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quarta-feira, 23 de julho de 2025

Caminho do Itinerário do Amor: uma reflexão a partir do Castelo Interior / Path of the Itinerary of Love: a reflection from the Interior Castle / Camino del Itinerario del Amor: una reflexión desde el Castillo Interior

Um dos textos mais sublimes da espiritualidade cristã é, sem sombra de dúvidas, a obra “O castelo interior”, de Teresa de Ávila, santa e doutora da igreja que viveu na Espanha durante o século XVI. Trata-se de um clássico da literatura de espiritualidade e mística. Nesse livro, a fundadora do Convento das Carmelitas Descalças ofereceu, de forma simples, uma proposta de experiência de encontro com Deus e de busca de santidade.

Teresa de Ávila usa a metáfora de um castelo formado por muitas moradas para se referir à alma humana. “Consideremos nossa alma como um castelo, feito de um só diamante ou de um cristal claríssimo, onde há muitos aposentos, à semelhança das muitas moradas que há no céu”, diz ela. Essa jornada em direção ao encontro com Deus é também conhecida como o “caminho do itinerário do amor”, um guia de experiência de espiritualidade que o campo da mística tem se debruçado em suas investigações e descobertas.

Nesse caminho místico, não estamos sozinhos. É o próprio Rei que nos guia e nos conduz, a cada morada, em direção ao grande salão real. Para percorrer essas moradas, é preciso primeiro tomar a decisão de entrar no castelo interior. Logo na primeira morada, a alma é despertada para a vida espiritual, convidada a reconhecer o seu valor e a sua necessidade de Deus. Embora ainda estejamos presos aos desejos e envolvidos com o pecado, não podemos esquecer que fomos criados como imagem e semelhança de Deus.

Ao chegar à segunda morada, a alma é encorajada à prática da oração e aos exercícios espirituais. O objetivo é perseverar na luta contra as distrações e a na busca por uma vida mais próxima da vontade divina. A terceira morada corresponde ao momento em que a alma desfruta do cuidado divino e começa a sentir a presença de Deus de forma mais intensa. Entretanto, ela ainda pode sofrer oscilações e dificuldades.

Na quarta morada, a alma experimenta um aprofundamento da experiência mística, com um desejo ardente de se entregar completamente a Deus. Ná quinta morada, a alma atinge um grau de união mais profundo com Deus, frequentemente descrito como um êxtase místico, onde a vontade da alma se torna mais alinhada com a vontade divina.

Na sexta morada, a alma experimenta uma união quase plena com Deus, com a prática constante da oração, das virtudes e da caridade. Enfim, a sétima morada corresponde à plenitude da experiência de Deus vivendo em perfeita harmonia com a vontade divina e desfrutando a verdadeira paz e alegria espiritual.

Há quatro lições que podemos extrair dessa obra de Teresa de Ávila. Os sete estágios de progresso espiritual descritos por Teresa implicam conhecer a alma humana e descobrir a vida interior. A primeira lição é o caminho da descoberta de si; a segunda tem a ver com nossa luta interior que confronta nossos desejos e a carência de Deus que todos possuímos; a terceira é a alternativa que o chamado divino nos oferece, de experimentar uma vida de intimidade com Deus; e, por fim, a lição de que uma vida de plenitude da presença de Deus é possível num mundo tão conturbado como o nosso.

Teresa de Ávila viveu numa época bastante contraditória. Era um tempo de mudanças em que o Ocidente abandonava a mentalidade medieval e se abria para a Modernidade. Essa transição foi dominada pela descoberta da racionalidade e pela defesa da dignidade humana. Além disso, a Espanha encontrava-se sob forte influência da inquisição, com o temor constante de aderir aos novos ventos que vinham do humanismo e das ciências nascentes e, sobretudo, dos ideais da Reforma Protestante.

Havia também o fato de ela ser mulher numa sociedade patriarcal. Embora tivesse sido estimulada a escrever sobre suas ideias e sua experiência, ela foi muitas vezes considerada como impulsiva e desajustada à sociedade. Aos 21 anos, abandonou a família para viver de forma radical a sua experiência de fé. Em vez de uma vida reclusa em um mosteiro, optou pela missão peregrina de formar diversos conventos pela Espanha.

A jornada de espiritualidade, quando vista à luz da tradição mística cristã e da Escritura, nos oferece uma compreensão mais aprofundada da vivência do amor ensinada por Jesus de Nazaré. A proposta de Teresa de Ávila está bem ajustada à experiência mística. De um modo geral, essa experiência envolve a prática da ascese, a meditação e o êxtase. Dito de outro modo, envolve a prática de purificação dos sentidos, o esforço para esvaziar a mente e a experiência de fortalecer o espírito. É um processo lento e gradual, com muitas idas e vindas, até que se alcance a união mística com Deus. Tudo isso para que possamos atravessar o deserto e refazer o caminho novamente.

A essência da experiência de Deus é o amor. Esse é o mistério divino que perpassa a relação de Deus com a Sua criação e nos interpela a experimentarmos sua realização de forma concreta em nossa vida. Ter um encontro com Deus é encontrar o amor em sua forma mais profunda.
(Assista à série de reflexões Moradas: Caminhos para a experiência de Deus >> no meu canal: https://www.youtube.com/playlist?list=PL4NVfVIy5Bi7DkhSi1oYXv2cJB2VF0sy4

sexta-feira, 30 de agosto de 2024

Como obter o máximo de seu potencial? / How to get the most out of your potential? / ¿Cómo aprovechar al máximo tu potencial?

Como pessoas comuns podem obter o máximo de seu potencial?

Precisamos falar sobre como você pode realizar mais e melhor.

Como realizar coisas extraordinárias mesmo sendo pessoas simples? Essa é uma pergunta que muitos têm feito e, por causa dela, são levados a acreditar que existe em algum lugar alguma fórmula mágica ou algum plano infalível para realizar grandes coisas.

Nesse aspecto, você pode ser alguém que faz as coisas acontecerem, ou ser aquele que apenas assiste as coisas acontecerem ou ainda ser quem não faz a menor ideia do que está acontecendo.

O fato é que todos nós possuímos duas características que nos ajudam em nossa capacidade de realização: uma é a faculdade de desenvolver habilidades e competências; outra é o estado de insatisfação que nos leva a querer sempre mais e melhor. Quando essas duas características estão intencionalmente inter-relacionadas, promovem o que podemos chamar de sucesso.

Isso tem a ver com a maneira como você investe em seu próprio potencial.

Entretanto, somos induzidos em todo tempo e acreditar que pessoas de sucesso ou pessoas bem-sucedidas são portadoras de virtudes especiais por causa de sua origem, talento ou poder. E isso não é de agora. Vem desde os tempos da antiguidade grega.

Você tem um jeito de ser. Isso tem a ver com suas origens, seu temperamento e suas intencionalidades. Isso influencia seu modo de se expressar, de se relacionar, de se organizar e de interagir.

Portanto, descubra quem você é. E o primeiro passo para se descobrir é abrir mão de quem você acha que é ou de quem disseram que você é. Isso é conhecer a si mesmo.

O conhecimento de si, já diziam os gregos antigos, é o princípio para conhecer o universo.

Descobrir quem é ajuda a identificar aquilo em que você é capaz, seus limites e suas competências. Com isso, você pode oferecer o melhor de si. Dar o seu melhor em tudo o que faz. Pessoas que fazem o melhor de que são capazes sempre fazem mais, por isso nunca se sentem inúteis e nunca estão ociosas.

Essas ideias fazem parte do meu e-book Faça a vida valer a pena: invista mais em você, um livro que vai te ajudar a fazer investimentos da forma correta e naquilo que realmente importa.

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(Texto baseado no e-book Faça a vida valer a pena: invista mais em você. Disponível no site da Amazon: https://www.amazon.com.br/dp/B014GSKFCO).

segunda-feira, 19 de agosto de 2024

Quatro áreas que todas as pessoas deveriam investir mais / Four areas everyone should invest more in / Cuatro áreas en las que todos deberían invertir más

Como investir de maneira correta, sustentável e eficaz naquilo que mais importa para sua vida?

Quando o assunto é sucesso na carreira e na vida, o que vale é o quanto investimos em nós mesmos. Por essa razão, todas as pessoas deveriam investir em quatro áreas indispensáveis para desfrutar o melhor dessa vida.

Desenvolvimento pessoal tem a ver como nos tornamos pessoas melhores independente da quantidade de recursos que dispomos. Pessoas bem-sucedidas não são aquelas que mais têm, mas as que mais se sentem realizadas com a vida que desfrutam ao lado daqueles que amam.

 Isso tem a ver com a maneira como você desenvolve uma compreensão de si, como você encara as circunstâncias a sua volta, como você lida com os recursos de que dispõe e como você exerce influência nas pessoas ao seu redor.

Essas são as quatro áreas principais de investimento da vida: a primeira é o cuidado de si, o modo como você cuida da sua própria vida; a segunda é o conhecimento sobre o mundo, a realidade a sua volta, o contexto em que você está inserido; a terceira é a maneira como você usa os recursos de que dispõe, como você aplica o seu dinheiro; e a quarta é a maneira como as pessoas te veem, a sua reputação.

Estas áreas estão relacionadas ao que chamo de desenvolvimento pessoal estratégico: um conjunto de atitudes e modos de compreender a vida que visa proporcionar situações de bem-estar e de sucesso. É preciso dar atenção a esses aspectos com muito mais cuidado visto que vivemos um tempo em que tais atitudes de modos de compreensão estão atravessadas por influências ideológicas que podem desviar você de seu foco principal.

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segunda-feira, 17 de junho de 2024

Um amor sem medida / A love without measure / Un amor sin medida

“Um pouco antes da festa da Páscoa, sabendo Jesus que havia chegado o tempo em que deixaria este mundo e iria para o Pai, tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim” (João 13.1).

Jesus é apresentado nos evangelhos como a maior expressão do amor divino por toda humanidade. Somente alguém com tanto amor gastaria seu tempo para salvar gente como a gente. O Evangelho de João, principalmente, está cheio de referências desse cuidado amoroso de Deus através de Jesus Cristo.

Nos capítulo 13 a 17 de João encontramos o relato de uma ação de Jesus através da qual ele procura demonstrar como é esse amor sem igual, incompreensível ao nosso modo de entender. João registra a última reunião de Jesus com seus discípulos antes de ser crucificado. Era a época da Páscoa. Jesus participou de um banquete (capítulo 13), fez seu discurso de despedida (capítulos 15 e 16) e intercedeu em oração por eles (capítulo 17) antes de ser preso, condenado e crucificado.

No capítulo 13, podemos tomar parte da intimidade do colégio apostólico, ter uma ideia do modo como Jesus demonstrava afeto e atenção aos seus discípulos, como agia com humildade e ternura, como exercia sua liderança e como convivia em comunhão.

A primeira expressão que chama a atenção é o fato de que Jesus amou aqueles que o seguiam até o fim. Trata-se de uma forma de dizer que Jesus amou seus discípulos de maneira completa, até as últimas consequências e em todo tempo. Assim é o amor do Senhor por todos nós. Sem medidas. E é tudo o que nós precisamos para viver no mundo.

Nessa passagem, que começa com o relato do gesto de Jesus em lavar os pés dos seus discípulos, podemos perceber que Jesus propõe uma mudança radical de atitude. Trata-se de um ponto de virada no ministério apostólico. Os discípulos de Jesus deveriam compreender que dali para frente teriam que dar conta de si mesmos, de seguirem adiante colocando em prática tudo o que haviam aprendido.

Era o momento de assumir o sentido de missão para a vida de cada um deles, por isso precisavam compreender o sentido do amor, tanto pelo fato de teriam sido amados de forma incondicional quanto pelo compromisso de amar sem medida. Viver a fé em Jesus é viver em amor. Seguir Jesus é colocar o amor em prática. Ser cristão é, acima de tudo, amar.

O capítulo 13 de João, portanto, é crucial para essa descoberta de o quanto somos amados e de quais implicações esse amor tem para a nossa vida. Jesus nos amou até o fim para que pudéssemos aprender o sentido de amar. Somente dessa forma conseguiremos colocar em prática o mandamento do amor.

segunda-feira, 20 de maio de 2024

Faça a vida valer a pena: Invista mais em você / Make life worth living: Invest more in yourself / Haga que la vida valga la pena: invierta más en usted mismo

Vale a pena viver. E a maior prova disso é que lutamos para chegar até aqui. Não importa como, mas eu e você nos esforçamos muito para viver do jeito que vivemos. E, se você lê este livro, fomos bem-sucedidos nesse empreendimento. “Valeu a pena?”, pergunta o poeta. “Tudo vale a pena se a alma não é pequena”, responde o poeta.

Uma vida que vale a pena é aquela em que a gente consegue se tornar o que é. É a vida em que uma pessoa se torna capaz de viver de forma concreta a realidade de ser quem é, de assumir-se e de reconhecer-se. A vida que vale a pena não é medida pelo que se tem, mas pelo que se é. Para ser o que somos custou muito esforço, muita dor, muito sonho, muita esperança, muita desilusão, muito erro, muita queda, muita paciência, muita perseverança e muito aprendizado.

O que quero propor a você neste livro é uma reorientação da vida daqui pra frente. Reorientar a vida implica rever valores, hábitos e costumes, exige novos sentidos, requer novas atitudes. Não que você tenha feito errado antes, mas significa que você pode dar uma chance a si mesmo de tentar de outro modo.

Muitos têm tentado dizer o que é uma vida que vale a pena ser vivida, mas poucos têm procurado oferecer diretrizes seguras para uma vida realmente relevante e significativa. Entretanto, só vamos saber se todo o esforço aplicado foi eficaz no final da jornada.

(Trecho extraído da apresentação do e-book Faça a vida valer a pena: invista mais em você. Disponível no site da Amazon: https://www.amazon.com.br/dp/B014GSKFCO).

segunda-feira, 15 de abril de 2024

O desafio do amor: o que impede o amor? / The challenge of love: what stops love? / El desafío del amor: ¿qué detiene el amor?

A Bíblia diz que o amor pode ser interrompido. O autor da carta aos Hebreus diz: “Seja constante o amor fraternal” (Hebreus 13.1 NVI). Ele usa a metáfora do fluxo de um rio, em que a água precisa superar obstáculos que impedem sua correnteza contínua. Embora a Bíblia afirme em outra passagem que o amor jamais acaba (cf. 1 Coríntios 13.8), existem barreiras que podem impedir sua realização.

O texto fala do amor como uma atitude que correspondia ao relacionamento entre os cristãos, como uma relação de amizade entre irmãos: a philadelphia. Essa relação fraterna é que conduz ao verdadeiro amor cristão. Não há outra forma de seguir a Cristo que não seja através da prática do amor fraternal.

Esse versículo é registrado em outras traduções da seguinte forma:

- “Continuem a amar uns aos outros como irmãos em Cristo” (NTLH).

- “Permaneça o amor fraternal” (ARC).

- “O amor fraterno permaneça” (Hebreus 13.1 BJ).

O amor fraternal é um dom precioso que não podemos permitir que diminua ou se apague, visto que ele é expressão do amor divino por toda a criação. Quando amos uns aos outros demonstramos que estamos comprometidos com aquilo que move o coração de Deus.

Porém, descobrimos que o amor pode passar por instabilidades, pode crescer ou diminuir, pode surgir e desaparecer, pode inclusive cessar, sobretudo o amor fraternal. Jesus alertou que o amor de muitos esfriaria com a chegada dos tempos do fim (Mateus 24.12).

O apelo do autor para que ele seja constante significa que o amor já existia entre os irmãos. naquela comunidade de fé para onde era destinada a Carta aos Hebreus, e que precisava continuar. Apesar de todas as diferenças, provocações e decepções, o amor fraternal precisa ser praticado de forma constante.

O que pode impedir o amor? O que pode sufocá-lo? Há três fatores que aniquilam o amor: o egoísmo, a indiferença e maldade. Eles agem como verdadeiras barreiras que impedem que o amor aconteça.

O egoísmo aponta para a autossuficiência do eu. É a atitude de arrogância por se achar melhor do que os demais. O egoísta é aquele que tem um apego exagerado pelos seus próprios interesses sem se importar com os outros.

A indiferença se baseia na falta de comprometimento com a dor do outro. A intolerância para com o próximo nos impede de conviver com o diferente.

A maldade nasce de nossas próprias escolhas provocadas pela ganância, pela inveja e pelo preconceito.

O que impede o amor pode ser vencido por aquilo que o nutre e alimenta: o altruísmo, a empatia e a bondade. Esses fatores fortalecem o amor e lança o desafio de amar, como um chamado a sermos solidários e cooperadores uns com os outros. Essas atitudes aperfeiçoam o amor em nós e nos levam a agirmos de forma mais humana com o próximo. 

sexta-feira, 5 de maio de 2023

O que fazer quando falta respeito em família? / What to do when there is no respect in the family? / ¿Qué hacer cuando no hay respeto en la familia?

O que fazer quando o conflito se aloja na família e se torna um problema permanente?

Famílias podem passar por conflitos por vários motivos e esses mesmos conflitos podem ser intensificados por vários fatores. Podem ser incompatibilidades de temperamento, questões financeiras, aspectos econômicos, comportamento crítico, injustiças, divergências de opinião e até interesses e formas de manipular o outro. Nenhuma família está livre de passar por essas situações.

A maneira como a família enfrenta seus conflitos pode também variar. Algumas situações podem ser toleradas, outras podem ser resolvidas a partir da negociação e do diálogo, mas há aquelas que podem persistir por muito tempo. Quando se procura investigar a causa de um conflito, invariavelmente se descobre que a raiz do problema se encontra no fato de que alguém se sente desrespeitado.

O desrespeito é a principal causa de desentendimento em família. Principalmente quando envolve negócios em família ou atividades que envolvem a todos, as possibilidades de que alguém venha decepcionar, incomodar ou até provocar mágoas e ressentimentos são enormes.

O que pode fazer com que alguém se sinta desrespeitado em família? Veja alguns fatores:

a) Quando suas ideias, opiniões e conselhos não são reconhecidos.

b) Quando os membros de menor status social são desprezados pelos de maior status.

c) Quando não recebem apoio ou empatia nas horas de dificuldade.

d) Quando seus esforços não são recompensados.

e) Quando são criticados ou humilhados em público.

f) Quando não se tem acesso às informações mais comuns.

g) Quando são comparados de forma inferior a outros membros da família.

h) Quando são tratados com indiferença e preconceito.

Todos nós podemos tanto incorrer nessas condutas como também podemos ser desrespeitados. Até mesmos nossas atitudes desrespeitosas podem passar despercebidas por algum tempo. Isso pode desencadear atitudes que provocam problemas emocionais e de saúde mental, como mágoas, ressentimentos e agressividades que vão requerer muito esforço para serem superados. Quanto mais rápido os problemas forem identificados, melhores são as chances de se resolvê-los antes que o ambiente piore e se torne insuportável a convivência.

Precisamos conversar mais sobre a construção de uma cultura familiar de respeito mútuo. Quando as pessoas se sentem respeitadas e acolhidas em sua própria família, elas têm melhores condições de lidar com seus conflitos pessoais. Conviver em um ambiente dominando por fatores conflitantes é extremamente estressante e pode provocar sintomas de ansiedade. Por isso, é fundamental a prática do diálogo e a abertura de canais de comunicação em que os membros da família se sintam a vontade para falar dos problemas que enfrentam.

A Bíblia está repleta de história de famílias que passaram por conflitos que se tornaram permanentes, alguns com resultados desastrosos. É o caso da família de Adão e Eva, de Noé, de Abraão, de Jacó, de Davi e tantos outros que, apesar de serem reconhecidos como heróis da fé, não ficaram imunes aos conflitos familiares.

Salomão é um dos personagens bíblicos que tiveram uma família que enfrentou muitos conflitos. A maneira que ele encontrou para lidar com seus problemas ficou registrada no livro de Provérbios. Nele, Salomão abordou diversas situações que envolvem a vida em família que precisam ser revistas à luz das abordagens terapêuticas contemporâneas.

Ao ler algumas passagens do livro de Provérbios, podemos encontrar diretrizes que nos ajudam a lidar com nossos próprios problemas. Ele foi escrito como se um pai amoroso estivesse cuidando das relações familiares a fim de formar uma cultura de respeito mútuo. suas considerações valem como conselhos úteis para os nossos dias.

segunda-feira, 21 de novembro de 2022

Plenitude de vida: o segredo do sucesso / Fullness of life: the secret of success / Plenitud de vida: el secreto del éxito

“Pois lhe deste autoridade sobre toda a humanidade, para que conceda a vida eterna a todos os que lhe deste” (João 17.2).

Qual o segredo do sucesso? O que as pessoas são capazes de fazer para alcançar o sucesso? Não há respostas prontas para essas perguntas. Os antigos se perguntavam pela vida boa e entendiam que a conquista do bem estar implica muitas escolhas e esforços. O sucesso, portanto, sempre esteve atrelado à ética e à nossa conduta em relação aos outros e o meio em que vivemos.

A palavra “sucesso” vem do latim succedere, que lembra um acontecimento passado, embora seja empregada para as nossas aspirações futuras. Você só saberá se realmente chegou ao sucesso depois que tiver chegado lá.

O sucesso não tem a ver com o ter, mas com o ser. Tem a ver com a realização pessoal a partir de uma vida bem-sucedida em todos os aspectos, não só o financeiro. Trata-se de uma condição resultante de uma jornada de vida que não depende unicamente de cada um. Quem constrói uma vida bem-sucedida assim encontrou a verdadeira felicidade e a alegria de viver.

Esse foi o propósito de Jesus: orientar a humanidade a empreender uma caminhada em busca da vida bem-sucedida. Ele foi o maior mestre de vida que o mundo já conheceu. Ele teve autoridade para apontar caminhos para um novo modo de vida marcado pela dignidade de todos e todas que colocam em prática seus ensinos.

Os discursos de Jesus sobre plenitude de vida e vida eterna apontam para o fato de que ele veio trazer novo sentido para a vida. O significado de eterno em grego não quer dizer uma vida longa, muito menos uma vida sem fim. A palavra ayon traz consigo a ideia de uma época ou era. A vida eterna é a era dominada para o que está além da temporalidade, da finitude, das fronteiras que estabelecemos ao longo de nossa existência e que destroem nossas relações com o outro, com Deus, com a criação e conosco mesmo.

Plenitude, florescimento e realização pessoal são as marcas de sucesso que estão presentes nos ensinos de Jesus. É o que ele tem para dar a todos aqueles que o seguem. Ele garante: “Asseguro-lhes que aquele que crê tem a vida eterna” (João 6.47). E o discípulo amado testifica: “E este é o testemunho: Deus nos deu a vida eterna, e essa vida está em seu Filho” (1 João 5.11).

Vida eterna é vida doada por Jesus como um dom. Ao falar de um novo modo de viver, Jesus não estava preocupado com a imortalidade ou com a vida além da morte, mas como um modo de ser que corresponda ao ideal de Deus para toda a criação. Ele não estava propondo uma espécie de pedra filosofal que proporcionasse rejuvenescimento ou um estado de iluminação celestial.

Jesus não se preocupou em descrever o que vem a ser de fato a vida eterna. Apenas afirmou que ela é uma dádiva a todo o que crê, que concede libertação de todas as formas de aprisionamento a uma vida distante dos propósitos divinos. Receber essa dádiva é abrir-se para a vida em sua plenitude: “Eu lhes asseguro: Quem ouve a minha palavra e crê naquele que me enviou, tem a vida eterna e não será condenado, mas já passou da morte para a vida” (João 5.24).

Vida eterna é vida de acolhimento da oferta amorosa do cuidado divino, é vida desfrutada na presença de Deus, de satisfação, de comunhão, de encorajamento e de santidade. Essa vida é uma promessa a todos os que creem como uma realidade concreta no mundo. Vida eterna é, em última instância, a graça divina realizada plenamente na vida daquele que acolhe o convite amoroso do Senhor, quem diz “sim” ao “vinde a mim” de Jesus.

Essa é a vida que vale a pena ser vivida.



sexta-feira, 3 de abril de 2020

Como será a vida depois da quarentena? / How will be the life after quarantine? / ¿Cómo será la vida después de la cuarentena?


O mundo que conhecíamos até o começo deste ano não existe mais. E não será mais o mesmo quando a quarentena por conta da pandemia provocada pelo Coronavírus terminar. Sim, a quarentena vai acabar, a pandemia vai passar e a vida retomará seu rumo. Mas o mundo não será mais do mesmo jeito, os relacionamentos não serão mais os mesmos e, muito provavelmente,  não nutriremos as mesmas ideias e ideais.
A pandemia do Covid-19 tem sido uma experiência dolorosa em todo o planeta. Os relatos das pessoas em quarentena, das famílias enlutadas e das perdas econômicas formam um quadro muito triste que permanecerá por muitos anos na memória dessa geração. Embora se possa acreditar que há uma vida pós-quarentena, a única coisa que se pode afirmar sobre ela é que o mundo não voltará ao normal.
Os epicentros dessa pandemia têm sido as grandes cidades. O vírus ganhou urbanidade, está inserido na polis. Portanto, alcançou dimensão política. A batalha contra ele não é biológica simplesmente, mas, também, política. O uso político da Medicina, da Epidemiologia, da Infectologia vai determinar os caminhos a seguir. Para o bem ou para o mal. As decisões que tomarmos agora serão decisivas para o que virá quando tudo isso passar.
Há um aprendizado promovido pelo sofrimento. As épocas de calamidade deixam marcas profundas na vida social, e as pessoas em geral experimentam uma transformação no seu modo de pensar e de ver o mundo. E isso também acontece com a humanidade. Após períodos de grandes epidemias, ou mesmo de grandes guerras ou de cataclismos, o mundo procurou encontrar novas alternativas para a vida. Um bom exemplo disso foi o período da peste negra, que varreu o Ocidente. Associada ao avanço das forças otomanas sobre a Europa e à necessidade de encontrar respostas para os graves dilemas humanos, a cultura ocidental se abriu para uma nova mentalidade no campo das Artes, da Ciência, da Política e da Religião com o movimento renascentista. Ideias humanistas de valorização da liberdade e da dignidade da pessoa humana, bem como a afirmação da capacidade do homem pensar por si mesmo, resultaram no que conhecemos como mundo moderno ou modernidade.
Neste mundo de agora, açoitado por uma crise sem precedentes, será urgente refletirmos sobre três grandes questões. A primeira relaciona-se à forma como o capitalismo chegou até aqui, favorecendo a concentração de renda de uma minoria e lançando na miséria um grande número de pessoas. A segunda indaga a respeito do cenário geopolítico em meio ao avanço da tecnologia da informação, da inteligência artificial e da internet das coisas, que influencia o surgimento de uma sociedade do controle e as mudanças nas relações de trabalho. E a terceira considera a ameaça à vida no planeta, com o esgotamento dos recursos naturais para o consumo, com o desequilíbrio ambiental e o aquecimento global.
A pandemia veio acrescentar, ainda, uma questão a mais para a humanidade: como reagimos quando tudo aquilo que acreditamos que nos daria segurança e bem-estar se torna insuficiente diante de um vírus de alto poder de contágio? Ainda não se tem uma resposta a respeito disso. Trata-se de uma questão nova, que nos conduz a uma total revisão daqueles  valores que orientam a maneira como vivemos. A busca por respostas, que não serão  únicas nem definitivas, deve mobilizar agora todas as áreas do conhecimento humano, em todas as culturas e em todos os espaços. Esse vírus fez com que as pessoas parassem seu ritmo de vida a fim de que pudessem perceber que há algo mais que é preciso aprender juntos a respeito do nosso valor e de nossa condição humana. E temos aprendido coisas novas
Aprendemos que a vida não é feita de pressa ou prazos, e que precisamos de bem menos para viver. Pessoas têm encontrado novas formas de consumir, de partilhar os recursos, de produzir bens e serviços. De repente, as pessoas descobrem o valor da vida em família, o quanto os nossos idosos são importantes, como é possível deixar um legado significativo para as gerações futuras. As pessoas têm descoberto o valor da vida em comunidade, de encontrar novas formas de se relacionar com os vizinhos que enfrentam as mesmas circunstâncias que nós.
Aprendemos que a natureza precisa de um alívio. É sim possível parar o ritmo frenético das cidades, das fábricas e do comércio para dar tempo à natureza para que se recomponha nos permita um ar mais puro, um ambiente com menos lixo e com menor taxa de agressões ambientais. As pessoas estão aprendendo a reduzir  aquilo que descartam, a dar importância à reciclagem e a cuidar de assuntos como contaminação, proteção e preservação de uma forma prática, aplicada à necessidade de sobrevivência.
Aprendemos que a economia neoliberal é a pior face do Capitalismo, que acima do mercado está a vida. E vimos que é possível pará-la. De nada adiantará um mundo com tanta capacidade econômica se isso não for aplicado na promoção e implementação de medidas emergenciais para preservar a vida.  O capital acumulado não serve para nada se as pessoas morrerem nessa pandemia. E, lembremos de que pessoas também morrem de fome, de doenças graves, de violência e de exclusão. O vírus veio nos mostrar que o neoliberalismo fracassou, pois nunca precisamos tanto do Estado e das políticas públicas, sobretudo nas áreas de saúde, educação e assistência social. O poder econômico tem que estar a serviço da vida, e não o contrário. O poder econômico precisa ser usado para frear a ganância dos poderosos, para promover justiça, diminuir as desigualdades sociais e oferecer oportunidades iguais a todos.
Aprendemos que a solidariedade , essa sim, é o que realmente nos humaniza. Diante de uma ameaça deste porte, nossas ideologias se tornam inadequadas e sem sentido. Percebemos que estamos todos fragilizados, que o vírus não poupa ninguém. A mensagem de que habitamos numa mesma casa comum começa a ganhar força. Isso tem suas implicações. As soluções que serviram para a China podem servir para os Estados Unidos. O que Itália, Espanha e França enfrentam servem de alerta para o resto do mundo. Os recursos desenvolvidos por um podem atender a necessidade de todos.
Aprendemos que a Fé não precisa do templo, do domingo ou do clero. Ela precisa de algo que nos impulsione para aquilo que está além de nós mesmos. As estruturas religiosas jamais deveriam estar engessadas em fórmulas, hierarquias, calendários ou mesmo espaços sagrados. É preciso descobrir que não há nada mais sagrado que a vida, que santidade é cuidar da vida de tal modo que toda ela seja importante, que a grande sabedoria de viver é permitir que o outro desfrute das mesmas chances que eu tenho. A Fé se realiza no encontro com o outro e com o transcendente, com esse sentimento de pertença ao outro e ao transcendente, ao mesmo tempo.
Aprendemos o valor do conhecimento, da cultura, da educação e da ciência. O que seria de nós se não fossem as universidades e os centros de pesquisas para lutarem por buscas de soluções para os problemas? O que seria de nós, sem a Arte e a Literatura para superarmos o tédio desses dias? São contribuições que trabalham com o imaginário, que nos ajudam a sonhar e a ter esperança de que tudo isso vai passar e que, novamente, poderemos seguir nosso rumo.
Segundo o historiador israelense Yuval Noah Harari, em artigo no jornal inglês Financial Times, de 20 de março de 2020, a tempestade da pandemia passará, sobreviveremos, mas será outro planeta, já que muitas das medidas atuais de emergência deverão ser estabelecidas como rotinas fixas. O mundo que teremos depois dessa crise dependerá das decisões políticas que serão tomadas no decorrer dessa quarentena. Mas, passada a pandemia, teremos a chance de fazer a escolha se queremos retomar a vida de antes ou se queremos nos lançar em uma nova forma de viver.
Byung-Chul Han, filósofo coreano radicado na Alemanha, em artigo no jornal El País do dia 22 de março de 2020, disse: “Precisamos acreditar que, após o vírus, virá uma revolução humana”. Em meio aos acontecimentos, sobressai o exemplo daqueles que cuidam. Desde o modo correto de lavar as mãos até o desprendimento revelado ao se dedicarem ao serviço pelo outro, os profissionais de saúde nos ensinam como podemos cuidar e nos cuidarmos. A característica principal dessa “revolução humana” haverá de ser o cuidado, firmado no princípio da solidariedade entre todos e com todas as expressões da vida, ou não teremos aprendido nada. E os grandes revolucionários desse tempo serão aqueles que se levantam para cuidar da vida.
A quarentena vai acabar, a humanidade vencerá mais essa pandemia, isso é certo. Mas tudo o que não queremos – ou pelo menos tudo o que não deveria acontecer – é retomarmos as coisas que fazíamos do jeito que fazíamos anteriormente. A pergunta que precisa ser feita agora é: será realmente necessário fazermos as mesmas coisas que fazíamos, produzir as mesmas coisas que produzíamos, consumir do mesmo jeito que consumíamos e viver do mesmo modo que vivíamos? A resposta que nós, como humanidade, dermos à essa questão orientará a maneira como reagiremos às transformações que virão.
(Texto publicado originalmente no site do Coletivo Bereia >>.

domingo, 12 de maio de 2019

A família como espaço terapêutico / The family as a therapeutic space / La familia como espacio terapéutico


Uma família é muito mais que a soma de individualidades. É o espaço para vivermos nossa condição de pessoas em meio a outras pessoas. Por conta disso, é lugar de tensões que provocam conflitos de toda ordem. Quem nunca se perguntou: Por que a minha família é desse jeito? Ou: Por que a minha família é diferente das outras? Ou ainda: Por que a minha família não é normal?
O fato é que toda família está sujeita a situações que causam estresse, mudanças, rupturas ou perdas em algum momento, mas isso não faz de nenhuma família imperfeita. Porém, podemos afirmar que a família perfeita não existe como modelo a ser imitado, ao mesmo tempo em que podemos afirmar que a normalidade da família é exatamente o enfrentamento das suas condições de organização e existência.
Recentemente, estudiosos têm desenvolvido o conceito de família disfuncional, que é aquela em que seus membros encontram formas de tratarem as situações de conflito, de conduta e até de abusos que acontecem de forma continuada na vida familiar. A família é compreendida como um sistema que abriga em si vários subsistemas. No seu funcionamento, ela integra influências internas e externas, com a capacidade de se auto-organizar e de desenvolver relações dinâmicas, coerentes e consistentes entre seus membros. O termo deriva do conceito funcionalista de família, como parte do todo social.
Como se forma a família disfuncional? Normalmente, no histórico da família disfuncional podem ocorrer transtornos de ordem psicológica, problema com vícios e compulsões, abuso de poder, comportamento controlador, ciúmes, falta de responsabilidade, falta de limites, distanciamento, falta de afetuosidade, abusos, maus tratos, dificuldades de comunicação, falta de confiança, baixa autoestima, expectativas equivocadas e até excesso de exigências por parte de algum membro da família.
São conflitos que estão alojados em nosso inconsciente e que afloram constantemente provocando crises e repetições que afetam nossas relações. Como pessoas, estamos envolvidos numa rede de relações, que implicam uma gama enorme de estruturas e sistemas integrados, que acabam influenciando diretamente nossa ação. Ao mesmo tempo, somos movidos por atitudes conscientes e inconscientes. Par amplia a percepção de nossa realidade, precisamos levar em conta que cada família tem suas próprias regras para funcionar corretamente que, se não forem respeitas, provocará situações complexas e dolorosas que demandará cuidado.
A família é lugar de enfrentamento de seus medos, carências emocionais, traumas, relações problemáticas e tensões que têm sua origem no nosso próprio histórico familiar. Para tratar dessa questão, o psicoterapeuta alemão Bert Hellinger desenvolveu um conjunto de práticas que envolvem o que chamou de “As ordens de amor”, que são três.
a) A ordem do pertencimento – todos os membros da família têm direito a pertencer ao sistema familiar. Se alguém for excluído, outro ocupará o seu lugar.
b) A ordem da hierarquia – os que chegaram antes estão acima dos que chegam depois. O casal, por exemplo, chegou antes dos filhos.
c) A ordem do equilíbrio – só podemos oferecer aquilo que recebemos. A relação saudável da família está na garantia de dar e receber em condições de igualdade.
Uma família saudável é aquela em que seus membros colaboram com uma consciência livre. Num contexto familiar, que Hellinger chamou de comunidade de destino, as pessoas possuem vínculos entre si, em que todos estão ligados a todos. Os vínculos mais fortes são aqueles que ligam pais filhos, irmãs e parceiros entre si. São esses vínculos que alimentam expectativas, esperanças e temores diante das situações enfrentadas, sejam elas de estresse, mudanças ou até mesmo perdas.
No seu livro Ordens do amor, Hellinger assim se expressa: “Na comunidade de destino, constituída pela família e pelo grupo familiar, reina, portanto, em razão do vínculo e do amor que lhe corresponde, uma necessidade irresistível de compensação entre a vantagem de uns e a desvantagem de outros, entre a inocência e a sorte de uns e a culpa e a desgraça de outros, entre a saúde de uns e a doença de outros, e entre a vida de uns e a morte de outros. Em razão dessa necessidade, se uma pessoa foi infeliz, uma outra também quer ser infeliz; se uma ficou doente ou se sente culpada, uma outra, saudável ou inocente, também fica doente ou se sente culpada; e se uma morreu, outra, próxima a ela, também deseja morrer”.
O papel da família é manter um sistema familiar completo, preservar a integridade e assegurar a inclusão da totalidade de seus membros. Uma família saudável é, portanto, aquela que tem uma consciência mais ampla e que, por isso mesmo, se torna capaz de inclusão, integração e reconciliação dos diferentes componentes da família. Não que ela seja perfeita, mas porque se torna um espaço terapêutico para lidar com o que causa tensão.
Para que a família se transforme num espaço terapêutico, é preciso que seus membros abandonem velhos paradigmas e desenvolvam um espírito aberto para novas experiências. É preciso ter coragem para encarar sua própria história com respeito e aceitação, com gratidão por pertencer a esse sistema que é sua própria família. É preciso levar em conta que a família se reveste do sagrado, visto que é nela tivemos acesso ao direito à vida.

sexta-feira, 2 de novembro de 2018

Reconciliação: Reconectar o que se perdeu / Reconciliation: Reconnect what was lost / Reconciliación: Reconectar lo que se perdió


Em tempos de tantos desentendimentos, falar de reconciliação parece algo impossível. Entretanto, para que possamos restaurar sentimentos feridos, resgatar valores perdidos e até para restabelecer vínculos afetivos, precisamos aprender a arte de reconciliar. Diante dos conflitos que a vida nos oferece, a reconciliação é um esforço necessário para que possamos encontrar novas possibilidades para os relacionamentos que estão feridos. E isso é um assunto que a fé cristã tem muito a contribuir.
A palavra reconciliação aparece em duas ocasiões nos escritos do apóstolo Paulo, na Carta aos Romanos e na Segunda Carta aos Coríntios. Ela foi retirada do contexto do mercado de câmbio dos gregos antigos, correspondendo a uma troca por valores equivalentes. Paulo nos dá a entender que há a necessidade de um ajuste de contas diante do cuidado de Deus em nos perdoar e nos acolher como seus filhos. O ato divino em nos reconciliar com Ele deve nos conduzir a uma nova atitude diante de tudo o que se perdeu desde quando nos afastamos de Seu propósito.
Reconciliar é literalmente tentar de novo o concílio, que por sua vez, é uma palavra vem da tradição cristã. Já traz implícita a ideia de uma diversidade de ideias. Concílio dizia respeito a uma concentração de esforços para que pudessem chegar a um acordo, um entendimento comum, diante de uma controvérsia. Tinha o sentido de uma união. Vem do latim concilium, que é a junção de duas expressões: cum, que quer dizer “junto”, e silium, que corresponde a “assento” (mas também pode ser de cillia, que quer dizer “movimento”). A igreja usou essa designação como uma convocatória para que os cristãos em conflito pudessem se reunir, com o sentido de sentarem juntos mesmos, para discutir problemas e chegar a um consenso. Posteriormente, essa palavra ganhou nova significação, relacionada ao sentido do verbo conciliare, que quer dizer acordo ou um ajuste de interesses. A palavra “conciliar” em português pode significar também: ficar em paz, acalmar, combinar e tranquilizar.
A carta de Paulo a Filemom traz um magnífico exemplo de reconciliação. Filemom era um cristão admirável, de uma família tradicional e bem-sucedido em seus negócios Tanto que, mesmo sendo cristão, era proprietário de escravos, o que era uma prática comum para a sociedade de seu tempo. Porém, um daqueles seus escravos fugiu. O nome dele era Onésimo.
A carta não trata das razões da fuga de Onésimo. O que o teria feito fugir? Pode ser que tivesse feito algo muito ruim, como roubar o seu senhor. Pode ser também que tivesse se rebelado por causa dos maus tratos, das condições injustas e opressoras que lhes eram impostas de forma incoerente com a fé que o senhor dizia professar. Ou pode ser ainda que possuísse um esclarecimento a respeito da sua condição social e tenha resolvido lutar por sua liberdade tentando construir uma outra história de vida. Não importa o motivo da fuga, o fato foi que a graça do evangelho alcançou Onésimo e ele veio a tomar parte do movimento cristão e ser um dos seguidores de Jesus que acompanhavam o apóstolo Paulo.
Paulo, então, envia Onésimo de volta a Filemom com um apelo para que fosse acolhido não mais como escravo, mas como um irmão na fé. Era preciso que ambos construíssem uma nova relação, que fosse fundada no amor. Não seria mais uma relação entre senhor e escravo, mas entre cooperadores na fé. Não mais uma relação servil, mas fraterna.
Reconciliar é restaurar conexões perdidas, recuperar as possibilidades de conciliar uma diversidade de situações contraditórias. Não significa voltar ao que era antes, mas dar chance para começar uma nova caminhada juntos. A reconciliação se faz necessária quando a gente se dá conta de que o que se perdeu é maior do que nós mesmos, de que o outro é importante e indispensável para nós. Para a reconciliação acontecer, é preciso reconhecer os próprios erros, perdoar os erros do outro e respeitar a presença e a opinião do outro. Quando a reconciliação não é buscada, corremos o risco do isolamento. Sem reconciliação, só nos resta a solidão.
A reconciliação tem em Deus seu maior realizador. Ele tomou a iniciativa de aproximar o que não é conciliável. Ele é o Deus que vem a nós. Para isso, ele esvaziou-se, fez-se como um de nós. Ele se revelou como o Deus conosco para que nos tornássemos um com Ele, a fim de que exercitássemos a reconciliação como um serviço ao próximo.

quarta-feira, 13 de junho de 2018

Vida como caminho / Life as a way / Vida como camino


Para viver, é preciso se pôr a caminho. O grande dilema é que existem várias possibilidades de se seguir o caminho da vida, mas só acabamos escolhendo um e ainda ficamos divagando sobre como podemos experimentar as demais.
A vida é como um caminho, ela acontece como o percurso trilhado por uma estrada em que o que mais importa é o modo como fazemos a caminhada. Ao longo do caminho da vida, Deus vem ao nosso encontro e nos chama para uma experiência transformadora e de relacionamento. Ele quer nos transformar em seus filhos e se relacionar conosco como um pai amoroso.
Ao longo do caminho, Deus trabalha em nós a maneira como estabelecemos prioridades na vida, como nos relacionamos com o próximo e como desenvolvemos nossas expectativas. Ao longo do caminho, Deus também aponta desafios e nos encoraja a enfrentar situações que nos preparam para seguir adiante na caminhada. Ao longo do caminho, somos confrontados em nossa condição de perdidos e conduzidos a uma experiência de abertura para o que está além de nós mesmos. Ao longo do caminho também Deus partilha conosco seu amor pela humanidade e nos convida a nos envolvermos com sua missão de buscar tantos outros que estão no caminho.
A graça da vida não está na maneira como a começamos ou como a terminamos, mas está no modo como fazemos a caminhada. E a graça maior da vida é não desistirmos nunca da caminhada, por mais difícil que ela seja.
Henry Bergson disse certa vez que a vida é um caminho de sombras e luzes, A grande sabedoria é fazer com que a gente saiba lidar com as sombras e tirar o melhor proveito da luz. A poeta brasileira Cora Coralina declamou: “O que vale na vida não é o ponto de partida e sim a caminhada. Caminhando e semeado, no fim terás o que colher”.
O salmista pensou na vida como caminho. Para trilhá-lo, é preciso tomar a decisão de entrega. Ele disse: “Entregue o seu caminho ao Senhor; confie nele, e ele agirá” (Salmos 37.5).
Lucas, tanto no evangelho quanto em Atos dos Apóstolos, relatou experiências de encontro de Jesus com pessoas que estavam a longo dos muitos caminhos por onde passou. Ao encontrá-las no caminho, Jesus proporcionou momentos únicos de reflexão e de tomada de decisões a fim de que elas fizessem ajustes na caminhada e pudessem seguir adiante, trilhando o caminho da vida tendo como guia aquele que declarou ser O Caminho.

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

Justiça: o que as pessoas pedem quando gritam por justiça / Justice / Justicia

A justiça é um clamor, um grito, uma aspiração e um desejo de quem enfrenta situações de opressão, de cerceamento da liberdade e de exploração. Ainda não se conseguiu uma definição adequada do que seja justiça, porém identificamos claramente o que seja a injustiça, que é a sua ausência.
Para pensar na justiça, é preciso partir de três pressupostos: o primeiro é que a justiça é um construto, ou seja, é um conceito que não dá para ser observado de forma clara; o segundo é que a noção de justiça que temos hoje é marcada por uma pluralidade de significados; e o terceiro é que somente compreendemos o que é justiça a partir do enfrentamento de condições de desigualdade.
A preocupação com a justiça passou por várias transformações históricas de tal modo que o que temos hoje é resultado de alguns fatores sociais e culturais que foram determinantes para a sua construção. O primeiro deles é o surgimento das cidades e a sofisticação da vida urbana, com a administração da vida dentro de um espaço geográfico comum. Outro fator importante foi o surgimento da escrita e, com ela, uma cultura fundada no letramento e na textualidade. Mas também influenciou bastante a prática comercial, primeiramente baseada na troca e posteriormente a partir do surgimento da moeda como reguladora de valores.
A ideia de justiça vem sendo construída desde civilizações antigas. Os povos que habitaram a Mesopotâmia tinham a ideia de que a justiça era um valor divino, representado pelo Sol. A ideia era de trazer a justiça à Terra. Ou, como previa Hamurabi em seu código: fazer resplandecer o direito no país, arruinar o mal e o malfeitor e impedir que o forte maltrate o fraco. No Egito, a justiça era representada por uma balança. O foco era regular e organizar as relações e os processos sociais. O que se buscava era o equilíbrio, de tal modo que as partes saíssem satisfeitas do tribunal. Entre os gregos, a preocupação era que cada um deveria fazer o que lhe cabe na sociedade, nem mais nem menos. A maior tragédia social seria um escravo ou alguém da ralé chegar a governar a cidade. A deusa da justiça Themis era representada por uma donzela carregando a balança em uma das mãos e a espada na outra, com seus olhos bem abertos. Quem vendou a justiça foram os romanos. Na história grega houve dois juristas atenienses que ficaram famosos no século VI a.C.: Drácon e Sólon. O primeiro como como criador das leis penais mais severas e o segundo como o reformulador dessas leis a partir de aspectos sociais e econômicos. Entre os hebreus, o sentido de justiça era marcado pelo aspecto moral, voltado para a busca de relações justas conforme uma ordem legal estabelecida. O sentido de justiça no Antigo Testamento era de uma confiança, mas a versão inglesa da Bíblia traduziu a palavra justiça como uma retidão.
De um modo geral, o conceito de justiça que prevalece é baseado tanto na ideia de uma retribuição como de uma recompensa. Daí que, quando alguém grita por justiça está pedindo uma dessas três coisas: uma vingança, a reparação de um dano ou a garantia de um direito adquirido. É isso que faz com que as pessoas acreditem que, fazendo a coisa certa, poderão alcançar os resultados desejados.
Essa mentalidade retributiva é aplicada até mesmo em nossa relação com Deus. Uma fé firmada nesse princípio diz: “faça as coisas corretamente e Deus o abençoará”. Entretanto, a concepção de justiça que Jesus Cristo afirmou caminha na direção contrária. Para Jesus, se quisermos experimentar a justiça, é preciso acolher o amor e a misericórdia daquele único que é justo: Deus. Viver de modo justo e digno só é possível de acordo com os propósitos do Criador de todas as coisas. O evangelho da graça é aquele que afirma acolhida ao amor e à misericórdia divina para viver de maneira correta. A bênção divina não é uma conquista por viver de maneira correta. A bênção divina é o que nos ajuda a viver de maneira correta.
O conceito de justiça trazido por Jesus Cristo lembra uma construção. Uma vez que todos fomos criados pelo mesmo Deus, isso nos torna iguais em condições e direitos. O problema é que também somos iguais em relação ao pecado. Por essa razão, jamais seremos capazes de nos tornarmos pessoas melhores, agirmos corretamente ou nos salvarmos de nossa própria perdição por méritos próprios, se não experimentarmos uma transformação de dentro para fora.
O evangelho trouxe para as concepções de justiça em vigor uma inovação: a justificação pela fé. A justiça não acontece sem a justificação pela fé. A justificação pela fé é o que nos permite receber o dom divino de nos tornarmos pessoas melhores e justas de acordo com o propósito divino. A justificação pela fé inclui sermos perdoados, porém é mais que isso. Ser perdoado é ser liberado para seguir adiante na nossa vida, mas ser justificado pela graça é ser liberado para viver a vida que Deus planejou na presença amorosa dEle.
A justiça é, portanto, o sinal de uma vida transformada pela graça. Você não se torna justo por se preocupar com o direito dos mais vulneráveis, mas se você foi justificado pela fé se importará com aqueles que têm seus direitos violados. Quando alguém acolhe a graça de Deus em Cristo, é impulsionado em direção à justiça. É o que a Bíblia nos diz: “Deus tornou pecado por nós aquele que não tinha pecado, para que nele nos tornássemos justiça de Deus” (2 Coríntios 5.21).
Se alimentamos um relacionamento com Deus, mas não nos importamos com as condições de exploração, opressão e desigualdade do mundo, tem alguma coisa errada em nosso relacionamento com Deus. A Bíblia, inclusive, apresenta o quarteto vulnerável para servir de referência para o nosso senso de justiça. Ele é formado pela viúva, pelo órfão, pelos imigrantes e pelos pobres. Se você não se importa com eles, quem está mal e você e precisa clamar por sua própria transformação.
A graça salvadora de Jesus interfere diretamente no nosso senso de justiça. De um modo geral, as pessoas acreditam que, se forem moralmente boas, Deus as recompensará. Entretanto, aquele único que é justo, que nos chamou para viver conforme a sua justiça, sabe que a nossa condição – por mais correta que possa parecer – está distante do seu propósito. Toda forma de injustiça, desigualdade, exploração e violência é importante para Deus. Ele sabe que todas elas são resultados da maldade humana que só encontra solução na acolhida do seu amor misericordioso.
Deus sabe que nossas tentativas de fazer justiça, seja com nossas próprias mãos ou até mesmo com nossa razão, sempre será de forma incompleta e imperfeita. A injustiça no mundo é fruto da maldade humana. Quando pessoas se importam com a justiça, deixando de lado as causas pelas quais as injustiças acontecem em sua volta, isso não passa de uma farsa. Quando acusamos as injustiças do mundo, mas não identificamos os modos como eu tomo parte delas, isso é hipocrisia. E quando vemos as dores e as mazelas do mundo e não nos reconhecemos como parte da solução, isso é crueldade.

sábado, 5 de agosto de 2017

Competência para viver / Life Skills / Competencia para la vida

Todos nós temos características pessoais que não só nos identificam como também nos ajudam a nos realizarmos dentro de um contexto social.
Algumas dessas características nasceram conosco, outras foram herdadas de nossos pais e outras foram adquiridas ao longo de nossa vivência. A soma dessas características é que forma a nossa personalidade.
Para enfrentarmos as diversas circunstâncias da vida, lançamos mão de diversos recursos, muitas vezes de forma criativa e inovadora, levando em consideração as necessidades do momento.
Veja, por exemplo, uma pessoa que resolve aprender a dirigir. Ela começa com operações básicas e, gradativamente, adquire determinados hábitos e procedimentos que serão aplicados em situações mais complexas no trânsito. Ela, então, terá desenvolvido esquemas que serão úteis para serem usados em ações diante de situações diversas, que necessariamente não serão idênticas entre si, mas receberão adaptações e ajustes que ocorrerão de uma forma quase que automática.
O mesmo ocorre em todos os aspectos da vida. Enfrentamos sempre situações novas que exigem de nós fazer escolhas que podem implicar se ganhamos ou perdemos, superamos ou fracassamos, melhoramos ou pioramos, vivemos ou morremos.
A vida requer de nós um conjunto de competências e habilidades que nos ajudam a nos tornarmos pessoas bem-sucedidas nas coisas que fazemos. Competências e habilidades são conceitos bastante usados no mundo corporativo, principalmente nas orientações sobre liderança, carreira, vocação e ensino.
Competência é a administração, de forma integrada e coordenada, de um conjunto de conhecimentos para se chegar a um determinado fim. A competência envolve um complexo esquema de percepções, pensamento, atitudes e até de autoavaliação.
Num documento de 2012, intitulado Competências para a vida e destinado a adolescentes, o Unicef apresentou alguns conceitos sobre as competências necessárias para uma vida mais digna. Primeiramente, uma vida realizada e bem-sucedida não acontece por acaso. Ela é uma conquista que exige muito esforço e a cooperação de muita gente. Além disso, a aquisição de competências para viver na sociedade atual é um fator crucial para viver bem e para construir relações. As competências para viver aumentam nossa criatividade, aperfeiçoam nossos talentos e nos ajudam na aquisição de novos conhecimentos.
A lista de competências é um processo em aberto. É preciso desenvolver a compreensão de que a aprendizagem bem como a aquisição de competências para a vida correspondem a um processo que dura a vida toda. Por essa razão, a Unesco apresentou os quatro pilares para a educação no século XXI: aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a conviver e aprender a ser. E são eles que dão base para a formação de projetos voltados para a qualidade de vida. Pensando nisso, veja algumas das competências que julgo serem necessárias para a vida:
a) Manejar bem as emoções de forma que nos tornemos mais flexíveis e abertos ao novo.
b) Tomar decisões certas pelas razões certas a fim de que alcancemos a excelência.
c) Colocar-se no lugar do outro.
d) Organize suas ideias para que possa comunica-las com clareza.
e) Desenvolver pensamento crítico, percebendo os aspectos éticos e políticos implicados em cada situação.
f) Conhecer a si.
Já as habilidades são a capacidade de transformar um conhecimento em ação. Têm a ver com o saber fazer. A Divisão de Saúde Mental da Organização Mundial de Saúde elaborou, desde 1993, um conjunto de dez habilidades para lidar com situações de nosso cotidiano. O objetivo é preparar as pessoas para a vida. Já existem inclusive programas educacionais voltados para a formação das pessoas para a vida social e para a realização pessoal. São elas.
a) Autoconhecimento.
b) Relacionamento interpessoal.
c) Empatia.
d) Lidar com os sentimentos.
e) Lidar com o estresse.
f) Comunicação eficaz.
g) Pensamento crítico.
h) Pensamento criativo.
i) Tomada de decisão.
j) Resolução de problemas.
“É preciso saber viver”, diz a canção popular de Roberto Carlos e gravada recentemente pelos Titãs. Os gregos antigos ensinavam que precisamos fazer da vida uma obra de arte. A Bíblia também nos ensina a lidar com os aspectos da vida com sabedoria. As circunstâncias da vida, dolorosas ou não, têm o poder de endurecer o nosso coração ou de nos tornar sábios. O fato é que mesmo o sofrimento ou o sucesso nos aperfeiçoam.

domingo, 30 de abril de 2017

Quem é você sem suas máscaras / Who are you without your masks? / ¿Quién es usted sin sus máscaras?

“Não somos como Moisés, que colocava um véu sobre a face para que os israelitas não contemplassem o resplendor que se desvanecia.” 2 Coríntios 3.13
Uma das histórias mais curiosas da Bíblia a respeito de identidade é a de Moisés, homem que esteve face a face com Deus e o entendia por sua essência. Certa vez, depois de ter passado por uma das mais impressionantes experiências de encontro com Deus, sentiu a necessidade de representar simbolicamente o que sentia. Ele havia reconhecido o quanto Deus ama e o quanto estamos distantes de sua graça, ele havia percebido o quanto estamos equivocados em relação ao que diz respeito às relações com Deus e o quanto ele nos acolhe e perdoa.
Seu rosto resplandecia cada vez que entrava na presença de Deus, a partir de então. Logo em seguida, descia para falar com o povo. Quando acabava de falar, cobria o rosto e só voltava a descobri-lo quando entrava de novo na presença de Deus. Na verdade, Moisés sentiu a necessidade de cobrir o seu rosto para que encobrisse a glória que estava sumindo. Este fato é relatado em Êxodo 34.29-35.

Essa atitude de Moisés tem a ver com a maneira como lidamos com nossas aparências. A tentativa de mostrar o que não somos tem a ver com o uso que fazemos de máscaras. As máscaras escondem a nossa identidade e interferem em nossa maneira de ser.
Nossas máscaras não são meros disfarces. Elas encobrem o desejo humano de recuperar a integridade perdida. Todos nós fazemos uso de máscaras, muitas delas, uma para cada ocasião, e as substituímos o tempo todo com uma habilidade tremenda. Nietzsche afirmou que “todo espírito profundo necessita de uma máscara.”
[...]
Conhecer sobre isso é importante demais pois nos ajuda a crescer pessoalmente. A completa maturidade só é alcançada pelo pleno desenvolvimento da personalidade.
Somos habilidosos em usar máscaras e a lidar com sombras. Sem as máscaras, não nos reconhecemos. Com relação às sombras, enganamos a nós mesmos. É um jogo em que, quando somos confrontados, passamos por uma experiência dolorosa. É uma grande desilusão descobrir que passamos a vida inteira à margem de nós mesmos.
Por causa dessa nossa habilidade, temos a tendência de nos autoenganar e até de sabotar a maneira de lidar com nossa própria vida. Nossa natureza comporta uma condição tal que permite que surjam sentimentos bons e ruins em relação a todas as situações vividas pelo simples fato de sermos humanos.
É nessa perspectiva que Deus nos chama a um mergulho no ser a fim de que vivenciemos uma fé sincera. O apóstolo Paulo disse certa vez a seus discípulo Timóteo: “O objetivo desta instrução é o amor que procede de um coração puro, de uma boa consciência e de uma fé sincera.” 1 Timóteo 1.5.
(Extraído do e-book Quem é você? Quando nossa identidade é colocada em jogo. Disponível na Amazon e neste blog)

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

O que a misericórdia realiza? / What does mercy accomplish? / ¿Qué hace la misericordia?

“[...] Eu também não a condeno. Agora vá e abandone sua vida de pecado” (João 8.11). 
O que uma pessoa tomada por um sentimento misericordioso é capaz de fazer diante de alguém que carece de misericórdia? A história do encontro de Jesus com a mulher surpreendida em pleno adultério nos ajuda a descobrir o que a misericórdia pode fazer.
Naquela cena estavam vários atores: os sem misericórdia, aquela pessoa carente de misericórdia e aquele único que é cheio de misericórdia. As atitudes eram claras: aquelas pessoas que não têm misericórdia eram intolerantes e culpabilizadores, a carente da misericórdia estava totalmente vulnerável e o misericordioso agiu de forma amorosa por livre e espontânea vontade.
Os sem misericórdia ruminavam ódio, mas logo foram convencidos de que a situação deles não era muito diferente daquela que carecia de misericórdia. “Se algum de vocês estiver sem pecado, seja o primeiro a atirar pedra nela”, disse-lhes Jesus. A carente de misericórdia estava rendida e fragilizada pelo medo, pela vergonha, pela culpa, pela impotência e pela desesperança. Ela não era capaz de encontrar uma solução para seu conflito interior e muito menos para apaziguar seus algozes. “Mulher, onde estão aqueles teus acusadores? Ninguém a condenou?”, perguntou Jesus. O cheio de misericórdia agiu como era de se esperar: ele a perdoou e e lhe ofereceu uma nova chance. “Eu também não a condeno. Agora vá e abandone sua vida de pecado”, disse Jesus a ela.
A Bíblia diz que “Jesus ficou só, com a mulher em pé diante dele”. Santo Agostinho, ao comentar essa passagem, diz que, após os sem misericórdia saíram, ficaram no local apenas a miséria e a misericórdia. Estavam ali o pecador e aquele que pode perdoar os pecados, a fragilidade humana e a bondade divina. Era o encontro entre o que se sente miserável e aquele que pode oferecer misericórdia. O papa Francisco argumentou que, ali, a “a miséria do pecado foi revestida pela misericórdia do amor”.
O que pode fazer a misericórdia? Ela nos humaniza. A intolerância, a culpabilização, o preconceito e o ódio são atitudes que nos desumanizam. A misericórdia divina, porém, restaura a nossa dignidade e nos torna capazes de sermos simpáticos à aflição de quem sofre as consequências da desumanização.

quinta-feira, 23 de junho de 2016

A construção da confiança / Building trust / La construcción de la confianza

Já se foi o tempo em que as pessoas iam à venda e só a palavra bastava para fechar um negócio, em que só o nome ou o título de alguém era suficiente para conferir credibilidade, em que o que se lia na mídia possuía veracidade. O nosso tempo está carregado de uma quantidade enorme de informações que não conseguimos processar, e isso afeta todas as nossas relações. Vivemos num tempo em que as pessoas desenvolveram a habilidade de dialogar com novas formas de inteligência, sejam elas racionais ou mesmo artificiais, e isso se reflete nas relações de confiabilidade.
O relacionamento em rede possibilitou registros pessoais da vida privada de todo mundo, que podem ser checados rapidamente por um amplo e complexo sistema de busca pela internet. A vida passou a ser marcada pelo que cada um registra, curte e compartilha por redes sociais. O excesso de informações pessoais interfere cada vez mais em nosso comportamento, o que pode ser notado ao começar relacionamento, ao se contratar um funcionário, ao se realizar uma compra ou mesmo ao se fazer um novo procedimento terapêutico.
Isso traz à tona o dilema da confiança. Confiar é algo que exige uma fonte segura de informação, que já não é mais unívoca, pois cada vez mais encontramos dados em sites de busca, em redes sociais e noticiários em tempo real. A maneira como as pessoas processam essas informações e interpretam esses dados estabelece uma nova forma discursiva de lidar com a realidade.
Isso afeta o ritmo das relações que construímos. Nossa individualidade está exposta através de imagens, curtidas, interações e opiniões que estão à disposição de qualquer interessado. O sentido do público e do privado ganhou novo contorno com as novas formas de exposição. O privado deixou de ser restrito ao campo da intimidade e os espaços públicos incluem as interações digitais.
Exemplo disso é o político flagrado acessando site pornográfico em plena sessão parlamentar, a revelação de gravações de conversas particulares para dar validação a interesses duvidosos, o vazamento de fotos sensuais registradas nos celulares de celebridades, a divulgação de imagens íntimas para atingir o outro quando o relacionamento acaba. Há nisso tudo um certo jogo de tornar público o que é privado e de considerar privado aspectos subjetivos, mesmo que isso esteja na contramão do interesse coletivo e do bem comum.
A construção da confiança hoje é uma conquista que depende de uma quantidade enorme de fontes de informação de tal modo que a verdade ficou menos evidente, ou no mínimo corresponde menos ao real. Os relacionamentos virtuais e a as narrativas permitem mais o falseamento e exigem das pessoas um exercício maior de investigação. A afirmação da confiança, por assim dizer, passa por outras formas de construção. Todos acabamos nos tornando stalkers – pessoas que buscam informações invadindo a privacidade alheia – para tomarmos decisões sobre com quem nos relacionamos, o emprego que vamos ter, os serviços e pessoas que vamos contratar e até o diagnóstico médico que vamos seguir.
Quem nunca vasculhou a vida de uma pessoa antes de aceitar uma amizade pelo Facebook? Quem nunca procurou saber sobre a descrição e a profilaxia de algum mal súbito que lhe acometeu? Quem nunca consultou a Wikipedia para se informar sobre assuntos desconhecidos? Quem nunca examinou guias de viagem na internet antes de sair de férias?
Estas ações vão se tornando cada vez mais superficiais na medida em que comportam uma diversidade de informações, assim como vão se tornando cada vez mais efêmeras na medida em que exigem um envolvimento maior. A espiritualidade que emerge desse quadro comporta tanto uma pluralidade de possibilidades como também uma superficialidade das práticas. Do mesmo modo que revela uma necessidade, perde-se pela falta de comprometimento, uma vez que todas as formas se parecem identificadas com as relações fluídas do nosso cotidiano.

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