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quinta-feira, 17 de outubro de 2024

Psicanálise e Clínica Pastoral: caminhos para o cuidado da alma / Psychoanalysis and Pastoral Clinic: paths to care for the soul / Psicoanálisis y Clínica Pastoral: caminos para el cuidado del alma

É possível uma aproximação entre a Psicanálise e o Aconselhamento Pastoral? Para muitos, a Psicanálise e o Aconselhamento Pastoral são campos completamente distintos. A bem da verdade, a abordagem psicanalítica nasceu a partir de um contexto arreligioso e leigo. Entretanto, não podemos negar a relevância da ação pastoral em meio aos conflitos vividos pelas pessoas, sobretudo nos dias atuais.

Ao longo do tempo, a ação pastoral foi adquirindo novos contornos. Desde a antiguidade clássica, aquilo que hoje chamamos de aconselhamento pastoral esteve ligado aos processos terapêuticos que os antigos gregos já vinham elaborando. A filosofia greco-romana, especialmente os estoicos, desenvolveram práticas e concepções que visavam o cuidado com a espiritualidade e com a vida saudável.

Os cristãos se apropriaram de muitas dessas práticas que resultaram nos ideais da vida regrada desde o século II. Essa apropriação formou o que Michel Foucault chamou de poder pastoral, que tinha a ver com uma certa habilidade do guia de almas para fazer com que os iniciados fossem capazes de falar a verdade sobre si e para confessarem as formas com que a maldade interferia em seus pensamentos e comportamento.

Com os avanços da ciência moderna, houve um distanciamento do cuidado com a alma, reduzindo-a a uma racionalidade. No âmbito das ciências médicas, isso representou o tratamento de problemas de saúde mental a partir dos aspectos biológicos e fisiológicos, considerando os comportamentos divergentes como loucura ou alienação. A Psicanálise representou um esforço na psiquiatria e na psicologia para trazer de volta a preocupação com o campo psíquico, agora não mais como um exercício espiritual, mas como uma ciência.

O tempo em que nós vivemos demanda uma abordagem da condição humana em todas as dimensões. Isso inclui também a espiritualidade e os aspectos ligados à vivência em uma comunidade de fé. Trazer a clínica pastoral para mais próximo da abordagem psicanalítica é um caminho necessário para cuidar de pessoas que sofrem os males desse tempo. Angústia, ansiedade, fobias, pânico, estresse e depressão são enfermidades que assolam cada vez mais pessoas.

As comunidades de fé também estão repletas de pessoas que sofrem com essas enfermidades, muitas vezes em silêncio por causa de preconceitos e ignorância a respeito da própria condição humana. Por causa dessa demanda que foi pensado o curso de Psicanálise e Clínica Pastoral.

A Psicanálise como método psicoterapêutico pode contribuir para o trabalho da clínica pastoral, fornecendo conceitos e técnicas para que as pessoas entendam melhor o funcionamento de sua psiquê e o papel do inconsciente, dos sentimentos e das emoções no processo de tomada de decisões, na maneira de pensar e de compreender a realidade. No âmbito do aconselhamento pastoral, o emprego de princípios de psicoterapia contribui para que as pessoas tenham mais liberdade para tratar a causa dos seus sofrimentos.

A clínica pastoral é um espaço em que as pessoas podem ter um primeiro contato com os processos terapêuticos e para a busca de tratamento de sua dor. Por isso que é importante oferecer uma abordagem a respeito do aconselhamento pastoral a partir da escuta atenta, tendo em vista fazer com que os que recebem o cuidado pastoral possam se conhecer melhor, compreender a sua condição de sujeito e desenvolver-se como pessoa a partir de suas próprias potencialidades e competências.

[Saiba mais sobre o curso Psicanálise e Clínica Pastoral. As inscrições já estão abertas e o início será em 2 de novembro de 2024. É um curso de extensão, com 20 horas de duração, com aulas aos sábados. O curso visa a capacitação daqueles que atuam na área de aconselhamento pastoral. Ele não se destina a formar terapeutas, mas capacitar profissionais e lideranças que atuam como conselheiros em suas comunidades de fé. Para saber mais e fazer sua inscrição,, acesse o link: https://www.e-inscricao.com/ireniochaves/cursopsiclinpast ]

sexta-feira, 30 de agosto de 2024

Como obter o máximo de seu potencial? / How to get the most out of your potential? / ¿Cómo aprovechar al máximo tu potencial?

Como pessoas comuns podem obter o máximo de seu potencial?

Precisamos falar sobre como você pode realizar mais e melhor.

Como realizar coisas extraordinárias mesmo sendo pessoas simples? Essa é uma pergunta que muitos têm feito e, por causa dela, são levados a acreditar que existe em algum lugar alguma fórmula mágica ou algum plano infalível para realizar grandes coisas.

Nesse aspecto, você pode ser alguém que faz as coisas acontecerem, ou ser aquele que apenas assiste as coisas acontecerem ou ainda ser quem não faz a menor ideia do que está acontecendo.

O fato é que todos nós possuímos duas características que nos ajudam em nossa capacidade de realização: uma é a faculdade de desenvolver habilidades e competências; outra é o estado de insatisfação que nos leva a querer sempre mais e melhor. Quando essas duas características estão intencionalmente inter-relacionadas, promovem o que podemos chamar de sucesso.

Isso tem a ver com a maneira como você investe em seu próprio potencial.

Entretanto, somos induzidos em todo tempo e acreditar que pessoas de sucesso ou pessoas bem-sucedidas são portadoras de virtudes especiais por causa de sua origem, talento ou poder. E isso não é de agora. Vem desde os tempos da antiguidade grega.

Você tem um jeito de ser. Isso tem a ver com suas origens, seu temperamento e suas intencionalidades. Isso influencia seu modo de se expressar, de se relacionar, de se organizar e de interagir.

Portanto, descubra quem você é. E o primeiro passo para se descobrir é abrir mão de quem você acha que é ou de quem disseram que você é. Isso é conhecer a si mesmo.

O conhecimento de si, já diziam os gregos antigos, é o princípio para conhecer o universo.

Descobrir quem é ajuda a identificar aquilo em que você é capaz, seus limites e suas competências. Com isso, você pode oferecer o melhor de si. Dar o seu melhor em tudo o que faz. Pessoas que fazem o melhor de que são capazes sempre fazem mais, por isso nunca se sentem inúteis e nunca estão ociosas.

Essas ideias fazem parte do meu e-book Faça a vida valer a pena: invista mais em você, um livro que vai te ajudar a fazer investimentos da forma correta e naquilo que realmente importa.

Para saber mais, adquira e leia o livro Faça a vida valer a pena: invista mais em você. Ele está disponível no site da Amazon.

(Texto baseado no e-book Faça a vida valer a pena: invista mais em você. Disponível no site da Amazon: https://www.amazon.com.br/dp/B014GSKFCO).

segunda-feira, 20 de maio de 2024

Faça a vida valer a pena: Invista mais em você / Make life worth living: Invest more in yourself / Haga que la vida valga la pena: invierta más en usted mismo

Vale a pena viver. E a maior prova disso é que lutamos para chegar até aqui. Não importa como, mas eu e você nos esforçamos muito para viver do jeito que vivemos. E, se você lê este livro, fomos bem-sucedidos nesse empreendimento. “Valeu a pena?”, pergunta o poeta. “Tudo vale a pena se a alma não é pequena”, responde o poeta.

Uma vida que vale a pena é aquela em que a gente consegue se tornar o que é. É a vida em que uma pessoa se torna capaz de viver de forma concreta a realidade de ser quem é, de assumir-se e de reconhecer-se. A vida que vale a pena não é medida pelo que se tem, mas pelo que se é. Para ser o que somos custou muito esforço, muita dor, muito sonho, muita esperança, muita desilusão, muito erro, muita queda, muita paciência, muita perseverança e muito aprendizado.

O que quero propor a você neste livro é uma reorientação da vida daqui pra frente. Reorientar a vida implica rever valores, hábitos e costumes, exige novos sentidos, requer novas atitudes. Não que você tenha feito errado antes, mas significa que você pode dar uma chance a si mesmo de tentar de outro modo.

Muitos têm tentado dizer o que é uma vida que vale a pena ser vivida, mas poucos têm procurado oferecer diretrizes seguras para uma vida realmente relevante e significativa. Entretanto, só vamos saber se todo o esforço aplicado foi eficaz no final da jornada.

(Trecho extraído da apresentação do e-book Faça a vida valer a pena: invista mais em você. Disponível no site da Amazon: https://www.amazon.com.br/dp/B014GSKFCO).

segunda-feira, 26 de dezembro de 2022

Recomeçar / Restart / Volver a empezar

 

Recomeçar é uma decisão que implica coragem e disposição. Embora seja da natureza a sua renovação, começar de novo, tentar outra vez ou ter uma segunda chance são oportunidades que envolvem a nossa condição humana de estar aberto para novas possibilidades, mesmo quando enfrentamos fracassos, perdas ou derrotas.

A letra da música escrita por Paulo Vanzoline em 1962, eternizada na voz de Maria Betânia e de outros cantores, lembra a gente disso: “Reconhece a queda e não desanima. Levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima”. A decisão de recomeçar, porém, não é fácil. É preciso encarar a dor, o medo e até a solidão que marcaram a destruição de um sonho, de um projeto, de um relacionamento e de uma trajetória de conquistas que precisam ser recomeçados.

Na natureza, as árvores precisam perder suas folhagens para poderem florescer. Muitas vezes, no processo de recomeçar, é preciso abrir mão de determinadas condições para que possamos experimentar a vida de outro modo. Trata-se de um tempo para rever nossos valores, nossas estratégias, nossos conceitos e até os nossos propósitos. O maior equívoco que se pode ter é tentar fazer a mesma coisa outra vez cometendo os mesmos erros.

O pensamento humano está repleto de ideias sobre recomeços, como uma lei do próprio universo em que tudo se renova como um ciclo na perpétua manutenção da vida. Por isso, recomeçar é revigorante, traz em si uma sensação de liberdade e de abertura para o que está adiante. É como uma disposição para seguir em frente e experimentar novas possibilidades de se realizar.

Nas religiões orientais, como no hinduísmo e zen-budismo, fala-se dos ciclos da vida. O tempo não é linear, é cíclico e se repete constantemente. A circularidade da vida é marcada pelo eterno retorno, como um renovar constante.

Na mitologia grega, encontramos o mito de Sísifo, um personagem controverso que era capaz de enganar os próprios deuses e a morte. Quando morreu, sua alma foi considerada rebelde e condenada a rolar por toda a eternidade uma enorme pedra de mármore até o cume de uma montanha. O problema era que, toda vez que estava quase chegando ao topo, a pedra rolava montanha abaixo de volta ao início. E Sísifo tinha que reiniciar o esforço de levá-la para cima.

Albert Camus viu no mito de Sísifo a representação da existência humana na busca do sentido da vida, mas que se depara com um mundo ininteligível, dominado por crenças e ideologias. Diante da falta de sentido para a vida, a melhor solução não deveria ser o suicídio, mas a capacidade de se revoltar.

Na Filosofia, desenvolveu-se a noção de Eterno Retorno para se referir ao fato de que toda existência é marcada pela recorrência. Esse conceito já se encontrava presente em Heráclito e nos pitagóricos, pensadores pré-socráticos no século V AEC, e também no estoicismo. Friedrich Nietzsche, porém, elaborou a teoria do Eterno Retorno para indagar se seríamos capazes de suportar uma vida em que nossas experiências de prazer e dor pudessem se repetir eternamente. Essa condição serve como um desafio ético para que possamos desejar viver de maneira digna e a nos conduzir a uma reflexão mais profunda sobre os valores que norteiam a vida.

A Bíblia também fala de recomeços. No livro de Eclesiastes, encontramos essa afirmação: O que foi tornará a ser, o que foi feito se fará novamente; não há nada novo debaixo do sol” (Eclesiastes 1.9). Esse texto traz consigo a ideia de que, apesar de todas as mudanças que a vida possa experimentar, permanecemos os mesmos. O profeta Jeremias lembra que a misericórdia divina se renova para continuar sempre ao alcança daqueles que Deus ama:Graças ao grande amor do Senhor é que não somos consumidos, pois as suas misericórdias são inesgotáveis. Renovam-se cada manhã; grande é a tua fidelidade!” (Lamentações 3.22,23).

A mensagem bíblica nos lembra de que recomeçar é uma possibilidade até mesmo para os que podem ser considerados justos: Pois ainda que o justo caia sete vezes, tornará a erguer-se, mas os ímpios são arrastados pela calamidade” (Provérbios 24.16). E diz ainda que Deus não se encontra alheio aos recomeços: O Senhor ampara todos os que caem e levanta todos os que estão prostrados” (Salmos 145.14).

Os evangelhos apresentam a mensagem de Jesus que propõe uma nova oportunidade de vida a partir do seguimento de seu exemplo e da prática de seus ensinos. O Novo Testamento nos diz que Deus está preparando novos céus e nova terra. Por isso: Todavia, de acordo com a sua promessa, esperamos novos céus e nova terra, onde habita a justiça” (2 Pedro 3.13).

O poeta Roberto Gaefke registrou: “Recomeçar é dar uma nova chance a si mesmo… É renovar as esperanças na vida e, o mais importante: acreditar em você de novo” (esse texto, que também se chama “Faxina da alma”, tem sido atribuído a Carlos Drummond de Andrade por engano). A vida é um eterno recomeço. Pode ser um novo dia que se inicia, um novo mês, um novo ano, uma nova descoberta, um novo relacionamento, um novo emprego. Enfim, a vida está em aberto, só precisamos nos permitir tentar mais uma vez, fazer de outro modo, acreditar nas novas possibilidades.

quarta-feira, 21 de setembro de 2022

O grito da Criação: é tempo de escutar a voz da natureza, do planeta, dos pobres e dos excluídos / The cry of Creation: it is time to listen to the voice of nature, the planet, the poor and the excluded / El grito de la Creación: es tiempo de escuchar la voz de la naturaleza, del planeta, de los pobres y excluídos

O salmista declara que há uma voz que vem sendo silenciada que emerge do meio da Criação: Sem discurso nem palavras, não se ouve a sua voz” (Salmos 19.3). É uma voz sufocada que vem de todas as criaturas que apontam para o Criador. Essa voz que vem da Criação é a voz do próprio Criador que clama pelo cuidado com os que sofrem com o avanço da degradação da vida no planeta e do aumento da desigualdade social.

É preciso que todas e todos se unam para fazer ressoar essa voz “por toda a terra, e as suas palavras, até os confins do mundo” (Salmos 19.4). A Criação é a primeira e mais eloquente forma de Deus se revelar. Quando ouvimos essa voz que vem da Criação, compreendemos quem somos, onde estamos e qual é o nosso compromisso como cooperadores de Deus.

É urgente unir as vozes de cristãs e de cristãos de todo o mundo em um clamor pela proteção de nossa casa comum, em defesa dos pobres e dos que são excluídos. A oração em favor de toda a criação Corresponde a um despertar em defesa da vida como proclamadores das Boas Novas para toda a Terra.

De todas as partes, de todos os povos, de todas as nações e em todas as línguas, é possível ouvir o grito de cada pessoa, de cada comunidade, de cada bioma, de cada espécie que tem sido silenciado pela exploração provocada pela ganância e pelo consumo desenfreado. São vidas que estão ameaçadas pela perda das condições mínimas de sobrevivência por causa das mudanças climáticas.

Escutar a voz da Criação exige um tipo de escuta que envolve nossa sensibilidade em ouvir os modos em que Deus fala conosco. Santo Agostinho escreveu que a Criação “é a página divina que você deve escutar; é o livro do universo que você deve observar. As páginas da Escritura só podem ser lidas por aqueles que sabem ler e escrever, enquanto todos, mesmo os analfabetos, podem ler o livro do universo” (apud Tempo da Criação: Guia de celebração 2022, p. 7). Martinho Lutero também pregou que o Evangelho não foi apenas escrito em livros “mas também em árvores e outras criaturas” (idem).

Através desse exercício de escuta, é possível desenvolver uma nova espiritualidade que implica a percepção da verdade, a virtude da bondade e as expressões de beleza presentes na vida do outro, das relações comunitárias e da natureza. Somos também conduzidos a experiência de tomada de consciência de quem Deus é e como ele vem a nós, como Trindade santa, na qual todas as coisas existem e se movem. Como afirmou o teólogo alemão Jürgen Moltmann: “Deus cria, reconcilia e redime sua criação por meio do Filho. Na força de Espírito, Deus está presente na sua criação, na reconciliação e na redenção da criação” (Dios en la creación, p. 29).

A Bíblia nos diz que toda a natureza geme. “Sabemos que toda a natureza criada geme até agora [...]” (Romanos 8.22). É possível ouvir nos dias atuais o clamor que nos interpela a refletir a respeito dos modos como conduzimos nossa própria vida. Algo precisa ser feito para mudar o rumo de nossa história, que aponta para um fim trágico. Cuidamos da natureza e uns dos outros porque amamos ao Deus da Criação.

quarta-feira, 7 de setembro de 2022

Eleições 2022 e Democracia: Análise de Conjuntura / Elections 2022 and Democracy in Brazil: Analysis of the Conjuncture / Elecciones 2022 y Democracia en Brasil: Análisis de la Coyuntura

As eleições 2022 são atípicas. Um grave risco de ruptura democrática ronda a sociedade brasileira. No momento em que a campanha chega em sua reta final, há uma tentativa de interferência de forças reacionárias em todo o processo eleitoral. A principal origem de ataques é o próprio governo federal e seus apoiadores.

Diante da gravidade do momento, há quatro perguntas que devem ser feitas a fim de orientar as escolhas e se tomar atitudes para frear o que vem sendo tramado. Sem querer ser alarmista ou provocar pânico, as circunstâncias apontam para a necessidade de fortalecimento de uma frente ampla em defesa da democracia.

A primeira pergunta é: há uma ameaça de golpe nas eleições 2022? A resposta é sim. Esse golpe já vem sendo tramado desde a eleição anterior, quando se abriu o caminho para o avanço da extrema direita através da farsa da operação Lava Jato, do impeachment de Dilma e a prisão do ex-presidente Lula. Esse ataque é orquestrado pelas forças que dão sustentação ao governo atual e vem sendo realizado a partir de uma trajetória discursiva. Primeiramente, começou com a suspeição da confiabilidade nas urnas eletrônicas, que serviu para promover a aproximação de representantes das Forças Armadas do sistema eleitoral. Com a afirmação da segurança sistema eleitoral, passou-se à suspeição do processo de apuração, com tentativas de controlar os resultados através da ação de setores da Policia Federal e das próprias Forças Armadas. O objetivo final é fazer com que as eleições sejam manipuladas por representantes desses setores.

A segunda pergunta é: quais as chances reais de cada candidato? Até o presente momento, três candidatos despontam na corrida eleitoral para Presidência da República: Lula, que representa o segmento de esquerda e que tem a aprovação da maioria com grandes chances de vencer no primeiro turno; Bolsonaro, que recebe o apoio daqueles que nutrem o ódio às esquerdas e a Lula, principalmente de setores que são contra os direitos sociais bem como que defendem ideias fascistas; e Ciro, que é o candidato que desenvolve uma campanha baseada na reprodução do discurso de ódio a Lula, embora afirme ter projeto para o país, mas não passou da casa de um dígito nas pesquisas. Os demais candidatos formam uma minoria que não consegue alcançar resultados significativos nas pesquisas.

A terceira pergunta é: o que mais preocupa a campanha eleitoral no primeiro turno? Há três ameaças reais surgindo e aumentando suas possibilidades a cada dia: a primeira é a ameaça aos movimentos progressistas, tomados por um ódio de classe, e contra movimentos que lutam por direitos de trabalhadores, negros, mulheres, população LGBT, povos originários, pobres e meio ambiente; a segunda é o aumento da desinformação, com grupos disseminadores de fake news agindo livremente através das redes sociais; e a terceira é o aumento da insegurança social, com o crescimento da miséria, do desemprego, do custo de vida e da fome, que pode ser usada como oportunidade para o governo emitir “pacotes de bondade” para se aproximar dos setores mais vulneráveis, embora seja o único responsável pelo quadro atual.

A quarta pergunta é: o que mais preocupa no segundo turno? Havendo a necessidade de um segundo turno, que provavelmente será entre Lula e Bolsonaro, as possibilidades de agravamento das tensões aumentam. Podemos afirmar que há riscos reais de convulsão social e de aumento dos conflitos envolvendo as instituições que têm o dever de proteger a democracia. O aumento do acesso ao porte de arma, o crescimento do poder e interferência das milícias e a impunidade nas denúncias de crime de responsabilidade do governo contribuem para acreditar que algo muito ruim poderá acontecer.

Nessas eleições, os movimentos sociais e as organizações de defesa dos direitos civis têm o dever de impedir que as forças reacionárias que ameaçam a democracia avancem. Defender a democracia hoje no Brasil é defender a candidatura de Lula no primeiro turno, visto que é o único que tem compromisso com a manutenção do Estado Democrático de Direito.

quarta-feira, 31 de agosto de 2022

Decálogo do Voto Evangélico e sua atualidade: como votar como um cristão em tempos tão obscuros / Decalogue of the Evangelical Vow and its relevance: how to vote like a Christian / Decálogo del Voto Evangélico y su relevancia: cómo votar como cristiano

I. O voto é intransferível e inegociável. Com ele o cristão expressa sua consciência como cidadão. Por isso, o voto precisa refletir a compreensão que o cristão tem de seu país, estado e município.

II. O cristão não deve violar a sua consciência política. Ele não deve negar sua maneira de ver a realidade social, mesmo que um líder da igreja tente conduzir o voto da comunidade noutra direção.

III. Os pastores e líderes têm obrigação de orientar os fiéis sobre como votar com ética e com discernimento. No entanto, a bem de sua credibilidade, o pastor evitará transformar o processo de elucidação política num projeto de manipulação e indução político-partidário.

IV. Os líderes evangélicos devem ser lúcidos e democráticos. Portanto, melhor do que indicar em quem a comunidade deve votar é organizar debates multipartidários, nos quais, simultânea ou alternadamente, representantes das correntes partidárias possam ser ouvidos sem preconceitos.

V. A diversidade social, econômica e ideológica que caracteriza a igreja evangélica no Brasil impõe que não sejam conduzidos processos de apoio a candidatos ou partidos dentro da igreja, sob pena de constranger os eleitores (o que é criminoso) e de dividir a comunidade.

VI. Nenhum cristão deve se sentir obrigado a votar em um candidato pelo simples fato de ele se confessar cristão evangélico. Antes disso, os evangélicos devem discernir se os candidatos ditos cristãos são pessoas lúcidas e comprometidos com as causas da justiça e da verdade. E mais: é fundamental que o candidato evangélico queira se eleger para propósitos maiores do que apenas defender os interesses imediatos de um grupo religioso ou de uma denominação evangélica. É óbvio que a igreja tem interesses que passam também pela dimensão político-institucional. Todavia, é mesquinho e pequeno demais pretender eleger alguém apenas para defender interesses restritos às causas temporais da igreja. Um político de fé evangélica tem que ser, sobretudo, um evangélico na política e não apenas um “despachante” de igrejas. Ao defender os direitos universais do homem, a democracia, o estado leigo, entre outras conquistas, o cristão estará defendendo a Igreja.

VII. Os fins não justificam os meios. Portanto, o eleitor cristão não deve jamais aceitar a desculpa de que um evangélico político votou de determinada maneira porque obteve a promessa de que, em assim fazendo, conseguiria alguns benefícios para a igreja, sejam rádios, concessões de TV, terrenos para templos, linhas de crédito bancário, propriedades, tratamento especial perante a lei ou outros “trocos”, ainda que menores. Conquanto todos assumamos que nos bastidores da política haja acordos e composições de interesse, não se pode, entretanto, admitir que tais “acertos” impliquem a prostituição da consciência cristã, mesmo que a “recompensa” seja, aparentemente, muito boa para a expansão da causa evangélica. Jesus Cristo não aceitou ganhar os “reinos deste mundo” por quaisquer meios, Ele preferiu o caminho da cruz.

VIII. Os votos para Presidente da República e para cargos majoritários devem, sobretudo, basear-se em programas de governo e no conjunto das forças partidárias por detrás de tais candidaturas, que, no Brasil, são, em extremo, determinantes; não em função de “boatos” do tipo: “O candidato tal é ateu”; ou: “O fulano vai fechar as igrejas”; ou: “O sicrano não vai dar nada para os evangélicos”; ou ainda: “O beltrano é bom porque dará muito para os evangélicos”. É bom saber que a Constituição do país não dá a quem quer que seja o poder de limitar a liberdade religiosa de qualquer grupo. Além disso, é válido observar que aqueles que espalham tais boatos, quase sempre, têm a intenção de induzir os votos dos eleitores assustados e impressionados, na direção de um candidato com o qual estejam comprometidos.

IX. Sempre que um eleitor evangélico estiver diante de um impasse do tipo: “o candidato evangélico é ótimo, mas seu partido não é o que eu gosto”, é compreensível que dê um “voto de confiança” a esse irmão na fé, desde que ele tenha as qualificações para o cargo. Entretanto, é de bom alvitre considerar que ninguém atua sozinho, por melhor que seja o irmão em questão, ele dificilmente transcenderá a agremiação política de que é membro, ou as forças políticas que o apoiem.

X. Nenhum eleitor evangélico deve se sentir culpado por ter opinião política diferente da de seu pastor ou líder espiritual. O pastor deve ser obedecido em tudo aquilo que ensina sobre a Palavra de Deus, de acordo com ela. No entanto, no âmbito político-partidário, a opinião do pastor deve ser ouvida apenas como a palavra de um cidadão, e não como uma profecia divina.

(Esse documento foi aprovado na Assembleia da Associação Evangélica Brasileira (AEVB) em 1994. Ainda vale para hoje).

sábado, 21 de maio de 2022

Jesus e as forças de caráter: como Jesus nos ensina a ser feliz / Jesus and character strengths: how Jesus teaches us to be happy / Jesús y las fuerzas del carácter: cómo Jesús nos enseña a ser felices

Nosso tempo tem sido marcado por uma busca imperiosa pela felicidade. O tema passou a ter uma relevância maior no cuidado com a saúde mental, principalmente com o avanço dos sintomas de angústia, depressão e ansiedade causados pelo modo de vida competitivo e cheio de exigências imposto pela cultura de mercado em vigor.

A necessidade de se ter sucesso a qualquer preço despertou a descoberta de que ele não é determinante para que alguém seja feliz, mas que a felicidade é imprescindível para se chegar ao sucesso. Isso quer dizer que o maior esforço que precisamos fazer não é ter o emprego dos sonhos, perder uns três quilos, ser promovido ou mesmo morar em um lugar paradisíaco. É preciso estar bem consigo mesmo. As pesquisas recentes no campo da psicologia têm demonstrado um novo paradigma, que é exatamente o oposto dessa mentalidade: a felicidade é que promove o sucesso, e não o contrário.

O campo de estudo que tem se dedicado à felicidade é o da Psicologia Positiva, que aponta formas objetivas para identificar os fatores que contribuem para o desenvolvimento pessoal e o bem-estar. Por essa razão, grandes universidades como Harvard e Unicamp têm promovido cursos com o tema da Felicidade com grande procura de alunos interessados em todos as áreas de conhecimento há mais de 10 anos.

Martin E. Seligman, no livro Felicidade autêntica, apresenta uma proposta de construção da felicidade a partir da conjugação de virtudes e forças de caráter. O trabalho foi resultado de uma ampla investigação em várias culturas, concepções filosóficas e expressões religiosas a respeito do que as pessoas fazem em busca do bem-estar, da felicidade e do desenvolvimento pessoal.

Foram identificadas 6 virtudes essenciais, que podem ser identificadas através de 24 forças de nossa personalidade que nos auxiliam em nossos modos de pensar, de sentir e de se comportar.

Veja a relação das virtudes humanas mais comuns e suas respectivas forças de caráter:

a) Sabedoria – Criatividade, curiosidade, critério ou pensamento crítico, gosto pelo aprendizado e perspectiva.

b) Coragem – Bravura, perseverança, integridade e vitalidade.

c) Humanidade – Amor, generosidade e inteligência social.

d) Justiça – Justiça, liderança e trabalho em equipe.

e) Temperança – Perdão, humildade, prudência e autocontrole.

f) Transcendência – Apreciação da beleza e da excelência, gratidão, esperança, bom humor e espiritualidade.

Para se alcançar a felicidade autêntica, é preciso dar atenção à maneira como desenvolvemos as virtudes e as forças de caráter, e qual o impacto disso em nossa saúde física, mental e coletiva. Por essa razão, a busca da felicidade se torna apenas um ingrediente na busca de amadurecimento. Muitas vezes, precisamos tomar decisões que podem trazer novos sentidos para a vida, mas que não são muito confortáveis. Também precisamos manter muitos relacionamentos que não nos fazem felizes.

As forças de caráter nos auxiliam na busca pelo florescimento, construindo em nós virtudes essenciais para viver no mundo e interagir com as pessoas. 

Seligman propôs, então, uma nova abordagem sobre a busca da felicidade no livro Florescer: uma nova compreensão sobre a natureza da felicidade e do bem-estar. Para ele, era preciso enfatizar o florescimento através do fortalecimento das emoções positivas, do engajamento, dos relacionamentos positivos, do propósito e da realização. Esses cinco elementos foram inseridos para que pudessem fortalecer nossa trajetória de vida. Ele compreende que as virtudes e as forças de caráter sustentam esses elementos. A maneira como nos empenhamos em buscar o bem-estar é que produz mais sentido de realização pessoal.

Florescer é despertar o humano que há em nós. A felicidade está mais relacionada com o se sentir bem mesmo em situações adversas. Para tanto, o modo como construímos nossa trajetória de vida é fundamental para que possamos experimentar o florescimento. Porém, uma vida feliz e satisfeita envolve critérios tanto subjetivos quanto sociais. Como diz Seligman, “o bem-estar não pode existir somente na nossa cabeça”.

A felicidade, portanto, é uma conquista que precisa ser feita continuamente. A mensagem e o ensino de Jesus visavam a formação de um novo sentido de humanidade. É possível fazer uma análise dos mesmos e identificar como ele desenvolveu as virtudes essenciais e as forças de caráter como fatores importantes para que possamos alcançar a vida feliz.

As seis virtudes (sabedoria, coragem, humanidade, justiça, temperança e transcendência) estão presentes nos ensinos de Jesus. Entretanto, Jesus se ocupou com a felicidade e com o bem-estar na perspectiva da salvação, como uma experiência de sentido para a vida toda. Para quem perdeu o sentido da vida, Jesus convida a aprender com ele o que significa viver plenamente.

Isso lembra o refrão de Tom Jobim e Luiz Bonfá: “Tristeza não tem fim / Felicidade sim”. É um engano pensar que conseguiremos a felicidade apenas pelas nossas forças. Ela não é uma conquista individual com também não conseguiremos ser felizes sozinhos enquanto muitos à nossa volta sofrem. Todos nós enfrentamos tanto circunstâncias que nos trazem felicidade quanto as que nos fazem sofrer. A vida não é um monótono programa de realizações pessoais. Ela é formada de uma sucessão de sucessos e fracassos, de conquistas e perdas, de realizações e frustrações. Jesus nos deixou claro que podemos ser felizes encontrando razões de viver tão significativas que façam com que até mesmo nas situações difíceis encontremos forças para seguir em frente.

sábado, 27 de fevereiro de 2021

Para que todos tenham vida: Vacina para todos / For everyone to have life: Vaccine for all / Para que todos tengan vida: Vacuna para todos

O Brasil completa um ano de convivência com a pandemia de Covid-19 com dados que são alarmantes: o número de mortos ultrapassa a casa dos 250 mil, os casos de contágio e de óbitos indicam o pior momento da doença e a campanha de vacinação segue em ritmo lento. Não há como negar o fato de que esses fatores são resultado de um descuido por parte do governo em tratar do problema sem a responsabilidade necessária e por promover mais dificuldades nas políticas públicas de enfrentamento, sobretudo no que diz respeito à aplicação do programa de imunização com a vacina.

Embora a ciência já tenha encontrado vacinas para a imunização contra os efeitos do vírus causador da doença, o Coronavírus com suas várias mutações, e os laboratórios estejam disponibilizando doses desde o fim do ano de 2020, há uma campanha de desinformação em curso contra a vacinação. E, para piorar o quadro, há também uma escassez de vacinas que possam atender às demandas das aplicações nas populações de maior risco três meses depois de definido o plano nacional de imunização. Apenas 3% da população foram vacinadas em quase dois meses.

A vacinação terá que seguir o programa de imunização, apesar das dificuldades que vão sendo encontradas, a maior parte por conta da logística e da demora das autorizações do governo para a aquisição de insumos. Porém, a maior dificuldade a ser superada neste momento é a tarefa de convencer a população a ser imunizada. E, para isso, se faz necessário uma campanha intensa de esclarecimento e de informação.

É fato notório, neste momento, não há como esperar grandes incentivos por parte do governo para esclarecer a população. Daí a necessidade de mobilizar grupos e setores da sociedade em geral para uma grande campanha em favor da vacinação para todos. E, dentre os muitos setores da sociedade, o segmento cristão é o que reúne as maiores possibilidades de mobilização.

Por que cristãos podem e devem se envolver na campanha de vacinação? Porque é o grupo com maior capacidade de articulação. Onde o dinheiro e o poder não chegam, a presença da igreja está lá, levando conforto e esperança para as pessoas. Seja nos grandes centros urbanos, em comunidades de periferia, em áreas rurais ou em comunidades indígenas ou quilombolas, ali há a presença de grupos cristãos. Entretanto, é preciso superar o obscurantismo promovido por concepções fundamentalistas em relação ao conhecimento científico.

É preciso, primeiro e ao mesmo tempo, uma campanha de conscientização das comunidades cristãs. Em primeiro lugar, com a afirmação da confiança de que Deus capacita pessoas para cumprirem seus propósitos e construir soluções para os grandes problemas humanos. A ciência é um desses empreendimentos humanos para os quais Deus capacita pessoas. E em segundo lugar, como consequência, desenvolver a consciência de que cristãos estão presentes no mundo para servirem como agentes do bem para toda a humanidade.

O vírus é real. Ele traz dor e sofrimento para as pessoas. Só quem teve um familiar infectado ou quem perdeu um ente querido para a doença sabe aquilatar o tamanho do problema. Os cristãos têm o dever de agir com compaixão e solidariedade como um imperativo divino para com as pessoas que sofrem. Essa atitude de cuidado com as pessoas em tempos de tragédias tem sido uma marca da história do cristianismo em todo o mundo.

Pastores, pastoras e lideranças cristãs têm o compromisso com o conhecimento verdadeiro, de passar para os fiéis em geral informações confiáveis e que estimulem à busca do bem comum. E a vacinação é hoje o único remédio contra a doença, além das práticas de prevenção como o uso de máscaras, a higiene das mãos e o distanciamento social. É dever dessa liderança agir a fim de não permitir que o povo pereça por causa da ignorância e da desinformação.

A ação missional da igreja tem essa dimensão de cuidado, que é pastoral. O cuidado com o outro é parte essencial da missão de Deus no mundo. Por que devemos nos preocupar com a vacinação? Há três motivos para isso: (a) cremos que Deus capacita a humanidade para produzir ciência; (b) consagramos nossa vida a servir como bênção para o outro; e (c) somos chamados a agir em amor pelos outros. A vacinação não só vai imunizar a mim, mas vai servir para que toda a sociedade possa superar a pandemia e, assim, retomar a normalidade.

Isso lembra o compromisso de Jesus. Ele afirmou que toda a sua obra e mensagem tinham como propósito trazer vida para as pessoas. Ele disse: “[...] eu vim para que tenham vida, e a tenham plenamente” (João 10.10). Vida plena inclui também a superação das grandes aflições que afligem a humanidade. Essa é uma forma de testemunhar o cuidado divino por todas as pessoas nesses tempos tão difíceis. Então, por que ser uma voz em favor da campanha de vacinação para todos: para que todos tenham vida.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2021

Para que todos tenham vida: Campanha em favor da vacinação para todos contra a Covid-19 / For everyone to have life: Vaccination for all against Covid-19 / Para que todos tengan vida: Vacunación para todos contra Covid-19

 

CAMPANHA PRÓ-VACINAÇÃO

“Para que todos tenham vida”

#VacinaParaTodos

NOTA DO GRUPO FÉ E POLÍTICA: REFLEXÕES

Para o Grupo Fé e Política: Reflexões, a vacina é um direito de todos e um dever do Estado. Por isso, conclamamos todos os cristãos a se envolverem numa campanha em favor da vacinação contra a pandemia de Covid-19.

A vacina por si só não resolve todos os problemas, mas sem ela não há como superar a pandemia. Essa doença tem ceifado a vida de milhares de pessoas em todo o mundo. Somente no Brasil, já perdemos quase 200 mil vidas.

Vacinar-se é um ato cristão de cuidado de si e do outro. A vacina não é só para o benefício próprio, mas para proteger o outro também.

Juntamente com as medidas de prevenção e de proteção, a campanha de imunização pela vacinação de todos e todas é uma nova esperança para retomarmos a vida e construirmos novos sonhos.

O envolvimento de todos e todas nessa campanha é, ao mesmo tempo, um ato de solidariedade e de resistência. Solidariedade para com os mais vulneráveis. Resistência à campanha negacionista que dissemina desinformação e Fake News.

Como cristãos, afirmamos nossa confiança no dom divino que capacita os homens a desenvolverem a ciência, a promoverem políticas públicas para o bem comum e a motivarem a uma vida mais humana, de justiça e de bem-estar para todos.

Para vencermos juntos a Covid-19, façamos nossa parte.

-          Use máscara.

-          Lave as mãos.

-          Evite aglomeração.

-          Fique em casa.

-          Vacine-se.

Informe-se sobre as fases da vacinação de acordo com os grupos de risco e seja imunizado.

Esta nota será divulgada entre as lideranças denominacionais e comunidades evangélicas.

sexta-feira, 3 de abril de 2020

Como será a vida depois da quarentena? / How will be the life after quarantine? / ¿Cómo será la vida después de la cuarentena?


O mundo que conhecíamos até o começo deste ano não existe mais. E não será mais o mesmo quando a quarentena por conta da pandemia provocada pelo Coronavírus terminar. Sim, a quarentena vai acabar, a pandemia vai passar e a vida retomará seu rumo. Mas o mundo não será mais do mesmo jeito, os relacionamentos não serão mais os mesmos e, muito provavelmente,  não nutriremos as mesmas ideias e ideais.
A pandemia do Covid-19 tem sido uma experiência dolorosa em todo o planeta. Os relatos das pessoas em quarentena, das famílias enlutadas e das perdas econômicas formam um quadro muito triste que permanecerá por muitos anos na memória dessa geração. Embora se possa acreditar que há uma vida pós-quarentena, a única coisa que se pode afirmar sobre ela é que o mundo não voltará ao normal.
Os epicentros dessa pandemia têm sido as grandes cidades. O vírus ganhou urbanidade, está inserido na polis. Portanto, alcançou dimensão política. A batalha contra ele não é biológica simplesmente, mas, também, política. O uso político da Medicina, da Epidemiologia, da Infectologia vai determinar os caminhos a seguir. Para o bem ou para o mal. As decisões que tomarmos agora serão decisivas para o que virá quando tudo isso passar.
Há um aprendizado promovido pelo sofrimento. As épocas de calamidade deixam marcas profundas na vida social, e as pessoas em geral experimentam uma transformação no seu modo de pensar e de ver o mundo. E isso também acontece com a humanidade. Após períodos de grandes epidemias, ou mesmo de grandes guerras ou de cataclismos, o mundo procurou encontrar novas alternativas para a vida. Um bom exemplo disso foi o período da peste negra, que varreu o Ocidente. Associada ao avanço das forças otomanas sobre a Europa e à necessidade de encontrar respostas para os graves dilemas humanos, a cultura ocidental se abriu para uma nova mentalidade no campo das Artes, da Ciência, da Política e da Religião com o movimento renascentista. Ideias humanistas de valorização da liberdade e da dignidade da pessoa humana, bem como a afirmação da capacidade do homem pensar por si mesmo, resultaram no que conhecemos como mundo moderno ou modernidade.
Neste mundo de agora, açoitado por uma crise sem precedentes, será urgente refletirmos sobre três grandes questões. A primeira relaciona-se à forma como o capitalismo chegou até aqui, favorecendo a concentração de renda de uma minoria e lançando na miséria um grande número de pessoas. A segunda indaga a respeito do cenário geopolítico em meio ao avanço da tecnologia da informação, da inteligência artificial e da internet das coisas, que influencia o surgimento de uma sociedade do controle e as mudanças nas relações de trabalho. E a terceira considera a ameaça à vida no planeta, com o esgotamento dos recursos naturais para o consumo, com o desequilíbrio ambiental e o aquecimento global.
A pandemia veio acrescentar, ainda, uma questão a mais para a humanidade: como reagimos quando tudo aquilo que acreditamos que nos daria segurança e bem-estar se torna insuficiente diante de um vírus de alto poder de contágio? Ainda não se tem uma resposta a respeito disso. Trata-se de uma questão nova, que nos conduz a uma total revisão daqueles  valores que orientam a maneira como vivemos. A busca por respostas, que não serão  únicas nem definitivas, deve mobilizar agora todas as áreas do conhecimento humano, em todas as culturas e em todos os espaços. Esse vírus fez com que as pessoas parassem seu ritmo de vida a fim de que pudessem perceber que há algo mais que é preciso aprender juntos a respeito do nosso valor e de nossa condição humana. E temos aprendido coisas novas
Aprendemos que a vida não é feita de pressa ou prazos, e que precisamos de bem menos para viver. Pessoas têm encontrado novas formas de consumir, de partilhar os recursos, de produzir bens e serviços. De repente, as pessoas descobrem o valor da vida em família, o quanto os nossos idosos são importantes, como é possível deixar um legado significativo para as gerações futuras. As pessoas têm descoberto o valor da vida em comunidade, de encontrar novas formas de se relacionar com os vizinhos que enfrentam as mesmas circunstâncias que nós.
Aprendemos que a natureza precisa de um alívio. É sim possível parar o ritmo frenético das cidades, das fábricas e do comércio para dar tempo à natureza para que se recomponha nos permita um ar mais puro, um ambiente com menos lixo e com menor taxa de agressões ambientais. As pessoas estão aprendendo a reduzir  aquilo que descartam, a dar importância à reciclagem e a cuidar de assuntos como contaminação, proteção e preservação de uma forma prática, aplicada à necessidade de sobrevivência.
Aprendemos que a economia neoliberal é a pior face do Capitalismo, que acima do mercado está a vida. E vimos que é possível pará-la. De nada adiantará um mundo com tanta capacidade econômica se isso não for aplicado na promoção e implementação de medidas emergenciais para preservar a vida.  O capital acumulado não serve para nada se as pessoas morrerem nessa pandemia. E, lembremos de que pessoas também morrem de fome, de doenças graves, de violência e de exclusão. O vírus veio nos mostrar que o neoliberalismo fracassou, pois nunca precisamos tanto do Estado e das políticas públicas, sobretudo nas áreas de saúde, educação e assistência social. O poder econômico tem que estar a serviço da vida, e não o contrário. O poder econômico precisa ser usado para frear a ganância dos poderosos, para promover justiça, diminuir as desigualdades sociais e oferecer oportunidades iguais a todos.
Aprendemos que a solidariedade , essa sim, é o que realmente nos humaniza. Diante de uma ameaça deste porte, nossas ideologias se tornam inadequadas e sem sentido. Percebemos que estamos todos fragilizados, que o vírus não poupa ninguém. A mensagem de que habitamos numa mesma casa comum começa a ganhar força. Isso tem suas implicações. As soluções que serviram para a China podem servir para os Estados Unidos. O que Itália, Espanha e França enfrentam servem de alerta para o resto do mundo. Os recursos desenvolvidos por um podem atender a necessidade de todos.
Aprendemos que a Fé não precisa do templo, do domingo ou do clero. Ela precisa de algo que nos impulsione para aquilo que está além de nós mesmos. As estruturas religiosas jamais deveriam estar engessadas em fórmulas, hierarquias, calendários ou mesmo espaços sagrados. É preciso descobrir que não há nada mais sagrado que a vida, que santidade é cuidar da vida de tal modo que toda ela seja importante, que a grande sabedoria de viver é permitir que o outro desfrute das mesmas chances que eu tenho. A Fé se realiza no encontro com o outro e com o transcendente, com esse sentimento de pertença ao outro e ao transcendente, ao mesmo tempo.
Aprendemos o valor do conhecimento, da cultura, da educação e da ciência. O que seria de nós se não fossem as universidades e os centros de pesquisas para lutarem por buscas de soluções para os problemas? O que seria de nós, sem a Arte e a Literatura para superarmos o tédio desses dias? São contribuições que trabalham com o imaginário, que nos ajudam a sonhar e a ter esperança de que tudo isso vai passar e que, novamente, poderemos seguir nosso rumo.
Segundo o historiador israelense Yuval Noah Harari, em artigo no jornal inglês Financial Times, de 20 de março de 2020, a tempestade da pandemia passará, sobreviveremos, mas será outro planeta, já que muitas das medidas atuais de emergência deverão ser estabelecidas como rotinas fixas. O mundo que teremos depois dessa crise dependerá das decisões políticas que serão tomadas no decorrer dessa quarentena. Mas, passada a pandemia, teremos a chance de fazer a escolha se queremos retomar a vida de antes ou se queremos nos lançar em uma nova forma de viver.
Byung-Chul Han, filósofo coreano radicado na Alemanha, em artigo no jornal El País do dia 22 de março de 2020, disse: “Precisamos acreditar que, após o vírus, virá uma revolução humana”. Em meio aos acontecimentos, sobressai o exemplo daqueles que cuidam. Desde o modo correto de lavar as mãos até o desprendimento revelado ao se dedicarem ao serviço pelo outro, os profissionais de saúde nos ensinam como podemos cuidar e nos cuidarmos. A característica principal dessa “revolução humana” haverá de ser o cuidado, firmado no princípio da solidariedade entre todos e com todas as expressões da vida, ou não teremos aprendido nada. E os grandes revolucionários desse tempo serão aqueles que se levantam para cuidar da vida.
A quarentena vai acabar, a humanidade vencerá mais essa pandemia, isso é certo. Mas tudo o que não queremos – ou pelo menos tudo o que não deveria acontecer – é retomarmos as coisas que fazíamos do jeito que fazíamos anteriormente. A pergunta que precisa ser feita agora é: será realmente necessário fazermos as mesmas coisas que fazíamos, produzir as mesmas coisas que produzíamos, consumir do mesmo jeito que consumíamos e viver do mesmo modo que vivíamos? A resposta que nós, como humanidade, dermos à essa questão orientará a maneira como reagiremos às transformações que virão.
(Texto publicado originalmente no site do Coletivo Bereia >>.

terça-feira, 24 de março de 2020

Como manter a saúde mental durante a quarentena / How to maintain mental health during quarantine / Cómo mantener la salud mental durante la cuarentena


Após a segunda semana de impacto da chegada da pandemia, começamos a nos dar conta de que não estávamos preparados para um tempo longo de isolamento social. É como uma negação de nossa condição humana, que nascemos como seres que vivem em comunidade. O Coronavírus é um vilão que veio para destruir o sentido de comunhão, para afastar-nos uns dos outros. Mas ele não provocou nada novo. Já vínhamos fazendo isso de outros modos, mas veladamente, mantendo muitos disfarces para nos afastarmos uns dos outros, para sermos indiferentes com o outro.
A solidão, o isolamento, a indiferença são fatores que contribuem para o surgimento e o agravamento de problemas ligados à saúde mental. Medo, angústia, ansiedade, esgotamento, desespero e até depressão fazem parte de um elenco de males que podemos enfrentar em tempos de quarentena, se não cuidarmos de nossa saúde mental com o mesmo esforço com que cuidamos de nosso corpo. É interessante que, para a saúde física, há campanhas educativas para se lavar as mãos, usar álcool em gel, alimentar-se com as fibras das frutas e legumes, ingerirmos muito liquido, praticarmos exercícios. E para a mente, o que precisamos fazer?
Perguntei a minha esposa o que ela recomendaria. Solange é psicóloga clínica, com mestrado em psicologia do trabalho e organizacional, especialista em arteterapia e psicologia positiva. Sua experiência em tratar da saúde e do bem-estar das pessoas em relações coletivas fornecem contribuições interessantes para nós em um tempo como esse. Ela, então, parou suas leituras e anotou uma lista de perguntas que podemos fazer a nós mesmos. Veja o que ela escreveu:
“Como extrair coisas boas do isolamento social? Dicas para uma boa reflexão:
1.         Qual é o meu propósito de vida, qual o sentido e o significado dela?
2.         Qual é a minha missão aqui?
3.         Qual a importância da minha família, dos amigos e daqueles que não são tão próximos a mim?
4.         O que tenho feito até aqui? Devo continuar fazendo?
5.         Quem é a pessoa que me tornei? Devo continuar sendo?
6.         Qual a minha importância e missão no mundo?
7.         Qual a minha responsabilidade como ser humano?
8.         Como enxergo as pessoas que estão a minha volta?
9.         Tenho a compreensão de que o outro é a extensão de mim?
10.     Tenho feito algo em favor do crescimento do outro?
11.     Tenho doado um pouco do meu tempo para ouvir o outro falar das suas angústias?
12.     Quando eu não estiver mais aqui, será que deixarei saudades? Como contarão a minha história?”
Tudo leva a crer que essa quarentena pode durar bem mais do que a gente imagina. Em Wuhan, a cidade onde se deu o epicentro do Coronavírus, deve observar cerca de 76 dias de isolamento social. O primeiro caso de infecção foi registrado no Brasil em 26 de fevereiro de 2020. Mas, no Rio de Janeiro, a quarentena começou oficialmente hoje (24 de março), embora o governo estadual oriente medidas de contenção desde o dia 13 de março. As previsões no Brasil apontam que devemos ter que observar essa restrição por mais uns dois ou três meses. A recomendação para não sair de casa é séria e deve ser observada por todos. Não é só uma questão de esforço individual, mas uma consciência coletiva de que não há outra saída. Embora se fale de outras possibilidades, a sociedade não pode abrir de nenhuma delas.
Essa pandemia veio revelar sentimentos que possuíamos que estavam escondidos nas sombras: desprezo aos idosos, mentalidade consumista, egoísmo e despreparo para agir em comunidade. Mas também veio nos apontar que somos capazes de superar, de construir novas formas de relacionarmos, de ver o mundo de outro modo, de se abrir para o que está além de nós mesmos. A pandemia vai passar, a quarentena não vai durar para sempre. Uma boa iniciativa é começar a cuidar de nós mesmos para sairmos dessa situação  como pessoas melhores.
Minha esposa se chama Solange Maia da Silva Chaves, psicóloga, mestre em Psicologia Social com concentração em psicologia organizacional e do trabalho, e tem especializações em Marketing, Arteterapia e Psicologia Positiva. Se precisar de ajuda, deixe um comentário logo a seguir.

quinta-feira, 19 de março de 2020

Dez conselhos para quarentena / Ten advices for quarantine / Diez consejos de cuarentena


1. Distância social não significa isolamento social. Comunique-se.
2. Encontre novas formas de demonstrar afeto, diferentes de aperto de mão, abraço e beijo. Seja gentil e afetuoso com suas palavras.
3. Lave sempre as mãos com água e sabão, use álcool gel, mantenha alimentação saudável, beba muito líquido, não saia de casa. E lembre-se de quem vive em situação de rua. Eles precisam do mesmo cuidado. Encontre formas de ser solidário.
4. Quem receita remédio é médico. Nada de automedicação nesse momento, nem nunca. Para se cuidar em tempo de pandemia do coronavírus, siga orientações da OMS para a sociedade.
5. Cuide dos idosos. Ajude-os nas compras, na higienização de suas casas e nas tarefas domésticas. Eles são os mais vulneráveis.
6. Se você tem prestadores de serviço que o auxiliam, libere-os para ficar em casa, mas pague-os como se tivessem comparecido para trabalhar.
7. Pratique formas e expressões culturais. Assista filmes, leia livros, ouça músicas em casa. Explore o que melhor há na internet.
8. Desenvolva uma atividade prática ligada ao seu talento. Escreva, componha música, faça bordado, tricô ou croché, costure, desenhe, pinte, faça escultura ou qualquer outra forma. É importante ocupar sua mente com aquilo que lhe dá prazer.
9. Desenvolva espiritualidade. Pratique meditação, reserve um tempo para orar, leia mais a Bíblia. Isso ajudará você a ter esperança.
10. Aprenda a usar a tecnologia para o bem. Use as redes sociais para se comunicar com familiares e amigos, para saber como eles estão, para compartilhar notícias boas e participar de videoconferências como uma forma de valorizar a vida.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

Fake News e consciência: como produzimos (e acreditamos) em notícias falsas / Fake News and conscience: how we produce (and we believe) on false News / Noticias falsas y conciencia: cómo producimos (y creemos) en noticias falsas


Fake News e consciência são dois conceitos que não deveriam estar juntos numa mesma frase. Entretanto, os modos de produção das Fake News, bem como o jeito como elas são difundidas, assimiladas e cridas, têm muito a ver com o funcionamento da consciência. Um pouco disso pode ser percebido na canção de Ataulfo Alves, quando reclamou da atitude da amada, que era diferente da serviçal Amélia: “você não sabe o que é ter consciência”. Ele ainda guardava lembrança daquela mulher submissa com quem conviveu, ao ponto de acreditar que todas as mulheres deveriam ser assim.
O Facebook e o Instagram anunciaram em outubro que vão fazer a checagem do conteúdo para atribuir um rótulo de “informação falsa” nos posts e stories que contenham notícias mentirosas. Há dois problemas nisso: o primeiro é que Fake News não são meramente notícias mentirosas (a mentira nunca se mostra tão evidente); e a segunda é que a checagem de notícias é um serviço caro (e quem posta Fake News quer atingir algum ganho com isso). As medidas incluem a redução de acessos dos sites que propagam os conteúdos que forem rotulados.
O que tem sido chamado de Fake News? Inclui: notícias mentirosas, parciais, tendenciosas e até replicadas ou tiradas de um acontecimento antigo para se referir a um fato atual. Quem produz Fake News geralmente é quem está interessado em desviar a atenção, interferir nas escolhas e decisões das massas, induzir um determinado comportamento de consumo ou mesmo uma ideologia, destruir ou mesmo construir a imagem de algum ícone, celebridade ou personagem pública que precisa estar ou não em evidência num dado momento. Os motivos podem ser diversos. E aqueles que produzem Fake News atuam como think tanks, financiados por grandes corporações, grupos políticos e movimentos ideológicos cuja base pode estar num outro país. Ou seja, o combate à Fake News envolve uma estratégia de guerra internacional.
O anúncio de que um determinado conteúdo é falso ou mentiroso desperta ainda mais a curiosidade, visto que não estamos lidando apenas com a veiculação de informações, mas com os modos de produção de sentido e de interpretação. Entramos em uma área até então nebulosa da ciência: o que é a consciência e como ela trabalha. Apesar dos avanços da neurociência, os estudos da consciência ainda são uma grande incógnita que ocupa cientistas e filósofos. A consciência é considerada por muitos como o último limite do conhecimento a respeito da condição humana. Quando esse mistério for desvendado, novas possibilidades serão abertas para a Psicologia, para o tratamento de problemas Psiquiátricos e inclusive para a Inteligência Artificial.
A consciência é tanto uma forma de conhecimento de si, como também um processo de como nossa mente lida com experiências, emoções e informações que temos durante a vida toda. Tudo está gravado para ser usado nas várias situações e contextos que vivenciamos. Nesse processo, a consciência depende da memória, da linguagem e das emoções. Num procedimento rápido, nossa memória é capaz de encontrar respostas para cada situação no meio do que está guardado de alguma forma em algum canto de nossa mente. Pela consciência, desenvolvemos uma imagem de quem somos ao mesmo tempo em que produzimos sentidos e respostas para o que enfrentamos a fim de dar conta desse eu imaginado. O que não gostamos, deixamos escondido em algum lugar – nas sombras, como diria Jung –, mas que de algum modo insiste em aparecer.
Fake News é uma notícia que, embora seja falsa ou falseada, agrada essa consciência escondida, disfarçada que carregamos dentro de nós mesmos. A verdade sempre nos confronta diante daquilo que nos envergonha ou mesmo fere saberes que acumulamos ao longo de nossa história. É horrível descobrir que você foi enganado, que acreditou numa mentira ou que foi manipulado. É mais confortável continuar acreditando nas histórias que nos contaram do que assumir a insegurança de um fato novo que coloca em xeque nossas convicções, crenças e saberes.
Não, Fake News não é coisa inventada pelos tios nos grupos da família. Elas também não são notícias mentirosas simplesmente. Elas são um produto de nosso tempo. É bem verdade que Fake News sempre existiram. Mas o modo como elas acontecem hoje está ligado à própria complexidade da produção de conhecimento. Para que uma mentira ganhe fórum de verdade, não basta ser repetida várias vezes, como ensinava o nazista Goebbels. Isso é meme. Ela precisa ser produzida de tal modo que agrade à consciência de uma massa enganada e ferida.
Publicado originalmente no site do Coletivo Bereia. Disponível em: https://coletivobereia.com.br/fake-news-e-consciencia-como-produzimos-e-acreditamos-em-noticias-falsas/

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