segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Consciência Negra: Por que ainda precisamos de um dia para lembrar? / Black Consciousness: Why do we need a day to remember / Consciencia Negra: ¿Por qué necesitamos un día para recordar

É preciso ter vivido a condição de negro para saber o porquê de um Dia da Consciência Negra. Eu, que nasci branco, não sei qual é a dor de se sentir excluído, oprimido e marginalizado por causa da cor da pele. O fato de ter sido pobre, estudado em escolas públicas em todos os níveis, crescido na periferia de um grande centro, convertido à fé evangélica e formado em meio à luta contra desigualdades a partir de um viés mais à esquerda não me dão a ideia do que um negro ou uma negra passa em termos de discriminação, preconceito e falta de oportunidades.
Por mais que eu me esforce, ou estude, ou leia, jamais vou alcançar o sentimento de quem se descobre diferente por causa de um tratamento ofensivo, de uma agressão moral ou física, de um olhar de desconfiança somente pela aparência. Nunca fui expulso de um ambiente, barrado em uma festa, excluído de um grupo ou demitido por causa da minha feição física. Isso para não falar da maneira desigual em que é tratado durante uma ação policial, diante de uma concorrência por emprego, na busca de cuidado por bem-estar.
Vivo num país dominado por uma elite branca, em meio a uma população de maioria formada por negros e pardos. Só nisso dá para se ter uma ideia de que a luta da comunidade dita afrodescendente – de acordo com o politicamente correto – é desigual. Políticas de cotas, leis contra o racismo e campanhas publicitárias pelo fim do preconceito não têm sido suficientes. As marcas de uma história escravocrata e de um racismo velado ainda estão vivas nas principais mídias, nas universidades, nas altas instituições da sociedade.
Volta e meia você precisa assistir, nesta terra, discursos como o do notável jurista Ives Gandra da Silva Martins, que se acha um “modesto” professor, injustiçado por ser branco em face da luta por espaço por aqueles que não tiveram a mesma sorte de ser luso-descendente. Ou as reações a uma piada racista feita pelo âncora de um dos principais noticiários da maior empresa de TV do país. E há até quem tenta substituir a ênfase do Dia da Consciência Negra por uma consciência humana. Se não formos capazes de nos darmos conta da humanidade que há nesse dia, não é mudando o foco que vamos conseguir. O primeiro passo para a formação de uma consciência humana passa pelo mínimo de respeito à consciência negra.
Não, eu não sei o que é ser negro. E nunca vou saber. E nem adianta tentar buscar formas de entender. O que preciso fazer é me dar conta da história de dor, de luta e de sofrimento de quem não é branco como eu. E não é um fato que envolve o Brasil. Ela está presente em todos os lugares do mundo em que o negro, em todas as épocas, foi visto como sub-humano. Até mesmo na mãe África, explorada por quem sempre se achou civilizado.
A lógica da escravidão, da segregação, do Apartheid, da supremacia branca e de outras mentalidades racistas só têm lugar em meio à falta de consciência sobre a condição humana de quem nasceu negro. E elas estão ainda aí fazendo suas vítimas. O Dia da Consciência Negra é para lembrar que quem quer manter o negro oprimido é uma sociedade dominada por uma elite branca. Se você não consegue perceber isso, é sinal de que precisamos dessa conscientização. Que em pelo menos um dia do ano a gente seja capaz de parar para pensar nisso, e tomar consciência. Se isso nos conduzir a uma atitude de respeito, é um bom começo.

domingo, 5 de novembro de 2017

O poder extraordinário da oração / The Extraordinary Power of Prayer / El poder extraordinario de la oración

Todo mundo enfrenta circunstâncias difíceis na vida. Se você não está passando agora, certamente já passou alguma vez e muito provavelmente virá a enfrentar lutas e grandes desafios. Isso faz com que todos nós precisemos de algo que nos dê um impulso, que nos encoraje, que desperte em nós um estímulo para seguir adiante apesar das condições desfavoráveis que possamos experimentar.
A oração é um recurso de que dispomos como um alento para as horas de aflição, como um grito de socorro na hora do medo, como um refúgio diante de nossos fracassos. Orar é o reconhecer nossa dependência de Deus, uma declaração de que não somos tão suficientes como imaginamos, que não temos o controle sobre as circunstâncias, que somos mais orientados pelas nossas incertezas do que pelas nossas convicções.
A oração é sinônimo de aproximação, de diálogo, de intimidade. Aquele que ora se abre para uma relação mais íntima com Deus, aceita humildemente a oportunidade de estar diante daquele que tudo pode mesmo apesar de ser aquele que nada pode. Ela alimenta a nossa relação com Deus e nos estimula a viver a fé em meio às nossas condições mais concretas de vida.
O maior mestre de oração foi Jesus Cristo não só por ter ensinado seus discípulos a orar, mas também por desenvolver uma vida significativa de oração. E essa é uma forte justificativa por que devemos orar: Jesus orou e ensinou a orar. Jesus orou ao começar o seu ministério e orou quando teve que suportar a cruz. A oração esteve presente nos momentos mais expressivos, como a ressurreição de seu amigo e a preparação para a sua prisão final, como também nos seus momentos de maior solitude. Jesus orou em companhia dos seus discípulos, diante das dores das pessoas e pelo futuro daqueles que o viriam segui-lo.
Se queremos experimentar o poder extraordinário da oração, precisamos aprender com Jesus. Jesus também enfrentou situações difíceis. E em todas elas, Jesus demonstrou que, quando nossos sentidos estão voltados para Deus, encontramos confiança e segurança de maneira singular. Jesus estava certo de que estava cumprindo o propósito de Deus para sua vida em seu tempo.
A oração é o remédio divino para a ansiedade, para o medo e a solidão. A oração não muda a realidade externa, mas altera completamente o nosso interior. A oração não move o braço de Deus, mas move o nosso coração na direção de experimentar a vontade de Deus. Ela nos ajuda a manter o foco nos propósitos divinos e, com isso, descansar no Senhor e descobrir o que realmente importa para cada circunstância vivida.
A falta de oração na vida é um grave problema. Mas, pior do que isso, a oração usada equivocadamente é um pecado gravíssimo. Usar a oração como arma de defesa, como fuga da alma, como instrumento de barganha ou tentativa de controlar o poder de Deus é sinônimo de fracasso espiritual. A oração revela o nosso caráter. Se você quer saber qual é a sua índole, quais as suas reais intenções de caráter e a maneira como você compreende Deus, basta fazer uma análise honesta dos seus motivos de oração.
Assim como a oração pode desvendar nossas ambiguidades e equívocos, ela é o caminho seguro para reparar nossas distorções, visto que Deus conhece nossas fragilidades e está sempre pronto a nos fortalecer. A oração é sinônimo de uma espiritualidade madura. Quando oramos, nossa mente e coração estão atentos ao cuidado divino, que fala e age como um pai amoroso. Deus se revela com poder e graça ao coração mais acolhedor e humilde.

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Celebrar a Reforma / Celebrate the Reformation / Celebrar la Reforma

A geração atual tem o privilégio de comemorar o quinto centenário da Reforma Protestante de uma forma única na história. Nunca antes o cristianismo pode celebrá-la tal como tem sido marcado, com conferências, publicações e reconhecimentos do mérito e do legado dos reformadores, envolvendo não só protestante, mas também católicos.
Há duas razões para isso. A primeira é a superação dos mal-entendidos produzidos pela contrarreforma católica, não só com as tentativas reformadoras do concílio de Trento, de 1545 a 1563, como também pelas campanhas difamatórias empreendidas pela igreja católica contra Lutero. Em 1529, Johannes Cochlaeus, que era um adversário do luteranismo e também o primeiro biógrafo de Lutero, descreveu o Reformador como “tendo sete cabeças”, filho “ilegítimo de Satanás”, “instrumento do demônio” que trouxe “à Alemanha e à cristandade a desgraça e a miséria” e “uma cópia humana de Lúcifer”. E essa foi a ideia que se nutriu por muito tempo.
A compreensão sobre a pessoa de Lutero só começou a ser alterada a partir do começo do século XX, com o trabalho do teólogo católico Yves Congar, que considerou a obra de Cochlaeus como “uma imundície que não pode ser desculpada nem mesmo pela intenção do autor de servir à sua igreja” (apud Elben M. Lenz Cesar, em Conversas com Lutero). Por ocasião do quinto centenário do nascimento de Martinho Lutero, em1983, o Papa João Paulo II escreveu uma carta ao cardeal Johannes Willebrands, então Secretário para a União dos Cristãos, sobre a necessidade de se chegar a uma compreensão “justa” sobre a imagem de Lutero como alguém que contribui decisivamente para as transformações da igreja no Ocidente. Recentemente, o atual Papa Francisco tem afirmado a necessidade de diálogo e aproximação entre católicos e protestantes em face das comemorações dos 500 anos da Reforma.
Quando a Reforma completou o seu primeiro centenário, a Europa estava mergulhada nos atos provocados pela inquisição católica. Somente entre os séculos XVI e XVII, os tribunais católicos efetuaram mais de mil execuções. A perseguição aos movimentos protestantes huguenotes na França e valdenses na Itália foi violenta. A repressão ao protestantismo ceifou milhares de vidas.
Quando a Reforma completou o seu segundo centenário, a Europa estava tomada por uma nova mentalidade científica. O Iluminismo nascente apregoava a superioridade da razão sobre a fé. Voltaire começava seus discursos sobre as liberdades civis e a necessidade de uma reforma racional, por meio do progresso da ciência e da tecnologia, em que a religiosidade não poderia mais ter lugar.
Quando a Reforma completou seu terceiro centenário, o mundo passava por uma grande transformação política e econômica. Emergia o conceito de estado burguês, assim como um crescimento vertiginoso da concentração de renda motivado pela revolução industrial. As antigas colônias buscavam sua emancipação, o capitalismo ampliava suas bases teóricas, o cientificismo tomava conta dos meios acadêmicos e o romantismo marcava a estética e a arte literária daquele tempo.
Quando a Reforma completou seu quarto centenário, o mundo estava em guerra. Era o auge da Primeira Guerra Mundial e as revoluções populares que levaram ao fim do czarismo na Rússia e às transformações sociopolíticas em todo o mundo. Pela primeira vez, as tropas usavam tecnologia para a destruição do inimigo. A humanidade, que havia sonhado com o tempo em que poderia voar e se locomover em maior velocidade, agora via o uso do avião, da metralhadora e do automóvel como armas de combate. É o começo do grande desencantamento e a afirmação do niilismo.
Quando a Reforma completa o seu quinto centenário, o mundo não está em paz e muito menos tem se transformado em um lugar melhor para se viver. Pela primeira vez, a humanidade se vê diante de uma possibilidade real de extinção em que a principal causa é o próprio homem. Problemas como o aquecimento global, a crise migratória, o crescimento da mentalidade de extrema direita e até as novas faces dos fundamentalismos religiosos colocam em risco a vida humana no planeta. Lembrar a Reforma e trazer de volta um sentido de espiritualidade que restaura a compreensão em um Deus de graça e misericórdia, que resgata o homem de sua própria perdição por meio da fé em Jesus Cristo.
Celebrar a Reforma hoje não pode se restringir a uma declaração ufanista de um movimento que deu certo, até por que teve seus problemas. É claro que deve haver um reconhecimento do importante papel que ela exerceu no campo da política, da economia, da teologia, da filosofia e das relações sociais. Entretanto, faz-se necessário compreender o espírito dos reformadores, que não quiseram apenas dividir a igreja, mas renová-la para enfrentar as grandes transformações que o mundo atravessava e que ainda vem atravessando.
Celebrar a Reforma tem um sentido de gratidão pela coragem dos primeiros reformadores, mas também de um chamamento a uma resistência à tendência de se prender a um conservadorismo paralisante, um moralismo discriminatório e a um fundamentalismo obscurantista. Celebrar a Reforma deve ser muito mais um ato de resistência às muitas formas de cercear a liberdade, de impor mais opressão e de exercício de totalitarismos. É promover a grande revolução que restaura o sentido de humanidade e que nos conduz a uma vida mais humana diante de Deus e uns dos outros.

terça-feira, 31 de outubro de 2017

O Futuro da Reforma / The future of the Protestant Reformation / El futuro de la Reforma Protestante

Após cinco séculos da Reforma Protestante, a pergunta que se levanta é: qual é o seu futuro? Isso remete a outras indagações: precisamos de uma nova reforma hoje? As transformações que o cristianismo precisa experimentar hoje são da mesma natureza das do tempo da Reforma de Lutero? As respostas a essas indagações são complexas e exigem um olhar crítico para o momento pelo qual a fé cristã atravessa no mundo.
As causas da Reforma são mais profundas do que os desvios morais e a corrupção do clero da igreja do Ocidente. Nas confissões protestantes – principalmente a luterana de Augsburg e a anglicana de Westminster –, haverá mais preocupação com questões teológicas do que morais, haverá mais ênfase à comunhão dos santos do que aos ofícios. “A tese segundo a qual os Reformadores teriam deixado a Igreja romana porque ela estava repleta de devassidões e impurezas é insuficiente”, dirá o historiador Jean Delumeau em Nascimento e afirmação da Reforma. Da mesma forma, as consequências da Reforma vão além do cisma na igreja ocidental. Ela se desdobra em novas conquistas sociais num mundo em grande transformação.
A Reforma Protestante trouxe uma nova perspectiva política, econômica e cultural num mundo em efervescência. Não se pode separar os acontecimentos da Reforma dos movimentos ligados à afirmação dos estados nacionais na Europa, do surgimento da economia de mercado e as raízes do capitalismo, da formação do pensamento liberal e o humanismo nascente. Os pensadores da Reforma dialogaram com as grandes correntes de pensamento de seu tempo e influenciaram de forma decisiva as ideias emergentes. A Reforma Protestante contribuiu para a uma nova compreensão do papel da cultura, do conhecimento e da participação social do indivíduo. Isso se deu a partir do esforço de trazer a Bíblia para as línguas nacionais, ao propor um projeto educacional extensivo às populações mais pobres e até ao fortalecer as formas de organização das sociedades que tiveram uma experiência reformista.
Karl Marx, em sua Crítica da filosofia do direito de Hegel, reconheceu: “Sem dúvida, Lutero venceu a servidão por devoção porque pôs no seu lugar a servidão por convicção. Quebrou a fé na autoridade porque restaurou a autoridade da fé. Transformou os padres em leigos, transformando os leigos em padres. Libertou o homem da religiosidade exterior, fazendo da religiosidade o homem interior. Libertou o corpo dos grilhões, prendendo com grilhões o coração”. Para ele, a Reforma foi um acontecimento revolucionário, que transformou a Alemanha, não como solução, mas como “o modo correto de colocar o problema”.
Se no período renascentista o cristianismo passava por uma crise interna que envolvia a moral e o exercício da autoridade eclesiástica, hoje há uma crise que tem mais a ver com a maneira como a fé cristã enfrenta os dilemas e as dores do mundo. Se as causas da Reforma diziam respeito a um retorno à essência do cristianismo, hoje há a necessidade de se buscar relevância. O que se faz necessário hoje não é uma “reforma”, mas uma revisão dos rumos, do discurso e da práxis do cristianismo. Se as causas da Reforma eram internas, hoje as transformações precisam se dar na esfera pública.
O cristianismo perdeu relevância. Uma das evidências disso é que, quando alguém procura uma experiência de espiritualidade, o último lugar em que se vai buscar é a igreja. Há mais sentido para o mundo na espiritualidade dos movimentos orientais, da vida alternativa e até da autoajuda do que na vida de devoção ou mesmo no seguimento de Cristo. E isso se deve à maneira como ficou configurado aquilo que o cristianismo tem de pior: o fundamentalismo religioso, a pretensão de religiosidade hegemônica e a incapacidade de dialogar com o mundo.
Se os reformadores enfatizavam o livre exame da Escrituras, o sacerdócio universal dos crentes e a justificação pela fé como orientadores de uma nova teologia, as igrejas herdeiras da reforma precisam apontar suas reflexões e condutas não para reafirmar ou rever tais princípios, mas para reorientar sua ação no mundo. Nesse sentido, a esfera pública faz emergir uma nova compreensão teológica que dê conta de uma igreja comprometida com o chamado divino de ser servidora de um mundo perdido. Afinal, essa foi a proposta de Jesus de Nazaré ao comissionar seus discípulos: “Antes, dirijam-se às ovelhas perdidas de Israel” (Mateus 10.6).
Uma igreja que se ocupa da esfera pública precisa rever a maneira como se identifica como povo de Deus, não como sectário, mas como corpo de Cristo no mundo. Há uma necessidade de se empreender um esforço ecumênico para se ressaltar mais o que une os cristãos no mundo do que aquilo que os divide. A igreja cristã precisa se afirmar como uma família de muitos irmãos e irmãos, e não como um gueto ou um lugar de fuga do mundo.
Uma igreja que se ocupa da esfera pública precisa desenvolver um sentido de comunhão para além da sua realidade interna. Isso implica o resgate do sentido de comunidade, que se desloca do círculo restrito das relações eclesiásticas e se estende para dentro do mundo. A igreja precisa deixar de ser a expectadora de um mundo em naufrágio, como se vivesse uma realidade distante, para ser coparticipante do cuidado com o mundo como sendo parte dele. É preciso ver o mundo como nossa casa comum, e não como um além.
Uma igreja que se ocupa da esfera pública precisa possuir um sentido de missão voltada para o ser humano em sua totalidade. A igreja não é portadora de uma verdade absoluta, imutável e inquestionável. Ela é anunciadora da boa nova de salvação a toda criação: o ser humano em suas múltiplas relações e complexidades. Ela não tem que defender verdades, mas ser agente de transformação e de libertação num mundo que perdeu-se de si mesmo. Foi Jesus quem lançou as bases para uma nova vida a fim de que possamos viver de forma humana diante de Deus. A igreja tem a missão de levar a toda humanidade a boa notícia de que é possível uma vida humana mais digna, justa e solidária conforme Jesus ensinou e viveu.
Após 500 anos, é importante entender o que foi a Reforma, não para repeti-la ou reafirmá-la, mas para inspirar um novo movimento em direção a uma vida cristã mais autêntica no mundo. O momento é de gratidão pelo legado da Reforma, o que ela contribuiu para a história da igreja como um todo. Mas também é de crítica, reconhecendo limitações e falhas que a igreja vem enfrentando ao longo do tempo.

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Reforma protestante e pluralidade / Protestant reform and plurality / Reforma protestante y pluralidad

Quando se fala de Reforma Protestante, não se refere a um movimento único e uniforme. Ela precisa ser compreendida a partir de uma perspectiva plural, que aconteceu em um contexto de pluralidade, desenvolveu-se de forma variada e configura-se também por uma diversidade. O correto seria falar de reformas protestantes ao se tratar do fenômeno de transformação que o cristianismo experimentou no limiar da Modernidade.
Entretanto, esse aspecto plural nunca foi visto como um fator positivo, identificado como promotor de uma relação entre “inimigos de si mesmos”, para usar a expressão empregada no título do livro de Rowland Croucher que faz uma abordagem sobre o fenômeno do evangelicalismo, do socialismo evangélico e do neopentecostalismo característicos do movimento protestante a partir da década de 1960.
O pluralismo protestante tem sido objeto de um diálogo impossível, marcado muito mais por aspectos organizacionais, doutrinários, litúrgicos e até moralistas do que aqueles voltados para a essência da fé, da comunhão e do amor cristão.
Como afirmou Claudio de Oliveira Ribeiro, no artigo Espiritualidades plurais da Reforma: “a vivência comunitária e a pluralidade constituem privilegiado potencial de geração de utopia e que a ausência de referenciais utópicos dá lugar a formas de individualismos exacerbados, de lógicas de exclusão e de sectarismos, de imediatismos políticos, de racionalismos e de absolutismos, o que enfraquece a vivência autêntica e gratuita da fé e a noção de diaconia como canal de solidariedade, partilha e serviço. Tal pressuposição está em íntima sintonia com os princípios teológicos da Reforma”.
Essa pluralidade está refletida na formação histórica, na proposta teológica e na concepção eclesiológica. Não há uma história única do protestantismo: a reforma aconteceu de forma distinta na Alemanha, na Suíça, nos Países Baixos, na Inglaterra, Europa Central. Houve também movimentos que foram duramente combatidos na França, na Itália e Espanha. Também não é possível se falar de uma única teologia protestante: a chamada “teologia reformada” pode ser entendida a partir de tendências luterana, calvinista e as que marcaram a chamada reforma radical, com os grupos anabatistas e grupos separatistas. Da mesma forma, não se pode falar de uma única eclesiologia protestante, visto que os grupos foram adotando diversas formas de organização e de estrutura, como os presbiterianos, os congregacionais, os metodistas, uns mais hierárquicos e outros mais democráticos.
Embora haja essa diversidade histórica de expressões da Reforma, essa condição de surgimento, formação e configuração não representa uma oportunidade de diálogo fácil entre as várias manifestações do protestantismo nem com outras formas de expressão do cristianismo.
É preciso desenvolver uma análise crítica das condições de construção do que ficou conhecido como Reforma Protestante e identificar suas várias tendências bem como os fatores que promovem aproximações e distanciamentos entre eles. Nesse sentido, é possível falar de antecedentes, de ações e de desdobramentos que são plurais em seu âmbito.
1) Antecedentes plurais – Os séculos XIII-XIV foram marcados por movimentos após o chamado Grande Cisma que reivindicavam mudanças na igreja do Ocidente que envolviam dois aspectos. O primeiro, voltado para a reforma da fé e da hierarquia eclesiástica, com a atuação de expoentes como Pedro Valdo, John Wycliff, João Huss, Comênio e Savanarola. O segundo, que propunha uma mudança de costumes, mais voltado para aspectos morais, como foi o caso da reforma humanista de Erasmo.
No fim da Idade Média, especialmente nos séculos XIV e XV, havia uma grande insatisfação popular envolvendo questões sociais e ações religiosas que provocavam um clima de insegurança. Como consequências desse quadro, podemos citar a contestação ao clero e a busca por justiça social.
Podemos encontrar pelo menos três vertentes que antecederam a Reforma:
a) Uma vertente acadêmica, marcada pelo declínio da escolástica e o apelo à volta da simplicidade do Evangelho. Um dos textos conhecidos é Imitação de Cristo, de Tomás de Kempis.
b) Uma vertente popular, marcada por movimentos marginais que se inspiravam em antigas ordens religiosas, como as dos franciscanos e dos dominicanos. Havia um apreço à vida monástica, um apego à prática de flagelos e penitências e a defesa de crenças escatológicas.
c) Uma vertente mística, marcada pela vida contemplativa e a ênfase numa teologia apofática. O Mestre Eckhart é um de seus representantes.
2) Ações plurais – Embora Lutero seja a figura de destaque do movimento da Reforma, o luteranismo não foi único. Outras expressões aconteceram ao longo de toda a Europa. Não podemos esquecer da participação de nomes como Zwinglio e Calvino, do anglicanismo, dos huguenotes franceses, de grupos radicais como os anabatistas e os separatistas ingleses, dos movimentos de reforma da Escócia e da Espanha, das comunidades mendicantes dos Países Baixos e do desdobramento místico do alemão Jacob Boehme e do espanhol João de Valdez. Outro teólogo que atuou de forma marcante foi Thomas Müntzer, que liderou um movimento de camponeses assumindo uma dimensão política e revolucionária do pensamento da Reforma, mas acabou sendo derrotado, preso e morto pelos próprios luteranos.
3) Desdobramentos plurais – Embora a Reforma Protestante tenha acontecido no final do período renascentista, ela se desenvolveu ao longo da Modernidade. Os acontecimentos históricos acabam se entrelaçando com outros eventos significativos desse período. Entre eles podemos mencionar a formação dos estados nacionais, o surgimento do pensamento liberal e a ênfase ao individualismo. Max Weber, inclusive, já tem identificado uma grande afinidade entre o protestantismo e o espírito do capitalismo, sistema político-econômico que se afirma no contexto da Modernidade.
No contexto do luteranismo alemão, surge o movimento pietista, que enfatizava a dimensão individual da experiência de Deus, com uma forte inclinação moralista e um apelo ao estudo das Escrituras. O pietismo defendeu crenças e práticas como a necessidade da conversão pessoal, da fuga do mundo e da prática piedosa da caridade e da tolerância.
Já no contexto inglês, onde se deu a reforma anglicana, surge outro movimento, o puritano, que procurar retirar os vestígios do catolicismo que foram mantidos na igreja da Inglaterra. O puritanismo pode ser considerado como um esforço pelo avivamento da igreja com importantes consequências para a expansão da compreensão da missão da igreja no mundo. Quando o puritanismo foi levado para a América, ali se expandiu e estabeleceu bases para a formação dos Estados Unidos como nação democrática.
Essa condição plural do protestantismo tem sido objeto de diversas investigações a respeito de suas causas e consequências. Entretanto, o que se pode notar é que, em meio a sua diversidade, há um distanciamento do espírito e das intenções que marcaram a Reforma Protestante.
O protestantismo é marcado hoje por pelo menos três características predominantes, cada uma delas como uma pluralidade de possibilidades:
a) Um viés fundamentalista.
b) Um viés carismático.
c) Um viés progressista.
O fenômeno do pluralismo protestante é um fator de divisão que tem desencadeado uma identidade marcada pela falta de diálogo interno. Essa falta de diálogo se reflete na esfera pública, com práticas e discursos que deixam claro que uma nova onda de “reforma” precisa acontecer. Os grupos protestantes são mais conhecidos pelo que proíbem do que pelo que defendem.
Essa diversidade decorre de princípios orientadores que precisam ser revisitados hoje no sentido de se contribuir bases para relações ecumênicas e de diálogo inter-religioso. Rubem Alves, no livro Protestantismo e repressão, identificou que o protestantismo foi, em seu primeiro momento, “a explosão de um grito reprimido de liberdade”. Entretanto, como salientou Bonhoeffer em sua Ética, a igreja protestante encarna o tema de nosso tempo, que é o da decadência.

sábado, 28 de outubro de 2017

O princípio protestante / The Protestant Principle / El principio protestante

Para Paul Tillich, a realidade que configura o movimento protestante está ligada a um dado poder, a um dinamismo que perpassa esse acontecimento histórico, ao qual denominou de “princípio protestante”. Diz ele, em A Era Protestante: “O princípio protestante é o juiz de qualquer realidade religiosa e cultural, incluindo a religião e a cultura que se chamem ‘protestantes’” (TILLICH, 1992, p. 183). E mais: “É o julgamento profético contra o orgulho religioso, a arrogância eclesiástica, e a autossuficiência secularizada com suas consequências destruidoras” (TILLICH, 1992, p. 183).
“O princípio protestante pode ser proclamado por movimentos pertencentes tanto ao domínio religioso como ao secular, mas sem qualquer filiação eclesiástica ou institucional, bem como por grupos ou indivíduos que, por meio de símbolos cristãos ou protestantes, ou sem eles, expressam a verdadeira situação humana em face do absoluto e do incondicional. Se nessas situações proclamam-se e vive-se melhor e com mais autoridade o princípio protestante do que nas igrejas oficiais, então é aí e não nas igrejas que o protestantismo se torna vivo no mundo atual” (TILLICH, 1992, p. 221).
A realidade que envolve a pluralidade da igreja protestante se apresenta de forma paradoxal na medida em que contrasta com o discurso de afirmação da unidade da fé cristã e se lança como um desafio para repensar os rumos do movimento nos dias atuais. Para Tillich, “[no poder da cruz, a] igreja protestante haverá de se manter na medida em que tiver consciência do significado de sua existência” (TILLICH, 1992, p. 216).
A própria dinâmica da proposta inicial do protestantismo, de uma igreja em reforma, já é em si um projeto arriscado. “A igreja protestante corre permanentemente o risco de se esquecer do seu sentido. Sua grande tragédia tem sido a insistência em possuir a ‘pura doutrina’, como se possuísse a verdade invulneravelmente” (TILLICH, 1992, p. 216). Contudo, essa é a sua principal característica: comportar em si a pluralidade que envolve a experiência de Deus no mundo.
“A Reforma deve continuar”, disse certa vez Friedrich Schleiermacher ao se rebelar contra a mentalidade dominante do protestantismo de sua época (apud James Luther Adams In: TILLICH, 1992, p. 285). Os primeiros cinco séculos de protestantismo – que Paul Tillich chamou de “era protestante” – foi marcado por transformações e contradições. Começou com a Reforma dialogando com o Humanismo, evoluiu através do diálogo com o pensamento liberal e o Iluminismo, acompanhou o período da revolução industrial e a consolidação do capitalismo, atravessou o século XX em meio a lutas e incertezas e chegou ao século XXI com o desafio de repensar sua continuidade.

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Igreja reformada sempre se reformando / Reformed church always reforming / Iglesia reformada siempre reformando

Uma das máximas que a Reforma Protestante produziu é a que diz: “Igreja reformada, sempre reformando”. A ideia que essa frase traz em si é um desafio para a igreja cristã de hoje. Uma igreja reformada não tem a ver com uma inovação nem mesmo uma reafirmação de valores antigos com novas roupagens. Assim como uma igreja que está sempre se reformando não corresponde a introduzir práticas, ritos e costumes novos em sua liturgia e ação.
Embora esteja alicerçada no espírito dos reformadores, a frase não esteve na boca nem na pena de Lutero, Zwinglio ou Calvino, mas dos representantes do que podemos chamar de “segunda reforma”, principalmente da vertente ligada ao pietismo. Sua origem remonta a uma frase atribuída a Santo Agostinho: “A igreja está sempre sendo reformada” que em latim é: Ecclesia semper reformanda est. Lutero era um monge agostiniano e muito provavelmente foi influenciado por essa ideia.
A frase só vai aparecer no contexto da Reforma através Jodocus von Lodestein (1620-1677), uma proeminente figura do pietismo reformado alemão, que achava que a igreja não deveria ser chamada de reformada, mas de “reformanda”. Para ele, a Reforma havia afetado a igreja, mas a vida das pessoas precisava sempre também ser reformada. Outros entendem que ela foi citada por Gisbertus Voetius (1589-1676) por ocasião o sínodo de Dort (1618-1691), na Holanda, com a forma: Ecclesia Reformata et Semper Reformanda Est. Esse lema foi expandido para Ecclesia reformata semper reformanda est secundum verbum Dei. Ou seja: Uma igreja reformada sempre sendo reformada segundo a palavra de Deus.
Richard Baxter (1615-1691), um puritano inglês, chegou a indagar: “Como podemos achar que a Reforma está terminada quando nos livramos de algumas cerimônias e mudamos alguns trajes, gestos e formas? Não, Senhores! Converter e salvar almas é a nossa real atividade. Essa é a principal parte da Reforma”, conforme citado por Michel Reeves, em A chama inextinguível.
Mais tarde, Karl Barth (1886-1968) a reafirmou em seu tratado de teologia dogmática, argumentando que os limites da reforma da igreja se encontram dentro da própria dinâmica da vida comunitária, na maneira como Cristo toma forma como Senhor da igreja, construindo não só a maneira como ela se constitui internamente, mas também como ela se expande e alcança o mundo. Nessa construção, ela precisa compreender os limites de ser uma igreja reformada e as implicações de uma igreja sempre em reforma. As possibilidades e as necessidades de mudança da igreja devem abranger suas regras, suas estruturas e até suas concepções doutrinais à luz daquilo que foi ligado ao longo do desenvolvimento histórico da fé cristã.
A frase também está implícita nos documentos do Concílio Vaticano II, que reconheceu a necessidade de uma igreja sempre em reforma, ao afirmar, no documento Lumen Gentium, que “a Igreja, contendo pecadores no seu próprio seio, simultaneamente santa e sempre necessitada de purificação, exercita continuamente a penitência e a renovação”.
Como se pode notar, esse lema da reforma contempla tanto o mais piedoso conservador, como também o mais radical revolucionário. O que se pretende não é preservar valores e princípios somente por causa da tradição, nem mesmo mudar apenas pela mudança. Ele tem uma dimensão ecumênica e lança uma proposta de reflexão a respeito da maneira como a igreja realiza sua missão historicamente.
Nesse sentido, o lema precisa ser revisto à luz do próprio sentido de missão da igreja. Não se trata de mudar a igreja apenas ao sabor das transformações da cultura e do conhecimento, mas de rever os valores e princípios de origem para tornar a mensagem mais compreensível às pessoas em seu tempo, mas também para se viver de uma forma mais coerente a fé e a graça salvadora para aqueles que nos são contemporâneos.
O próprio lema pode nos levar a compreender de maneira equivocada que a igreja pode ser agente autônoma da sua própria reforma. Não se pode esquecer que a igreja é campo de trabalho de Deus. A ideia não é de uma igreja que se reforma, mas que vem sendo reformada pelo Espírito Santo. Isso desperta a necessidade de refletir sobre a sua própria identidade, mas também a sua relevância: a igreja existe para cumprir a Missio Dei no mundo.
Quando a reforma para, a igreja se deforma. E quando a igreja se deforma, ela se conforma. A igreja sempre sendo reformada pelo Espírito à luz da palavra de Deus para cumprir sua missão no mundo, essa é a transformação radical que necessária em nossos dias. Alguém certa vez orou: “Deus nos livre de um novo Lutero!” E hoje precisamos clamar por uma renovação na vida da igreja.

sábado, 14 de outubro de 2017

Sacerdócio universal dos crentes / Universal Priesthood of Believers / Sacerdocio universal de los creyentes

Mas vós sereis chamados sacerdotes do Senhor, e vos chamarão ministros de nosso Deus [...]” (Isaías 61.6).
O sacerdócio universal de todos os crentes é um dos mais caros princípios da Reforma Protestante. É uma espécie de confrontação com a divisão que o cristianismo ocidental havia construído na Idade Média de separação entre clérigos e leigos no interior da igreja.
Esse princípio se baseia na descoberta de que a Bíblia apresenta Jesus como o grande sacerdote, o único mediador entre Deus e os homens. E a mesma Bíblia também diz que todos aqueles que seguem a Jesus em fé e praticam seus ensinos partilham do seu sacerdócio. A Bíblia diz: Mas vós sois [...] o sacerdócio real (1 Pedro 2.9) e e nos fez reino, sacerdotes para Deus(Apocalipse 1.6).
O Novo Testamento não fala de uma ordem sacerdotal para a igreja. Ela ficou restrita ao templo judaico. O clericalismo é um dos maiores equívocos desenvolvidos pela cristandade. Foi Tertuliano, no final do século II, que se referiu aos líderes da igreja pela primeira vez como “sacerdotes”. Eram eles que tinham o dever de ofício de ministrar a eucaristia como um sacrifício.
Ao analisar as implicações da justificação pela fé e a graça salvadora, Lutero aprofundou sua compreensão de que a salvação não é um mérito humano, mas um dom divino a todo aquele que acolhe a obra de Cristo consumada na cruz. Essa graça é libertadora de todo pecado, do medo da morte e da condenação eterna, como também expressa a justiça divina sobre toda a criação. Isso confere uma condição de plena liberdade ao que crê.
Numa obra de 1520, intitulada A liberdade do cristão, Lutero afirmou que “somos sacerdotes; isto é muito mais que ser reis, porque o sacerdócio nos torna dignos de aparecer diante de Deus e rogar pelos outros”. E disse mais: “Tu perguntas: ‘Que diferença haveria entre os sacerdotes e os leigos na cristandade, se todos são sacerdotes?’ A resposta é: as palavras ‘sacerdote’, ‘cura’, ‘religioso’ e outras semelhantes foram injustamente retiradas do meio do povo comum, passando a ser usadas por um pequeno número de pessoas denominadas agora ‘clero.’ A Escritura Sagrada distingue apenas entre os doutos e os consagrados, chamando-os de ministros, servos e administradores, que devem pregar aos outros a Cristo, a fé e a liberdade cristã. Já que, embora sejamos todos igualmente sacerdotes, nem todos podem servir, administrar e pregar.”
Embora seja uma ideia revolucionária para o seu tempo (o século XVI), o princípio do sacerdócio universal traz em si algumas implicações que precisam ser levadas em consideração hoje. Alguns o veem como a base do individualismo evangélico e outros o consideram como uma expressão da ideia da autonomia do sujeito trazida pela racionalidade moderna, já presente no pensamento da Reforma Protestante. Mas há algo mais.
Primeiramente, o fato de que os cristãos em geral são sacerdotes se constitui em um privilégio, e não uma exclusividade. Por sermos sacerdotes, temos acesso a Deus com liberdade, mas isso não nos faz melhores ou piores do que as demais pessoas. Isso deve despertar em nós ma espiritualidade mais humanizadora.
Em segundo lugar, o sacerdócio universal tem uma dimensão comunitária. Não somos sacerdotes de nós mesmos. Somos sacerdotes uns dos outros. Ninguém pode ser cristão sozinho. Formamos a communio sanctorum – a comunhão dos santos. A Bíblia nos ensina que o Espírito Santo capacita a todos com dons a fim de que possam ministrar uns aos outros a graça recebida.
Em terceiro lugar, todos os crentes – inclusive pastores e ministros – são leigos. A palavra não se refere a uma pessoa indouta ou desconhecedora. Ela deriva do grego laós, que quer dizer povo. Somos todos participantes do povo de Deus. E, mais do que isso, acolhidos como filhos do mesmo pai. Isso não impede que haja liderança e liderados, apenas lembra que o papel do líder é servir aos demais.
Toda vez que algum líder religioso se arvora com uma autoridade sobre os demais seguidores da fé, o princípio do sacerdócio universal é vilipendiado. O Senhor não colocou na igreja uns com poderes superiores a outros, nem mesmo uns com autoridade sobre os demais. Antes, a vida de fé deve ser desfrutada de forma harmoniosa entre todos aqueles que comungam da mesma graça.

domingo, 8 de outubro de 2017

Sentidos da graça / Senses of grace / Sentidos de la gracia

Porque a graça de Deus se manifestou salvadora a todos os homens” (Tito 2.11). 
A palavra graça possui uma pluralidade de sentidos. Ela nos remete a um universo de significados que envolve toda a nossa compreensão da realidade que nos cerca, desde a maneira como nos relacionamos com o sagrado até nossas relações com o que menos gostamos.
A maneira como nós a empregamos na língua portuguesa vem do latim gratia, que nos remete a uma atitude de reconhecimento das qualidades do outro, que nos desperta gratidão e apreço. Mas ela também está presente na língua grega, como Charis, que eram as deusas mitológicas do banquete, do encanto, da sorte e da prosperidade. Eram dotadas de beleza e simbolizavam a harmonia e a alegria. Na literatura grega e na arte ocidental em geral, elas sempre foram representadas por três jovens que dançam nuas entre si.
A palavra também está presente no hebraico, tanto como chen quanto hesed. A primeira lembra o transbordamento da bondade divina apesar do pecado humano. Deus abomina o pecado, porém a sua bondade ainda é maior. A primeira vez que ela aparece na Bíblia é em Gênesis 6.8, traduzida muitas vezes como benevolência: A Noé, porém, o Senhor mostrou benevolência. Tem o sentido de curvar-se, o ato de alguém maior ser capaz de se aproximar de alguém menor. A segunda é traduzida costumeiramente como misericórdia, resultado de um sentimento de amor e de fidelidade de Deus para com sua criação.
No uso cotidiano, graça aparece em várias situações:
- como um favor: “por graça”;
- como um ato de bondade: “agiu com graça”;
- como simpatia: “caiu na graça, foi agradável”;
- como elegância: “cheia de graça”;
- como uma qualidade de vida: “estava em estado de graça”;
- como bom humor: “fazer graça”;
- como uma recompensa: “gratificar”;
- como gratidão: “deu graças”;
- como louvor: “rendeu graças”;
- como identidade: “qual é sua graça”;
- como descoberta: “deu o ar da graça”;
- como expressão de poder: “dispensou sua graça”;
- como perdão: “recebeu o indulto”.
Em Filosofia, Agostinho afirma que a graça é o meio pelo qual podemos exercer a nossa liberdade para a escolha do bem. Para ele, o homem não pode conhecer nada sem o auxílio da graça divina. Tomás de Aquino, que escreveu um tratado sobre a graça, disse que ela consiste em um motor para alma, como um princípio para as ações de bondade, que se expressa como uma participação na natureza divina. A graça também foi entendida como uma espécie de beleza, uma concepção estética da relação entre liberdade e necessidade. Friedrich Schiller, no final do século XVIII, a chamou de beleza em movimento, pois é resultante da liberdade. Ela deixa transparecer o caráter moral do homem.
Na Bíblia, a graça é um dom e promove dons. Ela tanto é um presente que Deus nos concede como é também uma capacitação para que possamos partilhar uns com os outros seu amor, bondade e misericórdia. A graça se realiza entre nós como charismata, mais conhecida como dons espirituais. Pedro aconselha a que administremos a graça em seus aspectos multiformes: Cada um exerça o dom que recebeu para servir aos outros, administrando fielmente a graça de Deus em suas múltiplas formas” (1 Pedro 4.10). A expressão “múltiplas formas” se refere ao universo de cores que existe na natureza. A ideia é de que há uma variedade de possibilidades de agirmos com graça e por graça uns com os outros. Isso nos lembra que Deus ama a diversidade.
Na Teologia, a graça está relacionada à ação divina, ao modo como Deus se manifesta na história e age para poder atrair para si a humanidade perdida. A maior expressão da graça é a revelação de Deus em Cristo. A maneira como Jesus veio ao mundo, viveu, ensinou, se relacionou com pessoas, morreu, foi ressuscitado e recebido na glória é o discurso mais eloquente da graça divina. Para ter acesso à graça divina, nenhuma de nossas obras  sejam elas caridosas ou religiosas – é suficiente. Temos acesso a ela somente pela fé. Essa graça divina é salvadora porque restaura o homem de sua própria perdição. Ela é também libertadora, porque livra o homem da ilusão de ter todo o poder para dar conta de si.
Pensando nisso, Paulo disse certa vez: Mas, pela graça de Deus, sou o que sou, e sua graça para comigo não foi em vão; antes, trabalhei mais do que todos eles; contudo, não eu, mas a graça de Deus comigo” (1 Coríntios 15.10).

domingo, 1 de outubro de 2017

O legado da Reforma Protestante para hoje / The Legacy of the Protestant Reform for Today / El legado de la Reforma Protestante para hoy

A Reforma Protestante foi um movimento de renovação da igreja cristã que aconteceu no século XVI. A data do marco histórico é 31 de outubro de 1517, ocasião em que o frade agostiniano Martinho Lutero afixou suas 95 teses na porta da capela do castelo de Wittemberg, na Alemanha.
A igreja no Ocidente já vinha enfrentando problemas internos desde o século XIII, com cismas políticos, corrupção do clero e a implantação da Inquisição para conter os dissidentes. Entretanto, as causas da Reforma vão além das crises internas, abrangendo as esferas política e econômica. A Europa experimentava o surgimento dos Estados Nacionais e o fortalecimento do poder monárquico, bem como um novo regime econômico ganha força, que lançavam as bases do capitalismo.
O termo protestante surgiu com um sentido mais pejorativo, para designar a atitude dos governantes que apoiavam o movimento de Lutero. Eles lançaram um protesto de maneira formal a respeito de um edital de Roma, em 1529, que proibia o ensino das ideias reformistas luteranas nas localidades do Sacro Império Romano-Germânico. O protestantismo foi largamente difundido na Alemanha, mas também na Suécia, Dinamarca, Noruega e Islândia.
Podemos falar de uma diversidade de movimentos que envolveram a Reforma Protestante. Além do luteranismo, houve outro reformador que influenciou o protestantismo na Suiça e no sul da Alemanha: Ulrico Zwinglio. Seu movimento é conhecido como “Segunda Reforma”. Houve também o que chamamos de “Reforma Radical”, ou “Terceira Reforma”, marcada pela atuação dos grupos anabatistas. Houve também a atuação de João Calvino, que, a partir de Genebra, influenciou o protestantismo com uma teologia mais consistente. Houve ainda a Reforma na Inglaterra, que desencadeou novos movimentos, como o anglicanismo e os grupos separatistas, resultando em algumas denominações históricas como conhecemos hoje: o presbiterianismo, o metodismo, o congregacionalismo e as igrejas batistas.
Os problemas que motivaram a Reforma Protestante são diferentes dos que orientam o protestantismo de hoje. As preocupações que envolviam as pessoas no século XVI estavam voltadas para critérios de certeza. Elas estavam preocupadas com a busca da verdade, do absoluto e da eternidade. As discussões giravam em torno de temas como provas da existência de Deus, relação entre fé e razão e a existência do céu e do inferno. De fato, os protestantes não queriam inovar, mas restaurar valores e conhecimentos do cristianismo primitivo.
O ponto de partida foi a rejeição à prática da venda de indulgências, com a consequente defesa da justificação pela fé. Nesse esforço de reformar a igreja, eles enfatizavam a soberania da graça, o valor da fé, a autoridade das Escrituras, o senhorio de Jesus Cristo e o propósito de se fazer tudo para o louvor e a glória de Deus. Daí os cinco princípios protestantes expressos em latim: Sola Fide, Sola Gratia, Sola Scriptura, Solus Christus e Soli Deo Gloria (que corresponde a somente pela fé, somente pela graça, somete através da Escritura, somente por Cristo e somente para a glória de Deus.
O que esses princípios têm a ver com a expressão de fé dos grupos herdeiros da Reforma Protestante hoje? É possível orientar a vida pelos mesmos princípios hoje? Embora tenham acontecido grandes transformações sociais, políticas, econômicas e até tecnológicas, a preocupação com aspectos ligados à vida de fé e aquilo que consiste na essência do próprio cristianismo continua sendo uma necessidade.
Nossos compromissos com os valores cristãos, nossa experiência de conhecimento e de relacionamento, bem como nossos vínculos com a comunidade da fé continuam clamando por uma reforma ou atualização constante. Refletir sobre o que significa ser cristão hoje ou sobre como viver a fé cristã num contexto não cristã é uma demanda de nossos dias. O futuro do cristianismo passa por essa reflexão necessária.

sábado, 16 de setembro de 2017

Deus absconditus / God hiding / Dios oculto

O horror da guerra, dos atentados terroristas, do drama dos refugiados e das vítimas da violência, da exploração e da desigualdade social remete à pergunta: será que Deus está indiferente ao que acontece com o mundo?
Reconhecer a presença de Deus entre nós é uma necessidade, mas ao mesmo tempo uma ousadia. Foi o que certa vez Karl Barth, em sua obra Das Wort Gottes als Aufgabe der Theologie, reconheceu: “nós, como teólogos, devemos falar de Deus. Nós, porém, somos seres humanos e, como tais, não podemos falar de Deus. Nós devemos, todavia, estar cientes de ambos, nosso dever e o nosso não-poder e, mesmo assim, dar glória a Deus”.
É uma necessidade, pois a primeira pergunta na hora da dor e da aflição é: “onde está Deus?” Mas é uma ousadia quando descobrimos que a presença divina não se reduz e nem se limita à percepção humana. Ela só pode ser tratada como um rumor que aponta para nosso desejo pelo desconhecido e o imponderável, para a nossa abertura ao que está além de nós, para aquilo que desperta a nossa esperança. Como pensar em um ser perfeito, sendo pessoas tão pecadoras? Como acreditar que Deus se importa com nossa dor, sendo pessoas tão indiferentes à dor do outro? Como reconhecer sua presença sendo tão limitados e mortais?
“A Deus há que invocá-lo antes de pensar sobre ele, falar com ele antes de aproximar-se dele”, disse Olegario Gonzalez de Cardedal em sua obra Dios. Todas as tentativas de provar sua existência foram sempre ligadas à experiência subjetiva de encontro, de sede, de busca e até de ausência. Pelo fato de não se submeter a uma experiência objetiva de análise, Deus só pode ser reconhecido ou desprezado, desejado ou rejeitado, digno de confiança ou ignorado.
Em sua teologia, Lutero desenvolveu o conceito de “Deus absconditus”, que se opõe à noção de “Deus revelatus” desenvolvido no pensamento escolástico. Esse conceito novo corresponde ao fato de que Deus não se revelou completamente em sua essência a nós, mas permanece de forma oculta e incompreensível ao homem. Só é possível conhecer Deus a partir de uma relação.
O Deus absconditus é aquele que se oculta, mas que ao mesmo tempo se desvela ao homem em meio às condições concretas de sua história. A maior dessas revelações foi a cruz, em que Ele se mostrou em meio à fraqueza, ao sofrimento e à humilhação daquele que fora encarnado, crucificado e ressuscitado. Em Cristo, Deus revelou-se completamente de modo que possamos compreender e perceber sua presença entre nós. Não é à toa que a Bíblia o chama de Emanuel, o Deus conosco.
Lutero queria que a fé cristã deixasse um pouco a preocupação com o além e se voltasse mais para a as condições em que a vida acontece. Ele queria que a teologia e a religião cristãs deixassem de lado uma teologia da gloria para se voltar para uma teologia da cruz. Esse é o grito de Jesus na cruz: “Por volta das três horas da tarde, Jesus bradou em alta voz: ‘Eloí, Eloí, lamá sabactâni?’ que significa: ‘Meu Deus! Meu Deus! Por que me abandonaste?’” (Marcos 15.34).
Deus só pode agir se escondendo. Caso contrário, não seríamos livres para fazer escolha de crer nele ou não, de confiar nele ou não, de acolher seu amor ou não. E a cruz é o retrato dessa escolha livre. Ela nos envergonha porque representa a nossa rejeição à revelação do amor de Deus por nós.
Ao olhar para a história da crucificação, dificilmente alguém que andou e viveu com Jesus aceitou sua morte na cruz como resultado da revelação divina ou que Deus havia enviado seu filho unigênito para morrer de forma tão cruel numa cruz. Principalmente após a ressurreição, os discípulos de Jesus demonstraram uma compreensão equivocada e limitada dos propósitos de Deus em relação à redenção humana, que eles eram participantes de um momento histórico único dentro do contexto dos propósitos eternos de salvar a humanidade perdida.
Foi preciso que Jesus se mostrasse de forma especial a eles. A maneira como Jesus se apresentou aos seus discípulos nos ensina como também podemos encontra-lo hoje, de uma tão forma improvável e nem tão óbvia como muitas vezes o discurso religioso tenta nos passar.
Nos relatos das experiências de encontro após a ressurreição, o que se destaca não é o fato de que os discípulos procurassem a Jesus, mas que Ele os busca e vai até o encontro deles. Aos discípulos, cabia-lhes ouvir sua voz, identificá-lo em meio a sua angústia, sofrimento e dor e acolhê-lo amorosamente. Somente após o encontro é que foi possível falar de quem ele é, o que ele diz e o que ele faz.

domingo, 13 de agosto de 2017

Pai Nosso / Our Father / Padre Nuestro

“Portanto, vós orareis assim: Pai nosso, que estás nos céus, santificado seja o teu nome.” Mateus 6.9. 
Quando Jesus ensinou seus discípulos a orar, ele pediu que se dirigissem a Deus como o “Pai Nosso”. São duas palavras carregadas de significado. Lembra que Ele é um pai que acolhe a todos, mas que também trata a todos como se fossem nossos irmãos. A expressão “Pai Nosso” nos remete a um sentido de pertença a uma grande família em que todos têm espaço.
Portanto, quando você ora “Pai nosso, que estás no céu”, deve estar aberto a acolher a todos como irmãos e a compreender a humanidade como família. Embora tenhamos muitas diferenças, estamos todos ligados por um mesmo sentimento, que é o do cuidado amoroso de um pai que é tão próximo, que se permite ser chamado de meu, mas que também muitas vezes se coloca tão distante, pois também está no céu, o lugar onde quer que todos estejamos.
Um pai assim não passa despercebido. Sua presença é significativa, mas da mesma forma o é a sua ausência. Por isso, Ele é especial. Nossa relação com Ele é marcada por diversos aspectos que estão mais voltados para o campo do numinoso do que do fenômeno. Dito de outro modo, não dá para ser percebido ou explicado pela razão, mas é aquela coisa que está tão presente que não podemos simplesmente ignorar. Ele é da ordem do sagrado, é o inefável que se fez gente, que andou entre nós cheio de graça e de verdade.
Desse modo, você não pode dizer “santificado seja o teu nome” e continuar vivendo, agindo e fazendo escolhas como se ele não existisse. Se Deus é um pai que se importa com seus filhos, imagino que ele queira que seus filhos se importem uns com os outros. Viver como se Deus não existisse é sinal de indiferença. E a pior forma de fazermos isso é sendo indiferentes com aqueles a quem Deus trata como nossos irmãos. Se não conseguimos nos importar com aquele que a gente vê, como vamos nos importar com aquele que não vemos?
Max Lucado, em A Grande Casa de Deus, reconhece que “as duas primeiras palavras da oração do Senhor são plenas de significado: ‘Pai nosso’ lembra-nos que somos bem-vindos à Casa de Deus porque fomos adotados pelo dono”. Somos filhos do pai de todos, que é dono de tudo.
Com o “Pai Nosso”, Jesus identifica quem Deus é. Ele é Pai, pois tem em si mesmo o sentido de próximo e de distante, tanto é nosso quanto está no céu. Ele é santo, pois tem em si a dimensão do sagrado, mas que escolhe tomar forma e ser como um de nós. Ele tem um nome, por isso tem em si mesmo a condição de ser conhecido, ao mesmo tempo em que não é.
Por nós mesmos, não teríamos condições de chamar Deus de Pai Nosso. Uma parte significativa da humanidade age como se Deus fosse um pai rico, interessada em seus bens, mas sem conhecer os seus sentimentos. Outra parte age como se não houvesse um pai, como se tudo fosse obra do acaso. E tem até aqueles que declaram que há um pai e que pertencem a ele como filhos, mas que excluem os muitos outros irmãos a condições de desamparo. Enfrentamos constantemente o grande desafio de clamar pelo pai em meio a uma sociedade sem pai.

sábado, 5 de agosto de 2017

Competência para viver / Life Skills / Competencia para la vida

Todos nós temos características pessoais que não só nos identificam como também nos ajudam a nos realizarmos dentro de um contexto social.
Algumas dessas características nasceram conosco, outras foram herdadas de nossos pais e outras foram adquiridas ao longo de nossa vivência. A soma dessas características é que forma a nossa personalidade.
Para enfrentarmos as diversas circunstâncias da vida, lançamos mão de diversos recursos, muitas vezes de forma criativa e inovadora, levando em consideração as necessidades do momento.
Veja, por exemplo, uma pessoa que resolve aprender a dirigir. Ela começa com operações básicas e, gradativamente, adquire determinados hábitos e procedimentos que serão aplicados em situações mais complexas no trânsito. Ela, então, terá desenvolvido esquemas que serão úteis para serem usados em ações diante de situações diversas, que necessariamente não serão idênticas entre si, mas receberão adaptações e ajustes que ocorrerão de uma forma quase que automática.
O mesmo ocorre em todos os aspectos da vida. Enfrentamos sempre situações novas que exigem de nós fazer escolhas que podem implicar se ganhamos ou perdemos, superamos ou fracassamos, melhoramos ou pioramos, vivemos ou morremos.
A vida requer de nós um conjunto de competências e habilidades que nos ajudam a nos tornarmos pessoas bem-sucedidas nas coisas que fazemos. Competências e habilidades são conceitos bastante usados no mundo corporativo, principalmente nas orientações sobre liderança, carreira, vocação e ensino.
Competência é a administração, de forma integrada e coordenada, de um conjunto de conhecimentos para se chegar a um determinado fim. A competência envolve um complexo esquema de percepções, pensamento, atitudes e até de autoavaliação.
Num documento de 2012, intitulado Competências para a vida e destinado a adolescentes, o Unicef apresentou alguns conceitos sobre as competências necessárias para uma vida mais digna. Primeiramente, uma vida realizada e bem-sucedida não acontece por acaso. Ela é uma conquista que exige muito esforço e a cooperação de muita gente. Além disso, a aquisição de competências para viver na sociedade atual é um fator crucial para viver bem e para construir relações. As competências para viver aumentam nossa criatividade, aperfeiçoam nossos talentos e nos ajudam na aquisição de novos conhecimentos.
A lista de competências é um processo em aberto. É preciso desenvolver a compreensão de que a aprendizagem bem como a aquisição de competências para a vida correspondem a um processo que dura a vida toda. Por essa razão, a Unesco apresentou os quatro pilares para a educação no século XXI: aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a conviver e aprender a ser. E são eles que dão base para a formação de projetos voltados para a qualidade de vida. Pensando nisso, veja algumas das competências que julgo serem necessárias para a vida:
a) Manejar bem as emoções de forma que nos tornemos mais flexíveis e abertos ao novo.
b) Tomar decisões certas pelas razões certas a fim de que alcancemos a excelência.
c) Colocar-se no lugar do outro.
d) Organize suas ideias para que possa comunica-las com clareza.
e) Desenvolver pensamento crítico, percebendo os aspectos éticos e políticos implicados em cada situação.
f) Conhecer a si.
Já as habilidades são a capacidade de transformar um conhecimento em ação. Têm a ver com o saber fazer. A Divisão de Saúde Mental da Organização Mundial de Saúde elaborou, desde 1993, um conjunto de dez habilidades para lidar com situações de nosso cotidiano. O objetivo é preparar as pessoas para a vida. Já existem inclusive programas educacionais voltados para a formação das pessoas para a vida social e para a realização pessoal. São elas.
a) Autoconhecimento.
b) Relacionamento interpessoal.
c) Empatia.
d) Lidar com os sentimentos.
e) Lidar com o estresse.
f) Comunicação eficaz.
g) Pensamento crítico.
h) Pensamento criativo.
i) Tomada de decisão.
j) Resolução de problemas.
“É preciso saber viver”, diz a canção popular de Roberto Carlos e gravada recentemente pelos Titãs. Os gregos antigos ensinavam que precisamos fazer da vida uma obra de arte. A Bíblia também nos ensina a lidar com os aspectos da vida com sabedoria. As circunstâncias da vida, dolorosas ou não, têm o poder de endurecer o nosso coração ou de nos tornar sábios. O fato é que mesmo o sofrimento ou o sucesso nos aperfeiçoam.

domingo, 11 de junho de 2017

Pastor

Para que servem os pastores e as pastoras? Teoricamente, para nada. Seja como gestor, conselheiro, orador, educador, agente social ou teórico, sempre há quem faça melhor. Há quem diga que pastores são um pouco de cada um desses profissionais, mas sempre soube que, em tem tempo de máxima especialização, aquele que sabe de tudo um pouco acaba não produzindo.
Sinceramente, não sei onde Jesus estava com a cabeça quando comparou a atividade de quem cuida de seus seguidores aos trabalhadores que apascentavam rebanhos. Talvez porque também utilizou a metáfora das ovelhas para se referir àqueles que o seguem. Ou talvez por não ter na época um conjunto tão grande de especialidades que abrangesse a dimensão pastoral. Ele só podia estar com a cabeça no céu.
Tenho para mim que a razão esteja mais voltada para a dimensão da ação pastoral com o cuidado com aqueles que estão a caminho. A palavra vem do grego poimen, que designava o apascentador de rebanhos. Sua tarefa seria de conduzir o rebanho até os pastos, ficar atento aos ataques dos inimigos contra as ovelhas, cuidar das que estiverem feridas, mantê-las reunidas em grupo e recolhê-las ao aprisco para o descanso. Ele teria que fazer isso todo dia ininterruptamente. Por causa do seu envolvimento direto com a ovelha, chegava a ter o cheiro delas. Por isso, era considerada uma atividade imunda.
Pastores não são forjados em uma escola, nem se tornam mais hábeis pela experiência. São pessoas comuns que recebem um chamado para servirem àqueles que querem seguir Jesus. Já por aí são diferentes, por serem sensíveis à uma voz que vem de fora e clama por uma decisão interior de orientar a vida inteira para cuidar de gente. Se espelham na pessoa de Jesus, aquele único que se apresentou como o Bom Pastor.
Pastores cuidam de pessoas que querem seguir Jesus. Como conselheiro, psicólogos fariam melhor. Porém, como pessoas que escutam as dores e angústias do outro para servirem como intercessores diante de Deus. Somente alguém com o coração sensível ao outro como Jesus o fez é capaz
Pastores cuidam de igreja. Como administradores, gerentes fariam melhor. Porém, como quem conhece a perspectiva do Reino de Deus e está comprometido com o projeto de Deus de formar em Cristo uma nova humanidade, age mais com o coração do que com estratégias, orienta-se mais pela esperança do que pelas condições concretas, decide por fé e não por racionalidade.
Pastores constroem saberes sobre nossas relações com Deus. Como educadores e pensadores, pedagogos e teóricos fariam melhor. Porém, reconhecem a Bíblia como fonte primária do saber, que oferece a base para construir novos entendimentos. Para isso, ouvem as vozes dos sábios e entendidos e se debruçam sobre as Escrituras para encontrar a melhor forma de fazê-la entendida para as pessoas do seu tempo.
Alguns até tentam desenvolver uma performance profissional, outros também se negam a desenvolver habilidades e técnicas justificando sua incapacidade com uma falsa espiritualidade. Apesar disso tudo, pastores que se colocam como servos fazem falta.
Feliz Dia do Pastor!

segunda-feira, 22 de maio de 2017

Humanização / Humanization / Humanización

Quando Jesus atravessou o mar da Galileia de barco com seus discípulos e chegou à região de Gadara, deparou-se com um quadro grotesco: uma pessoa agressiva, violenta, seminua, imunda, com sinais pelo corpo de que havia sido preso por fortes grilhões, urrando e arremessando pedras contra quem se aproximasse. Não sei o que você faria se estivesse no barco com Jesus, mas eu logo remaria na direção contrária.
Essa narrativa encontra-se em Marcos 5.1-18. Uma coisa que escapa de nosso olhar é o fato de que ali estava um ser humano. Parece contraditório, mas mesmo as pessoas mais vis, violentas e que tenham praticado as coisas mais hediondas são seres humanos e, como tais, foram feitos à imagem e semelhança de Deus. Foi assim que Jesus viu aquele homem. E é assim que Jesus nos vê: como pessoas.
A cura do endemoninhado gadareno nos lembra o quanto Jesus está interessado em restaurar as relações que constituem a nossa humanização. Jesus reivindica, por amor, para si todo ser humano a fim de que viva a sua humanidade perante Deus sem precisar se envergonhar disso.
Quando falamos de nossa condição humana, isso comporta um problema: a rejeição do projeto de Deus através da ruptura de nossas relações fundamentais. É isso que constitui o que podemos chamar de situação de não salvação. A maldade está no fato de que rejeitamos o projeto de vida proposto por Deus desde a criação. É isso que a Bíblia chama de pecado.
Jesus veio nos libertar da opressão causada pela maldade. Ao fazer isso, ele viveu a nossa vida, enfrentou a nossa morte da forma mais cruel (a cruz), ressuscitou glorificado e hoje está vivo com o Pai. É isso que dá validade ao seu ensino e promessa: “Portanto, se o Filho os libertar, vocês de fato serão livres” (João 8.36).
A salvação é, portanto, a restauração das relações rompidas pelo pecado. O pecado é o estado em que nos encontramos por termos nos desviado dos propósitos de Deus. O sentido de estar perdido é porque estamos perdidos de nós mesmos.
Jesus é o Salvador porque viveu intensamente essas relações. Nele não se encontrou pecado. Diz a Bíblia: “Pois não temos um sumo sacerdote que não possa compadecer-se das nossas fraquezas, mas sim alguém que, como nós, passou por todo tipo de tentação, porém, sem pecado” (Hebreus 4.15).
Toda religião aponta para um tipo humano baseado em obrigações, mas Jesus valoriza a liberdade. Ele disse: “E conhecerão a verdade, e a verdade os libertará” (João 8.32). Jesus não está comprometido com ideais humanistas, mas está profundamente interessado em restaurar a humanidade toda. Por isso, ele reivindica a que a humanidade toda possa segui-lo com todas as implicações que isso envolve.
(Extraído do livro Elogio da Compaixão.  Imagem: Homem pensador, de Picasso).

domingo, 7 de maio de 2017

Famílias normais à luz da Bíblia / Ordinary families according to the Bible / Familias normales a luz de la Biblia

“Quem causa problemas à sua família herdará somente vento [...]” (Provérbios 11.29).
A alegria de se viver em família é um assunto que está intimamente relacionado com nossa espiritualidade. Por essa razão é que a igreja é a única instituição preocupada com a vida em família atualmente, assumindo um papel de protetora, de promotora e de acolhedora. De fato, a família tem passado por fortes e profundas transformações, contudo isso não quer dizer que ela tenha perdido o seu valor.
As regras morais que hoje são usadas para defender o ideal de uma família normal não são retiradas das Escrituras, mas de um tempo mais recente, conhecido como “era vitoriana”. Corresponde ao período em que a rainha Vitória reinou na Inglaterra, no meado do século XIX até o início do século XX. Foi um período de grande prosperidade econômica, em meio à Revolução Industrial, e de grandes transformações culturais nos modos de se pensar a vida cotidiana e do divertimento, como foi, por exemplo, a Belle Époque na França e o Gilded Age nos Estados Unidos.
A chamada era vitoriana foi marcada pelo fortalecimento da classe média, que almejava cultura e status. As classes mais elevadas ditavam os costumes que deveriam servir de modelo para as camadas mais inferiores. A vida social foi cercada de uma forte preocupação moral e por uma afirmação de padrões e valores rígidos para as relações entre pessoas, vestuários, etiquetas à mesa e interações. É dessa época também a afirmação de um modelo de família, cercado pelos conceitos engendrados dentro do movimento do puritanismo e da repressão sexual.
Na concepção vitoriana de família, o lar é tratado como um ambiente protegido, que deveria servir como base moral para a sociedade. Para tanto, era necessário protegê-lo dos ataques do pensamento mais liberal, bem como resguardá-lo para que fosse mantido um ar de equilíbrio e de harmonia. Nesse sentido, numa afirmação bem funcionalista, cabia à mulher o papel de guardiã da família e símbolo da moral de toda a sociedade. Recai sobre ela a responsabilidade de manter a reputação da família em meio ao convívio social. Para isso, deveria ser pura, delicada, submissa e bela.
Ao homem cabia o papel de provedor da casa, tanto no sentido financeiro como também na segurança da família. Sua vida deveria ser devotada ao trabalho, aos negócios e à vida pública, incluindo aí também a política. Era dele a iniciativa do cortejo e das carícias, que nunca deveriam acontecer em público. Os filhos, por sua vez, deveriam ser educados nos rígidos padrões morais da sociedade e cabia à família o papel de instruí-los em relações aos costumes. A infância era vista como uma fase em que se exigia a obediência aos pais. As crianças das famílias mais ricas eram educadas por criados e serviçais da família. Já naquelas que eram mais carentes, a criança deveria trabalhar desde cedo.
Como se pode notar, o modelo de família que costumamos chamar de normal nos dias atuais tem mais a ver com um padrão socialmente construído em um determinado momento da história, que está mais voltado a um outro contexto cultural que não o nosso. Não está relacionado com os modelos de família que se encontram na Bíblia.
Podemos afirmar que a Bíblia não está preocupada em apresentar um padrão de vida familiar nem de fazer com que os personagens bíblicos se tornem modelos ideais de conduta para as pessoas em todo o tempo. Na verdade, ela está interessada em apresentar situações de vida em família de forma real em que a gente se vê ali retratado.
Os relatos da Bíblia em relação à vida em família não são obras de ficção nem mesmo de idealizações produzidas a partir de um conceito fundador. São histórias de famílias atravessadas por situações de sucesso e fracasso, dor e alegria, conquistas e perdas, amor e traição que são encontrados em todo o tempo, inclusive entre nós.
De um modo geral, os estudos bíblicos tentam nos remeter à seguinte questão: como nossas famílias podem ser analisadas à luz das famílias da Bíblia? Porém, uma questão interessante a ser levantada é: como as famílias da Bíblia poderiam ser analisadas à luz da terapia familiar nos dias de hoje? A partir dessas análises, poderíamos encontrar muitas respostas para nossas inquietações diante dos dilemas vividos em família hoje, em vez de concentrarmos nossa atenção e energia para tentar implantar um tipo ideal que não se encaixa em nossas condições de vida atuais.
Compreender as famílias da Bíblia a partir de um olhar crítico possibilita uma reflexão mais ampla sobre os propósitos de Deus para a vida em família. Retira um pouco o nosso foco de um modelo exemplar ou de uma tipificação dos relacionamentos e nos apresenta a família como espaço de realização de nossa existência em todas as suas dimensões. Daí podemos compreender que, em meio às fragilidades inerentes à nossa condição humana, Deus pode – e quer – se revelar e realizar sua graça e compaixão. 
Podemos confiar que Deus quer abençoar nossas famílias. Uma família normal, dentro de uma perspectiva bíblica, não é aquela que tem papéis bem definidos em sua formação nem é a que segue um padrão ideal, mas é a que Deus tem espaço para realizar seus propósitos, em meio às nossas virtudes e fraquezas.

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