segunda-feira, 31 de maio de 2010

Espiritualidade e identificação com Cristo / Spirituality and identification with Christ / La espiritualidad y la identificación con Cristo

A experiência de encontro com Jesus Cristo é restauradora, purificadora. Entretanto, ela não é um fato isolado. Isso implica um caminho e um chamado. Há ainda o curso inteiro de uma vida pela frente. Como decorrência dessa experiência, somos convidados a tomar parte do reino de Deus, a entrar na dinâmica da vida no reino. O encontro com Cristo é experiência de conversão, de mudança de atitude e de mentalidade: é metanoia. O que vem a seguir é seguimento de Cristo como vida no reino.
A questão crucial que envolve essa experiência restauradora de encontro é: o que farei por Cristo? A primeira resposta possível é segui-lo como reação a seu convite: “segue-me”. Uma coisa é ser acolhido e perdoado, outra coisa é viver essa realidade cotidianamente como seguimento de Cristo. A segunda resposta é consequência da primeira: configurar a nossa vida com a vida de Jesus. A compreensão do que foi a vida de Jesus, nesse aspecto, é fundamental para nortear a maneira como ele toma forma na minha vida.
Foi o que Paulo propôs aos cristãos de Éfeso: “até que todos alcancemos a unidade da fé e do conhecimento do Filho de Deus, e cheguemos à maturidade, atingindo a medida da plenitude de Cristo.” Efésios 4.13. Isso não se dá de uma forma independente e sem efeitos colaterais, fora de nossa realidade vivencial. Em primeiro lugar, envolve uma chamada à liberdade. Em segundo lugar, há um aspecto objetivo dessa experiência que me aponta para o Jesus histórico. E em terceiro lugar, há um aspecto subjetivo, pois me aponta para o conflito constitutivo da condição humana. É isso que me leva a indagar acerca de até que ponto sou capaz de dar a minha vida por Jesus ou de me identificar com ele.
Essa é a característica da nova vida em Cristo. Paulo afirma: “Por isso não desanimamos. Embora exteriormente estejamos a desgastar-nos, interiormente estamos sendo renovados dia após dia.” 2 Coríntios 4.16. É uma experiência de caminhada que passa pelo conhecimento e meditação a respeito da humanidade de Jesus, que se apresentou como um homem livre, quando constatamos que a vida de Jesus é uma história de liberdade.
Paulo diz ainda sobre essa experiência: “Meus filhos, novamente estou sofrendo dores de parto por sua causa, até que Cristo seja formado em vocês.” Gálatas 4.19. A configuração da vida a Cristo é reconhecer que é possível recriar a nossa própria história a partir de uma outra perspectiva, que a vida pode ter um novo rumo e um novo sentido. A vida de Jesus tem algo a nos falar sobre isso, pois serve como sinal de como é possível viver de acordo com a vontade de Deus, de orientar a vida por uma lógica diferente da que nos tem servido como paradigma até aqui.
O sentido da vida, portanto, está em assumir o caráter de Cristo. Foi para isso que fomos formados. “Pois o que dantes conheceu, também os predestinou para serem a imagem de seu Filho...” Romanos 8.29. É sempre bom relembrar a decisão de Paulo a respeito de sua própria vida: “Fui crucificado com Cristo. Assim, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim. A vida que agora vivo no corpo, vivo-a pela fé no filho de Deus, que me amou e se entregou por mim.” Gálatas 2.20.

sábado, 22 de maio de 2010

Espiritualidade e desejo / Spirituality and desire / La espiritualidad y el deseo

Tenho procurado compreender a espiritualidade em seu aspecto ético. E, nesse sentido, a espiritualidade como expressão de confronto e conformação com Cristo. A espiritualidade, quando entendida do ponto de vista ético, envolve a pessoa inteira, sua percepção e imaginário. Envolve a inteligência, os afetos, a vontade e a liberdade no que diz respeito ao modo como sou atingido em minha experiência com Cristo.
Nesse campo, surge uma definição que abrange a dimensão da ausência, da falta, como consequência dessa falta, que é o desejo. Não se trata de um sintoma eventual, mas constitutivo e fundante de uma busca por realização. O papel do desejo na espiritualidade é o mesmo da psicanálise, pois carrega uma espécie de luto por nós mesmos, nos desaloja e causa uma ferida, como perdidos num mundo para o qual fomos feitos, mas que precisa ganhar novo sentido.
Na verdade, é o desejo que dá sabor à vida. É uma preocupação que toca o coração, o que nos leva a canalizar todas as nossas energias. É o desejo que nos revela quem somos, como sujeitos que se constituem, como propôs Kierkegaard, numa síntese entre finito e infinito.
O homem é um ser que deseja. Caminhamos sempre vagueando entre o medo e o desejo. Necessitamos constantemente de algo e isso abre a experiência da transcendência, o que nos remete à experiência de Deus. No Antigo Testamento, a experiência de Deus era tida como refúgio. No Novo Testamento, essa experiência ganha identidade, toma forma, tem um rosto: é relacionamento com Jesus. É a experiência, por exemplo, de Santo Agostinho, que passou toda a sua vida em busca de Deus, até que o encontro dentro de si mesmo. Nos Exercícios Espirituais de Inácio de Loyola, os desejos são responsáveis por uma busca que sucede a conversão: o desejo de fazer grandes coisas, o desejo de ajudar os outros, o desejo de partilhar do sofrimento por amor a Jesus.
O desejo, então, ocupa um papel central na experiência de espiritualidade. O que se deseja é o que se pede a Deus. É o que acompanha o nosso aprendizado e a nossa caminhada. Eles tanto preenchem e dão sentido à experiência de contemplação e de admiração da manifestação do amor de Deus, quanto afetam a nossa subjetividade.
O sujeito do desejo sente-se alcançado e envolvido pela graça, e é isso que desperta uma necessidade de retribuir com generosidade ao amor de Cristo e responder aos apelos dessa mesma graça.
O desejo de fazer algo por Cristo direciona o seguimento de Cristo. O objetivo de tal experiência é nos ajudar a reconhecer e aceitar quem somos, com nossas fraquezas e potencialidades, e a nos orientar no processo de formação do que Deus quer que nos tornemos. Uma experiência de diálogo entre a realidade de Jesus e seus ensinos – como um novo paradigma do que é ser humano – e a minha realidade, a maneira como pratico seus ensinos.
É essa experiência do desejo que me impulsiona a fazer uma oferta de mim mesmo a Cristo, que se ofereceu em amor por mim. Essa é resposta ao apelo da graça, que me alcança no lugar em que me encontro, do jeito que eu sou.

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