quinta-feira, 24 de outubro de 2019

Bem Viver e Decolonialidade: uma abordagem a partir dos discursos de Jesus / Living Well and Decoloniality: An Approach from Jesus' Discourses / Buen Vivir y decolonialidad: una aproximación desde los discursos de Jesús


A cultura ocidental vivencia uma crise profunda que coloca em questão os valores relativos à vida e ao próprio modelo civilizatório que vem sendo adotado, sobretudo a partir da Modernidade. A humanidade chegou a um ponto em que a desigualdade social, a ascensão de formas autoritárias de poder e o aquecimento global colocam em xeque o padrão desenvolvimentista e consumista que vem sendo praticado pelas sociedades atualmente.
É nesse sentido que emerge uma cosmovisão que se baseia na mentalidade dos povos originários no contexto latino-americano, voltada para um novo paradigma que pode nos ajudar a superar os problemas que temos enfrentado. Trata-se do Bem Viver como princípio organizador das relações com a natureza, abrangendo aspectos sociais, econômicos, políticos e espirituais.
O Bem Viver tem a ver com a experiência das comunidades e povos indígenas na América Latina, com um conjunto de elementos que podem nos inspirar a repensar valores e práticas da cultura contemporânea. O trabalho de resgate dessa forma de pensar tem mobilizado antropólogos, cientistas sociais e políticos bem como teólogos para apontar para a humanidade uma nova utopia no sentido de se construir uma sociedade mais solidária e sustentável.
O Bem Viver vivenciado pelas culturas indígenas difere dos ensinamentos éticos do Ocidente, como a busca pela vida boa, do bem-estar e da felicidade. Ele se opõe à exploração e à dominação. Por isso, deve ser reinterpretado para se tornar um projeto de vida concreto, capaz de revolucionar nossas maneiras de pensar, nossas formas de interagir com a natureza e nossas relações humanas.
Assim como não podemos falar de uma única experiência cultural dos povos originários da América Latina, também não é possível compreender o Bem Viver a partir de um único viés. Precisamos falar de varias formas de Bem Viver, que podem ser percebidas através das várias linguagens desses mesmos povos. Sendo assim, podemos falar de um tratamento da vida em sua plenitude, de um modo de conviver com a natureza e as pessoas, de contentamento e até de um jeito de se relacionar que leva em consideração a temporalidade, a alteridade e a relação com a natureza.
De um modo geral, o Bem Viver procura superar a dicotomia homem-natureza trazida pelos colonizadores europeus. De acordo com essa mentalidade, a América Latina deveria servir como fornecedora de recursos naturais e de mão de obra para dar conta do padrão de vida das nações que se consideravam desenvolvidas. Entretanto, esse modelo tem se mostrado insuficiente e superado, sobretudo a partir da década de 1980, que coincide com o neoliberalismo que se levantou na economia, ao mesmo tempo em que a natureza começou a dar sinais de esgotamento de seus recursos renováveis.
O Bem Viver, então, se apresenta como um pensamento em construção, que procura resgatar os saberes dos povos originários, sobretudo das comunidades andinas, acompanhado por uma reflexão acadêmica a respeito dos movimentos sociais e da necessidade de implementação de políticas públicas voltadas para a superação dos graves problemas decorrentes da economia exploratória e de mercado. Uma das marcas desse processo de construção foi a inserção do Bem Viver nas leis fundamentais do Equador e da Bolívia, assim como o surgimento de várias experiências de aplicação das práticas em comunidades em várias partes do continente.
O Bem Viver, portanto, é um conceito plural que precisa ser analisado a partir da interação com outros saberes voltados para o cuidado com a natureza, à crítica ao modelo socioeconômico que orienta o consumo e a uma reelaboração do modo de pensar a vida e o bem-estar nos dias atuais. O Bem Viver é, por assim dizer, uma forma decolonial de pensar, ou seja, se se desvencilhar da influência da mentalidade colonizadora e construir respostas a partir de sua própria experiência cultural. É uma forma de pensar em aberto, o que torna possível inclusive dialogar com outros saberes tradicionais e buscar respostas que emanam da experiência de povos marginalizados e explorados em outras partes do mundo. Segundo a particularidade de cada povo, emergem conceitos que se complementam e apontam caminhos para o diálogo.
Uma das possibilidades de diálogo é com a Teologia. Os povos originários da América Latina foram influenciados por uma visão cristã dualista, que opõe corpo e alma, céu e inferno, mundo e espiritualidade. A aproximação da teologia com a ideia do Bem Viver passa pelo resgate da relação entre o homem e a natureza como uma unidade integradora, na medida em que ambos estão interligados e são coexistentes.
Para dialogar com as formas do Bem Viver, uma das possibilidades é fazer uma releitura dos discursos de Jesus a respeito do sentido da vida e dos valores imprescindíveis para uma vida digna no mundo. Jesus não se preocupou apenas com uma vida no porvir, mas com a vivência de forma plena já aqui nesse tempo presente. Ele ensinou princípios de vida, deixou mandamentos, fez advertências e recomendou práticas para que as pessoas pudessem viver bem umas com as outras e também experimentassem uma vida de realizações no mundo.
A aproximação dos ensinos de Jesus com o Bem Viver nos ajuda a perceber que a mensagem do evangelho é para toda criatura, que se atualiza e se insere no contexto das culturas para promover o resgate do que há de mais humano.

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