domingo, 11 de junho de 2017

Pastor

Para que servem os pastores e as pastoras? Teoricamente, para nada. Seja como gestor, conselheiro, orador, educador, agente social ou teórico, sempre há quem faça melhor. Há quem diga que pastores são um pouco de cada um desses profissionais, mas sempre soube que, em tem tempo de máxima especialização, aquele que sabe de tudo um pouco acaba não produzindo.
Sinceramente, não sei onde Jesus estava com a cabeça quando comparou a atividade de quem cuida de seus seguidores aos trabalhadores que apascentavam rebanhos. Talvez porque também utilizou a metáfora das ovelhas para se referir àqueles que o seguem. Ou talvez por não ter na época um conjunto tão grande de especialidades que abrangesse a dimensão pastoral. Ele só podia estar com a cabeça no céu.
Tenho para mim que a razão esteja mais voltada para a dimensão da ação pastoral com o cuidado com aqueles que estão a caminho. A palavra vem do grego poimen, que designava o apascentador de rebanhos. Sua tarefa seria de conduzir o rebanho até os pastos, ficar atento aos ataques dos inimigos contra as ovelhas, cuidar das que estiverem feridas, mantê-las reunidas em grupo e recolhê-las ao aprisco para o descanso. Ele teria que fazer isso todo dia ininterruptamente. Por causa do seu envolvimento direto com a ovelha, chegava a ter o cheiro delas. Por isso, era considerada uma atividade imunda.
Pastores não são forjados em uma escola, nem se tornam mais hábeis pela experiência. São pessoas comuns que recebem um chamado para servirem àqueles que querem seguir Jesus. Já por aí são diferentes, por serem sensíveis à uma voz que vem de fora e clama por uma decisão interior de orientar a vida inteira para cuidar de gente. Se espelham na pessoa de Jesus, aquele único que se apresentou como o Bom Pastor.
Pastores cuidam de pessoas que querem seguir Jesus. Como conselheiro, psicólogos fariam melhor. Porém, como pessoas que escutam as dores e angústias do outro para servirem como intercessores diante de Deus. Somente alguém com o coração sensível ao outro como Jesus o fez é capaz
Pastores cuidam de igreja. Como administradores, gerentes fariam melhor. Porém, como quem conhece a perspectiva do Reino de Deus e está comprometido com o projeto de Deus de formar em Cristo uma nova humanidade, age mais com o coração do que com estratégias, orienta-se mais pela esperança do que pelas condições concretas, decide por fé e não por racionalidade.
Pastores constroem saberes sobre nossas relações com Deus. Como educadores e pensadores, pedagogos e teóricos fariam melhor. Porém, reconhecem a Bíblia como fonte primária do saber, que oferece a base para construir novos entendimentos. Para isso, ouvem as vozes dos sábios e entendidos e se debruçam sobre as Escrituras para encontrar a melhor forma de fazê-la entendida para as pessoas do seu tempo.
Alguns até tentam desenvolver uma performance profissional, outros também se negam a desenvolver habilidades e técnicas justificando sua incapacidade com uma falsa espiritualidade. Apesar disso tudo, pastores que se colocam como servos fazem falta.
Feliz Dia do Pastor!

segunda-feira, 22 de maio de 2017

Humanização / Humanization / Humanización

Quando Jesus atravessou o mar da Galileia de barco com seus discípulos e chegou à região de Gadara, deparou-se com um quadro grotesco: uma pessoa agressiva, violenta, seminua, imunda, com sinais pelo corpo de que havia sido preso por fortes grilhões, urrando e arremessando pedras contra quem se aproximasse. Não sei o que você faria se estivesse no barco com Jesus, mas eu logo remaria na direção contrária.
Essa narrativa encontra-se em Marcos 5.1-18. Uma coisa que escapa de nosso olhar é o fato de que ali estava um ser humano. Parece contraditório, mas mesmo as pessoas mais vis, violentas e que tenham praticado as coisas mais hediondas são seres humanos e, como tais, foram feitos à imagem e semelhança de Deus. Foi assim que Jesus viu aquele homem. E é assim que Jesus nos vê: como pessoas.
A cura do endemoninhado gadareno nos lembra o quanto Jesus está interessado em restaurar as relações que constituem a nossa humanização. Jesus reivindica, por amor, para si todo ser humano a fim de que viva a sua humanidade perante Deus sem precisar se envergonhar disso.
Quando falamos de nossa condição humana, isso comporta um problema: a rejeição do projeto de Deus através da ruptura de nossas relações fundamentais. É isso que constitui o que podemos chamar de situação de não salvação. A maldade está no fato de que rejeitamos o projeto de vida proposto por Deus desde a criação. É isso que a Bíblia chama de pecado.
Jesus veio nos libertar da opressão causada pela maldade. Ao fazer isso, ele viveu a nossa vida, enfrentou a nossa morte da forma mais cruel (a cruz), ressuscitou glorificado e hoje está vivo com o Pai. É isso que dá validade ao seu ensino e promessa: “Portanto, se o Filho os libertar, vocês de fato serão livres” (João 8.36).
A salvação é, portanto, a restauração das relações rompidas pelo pecado. O pecado é o estado em que nos encontramos por termos nos desviado dos propósitos de Deus. O sentido de estar perdido é porque estamos perdidos de nós mesmos.
Jesus é o Salvador porque viveu intensamente essas relações. Nele não se encontrou pecado. Diz a Bíblia: “Pois não temos um sumo sacerdote que não possa compadecer-se das nossas fraquezas, mas sim alguém que, como nós, passou por todo tipo de tentação, porém, sem pecado” (Hebreus 4.15).
Toda religião aponta para um tipo humano baseado em obrigações, mas Jesus valoriza a liberdade. Ele disse: “E conhecerão a verdade, e a verdade os libertará” (João 8.32). Jesus não está comprometido com ideais humanistas, mas está profundamente interessado em restaurar a humanidade toda. Por isso, ele reivindica a que a humanidade toda possa segui-lo com todas as implicações que isso envolve.
(Extraído do livro Elogio da Compaixão.  Imagem: Homem pensador, de Picasso).

domingo, 7 de maio de 2017

Famílias normais à luz da Bíblia / Ordinary families according to the Bible / Familias normales a luz de la Biblia

“Quem causa problemas à sua família herdará somente vento [...]” (Provérbios 11.29).
A alegria de se viver em família é um assunto que está intimamente relacionado com nossa espiritualidade. Por essa razão é que a igreja é a única instituição preocupada com a vida em família atualmente, assumindo um papel de protetora, de promotora e de acolhedora. De fato, a família tem passado por fortes e profundas transformações, contudo isso não quer dizer que ela tenha perdido o seu valor.
As regras morais que hoje são usadas para defender o ideal de uma família normal não são retiradas das Escrituras, mas de um tempo mais recente, conhecido como “era vitoriana”. Corresponde ao período em que a rainha Vitória reinou na Inglaterra, no meado do século XIX até o início do século XX. Foi um período de grande prosperidade econômica, em meio à Revolução Industrial, e de grandes transformações culturais nos modos de se pensar a vida cotidiana e do divertimento, como foi, por exemplo, a Belle Époque na França e o Gilded Age nos Estados Unidos.
A chamada era vitoriana foi marcada pelo fortalecimento da classe média, que almejava cultura e status. As classes mais elevadas ditavam os costumes que deveriam servir de modelo para as camadas mais inferiores. A vida social foi cercada de uma forte preocupação moral e por uma afirmação de padrões e valores rígidos para as relações entre pessoas, vestuários, etiquetas à mesa e interações. É dessa época também a afirmação de um modelo de família, cercado pelos conceitos engendrados dentro do movimento do puritanismo e da repressão sexual.
Na concepção vitoriana de família, o lar é tratado como um ambiente protegido, que deveria servir como base moral para a sociedade. Para tanto, era necessário protegê-lo dos ataques do pensamento mais liberal, bem como resguardá-lo para que fosse mantido um ar de equilíbrio e de harmonia. Nesse sentido, numa afirmação bem funcionalista, cabia à mulher o papel de guardiã da família e símbolo da moral de toda a sociedade. Recai sobre ela a responsabilidade de manter a reputação da família em meio ao convívio social. Para isso, deveria ser pura, delicada, submissa e bela.
Ao homem cabia o papel de provedor da casa, tanto no sentido financeiro como também na segurança da família. Sua vida deveria ser devotada ao trabalho, aos negócios e à vida pública, incluindo aí também a política. Era dele a iniciativa do cortejo e das carícias, que nunca deveriam acontecer em público. Os filhos, por sua vez, deveriam ser educados nos rígidos padrões morais da sociedade e cabia à família o papel de instruí-los em relações aos costumes. A infância era vista como uma fase em que se exigia a obediência aos pais. As crianças das famílias mais ricas eram educadas por criados e serviçais da família. Já naquelas que eram mais carentes, a criança deveria trabalhar desde cedo.
Como se pode notar, o modelo de família que costumamos chamar de normal nos dias atuais tem mais a ver com um padrão socialmente construído em um determinado momento da história, que está mais voltado a um outro contexto cultural que não o nosso. Não está relacionado com os modelos de família que se encontram na Bíblia.
Podemos afirmar que a Bíblia não está preocupada em apresentar um padrão de vida familiar nem de fazer com que os personagens bíblicos se tornem modelos ideais de conduta para as pessoas em todo o tempo. Na verdade, ela está interessada em apresentar situações de vida em família de forma real em que a gente se vê ali retratado.
Os relatos da Bíblia em relação à vida em família não são obras de ficção nem mesmo de idealizações produzidas a partir de um conceito fundador. São histórias de famílias atravessadas por situações de sucesso e fracasso, dor e alegria, conquistas e perdas, amor e traição que são encontrados em todo o tempo, inclusive entre nós.
De um modo geral, os estudos bíblicos tentam nos remeter à seguinte questão: como nossas famílias podem ser analisadas à luz das famílias da Bíblia? Porém, uma questão interessante a ser levantada é: como as famílias da Bíblia poderiam ser analisadas à luz da terapia familiar nos dias de hoje? A partir dessas análises, poderíamos encontrar muitas respostas para nossas inquietações diante dos dilemas vividos em família hoje, em vez de concentrarmos nossa atenção e energia para tentar implantar um tipo ideal que não se encaixa em nossas condições de vida atuais.
Compreender as famílias da Bíblia a partir de um olhar crítico possibilita uma reflexão mais ampla sobre os propósitos de Deus para a vida em família. Retira um pouco o nosso foco de um modelo exemplar ou de uma tipificação dos relacionamentos e nos apresenta a família como espaço de realização de nossa existência em todas as suas dimensões. Daí podemos compreender que, em meio às fragilidades inerentes à nossa condição humana, Deus pode – e quer – se revelar e realizar sua graça e compaixão. 
Podemos confiar que Deus quer abençoar nossas famílias. Uma família normal, dentro de uma perspectiva bíblica, não é aquela que tem papéis bem definidos em sua formação nem é a que segue um padrão ideal, mas é a que Deus tem espaço para realizar seus propósitos, em meio às nossas virtudes e fraquezas.

domingo, 30 de abril de 2017

Quem é você sem suas máscaras / Who are you without your masks? / ¿Quién es usted sin sus máscaras?

Não somos como Moisés, que colocava um véu sobre a face para que os israelitas não contemplassem o resplendor que se desvanecia.” 2 Coríntios 3.13
Uma das histórias mais curiosas da Bíblia a respeito de identidade é a de Moisés, homem que esteve face a face com Deus e o entendia por sua essência. Certa vez, depois de ter passado por uma das mais impressionantes experiências de encontro com Deus, sentiu a necessidade de representar simbolicamente o que sentia. Ele havia reconhecido o quanto Deus ama e o quanto estamos distantes de sua graça, ele havia percebido o quanto estamos equivocados em relação ao que diz respeito às relações com Deus e o quanto ele nos acolhe e perdoa.
Seu rosto resplandecia cada vez que entrava na presença de Deus, a partir de então. Logo em seguida, descia para falar com o povo. Quando acabava de falar, cobria o rosto e só voltava a descobri-lo quando entrava de novo na presença de Deus. Na verdade, Moisés sentiu a necessidade de cobrir o seu rosto para que encobrisse a glória que estava sumindo. Este fato é relatado em Êxodo 34.29-35.

Essa atitude de Moisés tem a ver com a maneira como lidamos com nossas aparências. A tentativa de mostrar o que não somos tem a ver com o uso que fazemos de máscaras. As máscaras escondem a nossa identidade e interferem em nossa maneira de ser.
Nossas máscaras não são meros disfarces. Elas encobrem o desejo humano de recuperar a integridade perdida. Todos nós fazemos uso de máscaras, muitas delas, uma para cada ocasião, e as substituímos o tempo todo com uma habilidade tremenda. Nietzsche afirmou que “todo espírito profundo necessita de uma máscara.”
[...]
Conhecer sobre isso é importante demais pois nos ajuda a crescer pessoalmente. A completa maturidade só é alcançada pelo pleno desenvolvimento da personalidade.
Somos habilidosos em usar máscaras e a lidar com sombras. Sem as máscaras, não nos reconhecemos. Com relação às sombras, enganamos a nós mesmos. É um jogo em que, quando somos confrontados, passamos por uma experiência dolorosa. É uma grande desilusão descobrir que passamos a vida inteira à margem de nós mesmos.
Por causa dessa nossa habilidade, temos a tendência de nos autoenganar e até de sabotar a maneira de lidar com nossa própria vida. Nossa natureza comporta uma condição tal que permite que surjam sentimentos bons e ruins em relação a todas as situações vividas pelo simples fato de sermos humanos.
É nessa perspectiva que Deus nos chama a um mergulho no ser a fim de que vivenciemos uma fé sincera. O apóstolo Paulo disse certa vez a seus discípulo Timóteo: “O objetivo desta instrução é o amor que procede de um coração puro, de uma boa consciência e de uma fé sincera.” 1 Timóteo 1.5.
(Extraído do e-book Quem é você? Quando nossa identidade é colocada em jogo. Disponível na Amazon e neste blog)

sábado, 15 de abril de 2017

Sete palavras da cruz / Seven words from the cross / Siete palabras de la cruz

Nenhum púlpito, tribuna ou cátedra foi tão eloquente como a cruz. A crucificação de Jesus foi um espetáculo público que envolveu todo tipo de espectadores: familiares, seguidores, executores, curiosos e até inimigos e algozes. O horror da cruz falava por si só.
Ali na cruz, Jesus assumiu sobre si o mistério de Deus para resgatar a humanidade. Ele exerceu na cruz o papel de um mestre em sua cátedra ao proclamar sete breves frases carregadas de amor. Elas são as últimas palavras de alguém que teve uma vida expressiva, ocupado com a dor de gente como a gente.
A primeira, uma palavra de perdão. “Jesus disse: ‘Pai, perdoa-lhes, pois não sabem o que estão fazendo’. Então eles dividiram as roupas dele, tirando sortes” (Lucas 23.34). Ela fala que somos acolhidos por Deus, não importa o tamanho de nossos pecados.
A segunda, uma palavra de esperança. Jesus lhe respondeu: ‘Eu lhe garanto: Hoje você estará comigo no paraíso’” (Lucas 23.43). Ela fala de que o melhor de Deus já está preparado para nós, mesmo que tudo pareça dar errado.
A terceira, uma palavra de compaixão. Quando Jesus viu sua mãe ali, e, perto dela, o discípulo a quem ele amava, disse à sua mãe: ‘Aí está o seu filho’, e ao discípulo: ‘Aí está a sua mãe’. Daquela hora em diante, o discípulo a levou para casa” (João 19.26,27). Ela fala nada foge ao olhar misericordioso de Deus, até nossos sentimentos mais íntimos.
A quarta, uma palavra de revelação. “Por volta das três horas da tarde, Jesus bradou em alta voz: ‘Eloí, Eloí, lamá sabactâni?’ que significa: ‘Meu Deus! Meu Deus! Por que me abandonaste?’” (Mateus 27.46). Ela fala que Jesus é o messias divino, o abandonado de Deus, que se esvazia a si mesmo para se revelar tão próximo.
A quinta, uma palavra de humanidade. Mais tarde, sabendo então que tudo estava concluído, para que a Escritura se cumprisse, Jesus disse: ‘Tenho sede’” (João 19.28). Ela fala que Jesus era gente como a gente, com necessidades e possibilidades humanas, a fim de que sejamos gente como ele foi.
A sexta, uma palavra de missão. Tendo-o provado, Jesus disse: ‘Está consumado!’ Com isso, curvou a cabeça e entregou o espírito” (João 19.30). Ela fala que Deus está em missão, realizando a obra da redenção, que Jesus cumpriu de forma cabal ao assumir nossa humanidade até a morte na cruz.
A sétima, uma palavra de entrega. Jesus bradou em alta voz: ‘Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito’. Tendo dito isso, expirou” (Lucas 23.46). Ela fala que a morte não é o fim, mas nela está o começo de uma nova vida, que já pode ser experimentada aqui como nova criatura que renasce com a entrega por fé da vida inteira a Jesus.

sexta-feira, 7 de abril de 2017

Por que ainda sou evangélico? / Why am I still an evangelical? / ¿Por qué sigo siendo evangélico?

Sou cristão, ligado à vertente protestante, filiado a uma igreja batista. Como tal, fui instruído com base em uma teologia reformada em um seminário confessional mantido pela denominação batista mais tradicional. Isso me identifica como uma pessoa de confissão evangélica. Porém, essa afirmação não é suficiente para descrever a minha condição de religiosidade.
O que é ser evangélico? Essencialmente, deveria corresponder a uma pessoa que orienta sua vida, suas práticas, seu discurso, suas relações e suas esperanças pelo evangelho. A palavra “evangelho” vem do termo grego que corresponde a “boa notícia”, aquela que é alvissareira, que aponta um olhar para o futuro. O evangélico deveria ser, então, alguém que anuncia uma notícia boa para um mundo cansado de notícias desalentadoras, que declara que há saída para um mundo perdido.
Mais recentemente, o termo “evangélico” passou a designar um tipo de religioso, que faz parte de um segmento do cristianismo originário do movimento protestante. Sendo assim, faz referência a um contexto que comporta uma diversidade de formas e expressões. Quando se fala de evangélico, deve se ter em mente a pluralidade que isso comporta. Entretanto, nota-se o crescimento de uma tendência de se rotular de evangélico todo cristão adepto de igrejas que são marcadas por uma teologia simpática ao individualismo e ao consumismo, com uma moral conservadora e uma atitude fundamentalista.
Enquanto segmento religioso, os evangélicos não são todos iguais. Há evangélicos que são de esquerda e de direita, que lutam por direitos sociais e que defendem interesses do capital, que se importam com a causa do oprimido e que apoiam a bandeira da propriedade privada, que têm uma posição mais aberta para as questões de gênero e que são radicais e tradicionais nesse assunto, que buscam uma espiritualidade mais humanizadora e que professam a fé com base em uma teologia fundamentalista, que desenvolvem uma análise mais crítica das Escrituras e que afirmam a inerrância bíblica.
Além disso, as igrejas evangélicas se diversificam quanto as formas de organização, liderança e de culto. Daí a infinidade de denominações cristãs. E essa diversidade não é de forma alguma prejudicial. Cada igreja procura se estruturar para dar conta de suas necessidades e conflitos. Mesmo dentro de uma determinada denominação, há uma variação de condutas. Isso se dá pelo fato de que as denominações não são formas sagradas, divinas, reveladas, mas resultados de relações políticas em que estão em jogo interesses e exercício de poder.
Em tempo de maus exemplos e escândalos envolvendo bancada evangélica e lideranças evangélicas, é muito comum encontrar representações esquivando-se do uso desse termo. Ao longo dessa minha jornada evangélica, tenho visto pessoas que condenam essas atitudes, mas conservam um desejo pelo poder. Já vi pessoas que criticavam as estruturas denominacionais até terem uma oportunidade de exercer um cargo e já vi pessoas que ocupavam cargos, mas que passaram a criticar essas mesmas estruturas após serem destituídas ou demitidas. Enfim, essa atitude condenatória, embora tenha uma causa justificável, está mais para um certo ressentimento do que para uma análise crítica, que se faz necessária.
Continuo afirmando minha condição de evangélico. Não deixei de ser evangélico porque desejo ser anunciador de boas notícias, com a palavra e com a vida, para um mundo que está desorientado. E, como tal, reafirmo meus vínculos com o segmento protestante, com uma teologia reformada e com a igreja batista, que são expressões que remetem a essa condição. E o faço não porque julgue tais expressões como melhores ou mais perfeitas, mas que estão ligadas à minha história de vida.
Sou protestante porque rejeito as formas simbólicas com que a religiosidade ocidental se configurou. O meu protesto se direciona para a estrutura hierárquica da autoridade eclesiástica, para a centralização do poder da igreja, para a afirmação de uma teologia dogmática que não comporta o diálogo, para as formas engessadas de expressões litúrgicas.
Sou adepto da teologia reformada porque entendo que há uma depravação humana que tem uma causa originária, para a qual as Escrituras apontam a graça revelada na pessoa de Jesus Cristo como única esperança de salvação. É por meio da graça que posso compreender Deus como sendo uma Trindade, que está comprometido com uma missão e que reivindica para si toda a criação para tomar parte do seu Reino. Por ser uma teologia reformada, ela se faz por meio do diálogo e aberta a estar sempre se reformando. Fora disso, a vida é sem graça.
Pertenço a uma igreja batista porque é a única denominação cristã que tem em seus princípios a defesa da liberdade de expressão e da tolerância religiosa. Pelo menos em seus princípios. A realização prática é outra história. Foi na igreja batista que aprendi com meus antigos pastores o respeito à diversidade religiosa e de culto, a separação completa entre igreja e Estado, a prática da democracia e a defesa do direito de livre expressão.
Sei que essa forma de ser parece estar na contramão do que a maioria tem colocado em prática. Entretanto, procuro construir uma espiritualidade à luz dessa compreensão, que esteja voltada para o humano a partir dos mais vulneráveis, que respeite as diferenças e que valorize a liberdade. É a partir do lugar em que sou construído como evangélico que posso dialogar com outras expressões e contribuir de algum modo para o debate sobre as necessidades humanas. Nesse sentido, sou evangélico crítico e comprometido com as demandas do evangelho de Jesus.

domingo, 2 de abril de 2017

Sinais de esperança para um mundo sem esperança / Signs of hope for a world without hope / Signos de esperanza para un mundo sin esperanza

Então os judeus lhe perguntaram: ‘Que sinal miraculoso o senhor pode mostrar-nos como prova da sua autoridade para fazer tudo isso?’” (João 2.18). 
O evangelho de João usa a palavra grega semeion para se referir aos milagres realizados por Jesus. Normalmente, essa palavra é traduzida como sinal, mas pode também significar um signo ou um símbolo. Como sinal, corresponde a uma ocorrência dentro do fluxo natural das coisas, algo que foge à normalidade para fazer com que as coisas voltem a seguir seu curso em direção a um determinado propósito. Como signo, é uma marca, um registro ou mesmo uma expressão que faz com que uma coisa ganhe repercussão, que possa se distinguir de outras coisas. E como símbolo, é uma representação ou mesmo uma demonstração de algo que é real, mas que não pode ser percebido e sua totalidade.
Para os gregos antigos, semeion poderia ser uma marca que fazia com que algo se tornasse conhecido. Poderia ser também uma comunicação divina, como um presságio. E ainda poderia ser relativo a gestos e indicadores para uma determinada ação, tal como o começo de uma corrida ou orientações para a batalha.
No evangelho de João, no entanto, o uso dessa palavra se destina a responder duas grandes perguntas feitas por quem quer conhecer Jesus. A primeira é: o que Jesus fez para que ele se tornasse tão importante? A segunda é: por que Jesus realizou esses sinais?
Em todo o evangelho são relatados apenas sete desses sinais. São eles:
1. A transformação da água em vinho, em Caná, João 2.1-10. (2)
2. A cura do filho do funcionário do rei, João 4.46-54.
3. A cura do enfermo (paralítico) em Betesda, João 5.1-9.
4. A multiplicação de pães e peixes, João 6.1-13.
5. Jesus caminhando sobre o mar da Galileia, João 6.16-21.
6. A cura do cego de nascença, João 9.
7. A ressurreição de Lázaro, João 11, 1-46.
João reconheceu que Jesus havia realizado muitas outras maravilhas e milagres, mas os que foram relatados em seu evangelho seriam suficientes para que as pessoas compreendessem quem era Jesus, sua missão e mensagem. Ele registrou: Jesus realizou na presença dos seus discípulos muitos outros sinais miraculosos, que não estão registrados neste livro. Mas estes foram escritos para que vocês creiam que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus e, crendo, tenham vida em seu nome” (João 20.30-31). E disse mais: “Jesus fez também muitas outras coisas. Se cada uma delas fosse escrita, penso que nem mesmo no mundo inteiro haveria espaço suficiente para os livros que seriam escritos” (João 21.25).
O uso da expressão semeion por João revela uma preocupação teológica, visto que um determinado sinal só pode ser entendido à luz de um sistema de significações. Ferdinand de Saussure, por exemplo, ao referir-se ao signo linguístico, afirma que um semeion está relacionado a um significante e a um significado. Ou seja, possui uma representação, uma forma material, que remete a uma compreensão, a uma ideia. Tem a função de comunicar algo, constituindo-se numa realidade discursiva que precisa ser interpretada e compreendida.
Esses sinais não acontecem aleatoriamente, de forma desordenada, ao sabor das contingências da vida. Antes, eles se inserem numa dinâmica maior, que culmina no sinal mais expressivo, que é o relato da crucificação e ressurreição de Jesus. Quando Jesus apareceu ressurreto aos seus discípulos mostrou-lhes os sinais em seu próprio corpo: Tendo dito isso, mostrou-lhes as mãos e o lado. Os discípulos alegraram-se quando viram o Senhor” (João 20.20).
Por essa razão, o evangelho de João pode ser dividido em duas partes: o que podemos chamar de livro dos sinais, onde estão relatados os milagres realizados por Jesus, acompanhados dos ensinamentos que estão vinculados a eles; e o que podemos chamar de livro da paixão, com os relatos da crucificação e ressurreição de Jesus.
Para João, se alguém quer conhecer Jesus, deve observar a maneira como ele sinalizou sua graça entre os homens e a maneira como ele consumou sua missão no mundo, assumindo todos os riscos até o fim. Jesus encarnou a missão de tal modo que é na imagem do crucificado e do ressuscitado que podemos ter acesso à graça divina, na qual toda a trindade está implicada.
O fato de Jesus ter realizado sinais não significava que ele seria aceito com facilidade nem que seu ensino seria melhor compreendido. Jesus sempre esteve aberto à crítica, à avaliação e até à rejeição. Seus ensinos e milagres apontam para a graça, mas crer ou não em Jesus, acolher ou não a Jesus são atitudes que dependem de cada pessoa em sua liberdade de escolha.
As pessoas não crerão em Jesus por causa de um milagre, mas certamente serão notificadas de que a graça de Deus se manifestou de alguma forma na vida. Jesus sinaliza ainda hoje sua presença entre nós por meio dos atos de misericórdia e compaixão daqueles que já o acolheram. Jesus chama seus seguidores para que sejam sinais de sua presença no mundo, a fim de que as pessoas saibam que há esperança para o fim das aflições, das injustiças e de todas as dores que angustiam a humanidade.

domingo, 12 de março de 2017

Por que sou cristão? Why am I a Christian? / ¿Por qué soy cristiano?

As razões pelas quais sou um cristão estão para além das formas institucionais que a cristandade construiu ao longo de sua história. Elas nascem de uma relação que nutro com respeito à pessoa de Jesus Cristo. Tudo começou com um encontro com a notícia de que o propósito de Deus para a minha vida passa pela vida e mensagem daquele que foi encarnado, crucificado, ressuscitado e glorificado conforme as Escrituras.
Ser cristão envolve uma tensão entre acolher a proposta de vida nova e de assumir a condição de nova criatura e a ruptura com tudo aquilo que influenciou minha vida até então. A proposta de vida que há em Jesus Cristo está na contramão de toda concepção de vida que as culturas já conceberam. Ela diz respeito a assumir um modo de ser humano numa perspectiva de quem criou e que, por isso mesmo, nos conhece mais do que seríamos capazes de o fazer.
Para assumir essa condição de ser cristão, é necessário um processo de mudança de entendimento. Sim, conversão tem a ver com m processo de mudança do entendimento. Os gregos antigo tinham uma expressão que foi muito bem aplicada pelos escritores do Novo Testamento: metanoia, que literalmente quer dizer “mudança de mente” e que pode ser traduzida por “conversão”.
A palavra está no discurso de João Batista: “‘Convertam-se’ porque o Reino de Deus está próximo” (Mateus 3.2). Ela primeira palavra de Jesus na Galileia: “‘Convertei-vos’ e crede no evangelho” (Marcos 1.15). E está na pregação dos apóstolos: “‘Convertam-se’, e cada um de vocês seja batizado em nome de Jesus Cristo” (Atos 2.38). Embora a palavra preferida da tradução em língua portuguesa nessas passagens seja “arrependam-se”, a ideia de uma conversão está implicada como uma atitude de mudança do modo de pensar.
Trata-se de uma atitude que envolve tanto uma ética quanto uma dimensão espiritual. Converter-se é deixar de lado o que convém para buscar o que aperfeiçoa. Converter-se é separar-se do que degrada e orientar-se para o que enche de vida. Converter-se é dar as costas ao que separa de Deus para se pôr de frente para ele. Em suma, converter-se é humanizar-se.
Ser cristão envolve também uma certa transgressão, uma ruptura com um modo tradicional de compreender e direcionar a vida. Não se trata de romper com hábitos pontuais, com determinados costumes ou práticas, mas de reorientar a vida em todas as suas circunstâncias pelos cainhos do Evangelho.
Quando se fala de alguém convertido ao cristianismo, não se deve referir apenas a alguém que mudou de religião, ou que tenha experimentado uma mudança radical de vida ou mesmo que tenha abandonado o ateísmo. Ser cristão está mais para a metáfora do apaixonado, aquele que é capaz de dizer que encontrou o sentido da vida na pessoa de quem ama. O cristão é aquele que segue Jesus como que guiado pelos desejos mais profundos do seu coração.
A conversão, portanto, é um processo que envolve nossa atitude que abarca a vida inteira, no sentido de se colocar na direção correta.

sexta-feira, 3 de março de 2017

Ser igreja / Church / Ser iglesia

A igreja não é um lugar para ir, mas um modo de ser. Essa afirmação traz consigo uma série de implicações que exigem uma reflexão mais aprofundada. Falar de igreja não é uma coisa fácil. Primeiramente, é preciso que se diga de que tipo de igreja estamos falando: se uma comunidade local, se uma estrutura mais ampla que abarca as comunidades locais ou se a comunidade universal de todos os crentes.
Quando Jesus disse aos seus discípulos que edificaria a sua igreja, não tinha em mente nenhuma dessas características. Ele falava de uma relação em torno de sua pessoa. A igreja é a reunião de todas as pessoas que Jesus Cristo reivindica para si, através das quais toma forma no mundo
John Stott, em seu livro A igreja autêntica, afirma que “a igreja está no centro do propósito de Deus para a humanidade”. Entretanto, ela é uma das instituições que tem sofrido uma transformação acentuada ao longo da sua existência e que mais tem perdido credibilidade em tempos pós-modernos.
O que chamamos de igreja hoje é resultado de uma construção social e histórica que envolve um percurso que começa com os primeiros cristãos. A igreja teve seu início como um movimento daqueles que tinham uma experiência com Cristo e que estavam dispostos a seguir seus ensinos e seu exemplo. Quando chegou à Roma, a igreja se constituiu como uma instituição, e tomou a forma de uma religião como as muitas religiões que existiam no império Romano. Com a chegada à América, ela se tornou uma organização, assumindo cada vez mais a natureza corporativa e burocrática que a revolução industrial produziu.
A igreja movimento era centrada na paixão de seus frequentadores, comprometidos com aquilo que acreditavam e com a experiência que possuíam. Ela atraía seguidores pela atitude dos que eram fiéis, que vivem em solidariedade, eram generosos e misericordiosos com todos e se encorajavam uns aos outros diante das perseguições.
A igreja instituição era voltada para a manutenção da devoção e da herança doutrinária que recebeu dos apóstolos. Seus fiéis tinham a obrigação de seguir um credo, cumprir um rito, obedecer aos superiores hierárquicos. A adesão de fiéis era marcada pelo medo da ira futura, como fuga da danação eterna. A solidariedade deu lugar às obras de caridade e esmolas, generosidade foi substituída pela obrigação, a misericórdia se transformou em uma penitência, a vida passou a ser encarada como um vale de lágrimas e a dinâmica da fé passou a ser vista a partir de uma relação de poder.
A igreja organização era voltada para o sentido de missão, mas não como compromisso de realizar os propósitos divinos na vida humana, mas como tarefa de gerenciar resultados. Seus fiéis foram transformados em consumidores, seus líderes em gestores e a fé como um produto a ser consumido de forma cada vez mais facilitada. A Missio Dei foi substituída por uma estratégia de crescimento e o mundo compreendido como um grande mercado em expansão.
A constatação mais ingênua diante desse processo é imaginar que precisamos retornar à igreja movimento, abrindo mão de todo arcabouço histórico, teológico e até material que a instituição e a organização da igreja conquistaram. Não podemos negar que a igreja é herdeira de um passado de conquistas, ela não chegou até aqui somente fundada em erros, mas também em muitos acertos que influenciaram decisivamente os rumos da história e da vida humana. Até por que, se a ideia de ser um movimento suficiente por si mesmo fosse o bastante, não teria se desenvolvido para os modelos seguintes.
Sim, a igreja precisa aprender a ser movimento, instituição e organização. Isso quer dizer que: como movimento, precisa despertar nossa paixão; como instituição, precisa ser a nossa identidade e, como organização, precisa orientar nossa ação no mundo. O que a igreja não precisa é cristalizar-se apenas como um movimento, senão não passa de uma tendência; nem apenas como instituição, senão se torna um costume; nem mesmo apenas como organização, senão vira um negócio.
A igreja que Jesus tinha em mente não era nada disso. Ela deveria ser uma comunhão. A igreja está para além do domingo, do clero e do templo. Também está para além do dogma, do credo e do sínodo. Diria mais, ela está para além da liturgia, do magistério e até da eucaristia. Antes todas as ações devem fazer com a igreja comunhão sobressaia, caso contrário não vai passar de movimento, de instituição e de organização.
A igreja comunhão se faz em meio ao discipulado, à evangelização e ao ato celebrativo. Implica um senso que coloca a vida a serviço do outro e do mundo, que desperta um sentido de pertença, que produz uma vida de testemunho e que fortalece os laços da vida comunitária. Uma igreja assim ganha relevância diante do mundo e é um convite para restaurar nossa relação com Deus. Porém, uma igreja diferente disso é um sinal de que a enfermidade que contamina e destrói a humanidade também já chegou até nós.

sábado, 25 de fevereiro de 2017

Verdade, meias verdades, pós-verdades / Truth, half truths, post-truths / La verdad, medias verdades, post-verdades

A verdade é sempre construída em meio a uma relação de poder. Ela é um desejo, uma aspiração a que os homens não têm acesso de forma plena. Ela sempre está velada ou mesmo falseada pelas tramas da linguagem. Entretanto, ela é buscada pela filosofia, pela ciência e pela religião como um ideal. Numa perspectiva metafísica, ela está inserida numa relação entre a percepção do mundo e o que se diz dele. O problema é que a verdade é sempre ela mesma, mas o mundo é vivo, está sempre em transformação.
Falar de verdade hoje implica trazer à tona os conceitos de meia verdade e de pós-verdade em voga nos meios de comunicação. Para compreender esses termos e seu emprego nas relações políticas de hoje implica partir do pressuposto de que a verdade não se limita a uma situação fática, do tipo “o livro está sobre a mesa”. A essência da verdade é de outra ordem. Ela está além do discurso. Deveríamos até argumentar aqui que não podemos falar de uma verdade absoluta, mas de verdades no plural.
Esses termos não são opostos à verdade. Do mesmo modo, o oposto de verdade não é simplesmente mentira nem mesmo um erro. A mentira é um valor moral, usado com uma certa intencionalidade. O erro é do âmbito do conhecimento, resulta de uma atitude em aceitar algo como verdade sem antes investigar. Tanto a mentira como o erro são valores que se colocam diante da verdade, falseando-a, encobrindo-a e se oferecendo como alternativa.
Meias verdades e pós-verdade são aspectos morais de se lidar com a verdade. Pense nesses termos:
As meias verdades são mentiras inteiras. O grande problema delas é quando quem as conta opta pela metade mentirosa. A metade verdadeira sempre permanece sob suspeita. A meia verdade é ingênua. Crianças, amantes e companheiros fazem uso dela para conservar a relação, para proteger o outro ou mesmo para se preservar. Isso não faz dela uma coisa boa. Mas expõe a realidade de que as pessoas nem sempre elaboram um discurso que comporta toda a verdade.
A pós-verdade é um jogo político, em que se divulga uma informação falsa, exagerada ou com interditos para criar uma sensação de verdade. A pós-verdade é cruel. Geralmente é lançada em redes sociais com cara, jeito e foro de verdade para aniquilar o outro. Ela é mais do que um falseamento, é uma fraude. Está carregada de apelos emocionais e de interpretações de fatos e acontecimentos de forma desconexa. O termo foi criado pela imprensa norte-americana para tratar do fenômeno da eleição de Trump à presidência de um modo politicamente correto.
Kant já dizia que “a verdade é um dever para com quem tem direito a ela”. Ele estava preocupado se a verdade pode ser compreendia como coerência ou como correspondência com o real. Na sua crítica à razão pura, vai compreender que “a verdade do objeto é sempre apreendida e substanciada através da verdade do juízo”, ou seja: a verdade é subjetiva.
Nietzsche, por sua vez, afirmou que “a verdade não significa necessariamente o contrário de um erro, mas somente, e em todos os casos mais decisivos, a posição ocupada por diferentes erros uns em relação aos outros”. Não passa de uma vontade de verdade. Por meio da linguagem, somos capazes de criar um mundo de ficções e de interpretações que são úteis para a afirmação de nossas relações, de nossa existência e até para o nosso fortalecimento.
A relação humana com a verdade é de preservação da espécie, para conservar posições e para afirmar convicções. O próprio instrumental lógico e racional construído para se buscar a verdade – seja através da ciência, da teologia ou mesmo da filosofia – é resultado de um longo processo histórico e demonstra o quanto estamos distanciados de valores absolutos. O único que foi capaz de declarar “eu sou a verdade” foi crucificado. Diante da indagação de Pilatos, sobre “o que é a verdade”, Jesus não respondeu.
Dizer que a verdade não existe seria um exagero. Não só ela existe como também as pessoas estão à procura dela. Os gregos usavam a palavra “aletheia” para se referir a ela. Significa “não encoberta”, ou seja, ela se desvela, precisa estar desnuda. Mas isso não acontece de forma natural, exige uma transformação do sujeito. Como afirmou René Descartes, “para pesquisar a verdade, é preciso duvidar, quanto seja possível, de todas as coisas, uma vez na vida”.
A verdade se encontra num campo indeterminado entre o sujeito e o objeto; não pertence ao sujeito nem ao objeto, mas a uma instância mediadora que põe o sujeito e o objeto em relação. O discurso verdadeiro é aquele que traz à luz aquilo que está encoberto pelas imposições do saber, naquelas situações de confronto em que somos interpelados. A verdade não é algo em relação a alguma coisa, mas ao que se é diante de si mesmo.

domingo, 29 de janeiro de 2017

Esperança como transgressão / Hope as transgression / La esperanza como transgresión

“Descanse somente em Deus, ó minha alma; dele vem a minha esperança” Salmos 62.5
A esperança é uma virtude de quem consegue enxergar além das circunstâncias. Ela é da ordem da transgressão. Crer que algo é possível apesar das circunstâncias contrárias não é um exercício de otimismo ou de pensamento positivo. Isso depende de uma disposição diferente de se esperar.
Não é à toa que a esperança é uma das três virtudes teologais. Juntamente com a fé e a caridade, a esperança é uma força que o Espírito Santo confere por graça ao que crê a fim de aumentar a confiança e fortalecer a que seja perseverante. Para quê? Primeiro, para que creiamos na veracidade das promessas divinas, mesmo quando tudo parece contrário. Segundo, para que pratiquemos a vontade divina, mesmo quando tudo parece dar errado.
A fé é o fundamento sobre a qual descansa a esperança, e a esperança alimenta e sustenta a fé. A esperança renova e vivifica a fé sempre de novo e cuida para que sempre de novo se levante mais forte, para perseverar até o fim. Como disse Calvino: “Se faltar a esperança, por mais que falemos da fé de forma genial e eloquente, podemos estar certos de que não temos nenhuma!”
A esperança, portanto, é o que nos encoraja a seguir adiante. Ela está presente quando somos capazes de rir na hora da dor, quando nos sentimos realizados na hora da perda, quando buscamos forças em meio à luta, quando mudamos o rumo em meio à crise. Nasce de nossas carências e nos impulsiona para a resistência contra o que nos impede de seguir em frente.
O poeta francês Charles Péguy cantou certa vez:
O que me espanta, diz Deus, é a esperança.
Eu fico pasmo.
Essa pequena esperança que parece uma cousa de nada. [...]
A Esperança é uma meninazinha de nada. [...]
Entretanto é essa meninazinha que atravessará os mundos.”
A esperança é mais do que espera. Paulo Freire dizia que a esperança de que precisamos é a do verbo “esperançar”, e não a do verbo “esperar”. É ela que restaura o sonho e aponta um sentido. Por ela, um novo horizonte surge a cada instante que se avança. Ela é a expectativa da conquista, é o que proporciona esclarecimento e libertação. Sem esperança, a vida é só espera, viver não faz sentido algum, perde-se o horizonte e não há motivos para seguir adiante.
A falta da esperança é só perda. Enquanto a esperança nasce de nossas carências, a falta dela vem da alienação. A esperança encoraja, a falta dela cria uma relação de dominação. A esperança transforma, a falta dela favorece exploradores.
É preciso ter esperança neste tempo em que há tanto desespero. É preciso desejar como Paulo: Que o Deus da esperança os encha de toda alegria e paz, por sua confiança nele, para que vocês transbordem de esperança, pelo poder do Espírito Santo” (Romanos 15.13).

domingo, 15 de janeiro de 2017

Inabalável: relação entre fé e cultura a partir de Daniel / Unshakeable: considerations about faith and culture from Daniel / Inamovible: la relación entre la fe y la cultura en Daniel

Daniel, você é muito amado. [...]” (Daniel 10.11). 
Daniel é um exemplo de alguém que viveu a fé em seu tempo de maneira autêntica. Há uma relação entre fé e cultura e entre fé e realização histórica que não é levada em consideração pela maioria das pessoas que segue uma religião. A vida de Daniel, porém, conforme narrada na Bíblia, demonstra que ele enfrentou suas circunstâncias pessoais dentro de uma compreensão de seu tempo sendo perseverante e determinado em tornar-se um instrumento nas mãos de Deus para influenciar seus contemporâneos.
Daniel era um judeu de uma família nobre. Quando os caldeus dominaram a cidade de Jerusalém, em 605 a.C., ele e alguns outros jovens foram levados como escravos para Babilônia. O rei dos caldeus, Nabucodonosor, ordenou que fossem escolhidos aqueles mais capazes para que fossem preparados para servi-lo em seu palácio. E Daniel, juntamente com seus três companheiros Hananias, Misael e Azarias, estava entre os escolhidos.
Tomando por base a narrativa bíblica, dá para entender que Daniel passou o resto da sua vida naquela mesma região. Ele enfrentou várias situações que colocavam em risco sua vida, mas permaneceu firme em suas convicções de fé. Apesar de todas as provações, conseguiu desempenhar funções importantes dentro da dinâmica da vida social até o fim do império babilônico, que veio a cair diante do império medo-persa em 539 a.C. Mesmo na velhice, Daniel ainda serviu por alguns anos no governo desse novo império mantendo uma fé inabalável.
Sua fidelidade e determinação em fazer a vontade de Deus fizeram com que Daniel fosse reconhecido como um homem “muito amado” (Daniel 10.11). No livro do profeta Ezequiel, Daniel é mencionado como um dos grandes exemplos de justiça e retidão em meio a todo cenário do cativeiro babilônico, alguém tão digno como os exemplos de Noé e Jó (Ezequiel 14.12 e 20).
Essas suas credenciais permitiram que ele fosse usado pelo Senhor para ser portador de uma mensagem que trazia uma nova perspectiva história a respeito dos propósitos de Deus para a humanidade. Essa mensagem permanece viva e atual.
Através de uma linguagem simbólica, retirada da cultura de seu tempo, fica claro que ele apresenta o curso da história, apontando significados e esquadrinhando seu desenvolvimento até um final de acordo com um propósito divino. Sua narrativa demonstra que o Deus que criou o universo e a vida humana está no controle do tempo e conduz a história para um fim conforme a sua vontade.
Claro que isso não acontece sem que haja uma tensão entre os fatos históricos e as promessas divinas, entre os fenômenos culturais e a fé. O problema é que somos herdeiros de uma teologia que construiu uma separação entre revelação divina e realização histórica, entre fé e cultura. Porém, é preciso compreender que a as promessas divinas se realizam historicamente e que a fé deve ser expressa no contexto de uma cultura. E o livro de Daniel nos ajuda a compreender isso.
Para Daniel, a história humana e as manifestações sobrenaturais do poder de Deus estão inter-relacionadas. Por conta disso, podemos assumir uma atitude mais otimista diante de crises, catástrofes, conflitos e dominações. Essa compreensão bíblica da histórica nos ajuda a desenvolver a esperança e a ter uma mensagem encorajadora para aqueles que sofrem a opressão, a injustiça, a perda e a exploração.
Daniel nos ajuda a entender que a realização histórica necessita de um horizonte, caso contrário será sempre compreendida apenas como uma sucessão de acontecimentos. Os propósitos divinos apontam para um sentido da história. Por essa razão, o livro bíblico é considerado como parte de uma literatura apocalíptica, que aponta para o fato de que Deus está no controle da história, subvertendo relações de poder e trazendo seu reino aos homens a fim de que seus propósitos eternos se cumpram.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Qual o sentido da vida? Refletir sobre a existência como forma de resistência / Reflection on existence as resistance / La reflexión sobre la existencia como una forma de resistencia

Quando a gente passa por situações que demandam muito estresse, angústia e desilusão, é muito comum se perguntar qual o sentido da vida. Qual o sentido da vida? Eu tenho uma resposta boa e uma ruim para essa pergunta. A ruim é que a vida não tem um sentido. O que faz a vida ter sentido é viver. A boa é que, na medida em que vivemos, a vida vai ganhando novos contornos a partir das relações que construímos.
Não acho legal ficar procurando o sentido da vida, até porque o bom da vida está ligado às coisas que construímos e que sonhamos. Perguntar pelo sentido da vida é levantar a questão antiga da filosofia sobre a existência. Ela tem a ver com a nossa realidade individual concreta, que não dá para ser explicada ou demonstrada, mas que pode ser descrita e a partir da qual podemos estabelecer juízos de valor.
Aristóteles já dizia que a existência é um atributo do ser. É o fato de que você é aquilo que é. O problema é que a existência está vinculada imediatamente a uma essência. Ou seja, você é o que é na medida de suas circunstâncias.
A Modernidade procurou relacionar o sentido da existência à racionalidade. Descartes afirmou “Penso, logo existo” como se a existência dependesse do pensamento ou como se a base para se compreender a existência dependesse da razão. Espinosa, crítico de Descartes, disse que a existência implica um esforço. O que chamou de conatus ou o esforço de existir é uma característica do próprio ser. Hegel, de novo, tentou demonstrar que tudo o que é real é racional e tudo o que é racional é real. Mas ficaram de fora os aspectos imponderáveis de nossa existência.
Foi Kierkegaard quem se revoltou contra essa crença moderna de que a razão pode dar conta de todos os aspectos relacionados à vida, sejam eles morais, religiosos, políticos ou estéticos. Para Kierkegaard, a existência humana é marcada por três estágios que envolvem uma tentativa de resgatar a integridade do ser humano como uma pessoa que é capaz de fazer escolhas, que se angustia e que também se desespera. O primeiro estágio é o estético, aquele que é orientado pela aparência e pelo desejo numa busca de uma afirmação de si. O segundo estágio é o ético, que é orientado pelo valor e pela moral, procurando encontrar seu lugar na vida social. Porém, esses estágios não são suficientes para dar conta de nossa própria condição, resultando em um vazio. Para dar conta desse vazio, Kierkegaard propõe o salto da fé, que é assumir o que se é diante de Deus. É em meio a esse vazio que o homem encontra formas de rever seus valores e suas relações. Quando chega a esse ponto, encontra-se no estágio que Kierkegaard chama de religioso, que é aquele em que se torna possível reconhecer o valor de sua própria existência.
Heidegger, já no começo do século XX, entendeu que a existência é marcada por uma busca de sentido, um problema que nunca foi resolvido na filosofia. Ele construiu a noção do ser-aí, que é conhecido pela palavra alemã “dasein”. Embora o ser não possa ser definido em sua essência, é possível compreendê-lo a partir de sua relação recíproca como ser-no-mundo. Nesse sentido, a existência humana é dotada de um certo privilégio, pois é cercada por um senso de responsabilidade e de liberdade. A existência humana é marcada pela nossa mundanidade, pela nossa capacidade de transcendência, pela nossa temporalidade e pela nossa finitude. O ser humano está sempre diante da possibilidade de tornar-se algo, de projetar-se para além do que é, de encontrar vínculos entre o que já foi e o que ainda será, e de realização em meio à sua própria incompletude.
Por essa razão, Sartre afirmará que a existência precede e determina a essência. É, portanto, a nossa realidade que não dá para ser reduzida a uma mera explicação causal, mas que dá para ser percebida e analisada a partir de suas situações concretas. Nós nunca encerramos em nós mesmos a totalidade, mas estamos sempre abertos a novas possibilidades. Como disse o filósofo existencialista cristão Gabriel Marcel: “Existir é coexistir”.
O salmista se depara com esse dilema e registra: “Quando contemplo os teus céus, obra dos teus dedos, a lua e as estrelas que ali firmaste, pergunto: Que é o homem, para que com ele te importes? E o filho do homem, para que com ele te preocupes?” (Salmos 8.3,4). Não há uma razão lógica para isso. Está acima de todas as razões, como diria Miguel de Unamuno. Para o filósofo espanhol, enquanto houver vida em nós, se quisermos que ela possa valer a pena, não devemos procurar justificação alguma para nosso estado de luta interior, de incerteza e de anseio: “é um fato e basta”.

domingo, 8 de janeiro de 2017

Novos começos, pequenos começos / New beginnings, small beginnings / Nuevos comienzos, pequeños comienzos

“Ora, quem despreza o dia das coisas pequenas?” (Zacarias 4.10 RAA).
O começo de um novo ano é sempre tempo de fazer novos planos. Começar um novo curso, aprender um novo idioma, fazer aquela dieta tantas vezes adiada, economizar dinheiro para realizar sonhos, praticar exercícios físicos. Enfim, não passam de planos. Muitos não resistem à primeira semana e, quando chegarmos a dezembro, vamos ver que a maior parte deles não conseguiu ser concretizada.
Se você fizer um balanço da sua vida, vai verificar que todo ano é a mesma coisa: fazemos planos e praticamos muito pouco do que gostaríamos. Por que a maioria dos nossos alvos para o Ano Novo não são colocados em prática e a maior parte deles é até esquecida? Basicamente porque é próprio de nossa condição humana fazer planos. Somos pessoas com abertura para o futuro.
Embora não possamos prever o futuro, temos condições de idealizá-lo. Para isso, dois aspectos são determinantes: nossos desejos e nossa memória. Os desejos orientam nossa vida. A memória nos lembra nossas carências. Os desejos nascem das carências, a memória as apontam. Desejo e memória estão inter-relacionados de tal modo que um não existe sem o outro.
Por causa dos desejos, nos tornamos capazes de sonhar. Afinal, por que você quer um carro melhor, um celular novo, conhecer um lugar diferente, comprar um bem, desfrutar de um serviço de qualidade? Somos seres dotados de desejo e pessoas que desejam sonham.
Por causa da memória, reportamos ao nosso passado, lembramos daquilo que nos constitui como pessoas. Nossa história de vida, nossas vitórias e fracassos, nossos temores e até o que nos aflige passam em nosso pensamento o tempo todo como um filme repetido, lembrando aquilo que temos mais necessidade.
Por causa do desejo e da memória, cada passo dado na direção do futuro se torna tanto um desafio quanto uma conquista. O desejo nos encoraja a dar um novo passo e a memória nos ajuda a fazer ajustes. O desejo aponta a direção do próximo passo, a memória nos orienta a passada. O desejo nos impulsiona, a memória registra a caminhada. O desejo constrói planos, a memória lhes dá significados.
Por isso que cada pequeno começo é dotado de uma pluralidade de sentidos. Todo grande projeto depende de um pequeno começo ligado a um sonho e a uma história. Por essa razão, o profeta indaga: “quem despreza o dia das pequenas coisas?”
Certa vez, Elias se refugiou no monte Carmelo, escondendo-se da seca e da fúria do rei Acabe. Havia a promessa de que Deus enviaria a chuva, mas no céu não havia uma nuvem sequer. Elias pediu ao seu ajudante para vigiar o céu, até que este disse: “uma nuvem tão pequena do tamanho da mão de um homem está se levantando do mar” (1 Reis 18.44). Então Elias mandou avisar ao rei para que se apressasse, pois a chuva já estava chegando.
Assim são os pequenos começos. Eles significam um passo dado de cada vez em direção às grandes realizações. Não vale a pena desprezá-los.

Assista:

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