segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Experiência Radical, estudos no Sermão do Monte / Radical Experience / La experiencia radical - estudios en el Sermón de la Montaña

O Sermão do Monte não é um conjunto de regras morais para uma sociedade corrompida. Aliás, Jesus nunca esteve preocupado em corrigir os problemas morais da sociedade ou estabelecer preceitos legalistas. Ao contrário, o Sermão do Monte é um antídoto contra o moralismo e o legalismo.
Isso tem a ver com uma preocupação ética, que começa com a questão da nossa identidade. Jesus chamou pessoas para viverem uma vida nova e cheia de realização pessoal. O problema é que o critério de suscesso e de realização pessoal desenvolvido pela humanidade é completamente oposto ao que Jesus veio ensinar.
A um mundo que se acostumou às mensagens de sucesso e autoconhecimento e que anseia pela felicidade, o Sermão do Monte tem duas coisas a dizer:
a) O reino de Deus não está aberto aos valores e marcas de sucesso que o mundo tem concebido.
b) Deus chama a toda pessoa para que abra mão de seus valores e marcas de qualidade para que experimentem o que Ele tem de melhor: menos é mais para Deus.
A grande questão que está no ar é: como experimentar o melhor da vida? Todos nós estamos preocupados em aproveitar bem as oportunidades e desfrutar o melhor que se tem para uma vida feliz, para a realização pessoal, para se alcançar o sucesso. Um dos modos como as pessoas têm para levar a efeito esse ideal são os esportes radicais. Eles são grandes representações da aventura de experimentar o melhor da vida, em termos de liberdade, superação e espírito de aventura. Afinal, viver é isso: uma grande aventura que envolve muitos riscos. Jesus Cristo, quando convidou seus discípulos para a grande aventura de uma caminhada com ele, pensou da mesma forma. Por isso que, em um de seus primeiros ensinos, apresentou as idéias que estão contidas no sermão do monte.
Quando Jesus convidou seus discípulos para segui-lo, ele não queria que isso se transformasse numa experiência corriqueira, comum. Ao contrário, ele queria que os seus seguidores tivessem uma experiência radical e trouxessem isso para o seu cotidiano.
Ele começa falando da alegria de poder tomar parte de um novo projeto de vida. As bem-aventuranças não tratam de tipos diferentes de pessoas, mas é uma abordagem sobre a condição para a nova vida, que dependem de nossas escolhas. São as marcas de qualidade das pessoa que vivem no Reino de Deus.
A palavra bem-aventurado em grego é makarioi, que tem a ver com o sentido de realização pessoal, um sentimento que vem de dentro de cada um de nós. Não é somente ser bem-sucedido ou chegar ao topo, mas é ser feliz apesar das circunstâncias. É uma tradução da palavra hebraica ashrei, que é um chamado para seguir adiante, para marchar, até alcançar o alvo para o qual somos chamados.
O sentido de felicidade, portanto, não tem nada a ver com um sentimento de felicidade, mas com a dinâmica da vida na caminhada em direção ao alcance dos propósitos divinos para a nossa vida. As bem-aventuranças descrevem a alegria que há no íntimo daquele que assume uma caminhada com Deus.
Ao longo do Sermão do Monte, Jesus estabelece uma série de orientações a fim de conduzir a que cada um descobrisse quem é. Ele começa dizendo: você é sal e luz do mundo. Jesus também queria que seus discípulos colocassem ordem em sua vida a partir de um novo modo de entender a lei. Jesus queria conduzi-los a uma experiência mais profunda com Deus, a fim de que eles alcançassem lugares mais altos. Jesus queria que eles tivessem a certeza que, mesmo nas horas mais adversas, diante dos mais sérios riscos, eles não estariam sozinhos. Mas para isso, Jesus queria que eles fizessem uma escolha, ainda que lhes parecesse um caminho estreito: a escolha de construir a vida a partir de Jesus como a rocha.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Espiritualidade e modernidade líquida / Spirituality and liquid modernity / La espiritualidad y la modernidad líquida

Para Zygmunt Bauman, houve um profundo processo de mudança que permitiu que tudo o que era seguro no discurso da modernidade deixou de existir para dar lugar ao que chamou de modernidade líquida. Aquela modernidade sólida teve início com as transformações operadas pelo pensamento racionalista clássico, que fez emergir um conjunto estável de valores e modos de vida cultural, político e religioso. Na modernidade líquida, entretanto, tem lugar a fragmentação, tudo torna-se volátil, as relações humanas não são mais tangíveis e a vida em comunidade, em família, o relacionamento dos casais, de grupos de amigos, de afinidades políticas e até de sentimento de fé, entre outros, perde consistência e estabilidade.
Esse modo de pensar percebido por Bauman não é exatamente novo. Ele já havia sido, de algum modo, apresentado por Karl Marx quando de seu Manifesto comunista, uma vez que aponta para a ação do éter das revoluções modernas que desmancha tudo que é sólido. Ele almejava, juntamente com Engels, que a sociedade moderna, que se encontrava estagnada e resistente, se dissolvesse para dar lugar a uma nova ordem. Isso era o mesmo que dizer que deveria se dar lugar a um cenário marcado pela profanação do sagrado, pelo repúdio e destronamento do passado, da tradição, de toda forma de crenças. Os primeiros sólidos a serem derretidos seriam as lealdades tradicionais, os direitos e obrigações que atavam pés e mãos que impossibilitavam os movimentos e iniciativas. Com isso, haveria lugar para uma progressiva prática de liberdade que envolveria a vida econômica, com mudanças radicais nas tradições culturais, éticas e políticas.
A diferença entre Marx e Bauman, no entanto, é que o segundo já elabora uma reflexão no contexto da pós-modernidade cuja característica principal é a dificuldade que se tem de fazer planos futuros para qualquer modo estável de sociedade. Toda a concepção do pensamento moderno estava baseada nos limites da razão em relação ao espaço e o tempo.
Em sua crítica aos princípios da modernidade, Marx acreditava que o seu comunismo se tornaria um modo social de vida integrado e harmônico. Nietzsche também direcionou sua crítica à modernidade para a superficialidade da sua cultura e ao apego de artistas e intelectuais modernistas nos aspectos de efeito da obra de arte e da obra de pensamento de modo geral. Entretanto, o que se vê é que todos os referenciais se diluíram. Por isso que Bauman faz uso da metáfora dos líquidos e gases para representar a fluidez de nosso tempo exatamente porque esses elementos não se fixam no espaço nem se prendem ao tempo.
As novas esferas de relacionamento são marcados pela fluidez, maleabilidade, flexibilidade e a capacidade de moldar-se a uma determinada situação. A metáfora do estado liquefeito denuncia que vivemos em um tempo de transformações sociais aceleradas, marcado pela dissolução dos laços afetivos e sociais, pelo desapego e pelo transitório. Uma falsa sensação de liberdade que traz consigo um processo de individualização marcado pelo desprendimento das redes de pertencimento social. A cultura do Eu se sobrepõe à cultura do Nós. Os frágeis laços que unem os indivíduos podem ser desfeitos diante de qualquer coisa que desagrade. Essa sensação de leveza e falta de compromisso é associada à sensação de liberdade individual.
O que a modernidade liquida esconde é que essa pseudo-liberdade é acompanhada de novas patologias que afetam o indivíduo e a sociedade. As pessoas se queixam de solidão, desamparo, isolamento, depressão. A sociedade sofre com exclusões de toda ordem como sintoma de uma perversa sensação de liberdade e desterritorialização, por ser pobre, feio, gordo, evangélico, imigrante, homessexual, negro, estrangeiro. Para os excluídos, os laços sociais são marcados por um crescente processo de tribalização, pela cultura do gueto.
Para Bauman a maior dificuldade é que faltam os referenciais, “não há mais grandes líderes para lhe dizer o que fazer e para aliviá-lo da responsabilidade pela consequência de seus atos; no mundo dos indivíduos há apenas outros indivíduos cujo exemplo seguir na condução das tarefas da própria vida, assumindo toda a responsabilidade pelas consequências de ter investido a confiança nesse e não em qualquer outro exemplo.”

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