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domingo, 25 de janeiro de 2026

Religião como expressão humana: uma reflexão necessária para este tempo / Religion as a human expression: a necessary reflection for our time / La religión como expresión humana: una reflexión necesaria para nuestro tiempo

Um dos fatos mais surpreendentes a respeito da religião é que ela permanece ativa mesmo num mundo secularizado, cético e cientificista como o que nos vivemos. Alguém chegou a dizer que a religião iria desaparecer, mas ela tem se reafirmado em toda sua diversidade e pluralidade.

O meu livro O que é religião? é resultado de uma investigação que venho fazendo há muitos anos. Foi publicado pela primeira vez em 2005 e agora encontra-se disponível como e-book, revisado e atualizado com informações que venho abordando em artigos e textos em periódicos, anotações de aulas, apostilas de cursos ministrados e em meu blog de filosofia, espiritualidade e psicanálise.

O livro físico está esgotado. Daí a necessidade de disponibilizar esse conteúdo de forma digital. Desde que foi lançado, serviu de leitura recomendada em muitas faculdades de teologia, ciências da religião e áreas afins. Com a nova edição em e-book, creio que será ainda mais interessante para quem procura aprofundar seu conhecimento a respeito do assunto.

Falar de religião é sempre transitar em um terreno nebuloso, cheio complexidades e de subjetividades. Trata-se de um sistema complexo que envolve crenças, enigmas, esperanças, temores, mistérios e até aquilo que não se consegue exprimir em palavras, coisas que todos nós carregamos conosco. Lidar com o sagrado, com o sobrenatural, com o inefável ou com a finitude causa sempre um certo desconforto, pois nos confronta com nossa realidade existencial e nos interpela a assumirmos posições e a darmos direção à vida. Embora muitos nem sejam religiosos, na acepção mais realista do termo, não há quem não se detenha a refletir sobre seus temas diante das situações limites da vida.

Espero que a leitura deste pequeno livro ajude aos religiosos a serem mais críticos e sinceros em sua devoção. E espero que os não religiosos reflitam sobre a importância dessa experiência em sua prática cotidiana.

Para ler o e-book, acesse: https://www.amazon.com.br/dp/B0GHT2ZCHK

terça-feira, 12 de novembro de 2019

América Latina, decolonialidade e religião: provocações a partir da crise na Bolívia / Latin America, decoloniality and religion: provocations from the crisis in Bolivia / América Latina, descolonialidad y religión: provocaciones de la crisis en Bolivia


A América Latina passa por um retrocesso no cenário político. Depois de um breve período de ascensão social e econômica, alavancado pelo acesso de segmentos progressistas ao governo de alguns países, assistimos ao avanço das forças tidas como conservadoras retomando espaços que sempre foram dominados por uma oligarquia reacionária e patrimonialista.
Veja um brevíssimo retrospecto: assistimos a um golpe de Estado em 2009-2010 em Honduras, no Paraguai em 2012 e no Brasil em 2016. Em todos esses atos, havia uma questão de fundo – a atenção para com os direitos sociais – e uma estratégia – o uso do aparato militar em alguns casos de forma clara e, no caso do Brasil, de forma branda. Nesse meio tempo, as forças representativas da direita venceram no Chile, Argentina e Colômbia. O Peru tem passado por um complexo processo de afirmação política. Já neste ano de 2019, assistimos às tentativas de levantes de direita na Venezuela. Porém, os protestos populares no Equador e no Chile e a vitória da esquerda nas eleições argentinas e uruguaia (ainda que no primeiro turno) acenderam o alerta conservador. A tentativa de golpe na Bolívia é um sintoma disso.
Embora o quadro seja preocupante, não podemos nos esquecer de que a realidade latino-americana segue uma trajetória que se repete. A história da América Latina é marcada pela luta constante entre uma oligarquia branca, colonizadora, e forças políticas representativas dos trabalhadores, dos povos originários, de quilombolas e de quem sempre foi tratado como minoria. Os regimes ditatoriais que aconteceram desde a década de 1960 são a prova disso.
Nos últimos levantes populares no Equador e no Chile, bem como no golpe de Estado em curso na Bolívia, pode se notar a face explícita de um fascismo presente. A história se repete como farsa. Oligarquias se valem do fascismo, do fundamentalismo religioso e do neoliberalismo para exercerem o poder como sempre fizeram. Tempos difíceis se aproximam, de muita luta por parte dos oprimidos. O que as forças políticas conservadoras não contam, porém, é que existe uma grande massa de pobres e miseráveis que não suportam mais a opressão.
Retomando uma afirmação de Boaventura de Souza Santos, em Epistemologias do sul, a América Latina é resultado de um processo de formação marcado por três grandes influências: o colonialismo, o patriarcado e o capitalismo. Porém, precisamos acrescentar mais um elemento nesse processo, que é a presença marcante da religião calcada na concepção sacrificial e punitiva, que exige vítimas para satisfazer as necessidades do poder. As elites sempre se valeram da religião para fortalecer as estruturas de dominação, e, nesses episódios mais recentes, para dar lugar a uma mentalidade fascista e neoliberal.
O colonialismo foi superado historicamente, mas as estruturas da colonialidade ainda resistem. O patriarcalismo reproduz o discurso dominante da supremacia branca. O capitalismo procura dar conta de uma agenda neoliberal, que retira direitos sociais e favorece o capital financeiro internacional, e não mais o capital produtivo. E tudo isso debaixo dos olhares consensuais da religião. Primeiramente com a bênção do clero católico romano, ultimamente com o apoio do fundamentalismo religioso tanto evangélico quanto carismático.
Quando o fascismo se aproveita da religião para dominar, aumenta sua força destruidora de forma avassaladora. Quando o neoliberalismo faz uso da religião, se torna o mais pernicioso e iníquo sistema econômico que já existiu. É a nova face do estado exceção que estabelece uma forma de dominação que produz mais desigualdade e injustiças sociais, que põe as instituições democráticas sob risco constante e despreza as conquistas do Estado Democrático de Direito. Resistiremos.

quinta-feira, 8 de novembro de 2018

Fundamentalismo religioso e política / Religious Fundamentalism and Politics / Fundamentalismo religioso y política


O que é fundamentalismo e por que tem exercido tanta influência na política? O fundamentalismo é um fenômeno social decorrente da racionalidade e do liberalismo tal como esses conceitos foram formulados pela Modernidade. O fundamentalismo nunca é religioso em si mesmo, pois está sempre vinculado a uma forma de perceber o mundo, os costumes e as ideias que orientam as ações políticas, a economia e a moral em uma determinada época, construído a partir de uma ideologia dominante. Corresponde à perda da visão ingênua da condição humana e do momento histórico vivido pelas sociedades, motivado por um sentimento de insegurança e de medo quanto às mudanças que estão em curso.
O racionalismo e o liberalismo são tendências que devem ser entendidas à luz de um cenário mais amplo. O racionalismo procurou exaltar o papel da razão suficiente e instrumental como também afirmar o caráter do sujeito livre e autônomo. E o liberalismo visava defender a dignidade da pessoa humana frente ao poder absoluto do Estado, representado pela defesa do direito ao livre pensamento, de propriedade e de liberdade religiosa. Essas tendências foram sendo consolidadas na medida em que, ao mesmo tempo, se afirmava o individualismo, o materialismo e a defesa de direitos fundamentais, que motivaram o surgimento de movimentos emancipatórios e de resistências diante das práticas e estratégias dos regimes de poder e do capitalismo nascente.
O fundamentalismo é, portanto, produto de uma preocupação que envolve o enfrentamento das transformações trazidas pela Modernidade. Essas transformações provocaram três movimentos que confrontaram com a religião e com o conservadorismo: a secularização, a globalização e o processo de laicização. A secularização tem a ver com o que Max Weber chamou de desencantamento do mundo. A globalização está relacionada com os processos de interferência dos valores e da lógica do consumo criados pelo capitalismo no interior de uma cultura local. E o processo de laicização corresponde a um crescente esvaziamento e abandono do elemento simbólico religioso na cultura.
Ele se constitui como um modo de perceber o mundo que se vale de elementos da tradição religiosa, e se instala no interior da estrutura religiosa – através de suas lideranças, de sua cosmologia, de suas doutrinas e até de sua práxis – para estabelecer um certo regime de saber, de controle e de poder para exercer influência na conduta de toda a sociedade. O fundamentalista é aquele que impõe sua crença e sua moral como padrão aferidor para a conduta dos demais.
Jurgen Habermas, em um artigo publicado na Folha de São Paulo, em 6 de janeiro de 2002, intitulado “Fé e conhecimento”, no qual elabora uma reflexão a respeito do impacto do episódio de 11 de setembro, viu um deslocamento da tensão entre a sociedade secularizada e a religião. Até bem pouco tempo, o centro dessa tensão estava entre os ideais científicos e a defesa da fé. De um lado, estavam aqueles que temiam o obscurantismo e defendiam o avanço científico; de outro encontravam-se aqueles que viam com suspeita o avanço do cientificismo e questionavam a neutralidade do conhecimento científico. Atualmente, o fundamentalismo estabelece essa mesma tensão em outras esferas da vida, como a política, a educação, o cuidado com a saúde e até a economia e as relações internacionais.
Só podemos falar de fundamentalismo no sentido da pluralidade. Há várias formas de fundamentalismos, principalmente os que envolvem o aspecto religioso. Os fundamentalismos religiosos são difíceis de serem tratados visto que atuam em diversas frentes, de diversos modos e através de diversos atores em diversos contextos.
Entretanto, podemos traçar algumas linhas comuns entre os diversos fundamentalismos existentes. Uma dessas características é a busca de retrocesso a um tempo em que o fundamentalista acha que havia uma suposta segurança. Outra característica é o apelo uma moral hegemônica, universal, válida para todos os indivíduos. Há também a ausência de consciência crítica, de espaços para a reflexão, principalmente para a análise das circunstâncias históricas. O que vale é o que se encontra expresso nos discursos hegemônicos fundados num texto sagrado. Os fundamentalistas de um modo geral são acríticos, anacrônicos e literalistas. Eles fazem uso da intimidação através do medo, da exclusão e da ameaça de punição eterna. E, por fim, eles têm apego ao senso comum, sobretudo com a simplificação do saber e a exaltação do elemento fantástico e sobrenatural. No conhecimento fundamentalista não cabe a complexidade.
O fundamentalismo tem arrebanhado cada vez mais adeptos. Dominam a mídia e as redes sociais. Mais recentemente tem avançado na ocupação de espaços públicos como a política. É um avanço irreversível que vem aumentando nos últimos tempos. Não há como contê-lo. A única coisa que pode deter é o exercício incansável da consciência crítica e a defesa constante das liberdades e direitos.

sexta-feira, 15 de julho de 2016

Ataque em Nice: Por que a França sofre com o terrorismo? / Attack in Nice: Why France is suffering from terrorism? / Ataque en Niza: ¿Por qué Francia está sufriendo con el terrorismo?

A França tem sofrido, nos últimos dois anos, os mais graves atentados terroristas ligados à jihad islâmica no Ocidente. Tudo começou depois que, em 2013, o governo francês resolveu intensificar luta contra o jihadismo e isso tem feito com que seu território se transforme num campo de batalha do terrorismo, ao ponto de o presidente François Hollande declarar que a os franceses terão que aprender a conviver com o terror.
A França vive em uma guerra de fato. Além de três grandes ataques desde o atentado contra o Charlie Hebdo, em janeiro de 2015, vários outros pequenos incidentes têm acontecido e muitos outros evitados pela inteligência e pela polícia francesa. Toda a França está sob ameaça do terrorismo. A pergunta que se faz é: por que a França está no centro desses ataques? Primeiramente – e o que parece mais óbvio –, porque os ataques são uma retaliação ao envolvimento militar dos franceses na guerra contra o Estado Islâmico. Mas não é só isso, embora essa seja uma grave explicação.
Para entender o que acontece com a França neste momento, é preciso levar em consideração dois aspectos: primeiramente, os autores dos atentados; em seguida, o momento e as circunstâncias em que eles ocorrem. No caso do ataque de Nice, o autor era um tunisiano de confissão muçulmana já radicado na França. A Tunísia, país que fica no norte da África, foi uma colônia francesa até o ano de 1956. Foi ali também que, em 2011, se desencadeou o movimento que ficou conhecido como Primavera Árabe. Entretanto, as circunstâncias em que o ataque aconteceu afetam os valores culturais e históricos dos franceses: a comemoração no feriado da Queda da Bastilha, marco histórico da luta pela liberdade, igualdade e fraternidade, os grandes ideais iluministas.
Além da causa militar, outro motivo que fica evidente é o ataque aos valores defendidos pela cultura francesa, voltados para a defesa da democracia, para a laicidade e para a liberdade. Tais valores são opostos aos ideais islâmicos, notadamente os que o EI defende de forma radical. O que os fundamentalistas parecem pretender é a criação de uma mentalidade “islamofóbica”, que desencadeie um estado de instabilidade civil nas populações muçulmanas que já vivem na Europa, e não só em relação aos movimentos migratórios que atualmente acontecem.
Mas uma outra causa está por trás dessa onda de ataques terroristas na França, que é o colapso do capitalismo mundial. O sistema econômico criado, desenvolvido e mantido pelo Ocidente dá sinais evidentes de que entrou em declínio. Já não dá mais para se sustentar uma mentalidade que promove a concentração de renda por uns poucos (aquele 1%) e que explora todo restante relegando uma massa de gente a uma série de condições de desigualdade. Alguns teóricos, como o jornalista britânico Paul Mason, chegam a afirmar que já vivemos num período que podemos chamar de pós-capitalista. E, de fato, já se verifica no mundo um conjunto de práticas, ações e até de formas organizacionais que não se rendem mais à lógica de mercado, mas que também buscam alternativas para substituir o poder hegemônico da minoria que detém a riqueza e o controle de sua produção.
Há sinais históricos do colapso do capitalismo, tais como: a queda do muro de Berlim em 1989, a crise da Bolsa de Nova Iorque em 2008 e o fenômeno recente do “Brexit” na Inglaterra. Há sinais históricos do fracasso da política das grandes potências: o ataque às torres gêmeas 11 de setembro de 2001, a Guerra do Iraque que começou em 2003 e crise de migração no mediterrâneo que preocupa o mundo desde o seu auge em 2015. Há sinais históricos de que o mundo está perdido: o agravamento da questão climática, o fortalecimento da extrema direita e os atentados terroristas na Europa, não só na França.
Um porta-voz do Estado Islâmico disse em setembro de 2014: “Bata com uma pedra na cabeça, ou mate com uma faca, ou atropele com seu carro, ou empurre de um lugar alto, ou asfixie, ou envenene [todos os descrentes ocidentais]. Especialmente, os sujos e desprezíveis franceses”. Este não é apenas um chamamento ao ódio e à vingança, embora esteja muito claro na fala de um jihadista. Porém, o implícito está ligado a tudo o que o Ocidente construiu, que é um regime de exploração – que beneficia uma oligarquia formada por banqueiros e grandes empresários – sustentado por estruturas políticas resultantes de uma democracia representativa que favorece a manutenção desse mesmo regime de exploração. A França é um símbolo dessa lógica predominante no Ocidente. A gente aqui no Brasil não pode se esquecer que não só somos um produto do Ocidente, mas que também somos ocidentais em nossa formação cultural.
(Charge de Warren Brown para o jornal britânico The Daily Telegraph, em novembro de 2015, reproduzido pelo site do Uol Notícias).

sábado, 10 de janeiro de 2015

Se não há Deus... / If God does not exist... / Si no hay Dios...

“O meu povo cometeu dois crimes: eles me abandonaram, a mim, a fonte de água viva; e cavaram as suas próprias cisternas, cisternas rachadas que não retêm água.” Jeremias 2.13
Dostoiévski, em sua célebre obra Irmãos Karamazov, diz: “Se Deus não existe e a alma é mortal, tudo é permitido”. Essa frase lembra a condição humana a que a cultura ocidental foi submetida a partir da Modernidade ao lançar Deus para fora do mundo.
As charges da revista francesa Charlie Hebdo, que sofreu um ataque terrorista na última quarta-feira, 7/1, são apenas reflexos de um quadro maior de rejeição ao religioso e o estágio de absoluta indiferença a respeito de Deus. O Ocidente aprendeu a não considerar Deus como uma hipótese de conhecimento.
Essa condição cultural, niilista, interfere na maneira de ver o mundo, nas artes e até nas ciências. Todas as verdades são colocadas sob suspensão e até mesmo o senso de humor cede lugar ao deboche, ao grotesco, ao escracho. O conteúdo das charges que despertaram a fúria de terroristas é constrangedor, chega a ser vergonhoso de se mencionar.
A afirmação de autonomia do homem moderno, no entanto, depende da afirmação da liberdade. A máxima de Voltaire torna-se uma bandeira para a defesa do direito de expressar livremente o pensamento: “Posso não concordar com nenhuma palavra que você disser, mas defenderei até a morte o direito de você dizê-las.”
O mundo desencantado e secularizado perdeu-se de si mesmo e rejeita toda forma de crença ou discurso de verdade que lhe aponte o caminho de volta para um tempo de engano e de trevas, como foi definido o período medieval, dominado pela relação entre fé e razão.
A atitude crítica para com o fenômeno religioso conduz a um temor de retorno ao estágio pré-moderno, que lembra a inquisição e o discurso de culpabilização e medo. Mas remete também para um sentimento pós-moderno que reacende as muitas formas de fundamentalismo construídas a partir do século XX, seja ele protestante, de esquerda, de extrema direita, ateísta e até mesmo islâmico. Um mundo de extremos, marcado pela intolerância, que não conhece limites, que prega a absolutização do eu, que exige a relativização de toda a forma de poder e de verdade.
Esse mundo que se perdeu de si mesmo carece de uma voz que lhe aponte o caminho. Contudo, a única voz possível nesse momento de angústia é: até quando? Até quando teremos que assistir indefesos os muitos cerceamentos de liberdade, de tratamento desigual e de opressão num mundo que se afastou de Deus?
Aquele que tem o controle da história, porém, ainda repete chorando o seu discurso na cruz: “Pai, perdoa-lhes, pois não sabem o que estão fazendo” (Lucas 23.34).
(Extraído do informativo de domingo, 11/1/2015, da Igreja Batista da Orla Oceânica)

quarta-feira, 19 de setembro de 2007

Intolerância e fundamentalismo / Intolerance and fundamentalism / La intolerancia y el fundamentalismo

O fundamentalista religioso é aquela pessoa que acha que pode fazer aquelas coisas que ele por si mesmo pensa que Deus faria se estivesse em seu lugar. Geralmente, tem uma compreensão de um deus que é justo e sem misericórdia, irado e sem amor, onipotente e sem compaixão, onisciente e sem tolerância.
Por causa de sua forma de pensar, o texto sagrado que adota não tem entrelinhas. A língua morta em que o texto foi revelado por inspiração divina direta é o único fator relevante para a interpretação e aplicação literal e legalista para hoje e agora, a verdade absoluta e imutável. Não há espaço para análise crítica, para a contextualização, para a compreensão das verdades divinas à luz do contemporâneo.
O sonho do fundamentalista é implantar uma cidade de seu deus aqui na terra, um território santo e protegido contra as muitas artimanhas do inimigo. Um reino de paz e prosperidade para que os fiéis pratiquem livremente sua devoção, com leis e estruturas nacionais que se misturam com a religião oficial, verdadeiro oásis de tranqüilidade. Uma terra santa que tem por dever se expandir através da conquista de outros territórios dominados pelas trevas espirituais.
O deus do fundamentalista exige adoração absoluta, normas rígidas de conduta, veneração, obediência cega à voz de seus porta-vozes iluminados. Os que se dão de corpo e alma por esse deus tem lugar especial garantido no céu. Porém, quem não se submete a esse deus iracundo será alvo de sua eterna insatisfação. E os que a isso se opõem são condenados ao castigo reservado aos inimigos e, se possível, deveriam experimentar do furor desse deus já nessa vida aqui, para que pereçam em seus atos pecaminosos desde agora até a vida futura.
Quem se identifica com essa condição de fé não consegue tolerar outra verdade. A intolerância gera o preconceito, o preconceito gera a agressão até gerar o combate e todas as formas de guerras para se exterminar o suposto mal, sempre com inúmeras vítimas inocentes.
E pensar que o termo “fundamentalista” foi usado pela primeira vez por grupos evangélicos que queriam ser fiéis aos ensinos das Escrituras! Como conviver com isso? Adotando um exercício crítico de nossa fé. É preciso dar um basta na idéia da fé cega de faca amolada. É preciso compreender que o Deus vivo e verdadeiro se manifesta em meio a diversidade e a adversidade. “Mas Deus escolheu as coisas loucas deste mundo para confundir as sábias; e Deus escolheu as coisas fracas deste mundo para confundir as fortes. E Deus escolheu as coisas vis deste mundo, e as desprezíveis, e as que não são para aniquilar as que são” (1Co 1.27-28).
(Um texto antigo, da época do atentado de 11 de setembro. Parte das idéias aqui expostas estão no meu livro O que é religião, publicado pela MK em 2005.)

sábado, 15 de setembro de 2007

O que significa ser fundamentalista / What is fundamentalism?

Desde o começo de minha vida cristã tenho ouvido falar de "fundamentalistas". Acho que ainda não me deparei com nenhum deles. Pelo menos não que eu saiba. Outro dia mesmo andei interessado em achar um. Até que andei procurando, mas ninguém soube me dizer onde eles estão exatamente. Podem estar em qualquer lugar. Podem dar em árvore. Podem nascer de repente e podem ir embora da mesma forma.
Eu já ando meio desconfiado que fundamentalista não existe entre os cristãos. Ou os que ainda possam existir sorrateiramente estão como espécie em extinção. Os únicos exemplares que conseguiram me mostrar, nessa busca por um fundamentalista típico, eram oriundos de religiões como islamismo, budismo, hinduísmo. O cara que detonou a bomba que estava presa a seu corpo no meio da pizzaria de Jerusalém é um exemplo de fundamentalista. O sujeito que soltou aquele gás no trem japonês. Aquele pessoal de uma religião estranha lá na China. A milícia talibã no Afeganistão. Tudo isso é fundamentalismo em profusão.
Teve até uns fundamentalistas cristãos que morreram. Jim Jones e alguns grupos que promoveram suicídio coletivo. Isso me faz desconfiar que não há muito espaço para o fundamentalismo no meio cristão. O nosso solo não é muito próprio para esse tipo de semente. Logo ela se autodestrói.
Sendo assim, cheguei à conclusão que, aquilo que chamam de fundamentalismo cristão, deve ser algo assim parecido com zelo exagerado, uma certa dose de auto-afirmação, uma ponta de fanatismo ou mesmo uma vontade de acertar remando contra a maré. O que me deixa triste é que ainda tem gente que tem pose de fundamentalista, parece com fundamentalista, cheira a fundamentalista, mas se nega a ser um deles. É bom que se diga que o uso do termo começou entre cristãos piedosos que se afirmaram fundamentalistas. Eram os fundamentalista de carteirinha.
Bem, seja lá o que for, o negócio é que se trata de um rótulo a mais que não cai bem dentro do cristianismo. Aliás, o nome "cristão" é tão completo e profundo que não cabe nenhum sobrenome do tipo conservador, renovado, tradicional, moderado, nominal, carismático, ortodoxo, avançado, autêntico, liberal, retrógrado, contemporâneo ou mesmo fundamentalista.
Até mesmo uma tentativa de sair por aí caçando quem é fundamentalista passa a ser também uma espécie de fundamentalismo. Como se tornou o mal do século - ou da virada de milênio - o fundamentalismo passou a ser uma expressão de crer. Tem até ateu fundamentalista!
Portanto,

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