quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Igreja: comunidade pacificadora / Church: community peacemaker / Iglesia: comunidad pacificadora

A igreja deve ser reconhecida como uma comunidade de pacificadores. Só assim seremos também reconhecidos como filhos de Deus. Foi Jesus quem afirmou isso: “Bem-aventurados os pacificadores, pois serão chamados filhos de Deus.” Mateus 5.9. Parece que ele já antevia que o mundo não valorizaria a demonstração de fé se esta não for acompanhada de ações concretas. Isso também é uma consideração bíblica: “Assim também a fé, por si só, se não for acompanhada de obras, está morta.” Tiago 2.17
Porque nós seguimos ao Prícipe da Paz, o mundo não espera menos do que isso de nossa parte. Somos herdeiros de uma teologia que se fixou na ideia de que, para ser filho de Deus, basta crer em Jesus Cristo como salvador pessoal. O próprio Jesus diz para os seus discípulos que, para ser um filho de Deus de fato, é necessário também estar comprometido com a promoção da paz.
A humanidade já descobriu que é em meio à paz que são construídas as grandes decisões para o futuro. Ao contrário do que se pensa, é na busca da paz que são encontradas as grandes soluções. O que os tempos de paz proporcionam? A renovação da esperança, a possibilidade de se experimentar a alegria de viver, a construção de bases para um mundo melhor.
Para se tornar uma comunidade de pacificadores, a igreja precisa pautar a sua ação a partir de alguns valores. Creio que o primeiro deles tem a ver com agir com compaixão. Foi isso que Jesus fez, ele agiu movido pela compaixão quando viu as pessoas que sofrem, a maldade que há no mundo. E a Bíblia propõe que venhamos agir da mesma forma. “Finalmente, sede todos de um mesmo sentimento, compassivos, cheios de amor fraternal, misericordiosos, humildes, não retribuindo mal por mal, ou injúria por injúria; antes, pelo contrário, bendizendo; porque para isso fostes chamados, para herdardes uma bênção.” 1 Pedro.3.8-9.
A igreja precisa ser identificada como uma comunidade acolhedora. A melhor definição para uma igreja acolhedora é aquela que afirma ser uma comunão em que ninguém se sente só. Essa era a característica principal da primeira comunidade de cristãos no mundo: “Da multidão dos que creram, uma era a mente e um o coração. Ninguém considerava unicamente sua coisa alguma que possuísse, mas compartilhavam tudo o que tinham.” Atos 4.32.
Creio também que é preciso ter compromisso com o ideal de Deus para toda a humanidade. É bom lembrar que não somos humanistas. O humanismo tem como princípio a autonomia do sujeito, que pode dar conta de sua vida sem Deus. Nós cremos que sem Deus a vida não faz sentido. Mas não podemos esquecer que o foco da ação de Deus é o homem. “[Deus] deseja que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade.” 1 Timóteo 2.4.
Por fim, para sermos pacificadores, precisamos desenvolver o senso de missão. Para que existimos como cristãos no mundo? Para sermos como Cristo. Para darmos conta da tarefa que Jesus deixou, de fazermos discípulos, só é possível nos tornando um discípulo dele. Discípulo é aquele que aprende, e a nossa grande lição é aprendermos a ser como ele é. Só assim conseguiremos levar o todo evangelho ao homem todo. É dever da greja cuidar do homem porque somos criação de Deus. Disse Paulo: “Nós o proclamamos, advertindo e ensinando a cada um com toda a sabedoria, a fim de que apresentemos todo homem perfeito em Cristo.” Colossenses 1.28.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Espiritualidade quando tudo sai do controle / Spirituality when everything goes out of control / Espiritualidad cuando todo está fuera de control

Enquanto penso sobre as questões que envolvem a paz interior, milhares de cristãos e muçulmanos superlotam a praça da liberdade – ou praça Tahir – no Cairo, pedindo mudanças políticas que promovam a paz no Egito.
Normalmente sou visto como um cara tranquilo. Até o meu nome é uma alusão à paz. Irenio tem sua origem na palavra grega eirene, que quer dizer paz. É o mesmo que pacífico ou promotor da paz. Quando alguém toma uma decisão pela paz, diz-se que ela é “irênica”. Legal isso, não? Mas isso não corresponde ao fato de que tenha paz em mim mesmo. Como qualquer outro ser humano, vivo situações que às vezes me tiram do sério. Eu também preciso de paz e a busco incessantemente.
De fato, há situações que fogem ao nosso controle e que nos tiram a paz. Algumas questões são direcionadoras: o que faz com que as pessoas percam o controle diante de situações estressantes? Por que é tão difícil pararmos de nos preocupar com as coisas que fogem do nosso controle? O dia que alguém entender isso, terá encontrado de fato a tão falada paz interior?
Segundo Epicteto, há coisas que podem ser controladas e outras não. Estão sob o nosso controle as nossas opiniões, aspirações, desejos, coisas que nos causam repulsa e que nos desagradam. Fora de nosso controle estão as nossas circunstâncias, o modo como nascemos ou morremos. Tentar controlar as coisas que não podemos é o que gera angústia e aflição. Até porque não somos sequer capazes de exercer um controle adequado daquelas áreas sobre as quais achamos que temos domínio.
Você precisa de ajuda para tentar entender as situações que tiram você do sério. Essa é uma questão que afeta diretamente suas emoções e a relação consigo mesmo. Ao buscar tentativas de solução, as pesquisas em ciências sociais e psicologia apontam para o fato de que somos seres relacionais e precisamos de todas as áreas do conhecimento para encontrarmos explicações que nos ajudem a melhorar nosso modo de vida.
O problema é que há uma área que tem sido negligenciada, que é a da espiritualidade. A nossa geração aprendeu a rejeitar esse campo de conhecimento como válido para nossa compreensão da realidade. Esquecemos que a dificuldade não está nas formas religiosas que a espiritualidade se configura na sociedade, mas na intolerância, no preconceito, no ódio e no individualismo. Essas coisas podem se dar no campo secular ou religioso. O fato é que a religião é uma força que atua na sociedade, de tal forma que grandes mudanças na vida social foram provocadas por ideais religiosos. Haja vista que entre os que foram laureados com o Prêmio Nobel da Paz estão líderes religiosos cuja espiritualidade serve como referência, tais como: Martin Luther King, Desmond Tutu, Dalai Lama, Madre Tereza de Calcutá.
O que precisamos redescobrir é que olhar a realidade e a nós mesmos pelo ponto de vista da espiritualidade transforma a nossa mente. A neurociência tem descoberto isso. Andrew Newberg e Mark Robert Waldman, no livro Como Deus pode mudar a sua mente, afirmam que contemplar Deus fortalece a maneira como desenvolvemos a nossa empatia e a consciência social a fim de exercermos controle sobre sentimentos e emoções destrutivos. Eles afirmam: “Esse é precisamente o tipo de mudança neural que precisamos fazer se quisermos resolver os conflitos que atualmente afligem o mundo.”
Convido você a contemplar Deus sob a ótica do único guia capaz de descrever a nossa relação com Deus de forma tão humana e relacionada com a vida – a Bíblia. É nela que encontramos o modo como podemos compreender os propósitos de Deus e a maneira como ele se relaciona conosco. Nela está a maior história de amor e compaixão pela condição humana, ao nos apresentar a encarnação de Deus em Cristo como um grande projeto de resgate do sentido de vida e da restauração de nós mesmos.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Espiritualidade e abertura para o pensamento / Spirituality and opening for thought / La espiritualidad y la apertura para el pensamiento

Platão, certa vez, comentou sobre Tales de Mileto, considerado como o primeiro a desenvolver uma atitude filosófica. Tales tinha o costume de refletir sobre o significado dos astros para a existência olhando fixamente para o céu estrelado. Em certa ocasião, sem se dar conta por onde pisava, acabou caindo num buraco. Uma empregada doméstica que viu aquilo riu e zombou de Tales:
– Aquele ali se preocupa tanto com o que se passa no céu, mas não tem olhos para ver o que tem diante do nariz e debaixo dos pés.
O pensamento é isso, essa atitude curiosa que parece que nos permite sair de nós mesmos, como uma viagem ou um voo sem sair do lugar. Não foi à toa que os gregos antigos definiram o pensamento como um passeio da alma. Pensar é parte essencial de nossa natureza humana, exprime nossa existência e é o que nos dá a condição de tomar decisões, fazer escolhas, estabelecer princípios e normas e até atribuir o que vem a ser verdade. Relacionadas com o pensamento estão a consciência e a inteligência, a primeira como a nossa capacidade de percepção da realidade e a segunda como a nossa capacidade de solucionar problemas, atribuir significados e de encontrar novos caminhos, o mesmo que ter entendimento.
A capacidade humana de pensar é o que lhe dá abertura para procurar e encontrar aquilo que é possível, compreensível, adequado. O homem é de fato um animal em busca de significados, como abertura para o novo, destinados à procura constante e interminável. Descartes afirmou que pensar é “tudo o que acontece em nós de modo que nós o percebamos imediatamente por nós mesmos; por isso não só entender, querer e imaginar, mas também sentir é a mesma coisa que pensar”.
Por que agimos assim? Dizer que é porque somos animais racionais não resolve o problema. A grande verdade é que nós não nascemos prontos. É um engano pensar que envelhecemos à medida que vivemos. Na verdade, esse negócio de envelhecimento acontece com as coisas, não com o ser humano. Digo isso para a alegria dos que já passaram de uma certa idade. Quem envelhece é geladeira, fogão, televisão. Meu carro, quando saiu de fábrica, já estava pronto. À medida que o tempo passa, ele envelhece e se deteriora. Eu, porém, conforme vivo, me aperfeiçoo, aprendo, melhoro, cresço, mudo. E isso acontece em meio à atividade do pensamento, que permeia as minhas descobertas e me estimula a novas experiências.
Em tempos de diversidade e de fragmentação, a capacidade humana de pensar envolve dois aspectos: um ligado às estratégias – a necessidade de pensar e agir globalmente, de estar envolvido em grandes sistemas, de ultrapassar fronteiras – e outro relacionado ao “como fazer” – a questão operacional e tática de agir localmente, criando mecanismos de sobrevivência. A ênfase é pensar globalmente e agir localmente, o lema difundido por ambientalistas no mundo inteiro. Isso pode ser sentido em várias circunstâncias na vida profissional e no campo das artes. Há uma demanda cada vez maior por uma combinação entre ação e reflexão, instrumentalidade e capacidade crítica.
Edgar Morin, em A cabeça bem-feita, fala da necessidade de uma reforma no modo de pensar. Ele destaca o fato de que vivemos num tempo em que acontece o fenômeno da hiperespecialização, essa tendência de se valorizar a máxima especialização que impede de ver o global e o essencial. É o caso do mecânico que é especialista em injeção eletrônica de última geração, mas não consegue entender como funciona o sistema de arrefecimento do carro, quanto mais o que envolve a mecânica automotora. Para Morin, “quanto mais os problemas se tornam multidimensionais, maior a incapacidade de pensar sua multidimensionalidade; quanto mais a crise progride mais progride a incapacidade de pensar a crise; quanto mais planetários tornam-se os problemas, mais impensáveis eles se tornam”.
Esse quadro de crise de percepção da realidade é resultado de uma combinação que envolve o surgimento de novos processos tecnológicos, interesses econômicos, intervenção dos meios de comunicação e de transporte, o que tem levado a uma nova relação de tempo e espaço. Nós não dispomos mais dos mesmos recursos engendrados na Modernidade para rever e atualizar a nossa percepção de mundo. Hoje, lidamos com um campo perceptivo mais complexo, que não se limita a uma experiência individual, que envolve a virtualidade e exige a mediação de instrumentos e mecanismos que estão para além de nossa compreensão imediata. Você consegue explicar de forma rápida como funciona a brincadeira no PlayStation Move? E isso acontece também em escala global e até mesmo no que podemos chamar de nano-escala.

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