sexta-feira, 20 de março de 2026

Revolução do amor: por uma espiritualidade dos afetos (novo e-book) / Revolution of love: towards a spirituality of affections / Revolución del amor: hacia una espiritualidad de los afectos

Em um tempo marcado por tanta guerra, ódio, injustiça, maldade e indiferença, falar do amor parece um contrassenso. Mas esse tema tornou-se urgente, não para impor um dever de amar, mas para nos lembrar que somos capazes de amar.

Neste livro, vamos explorar a temática do amor pelos caminhos da filosofia, da psicanálise, da teologia, das ciências bíblicas e da espiritualidade para falar do mal-estar que atravessa a humanidade em nosso tempo. Dizemos que o amor está em falta, mas o que deveríamos dizer é que o amor foi substituído por outras atitudes que têm destruído a vida no planeta. O amor está sufocado, escondido, disfarçado no mundo.

De um modo geral, ouvimos também falar que temos a obrigação de amar, que o mundo está mal porque as pessoas não se amam e, por isso, procuramos os culpados pela falta de amor no mundo. Acabamos construindo uma mentalidade que condiciona o amor a uma lei punitiva, uma força repressora, como algo impossível de acontecer de forma livre e espontânea.

O amor se torna, assim, uma abstração, algo distante de nossa realidade. “Falamos de amor, mas vivemos com ódio: odiamos em nome do amor. O ódio é o nosso protesto contra a ‘impossibilidade do amor’”, disse Thomas Merton no prólogo do livro de Ernesto Cardenal, Vida em amor.[1]

Uma imagem que ficou eternizada nos protestos contra a guerra retrata um jovem colocando flores nos fuzis de soldados. O fato aconteceu em 22 de outubro de 1967 e a foto foi tirada pelo fotojornalista Bernie Boston durante um protesto pacifista em Washington, contra a guerra no Vietnã. A foto recebeu o nome de “Flower power” e concorreu ao Prêmio Pulitzer daquele ano. Ela lembra que o amor é a única força que pode vencer a maldade.

O amor é um dos temas mais difíceis para ser abordado em um estudo ou reflexão. A dificuldade de escrever sobre o amor envolve tanto a abrangência do tema quanto as nossas próprias limitações e carências de amar e ser amado. Por isso que reunir as reflexões que fazem parte deste livro se tornou um grande desafio para mim. Primeiro porque o amor precisa ser aperfeiçoado em mim, e segundo porque o amor está em falta no mundo.

Não dá para se referir ao amor por palavras. Há que se viver, praticar, compartilhar. Exatamente pelo fato de que o amor não é um sentimento. Ele é uma atitude.

Há uma crise no mundo, que é da escassez do amor, que tem afetado todas as esferas da vida. Ela é maior do que as crises, econômica, política, social, ambiental e relacional. Ela também está por trás delas e provoca todas as demais crises pelas quais a humanidade passa.

A falta de amor está disfarçada de muitas formas. Ela pode se confundir com o medo de estar só, com a busca de realização pessoal, com o ideal de perfeição e até com o narcisismo. A falta de amor é o sintoma mais sério da perdição humana.

O ponto de virada para sair dessa crise aponta para uma mudança radical de mentalidade, uma conversão de si para deixar de ser alguém fechado em si mesmo a fim de se tornar aberto ao mundo e ao outro.

Para superar a falta de amor, somente uma grande revolução para nos apontar caminhos de construção dessa atitude que tanto faz falta. A revolução do amor tem a ver com uma transformação radical e profunda das estruturas humanas para que se possa estabelecer uma nova perspectiva de vida, centrada no amor.


[1] Cardenal, Ernesto. Vida em amor. Salamanca: Sigueme, 1987. p. 9.

Imagem criada por IA.

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domingo, 25 de janeiro de 2026

Religião como expressão humana: uma reflexão necessária para este tempo / Religion as a human expression: a necessary reflection for our time / La religión como expresión humana: una reflexión necesaria para nuestro tiempo

Um dos fatos mais surpreendentes a respeito da religião é que ela permanece ativa mesmo num mundo secularizado, cético e cientificista como o que nos vivemos. Alguém chegou a dizer que a religião iria desaparecer, mas ela tem se reafirmado em toda sua diversidade e pluralidade.

O meu livro O que é religião? é resultado de uma investigação que venho fazendo há muitos anos. Foi publicado pela primeira vez em 2005 e agora encontra-se disponível como e-book, revisado e atualizado com informações que venho abordando em artigos e textos em periódicos, anotações de aulas, apostilas de cursos ministrados e em meu blog de filosofia, espiritualidade e psicanálise.

O livro físico está esgotado. Daí a necessidade de disponibilizar esse conteúdo de forma digital. Desde que foi lançado, serviu de leitura recomendada em muitas faculdades de teologia, ciências da religião e áreas afins. Com a nova edição em e-book, creio que será ainda mais interessante para quem procura aprofundar seu conhecimento a respeito do assunto.

Falar de religião é sempre transitar em um terreno nebuloso, cheio complexidades e de subjetividades. Trata-se de um sistema complexo que envolve crenças, enigmas, esperanças, temores, mistérios e até aquilo que não se consegue exprimir em palavras, coisas que todos nós carregamos conosco. Lidar com o sagrado, com o sobrenatural, com o inefável ou com a finitude causa sempre um certo desconforto, pois nos confronta com nossa realidade existencial e nos interpela a assumirmos posições e a darmos direção à vida. Embora muitos nem sejam religiosos, na acepção mais realista do termo, não há quem não se detenha a refletir sobre seus temas diante das situações limites da vida.

Espero que a leitura deste pequeno livro ajude aos religiosos a serem mais críticos e sinceros em sua devoção. E espero que os não religiosos reflitam sobre a importância dessa experiência em sua prática cotidiana.

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quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Ascese, espiritualidade e discipulado / Asceticism, spirituality, and discipleship / Ascetismo, espiritualidad y discipulado

 

“Seja a atitude de vocês a mesma de Cristo Jesus” (Filipenses 2.5). 

O grupo de discípulos de Jesus foi uma verdadeira escola de espiritualidade. Eles aprenderam com o maior mestre de espiritualidade que a humanidade conheceu sobre práticas que visavam o conhecimento de si e o cuidado de si e do outro de uma forma peculiar. Eles compreenderam sobre como é viver guiados pelo Espírito e a respeito das práticas de espiritualidade no seguimento de Jesus.

Ao contrário das influências do judaísmo, das religiões de mistério e das práticas dos movimentos filosóficos de seu tempo, Jesus desenvolveu uma espiritualidade mais equilibrada em relação aos rigores de alguns grupos. Jesus não se orientou pelos costumes do ascetismo de seu tempo. Ao contrário, ele inovou com a preocupação com uma vida de interioridade e de desprendimento para o cuidado com o próximo.

Havia muitos grupos religiosos que desenvolveram práticas monásticas e eremitas, com ênfase rigorosa em orações, abstenções e períodos de isolamento. Entre os movimentos ascéticos do judaísmo no tempo de Jesus, havia o grupo dos essênios. Eles eram uma seita formada por judeus que existiu desde o século II AEC. Viviam em comunidade e buscavam a pureza, a partilha dos bens e o silêncio. Eram dedicados ao estudo das Escrituras, desenvolviam rituais de purificação e praticavam a imersão como rito de iniciação. Essa seita ficou mais conhecida depois que foram descobertos os Manuscritos do Mar Morto, em uma gruta na localidade de Qumran.

Havia também a prática dos nazireus, que eram os judeus que faziam votos voluntários de consagração de vida a Deus, através de práticas de abstenções e de não cortar o cabelo por um período. Eles procuravam seguir rigorosamente as orientações do livro de Números 6.1-21. Não se tratava de uma seita ou grupo, mas de práticas que podiam ser desenvolvidas por qualquer judeu, homem ou mulher, que quisesse ter uma experiência de Deus ou mesmo de demonstrar gratidão.

Havia anda um movimento conhecido como os terapeutas, formado por judeus da diáspora, especialmente na região de Alexandria, no Egito. Entre as práticas ascéticas, estavam: o celibato, a renúncia aos bens materiais, a prática do jejum, a oração e o isolamento social, para se dedicaram a uma vida santa e se preservarem para o fim dos tempos. Esse grupo foi descrito pelo filósofo judeu Filo de Alexandria no século I da Era Comum.

No Novo Testamento, encontramos relatos sobre as práticas religiosas dos fariseus. Eles formavam um grupo político influente dos judeus, conhecidos por sua devoção rigorosa à Torah, à interpretação literalista das Escrituras e à tradição oral. A escola rabínica foi responsável por moldar a prática religiosa a partir das sinagogas e da interpretação das Escrituras.

Além dos movimentos de espiritualidade judaicos, a região onde Jesus viveu e formou o seu grupo de discípulos era influenciada pela cultura greco-romana e pelas tradições dos povos vizinhos, como os egípcios, os edomitas, os sírios, os fenícios e os samaritanos. A influência das religiões de mistério e das escolas filosóficas como a dos estoicos também se faziam presentes. Cada cultura tinha sua identidade própria e desenvolvia suas crenças e práticas religiosas. Dessa forma, a espiritualidade naquela região era pluralista e marcada pela diversidade.

A espiritualidade que Jesus ensinou aos seus discípulos tinha três características predominantes: a integração à vida social, o exercício do domínio próprio e a ênfase na prática do amor fraternal. Jesus confrontou a prática ritual e o formalismo, propondo uma nova relação com o sagrado, baseada na proposta de vida na perspectiva do Reino de Deus.

A espiritualidade dos discípulos de Jesus se consolidou quando do início da atuação como igreja. Toda ascese dos primeiros cristãos era voltada para a vida em comum, para o cuidado uns dos outros, para o compartilhamento e para o cumprimento da missão. Podemos chamá-la de espiritualidade do caminho pelo fato de que se realiza à medida que se a partir da própria caminhada como cristãos no mundo.

É a espiritualidade como discipulado, como aprendizado constante, como busca permanente para se tornar mais identificado com o exemplo deixado por Jesus de Nazaré. O objetivo era ser como o Mestre. Isso não dependia de estruturas religiosas, dogmas ou mesmo hierarquias. Havia a compreensão de que a vida era guiada pelo Espírito Santo e que o objetivo principal de uma vida cheia da graça era se tornar um instrumento vivo para o bem comum.

As regras de vida monástica e aquilo que conhecemos como ascese cristã só vieram posteriormente e se firmaram no século II em diante. O início foi marcado pela espontaneidade, pelo desejo de consagrar a vida inteira aos propósitos divinos, ainda que fosse preciso colocar em risco a própria vida. Ela era, por assim dizer, uma espiritualidade plural, livre de qualquer tipo de normatizações e de rituais rigorosos.

Essa espiritualidade do caminho e do caminhar faz falta nos dias atuais. O nosso tempo é marcado por uma diversidade de experiências e de práticas de espiritualidade que carecem de uma reflexão sobre o significado daquilo que fazemos. Os discípulos de Jesus praticavam orações, jejuns, meditação, períodos de reclusão e de solitude, autocontrole e testemunho de vida, tudo voltado para a vida em comunhão e para o cumprimento da missão.

Rever o modo como os discípulos de Jesus desenvolveram sua espiritualidade contribui para que possamos repensar sobre as razões pelas quais oramos, consagramos a vida ou mesmo prestamos serviços religiosos. Em última instância, permite que possamos entender melhor o que faz da gente cristãos e cristãs autênticos num mundo tão diverso.

(Assista à série de reflexões Espiritualidade dos discípulos de Jesus na playlist do Youtube: https://www.youtube.com/playlist?list=PL4NVfVIy5Bi5UCfJp5ohxoBGKl8tgcPA_).

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Conflito entre Venezuela e EUA: soberania e autodeterminação dos povos em risco / Conflict between Venezuela and the USA: sovereignty and self-determination of peoples at risk / Conflicto entre Venezuela y EEUU: soberanía y autodeterminación de los pueblos en riesgo

Na madrugada do dia 3 de janeiro de 2026, as forças militares dos EUA, que estavam posicionadas no mar do Caribe em prontidão de ataque há quase 5 meses, bombardearam a Venezuela, invadiram a capital venezuelana e sequestraram o seu presidente. A investida faz parte de uma escalada de hostilidades entre Caracas e Washington que se acentuaram após a posse de Donald Trump.

Independente do que se pense, ou se saiba, sobre as personalidades de Nicolas Maduro e Donald Trump e seus governos, estamos diante de crimes previstos em acordos internacionais. Desde o fim da Segunda Guerra Mundial, foram construídos acordos e instituições internacionais para salvaguardar o direito dos povos, mas que atualmente se mostram ineficazes.

As alegadas justificativas de envolvimento com o narcotráfico e o narcoterrorismo, apresentadas pelo governo americano, caíram por terra. O que ficou claro é que o objetivo era de fato a apropriação das maiores reservas de petróleo do planeta, conforme o próprio Trump declarou em entrevista à imprensa.

O atual governo dos EUA efetivou uma ameaça que pairava no ar desde a ascensão do chavismo ao poder na Venezuela, há mais de 20 anos. Naquela ocasião, as empresas americanas que atuavam na exploração do petróleo venezuelano foram afastadas em nome de uma mudança política para a defesa dos interesses dos projetos de cunho popular.

O que está em jogo nesse cenário? Fica evidente o poder de influência das grandes empresas produtoras de petróleo que regem os rumos da política internacional. Fica claro também que o interesse econômico de uma nação em desenvolvimento, seja na América Latina ou em qualquer parte do mundo, está sempre subordinado aos interesses corporativos das nações onde se encontram as sedes dessas empresas. O discurso de usar os ganhos com o petróleo e gás para diminuir a pobreza e a desigualdade social não são sequer cogitados. Além disso, a defesa dos valores internacionais que fizeram surgir a ONU há 80 anos atrás, que são os da soberania nacional e o da autodeterminação dos povos, fica fragilizada. Qualquer nação que não detenha a mesma capacidade bélica está ameaçada.

Não se trata mais de ameaça à democracia, mas da reação a um processo que está em curso, que é o da construção de um mundo multipolarizado, dominado pelas grandes potências econômicas e militares. O ataque à Venezuela é uma declaração de que não há nação imune às grandes potências mundiais.

O que isso pode acarretar? Em um primeiro momento, isso pode desencadear uma corrida armamentícia de todos os países que se sentirem desprotegidos. As nações em desenvolvimento precisarão se preparar militarmente para proteger suas riquezas naturais e sua soberania. Ao mesmo tempo, os blocos econômicos regionais precisarão avançar nos acordos de cooperação de defesa. Especialmente na América Latina, será necessário um grande esforço de cooperação para que a região não sirva de território de domínio de nenhum império.

O mundo precisa urgentemente virar a chave da dependência dos combustíveis fósseis. Hoje, essa é a maior causa da crise pela qual a humanidade atravessa. Foi após o emprego em massa dos combustíveis fósseis na indústria e no consumo mundial que aumentaram os conflitos de proporções mundiais bem como a degradação do meio ambiente, colocando em risco a vida no planeta.

Nesse conflito, não há lado bom, não há santos de parte a parte. É o jogo do poder a qualquer custo, tanto por parte de quem usurpa o posto de forma questionável, quanto de quem se utiliza do cargo para o exercício da tirania e da opressão.

É um tempo para que pessoas de bom senso parem para refletir sobre esse fenômeno histórico, tanto para compreender suas causas quanto para avaliar as suas consequências. É tempo também de buscar a paz. Já se disse que somente as nações que dominam armas de destruição em massa estão protegidas. Isso se resume a um grupo seleto de 9 nações no mundo.

Não são os países ou a economia que estão sob ameaça. Na verdade, é a humanidade que está em risco. Uma prova disso é que não se falou sobre o número de vítimas durante esse ataque, nem muito menos se falou do direito dos cidadãos aos ganhos advindos dos recursos naturais em seus territórios.

O que se vê é a perpetuação da lógica colonialista nos mesmos moldes da exploração que se deu após o descobrimento da América, baseada no poder do capital e na força militar. Trata-se de um retrocesso de mais de 200 anos desde os movimentos emancipatórios que fizeram surgir as nações do continente.

De minha parte, digo: quem for de oração, dobre os seus joelhos para interceder pela paz no mundo.

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