sexta-feira, 25 de abril de 2014

Morada divina / Divine home / Hogar divino

Nele vocês também estão sendo juntamente edificados, para se tornarem morada de Deus por seu Espírito.” Efésios 2.22
Se Deus está interessado em nos edificar para sermos sua morada, isso só pode ser sinal de que somos um bom lugar para habitar.
O que levaria você a escolher um bom lugar para morar? Um bairro seguro, uma rua tranquila, uma arquitetura atraente e funcional, um espaço aconchegante. E se as circunstâncias ainda não nos permitiram desfrutar dessas qualidades, lutamos por conquistá-las, quer seja investindo em melhorias, quer seja reivindicando com quem possa tomar providências.
A gente faz isso para nós mesmos porque a gente sabe que a casa é o único lugar em que se pode ser o que de fato é. E a casa será tão útil e necessária quanto mais a gente sente vontade de voltar para ela e permanecer nela. A casa não é só um prédio, mas um espaço complexo onde a vida acontece intensamente.
Na nossa casa, nós vivemos de intimidade, de comunhão, de liberdade. Nela, nossas dores são enfrentadas de maneira mais corajosa, nossas alegrias são mais profundas, nossas relações são mais duradouras. É o espaço íntimo de nossa existência e se não for assim a vida carece de significados.
Em nossa casa, gostamos de convidar os amigos, protegemos nossos queridos dos inimigos, reunimos os parentes para partilhar a alegria da vida. Nela, recriamos o mundo do nosso jeito. Plantas, animais e natureza são parte da família, extensão de nós mesmos.
Deus deve pensar o mesmo a respeito de nós, quando nos considera como sua morada.

quinta-feira, 17 de abril de 2014

Páscoa, ressurreição e vida / Easter, resurrection and life / Pascua, la resurrección y la vida

Disse-lhe Jesus: ‘Eu sou a ressurreição e a vida’. [...]” João 11.25
Páscoa é recomeço, chamada para uma nova vida, um novo tempo em que novas oportunidades tornam-se possíveis. Celebrar a Páscoa é celebrar a vida.
Foi assim para os hebreus. Na antecipação da travessia para a terra da promessa, uma pausa para reunir a família e a comunidade de fé para refletir sobre o que há de vir.
Foi assim para Jesus. Na véspera da cruz, uma pausa para reunir seus seguidores e amigos para um último banquete e refletir sobre os rumos da fé.
A Páscoa aponta para um fim. É lá que está o começo da vida plena. Para chegar ao fim, há que se fazer a trajetória toda, com todas as implicações da caminhada. Inclusive a morte.
Em tempos de individualismos e de tanta maldade, celebrar a Páscoa é voltar os olhos para a nossa condição humana e construir as pontes de justiça, solidariedade e compaixão que nos ajudem a fazer a caminhada toda.
A salvação consiste em encontrar forças para seguir caminho. Elas estão na relação com aquele que se fez caminho. Sua ressurreição é a garantia de que o caminho é seguro. Nele está a salvação e a vida.
Na figura daquele que foi humanamente divino, Jesus de Nazaré, encontramos a força para seguir adiante, a esperança no futuro, a certeza de que toda maldade terá um basta, de que a vida se renova e que novos começos são possíveis.

Feliz Páscoa com Jesus. Sem ele, não há recomeços.

domingo, 13 de abril de 2014

Aprovado em Cristo / Approved in Christ / Aprobado en Cristo

Saúdem Apeles, aprovado em Cristo.” Romanos 16.10
Não se sabe quem foi Apeles a não ser pela referência do apóstolo Paulo de que ele era um “aprovado em Cristo”. Claro, ele era um membro ativo da igreja em Roma, admirado pelas pessoas. Nada disso, porém, diz muito sobre sua vida, sua atuação, seus relacionamentos, seu testemunho.
De todas as possibilidades de caracterização de quem foi esse personagem que merecia tal saudação, é evidente ter curiosidade a respeito do que faça dele um “aprovado em Cristo”. Aprovado é quem passa por uma prova e isso já tem em si mesmo muito a nos dizer.
Quando se dizia entre os primeiros cristãos que alguém passava por uma prova não correspondia a uma circunstância dolorosa da vida, ou a uma tentação, ou mesmo a uma indecisão que exige de nós uma escolha.
O que estava em jogo nas provas vividas pelos cristãos primitivos era o desafio da afirmação da fé num mundo que hostilizava de forma cruel o cristianismo. Ser provado era ser confrontado com a escolha de viver ou não viver por amor a Cristo. Ser reprovado nesse tipo de exame era negar a fé para livrar-se do martírio. Morrer não significava ser reprovado, mas uma forte expressão de amor e de convicção.

Ser um aprovado em Cristo hoje pode significar outras renúncias naqueles momentos em que nossa fé é colocada sob questão. Viver a fé de forma autêntica é sempre um grande desafio de tal maneira que ser aprovado é uma conquista que precisa ser feita diariamente.

domingo, 6 de abril de 2014

Desencantamento do mundo / Disenchantment of the world / Desencantamiento del mundo

Porque a loucura de Deus é mais sábia do que os homens; e a fraqueza de Deus é mais forte do que os homens.” 1 Coríntios 1.25
Max Weber, sociólogo alemão do século XX, afirmou que a maneira de pensar do ocidente na modernidade foi marcada pelo que chamou de “desencantamento do mundo”. Ele queria se referir ao fato de que, até o fim da Idade Média, as pessoas estavam acostumadas a explicar a realidade a partir da sua experiência religiosa. Com a modernidade, passou a buscar explicações racionais para a realidade.
Um mundo desencantado é aquele em que não há espaço para o que a ciência não pode explicar. Ficam de fora do conhecimento: a compreensão de Deus, as relações com o sagrado e as experiências subjetivas da fé. Para a racionalidade moderna, essas coisas não passam de fenômenos fantasiosos e mágicos.
Isso significou a racionalização da fé e a redução da experiência de Deus a uma prática ingênua e a uma moralidade. A religiosidade racional limita o conhecimento de Deus a fórmulas pré-concebidas. Porém, com as mudanças experimentadas após a Segunda Guerra Mundial, o que se vê é um reencantamento do mundo, um retorno da busca pela espiritualidade. Afinal, a ciência mostrou-se incapaz de nos salvar.

Pessoas precisam de Deus como sempre precisaram. Pessoas são confrontadas com a transitoriedade da vida como sempre foram. Pessoas têm abertura para o futuro e a esperança como sempre tiveram. Reencontrar o encanto da vida é encontrar Deus nos lugares em que a vida acontece.

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Mística da cruz / Mystic of the cross / Mística de la Cruz

Lucas narra a trajetória de Jesus até a cruz de forma muito curiosa. No capítulo 23, logo após o julgamento, Jesus inicia sua caminhada observado por muitas pessoas. Certamente, a maioria que estava ali não era a favor da condenação, mas assistia com diferentes olhares aquele homem enfraquecido pelos açoites carregando uma cruz.
Quem eram as pessoas que estavam ali na via crucis da história? Eram pessoas com identidades distintas, mas que acabavam encontrando a si mesmas diante daquele escandaloso espetáculo. A primeira pessoa a ser mencionada é Simão, o cireneu, que nem era dali. Constrangido a ajudar a Jesus, teve que carregar o peso da cruz, mesmo sem vontade de fazê-lo. Era um visitante que veio à Jerusalém para a festa da Páscoa. Nenhum seguidor de Jesus foi compelido a carregar a cruz, mas sim um estranho.
Lucas fala da multidão que se estendia ao longo do caminho. A grande quantidade de curiosos era marcada pela dor e repulsa por aquele momento trágico. O espetáculo da crucificação levou as pessoas a baterem no peito, que era o sinal de luto. Poderia ser também um sinal de contrição, clamando por misericórdia por si mesmos, o que não acontecia naquele momento. As mulheres geralmente acompanhavam os funerais com cânticos e choro, produzindo muito barulho. A multidão, entretanto, apenas acompanhava a execução.
Ao chegar ao Calvário, o monte da crucificação, Jesus foi crucificado entre dois criminosos. A condenação à cruz era destinada aos crimes mais hediondos. Um zombava de Jesus, mas o outro o identificou como aquele que pode perdoar e propor uma nova vida, ainda que no restinho dela.
As autoridades que executaram a crucificação zombaram de Jesus, argumentando contra a sua condição de Messias e Salvador. Ao final, o centurião, chefe da tropa que comandou a execução, teve que reconhecer a inocência de Jesus e glorificou a Deus.
Não podemos nos esquecer daqueles que eram seguidores de Jesus, que apenas ficaram contemplando a tudo de longe. As mulheres mencionadas eram as que serviram a Jesus. Talvez não fosse aconselhável envolver-se demais.
O trajeto percorrido por Jesus até a cruz acabou se constituindo num exercício espiritual repetido através da história do cristianismo, em que fiéis são conduzidos a meditar em cada parada de Jesus durante a caminhada, que ficou conhecido como via crucis, ou via sacra, ou mesmo via dolorosa. Atualmente, esse exercício inclui 14 estações que lembram etapas desse trajeto, que são relembradas no chamado período da Quaresma, que antecede a Páscoa. Muitos religiosos escreveram meditações para esse exercício, entre eles os dois últimos papas João Paulo II e Bento XVI. Os católicos costumam se referir a Jesus na via sacra como o Senhor dos Passos.
Lutero desenvolveu sua teologia a partir da cruz. Para ele, a nossa condição de pecadores nos impede de conhecer Deus em sua glória. A sabedoria humana jamais permitirá um conhecimento de Deus como ele é. A forma com que o homem pode conhecer Deus é através do sofrimento da cruz. É na cruz que encontramos a nossa redenção e é nela que Deus revela seu amor. Olhar para a cruz é encontrar Deus, não no lugar onde queremos vê-lo, mas no lugar onde ele se revela em toda a sua plenitude.
Na cruz, Deus se mostra humano: impotente diante da morte, humilhado pela culpa que tomou para si. Ali, todas as nossas ideias sobre quem ele é e sobre quem nós somos são lançadas por terra. O que fica é a confrontação com alguém que se faz frágil, que se entrega ao sofrimento e se expõe ao escândalo. Muitos querem encontrar Deus em meio às circunstâncias da vida, perguntando-se por onde ele está. Só o encontraremos se o buscarmos no lugar mais escondido, nas noites escuras da vida que envolvem o comprometimento com a morte de Jesus na cruz. Isso nos humaniza, porque nos expõe à nossa própria fragilidade. Sem a experiência com o caminho de Jesus até a cruz, a fé se torna vazia.

A cruz nos chama para uma espiritualidade que nos impõe um paradoxo. Muitos seguem a Jesus até o partir do pão, mas poucos assumem o desafio do cálice da paixão. Muitos buscam a Jesus por causa dos seus milagres, mas poucos o seguem até a cruz. Muitos querem um cristianismo de boas realizações, mas poucos compreendem a entrega de si na cruz. Refletir sobre a cruz é encontrar-se consigo mesmo no lugar em que Deus, na história, se revelou como um de nós.

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