia 9 de maio de 2025, o Conclave elegeu, em seu segundo dia, o norte-americano Robert Francis Prevost como o 267° Papa da Igreja Católica Apostólica Romana. Uma surpresa para os melhores vaticanistas, que apostavam em nomes mais conservadores. O Cardeal Prevost não constava da lista dos principais prováveis sucessores de Francisco. Eleito Papa, adotou o nome de Leão XIV e tornou-se o primeiro papa americano e o primeiro agostiniano.

Embora pouco conhecido nos meios eclesiástico, Prevost tem um passado marcado por uma atuação pastoral significativa. Serviu como religioso na América Latina, especialmente no Peru. Considerado jovem para o pontificado (tem 69 anos), é também visto como um conciliador moderado e apoiador dos princípios reformistas de Francisco. É um Papa americano, mas com coração latino. Nascido em Chicago, tornou-se cidadão peruano.

Ouvi com atenção seu primeiro discurso na sacada da basílica de São Pedro. Alguns pontos me chamaram muito a atenção pelo fato de serem indicadores de como deverá ser seu pontificado. O primeiro deles foi o desejo pela paz, num tempo em que o mundo enfrenta dois conflitos graves (a guerra da Ucrânia e a destruição do povo palestino na guerra de Israel contra o Hamas), além da ameaça de uma nova guerra de proporções mundiais. Ele frisou que deseja uma paz “desarmada e desarmante”, na contramão da corrida armamentista das nações do mundo.

O novo Papa também apontou seu desejo de dar continuidade à construção do caminho da sinodalidade e de uma igreja de portas abertas, dois legados de Francisco. O seu discurso lembrou bastante as orientações que emanaram da Conferência Episcopal de Aparecida, em 2007, com a ênfase à ação missionária, comprometida com as condições concretas de vida das comunidades locais. Demonstrou claramente que deseja uma igreja que seja capaz de diálogo, que construa pontes, e não muros, que esteja sempre próxima aos que sofrem.

Leão XIV também fez questão de afirmar sua condição de um agostiniano, como “filho de Santo Agostinho”. O lema dessa ordem religiosa, criada no século XIII, se baseia na declaração: “No Único, somos um só”, expressão do ideal de ser uma igreja com um só coração e uma só alma, como a Bíblia registra sobre a vida dos primeiros cristãos: “Da multidão dos que creram, uma era a mente e um o coração [...]” (Atos 4.32). É bom ressaltar que as regras de vida monástica escritas por Santo Agostinho enfatizavam a pobreza, a comunhão, a oração e o silêncio.

O nome Leão não é uma escolha de pouca importância. Lembra o pontificado de Leão XIII, no final do século XIX, quando foi estabelecida a Doutrina Social da Igreja, com ênfase no bem comum, na solidariedade, na Justiça e na dignidade da pessoa humana. Ao expor a proposta de uma sociedade mais justa, a encíclica Rerum Novarum  rejeitou as doutrinas marxistas e condenou o capitalismo explorador. Mas o nome lembra também o primeiro Leão, o Magno, no século V, que ampliou o poder do Bispo de Roma e atuou para a afirmação da Cristologia ocidental com base na teologia de Santo Agostinho.

Diante do cenário geopolítico mundial, não há como falar da eleição de um papa americano sem mencionar a figura do atual presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Leão XIV deixou implícito em sua fala que não apoia a atual política norte-americana em relação aos imigrantes, à construção de muros nas fronteiras e à imposição de barreiras tarifárias que afetam a economia mundial. O novo Papa demonstrou que está muito mais próximo da realidade latino-americana do que do imperialismo estadunidense.

É um sinal claro de que a Igreja de Roma se voltou para a América Latina e que consolida a influência do Sul Global. Parte do seu discurso foi em espanhol, inclusive. A teologia latino-americana já vem ganhando força com o pontificado de Francisco, apontando para o cuidado da criação e para a abertura aos mais vulneráveis. Que novos ventos soprem e continuem a soprar para que tenhamos um cristianismo de mente e coração mais abertos para as aflições humanas.

segunda-feira, 21 de abril de 2025

Legados de Francisco: o papa que encarnou o evangelho ao mundo / Legacies of Francis: The Pope Who Incarnated the Gospel to the World / Legados de Francisco: El Papa que encarnó el Evangelio al mundo

Encerrou-se na manhã deste dia 21 de abril de 2025 a trajetória do primeiro papa jesuíta, devoto de Francisco de Assis, primeiro papa não europeu depois de 1200 anos e o primeiro papa latino-americano. Com o falecimento do Papa Francisco, a Igreja Católica Apostólica Romana é chamada a repensar sua própria natureza e missão ao se preparar para o processo de escolha de seu novo pontífice.

Nascido Jorge Mario Bergoglio (nasceu em 17 de dezembro de 1936, em Buenos Aires, Argentina) e tornado Francisco ao ser eleito, ele proporcionou ao mundo uma oportunidade de repensar os caminhos da igreja como povo de Deus, sua identidade como corpo de Cristo e sua mensagem de misericórdia para um mundo em permanente conflito. Seu pontificado durou 12 anos, 1 mês e 8 dias (foi eleito em 13 de março de 2013). Nesse tempo, o mundo experimentou o aumento dos efeitos da crise ambiental e climática, enfrentou uma pandemia, assistiu a Rússia invadir a Ucrânia e aos ataques de Israel contra o povo palestino em sua guerra contra o Hamas.

Os temas morais envolvendo o divórcio, a união de casais do mesmo sexo, a participação religiosa das mulheres, a questão LGBTQIA+, a eutanásia e a eucaristia aos recasados ainda foram tratados pelo viés conservador. Porém, a preocupação com a justiça social, a defesa de uma economia mais solidária em vez do capitalismo neoliberal e o diálogo ecumênico e inter-religioso foram marcas de seu magistério.

Francisco será sempre lembrado por tendências significativas para a ação da igreja nesse tempo. A primeira delas é a preocupação em ser uma igreja pobre para os pobres. Sua opção preferencial pelos pobres se refletia na simplicidade de seu pontificado. Outra tendência é ser uma igreja em saída, com a ênfase na sinodalidade e no diálogo com o mundo. Os documentos que publicou (Evangelii Gaudium, Fratelli tutti, Gaudete et exultate, Laudato si e Lumen Fidei) apontam para um cristianismo misericordioso e fraterno, preocupado com a formação de uma cultura do encontro. Há ainda a tendência de se assumir um compromisso com o cuidado de nossa casa comum.

O novo papa que deverá ser escolhido nos próximos dias terá o grande desafio de, no mínimo, continuar o legado de Francisco. A igreja não consegue mais esconder os graves problemas que envolve sua pesada estrutura no mundo. A influência do ultraconservadorismo também afeta a cúria romana, tanto que as análises a respeito do sucessor de Francisco apontam tanto para o retrocesso quanto para o avanço progressista. Pelo menos por ora, é momento de lamentar essa perda, agradecer pela oportunidade de conviver com alguém que encarnou o evangelho e orar pelo consolo aos católicos e cristãos de todo o mundo.

quinta-feira, 11 de julho de 2024

Formas de amar: O amor é uma expressão plural / Ways of loving: Love is a plural expression / Formas de amar: El amor es una expresión plural

 

O amor é a marca distintiva da fé cristã. É impossível imaginar um cristão que não seja capaz de amar. O amor é essa força que nos aproxima uns dos outros e faz com que possamos viver em comunidade.

A Bíblia aponta gestos e atitudes que podem ser colocados em prática que fazem com que possamos nos aproximar uns dos outros, criando uma realidade vivencial em que todos e todas possam se sentir acolhidos e amados.

Jesus deixou seu mandamento de amor que é válido para todos os seres humanos, não só para os seguidores de Jesus. O cristão tem o dever de amar, porém essa é uma atitude que faz falta para toda a humanidade. Uma das críticas mais fortes contra a igreja nos dias atuais é que ela fala tanto do amor, mas pouco pratica.

Para que possamos colocar o amor em prática, precisamos ir além das palavras, transformando o amor em uma atitude. Que atitudes podem evidenciar o amor? O Novo Testamento possui quatro palavras que descrevem práticas que demonstram que de fato a gente ama. São atitudes que só podem ser realizadas se houver amor.

As palavras são: comunhão, uns aos outros, compaixão e fraternidade. São quatro atividades que cristãos devem desenvolver como formas de expressar o amor. São práticas que produzem laços fortes de unidade e de aproximação uns dos outros.

Essas expressões trazem consigo a ideia de que existem várias formas de amar, de que toda forma de demonstrar amor é válida. Existem outras práticas que também demonstram o amor de forma prática, como a solidariedade, a generosidade, o cuidado com a criação, a disposição de servir, a defesa da justiça, a promoção da paz e até a democracia.

O amor é uma atitude plural, que comporta diferentes maneiras de ser demonstrado de forma prática. Ele não pode ser formatado em um conjunto de regras e de obrigações. Por isso que a melhor forma de demonstrar amor é através dos gestos e atitudes. Pessoas que amam de fato são conhecidas por seu compromisso de caminhar em direção ao outro.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2023

Fé cristã e esfera pública: uma hermenêutica a partir de Romanos 13.1 / Christian faith and the public sphere: a hermeneutics from Romans 13.1 / La fe cristiana y la esfera pública: una hermenéutica desde Romanos 13.1 /

A ética baseada no amor envolve uma expressão pública. Isso quer dizer que a vida pela fé tem implicações sociais e políticas. A nossa atuação como cristãos nos espaços públicos deve corresponder a uma cidadania consciente.

Todos devem sujeitar-se às autoridades governamentais, pois não há autoridade que não venha de Deus; as autoridades que existem foram por ele estabelecidas” (Romanos 13.1).

A ação cristã não é anarquista, subversiva, fascista ou totalitária. Entretanto, ela não é acrítica, indiferente ou alienada. Ela promove a cidadania responsável e consciente, está ao lado da justiça e do direito e coopera com a sociedade para a superação daquilo que lhe causa mal.

Paulo lembra o papel do Estado e do cidadão:

a) Papel do Estado: cuidar do bem comum como expressão do cuidado divino.

[... A autoridade] serva de Deus, agente da justiça para punir quem pratica o mal” (Romanos 13.4).

b) Papel do cristão como cidadão: cooperar com o Estado para a realização do bem comum.

“[...] é necessário que sejamos submissos às autoridades, não apenas por causa da possibilidade de uma punição, mas também por questão de consciência” (Romanos 13.5).

A recomendação para a “submissão” às autoridades não é universal, absoluta ou cega. Mas uma atitude crítica em relação às leis vigentes e os propósitos divinos. Não cabe ao cristão uma submissão subserviente ao Estado totalitário, tirano, ditatorial ou despótico.

A desobediência civil passa a ser um dever cristão diante de leis injustas, quando o Estado deixa de cumprir o seu papel e quando os critérios políticos estão distantes dos valores do Reino de Deus. Desobediência civil não é rebelião, mas resistência à opressão promovida pelo Estado.

Exemplos de desobediência civil: Mahatma Gandhi, Martin Luther King Jr. e Desmond Tutu, que eram religiosos.

(Extraído da apostila Espiritualidade Contagiante: Estudo bíblico na Carta aos Romanos, disponível em PDF no blog da igreja da Orla Oceânica: http://orlaoceanica.blogspot.com/p/lideranca.html

sexta-feira, 23 de dezembro de 2022

O anúncio do primeiro Natal: Esperança, alegria e paz para toda a humanidade / The announcement of the first Christmas: Hope, joy and peace for all humanity / El anuncio de la primera Navidad: Esperanza, alegría y paz para toda la humanidad

A primeira experiência de anúncio do nascimento de Jesus aconteceu de uma forma extraordinária: criaturas celestiais apareceram a pessoas humildes. A narrativa desse episódio encontra-se em Lucas 2.1-14 como parte do registro histórico do nascimento do menino Jesus. Nesse texto, dos versículos de 1 a 7, Lucas faz um relato objetivo sobre os episódios em torno do evento. Nos versículos de 8 a 14, encontra-se o relato de como se deu o primeiro anúncio desse acontecimento que mudou a história da humanidade.

O anúncio começa com a visita de um mensageiro especial e culmina com o canto conhecido como Gloria in Excelsis. A presença do anjo anunciador é acompanhada do resplendor da glória de Deus, o que conferiu ao anúncio do evento um grande significado.

A figura dos anjos na Bíblia é sempre envolta por mistérios. Eles são tratados como mensageiros de Deus aos homens. A presença do anjo é marcada pela relação entre luz e trevas: a glória divina resplendece em meio à escuridão da noite, como uma metáfora da luz divina que invade em meio às trevas humanas. Os pastores eram gente do povo, cuja profissão era considerada imunda pela tradição religiosa. Eles eram desprezados e nem podiam servir de testemunha em julgamentos.

Assim Lucas conta como isso se deu: E aconteceu que um anjo do Senhor apareceu-lhes e a glória do Senhor resplandeceu ao redor deles [...]” (Lucas 2.9). A notícia do Natal foi dada primeiramente por criaturas dotadas de uma extraordinária capacidade de relação com Deus, e foi destinada a gente desprezada e excluída, para pessoas que não eram consideradas dignas para a sociedade.

O anúncio do Natal foi feito a partir de três mensagens simples e objetiva. A primeira mensagem do Natal é: “[...] Não tenham medo [...]” (Lucas 2.10), que remete ao fato de que o anúncio do nascimento de Jesus traz a força que vence o medo, a esperança que vence a angústia. A segunda mensagem é: “[...] Estou lhes trazendo boas novas de grande alegria [...]” (Lucas 2.10). Lembra-nos que esse anúncio renova o ânimo e restaura a alegria de quem se encontra excluído e marginalizado. E a terceira mensagem é: “[As boas novas de grande alegria] são para todo o povo” (Lucas 2.10), para deixar bem claro que o anúncio é para toda a humanidade.

A boa notícia de grande alegria é que o Salvador nasceu como um de nós, ele se fez nosso irmão, gente como a gente. O eterno se fez história. O sobrenatural se tornou parte da criação. O transcendente agora está presente entre nós. Assim o anjo proclamou: Hoje, na cidade de Davi, lhes nasceu o Salvador que é Cristo, o Senhor” (Lucas 2.11).

Ao anunciar o nascimento de Jesus, o anjo concedeu a ele três títulos: o de Salvador, que lembra a obra restauradora de Deus para quem se encontra perdido; o de Cristo, que se refere ao ungido de Deus, o Messias prometido, aquele que vem cumprir a missão de Deus; e o de Senhor, que é o título atribuído ao próprio Deus em toda a Escritura.

Havia também um sinal para a checagem de que aquela notícia era verdadeira, com representações humanas e simples: “[...] encontrarão o bebê envolto em panos e deitado numa manjedoura” (Lucas 2.12). O Deus todo-poderoso se fez frágil como uma criança, carente de cuidado e acolhida.

Em seguida a esses acontecimentos, um coro angelical entoa um hino contendo três versos breves. Esse hino é uma exaltação a Deus pela obra redentora, que se dá a partir da pessoa de Jesus Cristo. Eles cantaram: Glória a Deus nas alturas, e paz na terra aos homens aos quais ele concede o seu favor” (Lucas 2.14).

Os versos desse hino angelical falam de três aspectos da revelação de Deus em Cristo. O primeiro é o fato de que o Natal é a lembrança do Deus que vem a nós. A essência do Natal é a encarnação de Deus em Cristo. O segundo é o fato de que o Natal é um convite para que todos nós possamos experimentar a paz. A salvação consiste na libertação de tudo aquilo que nos oprime, nos aflige e nos distancia de Deus. E o terceiro tem a ver com o fato de que o Natal é uma proposta de nova vida como pessoas. A mensagem da salvação restaura a alegria e a esperança, renova as nossas forças para seguir em frente.

O Natal tem uma mensagem viva para toda a humanidade, de que Deus se importa conosco, mesmo sendo humildes e desprezados. Foi para isso que a graça foi revelada, para dizer para todos e todas que é possível experimentar a vida de outro modo, como nova criação, a partir da relação e compromisso com a pessoa de Jesus.

sábado, 19 de novembro de 2022

Racismo e Reforma Protestante / Racism and Protestant Reformation / El racismo y la Reforma Protestante

O protestantismo assistiu a história da escravidão negra com um misto de crítica, de passividade e de silenciamento em relação às práticas que produziram toda sorte de desumanidade, genocídio e preconceito. Poderíamos afirmar que os vínculos com o racismo são históricos, quer seja por uma relação conivente com a formação do discurso racista, quer seja pela omissão em seu combate, quer seja pela sua validação.

Embora teólogos como John Wesley tratassem a escravidão como uma aberração, não foram poucos que encontravam justificativas bíblicas para a dominação, assim como não foram poucos os líderes religiosos que se calaram diante da violência contra indígenas e negros, tanto na América Latina quanto na África.

A escravidão negra foi um empreendimento global levado a efeito, sobretudo, a partir do interesse de nações de base protestante, como a Alemanha, a Holanda, a Dinamarca e a Inglaterra. Entretanto, a efetivação de seu emprego se deu a partir das colônias controladas por nações católicas e protestantes, incluindo-se a França, a Espanha e Portugal.

Para entender a dinâmica do racismo em meio às teses reformistas de liberdade e de afirmação dos princípios das Escrituras que proclamam a universalidade da condição humana, é preciso levar em conta o que estava por trás de toda argumentação. Podemos apontar três questões teológicas que afetam a relação do protestantismo e a escravidão negra.

A primeira questão é de natureza antropológica: o que é o ser humano? É preciso observar o modo como a cultural ocidental desenvolveu a identificação do negro como pessoa de segunda categoria, com limitações intelectuais e espirituais. O Vaticano levou quase dois séculos discutindo se o indígena na América Latina poderia ser considerado como ser humano. Ainda no século XIX, antropólogos funcionalistas discutiam se os negros do Sul da África eram algum elo perdido no desenolvimento do Homo Sapiens.

A segunda questão é de natureza política: o que é colonização? O processo de colonização é uma invenção do capitalismo moderno, como base no liberalismo econômico, que definia os territórios conquistados como propriedade dos conquistadores. A colonização foi definida por três construtos ocidentais: o capitalismo, o patriarcado e o cristianismo.

E a terceira é de natureza moral: o que é pecado? A partir da ideia de que não há pecado ao sul da linha do equador, houve uma licença para toda sorte de exploração, dominação e extermínio dos povos originários dos territórios conquistados. Primeiramente com a lógica do escravagismo, que define o trabalho como castigo e punição. O trabalho é para negros. Quem não se submete ao trabalho servil é indolente e preguiçoso. Aos brancos, porém, cabe serem sustentados pelo Estado. Posteriormente, essa mentalidade se converteu em cerceamento dos direitos do trabalho e supervalorização do rentismo.

A relação entre protestantismo e escravidão envolve as perspectivas políticas e econômicas que sustentam o racismo, a intolerância às religiões de matriz africana, o preconceito e violência contra a mulher e a rejeição das pautas que colocam em risco a hegemonia branca e ocidental.

O supremacismo branco, o racismo, a xenofobia e outras intolerâncias e preconceitos que neguem, anulem ou apaguem a diversidade humana são incompatíveis com a mensagem do evangelho. Quando a Bíblia afirma que Deus amou o mundo de tal maneira, isso implica compreender cada pessoa em sua condição, respeitando a beleza da multiforme condição humana.

O caminho do pluralismo e do respeito à diversidade reclama um diálogo a partir das epistemologias do Sul, que implica a decolonização de todo o saber que dá validação à intolerância e ao racismo, que resgate os valores dos povos originários da América Latina e das comunidades tradicionais formadas pelos povos africanos.

Foto: Estadão, 2015.

(Texto apresentado durante a Consulta Teológica FTL Brasil “Revisitando a Reforma Protestante desde a América Latina”, em 19/11/2022).

quinta-feira, 20 de outubro de 2022

Novo E-book: Bem Viver, Decolonialidade e Cuidado com a Criação / New E-book: Good Living, Decoloniality and Care for Creation / Nuevo E-book: Buen Vivir, Decolonialidad y Cuidado de la Creación /

A vida está em risco. Porém, a saída não será encontrada se a matriz filosófico-teológica não for encarada com a devida seriedade. A solução para a crise ambiental é acima de tudo moral, pois diz respeito às nossas relações com o meio ambiente. Sendo assim, precisamos ter uma resposta a respeito do que estamos fazendo com a vida que temos. Do ponto de vista cristão, é preciso resgatar o sentido original da criação, em que a vida é dádiva que precisa ser cuidada e preservada. Nesse sentido, precisamos de uma teologia da criação que diga que toda forma de vida importa. A vida é o espaço sagrado onde Deus habita. Toda forma de vida importa para Deus porque ele está nelas.

É nesse contexto de compreensão que emerge o campo epistemológico do Bem Viver, do pensamento decolonial e do cuidado com a Criação.

Este livro é resultado de um trabalho de investigação sobre religião e Teologia na América Latina desenvolvido ao longo dos anos últimos anos.

São considerados três eixos de compreensão a respeito da proposta de leitura e diálogo teológico a partir da vivência e o contexto da América Latina: o do Bem Viver, o da decolonialidade e o do cuidado da vida.

Ao final, são apresentadas propostas de abordagens teológicas a partir das epistemologias do Bem Viver, da decolonialidade e do cuidado com a vida. A primeira delas, relacionada com os discursos de Jesus numa perspectiva do Bem Viver e do pensamento decolonial. A segunda, sobre a proposta de uma teologia da criação a partir da ética do Cuidado com a Criação.

Bem Viver, Decolonialidade e Cuidado com a Vida: Teologia Pública em diálogo a partir da América Latina
Investimento: R$ 9,99 (aproximadamente US$1,90, dependendo da cotação)
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domingo, 18 de abril de 2021

Jesus e as sinagogas / Jesus and the synagogues / Jesús y las sinagogas

 

Ensinava nas sinagogas, e todos o elogiavam” (Lucas 4.15).

Jesus usou os espaços religiosos de seu tempo para `compartilhar a sua mensagem. Ele o fez como um cidadão, como um religioso e como o Messias. Jesus participava de uma comunidade e praticava uma religião. Ele era da região da Galileia, da pequena cidade de Nazaré, e era um judeu.

Embora os evangelhos façam menção diretamente às sinagogas de Cafarnaum e Nazaré, duas cidades da região da Galileia, Jesus estava familiarizado com a frequência a esse espaço de devoção do judaísmo.

As sinagogas são espaços de devoção e de espiritualidade dos judeus até os dias atuais. Elas foram criadas provavelmente após a destruição do primeiro templo, por volta do ano 586 a.C., para ser um espaço de oração e de leitura das Escrituras. No tempo de Jesus, era o segundo lugar mais importante para o exercício da espiritualidade judaica, ficando atrás apenas do templo. Por essa razão, muitas vezes foi chamada de pequeno santuário.

No tempo de Jesus devia haver centenas delas espalhada por todo o território de Israel. Estima-se que só em Jerusalém houvesse cerca de 400 sinagogas. Para que surgisse uma sinagoga, era necessária a presença de pelo menos dez homens da fé judaica. Com a diáspora, esse costume também se espalhou nos lugares em que os judeus estabeleciam suas comunidades.

As sinagogas deveriam possuir três elementos essenciais: a urna para conter os livros sagrados, uma lâmpada acesa permanentemente como símbolo da instrução das Escrituras e o púlpito onde as Escrituras eram lidas. Os oradores da sinagoga eram rabinos que possuíam experiência no exercício de interpretação das Escrituras, que consistia nos livros da Torah (os livros da lei), nos livros poéticos (especialmente o de Salmos) e nos profetas.

As reuniões das sinagogas começavam com a recitação do shema: que é a referência a Deuteronômio 6.4: “Ouça, ó Israel: O Senhor, o nosso Deus, é o único Senhor”. A espiritualidade judaica compreendia que ali era o lugar do encontro com o sagrado, para ouvir o que Deus tem a falar.

Jesus demonstrou familiaridade com os hábitos das sinagogas e era tratado como rabi ou rabino, um mestre que podia falar durante os atos cerimoniais. Jesus também demonstrou que era uma pessoa letrada, conhecedora do idioma hebraico, que tinha condições de fazer leituras públicas a partir de traduções orais dos textos bíblicos, conhecidas como targuns. E que tinha autoridade para interpretar as Escrituras.

Isso nos leva a compreender que Jesus não rejeitou a religião, mas a ressignificou. A religião não é apenas um sistema de controle e de domínio, como uma estratégia de poder, embora ela tenha sido usada pelas estruturas de poder ao longo dos tempos – inclusive nos dias atuais. Ela é uma experiência humana de encontro consigo, que estimula a transcendência e a descoberta de si. Jesus tratou os espaços religiosos não mais como espaços de interdição, mas de transformação, de libertação e de construção de nossa humanidade.

Por essa razão, Jesus não se identifica com o homo religiosus de Mircea Eliade, mas com o humano, demasiadamente humano (conforme o título da obra de Nietzsche), como aquele que compreende que a vida toda é sagrada, que o humano está acima dos rituais e que a história é o tempo de construção de nossa existência.

Os evangelhos registram quatro momentos de Jesus discursando nas sinagogas: Marcos 1.21-27, correlato com Lucas 4.31-37; Marcos 3.1-6, correlato com Mateus 12.9-13; Lucas 4.16-22, correlato com Marcos 6.16 e Mateus 13.53-58; João 6.51-59. Em cada uma dessas ocasiões ele aproveitou para pregar sobre temas que estavam ligados à vivência humana, valorizando sempre a dignidade da pessoa, em detrimento do cerimonial.

A intimidade de Jesus com a sinagoga pode ser percebida em outras situações narradas nos evangelhos, como a cura da filha de Jairo, o chefe da sinagoga, em Marcos 5.21-43, Mateus 9.18-26 e Lucas 8.40-56. Para Jesus, a sinagoga era espaço de compartilhamento da boa notícia do amor de Deus (Mateus 4.23, Mateus 9.35, João 18.20), de cura para as dores humanas (Lucas 13.10-17), de construção de nossa identidade (Lucas 7.4-50), de confrontação com a religiosidade hipócrita (Mateus 6.2 e 5, João 12.42), de enfrentamento das formas de dominação (Marcos 12.39, Mateus 23.6, Lucas 11.43, Lucas 20.46, João 9.22) e de espaço de testemunho e martírio (Marcos 13.9, Mateus 10.17, Mateus 23.34, Lucas 4.24-30, Lucas 12.11, Lucas 21.12, João 16.2).

As comunidades cristãs primitivas procuraram reproduzir a experiência das sinagogas. Muitas vezes, igrejas cristãs nasceram a partir dos ensinos de Paulo nas sinagogas espalhadas pelo mundo greco-romano. Refletir sobre a experiência cristã nos espaços religiosos nos remete ao diálogo necessário entre religião e espiritualidade, vida religiosa e vida intramundana. Esse foi o exemplo deixado por Jesus.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

Quaresma, Diálogo e Compromisso: Focos da Campanha da Fraternidade 2021 / Lent, Dialogue and Commitment: Focus of the 2021 Fraternity Campaign / Cuaresma, Diálogo y Compromiso: Enfoque de la Campaña Fraternidad 2021

 

A Campanha Ecumênica da Fraternidade 2021, que começa hoje, enfatiza o diálogo e o compromisso da prática do amor fraternal como tema orientador, a fim de que cristãs e cristãos possam refletir sobre missão e prática no mundo. A campanha é liderada pela CNBB – Conferência Nacional dos Bispos do Brasil e pelo CONIC – Conselho Nacional de Igrejas Cristãs, entidades representativas de segmentos cristãos brasileiros, incluindo tanto o catolicismo romano quanto denominações protestantes.

A campanha é realizada anualmente pela CNBB durante o tempo da Quaresma, que no calendário religioso começa na quarta-feira de cinzas e se encerra no período da Páscoa. Desde o ano 2000, a cada cinco anos, a campanha também assume a forma ecumênica, com a participação de outros segmentos cristãos, abordando temas humanos e com o objetivo de valorizar o que há de comum entre as comunidades cristãs.

O objetivo da Campanha é “pensar, avaliar e identificar caminhos para a superação das polarizações e das violências que marcam o mundo atual”, como diz o texto base divulgado. A proposta é de fazer isso sob a inspiração do cuidado amoroso de Cristo que motiva a todas e todos ao diálogo e à vida em unidade em meio à diversidade. A base bíblica para esse propósito da campanha é a palavra do apóstolo Paulo que afirma que “[Jesus Cristo] é a nossa paz, o qual de ambos fez um e destruiu a barreira, o muro de inimizade” (Efésios 2.14).

Os organizadores assumem o desafio de denunciar a violência que é praticada em nome da fé, encorajar a prática da justiça que restaura a dignidade das pessoas, estimular ações concretas de amor pelo outro, promover a cultura do amor em vez da cultura do ódio e fortalecer a convivência ecumênica e o diálogo inter-religioso. Em tempos de pandemia, esses desafios envolvem o enfrentamento dos discursos negacionista, de violência contra a mulher e população LGBTQI+, de preconceito e intolerância, sobretudo em relação ao negro e as pessoas dos segmentos progressistas. São situações que ganharam novos contornos com o avanço da extrema-direita ao governo.

Ao tratar dessa forma o tema da fraternidade e do diálogo, a campanha deste ano foi antecedida por uma manifestação hostil de grupos católicos fundamentalistas e ultraconservadores contra ela. Tais grupos têm demonstrado toda sua animosidade ao realizar uma contracampanha com o sentido de lançar ataques ao ecumenismo e ao esforço de lutar por um mundo mais justo e humano para todas e todos.

Parece ironia, mas enquanto há cristãos que procuram formas de unir as pessoas em torno do bem comum, da solidariedade e da comunhão, existem outros dispostos a promover a desunião e a incentivar o ódio de forma impiedosa, com uso de desinformação (as chamadas fake news) e com discursos reacionários que se utilizam de ideias fascistas. São religiosos que praticam uma fé anacrônica e descontextualizada, que não admitem a convivência com o outro e o diferente, nem mesmo quando são informados que essa é a proposta da prática do amor fraternal anunciada pelo próprio Cristo que afirmam seguir.

A ideia da fraternidade é um convite a viver o Evangelho de forma integral em dias tão difíceis como estes que estamos vivendo. O tema da campanha deste ano, bem como seus objetivos e propostas de engajamento, mostra o caminho de uma igreja comprometida com as pessoas deste tempo, atenta aos problemas emergentes decorrentes da mentalidade consumista, exploradora e dominadora que vem influenciado as políticas e as formas de organização da sociedade.

Serão 40 dias de promoção da fraternidade e do amor fraternal. Em tempos de tantas animosidades, soa como vento fresco a expressão de cristãs e cristãos que procuram viver o evangelho de Jesus de Nazaré de forma mais humana e voltada para as necessidades dos mais vulneráveis, dos pobres e dos injustiçados. Ao colocar o dedo na ferida, já era de se esperar a reação daqueles que se entregaram aos extremismos que promovem o ódio e a segregação. Mas, como afirma a nota do presidente da CNBB: “Não desanimemos. Não desistamos. Unamo-nos”.

sábado, 16 de janeiro de 2021

A essência da santidade: a profecia de Amós / The essence of holiness: Amos' prophecy / La esencia de la santidade: La profecía de Amós

 

“[...] A nação não suportará as suas palavras” (Amós 7.10) 

Amós foi um profeta divisor de águas no profetismo do Antigo Testamento. Sua profecia revela que Deus está ao lado dos mais pobres, das vítimas de uma sociedade injusta. Ele declara a santidade divina e conclama o povo de Israel a restaurar sua aliança com Deus. Essa é a essência da proposta de santidade: a proximidade a Deus restaura as nossas relações humanas.

Amós não era um profeta profissional e não pertencia a nenhuma ordem religiosa. Era um homem simples que vivia a realidade social do seu tempo. Ela sabia na prática dos problemas enfrentados pelas pessoas das classes dominadas, os trabalhadores e os mais pobres. Ele percebia as injustiças cometidas pelas autoridades religiosas, jurídicas e políticas. E ele verificava como as classes superiores ostentavam a riqueza obtida pela exploração dos mais pobres.

Amós não profetizou a partir dos palácios. Ele falou com base em sua vivência cotidiana. Esse é um novo modo de fazer profecia, que não se dá a partir da vida palaciana. Os governos de Judá e Israel experimentavam um período de expansão territorial e econômica, mas ao mesmo tempo se distanciavam das necessidades das populações mais carentes, retirando direitos dos trabalhadores e dos mais pobres. Ele enfrentou um poder político consolidado, forte e centralizador, que associava política e religião. Os ricos e poderosos desse tempo viviam uma religiosidade aparente, praticantes que eram de uma religião com um discurso que agradava à elite dominante. A religião era usada para justificar os atos de injustiça, de opressão e de extorsão.

A profecia de Amós denunciava a religiosidade hipócrita, a prosperidade social e econômica construída a custa dos mais pobres e a falta de justiça no cuidado com os direitos dos mais vulneráveis. Essa forma de profetizar propunha uma nova ética baseada no amor de Deus. Na sua mensagem, ele proclamou um Deus que se opõe ao sistema opressor dominante, que viola direitos, que cerceia a liberdade e oprime o outro. Esse Deus está disposto a destronar os poderosos, a aniquilar toda trama sórdida que destrói esperanças e permite toda sorte de pecados sociais. Amós declarou: “[...] Mas vocês transformaram o direito em veneno, e o fruto da justiça em amargura” (Amós 6.12).

Amós é o modelo de santo para esses tempos de avanço do neoliberalismo e das forças extremistas que tentam impor regimes de exceção, que viola direitos, que promove o ódio contra os opositores e pratica atos de preconceito e de injustiça. Milton Schwantes diz, em seu livro A terra não pode suportar suas palavras, que o modo de vida de Amós possui relevância sobre sua conduta como profeta. Ele era alguém que se sustentava com os recursos obtidos em seu próprio trabalho. “[...] Seu trabalho dá autenticidade a suas palavras. Entre o Amós trabalhador e sua profecia radical contra os totalitários deve haver uma relação. O trabalhador e o ‘profetizador’ se correlacionam, embora este não dependa daquele” (p. 43-44).

Por conta dessa relação entre modo de vida e conteúdo da mensagem, o povo foi lembrado que Deus não pede para que sejamos perfeitos. O que Ele espera de nós é que assumamos o risco de buscarmos uma vida mais justa e sejamos sinceros para reconhecermos nossos erros. O santo não é aquele que faz tudo de acordo com um paradigma moral que é imposto, mas que sabe que não dá para viver de forma tranquila quando sabemos que nosso próximo carece de dignidade, de alimento, de teto, de segurança e de trabalho.

Ser santo é saber quem é. Deus é santo porque Ele é o que é. E Ele nos chama para vivermos nossa humanidade perante ele como somos. A todo aquele que ouve seu chamado, Deus constitui como seu povo e Reino. O povo de Deus é chamado a reconhecer quem ele é: um povo separado para ser uma expressão de quem Deus é. Deus faz uma aliança com seu povo para uma vida santa no mundo.

Um povo santo precisa se dedicar mais à justiça social como expressão da santidade divina. O profeta anuncia que Deus tem lado, que é o do mais pobre. Como povo santo, cabe a si a tarefa de denunciar tudo aquilo que fere a dignidade humana e anunciar a bondade, a justiça e o amor de Deus pelas vítimas.

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