“E todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo!” (Atos 2.21).
Uma expressão comum entre os
evangélicos brasileiros é “aceitar Jesus”. Ela tanto serve para descrever a
experiência de conversão pessoal quanto para convidar pessoas a adotarem uma
nova posição religiosa, acolhendo a fé evangélica. Ou seja, não só é uma
expressão ligada à iniciação na fé, mas também um argumento proselitista.
Essa expressão se estabeleceu a partir
da estratégia discursiva dos pregadores chamados evangelistas, desde os grandes
oradores dos meios de comunicação, que enchiam auditórios, até mesmo os mais
humildes nas comunidades periféricas e interioranas. Tornou-se um convite
universal para que as pessoas experimentassem uma mudança de atitude em relação
à fé.
As mensagens de arrependimento e de
perdão divino, os chamados sermões evangelísticos, eram sempre encerradas com o
apelo para aceitar Jesus. O gesto para isso era simples. Bastava manifestar com
o levantar de uma das mãos durante o apelo, geralmente acompanhado de hinos e
orações. Com isso, a pessoa demonstrava o seu desejo de experimentar uma nova
forma de vida que a libertasse de tudo aquilo que tirava a sua dignidade.
O apelo para aceitar Jesus como Senhor
e Salvador foi a forma mais emblemática usada pela igreja evangélica para
restaurar a esperança pessoas que viviam de um modo degradante. Era direcionado
a quem vivia oprimido pelas dívidas, pelas condições sociais, pelos vícios,
pela violência, pelo medo e até pela falta de perspectiva para o futuro.
Quem aceitava Jesus passava a se
sentir empoderado para experimentar uma vida mais autônoma, livre da opressão
da vida cotidiana. Havia até canções que enalteciam esse gesto: “desde o dia em
que aceitei Jesus, a minha vida se transformou; agora sou feliz, agora vivo
bem; Jesus salvou a mim e salva a ti também”.
A partir dessa escolha, o novo
convertido se tornava uma pessoa melhor, um melhor pai, uma melhor mãe, um
melhor filho ou filha, um melhor trabalhador ou trabalhadora, um melhor patrão
ou patroa e até mesmo um melhor cidadão ou cidadã. De fato, as pessoas
melhoravam de vida até mesmo do ponto de vista socioeconômico, adotando novos
hábitos de consumo e novas perspectivas de vida.
O apelo para aceitar Jesus em uma
manifestação pública é resultado do movimento evangelicalista norte-americano
sobre a igreja evangélica brasileira. A prática surgiu no século XIX através de
lideranças avivalistas. Um deles foi Charles Finney, um dos pregadores do
chamado “segundo grande avivamento” dos Estados Unidos. E foi trazido para o
Brasil pelos missionários que trouxeram o protestantismo de missão a partir do
século XIX.
Teologicamente, o apelo em si implica
a ideia de uma conversão imediata, em que a pessoa reconhece a sua condição
pecadora, arrepende-se e entrega-se à graça salvadora de Jesus Cristo.
Pressupõe a ideia da justificação pela graça, que é gratuita e imediata.
Aceitar Jesus implica também reconhecê-lo como Senhor e envolve submeter a vida
de forma voluntária a seus ensinos e princípios.
O momento de aceitação ao apelo tem o
sentido do acolhimento ao convite amoroso de Jesus, a dizer sim para o projeto
redentor divino consumado no nascimento, vida e morte de Jesus na cruz. Essa
atitude está diretamente relacionada à ação do Espírito Santo que é quem
convence a pessoa do pecado e o encoraja ao “novo nascimento” e a se tornar uma
“nova criatura”.
Essa prática ainda é muito forte e
presente nas igrejas evangélicas históricas e tradicionais. Porém, as novas
influências teológicas vindas dos Estados Unidos apontam para outras formas de
proselitismo. Teologias como as da prosperidade e do domínio defendem a adoção
de atitudes mais secularizadas, de conformação à mentalidade dominante de
consumo e de adesão a um estilo de vida ligado ao ter e à aparência.
A consequência dessa mudança de
abordagem trouxe o esvaziamento da proposta do seguimento de Jesus, da mudança
de atitude, do aprendizado a respeito dos ensinos de Jesus de Nazaré e da
vivência dos valores genuinamente cristãos no mundo, como a prática do amor, da
justiça e da paz.
Um dos fatores que contribuíram para o
crescimento dos evangélicos no Brasil tem a ver com os sentidos desse apelo.
Pessoas que “aceitam Jesus” se dispõem a mudar de vida, a transformar a sua
mentalidade a respeito da vida, a aprender aquilo que Jesus ensinou como valor
para a vida e a experimentar uma vida livre de amarras religiosas, vivendo em
uma nova comunidade na qual podem partilhar experiências de vida.
(Assista às mensagens da série Aceitar
Jesus: O que isso significa? em meu canal no Youtube. Acesse pelo link: https://www.youtube.com/playlist?list=PL4NVfVIy5Bi6YBxpjO6ioVYz-hRpb3e9Z)

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