sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Conselhos para o ano novo / Advice for the New Year / Consejos para el Año Nuevo

A chegada do Ano Novo nos lembra recomeço. Por isso mesmo a data é sempre marcada por expectativas e esperanças, principalmente por causa das perdas e fracassos experimentados no ano que se finda. Muitos até aproveitam esse tempo de virada de ano para buscar, de forma mágica, ações para que não aconteça mais o que já se passou. Entretanto, quero propor a você uma atitude diferente: adote novas perspectivas de vida.
Comece fazendo a si mesmo a seguinte pergunta: o que você planejou realizar no ano que se encerra e não conseguiu? Começar dieta, fazer exercícios físicos, adquirir algum bem em especial, fazer uma viagem, começar um novo curso, ganhar mais dinheiro.
Tenha uma atitude diferente neste começo de ano: adote novas perspectivas de vida.
Como desenvolver atitudes para um ano que possa valer a pena? Seguem, então, dez conselhos para serem pensados durante todo o ano:
1) Construa relacionamentos a partir do sentido de comunhão e não de interesses pessoais. Viver para si mesmo resulta em um grande vazio existencial.
2) Preocupe-se mais com aquilo que você está se tornando, mas deseje ser mais parecido com Jesus Cristo. Seus próximos passos são mais decisivios do que os que você deu até agora.
3) Transforme suas ações cotidianas em expressões de amor e liberdade. Só assim você vai dar valor às suas conquistas.
4) Ponha ordem em sua vida começando com o que pode aperfeiçoar o seu caráter. Seu mundo interior é muito mais complexo do que o espaço que você ocupa.
5) Deixe de viver tanto no seu espaço e passe a viver mais no espaço do outro. É na abertura para o outro que você encontra melhores compreensões para seus próprios conflitos.
6) Valorize mais a gratidão que suas conquistas pessoais. A vida é constituída mais de dádivas e oportunidades do que por nossa própria capacidade.
7) Cuide mais do seu caráter que de sua reputação. A única coisa que você vai levar consigo até a eternidade é o seu caráter.
8) Aproxime-se de Deus para servi-lo, não para usá-lo. Não há nada que se possa fazer para que Deus o abençoe mais, mas você pode fazer mais por ele.
9) Reconheça que cuidar do corpo é cuidar da vida como um todo. Sua vida tem mais a ver com a sua existência que com sua aparência.
10) Promova soluções em vez de fazer críticas e comparações. A melhor maneira de ser feliz é colocando a sua vida a serviço do outro.
Vale também lembrar o grande conselho bíblico:
“Esqueçam o que se foi; não vivam no passado. Vejam, estou fazendo uma coisa nova! Ela já está surgindo! Vocês não o percebem? Até no deserto vou abrir um caminho e riachos no ermo.” Isaías 43.18-19

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Missão: diálogo e anúncio / Mission: dialogue and proclamation / Misión: diálogo y anuncio

A gente já se fez essa pergunta: para que estou no mundo, afinal? A resposta implica necessariamente a descoberta do sentido de missão. E isso tem a ver com diálogo e anúncio. A missão envolve dialogar com as pessoas e compartilhar nossas ideias e descobertas. É uma atividade comunicativa, por assim dizer, em que o anúncio não substitui o diálogo. Há pessoas que se limitam tão somente ao anúncio, vaticinando suas interpretações, via de regra, equivocadas sem ouvir o que o outro pensa.
Falar em diálogo deve-se pressupor a necessidade de solidariedade, de testemunho e de relacionamento construtivo entre diferentes expressões socioculturais. Falar em anúncio deve-se pressupor o convite a que se empenhe em fé em seguir os ensinos de Jesus, o que se dá a partir da conversão, como um redirecionamento da vida para Deus.
A abertura para o diálogo abrange a compreensão de um Deus que se manifesta na história e historicamente a fim de se comunicar a toda a humanidade. Desperta a compreensão de que a humanidade inteira forma uma só família, com uma origem comum, criada por Deus. Implica a ação do Espírito Santo no mundo que se dá de forma invisível e abrangente, havendo sinais de sua presença e da graça em todas as expressões humanas. O diálogo coloca em questão o conteúdo da mensagem que cremos, ao mesmo tempo em que somos confrontados. Nesse sentido, o diálogo é sempre libertador. Para o cristão, o diálogo pode resultar em uma consciência de identidade maior, bem como uma atitude mais aberta às possibilidades de expressão da fé.
A missão aponta para que diálogo e anúncio estejam inter-relacionados, mediante uma espiritualidade que valorize a comunhão. A missão é uma só. Não há condição para um anúncio unilateral de uma verdade absoluta, mas de indicar uma resposta à pergunta sobre quem é Jesus e qual o sentido de seguir seus ensinos para a vida de realização humana. Aquele que professa livremente a fé em Jesus, que dialogou e anunciou sua mensagem aos seus contemporâneos como os evangelhos revelam, é convidado a tomar parte dessa mesma missão.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Superando as barreiras para a liderança autêntica / Overcoming barriers to authentic leadership / Superar los obstáculos para el auténtico liderazgo

O conceito de líder autêntico tem sido associado ao perfil estabelecido pelo mundo corporativo para aqueles que influenciam o mercado produtivo. São pessoas que, mesmo que não possuam as marcas que tradicionalmente são atribuídas ao líder, sabem aprender com suas próprias experiências a partir de uma reflexão realista de sua condição pessoal e encarar corajosamente suas próprias contradições. O líder autêntico se dá conta de suas limitações e as enfrentas na busca de superação.
A tentação de Jesus pode ser vista como exercício de superação das barreiras que impedem a liderança autêntica ou, dito de outro modo, a nossa afirmação como pessoa. As maiores barreiras estão relacionadas à própria condição de sujeito do desejo, que comporta tanto a inclinação para o erro e o equívoco como a aspiração de realização e de afirmação de si. Isso tem a ver com o fato de que há obstáculos que todo líder enfrenta: o desejo de ter; o desejo de poder e o desejo de aprovação. São desejos legítimos, mas que se inserem na dimensão da ambiguidade que caracteriza a nossa própria humanização.
A tentação de Jesus se dá em três modos visando um só fato: a realização do desejo não na acolhida do cuidado e do propósito de Deus, mas na realização humana. A tentação do líder implica a realização do desejo de autonomia e de autogoverno, de ser autossuficiente. Isso afeta líderes em todas as esferas da ação humana, inclusive as relacionadas à fé. Note o que Lucas diz: “Jesus, cheio do Espírito Santo, voltou do Jordão e foi levado pelo Espírito ao deserto, onde, durante quarenta dias, foi tentado pelo diabo [...]” (Lucas 4.1-2). Líderes cristãos também podem ser tentados e isso não tem nada a ver com moralismo.
A tentação de Jesus revela o ambiente para a tentação: nossas carências. Revela também a força da tentação: nossos desejos. O objetivo é nos afastar do caminho do serviço e da solidariedade. Depois de passar pelo deserto por quarenta dias, Jesus teve fome. Não há nada de errado em ser tentado. O problema está na maneira como se constrói um caminho para a solução dos problemas. A pergunta, então, é: como superar as barreiras para o exercício de uma liderança autêntica?
Em primeiro lugar, superando o desejo de ter. A primeira tentação de Jesus lembra o engano da capacidade de realização humana. É a tentação de ter o poder que Deus tem. “Se você é o Filho de Deus, mande que essas pedras se transformem em pão.” Lucas 4.3. Ter é uma armadilha. Comporta a ambição e a ostentação. Jesus foi tentado a criar mecanismos para se apoderar do divino. A ideia é de se tentar manipular Deus através da magia e da alienação.
Em segundo lugar, superando o desejo de poder. A segunda tentação envolve o engano das manipulações humanas. É a tentação de usar o poder de Deus para fins próprios. Satanás mostrou a Jesus todos os domínios do mundo e disse: “Eu lhe darei toda a autoridade sobre eles e todo o seu esplendor, porque me foram dados e posso dá-los a quem eu quiser. Então, se você me adorar, tudo será seu.” Lucas 4.6-7. Jesus foi tentado com a crença de que o homem é um sujeito autônomo, a fazer aquilo que Deus faz. A ideia é de ser como Deus, através da projeção infantil de um Deus paternalista que atende a todos os nossos desejos, bastando pedir do modo certo.
Em terceiro lugar, superando o desejo de reconhecimento. A terceira tentação lembra o engano das aparências, inclusive religiosas, baseadas em critérios de retribuição e merecimento. A tentação de ser Deus. A Bíblia diz que Satanás levou Jesus até Jerusalém, colocou-o na parte mais alta do templo e lhe disse: “Se você é o Filho de Deus, jogue-se daqui para baixo. Pois está escrito: ‘Ele dará ordens a seus anjos a seu respeito, para lhe guardarem’, com as mãos eles os segurarão, para que você não tropece em alguma pedra.” Lucas 4.9-11. Jesus foi tentado a colocar Deus à prova. Ele foi induzido a crer que a razão humana tem o controle de tudo como se nele mesmo, enquanto humano, houvesse a capacidade de exercer decisões sobre o futuro. A ideia é de se substituir Deus na vida, através da ilusão de ter todo o controle e de se exercer o poder dominador.
O quadro da tentação de Jesus nos ajuda a compreender as dimensões da liderança autêntica, principalmente no que diz respeito ao exercício do ministério: a) ele é humano: se realiza em meio ao desejo e ao deserto; b) ele é divino: se realiza em meio ao cuidado divino e ao assédio do diabo. A tentação de Jesus é representativa da tentação humana de realização de seus desejos através de meios próprios e não na acolhida da graça na vida.
Jesus torna-se o paradigma da escolha que precisa ser feita. Ele realiza o seu ministério em meio à fragilidade humana e a confiança no cuidado divino. O evangelho de Lucas diz que Jesus saiu do lugar da tentação e foi para a Galileia, onde iniciou seu ministério “no poder do Espírito”. Sua primeira mensagem na sinagoga de Nazaré lembrou a profecia de Isaías 61:“O Espírito do Senhor está sobre mim...” (Lucas 4.18)

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Ética para uma liderança autêntica / ethics for authentic leadership / ética para el auténtico liderazgo

O caminho para a construção de uma liderança autêntica passa pela formação do caráter do líder. A lógica que rege o mundo corporativo distancia aqueles que exercem liderança dos processos de nossa própria humanização. Não é raro encontrar metáforas que exemplificam essa realidade: liderar com mãos de ferro, ser uma coluna firme, ter pés de boi. As virtudes mais valorizadas, que conduzem ao sucesso, são: coragem, inovação e superação, como se fossem conquistas isoladas da complexidade humana. Tudo isso é legítimo, mas nada disso acontece se a personalidade do sujeito não sofrer um longo, e muitas vezes penoso, processo de construção.
Deus sabe disso. Ele conhece o ser humano melhor do que qualquer um de nós. Afinal, ele nos criou e se fez um de nós. Uma das narrativas bíblicas que serve para exemplificar isso é o processo de construção da personalidade de Elias como profeta. Ela se encontra em 1 Reis 7-19. Elias é o protótipo do líder para hoje. Sua experiência levanta a questão da ambiguidade que envolve o exercício da liderança, principalmente no que diz respeito à atividade pastoral e profética. O processo pelo qual Elias é formado como um líder para o seu tempo é marcado através de sua trajetória que passa por alguns lugares que são simbólicos: Querite, Serepta, Carmelo e Horebe. A partir de cada um desses lugares, é possível levantar questões que têm a ver com a ambiguidade da liderança.
A primeira delas é: a quem você serve? Querite, então se apresenta como o lugar de luta diante da ambiguidade que envolve a liderança: o exercício do poder e a fragilidade humana. Naquele primeiro momento, Elias quis ser reconhecido como representante de um Deus melhor que Baal. Deus não é um deus melhor, mas diferente. Essa diferença é revelada pela ação de seus servos. Para enfrentar a oposição diante do poder de Baal e do rei Acabe, Elias precisou passar pelo retiro de Querite, onde foi cuidado por Deus durante um período de seca.
A segunda questão é: como você serve? Serepta apresenta-se como o lugar do encontro com a fragilidade humana. A ambiguidade está na confrontação das situações concretas vividas. Elias sai do seu retiro e se depara com situações reais vividas pelas pessoas simples. Nada é mais frágil que uma viúva desamparada e um menino morto. A verdadeira missão do líder se afirma diante desse quadro: revelar o Deus amoroso, não o Deus Todo Poderoso. Elias deveria agir como servidor do Deus da vida. O Deus diferente de Baal se revela diante de situações reais vividas por gente comum, diante de situações cotidianas, a fim de despertar conversão e fé.
A terceira questão é: o que você faz? Carmelo se torna o lugar de atitude, de tomada de decisões corajosas. A ambiguidade está na possibilidade de exercício do poder, tanto para dominação como para revelação do amor de Deus. Elias é tentado a não agradar a Deus, mas ao povo. Está claro que o objetivo é conduzir o povo a Deus. Mas, para isso, pode servir-se de uma estrutura de poder e de mecanismos de violência. A experiência do Carmelo é emocionante: põe Deus à prova e o obriga a se manifestar. Com a vitória sobre os profetas de Baal, Elias é percebido como aquele que tem o controle sobre Deus e sobre o tempo. Passa a ser servido pelo rei. Dois personagens são importantes nessa história: Obadias, aquele que age em nome de Deus salvando os que permaneceram fiéis ao Senhor, e Jezabel, uma inimiga mortal disposta a matar todos os que fossem fiéis ao Senhor. No primeiro está o exemplo de alguém que luta em nome de Deus, no segundo está a oposição. O exemplo de Obadias estimula a ação, mas a ameaça de Jezabel o devolve a sua fraqueza.
A quarta questão, então, é: por que você serve? Horebe é finalmente o lugar de estar diante de Deus despojado de toda a ilusão do poder. É resultado de uma oração de fracasso de Elias em 1 Reis 19.4, que revela disposição de entrega e reconhecimento de quem é. A grandeza do ministério profético de Elias não está no Carmelo, mas em Horebe. Elias pode agora deixar Deus ser Deus e ele mesmo ser o que é, um profeta. Horebe traz a ambiguidade a respeito de Deus: o verdadeiro Deus de bondade age no meio da suavidade. A teofania é fundadora da diferença entre Deus e Baal: o Senhor não está nas projeções que fazemos dele, como o vento tempestuoso, o tremor da terra ou o fogo, mas na brisa suave. Diante da descoberta de quem Deus é, descobrem-se também novas linhas de ação: o lugar do profeta não é Horebe, mas no meio do povo.
No processo de humanização do exercício da liderança, a trajetória de Elias representa a diversidade em que o líder pode se encontrar. Em cada uma delas, um perfil de líder pode ser formado. Entretanto, quando estamos diante da realidade da liderança cristã para um tempo como este, é somente em Horebe que a liderança pode se fazer autêntica.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

A religião acabou? Ou a volta dos que não foram / The end of religion / El fin de la religión

O fenômeno religioso é resultado do encontro do homem com o sagrado. Por mais que se tente subestimar o valor do elemento religioso em sua dimensão experiencial, não se pode negar que é próprio do humano ter uma abertura para o transcendente, para algo que está além de si, que se constitui de valores ligados ao que é precioso, inviolável e respeitável. Podemos associar esse campo em que se dá a experiência religiosa como do sagrado, conforme a categoria definida por Rudolf Otto, em O Sagrado, como um elemento ou momento que foge ao racional, sendo algo impronunciável, indizível ou mesmo inefável, na medida em que foge completamente de uma compreensão conceitual, a que chama de “numinoso”. Otto chega a reconhecer que o reformador João Calvino já falava de uma percepção de Deus como uma dimensão santa, uma categoria de interpretação e de valoração que possa abranger esse algo mais e suas derivações.
O que podemos chamar de sagrado, portanto, é aquilo que promove uma ruptura entre o natural e o sobrenatural, que remete a uma potência que gera o espanto, o maravilhoso, o mistério, o desejo e o temor. O sagrado está na dimensão do simbólico e estabelece uma relação de vínculos que podem resultar em simpatia ou repulsa, atração ou rejeição, autoridade ou submissão, devoção ou temor, amor ou ódio.
A religião é fundadora dessa noção de espaço, de tempo e de valores sagrados, a partir dos quais se dá a experiência de encontro, de ligamento e de releitura da realidade circundante. O que se pode ver, com isso, é que a religião é muito mais do que uma questão de escolha pessoal. Trata-se de um sistema complexo e fascinante que tem marcado a história da humanidade desde seus primórdios. É uma experiência humana que se manifesta culturalmente e se atualiza à medida da própria experiência humana. É assim porque temos diante de nós sempre a pergunta pelo sentido da vida, pelo fim último de nossa existência. Se o homem não encontra em Deus o fundamento último de sua existência, tende a adotar outros absolutos e a fazê-lo conforme a sua imagem e semelhança. Do contrário, mergulha no desespero e no vazio existencial.
Voltando à questão simbólica, é no espaço da experiência de liberdade e possibilidade de transcender, de um para além de si mesmo, que o homem pode se realizar. Entretanto, é naquilo que se mostra nas relações da experiência humana que se verifica que toda a liberdade e transcendência são relativas, limitadas e condicionadas. Toda a realização se dá na dimensão da representação simbólica, como um espaço onde se afirma a pretensão do conhecimento da verdade, a consciência do bem e a noção do valor pessoal de si e dos outros. Quando nos damos conta da ambiguidade dessa dinâmica – de um ser marcado pela liberdade, mas também pelo determinismo; pela transcendência, mas também pela contingência; pela eternidade, mas também pela finitude – é que construímos nossas relações. A necessidade de superar suas próprias limitações leva à busca de direção, de um para onde a vida se encaminha, que pode encontrar em Deus o fundamento último de sentido.
Dizer que o fenômeno religioso deixou de existir ou que perdeu a sua força, por conta do secularismo, do desencantamento do mundo e do pluralismo, é algo que precisa ser repensado. Diante da força da indústria cultural, para usar um termo de Adorno e Horkheimer, em Dialética do Esclarecimento. a religião emerge hoje como um negócio e como uma mercadoria, destinada a legitimar uma ideologia que orienta a relação simbólica com o sagrado e a busca de soluções imediatas para o sofrimento humano. Afinal, vivemos a época em que se valoriza a infinita capacidade de realização humana, que alguns têm chamado de pós-modernidade. Uma época em que se rejeita a ideia da tradição religiosa que enfatizava a fraqueza humana, para dar lugar à possibilidade de uma vida de sucesso e de prosperidade, em torno de um dever de consumo contrário ao sentimento pietista de privações e de ideal ascético.
A religião da pós-modernidade proclama que a pessoa pode conseguir essa vida de sucesso e prosperidade e ainda apresenta um resumo de como se deve fazer para consegui-la. E isso porque os homens e mulheres pós-modernos precisam de algo que os ajude a superar o sentimento de incerteza diante de um mundo fragmentado, que lhes rouba a segurança e põe em risco a sua identidade. Precisam do elemento mágico que transforme incerteza em autossegurança, que aponte caminhos para a restauração da personalidade, reelaborado de uma forma que encante, que seduza e que convença de que se está diante da experiência do sagrado. Ficam de lado, com isso, o sentimento de pertença e o sentido de vida em comunidade. Com isso, esse fenômeno continua vivo e presente na vida humana, redefinindo as formas de se relacionar com a religião instituída.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Como vencer a solidão através da comunhão/ How to overcome loneliness through communion / Cómo superar la soledad a través de la comunión

Um dos fatos que tem chamado a atenção de pesquisadores é o aumento vertiginoso do uso dos sites de relacionamento social, as redes sociais como orkut, facebook e twitter. Para muitos, isso é resultado de uma busca natural por relacionamentos. O ser humano é, por natureza, um animal social, como reconheceu Aristóteles. O problema é que o relacionamento virtual pode até solucionar a necessidade de se fazer conexões com outras pessoas, mas não supre a necessidade de relacionamentos profundos e sinceros. O resultado é que vivemos num mundo em que há bilhões de pessoas que sofrem de solidão. Cada vez mais, as pessoas precisam permanecer plugadas para diminuírem os efeitos nocivos da solidão em que estão imersas.
A solidão é um estado emocional provocado pelo sentimento de ausência e abandono, relacionado a uma diversidade de fatores que envolvem valores, experiências e sentimentos que a pessoa carrega consigo, que acaba por orientar a sua percepção acerca do seu mundo exterior. É diferente do que se pode chamar de “solitude”, a experiência de silêncio e reclusão, muitas vezes encontrada na vida religiosa ou nas atividades criativas. Muitas das grandes realizações humanas – na poesia, nas artes, nas ciências – aconteceram em meio a momentos de quietude e isolamento.
A solidão é a principal causa de infelicidade para cerca de 20% das pessoas em geral. Uma em cada cinco pessoas sofre de solidão. Isso pode ser a causa de muitos problemas de saúde, como hipertensão, problemas cardiológicos, obesidade e baixa imunidade. A solidão pode provocar também um vazio existencial, em que a vida não faz mais sentido. O fato é que passamos 80% de nossa vida em companhia de pessoas. Fazer parte de um grupo social, ter amigos, viver em comunidade é uma necessidade humana, de tal modo que a solidão se constitui em um alerta para que evitemos o isolamento. Mesmo assim, muitos estão solitários em suas próprias casas ou até cercados por uma multidão de pessoas no trabalho, na escola, nas ruas, e até na igreja. O que provoca a solidão são mecanismos de defesa relacionados a uma atitude narcisista, à projeção que nos leva a remeter aquilo que não desejamos para o outro e até mesmo à crença de que precisamos de alguém para nos completar. Ou seja, tem mais a ver com a nossa personalidade do que com a forma como somos tratados.
O melhor remédio contra a solidão é a comunhão. A origem da palavra vem do latim communio, aqueles que têm o mesmo munus, a mesma tarefa, a mesma responsabilidade, o mesmo empenho de cuidar uns dos outros. Os primeiros seguidores de Jesus levaram a comunhão tão a sério que todos tinham tudo em comum. O Novo Testamento, ao descrever a comunhão dos primeiros cristãos, usa a palavra grega koinonia, que se refere a um relacionamento mútuo, que pode ser entendido como companheirismo.
Dietrich Bonhoeffer lembra, no seu livro Vida em comunhão, alguns aspectos que envolvem a relação entre comunhão e solidão. Para ele, é na solidão que se descobre o valor da comunhão. E alerta: “Àquele que não consegue ficar sozinho, que tome cuidado com a comunidade... Àquele que não está na comunidade, que tome cuidado ao ficar sozinho... Cada situação apresenta ciladas e riscos profundos. Aquele que deseja comunhão sem solitude mergulha num vazio de palavras e sentimentos e aquele que procura a solitude sem a comunhão perece no abismo da vaidade, do narcisismo e do desespero.”
Para Bonheffer, “é preciso destronar os ídolos da comunidade que criamos a partir de nossa memória ou teoria”. Toda pessoa traz consigo uma ideia bem definida de como deve ser a comunhão e se empenha por colocá-la em prática. Porém, para que a comunhão autêntica seja realizada, é preciso deixar de lado todo tipo de ideia pré-concebida e toda a fantasia para dar lugar ao princípio cristão da comunhão. Ele diz ainda em uma das cartas da prisão, ao experimentar o abandono e o desprezo dos campos de concentração: “Corre-se o perigo de esquecer que a comunhão dos irmãos crentes é um presente gracioso de Deus, presente esse que nos pode ser tirado a qualquer hora.”
Num tempo em que as pessoas se tornaram indiferentes à mensagem cristã, a comunhão possui uma riqueza de possibilidades que não podem ser desprezadas. Jesus entendeu que o melhor espaço para se viver em comunhão é a comunidade daqueles que vivenciam na prática os seus ensinos. Esse é o conceito bíblico de ser igreja. A vida em comunhão remete à noção de comunidade. A igreja é o lugar em que as pessoas têm o compromisso de se empenhar para viver em comunhão, com todos os riscos que isso implica. Nem sempre é assim. Afinal, não existe a igreja perfeita. Estamos todos em processo de construção. Rick Warren afirmou: “Quanto mais rápido renunciarmos à ilusão de que uma igreja deve ser perfeita para que a amemos, mais rápido deixaremos de fingir e admitiremos que somos todos imperfeitos e precisamos da graça. Esse é o início da verdadeira comunidade! Toda igreja deveria afixar uma placa: ‘Pessoas perfeitas não precisam entrar. Este lugar é somente para os que admitem ser pecadores...’”

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Filosofia e Teologia: aproximações e distanciamentos / Philosophy and Theology / Filosofía y Teología

A Filosofia e a Teologia sempre trilharam caminhos que se entrecruzaram. Essa relação vai além da questão da fé e da razão. O próprio nascimento da Filosofia aconteceu em meio ao questionamento a respeito da relação com a divindade dentro da mitologia grega, que se consistia em uma projeção da condição humana. Para a filosofia clássica, a pergunta sobre Deus apontava para a ideia de um ser único, ato puro, princípio causador de todas as coisas. O diálogo que a teologia cristã empreendeu com a filosofia greco-romana resultou em uma apropriação dos paradigmas da razão ocidental para dar conta da compreensão do Deus da tradição judaico-cristã.
Com a Modernidade, a Filosofia abandonou o campo que lhe era próprio, o da metafísica, para dar lugar à epistemologia. Quer dizer, ela deixou de se preocupar com as questões que envolvem a totalidade para enfatizar a capacidade de conhecimento. Com isso, o que se viu foi uma expansão do conhecimento empírico, a evolução das ciências experimentais, a ênfase naquilo que pode ser explicado, matematizado e experienciado. Isso provocou o aumento da informação e da capacidade de máxima especialização, o que reduziu a compreensão da totalidade. Ficaram de lado a dignidade, os valores humanos e o esvaziamento de sentido, que necessitam de uma nova abordagem. É o que vai despertar o movimento contemporâneo por parte das diversas culturas de afirmação e de resgate da identidade. Nesse ambiente, a Filosofia torna-se necessária porque ela é própria da atitude humana. Todo ser humano é, em princípio, um filósofo uma vez que está sempre em busca da verdade última de todas as coisas.
O homem tem uma abertura para o absoluto e o transcendente. Considerar que apenas o dado empírico, sensível e objetivo é suficiente para dar conta da verdade é uma ingenuidade. A realidade e a verdade transcendem à compreensão objetiva e factível. É isso que confere à pessoa o valor de sua condição espiritual. Isso envolve não só a questão moral, como afirmou Kant em sua metafísica dos costumes, mas também a percepção estética e a descoberta do outro em sua dimensão relacional. A carta encíclica Fides et ratio, assinada por João Paulo II, chega a falar de uma necessária passagem do fenômeno ao fundamento, o que representa o desafio do pensamento humano neste tempo. É essa abertura para o transcendente que possibilita à Teologia o papel de mediação na compreensão da revelação divina. Para a referida encíclica, esse é o caminho para a superação da crise de sentido que afeta o pensamento humano na sociedade atual.
É um engano pensar que o enfraquecimento da razão pode resultar em um fortalecimento da fé, ou vice-versa. O enfraquecimento da razão resulta, isso sim, numa fé supersticiosa que se alimenta do mágico. O enfraquecimento da fé, por sua vez, resulta na fragmentação e na perda de sentido, pelo fato de a razão não ser capaz de abarcar a totalidade e o sentido último das coisas. Um humanismo que se fecha em si mesmo, apenas relacionado ao presentificado, não consegue entender que o ser humano tem uma abertura para o transcendente, para a busca da verdade, para a felicidade e para a liberdade. Para isso, ele está aberto para o todo. Uma filosofia que contempla essa possibilidade resgata o campo da metafísica, que acaba por se tornar um campo comum à Teologia.
A Teologia é resultado de uma compreensão da revelação divina nas circunstâncias concretas em que ela foi recebida. A própria noção de palavra de Deus deve ser entendida não como palavra humana, mas como a fala divina é recebida, entendida e expressa na fala humana, com as circunstâncias socioculturais e históricas que permeiam a linguagem. Uma experiência de Deus – ou mesmo uma expressão religiosa – sem logos, sem razão, é apegada ao contemplativo e ao mágico, voltada para as soluções imediatas.
A Filosofia chega à noção do absoluto e da totalidade a partir da razão e do conceito de uno. A Teologia, por sua vez, desenvolve a noção de transcendente a partir do homem e do mundo. Um apelo que pode ser feito pela Teologia é para que a Filosofia resgate a preocupação com aquilo que foi a sua vocação primeira, abandonada para dar lugar a um reducionismo e a uma afirmação da autonomia da razão, com a ilusão de que é possível se ter todas as respostas.
O fazer teológico não pode abrir mão da reflexão filosófica, vista aí a própria análise do texto bíblico e a compreensão da questão da fé em relação à compreensão de Deus. O risco é de se apegar a uma concepção de natureza fundamentalista e de se estabelecer impedimentos para a compreensão da própria condição humana em suas expressões culturais. A necessidade da abordagem filosófica tem razões antropológicas, uma vez que Teologia e Filosofia têm em comum o interesse pela realidade do ser humano e do mundo, bem como a abertura e o deseja pela totalidade e pela verdade. A Teologia só pode falar desses temas levando em consideração a experiência humana que implica a atitude filosófica como uma faculdade do pensamento. Uma tradição teológica que rejeita a importância da Filosofia e sua natureza crítica terá grandes dificuldades de interpretar a natureza da revelação de Deus a ponto de proporcionar uma interação com a compreensão da realidade humana e sua abertura para o conhecimento do transcendente.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Diálogo inter-religioso e futuro do cristianismo / Inter-religious Dialogue and the future of Christianity / El diálogo interreligioso

O diálogo inter-religioso é um tema que invade a Teologia e demanda a emergência de uma reflexão crítica sobre os caminhos que ela seguirá nos próximos anos. A teologia que nos foi transmitida como legado nos exige a uma mudança de atitude tendo em vista a abertura para esse diálogo. Ela oferece uma imagem distorcida de Deus, como que pertencente a uma determinada cultura e como sendo domínio de um determinado povo, tendo em vista o atendimento a determinados interesses e necessidades de grupos, mesmo que sob a forma de uma aparente piedade religiosa.
Além da questão da compreensão de Deus, a tradição cristã acabou por formular uma teologia da salvação, por exemplo, voltada tão somente para a vida futura, sendo a igreja detentora da obra da redenção. A missão cristã acabou resultando em uma mensagem que promove uma noção de Deus equivocada, bem como na proclamação de uma relação entre Deus e a humanidade distante da ideia do Deus amoroso e justo que afirmamos.
A reformulação da abordagem teológica tendo em vista o diálogo inter-religioso passa pela necessidade de se assumir que a mente humana não pode compreender Deus em sua totalidade, a não ser a partir das relações concretas observadas na vida daqueles que professam a fé nesse Deus. O que se é urgente repensar tem a ver com a necessidade de resgatar o núcleo central da mensagem de Jesus que é fundamentada totalmente em Deus, com ênfase no amor na relação com Deus como “Abba” e na dinâmica do Reino de Deus. Isso levaria a Teologia a reafirmar a necessidade de tratar a conversão como autêntica mudança de vida e não como adesão, tendo em vista o resgate da dignidade humana e a busca de realização como pessoa.
Está claro que o objetivo é defender uma mudança no modo de se fazer Teologia. Entretanto, alguns aspectos precisam ser discutidos, tais como: de que maneira é possível compreender as demais religiões como portadoras de meios de salvação? Como aceitar outros meios de salvação que não passam pela mediação de Jesus Cristo? É possível continuar afirmando a ideia de igreja como uma comunidade que caracteriza e dá forma ao “povo especial de Deus, zeloso de boas obras” (Tt 2.14) diante da noção de um Deus que não tem preferências? Quando se defende uma salvação que se dá nas formas concretas de vida, tendo em vista a realização humana, a justiça e a felicidade, como desenvolver a partir daí uma escatologia que dê conta dessas inquietações?
O que se vê é que estamos diante de novas implicações para o fazer teológico. Isso também tem a ver com o modo pelo qual a missão cristã deve ser realizada a partir de uma atitude aberta e de diálogo com as outras religiões e os movimentos humanos. E isso definirá os rumos do cristianismo e da Teologia cristã. O cristão do futuro deverá ser alguém que dialoga mais do que nunca em toda a história.
Entretanto, isso não significa abrir mão do arcabouço de saberes construídos ao longo da história nem daquilo que caracteriza a identidade cristã como essência. Acredito que o caminho está na renovação de uma espiritualidade no sentido de levar mais a sério a mensagem de amor de Jesus, tendo em vista as necessidades vividas pelas pessoas em suas próprias circunstâncias. Isso implica considerar também o cristão como pessoa inserida no mesmo contexto das demais, o que exige uma ação e um discurso de respeito, tolerância, de solidariedade e de busca do bem comum, ainda que isso resulte em confrontação com o sistema vigente e a rejeição radical de valores que até aqui têm sido considerados como superiores.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

11 de setembro: dez anos depois do ataque às torres gêmeas / September, 11th: ten years after / 11 de septiembre: diez años después

Há dez anos atrás, o mundo foi surpreendido com o ataque às torres gêmeas do World Trade Center, em Nova York, atribuído à rede terrorista Al-qaeda, de ideologia fundamentalista muçulmana. Estava chegando ao Seminário do Sul na manhã daquele dia, quando assisti estarrecido na TV da cantina ao incêndio que acontecia na primeira torre. O primeiro avião acabara de colidir com ela. Fiquei ali petrificado vendo aquelas imagens que chocaram o mundo. Logo outro avião atingiu a segunda torre e o que se viu foi uma cena de pânico e horror que tomava conta dos cidadãos que viviam ali. Não demorou muito, a torres começaram a ruir, uma após a outra, deixando um vazio no cenário daquela cidade e do mundo. O resultado foi de muitas vidas sacrificadas, atos de heroísmo e humanidade dos bombeiros e um rastro de guerras contra o terror.
Uma pergunta ficou no ar, que até então não foi respondida: o que levou pessoas a cometerem tal ato? Eles invadiram o território de um país, sequestraram quatro aeronaves de grande porte, pilotaram as mesmas com habilidade de quem foi treinado minuciosamente para direcioná-las a seus alvos. Seria uma reação contra o poder imperialista norte-americano simplesmente? Teria por detrás uma questão religiosa para afirmação de obediência à divindade? Seria resultado de um comportamento psicopata dos líderes da rede terrorista?
O fato é que o 11 de setembro marcou a história do começo do século XXI. Um novo contorno das relações de poder começou a ser instaurado, em que ficou claro que: o imperialismo norte-americano não poderia mais ser o mesmo; as relações econômicas começariam a dar lugar a novas nações emergentes que se despontam no cenário mundial; o paradigma do petróleo precisava ser substituído por uma outra matriz energética, gerando a busca de novas tecnologias; a segurança mundial em risco clamava por novas forças que a tornem viável; o ocidente precisava abrir o diálogo com as formas de pensar vindas do oriente.
Na semana daquele ataque, publiquei no boletim da igreja uma reflexão sobre o tema. Acredito que ainda valem aquelas considerações. Passados dez anos, o Iraque e o Afeganistão continuam sob domínio dos Estados Unidos e forças da Europa; Saddam Husseim, tido como protetor dos terroristas e uma ameaça ao mundo por ter armas de extermínio em massa, foi preso, julgado e morto; Bin Laden foi capturado e morto, mas nada disso fez o mundo mais seguro ou melhor de se viver. Veja o texto que escrevi na época, com o título “Que mundo é esse”:
“Este é o primeiro ano do século XXI, o século posterior ao período considerado mais violento da história da humanidade. Catástrofes como a que aconteceu no dia 11 de setembro de 2001 em Nova Iorque e Washington desencadearam conflitos maiores no século XX. Em 1914, um atentado na região de Sarajevo desencadeou a Primeira Grande Guerra Mundial, resultado da ação de um terrorista sérvio que acentuava a rivalidade entre as nações mais poderosas do mundo. Em 1941, o ataque japonês a Pearl Harbor, marcado pela participação de pilotos suicidas, define a participação da grande potência norte-americana na Segunda Guerra Mundial.
Mais uma vez, um composto de terrorismo e ataques suicidas coloca em cheque a fragilidade do sistema de defesa da maior potência do mundo. Os alvos foram as suas fontes principais de poder: a sede de seu poder militar (o Pentágono) e a sede de seu poder econômico (representado pelas torres gêmeas do World Trade Center, símbolo do capitalismo moderno). Um terceiro alvo poderia ter sido atingido, certamente alguma outra instituição maior representativa da força daquela nação agredida.
A razão de ataques como esses está no ódio existente nos corações. Ódio que gera intolerância e rivalidade. Ódio que nasce da opressão e resulta na violência. O terrorismo é a forma mais hedionda de expressar um sentimento de mágoa e rancor diante do fracasso e da opressão. Os povos e grupos muçulmanos que ainda não encontraram êxito em suas milícias continuam gerando filhos do ódio. Afinal, são dez séculos de ressentimentos desde os tempos das cruzadas. E hoje não podemos negar que a polaridade das questões bélicas está na rivalidade entre Ocidente (predominantemente cristão) e Oriente (predominantemente muçulmano).
Atacar os símbolos americanos de poder, derrubar as estátuas milenares de Buda ou mesmo a perseguição, morte e aprisionamento de cristãos nos países do Oriente Médio são partes de um mesmo universo, de uma mesma guerra santa, cujo objetivo é lavar a honra de povos feridos e ultrajados de diversas formas ao longo do tempo.
Que mundo é esse em que nós vivemos? Um mundo sem Jesus e, por conseguinte, sem paz e sem esperança. É hora de cristãos se unirem em todo o mundo em favor de uma solução divina. A solução humana? Ah, essa, com certeza será buscada a qualquer custo. A mesma potência que não deixou em branco Pearl Harbor, detonando duas bombas atômicas sobre cidades japonesas quatro anos depois, não descansará enquanto não responder seus agressores à altura.
A nós, que assistimos a tudo perplexos, só nos resta clamarmos pela misericórdia divina, para que a compaixão e a capacidade de perdoar exceda esse sentimento de terror que há em tantos corações.”

domingo, 4 de setembro de 2011

Deus, muito além do delírio / God, far beyond the delirium / Dios, más allá del delirio

Quem é Deus para você e quem é você para Deus? Deus é uma palavra carregada de mistério. Não dá para ignorá-la e não dá para tomar posse dela. Não serve como instrumento de barganha, nem como analgésico instantâneo para a dor. Não dá para usá-la como arma contra o outro nem deixar de lhe atribuir um sentido. Entretanto, mais do que uma palavra, referir-se a Deus dá conta de uma presença, como um rumor que perpassa a nossa história e nos remete a uma busca, como expressão de desejo e de transcendência que somos.
Já houve tempo em que crer em Deus era uma exigência. Já se viveu época em que era impossível imaginar a não existência de Deus. A Modernidade, porém, com sua nova mentalidade científica, trouxe a ideia de que a existência de Deus é uma impossibilidade. O ateísmo tornou-se uma ameaça. Hoje, saltou-se do ceticismo para a indiferença, o que é mais preocupante do que simplesmente não crer ou negá-lo. O que se vê, contudo, é um retorno do sagrado e uma nova abertura para o transcendente. Seria isso o surgimento de uma nova pergunta por Deus?
Não é tão relevante se você se importa com isso ou não, ou se você o busca ou não. O fato é que Deus vem ao nosso encontro e indaga a nós como indagou a Adão no Édem: “onde estás?” Você vai descobrir que é possível experimentá-lo antes mesmo de tentar compreendê-lo e que é preciso primeiro invocá-lo para depois se pensar sobre ele. Diante de Deus, não há que se falar sobre ele, racionalizá-lo em uma forma explícita. Há que se cultivar a capacidade de percebê-lo, ouvir sua voz e acolher seu amor. Blaise Pascal reconheceu que “não é possível conhecê-lo a não ser quando ele mesmo se dá a conhecer”.
Quando se fala de Deus, fala-se a partir de uma relação. Não se trata do Deus da filosofia nem o das explicações objetivas , mas o Deus de Abraão, de Isaque e Jacó, o Deus de Jesus Cristo, o Deus dos vivos e não dos mortos. O Deus que é cheio de graça e o Deus que se esvazia. O Deus solitário e o Deus solidário. O Deus que se silencia e o Deus que acolhe. O Deus que é graça e salvação para o homem. Não é o Deus de nossas carências, não é fruto de nossos desejos infantis, não é um remédio contra a dor e a morte, não é um meio de satisfazer minhas necessidades humanas nem é um instrumento que eu possa manipular. É Deus que me vê como homem e que se faz homem para se aproximar de alguém como eu para compartilhar sua divindade comigo.
Na sinagoga de Buenos Aires, no lugar onde são guardados os livros da Toráh, está escrito: “Saiba diante de quem você está”. Para se dar conta disso, a Bíblia serve como um testemunho do Deus que se coloca diante do homem e que o chama para um caminho. Você não encontra na Bíblia explicações sobre quem Deus é ou como é possível desvendar os seus mistérios. Você encontra ali narrativas acerca de homens e mulheres que se põem em caminho com Deus, em meio às suas próprias circunstâncias históricas, escutando sua palavra e aceitando o seu propósito. A relação que Deus estabelece com o homem não é de distância, assim como não é possível conhecê-lo separado da história dessa relação.
Diante de situações limites da vida humana, como a dor e a morte, ou mesmo como o sucesso e a felicidade, ainda aí o homem tem a liberdade de acolher ou rejeitar a presença divina. Nas situações de fronteira da vida, temos a oportunidade concreta de encontro com Deus, de invocá-lo e de adorá-lo tal como ele é. Não há nada tão comovente como uma pessoa quebrantada diante da dor que grita: “Deus meu!” Da mesma forma, não há nada tão cheio de esperança e reconhecimento quando alguém tomado de alegria canta: “Deus meu!” Deus é sempre o Deus da nossa vida, como o mais íntimo de nós mesmos. Como afirmou Teresa de Ávila: “Quem a Deus tem nada lhe falta. Só Deus basta.”

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Uma vida a serviço da esperança / A life in the service of hope / Una vida al servicio de la esperanza

Em sua terceira visita ao Brasil, o teólogo alemão Jürgen Moltmann falou aos alunos e professores do Programa de Pós-Graduação em Teologia da PUC-Rio sobre sua trajetória de vida, destacando momentos decisivos de sua atividade como cristão, pastor e teólogo. A palestra aconteceu no auditório do Centro Loyola de Fé e Cultura, que fica na Gávea, Rio de Janeiro, na tarde do dia 31 de agosto de 2011. O áudio não é dos melhores, mas vale a pena ver o vídeo e verificar o testemunho de alguém que aplicou-se a pensar, defender e promover a esperança. A tradução foi feita pelo pastor e doutor Levy Bastos, do Isntituto Benett.

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Visita de Jürgen Moltmann ao Brasil / Jürgen Moltmann Visit to Brazil / Jürgen Moltmann Visita a Brasil




Jürgen Moltmann, um dos principais teólogos vivos, que atravessou grande parte do século XX vivendo ativamente o período de produção teológica mais controverso que a história do cristianismo já experimentou, visita o Brasil pela terceira vez. Alemão, aos 85 anos de idade, apresenta uma lucidez fantástica e uma percepção desse momento vivido como poucos.
O fato de ter vivido o horror da Segunda Guerra Mundial, conhecido Karl Barth e Bultmann, produzido uma abordagem que alterou o rumo da Teologia Contemporânea, desenvolvido um diálogo inter-religioso com outras expressões de espiritualidade, nada disso altera seu jeito humilde de se relacionar com as pessoas e de expor seu pensamento.
Conhecê-lo pessoalmente é um fato que vou guardar como um momento histórico de grande relevância. Acompanho a teologia de Moltmann desde 1998. Meu primeiro contato foi com seu Espírito de vida, procurando entender a dinâmica da ação do Espírito Santo e o modo como é possível compreendê-lo. Os impactos que suas ideias causaram em mim me impulsionaram à busca de outras obras: Teologia da Esperança e os textos relacionados à sua Cristologia.
Em sua palestra aos professores e alunos do Programa de pós-Graduação em Teologia da PUC-Rio, proferida hoje no Centro Loyola de Fé e Cultura, na Gávea, cidade do Rio de Janeiro, Moltmann afirmou que os teólogos brasileiros são os que mais podem trazer a esperança para um mundo marcado por tanta injustiça. O espaço para isso se dá em meio ao desespero provocado pelos desastres naturais e ao dilema ecológico que se vivencia. Fico a pensar na condição da Teologia no Brasil. Lembro-me da pouca liberdade que se tem de se produzir uma Teologia que seja fruto de uma reflexão profunda das circunstâncias concretas da nossa vida cotidiana, ao mesmo tempo em que se dá uma reprodução de modelos e a formação de um discurso que reafirma uma ideologia do interesse pelo imediato e aparente. Chego à conclusão que o mundo deve estar muito mal mesmo, se realmente somos a esperança. Só me resta orar: obrigado, Senhor, por ouvir esse indicativo de mudança; capacita-me, Senhor, a ser um instrumento confiável para compartilhar a mensagem que pode trazer esperança.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Dinheiro, fama, poder e sexo / Money, fame, power and sex / Dinero, fama, poder y sexo

Qual a fórmula do sucesso? É um engano pensar que está relacionada ao dinheiro, à fama, ao poder e ao sexo. Mas também é um equívoco ignorar a importância desses fatores na formação de nossa identidade, atribuindo um sentido unicamente mau a eles, embora tenham se tornado tão nocivos para a o mundo em que vivemos. Veja algumas considerações que podem lançar outro olhar sobre isso.
O dinheiro determina as relações na sociedade moderna, fazendo com que oriente as ações de indivíduos e a convivência social. O dinheiro tende a interferir na nossa personalidade, transformando-nos em objeto, que não depende mais da relação com o grupo, mas da capacidade de poder aquisitivo. Somos considerados na mesma condição de coisas, diluindo assim a nossa personalidade. O que passa a orientar as nossas relações é o aspecto quantitativo e não mais o qualitativo.
O dinheiro surgiu a partir da troca que se baseia na noção de valor, um critério subjetivo. As relações humanas são relações de troca, por assim dizer. Sendo assim, o dinheiro assume papel de mediador. O dinheiro é, portanto, meio para se estabelecer relações recíprocas, mas que acabou se transformando como um fim em si mesmo.
Assim, o dinheiro influencia o ritmo da vida. Ele é o maior símbolo de como a vida é transitória. Para que o seu valor seja estabelecido, é preciso que esteja sempre em circulação. A Bíblia trata da questão do dinheiro. Jesus disse: “Pois onde estiver o seu tesouro, aí também estará o seu coração.” João 6.21. O apóstolo Paulo também ensinou: “pois o amor ao dinheiro é raiz de todos os males. Algumas pessoas, por cobiçarem o dinheiro, desviaram-se da fé e se atormentaram a si mesmas com muitos sofrimentos.” 1 Timóteo 6.10.
O problema não é possuir dinheiro, mas se deixar ser dominado por ele. Disse Jesus: “Ninguém pode servir a dois senhores; pois odiará a um e amará o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Vocês não podem servir a Deus e ao Dinheiro.” Mateus 6.24.
A fama tem a ver com a maneira como os outros no veem. Andy Warhol (1928-1987) disse que “no futuro, toda pessoa terá direito a 15 minutos de fama”. Com o surgimento da Internet e a popularização dos celulares e das câmeras digitais, alguém disse, parodiando a frase de Warol, que todo mundo, na Internet, vai ser famoso para pelo menos 15 pessoas. Fama é uma palavra que vem da mitologia greco-romana. Era uma deusa com uma forma monstruosa com muitas asas, bocas, olhos e orelhas e que se movimentava para levar para todos os lugares as mensagens verdadeiras e mentirosas que captava dos boatos que se espalhavam rapidamente.
Neste tempo caracterizado pelo que Baudrillard chamou de “sociedade do espetáculo”, observa-se que há um apelo muito forte para com a imagem. O fato é que nós estamos sempre expostos à observação do outro ao mesmo tempo em que nós mesmos precisamos do olhar do outro para sermos reconhecidos.
A busca pela fama está relacionada com a vaidade. A fama pode trazer a ilusão de ser bem-sucedido. Entretanto, todos nós temos a necessidade de ser reconhecidos pelos de fora. O problema é que muitas pessoas têm procurado ser mais reconhecidas pela sua imagem do que pelas suas realizações. Para muitos, o que importa é a fama em si e não o que se faz para conquistá-la.
A fama é determinada, portanto, pela nossa história de vida. Mas Deus não olha para os nossos títulos ou rótulos para agir em nossa vida. Antes, ele não tem vergonha do nosso passado, assim como ele precisa de gente com a nossa história para mostrar o quanto ele é poderoso para transformar uma vida. De acordo com P. Talleyrand: “O comércio mais lucrativo seria comprar as pessoas pelo que valem, e revendê-las pelo que elas pensam que valem.”
O poder tem a ver com a influência que exercemos sobre o outro. O que faz com que algumas pessoas sejam extremamente bem-sucedidas e outras não? Especialistas em orientação de carreiras garantem que 95% das pessoas jamais terão sucesso. O poder é um aspecto que mexe com a consciência humana. O ser humano busca o poder incessantemente. Ouvimos falar de várias formas em que o poder se dá: poder da influência, da sedução, de decisão, do dinheiro, do amor, da cura, pessoal, de atração etc. Quem tem oportunidade de exercitar o poder, considera-se autônomo a ponto de passar por cima de seus semelhantes e até trair a confiança das pessoas mais próximas. Isso é uma questão que envolve ética. “O homem guiado pela ética é o melhor dos animais; quando sem ela, é o pior de todos”, disse Aristóteles.
Poder é a capacidade de decidir, agir e exercer autoridade, controle e soberania sobre dada circunstância ou pessoa através do domínio, da influência ou da força. Poder, segundo Max Weber, significa toda probabilidade de impor a própria vontade numa relação social, mesmo contra resistências, seja qual for o fundamento dessa probabilidade. O poder tem origem na personalidade – o poder de ser –, na propriedade – o poder de ter – e na organização – o poder de fazer. O poder envolve, então, a força, a influência e o controle.
Para que o poder se realize, é necessário que alguém queira algo que está sob controle de outro. Como afirmava Ulisses Guimarães, “não é o poder que corrompe o homem; é o homem que corrompe o poder”. Há, dessa forma, uma relação de dependência de indivíduos ou grupos em relação a outros. “O poder influencia quem consegue o quê, quando e como”, disse Gareth Morgan.
O resultado do poder exercido de forma indevida é a corrupção, a desigualdade e a opressão. O exercício do poder de formar leviana e egoísta destrói os relacionamentos. A única coisa que pode neutralizar os efeitos nocivos do poder é o amor. “Onde o amor impera, não há desejo de poder; e onde o poder predomina, há falta de amor. Um é a sombra do outro”, disse Carl Gustav Jung. Para a fé cristã, no entanto, o poder não emerge da força, mas da fraqueza. “Minha graça é suficiente para você, pois o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza.” 2 Coríntios 12.9.
A questão da sexualidade afeta a todos, uma vez que fomos gerados como seres sexuados. Entretanto, a sexualidade passou a ser um problema a partir da construção de concepções equivocadas sobre a nossa sexualidade: desprezo ao corpo, moralismo, mecanismos de culpabilização, redução de nossa capacidade afetiva e até mesmo a valorização do masculino em detrimento do feminino. Tratar da sexualidade humana de forma madura envolve a vida de maneira integral.
A sexualidade abrange as dimensões biológica, social e afetiva. A sexualidade nos ajuda a reconhecer nossos limites e a construir a nossa identidade. Anthony Giddens reconhece que a sexualidade hoje propicia a adoção de novos estilos de vida e funciona como um aspecto maleável do eu, que regula a maneira como tratamos do corpo, da identidade e das normas sociais. Ele percebeu que a sexualidade deixou de ser tratada em seu aspecto reprodutivo e passou a ser definidora da identidade e a estabelecer um meio de ligação com o outro.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Espiritualidade e a questão de sentido / Spirituality and the question of sense / La espiritualidad y la cuestión del sentido

O ser humano é capaz de suportar tudo, só não suporta a falta de sentido. Na verdade, a questão da busca de sentido é uma necessidade humana e faz parte da própria trajetória da humanidade. E é a busca de sentido que remete à questão de Deus. Uma vez que a noção de sentido está relacionada aos aspectos que correspondem ao fim último da existência, deparamo-nos diante do impasse de nossa própria condição: é quando nos damos conta de que o homem constrói suas relações levando em consideração determinismo e liberdade, contingência e transcendência, finitude e infinito.
A necessidade de superar suas próprias limitações é que leva à busca de direção, de um “para onde” ou um fim para o qual a vida se encaminha, que pode encontrar em Deus o fundamento de sentido. O que se vê é que, se o homem não conhece ou reconhece Deus como fundamento último de sentido de sua existência, adota outros absolutos. É uma necessidade inerente de se encontrar algo que dê sentido. O contrário disso é estar diante do desespero e do vazio existencial.
A palavra bíblica para a questão do sentido é a mensagem da salvação. Estar perdido significa ter perdido o sentido de sua própria existência. Há um mal-estar em relação à ausência de sentido porque há falta de referenciais que se manifesta negativamente na vida social. O excesso de informação que marca a dinâmica da vida contemporânea remete a uma mudança de valores e uma busca de novos sentidos.
O sentido hoje, entretanto, está relacionado ao bem-estar e ao prazer levados à última consequência. A questão é se a noção de bem-estar e de prazer resulta em algum sentido para a vida. Isso faz com que se estabeleça uma sociedade insatisfeita que só se realiza diante do consumo.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Mística e ética / Mystic and ethics / La Mística y la ética

A relação entre mística e ética pode ser compreendida a partir de três pensadores: Albert Schweitzer, Emanuel Lévinas e Maurice Zundel. De um modo geral, a história do pensamento humano comporta sistemas antagônicos que têm levado a humanidade a buscar entender a vida em si mesma. Schweitzer afirmou que “o essencial para perceber a ética é que esta é a própria manifestação da nossa vontade de viver”. Essa inquietação resultou em uma busca de sentido, dando lugar a uma ética que Schweitzer classifica como: racional, universal, absoluta e espiritual.
Nesse sentido, a ética é espiritual na medida em que a ética comum não é suficiente para o desenvolvimento espiritual. O pensamento humano sempre procura alcançar a harmonia com o Espírito misterioso do Universo. “Para ser completa, tal harmonia deve ser ativa e passiva. Ou seja, buscamos a harmonia, tanto na ação e no pensamento. Eu quero entender a minha atividade ética como sendo a serviço do Espírito Universal.” A filosofia moderna, entretanto, conduz apenas a uma passividade e nos remete à religião, ou seja, não coloca o sujeito numa relação ética com o universo. Isso só acontece quando se coloca a serviço dele, cooperando com ele, sem tentar compreendê-lo. “Somente servindo todo tipo de vida eu entro no serviço dessa vontade criadora de onde emana toda a vida. Eu não entendo isso, mas eu sei (e isso é suficiente para viver) que, por servir a vida, eu sirvo a vontade criadora. É através da comunidade da vida, não uma comunidade de pensamento, que eu permanecerei em harmonia com a Vontade. Este é o significado místico da ética.”
Reportando-se ao mestre Eckhart, considera que nessa ética universal de reverência pela vida, a união mística com o Espírito Universal é realmente e plenamente alcançada. Assim, provou ser realmente a verdadeira ética. Segundo Eckhart, deve ficar claro que uma ética que só manda é incompleta, enquanto a que me permite viver em comunhão com a vontade criadora é uma ética verdadeira e completa.
Já Lévinas discute a construção filosófica da noção de totalidade, que marcou o pensamento ocidental, fundado numa perspectiva bíblico-judaica. Para ele, a filosofia ocidental sempre tende para a redução do Outro ao Mesmo. Contudo, a filosofia primeira é a ética. Ele vai buscar o fundamento ético no rosto do outro, uma vez que é na face do humano que se dá o sentido, em que o sujeito se descobre responsável e se abre para o infinito.
Lévinas está interessado, não no mundo fechado do indivíduo nem no universo distante do outro, mas na relação que se estabelece, que provoca a inquietação e lança o indivíduo para fora de si. Velasco vê no pensamento de Lévinas uma proximidade com a mística, ainda que a tenha rejeitado, por causa da sua noção de transcendência. Sua interpretação da experiência ética a respeito do Absoluto, a rejeição de toda mediatização, a exigência de cuidado que remete o sujeito ao rosto indefeso do outro são aspectos que evocam a transcendência incondicional de si, como condição própria de realização, e que se constitui na essência da experiência mística.
Para Lévinas, “a transcendência é ética, a voz de Deus é o rosto do próximo”. E mais: “A relação moral reúne, pois, ao mesmo tempo a consciência de si e a consciência de Deus. A ética não é o corolário da visão de Deus, é essa visão mesma. A ética é uma ótica [...] conhecer Deus é saber o que se tem que fazer.”
Uma última abordagem da relação entre ética e mística pode ser encontrada no pensamento de Zundel. Ele tenta fazer uma análise das origens da crise moral que a humanidade se encontra. “A moral está em crise.” Essa crise tem duas raízes: a recusa da moralidade como limitação, como um freio, e o declínio do Absoluto que é posto em questão.
Zundel percebe que há um desacreditar em uma moral da obrigação, que nasce da necessidade de proteção da ordem social. Ela encontra seu lugar na antropologia, que traz á tona a pergunta a respeito do que é homem. Mas o homem é uma soma de determinismo e promessa de liberdade. Por isso, a moral deve ser vista como uma realidade mística, que envolve toda a pessoa em relação com o Deus de amor, que o atrai a Ele. A questão envolve três atitudes: a de receber Deus como uma experiência interior e de liberdade; a experiência de se tornar filho de Deus como expressão de sua presença em nós e nos outros; o homem é chamado a ser como Deus por graça, na intensidade dessa relação.
Esse é o caminho de nossa humanização, uma vez que esse desejo de liberdade e amor está inscrito no coração de cada um. Essa descoberta é humanizante. Essa moralidade tem um viés místico, que pode se chamar de um realismo místico. Uma moral libertadora que abrange todas as ações que envolvem o corpo, as paixões, a relação entre homem e mulher, o direito a propriedade, as relações internacionais, a partilha dos bens, como uma exigência para se criar um espaço vivencial sem o aspecto legalista.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Justiça silenciada: morte de juíza em Niterói é o limite do tolerável / Justice silenced / Justicia silenciada

Quando a violência atinge aqueles que lutam pela justiça, é sinal que já se ultrapassou o limite do tolerável. É hora de gritar por socorro e clamar pelo fim de toda impunidade. Como pastor na região oceânica de Niterói, especificamente na localidade de Piratininga, não posso me calar diante da morte da juíza Patrícia Acioli, em frente a sua própria casa, na noite de 11 de agosto de 2011.
Por que isso nos inquieta? Porque é um crime hediondo, que atinge uma representante do poder que tem a função de promover a justiça e a dignidade das pessoas. Porque é um crime brutal e cruel, que ceifa a vida de uma mulher, mãe e profissional com 21 tiros, na porta de sua residência. Porque é um crime que amordaça a justiça, uma vez que é atribuído ao crime organizado que se articula como um poder paralelo. Porque é um crime que atinge a todos nós, pois ameaça o exercício legítimo do poder em defesa da sociedade.
Quando em 1992 a máfia itáliana matou o juiz Falconi e depois o promotor Boselino pelos mesmos motivos atribuídos ao atentado contra Patrícia Acioli, houve uma forte comoção popular que culminou na destabilização do governo italiano. O caso foi visto à época como um atentado contra a dignidade humana e ao Estado Democrático de Direito. Não foi visto como um crime comum, mas como uma ação desumana, com repercussões em todo o mundo.
O Estado não pode silenciar-se quanto a isso. Quando falo de Estado, não me refiro ao Rio de Janeiro, que já se mostrou incapaz e insuficiente para dar conta dessa guerra. O crime organizado a quem se atribui tal covardia inclui policiais e membros do poder público envolvidos com práticas de abuso, ações de milícia e tráfico de influência e de entorpecentes. Estou falando de Brasil, que precisa garantir a nós brasileiros, através de seus poderes constituídos, o direito ao exercício da legalidade e dos princípios que a Constituição estabelece como sociedade organizada.
Na Itália, o nome dos juristas mortos é lembrado em monumentos para ficar registrada a memória de quem lutou pelo bem comum. Entre nós, a morte de Patrícia Acioli não pode representar uma mordaça na justiça, mas o começo de uma mudança radical que termine de vez com a impunidade.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Mude o foco / Change focus / Cambiar el foco

O que tem orientado a sua vida? Essa é uma questão importante porque aquilo pelo qual você se orienta – seus sonhos, desejos e aspirações – revela o seu caráter e pode determinar o seu futuro. Quando a cantora inglesa Amy Winehouse foi morta em sua residência em 23 de julho de 2011, aos 27 anos de idade, depois de experimentar um estrondoso sucesso como cantora, despertou um grande interesse pelas causas de uma acontecimento tão brutal. Entretanto, episódios como esse nos lembram que a vida deve ser tratada como coisa séria. Viver implica uma complexidade muito maior que a realidade imediata e efêmera que a sociedade atual está acostumada a nos anunciar.
Isso leva a pensar no que o autor de Eclesiastes, o livro da Bíblia, diz em suas reflexões: “Eu disse a mim mesmo: Venha. Experimente a alegria. Descubra as coisas boas da vida! Mas isso também se revelou inútil.” (Eclesiastes 2.1) Ele desejava descobrir o que todos nós queremos saber: o que faz a vida ter sentido? Ele disse: “[...] Eu queria saber o que vale a pena, debaixo do céu, nos poucos dias da vida humana.” (Eclesiastes 2.3)
Depois de relatar uma trajetória de conquistas e de busca de prazer, ele conclui: “Contudo, quando avaliei tudo o que as minhas mãos haviam feito e o trabalho que tanto me esforçava para realizar, percebi que tudo foi inútil, foi correr atrás do vento; não há nenhum proveito no que se faz debaixo do sol.” (Eclesiastes 2.11)
Você pode achar que essa é uma triste e dura conclusão. Mas o sábio usa essa reflexão para dizer que não vale a pena ter tantas aspirações na vida e até se esforçar por elas se Deus não está presente nisso. Diz ele: “em meio a tantos sonhos absurdos e conversas inúteis, tenha temor a Deus.” (Eclesiastes 5.7) Seu conselho é: “[...] Tema a Deus e obedeça aos seus mandamentos, porque isso é essencial ao homem.” (Eclesiastes 12.13)
O que, de um modo geral, tem orientado os sonhos e desejos das pessoas está relacionado diretamente a quadro coisas: dinheiro, sexo, fama e poder. Isso não quer dizer que esteja errado ou que essas coisas não sejam boas. Mas há três bons motivos para se entender que são coisas muito pequenas diante do grande mistério da vida. O primeiro é o fato de que tudo nessa vida passa e chega ao fim. O segundo é que a vida é transitória demais e cada momento deve ser desfrutado. E o terceiro é que não temos o controle de nosso futuro. Por isso mesmo, vale o conselho de Harold Kushner, no livro Quando tudo não é o bastante: “Não há jeito de evitar a morte, mas a única cura para o medo da morte é o sentimento de ter vivido.”
Portanto, mude o foco de sua vida, antes que seja tarde demais e você possa vir a dizer: “Não tenho satisfação [nela]” (Eclesiastes 12.1)

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Moral Social e Espiritualidade / Social Morality and Spirituality / La moral social y espiritualidad

Wittgeinstein afirmou ao final de seu Tractatus Logico-Philosophicus que “sobre aquilo de que não se pode falar, deve-se calar”. Ao afirmar isso, ele estava preocupado com os aspectos que envolvem as relações entre indivíduos numa mesma sociedade. É disso que trata a moral social, principalmente naqueles relacionados ao agir em sociedade, resultado das representações que os membros de uma coletividade têm em comum. Trata-se, portanto, de uma consciência coletiva que orienta as ações dos indivíduos e exerce poder sobre eles.
A moral, em si, tem uma natureza social uma vez que se manifesta essencialmente em sociedade. A moralidade tem a ver com nossos sentimentos e nossas ações uma vez que estes são representativos de nossa constituição moral, que consiste num sistema construído socialmente, que a sociedade se vale para regular as relações entre os indivíduos. Ela está vinculada tanto a um senso moral quanto a uma consciência moral. Tem a ver, portanto, com a relação que mantemos com os outros e com a noção de bem ou mal que desenvolvemos a partir das nossas interações, bem como ao desejo de realização pessoal.
Mas, o que se entende por moral social tem a ver com a necessidade de se solucionar os problemas morais que envolvem as relações entre indivíduos tanto na vida doméstica, na sociedade e no mundo. Por sociedade entendemos como uma forma de organização estável da vida humana no que diz respeito às relações de poder e de hierarquia. Mas não se constitui em uma forma qualquer de organização, visto que tendem a um fim comum. Isso importa a existência de dois elementos: as pessoas e o fim comum, que acabam por caracterizar a matéria e a forma da sociedade.
As sociedades podem surgir de uma necessidade natural ou de uma associação livre de pessoas por meio de um contrato. Uma sociedade tem por objetivo proporcionar o bem comum em termos de segurança e desenvolvimento de seus membros. É daí que surge a necessidade de seus membros cumprirem deveres e adquirirem direitos. Isso se dá tanto no nível doméstico – a família e seus níveis de parentesco – quanto ao nível da sociedade civil, como resultado da natureza social do homem – incluído aí os aspectos econômicos e políticos.
As sociedades humanas são marcadas por sistemas culturais. O homem é moldado e refreado pela cultura e orientam suas ações de acordo com as normas, símbolos, valores e tradições que acompanham o seu desenvolvimento e sua vida em sociedade. É isso que faz com que a humanidade viva cada momento como de profundas transformações. A sociedade contemporânea tem se caracterizado como uma sociedade consumista e isso tem afetado as relações humanas, o que nos permite falar em novos paradigmas da moral social.
Nas últimas décadas, o mundo tem experimentado mudanças tanto no campo social como no campo econômico que têm provocado uma transformação estrutural de longo alcance. Principalmente a partir de 1980, as mudanças que ocorreram são estruturais e não conjunturais. Conforme Daniel Bell, em seu livro O advento da sociedade pós-industrial, de 1973, podemos apontar: deslocamento da importância do setor de manufaturas para o setor de serviços; mudanças ocupacionais, do trabalho em cadeia linear para o trabalho em rede; o valor da educação para ocupações que requerem maior qualificação; a valorização do capital humano; desenvolvimento de alta tecnologia e novas tecnologias intelectuais; infraestrutura baseada na transmissão de dados; o saber/conhecimento como valor. E esse rumo não tem sido alterado desde então.
Até mesmo o conceito moderno de democracia, que, por assim dizer, serve como fundamento da moral social, representa um profundo envolvimento com a questão humana, e a defesa dos direitos fundamentais. Todos esses aspectos provocam uma reação da igreja instituída, que passa a considerar as formas concretas com que deve atuar no mundo. Está muito claro que não há como se construir uma espiritualidade desvinculada das questões que ameaçam a vida humana na Terra.

terça-feira, 19 de julho de 2011

O desafio de ser igreja hoje / The challenge of being church today / El desafio de ser la iglesia de hoy

Dez atitudes para orientar o repensar sobre a ação da igreja hoje:

Valorizar mais as PESSOAS do que as estruturas.

Enfatizar mais a COMUNHÃO do que os sistemas tradicionais.

Priorizar mais os RELACIONAMENTOS do que as regras sem reflexão.

Promover mais a ESPIRITUALIDADE do que a religiosidade.

Buscar mais o cumprimento da MISSÃO do que a adesão.

Envolver-se mais com os DE FORA do que com os de dentro.

Incentivar mais a INOVAÇÃO E A CRIATIVIDADE do que a reprodução de modelos.

Investir mais em CARÁTER do que em formação acadêmica.

Estimular mais o aspecto CARISMÁTICO do que o escriturístico.

Valorizar mais o LÍDER SERVIDOR do que o centralizador.

sábado, 9 de julho de 2011

Ser igreja no contexto atual



No dia 19/7/2011, a partir das 20 horas (uma terça-feira, portanto), estarei ministrando uma palestra na Igreja Congregacional de Icaraí, sobre o tema: O desafio de ser igreja hoje. O encontro será aberto para pastores, líderes e pessoas de um modo geral que estejam interessadas no tema. A entrada é franca e não há necessidade de inscrição prévia. É chegar e participar. Será um tempo bom para refletir a importância de ser igreja num contexto pós-moderno e, como já se tem dito, pós-cristão. Na ocasião, será disponibilizada uma apostila a preço de custo para quem se interessar pelo assunto.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Experiência mística / Mystical experience / La experiencia mística

A experiência humana é um fenômeno relacionado ao campo cognitivo. Para Paul Ricouer, “toda experiência é uma síntese de presença de interpretação”. O que se depreende disso é que nunca se pode falar de uma consciência pura, visto que a experiência não se esgota naquilo que o sujeito realiza. Schillebeeckx fala que toda experiência de algo se dá dentro de um quadro prévio interpretativo, que dá significado à experiência particular. É o que faz com que se torne uma experiência significativa. A consciência que faz a experiência não é como a tábula rasa de John Locke. Ela é sempre marcada pela ideologia, presente na forma simbólica da linguagem. Experimentar é, em primeira mão, a capacidade de levar à linguagem algo que se experimenta.
Sendo assim, Schillebeeckx vê a experiência em sua dimensão dialética, que só é “abalizada com a experiência refletida; [...] é mais que mera vivência”. A experiência é sempre refletida e interpretada dentro de um contexto. O pensamento retorna continuamente a experiências vividas. O que Schillebeeckx chamou de autoridade de experiências é uma competência baseada em experiências anteriores para novas experiências. Todo aquele que fez uma experiência torna-se testemunha. Abre-se para uma nova possibilidade de vivência, põe algo em movimento.
Não pode se deixar de levar em consideração que o ser próprio de Deus supera toda a capacidade humana de racionalização, que, por isso mesmo, toda representação de Deus torna-se sem sentido e toda tentativa de uma definição categórica de Deus tornou-se historicamente ineficaz. Mas ao mesmo tempo a forma com que Deus se revela e se doa aniquila todas as formas de representação e se mostra tão próximo. É partir desse paradoxo que se pode falar que a experiência mística tem sempre algo que pode se chamar de uma “noite escura”. Schillebeeckx entende que essa proximidade de Deus é imediata, mas sua imediatez é sempre mediada por nossas estruturas humanas de percepção e de linguagem. Ele elabora o conceito de “imediaticidade mediada” para descrever o problema da experiência mística.
Martin Buber trata da questão da experiência mística de união com Deus a partir de um princípio dialógico, como experiência de encontro. Tal como na experiência do amor humano, a união mística com Deus não elimina a individualidade, mas fortalece na sua profundidade. O que vivencia a experiência mística se sente seduzido, de tal modo que tudo, inclusive ele mesmo, fica em segundo plano, esquecido, como um “nada”, embora isso o fortaleça. Talvez a expressão de Teresa de Lisieux possa resumir bem essa experiência: “Se você é nada, não deve esquecer que Jesus é tudo. Por isso você deve perder o seu pequeno nada no tudo infinito dele e pensar apenas neste único tudo que merece ser amado.”
Maria Clara L. Bingemer vê que o que se pode compreender como mística passa pelo caminho da experiência, que é fundamentalmente uma experiência de relação. E é nesse sentido que se pode falar do campo cognitivo que propôs Schillebeeckx. “A mística é, portanto, sim, um conhecimento; porém, um conhecimento que advém da experiência e no qual a inteligência e o intelecto apenas entram no sentido de compreender não a experiência abstratamente falando, mas o que sente o sujeito concreto que está no centro do ato de experimentar. E este sentir é um sentir que implica uma alteridade e uma relação”.
Nessa experiência de encontro e de relação que se constitui o evento místico, encontra-se o sujeito que conhece e o Outro, um alguém que se dirige para o sujeito da experiência, que fala com ele e para quem o sujeito responde. Um Outro que também é um sujeito que se revela e se mostra. Um Outro que se relaciona e que por sua essencialidade transforma radicalmente a vida do sujeito da experiência, não lhe restando nada mais do que o desejo.
Podemos associar esse campo em que se dá a experiência mística como do sagrado, conforme a categoria definida por Rudolf Otto como um elemento ou momento que foge ao racional, sendo algo impronunciável, indizível ou mesmo inefável, na medida em que foge completamente de uma compreensão conceitual, a que chama de “numinoso”. Numa nota de rodapé, Otto reconhece que Calvino já falava de uma percepção da divindade como uma dimensão santa, uma categoria de interpretação e de valoração que possa abranger esse algo mais e suas derivações.
Embora a experiência mística possa se dar em diferentes contextos, Velasco se dedica a compreender aquilo que se chama de experiência de fé, dotada de um sentido subjetivo, que tem a fé por objeto. “Por ser uma atitude teologal, que tem Deus como seu fim, a experiência de fé é – sempre no interior da fé e nunca como alternativa à mesma – experiência de Deus.” A experiência de fé não se dá por atalhos, não se restringe a uma fórmula ou a um enunciado, mas mergulha no interior do mistério divino e desperta a linguagem que se expressa como testemunho. Por isso, a linguagem mística é sempre transgressora, como uma “metáfora viva”, muito mais que uma figura de linguagem, que comporta uma inovação semântica, que se realiza como um discurso. Tem a ver com o paradoxo que constitui a linguagem religiosa, que rompe o nível do pensamento para despertar uma nova forma de conhecimento que corresponde a uma realidade inefável.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Cristologia / Christology / Cristología

O debate cristológico é característico da história da igreja cristã. A relevância do tema se justifica: o essencial do cristianismo é Cristo mesmo. A partir do Novo Testamento, é possível encontrar uma diversidade de definições a respeito da pessoa de Cristo, desde a afirmação de um homem excepcional ou até mesmo de uma figura angelical. As posturas cristológicas do Novo Testamento podem ser compreendidas como duas tendências bem definidas de Cristologia que se desenvolverão em regiões diferentes, uma que se pode definir Cristologia do alto e outra que se define Cristologia do baixo.
Duas realidades foram transmitidas pela tradição cristã: a da humanidade de Cristo, com sua atividade e sofrimentos humanos, e a sua união com a divindade. Divindade e humanidade encontram-se combinadas em uma só pessoa. Isso envolve duas questões: quem é Jesus? O único Senhor e Salvador. O que é Jesus? Verdadeiro Deus e verdadeiro homem. Porém, há uma outra questão suscitada: como compreender essa união? Em outras palavras: como duas naturezas pessoais podem constituir uma só pessoa? O fato é que não houve uma maior investigação a respeito dessas questões, até o final do segundo século. No ocidente, a fórmula de Tertualiano (160-220) afirma com clareza as duas naturezas de Cristo, sem confusão entre as duas, nem redução de alguma delas. A questão mais controversa envolveu o oriente com suas duas escolas: a de Antioquia e a de Alexandria.
A controvérsia cristológica oriental está ligada ao fato de que o que não é assumido não é redimido, conforme afirmação de Gregório de Nazianzo (329-389). Isso implica uma mudança soteriológica. Por essa razão, a busca por uma definição a respeito da pessoa de Cristo tornou-se tão central. A afirmação bíblica nos dá conta de que: “E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade; e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai.” (João 1.14) Ela nos remete à compreensão de que a carne não está separada do Verbo, nem o Verbo da carne. Somente no século V que essa questão vai ter uma solução com a definição da fórmula do concílio de Calcedônia. Muitos afirmam que a confissão de fé firmada nos grandes concílios cristológicos é inadequada à expressão contemporânea da fé. A discussão a respeito de quem é Jesus e o que ele tem de significativo para o homem continua de pé. A questão é: Jesus era divino por ter vivido uma vida perfeita ou pôde viver uma vida perfeita por ser divino?
Essa questão aponta para o dilema que só se resolve diante do fato de que a doutrina da encarnação comporta um paradoxo que não pode ser racionalizado, mas compreendido tão somente à luz da graça. A Cristologia que se encontra no Novo Testamento revela um grande abismo entre o que Cristo é e o que nós somos, mesmo quando nos constituímos como igreja. As passagens escriturísticas, tanto dos evangelhos quanto das epístolas, demonstram uma forte tendência de associar a experiência humana de Cristo e a experiência daqueles a quem ele salva, como se pode ver na Carta aos Romanos 8.29: “Porque os que dantes conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos.”
Uma Cristologia para hoje aponta para a necessidade de se tratar da humanidade e da divindade de Cristo em uma perspectiva antropológica, em que a vida de Jesus possa ser vista como realização humana. Como afirmou Irineu: “Ele se fez como nós somos para que pudesse fazer-nos o que ele mesmo é.” Essa abordagem, no entanto, corre o risco de pender para um docetismo, que tenta diminuir a humanidade de Jesus, e para um pelagianismo, que tenta conferir à humanidade uma condição de realização para a salvação.
Foi Rudolf Bultmann que abriu o caminho para uma compreensão cristológica que aponta para uma antropologia. Tal como Wolfhart Pannemberg propôs, é preciso desenvolver uma Cristologia que decorra da análise crítica do Jesus de Nazaré, uma Cristologia que vem do baixo, que possibilite interpretar a história de Jesus e sua crucificação, ressurreição e glorificação à luz de nossa própria existência histórica. Karl Rahner reconhece que a descoberta de um uma perspectiva cristológica que tem seu ponto de partida na humanidade de Jesus é “um longo e aventureiro caminho, pleno de imprevistos; uma viagem da qual não se vê o fim senão quando se acaba por entrar no seu próprio coração, para aí descobrir que esse horrível fosso está pleno do próprio Deus”. Para ele, a tarefa mais urgente de uma Cristologia de hoje consiste retomar o dogma da igreja, de um Deus que se manifesta de forma concreta em nossa humanidade, de modo a tornar compreensível o que estas proposições significam e em “excluir toda a aparência de uma mitologia que se tornou inaceitável hoje”. Jürgen Moltmann desenvolveu uma Cristologia que aponta para o futuro, que traz algo radicalmente novo sem estar separado da realidade presente, que desperta a esperança de algo novo que ainda não ocorreu, que se cumpra em todos a justiça de Deus que foi prometida por meio de sua ressurreição.
Essas abordagens contemporâneas dão conta de que a Cristologia não se dá por meio de uma afirmação conceitual e especulativa. Isso já se viu no passado. Toda a argumentação e investigação possível, inclusive como pôde ficar claro pela busca do Jesus histórico no século XIX e começo do século XX, não dão conta da complexidade da pessoa de Jesus de Nazaré e de sua importância para a fé e para a teologia cristãs. Estas, bem como toda a revelação do Novo Testamento, são perpassadas por uma tensão que envolve tanto o Jesus da história como o Cristo da fé, que é percebida na vida e testemunho daqueles que creem e que se constituem a comunidade daqueles que vivem em conformidade com Cristo.
Ainda vale a preocupação do apóstolo Paulo na Carta aos Gálatas 2.20: ‘Já estou crucificado com Cristo; e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim; e a vida que agora vivo na carne, vivo-a na fé no filho de Deus, o qual me amou, e se entregou a si mesmo por mim.”

terça-feira, 28 de junho de 2011

Mística e transcendência / mystic and transcendence / la mistica y la transcendencia

Soren Kierkegaard afirmou que “o homem é uma síntese de infinito e de finito, de temporal e de eterno, de liberdade e de necessidade.” Se buscarmos compreender essa frase á luz da proposta de Juan M. Velasco, em El fenomeno místico, poderíamos afirmar que Kierkegaard se refere ao fenômeno que envolve a mística. Para Velasco, a mística é a “experiência no mais íntimo da pessoa de uma realidade sobre-humana”. Ou seja, vai além do que se percebe na vida comum e que se faz presente através de uma série de manifestações que a convertem em fato histórico e humano. Isso tem a ver com transcendência.
A frase de Kierkegaard aponta para o fato de que há uma angustia humana pela busca de algo que está para além de nós mesmos. É o que se chama de transcendência. Não importa, neste momento, se está busca tem a ver com o divino. O que é relevante pensar é que a transcendência é um fenômeno humano que engloba um campo de percepção. A ideia da transcendência começou com a teologia medieval que a utilizou em contraposição à ideia de imanência, referindo-se às categorias do conhecimento formuladas pelo aristotelismo. Tem a ver com outras categorias, mais abrangentes e mais gerais que as categorias aristotélicas, como a noção de existência, do verdadeiro, do bem e do belo. Posteriormente, com Kant, transcendental passou a designar o conhecimento que podemos ter das condições de possibilidade do próprio conhecimento, a faculdade que se tem de conhecer como os objetos são possíveis a priori. Envolve uma habilidade de estar autoconsciente e de experimentar o mundo das coisas. Mas foi a fenomenologia que melhor trabalhou essa noção na Filosofia ao afirmar que a transcendência é tudo aquilo que está para além de nossa consciência, além da possibilidade da experiência, que é exterior ao mundo da experiência.
Santo Agostinho apresenta uma fórmula: Deus é para mim o mais íntimo que o meu íntimo, para apontar que o caminho mais penoso que se tem a trilhar não é para um fora-de-si, que pode se tornar alienante e ilusório, mas um para-dentro-de-si, para o que é mais íntimo e profundo, que de tão íntimo parece tão distante. Isso lembra a proposta mística do mestre Eckhart, que denominou essa atitude de um “deixar ser”. Não uma mera renúncia de si, mas de um aceitar a transformação, “tendo de reformar-se sempre, o homem deve transformar-se para não se deformar”, como afirma Carneiro leão no livro organizado por Maria Clara L. Bingemer e Marcus Reis Pinheiro, Mística e filosofia.
Edward Schillebeeckx, no livro História humana revelação de Deus, define a mística como “uma forma intensiva da experiência de Deus na fé”. Mística é vida de fé. Ele não inclui nessa experiência os elementos não essenciais para uma vida de fé, tais como os fenômenos extraordinários ou mesmo as disposições psicossomáticas, vistos apenas como fenômenos colaterais. Embora a mística não se reduza à ética, ela se realiza sob o ethos. Sua natureza seja é metaética, dentro de uma dimensão teologal. Em outras palavras, a mística ultrapassa a ética por não se limitar a um comprometimento por um mundo melhor, por exemplo. “A vida de fé tem ao lado da dimensão ética, inter-humana, ecológica e sociopolítica, também uma dimensão mística, ou seja, um aspecto de união cognitiva com Deus.”
Leonardo Boff, no livro Mística e espiritualidade, consegue desenvolver uma compreensão que abrange o sentido sociopolítico da mística. Este sentido está ligado ao “conjunto de convicções profundas, as visões grandiosas e as paixões fortes que mobilizam pessoas e movimentos na vontade de mudanças, inspiram práticas capazes de afrontar quaisquer dificuldades ou sustentam a esperança face aos fracassos históricos”. Nesse aspecto da mística, o que determina a ação e a capacidade de projetar novos sonhos e modelos alternativos à realidade concreta vivenciada historicamente é a utopia. É o que mantém a sociedade em movimento, a partir da ação de visionários que se recusam a aceitar uma situação dada. Uma mística assim é geradora de energia, formadora de uma força que se opõe ao poder dominante. Diz ele: “A mística é, pois, o motor secreto de todo compromisso, aquele entusiasmo que anima permanentemente o militante, aquele fogo interior que alenta as pessoas na monotonia das tarefas cotidianas e, por fim, permite manter a soberania e a serenidade nos equívocos e nos fracassos.”

sábado, 4 de junho de 2011

Teologia para um tempo de incerteza: leituras necessárias 3 / Theology for a time of uncertainty / Teología para un momento de incertidumbre

Se a Teologia tem sido uma ciência que se pauta por um método de investigação a partir de princípios que têm regido as ciências de um modo geral, como aconteceu com o aristotelismo e o racionalismo moderno, hoje ela precisa encontrar um novo caminho metodológico que passa pelo diálogo. Fazer Teologia hoje é sobretudo estar a caminho de um diálogo aberto e contínuo. Esse diálogo deve envolver o questionamento que a contemporaneidade faz, em suas manifestações em comunidades, e os símbolos que herdou e que estão presentes nas formas culturais dessas mesmas comunidades.
Acima de tudo, a Teologia precisa desenvolver uma postura investigativa – não especulativa – que assuma a sua dimensão de estar inserida num contexto religioso e confessional. O teólogo, via de regra, é participante dessa comunidade, como sujeito construído a partir do significado dos símbolos que ele mesmo investiga. A partir de um corte epistemológico, questiona de forma crítica o seu significado, buscando atualizações e apontando novos sentidos. Uma leitura interessante para esse aspecto é o livro de Roger Haight, em Dinâmica da Teologia. Para ele, a interpretação teológica deve levar em conta alguns elementos: a imaginação, impregnada pela experiência de transcendência e pelos símbolos religiosos; o pensamento de natureza crítico-reflexiva, que leva em consideração a polissemia e a polivalência dos símbolos religiosos; o diálogo que se funda tanto na consciência histórica quanto no pluralismo presente, numa argumentação dialética e horizontal; e a necessidade de apontar direções para a vida cristã relevante, proporcionando uma experiência de espiritualidade que seja transformadora e libertadora.
Haight propõe alguns critérios para uma Teologia que denomina de construtiva. O primeiro deles é o da fidelidade às Escrituras e ao desenvolvimento histórico das doutrinas cristãs fundamentais. Para ele, o que se pode chamar de ortodoxia tem a ver com a interpretação coerente da experiência de transcendência mediada pelos símbolos herdados do passado. O segundo é o da inteligibilidade, que atribui um novo campo para a apologética. Em vez de ter que se justificar diante das demais teologias, desenvolver uma argumentação comparativa com as demais formas de pensamento e de se defender de argumentos que pareçam ameaçadores para a fé cristã, uma nova apologética deve se preocupar em tornar a mensagem cristã coerente, relevante e inteligível para seus interlocutores, em um diálogo que faz com que essa mensagem seja compreensível para o homem contemporâneo. O terceiro e último critério é o da potencialização da vida cristã. A vida humana deve ser tomada em sua totalidade e todas as dimensões das relações do homem, com o mundo, com o outro, consigo mesmo e com Deus. Isso não implica ter que encontrar um sentido intrínseco para a condição humana que seja próprio da Teologia, nem de atribuir valor moral para a existência, mas de mediar a experiência de encontro do homem com Deus. Esses três critérios não podem ser vistos isoladamente. Eles devem fazer brotar um fazer teológico que apresente a experiência cristã de Deus como confiável e aplicável à realidade vivida pelo homem, uma vez que a presença de Deus na história humana é manifestação de amor pessoal ao alcance de toda criatura.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Teologia para um tempo de incerteza: leituras necessárias 2 / Theology for a time of uncertainty / Teología para un momento de incertidumbre

Se vivemos de fato um tempo de incertezas, isso não quer dizer necessariamente uma coisa ruim. O problema é que necessitamos de mudanças de paradigmas para entender e produzir um saber que atenda às demandas deste tempo. Entendemos como paradigma a noção desenvolvida por Thomas Kuhn no livro A estrutura das revoluções científicas: o conjunto das realizações científicas que acabam por estabelecer modelos que orientam as pesquisas científicas, por um período longo e de forma clara, tendo em vista a busca de solução para os problemas suscitados pela própria ciência, ou seja, “aquilo que os membros de uma comunidade partilham e, inversamente, uma comunidade científica consiste em homens que partilham um paradigma.”
Não resta a menor dúvida de que a Teologia é uma ciência e, como tal, segue padrões epistemológicos próprios. Desde Karl Popper, de fato, é possível verificar que a ciência segue uma lógica que não dá conta do conhecimento da totalidade, o que demanda um processo que envolve falseamento e refutação constante. A Teologia tem também um paradigma segundo o qual o saber teológico se desenvolve. Visto de um modo geral, esse paradigma segue o mesmo princípio sobre o qual está construído todo o pensamento ocidental, baseado no dualismo psicofísico, primeiramente platônico – caracterizado pelo pensamento agostiniano – e posteriormente da Modernidade – envolvendo a crise que acompanhou o surgimento da teologia liberal.
Nesse sentido, á possível traçar um paralelo entre as mudanças de paradigma propostas por Thomas Kuhn e a Teologia. Em primeiro lugar porque há na Teologia uma fundamentação teórica subjacente, histórica e consolidada, com seus mestres clássicos e os manuais, que fornecem o arcabouço de conhecimento e apontam as questões ainda em aberto. Isso implica tanto a necessidade de ruptura com o já existente quanto uma resistência ao novo e à possibilidade de supressão desse modelo hermenêutico.
Tomando por base as considerações de Hans Küng, em Teologia a caminho, é possível traçar um paralelo entre mudança de paradigma na ciência e na Teologia. O que se vê, no entanto, é a tomada de consciência de que há uma crise e que isso se constitui o ponto de partida para a mudança. Afinal, é evidente que a Teologia tem encontrado dificuldades de responder aos questionamentos contemporâneos. Um novo modelo se faz necessário, uma nova forma de entender as relações humanas que envolvem a fé suas expressões num contexto totalmente novo e pós-moderno.
As mudanças que se fazem necessárias na Teologia não acontecerão sem resistência, haja vista, por exemplo, a reação à afirmação de uma neo-ortodoxia frente à teologia liberal (influenciada pela mentalidade iluminista), no começo do século XX, ou mesmo o surgimento da Teologia da Libertação na América Latina, quando da aproximação do final desse mesmo século. É, inclusive, difícil prever em que dimensões um novo paradigma poderá ser aceito. É certo, porém, que, uma vez aceito, um novo modelo hermenêutico servirá como base para a fundação de uma nova tradição.
A diferença essencial entre ciência e Teologia é que esta tem na mensagem cristã seu objeto fundamental, cujo testemunho são as Escrituras Sagradas e sua transmissão pela igreja ao longo dos séculos. Esse testemunho é também a base para a fé cristã que é firmada na pessoa histórica de Jesus de Nazaré, apresentado no Novo Testamento como princípio de fé para todo o tempo. Isso significa que o grande desafio para a Teologia é realizar uma mudança de paradigma que não seja contra o Evangelho, de encontrar o caminho para uma mudança que não seja só ruptura, mas também continuidade e permanência da mensagem cristã. As afirmações teológicas que foram verificadas na história não aconteceram sem o risco de rejeições e condenações, de heresia e de oposição. Essa possibilidade precisa ser sempre levada em consideração. Contudo, o caminho há que ser perseguido.

Assista:

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