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terça-feira, 23 de dezembro de 2025

Natal, o amor encarnado / Christmas, love incarnate / Navidad, el amor encarnado

O Natal é a mais sublime história de amor já contada e vivida pela humanidade. O nascimento de Jesus traz consigo a mensagem de que o amor de Deus se tornou visível e real entre nós. Esse amor que moveu o coração de Maria e seus parentes, que levou José a acolher a sua prometida esposa grávida de outro, que mobilizou criaturas celestes e pessoas humildes a se juntarem em reconhecimento desse grandioso gesto de amor.

O evangelho de João não possui uma narrativa sobre o nascimento de Jesus, como o fazem Mateus e Lucas. Toda a mensagem sobre o início da vida de Jesus de Nazaré se concentra na encarnação de Deus em Cristo. Ela consiste o prólogo, que é a parte inicial do evangelho, dos versículos de 1 a 14. Nele, João se refere ao conceito de logos, muito presente na filosofia ocidental e que marcou muitos pensadores judeus que procuravam uma aproximação com o Ocidente.

Os primeiros filósofos gregos se debruçaram sobre esse termo, referindo-se a ele como uma ideia inicial, formadora de toda a nossa compreensão da realidade. Um deles foi Heráclito, que o entendia como um princípio universal, racional e divino que governa e sustenta o cosmos em unidade. Platão ampliou esse significado, relacionando-o à razão e ao conhecimento, como o fundamento das ideias verdadeiras.

A palavra grega corresponde ao substantivo do verbo legein, que significa “dizer”. O logos é aquilo que é dito, como um discurso, uma fala. O logos é mais do que Palavra, Verbo ou equivalente. O logos é aquilo que não sabemos o que é, mas temos apenas uma ideia. É a base do discurso, como aquilo que se diz de algo, como um saber que se desvela. Por isso que a tradução do vocábulo grego, em filosofia, é “ideia”. Quem a traduziu para “verbum” foi a edição em latim conhecida como Vulgata.

No prólogo de João, o logos remete à sabedoria divina, como um princípio orientador e organizador do universo que está em permanente mudança. Essa sabedoria foi revelada como Palavra de Deus e entregue aos homens. Muito provavelmente João se apropriou da noção ontológica do logos que Filo de Alexandria apresentou naquela mesma época. Filo entendeu o logos como um ser divino intermediário, que atua entre a criação e a transcendência divina, como um mediador da revelação divina. Por isso, João declara: “No princípio, era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus” (João 1.1 ARC).

O logos de João remete à sabedoria divina, como um princípio criador, orientador e organizador do universo que está em permanente mudança. Essa sabedoria foi revelada como Palavra de Deus e entregue aos homens. João afirma: “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do Unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade” (João 1.14 ARC).

João deixa claro que aquilo que era apenas uma ideia se tornou humano, o divino habitou entre nós, o sagrado se tornou carne, Deus virou gente como a gente. A palavra grega usada é sarcs, que quer dizer corpo formado pela complexa constituição de carne, sangue, ossos, órgãos, tecidos e sistemas vitais, como a natureza sensível do ser humano. O divino tornou-se corpo vivo e sensível.

Dessa forma, os gestos de amor divino puderam ser vistos de forma concreta nos gestos de Jesus. O amor se tornou encarnado. João diz que essa ideia encarnada de perfeito e pleno amor “habitou” entre nós. Ele usa a palavra grega skenoo para dizer que Jesus “fixou sua tenda” entre nós. E o fez cheio de graça e de verdade.

Mais adiante, João amplia o significado do amor encarnado ao dizer que ele é extensivo a toda e qualquer pessoa. “Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (João 3.16 NAA)

O amor do Pai pela criação e o amor do Filho pelo seu Pai se uniram desde o início para trazer salvação para a humanidade perdida. Jesus é a expressão do amor divino pela humanidade, um amor apaixonado, capaz de renunciar a tudo para colocar a vida inteira a serviço de quem se ama.

Esse amor encarnado nos convoca a tomarmos parte dele, a encarnarmos esse amor na nossa própria vida. “Como o Pai me amou, assim eu os amei; permaneçam no meu amor” (João 15.9). O amor encarnado se realiza quando somos capazes de reconhecer no outro o rosto de Deus, quando somos impelidos a transformar em ações o cuidado para que o outro seja tratado como um ser humano digno e amado por Deus.

No amor encarnado, o sagrado e o humano se unem nas práticas cotidianas. Somos interpelados a cumprirmos a missão de Deus no mundo (a Missio Dei) a fim de torná-lo mais justo e solidário, em que todos e todas tenham acesso a uma vida mais digna.

O Natal nos remete à encarnação do amor na nossa própria vida, e esse amor encarnado corresponde à nossa própria humanização. Um Feliz Natal cheio de amor para toda humanidade.

quinta-feira, 13 de novembro de 2025

Ele nos amou: Campanha 40 Dias de Amor / God loved us: 40 Days of Love / Dios nos amó: 40 días de amor

“[...] Farei que [...] reconheçam que eu amei você” (Apocalipse 3.9).
No livro do Apocalipse, encontramos quase que despercebidamente uma frase que o Espírito Santo diz a uma das igrejas, a de Filadélfia, sobre o amor. Deus quer fazer com que todos reconheçam o amor que Ele tem por nós. Você já parou para pensar sobre quais seriam as razões para Deus amar gente como a gente?
Por que Deus escolheu um povo tão instável como o israelita? Porque Ele amou. “O Senhor não se afeiçoou a vocês nem os escolheu por serem mais numerosos do que os outros povos, pois vocês eram o menor de todos os povos. Mas foi porque o Senhor os amou [...]” (Deuteronômio 7.7-8).
Por que Deus se importa tanto com pessoas que não fazem Sua vontade e que vivem distantes de Seu propósito? Porque Ele ama. “Visto que você é precioso e honrado à minha vista, e porque eu o amo [...]” (Isaías 43.4).
Amar é o modo de Ser de Deus. É o que define Deus. Tudo o que Ele é e tudo o que Ele faz é proveniente do Seu amor. Essa é a única razão pela qual Deus se importa com gente como a gente.
O que pode fazer com que a humanidade reconheça que Deus ama cada pessoa? Há três ideias que podem prover esse reconhecimento.
A primeira é que a Criação é um ato do amor divino. Somente um Ser amoroso seria capaz de criar um mundo com as condições ideais para a vida de sua maior criação, a humanidade. Quem ama cuida. A natureza criada é a maior demonstração do cuidado de Deus com a vida. Por isso que somos impelidos pelo amor: “Nós amamos porque ele nos amou primeiro” (1 João 4.19).
A segunda é que a redenção de nossa própria perdição é um ato do amor divino. Somente um Criador amoroso seria capaz de se importar com o sofrimento de quem escolheu se afastar de sua vontade. Quem ama se importa com o sofrimento do outro. A obra da redenção em Jesus Cristo é uma iniciativa unicamente do amor de Deus. O evangelho nos diz: “Porque Deus tanto amou o mundo que deu o seu Filho Unigênito, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna” (João 3.16).
E a terceira é que a liberdade de escolher é um ato do amor divino. Somente um Pai amoroso seria capaz de permitir que seus filhos tenham liberdade de escolha. Quem ama permite que o outro seja livre. Somos livres para escolher, mas somos responsáveis pelas consequências. E ainda assim Deus cuida de nós com Seu amor infinito. O amor de Deus nos torna livres de tudo aquilo que nos oprime e nos desumaniza: “Portanto, se o Filho os libertar, vocês de fato serão livres” (João 8.36).
Nossa vida é um grande testemunho que Deus ama a toda a humanidade. À medida que permitimos que seu amor se concretize e tome forma em nossa vida, tornamo-nos exemplos vivos desse amor.
(Participe da Campanha 40 Dias de Amor:assista à série de mensagens "Vivendo em amor no mundo" no Youtube; faça a leitura diária e pratique os projetos de vida semanais que estão na descrição de cada vídeo; reuna familiares e amigos para lerem juntos e debaterem sobre esse texto).

quarta-feira, 23 de julho de 2025

Caminho do Itinerário do Amor: uma reflexão a partir do Castelo Interior / Path of the Itinerary of Love: a reflection from the Interior Castle / Camino del Itinerario del Amor: una reflexión desde el Castillo Interior

Um dos textos mais sublimes da espiritualidade cristã é, sem sombra de dúvidas, a obra “O castelo interior”, de Teresa de Ávila, santa e doutora da igreja que viveu na Espanha durante o século XVI. Trata-se de um clássico da literatura de espiritualidade e mística. Nesse livro, a fundadora do Convento das Carmelitas Descalças ofereceu, de forma simples, uma proposta de experiência de encontro com Deus e de busca de santidade.

Teresa de Ávila usa a metáfora de um castelo formado por muitas moradas para se referir à alma humana. Consideremos nossa alma como um castelo, feito de um só diamante ou de um cristal claríssimo, onde há muitos aposentos, à semelhança das muitas moradas que há no céu”, diz ela. Essa jornada em direção ao encontro com Deus é também conhecida como o “caminho do itinerário do amor”, um guia de experiência de espiritualidade que o campo da mística tem se debruçado em suas investigações e descobertas.

Nesse caminho místico, não estamos sozinhos. É o próprio Rei que nos guia e nos conduz, a cada morada, em direção ao grande salão real. Para percorrer essas moradas, é preciso primeiro tomar a decisão de entrar no castelo interior. Logo na primeira morada, a alma é despertada para a vida espiritual, convidada a reconhecer o seu valor e a sua necessidade de Deus. Embora ainda estejamos presos aos desejos e envolvidos com o pecado, não podemos esquecer que fomos criados como imagem e semelhança de Deus.

Ao chegar à segunda morada, a alma é encorajada à prática da oração e aos exercícios espirituais. O objetivo é perseverar na luta contra as distrações e a na busca por uma vida mais próxima da vontade divina. A terceira morada corresponde ao momento em que a alma desfruta do cuidado divino e começa a sentir a presença de Deus de forma mais intensa. Entretanto, ela ainda pode sofrer oscilações e dificuldades.

Na quarta morada, a alma experimenta um aprofundamento da experiência mística, com um desejo ardente de se entregar completamente a Deus. Ná quinta morada, a alma atinge um grau de união mais profundo com Deus, frequentemente descrito como um êxtase místico, onde a vontade da alma se torna mais alinhada com a vontade divina.

Na sexta morada, a alma experimenta uma união quase plena com Deus, com a prática constante da oração, das virtudes e da caridade. Enfim, a sétima morada corresponde à plenitude da experiência de Deus vivendo em perfeita harmonia com a vontade divina e desfrutando a verdadeira paz e alegria espiritual.

Há quatro lições que podemos extrair dessa obra de Teresa de Ávila. Os sete estágios de progresso espiritual descritos por Teresa implicam conhecer a alma humana e descobrir a vida interior. A primeira lição é o caminho da descoberta de si; a segunda tem a ver com nossa luta interior que confronta nossos desejos e a carência de Deus que todos possuímos; a terceira é a alternativa que o chamado divino nos oferece, de experimentar uma vida de intimidade com Deus; e, por fim, a lição de que uma vida de plenitude da presença de Deus é possível num mundo tão conturbado como o nosso.

Teresa de Ávila viveu numa época bastante contraditória. Era um tempo de mudanças em que o Ocidente abandonava a mentalidade medieval e se abria para a Modernidade. Essa transição foi dominada pela descoberta da racionalidade e pela defesa da dignidade humana. Além disso, a Espanha encontrava-se sob forte influência da inquisição, com o temor constante de aderir aos novos ventos que vinham do humanismo e das ciências nascentes e, sobretudo, dos ideais da Reforma Protestante.

Havia também o fato de ela ser mulher numa sociedade patriarcal. Embora tivesse sido estimulada a escrever sobre suas ideias e sua experiência, ela foi muitas vezes considerada como impulsiva e desajustada à sociedade. Aos 21 anos, abandonou a família para viver de forma radical a sua experiência de fé. Em vez de uma vida reclusa em um mosteiro, optou pela missão peregrina de formar diversos conventos pela Espanha.

A jornada de espiritualidade, quando vista à luz da tradição mística cristã e da Escritura, nos oferece uma compreensão mais aprofundada da vivência do amor ensinada por Jesus de Nazaré. A proposta de Teresa de Ávila está bem ajustada à experiência mística. De um modo geral, essa experiência envolve a prática da ascese, a meditação e o êxtase. Dito de outro modo, envolve a prática de purificação dos sentidos, o esforço para esvaziar a mente e a experiência de fortalecer o espírito. É um processo lento e gradual, com muitas idas e vindas, até que se alcance a união mística com Deus. Tudo isso para que possamos atravessar o deserto e refazer o caminho novamente.

A essência da experiência de Deus é o amor. Esse é o mistério divino que perpassa a relação de Deus com a Sua criação e nos interpela a experimentarmos sua realização de forma concreta em nossa vida. Ter um encontro com Deus é encontrar o amor em sua forma mais profunda.
(Assista à série de reflexões Moradas: Caminhos para a experiência de Deus >> no meu canal: https://www.youtube.com/playlist?list=PL4NVfVIy5Bi7DkhSi1oYXv2cJB2VF0sy4

sexta-feira, 18 de abril de 2025

O drama da cruz / El drama de la cruz / The drama of the cross

 

A crucificação de Jesus foi cercada de vários aspectos que poderiam servir para abreviar a sua morte. Ele já tinha sido açoitado e torturado pelos soldados, estava faminto e tinha sede, recusou beber a mistura de vinho com fel que lhe serviria de entorpecente, os cravos em suas mãos e pés tinham por objetivo provocar uma hemorragia, recebeu vinagre para beber e ainda tinha sido ferido em seu ventre. A crucificação foi por volta das 9 horas da manhã no monte chamado Gólgota, que quer dizer “caveira”. Hoje o chamamos de monte do Calvário. Jesus expirou por volta das três horas da tarde. Antes de expirar, Jesus clamou em aramaico como um sinal de seu grande sofrimento. Ele não estava afirmando que Deus o havia abandonado. A expressão enkatelipes deve ser mais bem traduzida como “deixar em apuros”. Mateus registra que a morte de Jesus foi acompanhada de alguns fenômenos sobrenaturais: começou com o período de trevas desde o meio dia até as três da tarde, a cortina que dividia o lugar santo do lugar santíssimo no templo se rasgou de alto a baixo, houve um terremoto, os sepulcros se abriram, alguns mortos ressuscitaram. Esses fatos levaram o centurião e os soldados que acompanhavam a crucificação a reconhecerem que Jesus era realmente o Filho de Deus.

Jesus veio ao mundo em cumprimento de uma promessa divina para a redenção dos homens. Muitos profetas anunciaram a sua vinda afirmando ser ele um rei. E o próprio Evangelho de Mateus usa a designação de rei oito vezes para referir-se a Jesus Cristo como tal. Ele foi reconhecido como rei pelos magos que vieram do oriente, na época do seu nascimento (conforme Mateus 2.2). Ele foi aclamado rei pela multidão, quando entrou em Jerusalém pela última vez (Mateus 21.5). Ele mesmo se apresentou como sendo rei (Mateus 25.24 e 40). E foi julgado por ser apontado como rei dos judeus, o que significaria uma alta traição para o governo romano que dominava aquela região (Mateus 27.11). A inscrição na cruz era uma informação a respeito do crime pelo qual Jesus estava sendo punido, por ter falado a verdade de que ele era o Messias. Embora aquela expressão proclamasse uma verdade, Jesus é muito mais que um rei. Ele é o Senhor de todos os povos e tem sobre si todo o poder.

Se notarmos bem o que aconteceu ali durante a crucificação, Jesus foi maltratado por três grupos diferentes de pessoas: os que iam passando (Mateus 27.39), os religiosos importantes (Mateus 27.41) e os salteadores que foram crucificados com ele (Mateus 27. 44). Poderíamos dizer que Jesus sofreu o escárnio devido à ignorância das pessoas (pelos passantes), por pura discriminação religiosa (pelos sacerdotes, escribas e anciãos) e por puro ressentimento (pelos salteadores crucificados). Aquele que foi desprezado entre os seus, era verdadeiramente o “Filho amado” do Pai que “veio para os que eram seus e os seus não o receberam, mas a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, a saber, aos que creem em seu nome” (João 1.11-12).

O clamor de Jesus na cruz foi uma expressão de extremo sofrimento físico, moral e espiritual. Ali, Jesus se fez pecado por nós, carregando sobre si os pecados de toda a humanidade, com o propósito de salvar a todo o que nele crê. Como ser humano, Jesus sentiu-se isolado e abandonado, durante aquelas quase seis horas de sofrimento, das quais três horas corresponderam a um período de trevas. Era necessário que Jesus chegasse ao auge do sofrimento para que, assim, ele pudesse ser perfeitamente Salvador e substituto de todos nós, pecadores. Só assim podemos afirmar que ele morreu em nosso lugar, pagando o preço pela nossa própria salvação.

A morte de Jesus foi o sinal mais evidente do amor de Deus por todos os homens. Jesus foi crucificado para o perdão de nossos pecados. Não haveria outro motivo pelo qual Deus viesse consentir com tamanho sofrimento de seu Filho, quando de sua vida entre os homens. A morte na cruz significou um grande sofrimento para Jesus. Ele foi obediente em tudo, deixou-nos o seu exemplo de resignação e amor, em tudo foi submisso ao Pai para cumprir todo o propósito de Deus. Tudo isso para que pudesse garantir liberdade de acesso a Deus. O pecado, a maior barreira que separa o homem e Deus, foi vencido ali na cruz, concedendo pleno perdão a todo aquele que o busca pela fé.

Mateus 27.55-56 chama a atenção do leitor para as mulheres que serviam a Jesus e acompanhavam todo aquele drama até o momento final da sepultura (v. 61). Nem todos os seguidores de Jesus haviam fugido, as mulheres haviam permanecido fiéis até o fim. Mateus fala também de um discípulo chamado José de Arimateia, que era homem rico, membro do Sinédrio (Marcos 15.43) e amigo de outro judeu ilustre chamado Nicodemos que o ajudou (João 19.18.39), que providenciou o sepultamento de Jesus em um túmulo novo de sua propriedade. Uma tradição essência dá conta de que o crucificado pelos mesmos motivos alegados contra Jesus deveria ser sepultado no mesmo dia de sua morte [1]. Além disso, logo a tarde seria finda e o sábado teria início, quando ninguém poderia fazer qualquer trabalho, muito menos tocar em um morto, considerado um serviço imundo. Os fariseus demonstraram que, no fundo, acreditavam no poder miraculoso de Jesus ao solicitar a Pilatos uma guarda especial para o sepulcro e providenciar um selo para pedra que o fechava. A ideia do embuste era só uma desculpa.

(Extraído do meu livro Mateus, o evangelho do Reino, disponível em: https://a.co/d/id6yeMi ).



[1] Jean Dominic CROSSAN. Quem matou Jesus? As raízes do anti-semitismo na história evangélica da morte de Jesus. Rio de Janeiro: Imago, 1995. p. 195.

domingo, 16 de março de 2025

O cuidado como ação / Care as action / El cuidado como acción

 

Como transformar aspirações em gestos, teoria em prática, discursos em ação? Isso tem a ver com o exercício do cuidado. As bases de uma teologia do cuidado passam pelos aspectos práticos de nossas relações. Cuidar é acima de tudo agir em favor do outro. Envolve um movimento em direção às necessidades do outro.

Há uma gramaticalidade da teologia do cuidado. Implica uma conjugação com outras ações que demandam atenção, relacionamento, valorização e respeito ao outro. É colocar-se em constante processo de aperfeiçoamento, de novas descobertas e de crescimento interpessoal. As pessoas que cuidam são reconhecidas pelo seu valor e inspiram maior confiança.

A Bíblia apresenta vários verbos que remetem à prática do cuidado. O primeiro dele é o próprio verbo “cuidar”, que denota atenção pelo outro. Envolve zelar, proteger, ajudar, acompanhar, encorajar. É um verbo que requer um complemento. Quem cuida, cuida de algo ou de alguém. Dito do ponto de vista linguístico, ele é um verbo transitivo por não esgotar-se em si mesmo, precisa estar ligado a um objeto.

Há três formas do cuidado expressas no Novo Testamento. A primeira remete ao cuidar de si mesmo, em: “Tem cuidado de ti mesmo [...]” (1 Timóteo 4.16 ARC). O verbo em grego é epecho, que significa observar, prestar atenção, segurar firme, conferir. A segunda lembra o fato de ser cuidado por Deus, em: “[...] porque ele tem cuidado de vocês” (1 Pedro 5.7). O verbo em grego é melei, que significa cuidar de algo ou alguém, preocupar-se, importar-se. A terceira está ligada ao ser cuidado, em: “[...] suprissem as suas necessidades” (Atos 27.3). O verbo grego é epimeleias, cuja tradução é cuidado, necessidades, atenção.

Essa análise levanta uma preocupação sobre como é possível tornar essa ação como efetiva em favor de alguém ou de si mesmo. Como podemos exercer o cuidado? Cuidamos quando construímos parcerias, fortalecemos a comunhão, temos uma atitude mais inovadora, buscamos a excelência, exercemos influência para o bem e temos esperança.

O exercício do cuidado quando o outro está implicado envolve reconhecer o outro como pessoa, dar atenção ao outro de forma individualizada, perceber as necessidades do outro e valorizar as emoções do outro. São ações que procuram servir, cooperar, ser solidário, dar generosamente e acolher o outro em suas necessidades.

A ação do cuidado é terapêutica por si mesma. Em uma perspectiva integral, o cuidado implica o acolhimento, a escuta, o suporte, o esclarecimento. O cuidado nos interpela constantemente a agir como uma marca distintiva de nossa condição, como algo que nos identifica e molda nossas relações no mundo.

Para a fé cristã, cuidar é essencial para sua eficácia. Podemos inclusive parafrasear Tiago 2.14, afirmando que a fé sem o exercício do cuidado é morta. Por essa razão, precisamos descobrir quais são as ações que o exercício do cuidado nos aponta.

Assista à série de mensagens no Youtube: O cuidado em ação: Verbos que orientam a prática do cuidado>> Aproveite para se se inscrever e me seguir no canal.

sexta-feira, 4 de outubro de 2024

A arte de perguntar / The art of asking / El arte de preguntar

Interrogou-o com muitas perguntas, mas Jesus não lhe deu resposta” (Lucas 23.9).

Quantas vezes você já se perguntou sobre qual é o sentido da vida, como será o futuro, quem é você ou mesmo qual é o seu valor como pessoa? Fazer perguntas é uma habilidade humana diante daquilo que não conhecemos. Jesus ouviu muitas dessas perguntas e procurou conduzir as pessoas a uma busca pelas respostas mais adequadas.

Por que perguntamos? Perguntamos quando somos confrontados diante daquilo que desconhecemos. As perguntas funcionam como chaves que abrem portas para o nosso entendimento. Só é capaz de fazer perguntas quem admite sua própria ignorância.

As perguntas estimulam o conhecimento em todos os campos de saber. A ciência só consegue avançar quando o próprio cientista reconhece que não tem conhecimento sobre um assunto. Quando as perguntas são feitas de forma adequada, elas podem gerar diversas possibilidades de respostas, podem despertar novas investigações e podem promover mudanças de entendimento que parecem consolidados há muito tempo.

O ato de perguntar ou de ser perguntado dá origem a novas descobertas , nos mobiliza a construir novos conceitos e aponta novas formas de compreensão da realidade. As perguntas têm o poder de despertar novos sentidos. Se nós não formos capazes de indagar a respeito dos problemas que enfrentamos, podemos nos tornar pessoas que se queixam de tudo sem buscar soluções.

A arte de perguntar é milenar. Os primeiros filósofos procuravam compreender os fenômenos naturais a partir da indagação sobre a causa dos próprios fenômenos. Sócrates desenvolveu um método próprio de fazer perguntas, chamado de maiêutica. Seu objetivo com isso era descobrir o que seus interlocutores tinham certeza a respeito do que sabiam. Através de um jogo de perguntas com base na ironia, Sócrates levava seus alunos e seus oponentes a novas descobertas.

Os tempos mudaram, o volume de informações aumentou e nossas demandas por conhecimento se tornaram mais urgentes. O conhecimento não está mais na capacidade de obter respostas, mas em fazer novas perguntas. Qualquer um de nós é capaz de olhar em volta e se perguntar a respeito do significado ou utilidade das coisas. As crianças descobrem isso desde cedo e começam a perguntar sobre o que é e o por quê das coisas.

Em tempos de novas tecnologias de informação e de inteligência artificial, quando alguém quer saber sobre algo, a recomendação mais fácil é: “dá um Google”. Mas a realidade é que não há ninguém que tenha uma inteligência tão extraordinária que seja capaz de resolver todos os problemas. Sempre haverá a necessidade de se fazer novas perguntas diante de novas possibilidades.

Nos evangelhos, encontramos Jesus ouvindo muitas perguntas de diversas pessoas a respeito de vários assuntos relacionados à vida. Ricos e pobres, autoridades e pessoas comuns, religiosos ou não, todos procuravam Jesus para perguntar sobre aquilo que angustia a todos nós: o sentido da vida, quem somos, para onde vamos. Jesus, porém, aproveitou essas oportunidades para desenvolver um diálogo com essas pessoas a respeito daquilo que mais as interpelavam.

Isso faz lembrar a ideia filosófica de que por traz de uma pergunta há sempre outras que não são ditas, mas que estão ali implícitas. Houve questões, entretanto, que não foram respondidas, como no caso de Herodes antes da crucificação. Houve outras que Jesus devolveu com um chamado à autorreflexão, como no caso da mulher pega em adultério. Houve também perguntas a respeito da sua pessoa, como a que foi feita pelos discípulos de João Batista, que só a observação dos fatos poderia oferecer a melhor resposta. E ainda houve as que Jesus aproveitou a ocasião para passar grandes ensinamentos, como no caso da cura do cego de nascença.

Se a fé nasce da busca de entendimento, como afirmou Anselmo de Cantuária, ela se faz através de muitas perguntas. Para ele, a busca de Deus é permeada de indagações: onde podemos encontrá-lo? Por que não o vemos? De que forma podemos buscá-lo? São algumas das muitas perguntas que também podemos fazer hoje. A fé cristã não é passiva, mas uma inquietante atitude diante do imponderável.

segunda-feira, 3 de abril de 2023

Dimensão comunitária do discipulado: O que faz diferença no seguimento de Jesus / Community Dimension of Discipleship: What Makes a Difference in Following Jesus / Dimensión comunitaria del discipulado: lo que marca la diferencia en el seguimiento de Jesús

Discipulado é o modo como fazemos o seguimento de Jesus. Ser discípulo de Jesus não é uma aventura solitária, embora sejamos responsáveis pela maneira como seguimos Jesus. Não é ser um autodidata, embora envolva um aprendizado. Não é ser um aluno receptor de informações, embora haja um Mestre.

Na verdade, ser discípulo é ser imitador de Jesus, alguém que assume reproduzir em sua vida o caráter e o ensino de Jesus. Isso implica tomar parte da comunidade daqueles e daquelas que seguem Jesus e se ajudam mutuamente a se aperfeiçoar nisso a cada dia. Além disso, o discípulo é o melhor exemplo de vida transformada pela graça que as pessoas à sua volta podem ter.

Os primeiros discípulos viviam em comunidade. Jesus apresentou durante seus discursos dois tipos de convite: ele disse para alguns “segue-me” e disse para uma multidão “vide a mim”. O convite “segue-me” exigia mudanças no modo de viver e de orientar a vida. Tanto que muitos largaram tudo o que faziam para seguir Jesus. Não era só uma mudança de hábitos ou costumes, mas de valores e de estratégias de vida como a profissão e os relacionamentos.

O convite “vinde a mim” foi dirigido a pessoas cansadas de uma vida marcada pela opressão. Àqueles que andavam errantes como ovelhas sem pastor, perdidas de si mesmo, agora poderiam aprender um novo modo de orientar a vida com quem exercitava a humildade e a mansidão.

Nunca foi fácil seguir Jesus, nem para os primeiros discípulos, nem para nós nesses tempos. Entretanto, Jesus sempre procurou educar seus discípulos sobre o que significa segui-lo. E o fez ao longo da caminhada realizada junto com eles. Jesus foi um mestre por excelência, fazendo com que seus seguidores reproduzissem em suas vidas o seu próprio modo de viver.

O discipulado envolve novos hábitos, novo estilo de vida, novos interesses, novas perspectivas, novo modo de pensar, nova forma de compreender a vida, enfim, nova forma de ver o mundo. Não é um programa ou estratégia para se fazer novos adeptos, mas um novo modo de ser e de agir no mundo.

Envolve um aprendizado que requer mudança de mentalidade. Isso implica abandonar hábitos e concepções influenciados pela religião e pela ideologia dominantes para dar lugar aos valores do Reino de Deus. Exige de cada um o compromisso de ser a melhor expressão da graça de do amor de Deus por toda a criação.

O discípulo aprende em comunidade a dar novos significados a práticas essenciais como a oração, o conhecimento das Escrituras, a vida em comunhão, o testemunho público da fé e o cuidado uns com os outros. Normalmente, aprendemos que a oração, a leitura da Bíblia, o compromisso com a igreja, o testemunho e a prática do bem são atitudes individuais apenas. Mas elas precisam ser compreendidas a partir de uma ótica comunitária, como ações que visam o bem comum.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2023

Fé cristã e esfera pública: uma hermenêutica a partir de Romanos 13.1 / Christian faith and the public sphere: a hermeneutics from Romans 13.1 / La fe cristiana y la esfera pública: una hermenéutica desde Romanos 13.1 /

A ética baseada no amor envolve uma expressão pública. Isso quer dizer que a vida pela fé tem implicações sociais e políticas. A nossa atuação como cristãos nos espaços públicos deve corresponder a uma cidadania consciente.

Todos devem sujeitar-se às autoridades governamentais, pois não há autoridade que não venha de Deus; as autoridades que existem foram por ele estabelecidas” (Romanos 13.1).

A ação cristã não é anarquista, subversiva, fascista ou totalitária. Entretanto, ela não é acrítica, indiferente ou alienada. Ela promove a cidadania responsável e consciente, está ao lado da justiça e do direito e coopera com a sociedade para a superação daquilo que lhe causa mal.

Paulo lembra o papel do Estado e do cidadão:

a) Papel do Estado: cuidar do bem comum como expressão do cuidado divino.

[... A autoridade] serva de Deus, agente da justiça para punir quem pratica o mal” (Romanos 13.4).

b) Papel do cristão como cidadão: cooperar com o Estado para a realização do bem comum.

“[...] é necessário que sejamos submissos às autoridades, não apenas por causa da possibilidade de uma punição, mas também por questão de consciência” (Romanos 13.5).

A recomendação para a “submissão” às autoridades não é universal, absoluta ou cega. Mas uma atitude crítica em relação às leis vigentes e os propósitos divinos. Não cabe ao cristão uma submissão subserviente ao Estado totalitário, tirano, ditatorial ou despótico.

A desobediência civil passa a ser um dever cristão diante de leis injustas, quando o Estado deixa de cumprir o seu papel e quando os critérios políticos estão distantes dos valores do Reino de Deus. Desobediência civil não é rebelião, mas resistência à opressão promovida pelo Estado.

Exemplos de desobediência civil: Mahatma Gandhi, Martin Luther King Jr. e Desmond Tutu, que eram religiosos.

(Extraído da apostila Espiritualidade Contagiante: Estudo bíblico na Carta aos Romanos, disponível em PDF no blog da igreja da Orla Oceânica: http://orlaoceanica.blogspot.com/p/lideranca.html

domingo, 18 de abril de 2021

Jesus e as sinagogas / Jesus and the synagogues / Jesús y las sinagogas

 

Ensinava nas sinagogas, e todos o elogiavam” (Lucas 4.15).

Jesus usou os espaços religiosos de seu tempo para `compartilhar a sua mensagem. Ele o fez como um cidadão, como um religioso e como o Messias. Jesus participava de uma comunidade e praticava uma religião. Ele era da região da Galileia, da pequena cidade de Nazaré, e era um judeu.

Embora os evangelhos façam menção diretamente às sinagogas de Cafarnaum e Nazaré, duas cidades da região da Galileia, Jesus estava familiarizado com a frequência a esse espaço de devoção do judaísmo.

As sinagogas são espaços de devoção e de espiritualidade dos judeus até os dias atuais. Elas foram criadas provavelmente após a destruição do primeiro templo, por volta do ano 586 a.C., para ser um espaço de oração e de leitura das Escrituras. No tempo de Jesus, era o segundo lugar mais importante para o exercício da espiritualidade judaica, ficando atrás apenas do templo. Por essa razão, muitas vezes foi chamada de pequeno santuário.

No tempo de Jesus devia haver centenas delas espalhada por todo o território de Israel. Estima-se que só em Jerusalém houvesse cerca de 400 sinagogas. Para que surgisse uma sinagoga, era necessária a presença de pelo menos dez homens da fé judaica. Com a diáspora, esse costume também se espalhou nos lugares em que os judeus estabeleciam suas comunidades.

As sinagogas deveriam possuir três elementos essenciais: a urna para conter os livros sagrados, uma lâmpada acesa permanentemente como símbolo da instrução das Escrituras e o púlpito onde as Escrituras eram lidas. Os oradores da sinagoga eram rabinos que possuíam experiência no exercício de interpretação das Escrituras, que consistia nos livros da Torah (os livros da lei), nos livros poéticos (especialmente o de Salmos) e nos profetas.

As reuniões das sinagogas começavam com a recitação do shema: que é a referência a Deuteronômio 6.4: “Ouça, ó Israel: O Senhor, o nosso Deus, é o único Senhor”. A espiritualidade judaica compreendia que ali era o lugar do encontro com o sagrado, para ouvir o que Deus tem a falar.

Jesus demonstrou familiaridade com os hábitos das sinagogas e era tratado como rabi ou rabino, um mestre que podia falar durante os atos cerimoniais. Jesus também demonstrou que era uma pessoa letrada, conhecedora do idioma hebraico, que tinha condições de fazer leituras públicas a partir de traduções orais dos textos bíblicos, conhecidas como targuns. E que tinha autoridade para interpretar as Escrituras.

Isso nos leva a compreender que Jesus não rejeitou a religião, mas a ressignificou. A religião não é apenas um sistema de controle e de domínio, como uma estratégia de poder, embora ela tenha sido usada pelas estruturas de poder ao longo dos tempos – inclusive nos dias atuais. Ela é uma experiência humana de encontro consigo, que estimula a transcendência e a descoberta de si. Jesus tratou os espaços religiosos não mais como espaços de interdição, mas de transformação, de libertação e de construção de nossa humanidade.

Por essa razão, Jesus não se identifica com o homo religiosus de Mircea Eliade, mas com o humano, demasiadamente humano (conforme o título da obra de Nietzsche), como aquele que compreende que a vida toda é sagrada, que o humano está acima dos rituais e que a história é o tempo de construção de nossa existência.

Os evangelhos registram quatro momentos de Jesus discursando nas sinagogas: Marcos 1.21-27, correlato com Lucas 4.31-37; Marcos 3.1-6, correlato com Mateus 12.9-13; Lucas 4.16-22, correlato com Marcos 6.16 e Mateus 13.53-58; João 6.51-59. Em cada uma dessas ocasiões ele aproveitou para pregar sobre temas que estavam ligados à vivência humana, valorizando sempre a dignidade da pessoa, em detrimento do cerimonial.

A intimidade de Jesus com a sinagoga pode ser percebida em outras situações narradas nos evangelhos, como a cura da filha de Jairo, o chefe da sinagoga, em Marcos 5.21-43, Mateus 9.18-26 e Lucas 8.40-56. Para Jesus, a sinagoga era espaço de compartilhamento da boa notícia do amor de Deus (Mateus 4.23, Mateus 9.35, João 18.20), de cura para as dores humanas (Lucas 13.10-17), de construção de nossa identidade (Lucas 7.4-50), de confrontação com a religiosidade hipócrita (Mateus 6.2 e 5, João 12.42), de enfrentamento das formas de dominação (Marcos 12.39, Mateus 23.6, Lucas 11.43, Lucas 20.46, João 9.22) e de espaço de testemunho e martírio (Marcos 13.9, Mateus 10.17, Mateus 23.34, Lucas 4.24-30, Lucas 12.11, Lucas 21.12, João 16.2).

As comunidades cristãs primitivas procuraram reproduzir a experiência das sinagogas. Muitas vezes, igrejas cristãs nasceram a partir dos ensinos de Paulo nas sinagogas espalhadas pelo mundo greco-romano. Refletir sobre a experiência cristã nos espaços religiosos nos remete ao diálogo necessário entre religião e espiritualidade, vida religiosa e vida intramundana. Esse foi o exemplo deixado por Jesus.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

Quaresma, Diálogo e Compromisso: Focos da Campanha da Fraternidade 2021 / Lent, Dialogue and Commitment: Focus of the 2021 Fraternity Campaign / Cuaresma, Diálogo y Compromiso: Enfoque de la Campaña Fraternidad 2021

 

A Campanha Ecumênica da Fraternidade 2021, que começa hoje, enfatiza o diálogo e o compromisso da prática do amor fraternal como tema orientador, a fim de que cristãs e cristãos possam refletir sobre missão e prática no mundo. A campanha é liderada pela CNBB – Conferência Nacional dos Bispos do Brasil e pelo CONIC – Conselho Nacional de Igrejas Cristãs, entidades representativas de segmentos cristãos brasileiros, incluindo tanto o catolicismo romano quanto denominações protestantes.

A campanha é realizada anualmente pela CNBB durante o tempo da Quaresma, que no calendário religioso começa na quarta-feira de cinzas e se encerra no período da Páscoa. Desde o ano 2000, a cada cinco anos, a campanha também assume a forma ecumênica, com a participação de outros segmentos cristãos, abordando temas humanos e com o objetivo de valorizar o que há de comum entre as comunidades cristãs.

O objetivo da Campanha é “pensar, avaliar e identificar caminhos para a superação das polarizações e das violências que marcam o mundo atual”, como diz o texto base divulgado. A proposta é de fazer isso sob a inspiração do cuidado amoroso de Cristo que motiva a todas e todos ao diálogo e à vida em unidade em meio à diversidade. A base bíblica para esse propósito da campanha é a palavra do apóstolo Paulo que afirma que “[Jesus Cristo] é a nossa paz, o qual de ambos fez um e destruiu a barreira, o muro de inimizade” (Efésios 2.14).

Os organizadores assumem o desafio de denunciar a violência que é praticada em nome da fé, encorajar a prática da justiça que restaura a dignidade das pessoas, estimular ações concretas de amor pelo outro, promover a cultura do amor em vez da cultura do ódio e fortalecer a convivência ecumênica e o diálogo inter-religioso. Em tempos de pandemia, esses desafios envolvem o enfrentamento dos discursos negacionista, de violência contra a mulher e população LGBTQI+, de preconceito e intolerância, sobretudo em relação ao negro e as pessoas dos segmentos progressistas. São situações que ganharam novos contornos com o avanço da extrema-direita ao governo.

Ao tratar dessa forma o tema da fraternidade e do diálogo, a campanha deste ano foi antecedida por uma manifestação hostil de grupos católicos fundamentalistas e ultraconservadores contra ela. Tais grupos têm demonstrado toda sua animosidade ao realizar uma contracampanha com o sentido de lançar ataques ao ecumenismo e ao esforço de lutar por um mundo mais justo e humano para todas e todos.

Parece ironia, mas enquanto há cristãos que procuram formas de unir as pessoas em torno do bem comum, da solidariedade e da comunhão, existem outros dispostos a promover a desunião e a incentivar o ódio de forma impiedosa, com uso de desinformação (as chamadas fake news) e com discursos reacionários que se utilizam de ideias fascistas. São religiosos que praticam uma fé anacrônica e descontextualizada, que não admitem a convivência com o outro e o diferente, nem mesmo quando são informados que essa é a proposta da prática do amor fraternal anunciada pelo próprio Cristo que afirmam seguir.

A ideia da fraternidade é um convite a viver o Evangelho de forma integral em dias tão difíceis como estes que estamos vivendo. O tema da campanha deste ano, bem como seus objetivos e propostas de engajamento, mostra o caminho de uma igreja comprometida com as pessoas deste tempo, atenta aos problemas emergentes decorrentes da mentalidade consumista, exploradora e dominadora que vem influenciado as políticas e as formas de organização da sociedade.

Serão 40 dias de promoção da fraternidade e do amor fraternal. Em tempos de tantas animosidades, soa como vento fresco a expressão de cristãs e cristãos que procuram viver o evangelho de Jesus de Nazaré de forma mais humana e voltada para as necessidades dos mais vulneráveis, dos pobres e dos injustiçados. Ao colocar o dedo na ferida, já era de se esperar a reação daqueles que se entregaram aos extremismos que promovem o ódio e a segregação. Mas, como afirma a nota do presidente da CNBB: “Não desanimemos. Não desistamos. Unamo-nos”.

quarta-feira, 28 de outubro de 2020

Um apelo à fraternidade / An appeal to fraternity / Un llamado a la fraternidad


A fé cristã é um apelo à fraternidade. A mensagem de Jesus é um chamado à vida em comunhão, que corresponde a viver uns com os outros numa relação de afinidade que se aproxima com a vida em família em que todos se reconheçam como irmãos. Jesus mesmo se apresentou como um irmão e tratou a todos como seus irmãos e irmãs. A palavra origina-se do latim “frater”, que quer dizer irmão. Trata-se de uma relação entre pessoas que não se dá apenas por consanguinidade, mas que o transcende e estabelece o respeito à dignidade de cada um bem como a garantia da igualdade de direitos entre todos.

A palavra fraternidade remete a um relacionamento dentro de uma convivência social. E isso tem implicações políticas, não apenas sociais ou afetivas. As organizações, movimentos e grupos sociais que levantam a bandeira da fraternidade se baseiam em princípios que defendem a democracia, a igualdade de direitos e o respeito à liberdade de todos e todas.

A cultura ocidental aproximou o conceito de fraternidade aos de igualdade e de liberdade. Essa relação envolve a decisão consciente de viver em sociedade de tal modo que todos sejam tratados em direitos e oportunidades de forma equitativa. Esse princípio está presente na Declaração Universal dos Direitos Humanos, que diz em seu artigo primeiro: “Todas as pessoas nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotadas de razão e consciência e devem agir em relação umas às outras com espírito de fraternidade”.

O lema da fraternidade associada à igualdade e à liberdade nasceu do ideal iluminista e motivou a Revolução Francesa no final do século XVIII, em busca de uma sociedade mais justa e livre da tirania. Essa tríade passou a representar a luta pelos ideais de democracia e de conquistas de direitos civis em todo o mundo. Entretanto, o ideal de liberdade sempre foi limitado, assim como a igualdade tem sido tratada de forma precária e a fraternidade vista como uma ilusão.

O sentido de fraternidade está diretamente associado aos de cidadania, amizade e solidariedade. Nesses tempos de globalização, o tema da fraternidade emerge como uma exigência para a construção de um mundo mais justo e pacífico. Cada vez mais, despontam apelos para uma ação consciente em que os gestos fraternos se despontem acima dos moralismos e legalismos como uma superação ao individualismo e o autoritarismo.

Hanna Arendt, em Homens em tempos sombrios, fala da fraternidade como um modo de agir humano para aqueles grupos de pessoas que sofrem perseguições ou são escravizados, que se tornam párias da sociedade, como se fossem dotados de alguma força interior para encontrar dignidade em si mesmos. É uma forma de resistência que faz com que os excluídos se aproximem entre si e construam novos espaços de existência. Esse modo de enfrentar a rejeição desperta sentimentos de generosidade, de compaixão, de cordialidade e de bondade que as pessoas em tais condições dificilmente seriam capazes de desenvolver entre si em outras circunstâncias.

A fraternidade cria as condições para se viver em comunidade a partir do exercício e do direito à igualdade e à liberdade. A vida comunitária só encontra legitimidade quando todos e todas desfrutam das mesmas condições de liberdade e de acesso igual às mesmas oportunidades. A fraternidade, portanto, se configura como uma condição cultural que emerge em meio às ameaças à vida para preservar e resgatar o sentido da vida comum.

Jesus fez da ideia de fraternidade um dos elementos norteadores de sua mensagem. Ele disse que devemos nos tratar como irmãos e irmãs. Ele recomendou para que ninguém fosse chamado ou agisse como mestre, pai ou chefe do outro porque “[...] todos vocês são irmãos” (Mateus 23.8). E ele mesmo chamou aos seus seguidores de seus irmãos e irmãs: “Quem faz a vontade de Deus, este é meu irmão, minha irmã e minha mãe” (Marcos 3.35).

A Bíblia trata a fraternidade a partir do princípio do amor. Ela recomenda o exercício da expressão de amor fraternal: Seja constante o amor fraternal” (Hebreus 13:1). Os apóstolos tinham esse ensinamento comum. Paulo disse: “Dediquem-se uns aos outros com amor fraternal. Prefiram dar honra aos outros mais do que a si próprios” (Romanos 12.10). E Pedro também concordou: “Quanto ao mais, tenham todos o mesmo modo de pensar, sejam compassivos, amem-se fraternalmente, sejam misericordiosos e humildes” (1 Pedro 3:8).

A chamada para a prática da fraternidade e do amor fraternal tem se tornado um apelo urgente num mundo sob tensão. O papa Francisco editou em 2020 sua terceira encíclica em que faz uma reflexão sobre esse tema, com o sugestivo título Fratelli Tutti, que quer dizer “somos todos irmãos”. Ele diz: “perante as várias formas atuais de eliminar ou ignorar os outros, sejamos capazes de reagir com um novo sonho de fraternidade e amizade social que não se limite a palavras” (FRANCISCO, 2020, § 6).

Desenvolver um sentimento fraterno e promover a fraternidade são formas de cuidarmos do mundo em que vivemos. E cuidar do mundo significa cuidarmos uns dos outros e de nossa casa comum. Isso implica transformar nossa vivência no mundo como espaço de cuidado, compreendendo que todas as criaturas, tanto pessoas como a natureza, são essenciais para a preservação da vida. O apelo à fraternidade é um convite a aprendermos a nos tratarmos como irmãos e irmãs que convivem em harmonia.

sexta-feira, 2 de outubro de 2020

Orar como Jesus orou / Pray like Jesus prayed / Orar como Jesús oró

Jesus orou. Essa afirmação que os relatos dos evangelhos e a carta aos Hebreus nos trazem é um convite para repensarmos a maneira como cristãos lidam com a oração. E mais, deve servir como estímulo para a humanidade incluir a oração como uma prática saudável para a vida.

Jesus é alguém que sabe a respeito de oração mais do que qualquer outra pessoa porque ele esteve em ambos os lados da intercessão. Ele orou enquanto viveu entre os homens e continua a interceder por nós. Não só Jesus orou como também é em nome dele que cristãos em todo o mundo oram.

Veja um levantamento das referências bíblicas sobre a relação de Jesus com a oração:

Jesus teve uma vida de oração:

Durante os seus dias de vida na terra, Jesus ofereceu orações e súplicas, em alta voz e com lágrimas, àquele que o podia salvar da morte, sendo ouvido por causa da sua reverente submissão” (Hebreus 5.7).

E intercede por nós para sempre:

Portanto ele é capaz de salvar definitivamente aqueles que, por meio dele, aproximam-se de Deus, pois vive sempre para interceder por eles” (Hebreus 7.25).

Ensinos de Jesus sobre a oração:

Então Jesus contou aos seus discípulos uma parábola, para mostrar-lhes que eles deviam orar sempre e nunca desanimar” (Lucas 18.1).

E eu farei o que vocês pedirem em meu nome, para que o Pai seja glorificado no Filho. O que vocês pedirem em meu nome, eu farei” (João 14.13-14).

Mas quando você orar, vá para seu quarto, feche a porta e ore a seu Pai, que está no secreto. Então seu Pai, que vê no secreto, o recompensará. E quando orarem, não fiquem sempre repetindo a mesma coisa, como fazem os pagãos. Eles pensam que por muito falarem serão ouvidos” (Mateus 6.6,7).

Mas esta espécie só sai pela oração e pelo jejum” (Mateus 17.21).

E lhes disse: ‘Está escrito: A minha casa será chamada casa de oração; mas vocês estão fazendo dela um ‘covil de ladrões’” (Mateus 21.13).

E tudo o que pedirem em oração, se crerem, vocês receberão” (Mateus 21.22).

Vigiem e orem para que não caiam em tentação. O espírito está pronto, mas a carne é fraca” (Mateus 26.41).

Ele lhes disse: ‘Quando vocês orarem, digam: Pai! Santificado seja o teu nome. Venha o teu Reino. Dá-nos cada dia o nosso pão cotidiano. Perdoa-nos os nossos pecados, pois também perdoamos a todos os que nos devem. E não nos deixes cair em tentação’” (Lucas 11.2-4).

Vocês, orem assim: ‘Pai nosso, que estás nos céus! Santificado seja o teu nome. Venha o teu Reino; seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu. Dá-nos hoje o nosso pão de cada dia. Perdoa as nossas dívidas, assim como perdoamos aos nossos devedores. E não nos deixes cair em tentação, mas livra-nos do mal, porque teu é o Reino, o poder e a glória para sempre. Amém’” (Mateus 6.9-13).

Por isso lhes digo: Peçam, e lhes será dado; busquem, e encontrarão; batam, e a porta lhes será aberta. Pois todo o que pede, recebe; o que busca, encontra; e àquele que bate, a porta será aberta” (Lucas 11.9,10).

Se vocês, apesar de serem maus, sabem dar boas coisas aos seus filhos, quanto mais o Pai que está no céu dará o Espírito Santo a quem o pedir!” (Lucas 11.13).

A alguns que confiavam em sua própria justiça e desprezavam os outros, Jesus contou esta parábola: ‘Dois homens subiram ao templo para orar; um era fariseu e o outro, publicano. O fariseu, em pé, orava no íntimo: Deus, eu te agradeço porque não sou como os outros homens: ladrões, corruptos, adúlteros; nem mesmo como este publicano. Jejuo duas vezes por semana e dou o dízimo de tudo quanto ganho. Mas o publicano ficou à distância. Ele nem ousava olhar para o céu, mas batendo no peito, dizia: Deus, tem misericórdia de mim, que sou pecador. Eu lhes digo que este homem, e não o outro, foi para casa justificado diante de Deus. Pois quem se exalta será humilhado, e quem se humilha será exaltado’” (Lucas 18.9-14).

Momentos em que Jesus orou:

1.       Quando foi batizado. Lucas 3.21-22.

2.       Antes de escolher seus discípulos. Lucas 6.12-13.

3.       Durante a madrugada. Marcos 1.35.

4.       Em lugares solitários. Lucas 5.16.

5.       Servindo de exemplo. Lucas 11.1-4.

6.       Após alimentar uma multidão. Mateus 14.23 e Marcos 6.46.

7.       Quando recebeu as crianças. Mateus 19.13.

8.       Depois de ser rejeitado. Mateus 11.25-26.

9.       Quando indagou sobre sua identidade. Lucas 9.18.

10.   No monte da transfiguração. Mateus 17.1-2 e Lucas 9.28-29.

11.   Diante da sepultura de Lázaro. João 11.41-42.

12.   Prometeu pedir pelo Consolador. João 14.16.

13.   Durante a última ceia com seus discípulos. Mateus 26.26-27.

14.   Em sua oração de despedida. João 17.1-26.

15.   Intercedeu em favor de Pedro. Lucas 21.32.

16.   No Getsêmani. Mateus 26.39-44, Marcos 14.32 e Lucas 22.41-44.

17.   Na cruz, Jesus fez três orações. Lucas 23.34, Marcos 15.34, Lucas 23.46.

terça-feira, 21 de abril de 2020

Qual o lugar de Deus em tempos difíceis? / What is God's place in difficult times? / ¿Cuál es el lugar de Dios en tiempos difíciles?


Nossa geração não tinha vivido até então um tempo como esse, marcado por uma pandemia. A última que se tem notícia foi em 1918, por ocasião da chamada “gripe espanhola”, que matou mais pessoas do que a própria guerra mundial que acontecia naquele tempo. Tivemos outras epidemias, sem dúvida, que afetaram grupos sociais e regiões – como o da Aids, do vírus Ebola, do vírus Influenza, para falar das mais recentes – mas nada se compara à proporção que o Coronavírus tem alcançado. Nós nos surpreendemos ao verificar que a humanidade não estava preparada para enfrentar esse fenômeno. Tanto a ciência, quanto as estruturas econômicos e os poderes políticos acreditavam que poderiam superar todos os problemas humanos, que teríamos todas as respostas e que seríamos capazes de vencer até os limites da morte. Inclusive a igreja não estava preparada para isso, sem saber como dar uma palavra de consolo para as pessoas que estão sofrendo.
Em tempos difíceis, levanta-se uma questão: qual é o lugar de Deus? Onde Ele está? A resposta tem a ver com o mesmo lugar que Jesus ocupa. Deus está onde Jesus toma forma. Um texto bíblico importante para entender isso é aquele que fala de Jesus como uma pedra angular: “À medida que se aproximam dele, a pedra viva — rejeitada pelos homens, mas escolhida por Deus e preciosa para ele — vocês também estão sendo utilizados como pedras vivas na edificação de uma casa espiritual para serem sacerdócio santo, oferecendo sacrifícios espirituais aceitáveis a Deus, por meio de Jesus Cristo” (1 Pedro 2.4,5). Esse texto lembra que há uma maneira de Deus cuidar das nossas dores, feridas e fraquezas. O modo de Deus nos alcançar com sua graça com sua ação de consolo é através da pessoa de Jesus Cristo, que se faz presente entre nós, que age em nós por meio do seu Espírito.
Pedro diz que Jesus é essa pedra rejeitada pelos homens, mas escolhida por Deus para nos dar esperança e mudar a nossa realidade. Jesus é tudo o que temos. Jesus é o bem mais precioso que os cristãos possuem. E essa pedra preciosa, que é o modo de Deus cuidar da humanidade, nos chama para sermos como cristos no mundo. Cristo quer tomar forma no mundo através da nossa vida. Jesus escolheu gente como a gente para ser a presença dele no mundo, portadores de esperança e de uma palavra de vida para esse mundo que sofre. Deus está conosco através desse Jesus vivo que se manifesta por meio das pessoas que aceitaram o privilégio de encarnar o amor de Deus para o mundo. Os cristãos precisam ser para o mundo a encarnação da mensagem de amor, de paz, de esperança, de libertação e de justiça que Deus trouxe para o mundo através da pessoa de Jesus. Deus está conosco desse modo em que Jesus toma forma em nossa vida, até mesmo nas horas mais difíceis. Jesus também experimentou a dor, a perda, a tristeza e até mesmo a agonia da morte para que pudesse dizer que é possível anunciar vida para um mundo perdido.
Se Jesus é a resposta de Deus para um mundo em crise, tem algumas perguntas que se tornam inevitáveis. A primeira delas é: quem é Deus diante da crise, da dor da humanidade, desse fenômeno que parou o mundo inteiro? Não importa qual seja a sua definição sobre Deus, é preciso dizer que Ele é maior do que a crise. E se Deus é maior, Ele tem poder suficiente para agir na vida daqueles sofrem nesse momento. Ele é maior até que todos as nossas certezas e crenças, e está pronto a abençoar.
A segunda pergunta é: se Deus é tão grande assim, o que Deus faz em tempos difíceis? O que Ele deve estar fazendo nessa hora? Por que ele ainda não eliminou esse vírus, ou não curou as pessoas, ou não deu inteligência para os cientistas descobrirem logo uma vacina? A resposta que temos é que Deus está trabalhando incansavelmente em favor da humanidade. Deus continua trabalhando através do seu cuidado por toda a criação, desde a criação. A Bíblia diz que, após criar todas as coisas, Ele descansou da criação. Mas ele não parou de trabalhar pelo cuidado de toda criação. E, ao agir como Criador, Ele deu a todas as suas criaturas a capacidade de se autorreproduzir e de autocuidar, de gerar nova vida e ter liberdade de agir. E isso é prova do seu amor. Ele não é um Deus despótico, dominador, controlando quem vive e quem morre, quem sofre e quem se livra. Todas as criaturas podem viver de forma livre. O trabalho de Deus é o de garantir a nossa liberdade, para sermos pessoas livres. Ele nos dá força e coragem para vivermos a nossa liberdade no mundo. É o maior milagre que Deus pode realizar na nossa vida, o de nos dar a esperança de poder seguir em frente apesar da dor, da tragédia e todas as aflições. Ele nos dá força e coragem para passarmos por tempos difíceis. Essa é a sua resposta ao nosso clamor.
Mas a outra pergunta que fazemos na hora da dor é: onde Ele está na hora da crise? Cadê Deus? Ele está entre nós. Deus está ao lado dos que sofrem, sentido sua dor, aflição e temor. E Ele quer cuidar de nós, nos abraçar, demonstrar seu amor. Muitas vezes Deus se manifesta que está entre nós através do seu silêncio. Ele prometeu que estaria conosco. Toda a Escritura está cheia de suas promessas. Ele prometeu aos patriarcas da fé, também o fez através dos salmos, dos profetas e, finalmente, da pessoa de Jesus. Deus não está nem acima nem abaixo, Ele está entre nós. Não abriu mão de seguir em frente conosco.
Ao fazer a pergunta “quem é Deus?”, lembre-se: Ele é maior. Ao perguntar “o que Ele faz?”, lembre-se: Ele nos dá força e coragem. E ao perguntar “onde ele está?”, lembre-se: Ele está entre nós. Deus é maior que nossas aflições, Ele está pronto a nos fortalecer e encorajar, Ele está pronto a nos acolher em amor.
(Mensagem apresentada durante o período da quarentena por conta da pandemia do Coronavírus e do Covid-19).

sábado, 18 de abril de 2020

Lições do Sofrimento / Lessons of suffering / Lecciones de sufrimiento


O sofrimento não ocorre à revelia da vida. Há lições a serem aprendidas, apesar de ele tomar parte da nossa existência como um intruso. Ninguém o busca ou o deseja, mas ele acontece. Volta e meia enfrentamos situações que provocam dor, aflição, perda, medo, ansiedade e tormentas. Ele nos inquieta como um vilão em nossa vida. O sofrimento produz efeitos significativos, embora não identifiquemos de maneira fácil a sua causa.
Vivemos numa época em que se dá muita ênfase ao bem-estar e ao conforto. Dificilmente lembramos que a vida é marcada muitas vezes por lutas, por esforço e por situações desagradáveis. Esquecemos que o dia mal pode chegar a qualquer instante. Ninguém está isento disso, todos podemos passar por momentos difíceis, de angústia, que nos levam ao choro, que nos tiram a paz e que até desassossegam o nosso coração. Isso faz lembrar o poeta espanhol do século XVII, Calderón de la Barca, que se pergunta que mal fez para merecer o sofrimento. Ele então diz: “O maior delito do homem é ter nascido”.
O sofrimento não nos ajuda a entender suas razões. Porém, quando não entendemos a dor, temos a tendência de espiritualiza-la com a pergunta “porque comigo, Deus?”, como se houvesse uma conspiração sobrenatural contra nós. É inevitável indagar, mas precisamos compreender que o sofrimento não é produzido por Deus. Ele é resultado de nossa vida num mundo marcado por incertezas e contradições. O tempo todo estamos expostos aos nossos limites, à dor e até à finitude.
O sofrimento não precisa de justificativa, nem há um sentido para ele. Porém, é sempre uma oportunidade para crescermos como pessoas e nos aperfeiçoarmos. É bom que se diga que o sofrimento não tem essa finalidade, ninguém sofre para ter um estímulo na vida. Mas quando o infortúnio ou a tragédia nos acometem, precisamos ressignificá-lo, olhá-lo com outros olhos. Ele não acontece como obra do acaso meramente. Ele pode servir como uma oportunidade para melhorar a vida.
Em meio ao sofrimento, podemos entender melhor como Deus está conosco e como ele cuida de nós. Precisamos reconhecer que ele está disposto a estender o seu braço forte e nos abraçar de um jeito que só Ele sabe fazer. Descobrimos que Ele tem um modo peculiar de nos acolher, que Ele tem cuidado de nós, que quer tocar em nosso coração, quer trabalhar em nossa vida e fazer com que possamos dar um salto de qualidade apesar da dor, do sofrimento, da perda, da tragédia, das tribulações e até das tentações. Deus sabe lidar com nossas dores.
Há lições a serem aprendidas no meio da tormenta, em que o sofrimento se transforma num mestre de vida. Elas estão expressas na Bíblia. O apóstolo Paulo nos apontou a trilha da aprendizagem com o sofrimento. Veja o texto em que ele escreveu sobre isso: Não só isso, mas também nos gloriamos nas tribulações, porque sabemos que a tribulação produz perseverança; a perseverança, um caráter aprovado; e o caráter aprovado, esperança” (Romanos 5.3,4).
Há três lições a serem aprendidas com o sofrimento. A primeira delas é a lição da perseverança. A dor, a angústia e o medo nos paralisam. Mas quando vêm sobre nós, essa não é a hora de desistir. Quando passar por grandes tribulações, não desanime. O apóstolo Tiago escreveu: “Meus irmãos, considerem motivo de grande alegria o fato de passarem por diversas provações, pois vocês sabem que a prova da sua fé produz perseverança. E a perseverança deve ter ação completa, a fim de que vocês sejam maduros e íntegros, sem lhes faltar coisa alguma” (Tiago 1.2-4). Quando enfrentamos um obstáculo, isso não é o fim. Temos que entendê-lo como um desafio para seguirmos adiante.
A segunda lição tem a ver com o caráter. Que tipo de pessoa é você quando enfrenta o sofrimento? Quem sou eu diante da dor? Se o problema vier, não ceda. Não faça negociações a respeito da sua dignidade, de sua condição como pessoa, de sua confiança no poder de Deus. Faça o que você o que você tem competência para fazer. Conselho do apóstolo Paulo: Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, Pai das misericórdias e Deus de toda consolação, que nos consola em todas as nossas tribulações, para que, com a consolação que recebemos de Deus, possamos consolar os que estão passando por tribulações” (2 Coríntios 1.3,4). Lembre-se que somos observados o tempo todo. Na hora do sofrimento, temos a oportunidade de servirmos como testemunhas da fé, da esperança e da confiança no cuidado de Deus sobre nós.
A terceira lição é a da esperança. Quando vier o sofrimento, não pare, siga adiante. Não perca a esperança. É ela que nos impulsiona a seguirmos em frente, a crermos que existem novas possibilidades além da dura realidade que enfrentamos. Fé e esperança são atitudes que estão interligadas. Não existe uma sem a outra. Elas servem para crermos que Deus está no controle e para termos esperança de que suas promessas se cumprem. Palavra do apóstolo Paulo: “Considero que os nossos sofrimentos atuais não podem ser comparados com a glória que em nós será revelada” (Romanos 8.18). Lembre-se sempre: aquilo que enfrentamos agora não se compara com a glória que Deus tem preparado para todos nós. Há vitória no final de nossa luta. A luta daquele que confia no Senhor já é marcada pela vitória.
São lições que nos fortalecem e nos ajudam a cuidar dos que amamos. Se você passa por um momento de sofrimento, persevere, mantenha o seu caráter firme, tenha esperança. Há uma bênção nas Escrituras para aqueles que passam por aflições: “O Deus de toda a graça, que os chamou para a sua glória eterna em Cristo Jesus, depois de terem sofrido durante pouco de tempo, os restaurará, os confirmará, lhes dará forças e os porá sobre firmes alicerces” (1 Pedro 5.10).
(Mensagem apresentada durante o período da quarentena por causa da pandemia causada pelo Coronavírus e a doença Covid-19).

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