sábado, 4 de dezembro de 2010

O cristianismo ainda é relevante? / Christianity still relevant? / ¿El cristianismo sigue siendo relevante?

A questão sobre a relevância do cristianismo para a sociedade contemporânea é uma tema pertinente, principalmente em se tratando da perda de significado da fé cristã para uma sociedade que aprendeu a viver sem Deus e a encontrar caminhos sem a ajuda da religião. Porém, essa não é uma questão bem resolvida para o mundo. Ainda está em aberto a pergunta pelo sentido e busca de significado para a vida. É nessa lacuna que se encontram três livros cujas leituras apontam uma linha de abordagem sobre a fé, que visa entender como a humanidade, sobretudo o Ocidente, chegou a esse estado de coisas.
O primeiro é o livro de Paul Veyne, Como o Ocidente se tornou cristão, que trata do início da cristandade – à época de Constantino – e suas implicações para a formação de uma relação de poder com a sociedade, mostrando, com isso, que a construção de uma estrutura e de uma institucionalização do cristianismo foi um fato histórico de grande relevância, resultante de um conjunto de fatores que acabaram por permitira a consolidação do cristianismo como religião. A pergunta que fica é: a cultura Ocidental tem raízes cristãs? A resposta é sim e não. A explicação está na conceituação de individualismo e universalismo. Nesse sentido, o cristianismo é uma religião de individualidade que está aberto ao universo. Por ser uma religião proselitista, o cristianismo foi engendrado a partir de uma paixão de seus primeiros seguidores e apóstolos pela pessoa de Jesus, de origem judaica, o que criou uma religião que deixou de ser étnica. O cristianismo não se constitui como um sistema político ou social, mas um modo de se compreender o sentido da vida que ainda subsiste numa Europa secularizada sob a forma de uma identidade cultural. As origens dessa mentalidade ocidental (e europeia) contemporânea está muito mais no surgimento da Modernidade (séculos XVII e XVIII) – com Espinosa e Kant – do que nas ideias de generosidade e benevolência trazidas pelo cristianismo. Na verdade, a religião cristã preparou o terreno para um mundo que foi secularizado, no qual a religião se constitui um dos fatores que interferem nas mudanças. Como diz o autor, não foi fruto de um germe, mas o resultado de uma epigênese.
O segundo é o livro de Jean Delumeau, que procura abordar o modo como o Ocidente perdeu a sua paixão pelo cristianismo, por causa de um discurso de culpabilização, centrado no pecado e no medo, que resultou em uma teologia que se tornou distanciada da graça. Em A história do medo no Ocidente, a investigação encadeada por Delumeau segue alguns caminhos bem definidos. O primeiro aborda os medos espontâneos, provocados pelas situações caóticas pelas quais a sociedade ocidental e europeia passava, como pestes, guerras e até o Grande Cisma, que podem ser classificados como permanentes e cíclicos. O segundo vai tratar dos medos causados pelas imposições da igreja, que veio a provocar um abalo em todas as formas de representação da época, em todas as camadas sociais, substituindo o estresse dos problemas por um medo teológico. O terceiro caminho que surge diz respeito aos modos como se encontrou saída para essa dominação, dado à capacidade humana de encontrar formas de superação, de correção de rumos e de reinvenção dos itinerários em função dos obstáculos encontrados.
Em O pecado e o medo – o terceiro livro –, Delumeau está preocupado com o modo como o medo se consumou no quadro do pessimismo europeu se caracterizou como um medo de si mesmo, com uma expressão voltada para o desprezo do mundo e a desvalorização do homem. Esse é um assunto que envolve a consciência cristã desde o século IV. A doutrina do desprezo do mundo (contemptus mundi) foi dominada pela concepção dualista que distingue corpo e alma, carne e espírito, terra e céu, multiplicidade e unidade, exterioridade e interioridade, tempo e eternidade, procurando estabelecer um vínculo entre a transitoriedade da vida e a necessidade de se aproveitar bem as oportunidades. O homem é visto como suscetível à desgraça e era necessário se fazer algo para que a vida ganhasse novo sentido, dentro dos limites de compreensão do prazer e do esvaziamento interior. As breves alegrias deste mundo apontam para sofrimentos eternos. Isso desperta um sentimento de que a vida terrena é um exílio e o melhor a se fazer é desenvolver o ideal monástico, marcado pelo ódio ao corpo e ao mundo, a evidência do pecado e a fuga do tempo.
O tema da fuga do mundo (fuga mundi) apontava para uma culpabilização e para uma ética que se destinava a uma vida marcada pela mística e pelo ideal asceta. A preocupação era com o fato de que a desgraça está em toda a parte e nada é mais perigoso do que uma vida tranquila. A característica comum é o incitamento do ódio de si mesmo e a mortificação das paixões. Essa ênfase, tomará uma nova forma com a Reforma Protestante, notadamente nas obras de Calvino. Para ele, o mundo é sempre mau, mesmo naquilo em que ele pode ser melhor. O próprio espírito do homem é mau por causa da queda, e não há nada que se possa fazer para torná-lo bom, nem mesmo a fuga do mundo. Ou seja, o mal está por todo lado, dentro e fora do sujeito, tanto na vida solitária quanto na sociedade. É o desprezo de si que desperta a necessidade de entregar-se a Deus.
Delumeau assegura que o tema do medo e do pecado são ambíguos: eles comportam tanto a possibilidade de uma atitude transformadora, como também desencorajadora. O problema é que o discurso do medo no ocidente foi construído sobre a interpretação equivocada de textos mal compreendidos. Alguns aspectos são de destaque: esse discurso faz parte de uma ética monástica que acabou por ser direcionado para as multidões; foi na Renascença que se deu essa tendência, o que demonstra que o Humanismo pode não ter sido tão otimista quanto parece; o medo esteve mais presente nas elites e os mais santos. Essa preocupação revelou uma teologia que falou mais do pecado que da graça, mais de um Deus juiz e condenador do que de misericórdia e compaixão. A questão final levantada por Delumeau é pertinente: não seria essa a razão da descristianização do Ocidente?
A descoberta resultante dessas leituras é um tanto estarrecedora, mas também promissora. De uma lado, aponta para a responsabilidade dos cristãos. De outra, aponta caminhos para uma reflexão e um diálogo em busca de mudanças.

Um comentário:

  1. Primeiro agradeço por compartilhar comigo o seu blog Filosofia e Espiritualidade. Felicito o caro Professor Irenio Chaves pelo excelente trabalho apresentado. Observei os cinco primeiros temas e confesso que gostei do que ali é tratado. Boa matéria, esclarecedora e útil para reflexão. Deus abençoe o caro Professor no desenvolvimento de mais temas importantes. Abraço de Constantino Ferreira

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