sábado, 14 de outubro de 2017

Sacerdócio universal dos crentes / Universal Priesthood of Believers / Sacerdocio universal de los creyentes

Mas vós sereis chamados sacerdotes do Senhor, e vos chamarão ministros de nosso Deus [...]” (Isaías 61.6).
O sacerdócio universal de todos os crentes é um dos mais caros princípios da Reforma Protestante. É uma espécie de confrontação com a divisão que o cristianismo ocidental havia construído na Idade Média de separação entre clérigos e leigos no interior da igreja.
Esse princípio se baseia na descoberta de que a Bíblia apresenta Jesus como o grande sacerdote, o único mediador entre Deus e os homens. E a mesma Bíblia também diz que todos aqueles que seguem a Jesus em fé e praticam seus ensinos partilham do seu sacerdócio. A Bíblia diz: Mas vós sois [...] o sacerdócio real (1 Pedro 2.9) e e nos fez reino, sacerdotes para Deus(Apocalipse 1.6).
O Novo Testamento não fala de uma ordem sacerdotal para a igreja. Ela ficou restrita ao templo judaico. O clericalismo é um dos maiores equívocos desenvolvidos pela cristandade. Foi Tertuliano, no final do século II, que se referiu aos líderes da igreja pela primeira vez como “sacerdotes”. Eram eles que tinham o dever de ofício de ministrar a eucaristia como um sacrifício.
Ao analisar as implicações da justificação pela fé e a graça salvadora, Lutero aprofundou sua compreensão de que a salvação não é um mérito humano, mas um dom divino a todo aquele que acolhe a obra de Cristo consumada na cruz. Essa graça é libertadora de todo pecado, do medo da morte e da condenação eterna, como também expressa a justiça divina sobre toda a criação. Isso confere uma condição de plena liberdade ao que crê.
Numa obra de 1520, intitulada A liberdade do cristão, Lutero afirmou que “somos sacerdotes; isto é muito mais que ser reis, porque o sacerdócio nos torna dignos de aparecer diante de Deus e rogar pelos outros”. E disse mais: “Tu perguntas: ‘Que diferença haveria entre os sacerdotes e os leigos na cristandade, se todos são sacerdotes?’ A resposta é: as palavras ‘sacerdote’, ‘cura’, ‘religioso’ e outras semelhantes foram injustamente retiradas do meio do povo comum, passando a ser usadas por um pequeno número de pessoas denominadas agora ‘clero.’ A Escritura Sagrada distingue apenas entre os doutos e os consagrados, chamando-os de ministros, servos e administradores, que devem pregar aos outros a Cristo, a fé e a liberdade cristã. Já que, embora sejamos todos igualmente sacerdotes, nem todos podem servir, administrar e pregar.”
Embora seja uma ideia revolucionária para o seu tempo (o século XVI), o princípio do sacerdócio universal traz em si algumas implicações que precisam ser levadas em consideração hoje. Alguns o veem como a base do individualismo evangélico e outros o consideram como uma expressão da ideia da autonomia do sujeito trazida pela racionalidade moderna, já presente no pensamento da Reforma Protestante. Mas há algo mais.
Primeiramente, o fato de que os cristãos em geral são sacerdotes se constitui em um privilégio, e não uma exclusividade. Por sermos sacerdotes, temos acesso a Deus com liberdade, mas isso não nos faz melhores ou piores do que as demais pessoas. Isso deve despertar em nós ma espiritualidade mais humanizadora.
Em segundo lugar, o sacerdócio universal tem uma dimensão comunitária. Não somos sacerdotes de nós mesmos. Somos sacerdotes uns dos outros. Ninguém pode ser cristão sozinho. Formamos a communio sanctorum – a comunhão dos santos. A Bíblia nos ensina que o Espírito Santo capacita a todos com dons a fim de que possam ministrar uns aos outros a graça recebida.
Em terceiro lugar, todos os crentes – inclusive pastores e ministros – são leigos. A palavra não se refere a uma pessoa indouta ou desconhecedora. Ela deriva do grego laós, que quer dizer povo. Somos todos participantes do povo de Deus. E, mais do que isso, acolhidos como filhos do mesmo pai. Isso não impede que haja liderança e liderados, apenas lembra que o papel do líder é servir aos demais.
Toda vez que algum líder religioso se arvora com uma autoridade sobre os demais seguidores da fé, o princípio do sacerdócio universal é vilipendiado. O Senhor não colocou na igreja uns com poderes superiores a outros, nem mesmo uns com autoridade sobre os demais. Antes, a vida de fé deve ser desfrutada de forma harmoniosa entre todos aqueles que comungam da mesma graça.

domingo, 8 de outubro de 2017

Sentidos da graça / Senses of grace / Sentidos de la gracia

Porque a graça de Deus se manifestou salvadora a todos os homens” (Tito 2.11). 
A palavra graça possui uma pluralidade de sentidos. Ela nos remete a um universo de significados que envolve toda a nossa compreensão da realidade que nos cerca, desde a maneira como nos relacionamos com o sagrado até nossas relações com o que menos gostamos.
A maneira como nós a empregamos na língua portuguesa vem do latim gratia, que nos remete a uma atitude de reconhecimento das qualidades do outro, que nos desperta gratidão e apreço. Mas ela também está presente na língua grega, como Charis, que eram as deusas mitológicas do banquete, do encanto, da sorte e da prosperidade. Eram dotadas de beleza e simbolizavam a harmonia e a alegria. Na literatura grega e na arte ocidental em geral, elas sempre foram representadas por três jovens que dançam nuas entre si.
A palavra também está presente no hebraico, tanto como chen quanto hesed. A primeira lembra o transbordamento da bondade divina apesar do pecado humano. Deus abomina o pecado, porém a sua bondade ainda é maior. A primeira vez que ela aparece na Bíblia é em Gênesis 6.8, traduzida muitas vezes como benevolência: A Noé, porém, o Senhor mostrou benevolência. Tem o sentido de curvar-se, o ato de alguém maior ser capaz de se aproximar de alguém menor. A segunda é traduzida costumeiramente como misericórdia, resultado de um sentimento de amor e de fidelidade de Deus para com sua criação.
No uso cotidiano, graça aparece em várias situações:
- como um favor: “por graça”;
- como um ato de bondade: “agiu com graça”;
- como simpatia: “caiu na graça, foi agradável”;
- como elegância: “cheia de graça”;
- como uma qualidade de vida: “estava em estado de graça”;
- como bom humor: “fazer graça”;
- como uma recompensa: “gratificar”;
- como gratidão: “deu graças”;
- como louvor: “rendeu graças”;
- como identidade: “qual é sua graça”;
- como descoberta: “deu o ar da graça”;
- como expressão de poder: “dispensou sua graça”;
- como perdão: “recebeu o indulto”.
Em Filosofia, Agostinho afirma que a graça é o meio pelo qual podemos exercer a nossa liberdade para a escolha do bem. Para ele, o homem não pode conhecer nada sem o auxílio da graça divina. Tomás de Aquino, que escreveu um tratado sobre a graça, disse que ela consiste em um motor para alma, como um princípio para as ações de bondade, que se expressa como uma participação na natureza divina. A graça também foi entendida como uma espécie de beleza, uma concepção estética da relação entre liberdade e necessidade. Friedrich Schiller, no final do século XVIII, a chamou de beleza em movimento, pois é resultante da liberdade. Ela deixa transparecer o caráter moral do homem.
Na Bíblia, a graça é um dom e promove dons. Ela tanto é um presente que Deus nos concede como é também uma capacitação para que possamos partilhar uns com os outros seu amor, bondade e misericórdia. A graça se realiza entre nós como charismata, mais conhecida como dons espirituais. Pedro aconselha a que administremos a graça em seus aspectos multiformes: Cada um exerça o dom que recebeu para servir aos outros, administrando fielmente a graça de Deus em suas múltiplas formas” (1 Pedro 4.10). A expressão “múltiplas formas” se refere ao universo de cores que existe na natureza. A ideia é de que há uma variedade de possibilidades de agirmos com graça e por graça uns com os outros. Isso nos lembra que Deus ama a diversidade.
Na Teologia, a graça está relacionada à ação divina, ao modo como Deus se manifesta na história e age para poder atrair para si a humanidade perdida. A maior expressão da graça é a revelação de Deus em Cristo. A maneira como Jesus veio ao mundo, viveu, ensinou, se relacionou com pessoas, morreu, foi ressuscitado e recebido na glória é o discurso mais eloquente da graça divina. Para ter acesso à graça divina, nenhuma de nossas obras  sejam elas caridosas ou religiosas – é suficiente. Temos acesso a ela somente pela fé. Essa graça divina é salvadora porque restaura o homem de sua própria perdição. Ela é também libertadora, porque livra o homem da ilusão de ter todo o poder para dar conta de si.
Pensando nisso, Paulo disse certa vez: Mas, pela graça de Deus, sou o que sou, e sua graça para comigo não foi em vão; antes, trabalhei mais do que todos eles; contudo, não eu, mas a graça de Deus comigo” (1 Coríntios 15.10).

domingo, 1 de outubro de 2017

O legado da Reforma Protestante para hoje / The Legacy of the Protestant Reform for Today / El legado de la Reforma Protestante para hoy

A Reforma Protestante foi um movimento de renovação da igreja cristã que aconteceu no século XVI. A data do marco histórico é 31 de outubro de 1517, ocasião em que o frade agostiniano Martinho Lutero afixou suas 95 teses na porta da capela do castelo de Wittemberg, na Alemanha.
A igreja no Ocidente já vinha enfrentando problemas internos desde o século XIII, com cismas políticos, corrupção do clero e a implantação da Inquisição para conter os dissidentes. Entretanto, as causas da Reforma vão além das crises internas, abrangendo as esferas política e econômica. A Europa experimentava o surgimento dos Estados Nacionais e o fortalecimento do poder monárquico, bem como um novo regime econômico ganha força, que lançavam as bases do capitalismo.
O termo protestante surgiu com um sentido mais pejorativo, para designar a atitude dos governantes que apoiavam o movimento de Lutero. Eles lançaram um protesto de maneira formal a respeito de um edital de Roma, em 1529, que proibia o ensino das ideias reformistas luteranas nas localidades do Sacro Império Romano-Germânico. O protestantismo foi largamente difundido na Alemanha, mas também na Suécia, Dinamarca, Noruega e Islândia.
Podemos falar de uma diversidade de movimentos que envolveram a Reforma Protestante. Além do luteranismo, houve outro reformador que influenciou o protestantismo na Suiça e no sul da Alemanha: Ulrico Zwinglio. Seu movimento é conhecido como “Segunda Reforma”. Houve também o que chamamos de “Reforma Radical”, ou “Terceira Reforma”, marcada pela atuação dos grupos anabatistas. Houve também a atuação de João Calvino, que, a partir de Genebra, influenciou o protestantismo com uma teologia mais consistente. Houve ainda a Reforma na Inglaterra, que desencadeou novos movimentos, como o anglicanismo e os grupos separatistas, resultando em algumas denominações históricas como conhecemos hoje: o presbiterianismo, o metodismo, o congregacionalismo e as igrejas batistas.
Os problemas que motivaram a Reforma Protestante são diferentes dos que orientam o protestantismo de hoje. As preocupações que envolviam as pessoas no século XVI estavam voltadas para critérios de certeza. Elas estavam preocupadas com a busca da verdade, do absoluto e da eternidade. As discussões giravam em torno de temas como provas da existência de Deus, relação entre fé e razão e a existência do céu e do inferno. De fato, os protestantes não queriam inovar, mas restaurar valores e conhecimentos do cristianismo primitivo.
O ponto de partida foi a rejeição à prática da venda de indulgências, com a consequente defesa da justificação pela fé. Nesse esforço de reformar a igreja, eles enfatizavam a soberania da graça, o valor da fé, a autoridade das Escrituras, o senhorio de Jesus Cristo e o propósito de se fazer tudo para o louvor e a glória de Deus. Daí os cinco princípios protestantes expressos em latim: Sola Fide, Sola Gratia, Sola Scriptura, Solus Christus e Soli Deo Gloria (que corresponde a somente pela fé, somente pela graça, somete através da Escritura, somente por Cristo e somente para a glória de Deus.
O que esses princípios têm a ver com a expressão de fé dos grupos herdeiros da Reforma Protestante hoje? É possível orientar a vida pelos mesmos princípios hoje? Embora tenham acontecido grandes transformações sociais, políticas, econômicas e até tecnológicas, a preocupação com aspectos ligados à vida de fé e aquilo que consiste na essência do próprio cristianismo continua sendo uma necessidade.
Nossos compromissos com os valores cristãos, nossa experiência de conhecimento e de relacionamento, bem como nossos vínculos com a comunidade da fé continuam clamando por uma reforma ou atualização constante. Refletir sobre o que significa ser cristão hoje ou sobre como viver a fé cristã num contexto não cristã é uma demanda de nossos dias. O futuro do cristianismo passa por essa reflexão necessária.

sábado, 16 de setembro de 2017

Deus absconditus / God hiding / Dios oculto

O horror da guerra, dos atentados terroristas, do drama dos refugiados e das vítimas da violência, da exploração e da desigualdade social remete à pergunta: será que Deus está indiferente ao que acontece com o mundo?
Reconhecer a presença de Deus entre nós é uma necessidade, mas ao mesmo tempo uma ousadia. Foi o que certa vez Karl Barth, em sua obra Das Wort Gottes als Aufgabe der Theologie, reconheceu: “nós, como teólogos, devemos falar de Deus. Nós, porém, somos seres humanos e, como tais, não podemos falar de Deus. Nós devemos, todavia, estar cientes de ambos, nosso dever e o nosso não-poder e, mesmo assim, dar glória a Deus”.
É uma necessidade, pois a primeira pergunta na hora da dor e da aflição é: “onde está Deus?” Mas é uma ousadia quando descobrimos que a presença divina não se reduz e nem se limita à percepção humana. Ela só pode ser tratada como um rumor que aponta para nosso desejo pelo desconhecido e o imponderável, para a nossa abertura ao que está além de nós, para aquilo que desperta a nossa esperança. Como pensar em um ser perfeito, sendo pessoas tão pecadoras? Como acreditar que Deus se importa com nossa dor, sendo pessoas tão indiferentes à dor do outro? Como reconhecer sua presença sendo tão limitados e mortais?
“A Deus há que invocá-lo antes de pensar sobre ele, falar com ele antes de aproximar-se dele”, disse Olegario Gonzalez de Cardedal em sua obra Dios. Todas as tentativas de provar sua existência foram sempre ligadas à experiência subjetiva de encontro, de sede, de busca e até de ausência. Pelo fato de não se submeter a uma experiência objetiva de análise, Deus só pode ser reconhecido ou desprezado, desejado ou rejeitado, digno de confiança ou ignorado.
Em sua teologia, Lutero desenvolveu o conceito de “Deus absconditus”, que se opõe à noção de “Deus revelatus” desenvolvido no pensamento escolástico. Esse conceito novo corresponde ao fato de que Deus não se revelou completamente em sua essência a nós, mas permanece de forma oculta e incompreensível ao homem. Só é possível conhecer Deus a partir de uma relação.
O Deus absconditus é aquele que se oculta, mas que ao mesmo tempo se desvela ao homem em meio às condições concretas de sua história. A maior dessas revelações foi a cruz, em que Ele se mostrou em meio à fraqueza, ao sofrimento e à humilhação daquele que fora encarnado, crucificado e ressuscitado. Em Cristo, Deus revelou-se completamente de modo que possamos compreender e perceber sua presença entre nós. Não é à toa que a Bíblia o chama de Emanuel, o Deus conosco.
Lutero queria que a fé cristã deixasse um pouco a preocupação com o além e se voltasse mais para a as condições em que a vida acontece. Ele queria que a teologia e a religião cristãs deixassem de lado uma teologia da gloria para se voltar para uma teologia da cruz. Esse é o grito de Jesus na cruz: “Por volta das três horas da tarde, Jesus bradou em alta voz: ‘Eloí, Eloí, lamá sabactâni?’ que significa: ‘Meu Deus! Meu Deus! Por que me abandonaste?’” (Marcos 15.34).
Deus só pode agir se escondendo. Caso contrário, não seríamos livres para fazer escolha de crer nele ou não, de confiar nele ou não, de acolher seu amor ou não. E a cruz é o retrato dessa escolha livre. Ela nos envergonha porque representa a nossa rejeição à revelação do amor de Deus por nós.
Ao olhar para a história da crucificação, dificilmente alguém que andou e viveu com Jesus aceitou sua morte na cruz como resultado da revelação divina ou que Deus havia enviado seu filho unigênito para morrer de forma tão cruel numa cruz. Principalmente após a ressurreição, os discípulos de Jesus demonstraram uma compreensão equivocada e limitada dos propósitos de Deus em relação à redenção humana, que eles eram participantes de um momento histórico único dentro do contexto dos propósitos eternos de salvar a humanidade perdida.
Foi preciso que Jesus se mostrasse de forma especial a eles. A maneira como Jesus se apresentou aos seus discípulos nos ensina como também podemos encontra-lo hoje, de uma tão forma improvável e nem tão óbvia como muitas vezes o discurso religioso tenta nos passar.
Nos relatos das experiências de encontro após a ressurreição, o que se destaca não é o fato de que os discípulos procurassem a Jesus, mas que Ele os busca e vai até o encontro deles. Aos discípulos, cabia-lhes ouvir sua voz, identificá-lo em meio a sua angústia, sofrimento e dor e acolhê-lo amorosamente. Somente após o encontro é que foi possível falar de quem ele é, o que ele diz e o que ele faz.

domingo, 13 de agosto de 2017

Pai Nosso / Our Father / Padre Nuestro

“Portanto, vós orareis assim: Pai nosso, que estás nos céus, santificado seja o teu nome.” Mateus 6.9. 
Quando Jesus ensinou seus discípulos a orar, ele pediu que se dirigissem a Deus como o “Pai Nosso”. São duas palavras carregadas de significado. Lembra que Ele é um pai que acolhe a todos, mas que também trata a todos como se fossem nossos irmãos. A expressão “Pai Nosso” nos remete a um sentido de pertença a uma grande família em que todos têm espaço.
Portanto, quando você ora “Pai nosso, que estás no céu”, deve estar aberto a acolher a todos como irmãos e a compreender a humanidade como família. Embora tenhamos muitas diferenças, estamos todos ligados por um mesmo sentimento, que é o do cuidado amoroso de um pai que é tão próximo, que se permite ser chamado de meu, mas que também muitas vezes se coloca tão distante, pois também está no céu, o lugar onde quer que todos estejamos.
Um pai assim não passa despercebido. Sua presença é significativa, mas da mesma forma o é a sua ausência. Por isso, Ele é especial. Nossa relação com Ele é marcada por diversos aspectos que estão mais voltados para o campo do numinoso do que do fenômeno. Dito de outro modo, não dá para ser percebido ou explicado pela razão, mas é aquela coisa que está tão presente que não podemos simplesmente ignorar. Ele é da ordem do sagrado, é o inefável que se fez gente, que andou entre nós cheio de graça e de verdade.
Desse modo, você não pode dizer “santificado seja o teu nome” e continuar vivendo, agindo e fazendo escolhas como se ele não existisse. Se Deus é um pai que se importa com seus filhos, imagino que ele queira que seus filhos se importem uns com os outros. Viver como se Deus não existisse é sinal de indiferença. E a pior forma de fazermos isso é sendo indiferentes com aqueles a quem Deus trata como nossos irmãos. Se não conseguimos nos importar com aquele que a gente vê, como vamos nos importar com aquele que não vemos?
Max Lucado, em A Grande Casa de Deus, reconhece que “as duas primeiras palavras da oração do Senhor são plenas de significado: ‘Pai nosso’ lembra-nos que somos bem-vindos à Casa de Deus porque fomos adotados pelo dono”. Somos filhos do pai de todos, que é dono de tudo.
Com o “Pai Nosso”, Jesus identifica quem Deus é. Ele é Pai, pois tem em si mesmo o sentido de próximo e de distante, tanto é nosso quanto está no céu. Ele é santo, pois tem em si a dimensão do sagrado, mas que escolhe tomar forma e ser como um de nós. Ele tem um nome, por isso tem em si mesmo a condição de ser conhecido, ao mesmo tempo em que não é.
Por nós mesmos, não teríamos condições de chamar Deus de Pai Nosso. Uma parte significativa da humanidade age como se Deus fosse um pai rico, interessada em seus bens, mas sem conhecer os seus sentimentos. Outra parte age como se não houvesse um pai, como se tudo fosse obra do acaso. E tem até aqueles que declaram que há um pai e que pertencem a ele como filhos, mas que excluem os muitos outros irmãos a condições de desamparo. Enfrentamos constantemente o grande desafio de clamar pelo pai em meio a uma sociedade sem pai.

sábado, 5 de agosto de 2017

Competência para viver / Life Skills / Competencia para la vida

Todos nós temos características pessoais que não só nos identificam como também nos ajudam a nos realizarmos dentro de um contexto social.
Algumas dessas características nasceram conosco, outras foram herdadas de nossos pais e outras foram adquiridas ao longo de nossa vivência. A soma dessas características é que forma a nossa personalidade.
Para enfrentarmos as diversas circunstâncias da vida, lançamos mão de diversos recursos, muitas vezes de forma criativa e inovadora, levando em consideração as necessidades do momento.
Veja, por exemplo, uma pessoa que resolve aprender a dirigir. Ela começa com operações básicas e, gradativamente, adquire determinados hábitos e procedimentos que serão aplicados em situações mais complexas no trânsito. Ela, então, terá desenvolvido esquemas que serão úteis para serem usados em ações diante de situações diversas, que necessariamente não serão idênticas entre si, mas receberão adaptações e ajustes que ocorrerão de uma forma quase que automática.
O mesmo ocorre em todos os aspectos da vida. Enfrentamos sempre situações novas que exigem de nós fazer escolhas que podem implicar se ganhamos ou perdemos, superamos ou fracassamos, melhoramos ou pioramos, vivemos ou morremos.
A vida requer de nós um conjunto de competências e habilidades que nos ajudam a nos tornarmos pessoas bem-sucedidas nas coisas que fazemos. Competências e habilidades são conceitos bastante usados no mundo corporativo, principalmente nas orientações sobre liderança, carreira, vocação e ensino.
Competência é a administração, de forma integrada e coordenada, de um conjunto de conhecimentos para se chegar a um determinado fim. A competência envolve um complexo esquema de percepções, pensamento, atitudes e até de autoavaliação.
Num documento de 2012, intitulado Competências para a vida e destinado a adolescentes, o Unicef apresentou alguns conceitos sobre as competências necessárias para uma vida mais digna. Primeiramente, uma vida realizada e bem-sucedida não acontece por acaso. Ela é uma conquista que exige muito esforço e a cooperação de muita gente. Além disso, a aquisição de competências para viver na sociedade atual é um fator crucial para viver bem e para construir relações. As competências para viver aumentam nossa criatividade, aperfeiçoam nossos talentos e nos ajudam na aquisição de novos conhecimentos.
A lista de competências é um processo em aberto. É preciso desenvolver a compreensão de que a aprendizagem bem como a aquisição de competências para a vida correspondem a um processo que dura a vida toda. Por essa razão, a Unesco apresentou os quatro pilares para a educação no século XXI: aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a conviver e aprender a ser. E são eles que dão base para a formação de projetos voltados para a qualidade de vida. Pensando nisso, veja algumas das competências que julgo serem necessárias para a vida:
a) Manejar bem as emoções de forma que nos tornemos mais flexíveis e abertos ao novo.
b) Tomar decisões certas pelas razões certas a fim de que alcancemos a excelência.
c) Colocar-se no lugar do outro.
d) Organize suas ideias para que possa comunica-las com clareza.
e) Desenvolver pensamento crítico, percebendo os aspectos éticos e políticos implicados em cada situação.
f) Conhecer a si.
Já as habilidades são a capacidade de transformar um conhecimento em ação. Têm a ver com o saber fazer. A Divisão de Saúde Mental da Organização Mundial de Saúde elaborou, desde 1993, um conjunto de dez habilidades para lidar com situações de nosso cotidiano. O objetivo é preparar as pessoas para a vida. Já existem inclusive programas educacionais voltados para a formação das pessoas para a vida social e para a realização pessoal. São elas.
a) Autoconhecimento.
b) Relacionamento interpessoal.
c) Empatia.
d) Lidar com os sentimentos.
e) Lidar com o estresse.
f) Comunicação eficaz.
g) Pensamento crítico.
h) Pensamento criativo.
i) Tomada de decisão.
j) Resolução de problemas.
“É preciso saber viver”, diz a canção popular de Roberto Carlos e gravada recentemente pelos Titãs. Os gregos antigos ensinavam que precisamos fazer da vida uma obra de arte. A Bíblia também nos ensina a lidar com os aspectos da vida com sabedoria. As circunstâncias da vida, dolorosas ou não, têm o poder de endurecer o nosso coração ou de nos tornar sábios. O fato é que mesmo o sofrimento ou o sucesso nos aperfeiçoam.

domingo, 11 de junho de 2017

Pastor

Para que servem os pastores e as pastoras? Teoricamente, para nada. Seja como gestor, conselheiro, orador, educador, agente social ou teórico, sempre há quem faça melhor. Há quem diga que pastores são um pouco de cada um desses profissionais, mas sempre soube que, em tem tempo de máxima especialização, aquele que sabe de tudo um pouco acaba não produzindo.
Sinceramente, não sei onde Jesus estava com a cabeça quando comparou a atividade de quem cuida de seus seguidores aos trabalhadores que apascentavam rebanhos. Talvez porque também utilizou a metáfora das ovelhas para se referir àqueles que o seguem. Ou talvez por não ter na época um conjunto tão grande de especialidades que abrangesse a dimensão pastoral. Ele só podia estar com a cabeça no céu.
Tenho para mim que a razão esteja mais voltada para a dimensão da ação pastoral com o cuidado com aqueles que estão a caminho. A palavra vem do grego poimen, que designava o apascentador de rebanhos. Sua tarefa seria de conduzir o rebanho até os pastos, ficar atento aos ataques dos inimigos contra as ovelhas, cuidar das que estiverem feridas, mantê-las reunidas em grupo e recolhê-las ao aprisco para o descanso. Ele teria que fazer isso todo dia ininterruptamente. Por causa do seu envolvimento direto com a ovelha, chegava a ter o cheiro delas. Por isso, era considerada uma atividade imunda.
Pastores não são forjados em uma escola, nem se tornam mais hábeis pela experiência. São pessoas comuns que recebem um chamado para servirem àqueles que querem seguir Jesus. Já por aí são diferentes, por serem sensíveis à uma voz que vem de fora e clama por uma decisão interior de orientar a vida inteira para cuidar de gente. Se espelham na pessoa de Jesus, aquele único que se apresentou como o Bom Pastor.
Pastores cuidam de pessoas que querem seguir Jesus. Como conselheiro, psicólogos fariam melhor. Porém, como pessoas que escutam as dores e angústias do outro para servirem como intercessores diante de Deus. Somente alguém com o coração sensível ao outro como Jesus o fez é capaz
Pastores cuidam de igreja. Como administradores, gerentes fariam melhor. Porém, como quem conhece a perspectiva do Reino de Deus e está comprometido com o projeto de Deus de formar em Cristo uma nova humanidade, age mais com o coração do que com estratégias, orienta-se mais pela esperança do que pelas condições concretas, decide por fé e não por racionalidade.
Pastores constroem saberes sobre nossas relações com Deus. Como educadores e pensadores, pedagogos e teóricos fariam melhor. Porém, reconhecem a Bíblia como fonte primária do saber, que oferece a base para construir novos entendimentos. Para isso, ouvem as vozes dos sábios e entendidos e se debruçam sobre as Escrituras para encontrar a melhor forma de fazê-la entendida para as pessoas do seu tempo.
Alguns até tentam desenvolver uma performance profissional, outros também se negam a desenvolver habilidades e técnicas justificando sua incapacidade com uma falsa espiritualidade. Apesar disso tudo, pastores que se colocam como servos fazem falta.
Feliz Dia do Pastor!

segunda-feira, 22 de maio de 2017

Humanização / Humanization / Humanización

Quando Jesus atravessou o mar da Galileia de barco com seus discípulos e chegou à região de Gadara, deparou-se com um quadro grotesco: uma pessoa agressiva, violenta, seminua, imunda, com sinais pelo corpo de que havia sido preso por fortes grilhões, urrando e arremessando pedras contra quem se aproximasse. Não sei o que você faria se estivesse no barco com Jesus, mas eu logo remaria na direção contrária.
Essa narrativa encontra-se em Marcos 5.1-18. Uma coisa que escapa de nosso olhar é o fato de que ali estava um ser humano. Parece contraditório, mas mesmo as pessoas mais vis, violentas e que tenham praticado as coisas mais hediondas são seres humanos e, como tais, foram feitos à imagem e semelhança de Deus. Foi assim que Jesus viu aquele homem. E é assim que Jesus nos vê: como pessoas.
A cura do endemoninhado gadareno nos lembra o quanto Jesus está interessado em restaurar as relações que constituem a nossa humanização. Jesus reivindica, por amor, para si todo ser humano a fim de que viva a sua humanidade perante Deus sem precisar se envergonhar disso.
Quando falamos de nossa condição humana, isso comporta um problema: a rejeição do projeto de Deus através da ruptura de nossas relações fundamentais. É isso que constitui o que podemos chamar de situação de não salvação. A maldade está no fato de que rejeitamos o projeto de vida proposto por Deus desde a criação. É isso que a Bíblia chama de pecado.
Jesus veio nos libertar da opressão causada pela maldade. Ao fazer isso, ele viveu a nossa vida, enfrentou a nossa morte da forma mais cruel (a cruz), ressuscitou glorificado e hoje está vivo com o Pai. É isso que dá validade ao seu ensino e promessa: “Portanto, se o Filho os libertar, vocês de fato serão livres” (João 8.36).
A salvação é, portanto, a restauração das relações rompidas pelo pecado. O pecado é o estado em que nos encontramos por termos nos desviado dos propósitos de Deus. O sentido de estar perdido é porque estamos perdidos de nós mesmos.
Jesus é o Salvador porque viveu intensamente essas relações. Nele não se encontrou pecado. Diz a Bíblia: “Pois não temos um sumo sacerdote que não possa compadecer-se das nossas fraquezas, mas sim alguém que, como nós, passou por todo tipo de tentação, porém, sem pecado” (Hebreus 4.15).
Toda religião aponta para um tipo humano baseado em obrigações, mas Jesus valoriza a liberdade. Ele disse: “E conhecerão a verdade, e a verdade os libertará” (João 8.32). Jesus não está comprometido com ideais humanistas, mas está profundamente interessado em restaurar a humanidade toda. Por isso, ele reivindica a que a humanidade toda possa segui-lo com todas as implicações que isso envolve.
(Extraído do livro Elogio da Compaixão.  Imagem: Homem pensador, de Picasso).

domingo, 7 de maio de 2017

Famílias normais à luz da Bíblia / Ordinary families according to the Bible / Familias normales a luz de la Biblia

“Quem causa problemas à sua família herdará somente vento [...]” (Provérbios 11.29).
A alegria de se viver em família é um assunto que está intimamente relacionado com nossa espiritualidade. Por essa razão é que a igreja é a única instituição preocupada com a vida em família atualmente, assumindo um papel de protetora, de promotora e de acolhedora. De fato, a família tem passado por fortes e profundas transformações, contudo isso não quer dizer que ela tenha perdido o seu valor.
As regras morais que hoje são usadas para defender o ideal de uma família normal não são retiradas das Escrituras, mas de um tempo mais recente, conhecido como “era vitoriana”. Corresponde ao período em que a rainha Vitória reinou na Inglaterra, no meado do século XIX até o início do século XX. Foi um período de grande prosperidade econômica, em meio à Revolução Industrial, e de grandes transformações culturais nos modos de se pensar a vida cotidiana e do divertimento, como foi, por exemplo, a Belle Époque na França e o Gilded Age nos Estados Unidos.
A chamada era vitoriana foi marcada pelo fortalecimento da classe média, que almejava cultura e status. As classes mais elevadas ditavam os costumes que deveriam servir de modelo para as camadas mais inferiores. A vida social foi cercada de uma forte preocupação moral e por uma afirmação de padrões e valores rígidos para as relações entre pessoas, vestuários, etiquetas à mesa e interações. É dessa época também a afirmação de um modelo de família, cercado pelos conceitos engendrados dentro do movimento do puritanismo e da repressão sexual.
Na concepção vitoriana de família, o lar é tratado como um ambiente protegido, que deveria servir como base moral para a sociedade. Para tanto, era necessário protegê-lo dos ataques do pensamento mais liberal, bem como resguardá-lo para que fosse mantido um ar de equilíbrio e de harmonia. Nesse sentido, numa afirmação bem funcionalista, cabia à mulher o papel de guardiã da família e símbolo da moral de toda a sociedade. Recai sobre ela a responsabilidade de manter a reputação da família em meio ao convívio social. Para isso, deveria ser pura, delicada, submissa e bela.
Ao homem cabia o papel de provedor da casa, tanto no sentido financeiro como também na segurança da família. Sua vida deveria ser devotada ao trabalho, aos negócios e à vida pública, incluindo aí também a política. Era dele a iniciativa do cortejo e das carícias, que nunca deveriam acontecer em público. Os filhos, por sua vez, deveriam ser educados nos rígidos padrões morais da sociedade e cabia à família o papel de instruí-los em relações aos costumes. A infância era vista como uma fase em que se exigia a obediência aos pais. As crianças das famílias mais ricas eram educadas por criados e serviçais da família. Já naquelas que eram mais carentes, a criança deveria trabalhar desde cedo.
Como se pode notar, o modelo de família que costumamos chamar de normal nos dias atuais tem mais a ver com um padrão socialmente construído em um determinado momento da história, que está mais voltado a um outro contexto cultural que não o nosso. Não está relacionado com os modelos de família que se encontram na Bíblia.
Podemos afirmar que a Bíblia não está preocupada em apresentar um padrão de vida familiar nem de fazer com que os personagens bíblicos se tornem modelos ideais de conduta para as pessoas em todo o tempo. Na verdade, ela está interessada em apresentar situações de vida em família de forma real em que a gente se vê ali retratado.
Os relatos da Bíblia em relação à vida em família não são obras de ficção nem mesmo de idealizações produzidas a partir de um conceito fundador. São histórias de famílias atravessadas por situações de sucesso e fracasso, dor e alegria, conquistas e perdas, amor e traição que são encontrados em todo o tempo, inclusive entre nós.
De um modo geral, os estudos bíblicos tentam nos remeter à seguinte questão: como nossas famílias podem ser analisadas à luz das famílias da Bíblia? Porém, uma questão interessante a ser levantada é: como as famílias da Bíblia poderiam ser analisadas à luz da terapia familiar nos dias de hoje? A partir dessas análises, poderíamos encontrar muitas respostas para nossas inquietações diante dos dilemas vividos em família hoje, em vez de concentrarmos nossa atenção e energia para tentar implantar um tipo ideal que não se encaixa em nossas condições de vida atuais.
Compreender as famílias da Bíblia a partir de um olhar crítico possibilita uma reflexão mais ampla sobre os propósitos de Deus para a vida em família. Retira um pouco o nosso foco de um modelo exemplar ou de uma tipificação dos relacionamentos e nos apresenta a família como espaço de realização de nossa existência em todas as suas dimensões. Daí podemos compreender que, em meio às fragilidades inerentes à nossa condição humana, Deus pode – e quer – se revelar e realizar sua graça e compaixão. 
Podemos confiar que Deus quer abençoar nossas famílias. Uma família normal, dentro de uma perspectiva bíblica, não é aquela que tem papéis bem definidos em sua formação nem é a que segue um padrão ideal, mas é a que Deus tem espaço para realizar seus propósitos, em meio às nossas virtudes e fraquezas.

domingo, 30 de abril de 2017

Quem é você sem suas máscaras / Who are you without your masks? / ¿Quién es usted sin sus máscaras?

Não somos como Moisés, que colocava um véu sobre a face para que os israelitas não contemplassem o resplendor que se desvanecia.” 2 Coríntios 3.13
Uma das histórias mais curiosas da Bíblia a respeito de identidade é a de Moisés, homem que esteve face a face com Deus e o entendia por sua essência. Certa vez, depois de ter passado por uma das mais impressionantes experiências de encontro com Deus, sentiu a necessidade de representar simbolicamente o que sentia. Ele havia reconhecido o quanto Deus ama e o quanto estamos distantes de sua graça, ele havia percebido o quanto estamos equivocados em relação ao que diz respeito às relações com Deus e o quanto ele nos acolhe e perdoa.
Seu rosto resplandecia cada vez que entrava na presença de Deus, a partir de então. Logo em seguida, descia para falar com o povo. Quando acabava de falar, cobria o rosto e só voltava a descobri-lo quando entrava de novo na presença de Deus. Na verdade, Moisés sentiu a necessidade de cobrir o seu rosto para que encobrisse a glória que estava sumindo. Este fato é relatado em Êxodo 34.29-35.

Essa atitude de Moisés tem a ver com a maneira como lidamos com nossas aparências. A tentativa de mostrar o que não somos tem a ver com o uso que fazemos de máscaras. As máscaras escondem a nossa identidade e interferem em nossa maneira de ser.
Nossas máscaras não são meros disfarces. Elas encobrem o desejo humano de recuperar a integridade perdida. Todos nós fazemos uso de máscaras, muitas delas, uma para cada ocasião, e as substituímos o tempo todo com uma habilidade tremenda. Nietzsche afirmou que “todo espírito profundo necessita de uma máscara.”
[...]
Conhecer sobre isso é importante demais pois nos ajuda a crescer pessoalmente. A completa maturidade só é alcançada pelo pleno desenvolvimento da personalidade.
Somos habilidosos em usar máscaras e a lidar com sombras. Sem as máscaras, não nos reconhecemos. Com relação às sombras, enganamos a nós mesmos. É um jogo em que, quando somos confrontados, passamos por uma experiência dolorosa. É uma grande desilusão descobrir que passamos a vida inteira à margem de nós mesmos.
Por causa dessa nossa habilidade, temos a tendência de nos autoenganar e até de sabotar a maneira de lidar com nossa própria vida. Nossa natureza comporta uma condição tal que permite que surjam sentimentos bons e ruins em relação a todas as situações vividas pelo simples fato de sermos humanos.
É nessa perspectiva que Deus nos chama a um mergulho no ser a fim de que vivenciemos uma fé sincera. O apóstolo Paulo disse certa vez a seus discípulo Timóteo: “O objetivo desta instrução é o amor que procede de um coração puro, de uma boa consciência e de uma fé sincera.” 1 Timóteo 1.5.
(Extraído do e-book Quem é você? Quando nossa identidade é colocada em jogo. Disponível na Amazon e neste blog)

sábado, 15 de abril de 2017

Sete palavras da cruz / Seven words from the cross / Siete palabras de la cruz

Nenhum púlpito, tribuna ou cátedra foi tão eloquente como a cruz. A crucificação de Jesus foi um espetáculo público que envolveu todo tipo de espectadores: familiares, seguidores, executores, curiosos e até inimigos e algozes. O horror da cruz falava por si só.
Ali na cruz, Jesus assumiu sobre si o mistério de Deus para resgatar a humanidade. Ele exerceu na cruz o papel de um mestre em sua cátedra ao proclamar sete breves frases carregadas de amor. Elas são as últimas palavras de alguém que teve uma vida expressiva, ocupado com a dor de gente como a gente.
A primeira, uma palavra de perdão. “Jesus disse: ‘Pai, perdoa-lhes, pois não sabem o que estão fazendo’. Então eles dividiram as roupas dele, tirando sortes” (Lucas 23.34). Ela fala que somos acolhidos por Deus, não importa o tamanho de nossos pecados.
A segunda, uma palavra de esperança. Jesus lhe respondeu: ‘Eu lhe garanto: Hoje você estará comigo no paraíso’” (Lucas 23.43). Ela fala de que o melhor de Deus já está preparado para nós, mesmo que tudo pareça dar errado.
A terceira, uma palavra de compaixão. Quando Jesus viu sua mãe ali, e, perto dela, o discípulo a quem ele amava, disse à sua mãe: ‘Aí está o seu filho’, e ao discípulo: ‘Aí está a sua mãe’. Daquela hora em diante, o discípulo a levou para casa” (João 19.26,27). Ela fala nada foge ao olhar misericordioso de Deus, até nossos sentimentos mais íntimos.
A quarta, uma palavra de revelação. “Por volta das três horas da tarde, Jesus bradou em alta voz: ‘Eloí, Eloí, lamá sabactâni?’ que significa: ‘Meu Deus! Meu Deus! Por que me abandonaste?’” (Mateus 27.46). Ela fala que Jesus é o messias divino, o abandonado de Deus, que se esvazia a si mesmo para se revelar tão próximo.
A quinta, uma palavra de humanidade. Mais tarde, sabendo então que tudo estava concluído, para que a Escritura se cumprisse, Jesus disse: ‘Tenho sede’” (João 19.28). Ela fala que Jesus era gente como a gente, com necessidades e possibilidades humanas, a fim de que sejamos gente como ele foi.
A sexta, uma palavra de missão. Tendo-o provado, Jesus disse: ‘Está consumado!’ Com isso, curvou a cabeça e entregou o espírito” (João 19.30). Ela fala que Deus está em missão, realizando a obra da redenção, que Jesus cumpriu de forma cabal ao assumir nossa humanidade até a morte na cruz.
A sétima, uma palavra de entrega. Jesus bradou em alta voz: ‘Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito’. Tendo dito isso, expirou” (Lucas 23.46). Ela fala que a morte não é o fim, mas nela está o começo de uma nova vida, que já pode ser experimentada aqui como nova criatura que renasce com a entrega por fé da vida inteira a Jesus.

sexta-feira, 7 de abril de 2017

Por que ainda sou evangélico? / Why am I still an evangelical? / ¿Por qué sigo siendo evangélico?

Sou cristão, ligado à vertente protestante, filiado a uma igreja batista. Como tal, fui instruído com base em uma teologia reformada em um seminário confessional mantido pela denominação batista mais tradicional. Isso me identifica como uma pessoa de confissão evangélica. Porém, essa afirmação não é suficiente para descrever a minha condição de religiosidade.
O que é ser evangélico? Essencialmente, deveria corresponder a uma pessoa que orienta sua vida, suas práticas, seu discurso, suas relações e suas esperanças pelo evangelho. A palavra “evangelho” vem do termo grego que corresponde a “boa notícia”, aquela que é alvissareira, que aponta um olhar para o futuro. O evangélico deveria ser, então, alguém que anuncia uma notícia boa para um mundo cansado de notícias desalentadoras, que declara que há saída para um mundo perdido.
Mais recentemente, o termo “evangélico” passou a designar um tipo de religioso, que faz parte de um segmento do cristianismo originário do movimento protestante. Sendo assim, faz referência a um contexto que comporta uma diversidade de formas e expressões. Quando se fala de evangélico, deve se ter em mente a pluralidade que isso comporta. Entretanto, nota-se o crescimento de uma tendência de se rotular de evangélico todo cristão adepto de igrejas que são marcadas por uma teologia simpática ao individualismo e ao consumismo, com uma moral conservadora e uma atitude fundamentalista.
Enquanto segmento religioso, os evangélicos não são todos iguais. Há evangélicos que são de esquerda e de direita, que lutam por direitos sociais e que defendem interesses do capital, que se importam com a causa do oprimido e que apoiam a bandeira da propriedade privada, que têm uma posição mais aberta para as questões de gênero e que são radicais e tradicionais nesse assunto, que buscam uma espiritualidade mais humanizadora e que professam a fé com base em uma teologia fundamentalista, que desenvolvem uma análise mais crítica das Escrituras e que afirmam a inerrância bíblica.
Além disso, as igrejas evangélicas se diversificam quanto as formas de organização, liderança e de culto. Daí a infinidade de denominações cristãs. E essa diversidade não é de forma alguma prejudicial. Cada igreja procura se estruturar para dar conta de suas necessidades e conflitos. Mesmo dentro de uma determinada denominação, há uma variação de condutas. Isso se dá pelo fato de que as denominações não são formas sagradas, divinas, reveladas, mas resultados de relações políticas em que estão em jogo interesses e exercício de poder.
Em tempo de maus exemplos e escândalos envolvendo bancada evangélica e lideranças evangélicas, é muito comum encontrar representações esquivando-se do uso desse termo. Ao longo dessa minha jornada evangélica, tenho visto pessoas que condenam essas atitudes, mas conservam um desejo pelo poder. Já vi pessoas que criticavam as estruturas denominacionais até terem uma oportunidade de exercer um cargo e já vi pessoas que ocupavam cargos, mas que passaram a criticar essas mesmas estruturas após serem destituídas ou demitidas. Enfim, essa atitude condenatória, embora tenha uma causa justificável, está mais para um certo ressentimento do que para uma análise crítica, que se faz necessária.
Continuo afirmando minha condição de evangélico. Não deixei de ser evangélico porque desejo ser anunciador de boas notícias, com a palavra e com a vida, para um mundo que está desorientado. E, como tal, reafirmo meus vínculos com o segmento protestante, com uma teologia reformada e com a igreja batista, que são expressões que remetem a essa condição. E o faço não porque julgue tais expressões como melhores ou mais perfeitas, mas que estão ligadas à minha história de vida.
Sou protestante porque rejeito as formas simbólicas com que a religiosidade ocidental se configurou. O meu protesto se direciona para a estrutura hierárquica da autoridade eclesiástica, para a centralização do poder da igreja, para a afirmação de uma teologia dogmática que não comporta o diálogo, para as formas engessadas de expressões litúrgicas.
Sou adepto da teologia reformada porque entendo que há uma depravação humana que tem uma causa originária, para a qual as Escrituras apontam a graça revelada na pessoa de Jesus Cristo como única esperança de salvação. É por meio da graça que posso compreender Deus como sendo uma Trindade, que está comprometido com uma missão e que reivindica para si toda a criação para tomar parte do seu Reino. Por ser uma teologia reformada, ela se faz por meio do diálogo e aberta a estar sempre se reformando. Fora disso, a vida é sem graça.
Pertenço a uma igreja batista porque é a única denominação cristã que tem em seus princípios a defesa da liberdade de expressão e da tolerância religiosa. Pelo menos em seus princípios. A realização prática é outra história. Foi na igreja batista que aprendi com meus antigos pastores o respeito à diversidade religiosa e de culto, a separação completa entre igreja e Estado, a prática da democracia e a defesa do direito de livre expressão.
Sei que essa forma de ser parece estar na contramão do que a maioria tem colocado em prática. Entretanto, procuro construir uma espiritualidade à luz dessa compreensão, que esteja voltada para o humano a partir dos mais vulneráveis, que respeite as diferenças e que valorize a liberdade. É a partir do lugar em que sou construído como evangélico que posso dialogar com outras expressões e contribuir de algum modo para o debate sobre as necessidades humanas. Nesse sentido, sou evangélico crítico e comprometido com as demandas do evangelho de Jesus.

domingo, 2 de abril de 2017

Sinais de esperança para um mundo sem esperança / Signs of hope for a world without hope / Signos de esperanza para un mundo sin esperanza

Então os judeus lhe perguntaram: ‘Que sinal miraculoso o senhor pode mostrar-nos como prova da sua autoridade para fazer tudo isso?’” (João 2.18). 
O evangelho de João usa a palavra grega semeion para se referir aos milagres realizados por Jesus. Normalmente, essa palavra é traduzida como sinal, mas pode também significar um signo ou um símbolo. Como sinal, corresponde a uma ocorrência dentro do fluxo natural das coisas, algo que foge à normalidade para fazer com que as coisas voltem a seguir seu curso em direção a um determinado propósito. Como signo, é uma marca, um registro ou mesmo uma expressão que faz com que uma coisa ganhe repercussão, que possa se distinguir de outras coisas. E como símbolo, é uma representação ou mesmo uma demonstração de algo que é real, mas que não pode ser percebido e sua totalidade.
Para os gregos antigos, semeion poderia ser uma marca que fazia com que algo se tornasse conhecido. Poderia ser também uma comunicação divina, como um presságio. E ainda poderia ser relativo a gestos e indicadores para uma determinada ação, tal como o começo de uma corrida ou orientações para a batalha.
No evangelho de João, no entanto, o uso dessa palavra se destina a responder duas grandes perguntas feitas por quem quer conhecer Jesus. A primeira é: o que Jesus fez para que ele se tornasse tão importante? A segunda é: por que Jesus realizou esses sinais?
Em todo o evangelho são relatados apenas sete desses sinais. São eles:
1. A transformação da água em vinho, em Caná, João 2.1-10. (2)
2. A cura do filho do funcionário do rei, João 4.46-54.
3. A cura do enfermo (paralítico) em Betesda, João 5.1-9.
4. A multiplicação de pães e peixes, João 6.1-13.
5. Jesus caminhando sobre o mar da Galileia, João 6.16-21.
6. A cura do cego de nascença, João 9.
7. A ressurreição de Lázaro, João 11, 1-46.
João reconheceu que Jesus havia realizado muitas outras maravilhas e milagres, mas os que foram relatados em seu evangelho seriam suficientes para que as pessoas compreendessem quem era Jesus, sua missão e mensagem. Ele registrou: Jesus realizou na presença dos seus discípulos muitos outros sinais miraculosos, que não estão registrados neste livro. Mas estes foram escritos para que vocês creiam que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus e, crendo, tenham vida em seu nome” (João 20.30-31). E disse mais: “Jesus fez também muitas outras coisas. Se cada uma delas fosse escrita, penso que nem mesmo no mundo inteiro haveria espaço suficiente para os livros que seriam escritos” (João 21.25).
O uso da expressão semeion por João revela uma preocupação teológica, visto que um determinado sinal só pode ser entendido à luz de um sistema de significações. Ferdinand de Saussure, por exemplo, ao referir-se ao signo linguístico, afirma que um semeion está relacionado a um significante e a um significado. Ou seja, possui uma representação, uma forma material, que remete a uma compreensão, a uma ideia. Tem a função de comunicar algo, constituindo-se numa realidade discursiva que precisa ser interpretada e compreendida.
Esses sinais não acontecem aleatoriamente, de forma desordenada, ao sabor das contingências da vida. Antes, eles se inserem numa dinâmica maior, que culmina no sinal mais expressivo, que é o relato da crucificação e ressurreição de Jesus. Quando Jesus apareceu ressurreto aos seus discípulos mostrou-lhes os sinais em seu próprio corpo: Tendo dito isso, mostrou-lhes as mãos e o lado. Os discípulos alegraram-se quando viram o Senhor” (João 20.20).
Por essa razão, o evangelho de João pode ser dividido em duas partes: o que podemos chamar de livro dos sinais, onde estão relatados os milagres realizados por Jesus, acompanhados dos ensinamentos que estão vinculados a eles; e o que podemos chamar de livro da paixão, com os relatos da crucificação e ressurreição de Jesus.
Para João, se alguém quer conhecer Jesus, deve observar a maneira como ele sinalizou sua graça entre os homens e a maneira como ele consumou sua missão no mundo, assumindo todos os riscos até o fim. Jesus encarnou a missão de tal modo que é na imagem do crucificado e do ressuscitado que podemos ter acesso à graça divina, na qual toda a trindade está implicada.
O fato de Jesus ter realizado sinais não significava que ele seria aceito com facilidade nem que seu ensino seria melhor compreendido. Jesus sempre esteve aberto à crítica, à avaliação e até à rejeição. Seus ensinos e milagres apontam para a graça, mas crer ou não em Jesus, acolher ou não a Jesus são atitudes que dependem de cada pessoa em sua liberdade de escolha.
As pessoas não crerão em Jesus por causa de um milagre, mas certamente serão notificadas de que a graça de Deus se manifestou de alguma forma na vida. Jesus sinaliza ainda hoje sua presença entre nós por meio dos atos de misericórdia e compaixão daqueles que já o acolheram. Jesus chama seus seguidores para que sejam sinais de sua presença no mundo, a fim de que as pessoas saibam que há esperança para o fim das aflições, das injustiças e de todas as dores que angustiam a humanidade.

domingo, 12 de março de 2017

Por que sou cristão? Why am I a Christian? / ¿Por qué soy cristiano?

As razões pelas quais sou um cristão estão para além das formas institucionais que a cristandade construiu ao longo de sua história. Elas nascem de uma relação que nutro com respeito à pessoa de Jesus Cristo. Tudo começou com um encontro com a notícia de que o propósito de Deus para a minha vida passa pela vida e mensagem daquele que foi encarnado, crucificado, ressuscitado e glorificado conforme as Escrituras.
Ser cristão envolve uma tensão entre acolher a proposta de vida nova e de assumir a condição de nova criatura e a ruptura com tudo aquilo que influenciou minha vida até então. A proposta de vida que há em Jesus Cristo está na contramão de toda concepção de vida que as culturas já conceberam. Ela diz respeito a assumir um modo de ser humano numa perspectiva de quem criou e que, por isso mesmo, nos conhece mais do que seríamos capazes de o fazer.
Para assumir essa condição de ser cristão, é necessário um processo de mudança de entendimento. Sim, conversão tem a ver com m processo de mudança do entendimento. Os gregos antigo tinham uma expressão que foi muito bem aplicada pelos escritores do Novo Testamento: metanoia, que literalmente quer dizer “mudança de mente” e que pode ser traduzida por “conversão”.
A palavra está no discurso de João Batista: “‘Convertam-se’ porque o Reino de Deus está próximo” (Mateus 3.2). Ela primeira palavra de Jesus na Galileia: “‘Convertei-vos’ e crede no evangelho” (Marcos 1.15). E está na pregação dos apóstolos: “‘Convertam-se’, e cada um de vocês seja batizado em nome de Jesus Cristo” (Atos 2.38). Embora a palavra preferida da tradução em língua portuguesa nessas passagens seja “arrependam-se”, a ideia de uma conversão está implicada como uma atitude de mudança do modo de pensar.
Trata-se de uma atitude que envolve tanto uma ética quanto uma dimensão espiritual. Converter-se é deixar de lado o que convém para buscar o que aperfeiçoa. Converter-se é separar-se do que degrada e orientar-se para o que enche de vida. Converter-se é dar as costas ao que separa de Deus para se pôr de frente para ele. Em suma, converter-se é humanizar-se.
Ser cristão envolve também uma certa transgressão, uma ruptura com um modo tradicional de compreender e direcionar a vida. Não se trata de romper com hábitos pontuais, com determinados costumes ou práticas, mas de reorientar a vida em todas as suas circunstâncias pelos cainhos do Evangelho.
Quando se fala de alguém convertido ao cristianismo, não se deve referir apenas a alguém que mudou de religião, ou que tenha experimentado uma mudança radical de vida ou mesmo que tenha abandonado o ateísmo. Ser cristão está mais para a metáfora do apaixonado, aquele que é capaz de dizer que encontrou o sentido da vida na pessoa de quem ama. O cristão é aquele que segue Jesus como que guiado pelos desejos mais profundos do seu coração.
A conversão, portanto, é um processo que envolve nossa atitude que abarca a vida inteira, no sentido de se colocar na direção correta.

sexta-feira, 3 de março de 2017

Ser igreja / Church / Ser iglesia

A igreja não é um lugar para ir, mas um modo de ser. Essa afirmação traz consigo uma série de implicações que exigem uma reflexão mais aprofundada. Falar de igreja não é uma coisa fácil. Primeiramente, é preciso que se diga de que tipo de igreja estamos falando: se uma comunidade local, se uma estrutura mais ampla que abarca as comunidades locais ou se a comunidade universal de todos os crentes.
Quando Jesus disse aos seus discípulos que edificaria a sua igreja, não tinha em mente nenhuma dessas características. Ele falava de uma relação em torno de sua pessoa. A igreja é a reunião de todas as pessoas que Jesus Cristo reivindica para si, através das quais toma forma no mundo
John Stott, em seu livro A igreja autêntica, afirma que “a igreja está no centro do propósito de Deus para a humanidade”. Entretanto, ela é uma das instituições que tem sofrido uma transformação acentuada ao longo da sua existência e que mais tem perdido credibilidade em tempos pós-modernos.
O que chamamos de igreja hoje é resultado de uma construção social e histórica que envolve um percurso que começa com os primeiros cristãos. A igreja teve seu início como um movimento daqueles que tinham uma experiência com Cristo e que estavam dispostos a seguir seus ensinos e seu exemplo. Quando chegou à Roma, a igreja se constituiu como uma instituição, e tomou a forma de uma religião como as muitas religiões que existiam no império Romano. Com a chegada à América, ela se tornou uma organização, assumindo cada vez mais a natureza corporativa e burocrática que a revolução industrial produziu.
A igreja movimento era centrada na paixão de seus frequentadores, comprometidos com aquilo que acreditavam e com a experiência que possuíam. Ela atraía seguidores pela atitude dos que eram fiéis, que vivem em solidariedade, eram generosos e misericordiosos com todos e se encorajavam uns aos outros diante das perseguições.
A igreja instituição era voltada para a manutenção da devoção e da herança doutrinária que recebeu dos apóstolos. Seus fiéis tinham a obrigação de seguir um credo, cumprir um rito, obedecer aos superiores hierárquicos. A adesão de fiéis era marcada pelo medo da ira futura, como fuga da danação eterna. A solidariedade deu lugar às obras de caridade e esmolas, generosidade foi substituída pela obrigação, a misericórdia se transformou em uma penitência, a vida passou a ser encarada como um vale de lágrimas e a dinâmica da fé passou a ser vista a partir de uma relação de poder.
A igreja organização era voltada para o sentido de missão, mas não como compromisso de realizar os propósitos divinos na vida humana, mas como tarefa de gerenciar resultados. Seus fiéis foram transformados em consumidores, seus líderes em gestores e a fé como um produto a ser consumido de forma cada vez mais facilitada. A Missio Dei foi substituída por uma estratégia de crescimento e o mundo compreendido como um grande mercado em expansão.
A constatação mais ingênua diante desse processo é imaginar que precisamos retornar à igreja movimento, abrindo mão de todo arcabouço histórico, teológico e até material que a instituição e a organização da igreja conquistaram. Não podemos negar que a igreja é herdeira de um passado de conquistas, ela não chegou até aqui somente fundada em erros, mas também em muitos acertos que influenciaram decisivamente os rumos da história e da vida humana. Até por que, se a ideia de ser um movimento suficiente por si mesmo fosse o bastante, não teria se desenvolvido para os modelos seguintes.
Sim, a igreja precisa aprender a ser movimento, instituição e organização. Isso quer dizer que: como movimento, precisa despertar nossa paixão; como instituição, precisa ser a nossa identidade e, como organização, precisa orientar nossa ação no mundo. O que a igreja não precisa é cristalizar-se apenas como um movimento, senão não passa de uma tendência; nem apenas como instituição, senão se torna um costume; nem mesmo apenas como organização, senão vira um negócio.
A igreja que Jesus tinha em mente não era nada disso. Ela deveria ser uma comunhão. A igreja está para além do domingo, do clero e do templo. Também está para além do dogma, do credo e do sínodo. Diria mais, ela está para além da liturgia, do magistério e até da eucaristia. Antes todas as ações devem fazer com a igreja comunhão sobressaia, caso contrário não vai passar de movimento, de instituição e de organização.
A igreja comunhão se faz em meio ao discipulado, à evangelização e ao ato celebrativo. Implica um senso que coloca a vida a serviço do outro e do mundo, que desperta um sentido de pertença, que produz uma vida de testemunho e que fortalece os laços da vida comunitária. Uma igreja assim ganha relevância diante do mundo e é um convite para restaurar nossa relação com Deus. Porém, uma igreja diferente disso é um sinal de que a enfermidade que contamina e destrói a humanidade também já chegou até nós.

sábado, 25 de fevereiro de 2017

Verdade, meias verdades, pós-verdades / Truth, half truths, post-truths / La verdad, medias verdades, post-verdades

A verdade é sempre construída em meio a uma relação de poder. Ela é um desejo, uma aspiração a que os homens não têm acesso de forma plena. Ela sempre está velada ou mesmo falseada pelas tramas da linguagem. Entretanto, ela é buscada pela filosofia, pela ciência e pela religião como um ideal. Numa perspectiva metafísica, ela está inserida numa relação entre a percepção do mundo e o que se diz dele. O problema é que a verdade é sempre ela mesma, mas o mundo é vivo, está sempre em transformação.
Falar de verdade hoje implica trazer à tona os conceitos de meia verdade e de pós-verdade em voga nos meios de comunicação. Para compreender esses termos e seu emprego nas relações políticas de hoje implica partir do pressuposto de que a verdade não se limita a uma situação fática, do tipo “o livro está sobre a mesa”. A essência da verdade é de outra ordem. Ela está além do discurso. Deveríamos até argumentar aqui que não podemos falar de uma verdade absoluta, mas de verdades no plural.
Esses termos não são opostos à verdade. Do mesmo modo, o oposto de verdade não é simplesmente mentira nem mesmo um erro. A mentira é um valor moral, usado com uma certa intencionalidade. O erro é do âmbito do conhecimento, resulta de uma atitude em aceitar algo como verdade sem antes investigar. Tanto a mentira como o erro são valores que se colocam diante da verdade, falseando-a, encobrindo-a e se oferecendo como alternativa.
Meias verdades e pós-verdade são aspectos morais de se lidar com a verdade. Pense nesses termos:
As meias verdades são mentiras inteiras. O grande problema delas é quando quem as conta opta pela metade mentirosa. A metade verdadeira sempre permanece sob suspeita. A meia verdade é ingênua. Crianças, amantes e companheiros fazem uso dela para conservar a relação, para proteger o outro ou mesmo para se preservar. Isso não faz dela uma coisa boa. Mas expõe a realidade de que as pessoas nem sempre elaboram um discurso que comporta toda a verdade.
A pós-verdade é um jogo político, em que se divulga uma informação falsa, exagerada ou com interditos para criar uma sensação de verdade. A pós-verdade é cruel. Geralmente é lançada em redes sociais com cara, jeito e foro de verdade para aniquilar o outro. Ela é mais do que um falseamento, é uma fraude. Está carregada de apelos emocionais e de interpretações de fatos e acontecimentos de forma desconexa. O termo foi criado pela imprensa norte-americana para tratar do fenômeno da eleição de Trump à presidência de um modo politicamente correto.
Kant já dizia que “a verdade é um dever para com quem tem direito a ela”. Ele estava preocupado se a verdade pode ser compreendia como coerência ou como correspondência com o real. Na sua crítica à razão pura, vai compreender que “a verdade do objeto é sempre apreendida e substanciada através da verdade do juízo”, ou seja: a verdade é subjetiva.
Nietzsche, por sua vez, afirmou que “a verdade não significa necessariamente o contrário de um erro, mas somente, e em todos os casos mais decisivos, a posição ocupada por diferentes erros uns em relação aos outros”. Não passa de uma vontade de verdade. Por meio da linguagem, somos capazes de criar um mundo de ficções e de interpretações que são úteis para a afirmação de nossas relações, de nossa existência e até para o nosso fortalecimento.
A relação humana com a verdade é de preservação da espécie, para conservar posições e para afirmar convicções. O próprio instrumental lógico e racional construído para se buscar a verdade – seja através da ciência, da teologia ou mesmo da filosofia – é resultado de um longo processo histórico e demonstra o quanto estamos distanciados de valores absolutos. O único que foi capaz de declarar “eu sou a verdade” foi crucificado. Diante da indagação de Pilatos, sobre “o que é a verdade”, Jesus não respondeu.
Dizer que a verdade não existe seria um exagero. Não só ela existe como também as pessoas estão à procura dela. Os gregos usavam a palavra “aletheia” para se referir a ela. Significa “não encoberta”, ou seja, ela se desvela, precisa estar desnuda. Mas isso não acontece de forma natural, exige uma transformação do sujeito. Como afirmou René Descartes, “para pesquisar a verdade, é preciso duvidar, quanto seja possível, de todas as coisas, uma vez na vida”.
A verdade se encontra num campo indeterminado entre o sujeito e o objeto; não pertence ao sujeito nem ao objeto, mas a uma instância mediadora que põe o sujeito e o objeto em relação. O discurso verdadeiro é aquele que traz à luz aquilo que está encoberto pelas imposições do saber, naquelas situações de confronto em que somos interpelados. A verdade não é algo em relação a alguma coisa, mas ao que se é diante de si mesmo.

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