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sexta-feira, 6 de setembro de 2024

Exercícios para uma teologia da criação / Exercises for a theology of creation / Ejercicios para una teología de la creación

As imagens que têm ocupado os noticiários nesses últimos anos são evidências de que alguma coisa não vai bem com a natureza. A criação dá sinais evidentes de que não está bem. A criação está enferma e a causa somos nós, seres humanos. Fiz uma breve lista de calamidades desconexas: incêndios nos biomas mais úmidos do planeta; excesso de calor nas regiões em que predomina o clima frio; anúncio de que o Oceano Pacífico já apresenta marcas de elevação que comprometem a existência de alguns territórios ocupados por pessoas.

A criação sofre por causa de nossas ações egoístas, consumistas e despreocupadas com a sustentabilidade. Estamos literalmente devorando o nosso planeta. Chegamos ao ponto de não retorno, em que a natureza não consegue mais repor aquilo que dela tiramos para dar conta de nossa necessidade de consumo.

A teologia como forma de saber orientada para a reflexão e para a construção de esperanças não pode ficar de fora do diálogo necessário para se encontrar saídas para o cuidado da vida no planeta. Esse é o tempo em que se faz necessário emergir uma teologia da criação que ouse apontar para toda a humanidade os caminhos para uma ação consciente como cooperadores de Deus no cuidado com a natureza.

Elementos para uma teologia da criação para esse tempo:

a) Uma teologia da criação que dê ênfase à natureza como dádiva divina, e não como recurso a ser explorado.

b) Uma teologia da criação que nos leve a sofrer, a prantear e a lutar por causa de nossas próprias ações que destroem a natureza.

c) Uma teologia da criação que nos aponte a esperança de um futuro melhor.

d) Uma teologia da criação que nos motive a celebrar ao Deus criador com nossas ações como primícias da esperança.

e) Uma teologia que nos mobilize a trabalhar juntos e unidos à Criação pela construção de um novo tempo e de uma nova mentalidade.

f) Uma teologia da criação que entenda a origem da natureza em diálogo com a ciência como um mistério a ser desvendado.

g) Uma teologia da criação que aponte novos horizontes para a vida no planeta na perspectiva da consumação do Reino de Deus.

Os subsídios para a reflexão teológica a respeito do cuidado humano com a criação emergem das Escrituras. Em Romanos 8.19-25, Paulo apresenta um brevíssimo tratado de teologia da criação em que estão apontados os caminhos para uma reflexão mais profunda e transformadora.

Paulo apresentou nessa passagem da carta ao Romanos um retrato da natureza como alguém que geme com dores de parto. Diante desse estado de “ardente expectativa”, Paulo declara que a esperança de libertação para toda a criação é a atitude daqueles e daquelas que acolhem o convite amoroso de Deus para se tornarem seus filhos.

A redenção de toda a criação só pode vir da mudança de atitude de pessoas que restauram em sua própria vida a condição primeira de cuidadores da criação. Fomos criados para viver em harmonia com a natureza. Homens e natureza formam a totalidade da criação, que existem para se cuidarem mutuamente. É uma pretensão acharmos que podemos salvar o planeta, mas é sinal de esperança crermos que podemos experimentar em nós uma conversão ecológica a fim de restaurarmos nossa relação cósmica como pertencentes à grande família da criação.

Espera-se que filhos de Deus sejam capazes de mudar. Mudar a sua mentalidade de consumo, a maneira como descartam seus resíduos, a forma com que colocam em prática a estratégia de reusar, reciclar e reutilizar, o jeito de compartilhar seus bens e recursos, de ser solidários, de superar o individualismo e o egoísmo.

Esse é o papel dessa geração de filhos de Deus, a nossa geração. Temos um legado para deixar para as gerações futuras a respeito do que fizemos com a natureza, com o mundo que deixamos para nossos netos. É um compromisso que envolve responsabilidade ética mas também o exercício da fé no Deus que criou todas as coisas.

quarta-feira, 21 de setembro de 2022

O grito da Criação: é tempo de escutar a voz da natureza, do planeta, dos pobres e dos excluídos / The cry of Creation: it is time to listen to the voice of nature, the planet, the poor and the excluded / El grito de la Creación: es tiempo de escuchar la voz de la naturaleza, del planeta, de los pobres y excluídos

O salmista declara que há uma voz que vem sendo silenciada que emerge do meio da Criação: Sem discurso nem palavras, não se ouve a sua voz” (Salmos 19.3). É uma voz sufocada que vem de todas as criaturas que apontam para o Criador. Essa voz que vem da Criação é a voz do próprio Criador que clama pelo cuidado com os que sofrem com o avanço da degradação da vida no planeta e do aumento da desigualdade social.

É preciso que todas e todos se unam para fazer ressoar essa voz “por toda a terra, e as suas palavras, até os confins do mundo” (Salmos 19.4). A Criação é a primeira e mais eloquente forma de Deus se revelar. Quando ouvimos essa voz que vem da Criação, compreendemos quem somos, onde estamos e qual é o nosso compromisso como cooperadores de Deus.

É urgente unir as vozes de cristãs e de cristãos de todo o mundo em um clamor pela proteção de nossa casa comum, em defesa dos pobres e dos que são excluídos. A oração em favor de toda a criação Corresponde a um despertar em defesa da vida como proclamadores das Boas Novas para toda a Terra.

De todas as partes, de todos os povos, de todas as nações e em todas as línguas, é possível ouvir o grito de cada pessoa, de cada comunidade, de cada bioma, de cada espécie que tem sido silenciado pela exploração provocada pela ganância e pelo consumo desenfreado. São vidas que estão ameaçadas pela perda das condições mínimas de sobrevivência por causa das mudanças climáticas.

Escutar a voz da Criação exige um tipo de escuta que envolve nossa sensibilidade em ouvir os modos em que Deus fala conosco. Santo Agostinho escreveu que a Criação “é a página divina que você deve escutar; é o livro do universo que você deve observar. As páginas da Escritura só podem ser lidas por aqueles que sabem ler e escrever, enquanto todos, mesmo os analfabetos, podem ler o livro do universo” (apud Tempo da Criação: Guia de celebração 2022, p. 7). Martinho Lutero também pregou que o Evangelho não foi apenas escrito em livros “mas também em árvores e outras criaturas” (idem).

Através desse exercício de escuta, é possível desenvolver uma nova espiritualidade que implica a percepção da verdade, a virtude da bondade e as expressões de beleza presentes na vida do outro, das relações comunitárias e da natureza. Somos também conduzidos a experiência de tomada de consciência de quem Deus é e como ele vem a nós, como Trindade santa, na qual todas as coisas existem e se movem. Como afirmou o teólogo alemão Jürgen Moltmann: “Deus cria, reconcilia e redime sua criação por meio do Filho. Na força de Espírito, Deus está presente na sua criação, na reconciliação e na redenção da criação” (Dios en la creación, p. 29).

A Bíblia nos diz que toda a natureza geme. “Sabemos que toda a natureza criada geme até agora [...]” (Romanos 8.22). É possível ouvir nos dias atuais o clamor que nos interpela a refletir a respeito dos modos como conduzimos nossa própria vida. Algo precisa ser feito para mudar o rumo de nossa história, que aponta para um fim trágico. Cuidamos da natureza e uns dos outros porque amamos ao Deus da Criação.

quinta-feira, 9 de setembro de 2021

Uma casa para todos / A home for all / Un hogar para todos

Os povos originários do Brasil dão à casa um sentido mais abrangente do que estamos acostumados. A oca, como a casa é chamada na língua tupi-guarani, é uma construção em grande dimensão, podendo chegar a 40m de comprimento, feita de forma comunitária usando troncos e taquaras amarradas com cipós e cobertas com palhas retiradas da natureza no entorno. Nela não há divisão interna e ela serve como habitação para todas as famílias da aldeia.

Essa experiência dos povos originários, que se apresenta em diferentes modalidades, ressalta a importância da casa como lugar de acolhimento. Parte do dia, os moradores realizam suas atividades fora da oca, recolhendo-se no interior da mesma para o descanso, a alimentação e o cuidado uns com os outros. No interior das casas, cada família convive com as demais de forma harmoniosa e colaborativa. Esse sentido da casa comum serve como inspiração para repensarmos a maneira como vivemos no planeta.

O papa Francisco tem feito constantes apelos ao cuidado do planeta como nossa a casa comum. Já na encíclica Laudato Si, ele lançou o desafio de unir toda a família humana na busca de um desenvolvimento sustentável e integral para o bem da vida no planeta. “A humanidade possui ainda a capacidade de colaborar na construção da nossa casa comum” (FRANCISCO. 2015, § 13). Deixar de cuidar dela é um pecado grave que põe em risco toda forma de vida. Portanto, é preciso cuidar-se, cuidar uns dos outros e deixar-se ser cuidado.

De que forma podemos cometer um pecado grave em relação à nossa casa comum? Tornando-se indiferente aos mais vulneráveis, explorando a natureza indiscriminadamente e desenvolvendo uma mentalidade gananciosa e acumuladora. Precisamos aprender de forma solidária, participativa e preocupada com a sustentabilidade. A isso poderíamos chamar de a grande revolução do cuidado.

Há um ditado popular espanhol que diz: “Deus perdoa sempre; nós perdoamos às vezes; a natureza não perdoa nunca”. Estamos vivendo um momento único na história da humanidade em que temos a chance de lutar para reverter o avanço da crise ambiental, agindo pelo cuidado da casa comum. É urgente que cada um assuma a responsabilidade de tomar a iniciativa para fazer algo em favor da criação e da preservação de todas as formas de vida existentes no planeta. O nosso grande alvo deve ser o de, juntos, desenvolvermos as condições  para um planeta sustentável e acolhedor para todas as criaturas.

quinta-feira, 22 de abril de 2021

Salvar o planeta é salvar a humanidade / Saving the planet is saving humanity / Salvar el planeta es salvar a la humanidade

É uma pretensão e uma arrogância dizer que a humanidade salvará o planeta. É preciso muita coragem, sabedoria e humildade para admitir que a humanidade é responsável até aqui pela ameaça de sua própria extinção. E a única forma de frear esse desastre é preservar o que ainda resta de equilíbrio ecológico.

A crise ambiental que tem ameaçado o planeta é provocada pela própria atitude humana. Se queremos cuidar (ou salvar) o planeta, temos que reconhecer suas causas, quais são as atitudes humanas que desencadearam esse processo de degradação que parece irreversível. Neste Dia da Terra, quando líderes do mundo inteiro são convocados pelo Presidente dos Estados Unidos da América Joe Biden para a formação de uma cúpula para refletir sobre o que fazer, precisamos nos conscientizar de que esse assunto deve afetar a todos.

Essa crise tem três matrizes causadoras, que vêm sendo engendradas ao longo da história da civilização ocidental. Portanto, ela não é de hoje. Já faz algum tempo que a vida vem sofrendo com o esgotamento da natureza. A humanidade também tem produzido tentativas para a superação dessa crise, embora insuficientes. Entretanto, é preciso uma tomada de consciência de que somente uma conversão radical quanto à maneira como a humanidade tem orientado sua conduta pode apontar uma saída e isso se faz mais do que urgente.

A crise não se limita ao campo da biologia, mas à maneira como a vida como um todo vem sendo tratada, sobretudo a partir da racionalidade moderna. Essas três matrizes causadoras são identificadas pelos seus vieses tecnológico-científico, político-econômico e teológico-filosófico em que um está intimamente relacionado com o outro.

As conquistas tecnológicas e científicas, conquanto tenham proporcionado um avanço na conquista do bem-estar e na solução de problemas que afetam as condições humanas de vida, têm custado a depredação da natureza. A mentalidade científica ocidental foi construída a partir da ilusão de que, através das ciências naturais, o homem é capaz de exercer domínio e controle sobre a natureza.

As relações de poder produziram a concepção dos estados modernos industrializados. Com isso, a fonte de riqueza passou a ser a transformação de recursos naturais em bens de consumo, cujo auge se deu com a chamada revolução industrial. A economia e a politica deixaram de ser atividades de cuidado com a casa e a cidade para serem estratégias de controle e de interdição na vida dos indivíduos, a partir da necessidade de consumo. Para que esse intento fosse consolidado, dependeu-se cada vez mais do uso da mão de obra servil a disposição daqueles que detém o direito de propriedade, sob a proteção de estados que promovem leis que favoreceram (e ainda favorecem) a concentração de riqueza.

Tudo isso se deu a partir de uma cultura marcada pelo cristianismo. Tanto a concepção cristã da criação quanto a ideia de que o ser humano é dotado de autorização divina para explorá-la forneceram o fundamento ideológico para o uso desordenado dos recursos naturais sem a preocupação com sua recuperação. Essa ambição humana foi reforçada por uma interpretação equivocada das Escrituras e instrumentalizada de tal modo para validar a ideia de que a exploração da Terra é um mandamento divino. Um desses equívocos é a tradução e a interpretação da expressão: “[...] subjuguem a terra” (Gênesis 1:28).

As ciências naturais formulam tecnologias que afetam diretamente as condições de vida no planeta. As políticas econômicas se baseiam na exploração dos recursos naturais, sobretudo as fontes de energia que dependem da extração. A necessidade de atender às demandas de consumo dos países em desenvolvimento se depara com a forte desigualdade de oportunidades em comparação com países desenvolvidos. Na medida em que todos querem ter acesso aos bens de consumo, se percebe que a natureza não dispõe de recursos para dar conta da quantidade que lhe é exigida.

A vida está em risco. Porém, a saída não será encontrada se a matriz filosófico-teológica não for encarada com a devida seriedade. A solução para a crise ambiental é acima de tudo moral, pois diz respeito às nossas relações com o meio ambiente. Sendo assim, precisamos ter uma resposta a respeito do que estamos fazendo com a vida que temos. Do ponto de vista cristão, é preciso resgatar o sentido original da criação, em que a vida é dádiva que precisa ser cuidada e preservada. Nesse sentido, precisamos de uma teologia da criação que diga que toda forma de vida importa. A vida é o espaço sagrado onde Deus habita. Toda forma de vida importa para Deus porque ele está nelas.

sábado, 12 de setembro de 2020

Motivações para despertar a nossa paixão pelo cuidado da criação / Motivations to awaken our passion for the care of creation / Motivaciones para despertar nuestra pasión por el cuidado de la creación

A vida cristã nesses tempos de grandes transformações requer dos cristãos uma conversão radical. É preciso desenvolver uma consciência nova, uma mudança de entendimento, uma nova orientação a respeito de nosso modo de viver, de conviver, de crer e de organizar a vida em sociedade. Essa é a perspectiva da metamorphousthe e anakainwsei (palavras gregas empregadas por Paulo em Romanos 12.2 para se referir à transformação e renovação da mente) conforme proposta pelo Evangelho: uma mudança integral a partir do encontro com Jesus.

A vida de Francisco, o santo dos pobres, é um convite a pensar em como viver de forma intensa, nos dias atuais, as consequências do encontro com Jesus. Num tempo em que o testemunho de maus cristãos fala mais alto e sobressai nas mídias como exemplo do que há de pior no mundo, ser alguém que encarna a mensagem de amor, de perdão, de comunhão, de fé, de confiança, de esperança, de alegria e de discernimento que emana do evangelho é algo desafiador e tremendamente necessário.

Francisco de Assis nasceu em 1181 e viveu até o ano de 1226. Atuou como mercador, serviu como um soldado e viveu sua juventude como um burguês até o encontro com Jesus. Sua conversão desencadeou um processo lento de mudanças que o transformaram em alguém que se fez pobre junto aos pobres. Francisco encarnou a mensagem do amor ensinada por Jesus que conduz a ações concretas de cuidado com o próximo, de perdão, de acolhimento e de escuta do outro.

Francisco foi um pacifista, numa época em que a igreja promovia a solução de conflitos com uso de armas e violência. Ele foi também alguém que renunciou a riqueza, num tempo em que a igreja mantinha os privilégios dos mais abastados. Ele creu num Cristo mais humano, pobre e humilde, enquanto a cristandade enfatizava o glorioso, “pantocrator”, triunfalista, assentado num trono distante. Ele também optou por uma vida de comunhão plena com a criação em geral num tempo de total indiferença e falta de respeito com a natureza. Chamava a todos e todas de seus irmãos e irmãs.

Em seu Testamento, Francisco se apresentou como o irmão menor ou o “menor de vossos servos”, numa atitude de respeito e unidade com o corpo de Cristo. No encontro que teve com o comandante do exército islâmico, sultão Malik al Kamil, foi reconhecido como um promotor e mensageiro da paz. O sultão teria dito: “se os cristãos fossem como você, não haveria guerra entre nós”. Já em sua oração, deixou uma proposta de vida de serviço e dedicação ao outro, para a promoção da paz e da comunhão. E no “Cântico das Criaturas”, ele louvou ao Senhor por toda a criação, chamando a cada elemento – como o Sol, a Lua, o vento e até a morte – de irmão e irmã.

O princípio de Francisco para viver intensamente as consequências do seu encontro com Jesus está na proposta de observar o Evangelho como regra de vida (conforme o capítulo I da Regula Bullata). Sua vida inspirou a muitos relatos sobre sua santidade, motivou muitos jovens a abraçarem a obra da sua Ordem dos Frades Menores e promoveu uma renovação da fé cristã no mundo. Por essa razão, foi chamado por Dante Alighieri, na Divina Comédia, como “a luz que inspirou o mundo”.

A conversão radical que se requer dos cristãos passa pelos caminhos da construção de uma espiritualidade que seja mais humana e solidária, que atenda ao chamado divino de encarnar no mundo o amor uns pelos outros, de colocar a vida inteira a serviço do cuidado da criação e a exerce com criatividade nossos dons e talentos de forma relevante para o mundo. Ocupar o nosso tempo e o nosso pensamento nisso é um esforço urgente e necessário.

domingo, 1 de setembro de 2019

A teia da vida: a biodiversidade como bênção divina / The web of life: biodiversity as a divine blessing / La red de la vida: la biodiversidad como una bendición divina


Todos nós fazemos parte de uma teia de vida, maravilhosamente complexa e única, que foi criada pelas mãos de Deus. Essa é a ideia que tem mobilizado cristãos para interceder por um mundo mais sustentável e justo, onde todos possam viver de modo digno e ainda venhamos garantir às gerações futuras as mesmas condições de existência que hoje temos.
Vivemos hoje uma realidade desconcertante: a crise ambiental que coloca em risco a vida no planeta e que tem como causa principal a ação do próprio homem. Essa crise tem cinco sintomas: (1) a biodiversidade vem sendo reduzida; (2) os ecossistemas vêm sendo destruídos; (3) os recursos naturais renováveis estão sendo esgotados; (4) a poluição tem aumentado; e (5) há um maior risco de desastres ambientais provocados pela ação do homem. Essa crise é resultado de uma desarticulação entre os processos cíclicos da vida na natureza e as técnicas de extração, transformação e emprego dos recursos que ela oferece. E a causa é clara: é preciso dar conta da demanda de consumo de uma sociedade cada vez mais exigente em termos de bem-estar, segurança e padrões de beleza e saúde.
Dentre as consequências da crise que vêm sendo apontadas por vários estudiosos da questão ambiental, duas são alarmantes. A primeira é que o planeta não dispõe de recursos naturais suficientes para atender à necessidade de todas as pessoas, conforme o hábito de consumo que a sociedade industrial e do capital desenvolveu. Se as pessoas mais pobres consumirem o mesmo que os mais ricos, serão necessários pelo menos mais dois planetas como o nosso. O segundo é que a vida humana na Terra está em risco de extinção, por conta do aquecimento global, que já se pode ser sentido com os vários efeitos de desequilíbrio nas geleiras e camadas polares, nos cumes das cordilheiras, nos grandes biomas como a Amazônia, o Cerrado, a Caatinga e Mata Atlântica, entre outros no nosso país e também no mundo.
Diante desse quadro de crise, surge a necessidade de se pensar a vida a partir de paradigmas distintos daqueles que levaram a humanidade ao caos ecológico que nos deparamos. O teólogo brasileiro Leonardo Boff, em seu livro Ecologia: grito da terra, grito dos pobres, entende que é preciso compreender a Terra como um organismo dinâmico e complexo, que possui identidade e harmonia. Para isso, surge a necessidade de se formar um novo paradigma, que supere a lógica da razão instrumental, e se valorize mais uma razão simbólica e cordial, que envolve todos os nossos sentidos e sentimentos, que aponta para uma atitude de encantamento e que desperte a gratidão por ser parte de uma totalidade de vida.
Esse cuidado com a vida remete a um conjunto integrado de ações, que deve envolver uma dimensão científica que seja capaz de compreender o impacto da ação humana sobre o meio ambiente, uma dimensão política que estabeleça políticas públicas e princípios de governança vinculados a compromissos globais, uma dimensão ética que seja capaz de questionar nossas ações humanas diante das condições de vida no planeta e o enfrentamento responsável dessa crise, e uma dimensão de espiritualidade que aponte para a fé e a esperança de que seremos capazes de juntar esforços para cuidarmos de nossa casa comum e de superarmos os grandes obstáculos que estão no meio do caminho.
Em meio a uma diversidade de formas de vida, há também uma diversidade de culturas que nos ajuda a compreender a humanidade como uma família que convive numa mesma comunidade cósmica enfrentando os mesmos desafios e caminhando para um destino comum. Tudo isso precisa ser amado e cuidado a fim de que seja possível florescer a vida em sua plenitude em todos os seus aspectos. Uma das formas de se fazer isso é resgatar o sentido bíblico da criação, na metáfora do cuidado com o jardim já presente no Gênesis.
A crise ambiental destrói a diversidade das condições de vida na Terra. A perda da biodiversidade está vinculada também às condições de pobreza, visto que são os pobres e migrantes que mais sentem os efeitos da ruína dos sistemas naturais que sustentam a vida. Para estancarmos essa tragédia, precisamos dar um sim à vida. Isso implica compreendermos que toda a forma de vida assim como todo modo como ela se manifesta é criação divina. Deus ama a diversidade, por isso criou a natureza desse modo. Temos uma dupla tarefa no cuidado com a vida: devemos respeitar a diversidade como também temos a responsabilidade de preservá-la. E pessoas que afirmam amarem a Deus devem demonstrar o seu amor pela sua criação. Uma espiritualidade que cuida da criação começa por compreender a natureza e culmina em colocar-se a serviço da vida em sua diversidade como o mundo criado e amado por Deus.
A Bíblia começa dizendo que Deus reconheceu que tudo na criação foi “muito bom”. Cada espécie foi cuidadosamente criada e reflete aspectos do cuidado divino com a vida. Quando uma pequena criatura, por menor que seja, é extinta, desaparece também a chance de contemplarmos a riqueza do amor de Deus por sua criação. Cristãos de um modo geral têm o dever moral de dar uma resposta a essa crise ambiental, como expressão de justiça e de zelo pela dignidade da vida em toda sua complexidade e especificidade, como parte da missão.

sexta-feira, 23 de agosto de 2019

Amazônia em chamas: um desastre em nossa casa comum / Amazon Burns: A Disaster in Our Common Home / Arde la Amazonia: un desastre en nuestro hogar común:


O mundo encontra-se perplexo diante do aumento dos incêndios na Amazônia. Só no Brasil, o aumento foi de 82% em relação ao mesmo período do ano anterior, que é conhecido como um tempo em que as queimadas são comuns. O que surpreende desta vez é que o aumento dos incêndios é resultado de uma política equivocada de controle do desmatamento, com incentivo à exploração e a falta de respeito aos povos amazônicos. Enquanto a Amazônia arde, o mundo grita por socorro. O Grupo Fé e Política: Reflexões emitiu Nota em Defesa da Amazônia, somando-se às muitas vozes que se pronunciam nesse sentido. Eis a nota:
Nota em Defesa da Amazônia
"As nações se iraram; e chegou a tua ira. Chegou o tempo de julgares [...] e de destruir os que destroem a terra" (Apocalipse 11.18)
Manifestamos nosso profundo pesar e preocupação com os recentes acontecimentos relativos às dezenas de focos de incêndio que destroem parte da floresta amazônica, sobretudo em território brasileiro. Essa tragédia que afeta a maior biodiversidade do planeta prejudica comunidades locais, povos indígenas, espécies de plantas e animais, cultura e economia local, mas acima de tudo representa um grave risco para o equilíbrio ambiental global e coloca em risco toda forma de vida.
Compreendemos que a responsabilidade é de todos, quer sejam autoridades locais, regionais, nacionais e mundiais, lideranças religiosas, judiciais, educacionais, civis e militares, quer sejam cidadãos comuns. Entretanto, não podemos deixar de registrar que o quadro geral se agrava em função das atuais políticas brasileiras de cuidado com o meio ambiente e das atitudes do governo que enfraquecem as organizações ambientalistas diante do poder do capital. Diante de um governo que não assume suas responsabilidades e transfere competências, os danos são irreversíveis de uma política de extermínio da vida em todos os aspectos.
“Por causa disso a terra pranteia, e todos os seus habitantes desfalecem; os animais do campo, as aves do céu e os peixes do mar estão morrendo” (Oseias 4.3).
A questão não se trata mais de um problema social ou político, mas de definição do futuro e destino da vida humana. Estamos diante de um fenômeno que traz à luz o valor da vida, em que nos inserimos numa mesma realidade para a qual necessitamos de todos os recursos que a natureza dispõe para existirmos. É urgente que as autoridades, tanto dos países que formam a Amazônia Legal quanto da ONU e da comunidade internacional, se mobilizem para a preservação da Amazônia e assumam posições efetivas pelo fim do desmatamento, pelo respeito aos povos locais e pela proteção da biodiversidade.
Por essa razão, unimos nossas vozes às vozes de todos que, independente de suas convicções, se filiam a um ideal de lutar pela existência e assumem o compromisso de ser a comunidade daqueles que amam a natureza porque amam a Deus que a criou. A Amazônia é um patrimônio humano que precisa ser cuidado em toda a sua extensão cultural, civilizatória e biológica. Declaramos a nossa fé, como diz as Escrituras, “de que a própria natureza criada será libertada da escravidão da decadência em que se encontra para a gloriosa liberdade dos filhos de Deus” (Romanos 8.21).
Agosto de 2019.
Grupo Fé e Política: Reflexões
Foto: El País, edição digital de 22/8/2019. Disponível em: https://brasil.elpais.com/brasil/2019/08/21/album/1566384483_259997.html?id_externo_rsoc=TW_CC

domingo, 27 de janeiro de 2019

Crime ambiental: as lições não aprendidas de Mariana e Brumadinho / Environmental crime: the lessons not learned from Mariana and Brumadinho / Crimen ambiental: las lecciones no aprendidas de Mariana y Brumadinho


Mais uma vez assistimos a uma tragédia humana. Não, não foi uma tragédia ambiental, mas uma tragédia humana provocada pelo crime cometido contra o meio ambiente. Tragédias ambientais são provocadas por fenômenos naturais. O que aconteceu em Brumadinho no começo da tarde de 25 de janeiro de 2019 foi provocado pela ação humana. Dois dias depois do rompimento da barragem dos rejeitos da mineradora privatizada Vale, a contabilização dos mortos cresce cada vez mais, o drama dos parentes dos desaparecidos aumenta e os sinais de degradação da vida pela invasão da lama tóxica vão aparecendo de forma dramática. Se compararmos com o acidente de proporções semelhantes de Mariana em 2015, podemos dizer que se trata de uma tragédia anunciada.
A todo tempo, pela mídia e pelas redes sociais, vão sendo apontados os possíveis culpados: uns dizem que são os governos atuais que prometeram afrouxar as fiscalizações ambientais; outros dizem que foram os governos anteriores que fizeram vistas grossas para a falta de cuidado com as barragens. Sem tirar a razão dessas críticas, é preciso voltar os olhos para outro ator. A verdadeira e única culpada da tragédia de Brumadinho – que também o foi de Mariana em 2015 – é a privatizada Vale, cujos acionistas e executivos financiam lobbies para cooptar políticos, juízes e procuradores a fim de que estes facilitem a exploração do homem e da natureza.
O crime ambiental tem sempre o mesmo viés: é resultado de uma visão capitalista de produção, que é voltado para a exploração da natureza visando a obtenção de lucro. A lógica capitalista obriga a que empresas aumentem sua lucratividade reduzindo custos de exploração da mão de obra para a extração da matéria prima da natureza logo no começo da cadeia produtiva. Incentiva o uso de técnicas predatórias, isso para não falar do emprego de venenos que destroem a natureza e comprometem a qualidade dos alimentos.
Para essa ação, empresas nunca atuam sozinhas. Contam com a falta de políticas públicas de preservação da natureza e cuidado com a terra, com uma legislação frágil de regulação e de fiscalização das atividades econômicas ligadas à vida e ainda com instituições reguladoras e fiscalizadoras tomadas por pessoas comprometidas com interesses do capital. Esse cenário forma um círculo vicioso que não permite punir o verdadeiro culpado. Numa sociedade séria, os principais executivos da empresa responsável deveriam estar presos preventivamente.
A extensão do estrago deveria ser, por si só, motivo de punição: o Rio Paraopeba – que deságua no Rio São Francisco que deságua no mar dos estados de Alagoas e Sergipe – teve suas águas contaminadas num trecho de cerca de 220 quilômetros; a produção agropastoril da região foi devastada por onde a lama passou afetando diretamente a economia; áreas de preservação ambiental foram invadidas. Isso sem contar com o mais trágico: vidas soterradas, a maioria de trabalhadores da mineradora em questão. Fazendo mau uso do trocadilho, a vida não vale nada para a Vale.
Não são poucos os estudiosos de várias áreas que alertam para o risco que a humanidade enfrenta. Pela primeira vez na história humana, estamos diante da ameaça de extinção da humanidade em que o principal responsável é o próprio ser humano. O episódio de Brumadinho, como o de Mariana e outros crimes ambientais em diversas partes do planeta, é um sinal de que o alerta precisa ser levado a sério. Ou mudamos a forma como lidamos com a natureza ou a humanidade sofrerá danos irreversíveis.
(Foto: Folha de São Paulo)

sábado, 3 de março de 2018

Conversão ecológica: uma proposta de espiritualidade a partir da Encíclica Laudado Si / Ecological conversion: a spirituality from the Laudato Si / Conversión ecológica: la espiritualidad de la Encíclica Laudato Si


A segunda encíclica do Papa Francisco, escrita em seu terceiro ano de pontificado e que recebeu o nome de Laudato Si, aposta em uma mudança de estilo de vida que nasça de uma nova consciência, a de que temos uma origem comum, de um sentimento de pertença e da percepção de que temos um futuro partilhado por todos, mas também que sirva para exercer uma influência sobre aqueles que detêm o controle dos poderes econômico, político e social.
A constatação de que vivemos um tempo de crise tem uma aceitação unânime em todos os campos de ação humana. O discurso de que vivemos sob a ameaça de uma catástrofe global tem sido uma constante em termos ecológicos, sociais, políticos e econômicos. A própria encíclica revela que esse quadro provoca um sentimento de fragilidade e de insegurança, que favorece a formação de toda sorte de expressões de egoísmo.
O tema geral da encíclica é o cuidado da casa comum, que deve emergir de uma atitude de gratidão, de amor e de louvor ao autor da criação. O título é retirado do Cântico das Criaturas, de Francisco de Assis, que repete a expressão “Louvado sejas” em relação ao cuidado de Deus de nos doar a natureza e o universo como irmãos. Ele diz: “Louvados sejas, meu Senhor, por nossa irmã e mãe Terra que nos sustenta e governa, e produz frutos diversos e coloridas flores e ervas”. A questão crucial levantada é: “Que tipo de mundo queremos deixar a quem vai suceder-nos, às crianças que estão a crescer?” (LS, § 160). As previsões catastróficas dão conta de que, pelo ritmo do consumo, pela degradação do planeta e pelo estilo de vida atual, não deixaremos mais que ruínas, desertos e lixos.
A boa notícia da encíclica é que nem tudo está perdido. Pois “os seres humanos, capazes de tocar o fundo da degradação, podem também superar-se, voltar a escolher o bem e regenerar-se, para além de qualquer condicionalismo psicológico e social que lhes seja imposto” (LS, § 205). Trata-se de uma proposta que retoma a ideia da Carta da Terra, que apontava para um novo começo que seja marcado por uma reverência pela vida. Essa proposta tem um viés teológico na medida em que “não há sistemas que anulem, por completo, a abertura ao bem, à verdade e à beleza, nem a capacidade de reagir que Deus continua a animar no mais fundo dos nossos corações” (idem). A teologia, portanto, deve ser encarada como um campo de saber que não pode ficar de fora dessa reflexão que envolve os riscos que ameaçam a vida em nossa casa comum.
Voltando para a encíclica, ela diz que a atual “crise ecológica é um apelo a uma profunda conversão interior” (LS, § 217). Não se trata apenas de ser uma pessoa melhor permanecendo cada um em sua individualidade, mas de desenvolver atitudes que possam desencadear ações generosas e cheias de ternura. Isso implica no reconhecimento de que o mundo é uma dádiva do amor de Deus que deve despertar em nós sentimentos de gratidão, de comunhão com todas as criaturas e de entrega.
Diz a encíclica textualmente: “O crente contempla o mundo, não como alguém que está fora dele, mas dentro, reconhecendo os laços com que o Pai nos uniu a todos os seres. Além disso a conversão ecológica, fazendo crescer as peculiares capacidades que Deus deu a cada crente, leva-o a desenvolver a sua criatividade e entusiasmo para resolver os dramas do mundo, oferecendo-se a Deus ‘como sacrifício vivo, santo e agradável’ (Rm12, 1)” (LS, § 220).
Essa condição de vida que nasce da conversão ecológica gera um novo sentido de espiritualidade cristã, que encoraja a um novo estilo de vida que possa ver o mundo como amado por Deus e sentir a alegria de tomar parte do seu cuidado. Um estilo de vida que prima pela simplicidade, que se contenta com o pouco, que nos liberta da dominação do consumo e da acumulação de prazeres. A razão para isso é que “a felicidade exige saber limitar algumas necessidades que nos entorpecem, permanecendo assim disponíveis para as múltiplas possibilidades que a vida oferece” (LS, § 223).
“É necessário voltar a sentir que precisamos uns dos outros, que temos uma responsabilidade para com os outros e o mundo, que vale a pena ser bons e honestos” (LS, § 229). Após a Laudato Si, os discursos cristãos que orientam a vida religiosa não podem ser mais os mesmos. Eles terão que estar voltados para a comunhão com Deus e com o próximo, mas também com a natureza.

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