terça-feira, 28 de junho de 2011

Mística e transcendência / mystic and transcendence / la mistica y la transcendencia

Soren Kierkegaard afirmou que “o homem é uma síntese de infinito e de finito, de temporal e de eterno, de liberdade e de necessidade.” Se buscarmos compreender essa frase á luz da proposta de Juan M. Velasco, em El fenomeno místico, poderíamos afirmar que Kierkegaard se refere ao fenômeno que envolve a mística. Para Velasco, a mística é a “experiência no mais íntimo da pessoa de uma realidade sobre-humana”. Ou seja, vai além do que se percebe na vida comum e que se faz presente através de uma série de manifestações que a convertem em fato histórico e humano. Isso tem a ver com transcendência.
A frase de Kierkegaard aponta para o fato de que há uma angustia humana pela busca de algo que está para além de nós mesmos. É o que se chama de transcendência. Não importa, neste momento, se está busca tem a ver com o divino. O que é relevante pensar é que a transcendência é um fenômeno humano que engloba um campo de percepção. A ideia da transcendência começou com a teologia medieval que a utilizou em contraposição à ideia de imanência, referindo-se às categorias do conhecimento formuladas pelo aristotelismo. Tem a ver com outras categorias, mais abrangentes e mais gerais que as categorias aristotélicas, como a noção de existência, do verdadeiro, do bem e do belo. Posteriormente, com Kant, transcendental passou a designar o conhecimento que podemos ter das condições de possibilidade do próprio conhecimento, a faculdade que se tem de conhecer como os objetos são possíveis a priori. Envolve uma habilidade de estar autoconsciente e de experimentar o mundo das coisas. Mas foi a fenomenologia que melhor trabalhou essa noção na Filosofia ao afirmar que a transcendência é tudo aquilo que está para além de nossa consciência, além da possibilidade da experiência, que é exterior ao mundo da experiência.
Santo Agostinho apresenta uma fórmula: Deus é para mim o mais íntimo que o meu íntimo, para apontar que o caminho mais penoso que se tem a trilhar não é para um fora-de-si, que pode se tornar alienante e ilusório, mas um para-dentro-de-si, para o que é mais íntimo e profundo, que de tão íntimo parece tão distante. Isso lembra a proposta mística do mestre Eckhart, que denominou essa atitude de um “deixar ser”. Não uma mera renúncia de si, mas de um aceitar a transformação, “tendo de reformar-se sempre, o homem deve transformar-se para não se deformar”, como afirma Carneiro leão no livro organizado por Maria Clara L. Bingemer e Marcus Reis Pinheiro, Mística e filosofia.
Edward Schillebeeckx, no livro História humana revelação de Deus, define a mística como “uma forma intensiva da experiência de Deus na fé”. Mística é vida de fé. Ele não inclui nessa experiência os elementos não essenciais para uma vida de fé, tais como os fenômenos extraordinários ou mesmo as disposições psicossomáticas, vistos apenas como fenômenos colaterais. Embora a mística não se reduza à ética, ela se realiza sob o ethos. Sua natureza seja é metaética, dentro de uma dimensão teologal. Em outras palavras, a mística ultrapassa a ética por não se limitar a um comprometimento por um mundo melhor, por exemplo. “A vida de fé tem ao lado da dimensão ética, inter-humana, ecológica e sociopolítica, também uma dimensão mística, ou seja, um aspecto de união cognitiva com Deus.”
Leonardo Boff, no livro Mística e espiritualidade, consegue desenvolver uma compreensão que abrange o sentido sociopolítico da mística. Este sentido está ligado ao “conjunto de convicções profundas, as visões grandiosas e as paixões fortes que mobilizam pessoas e movimentos na vontade de mudanças, inspiram práticas capazes de afrontar quaisquer dificuldades ou sustentam a esperança face aos fracassos históricos”. Nesse aspecto da mística, o que determina a ação e a capacidade de projetar novos sonhos e modelos alternativos à realidade concreta vivenciada historicamente é a utopia. É o que mantém a sociedade em movimento, a partir da ação de visionários que se recusam a aceitar uma situação dada. Uma mística assim é geradora de energia, formadora de uma força que se opõe ao poder dominante. Diz ele: “A mística é, pois, o motor secreto de todo compromisso, aquele entusiasmo que anima permanentemente o militante, aquele fogo interior que alenta as pessoas na monotonia das tarefas cotidianas e, por fim, permite manter a soberania e a serenidade nos equívocos e nos fracassos.”

sábado, 4 de junho de 2011

Teologia para um tempo de incerteza: leituras necessárias 3 / Theology for a time of uncertainty / Teología para un momento de incertidumbre

Se a Teologia tem sido uma ciência que se pauta por um método de investigação a partir de princípios que têm regido as ciências de um modo geral, como aconteceu com o aristotelismo e o racionalismo moderno, hoje ela precisa encontrar um novo caminho metodológico que passa pelo diálogo. Fazer Teologia hoje é sobretudo estar a caminho de um diálogo aberto e contínuo. Esse diálogo deve envolver o questionamento que a contemporaneidade faz, em suas manifestações em comunidades, e os símbolos que herdou e que estão presentes nas formas culturais dessas mesmas comunidades.
Acima de tudo, a Teologia precisa desenvolver uma postura investigativa – não especulativa – que assuma a sua dimensão de estar inserida num contexto religioso e confessional. O teólogo, via de regra, é participante dessa comunidade, como sujeito construído a partir do significado dos símbolos que ele mesmo investiga. A partir de um corte epistemológico, questiona de forma crítica o seu significado, buscando atualizações e apontando novos sentidos. Uma leitura interessante para esse aspecto é o livro de Roger Haight, em Dinâmica da Teologia. Para ele, a interpretação teológica deve levar em conta alguns elementos: a imaginação, impregnada pela experiência de transcendência e pelos símbolos religiosos; o pensamento de natureza crítico-reflexiva, que leva em consideração a polissemia e a polivalência dos símbolos religiosos; o diálogo que se funda tanto na consciência histórica quanto no pluralismo presente, numa argumentação dialética e horizontal; e a necessidade de apontar direções para a vida cristã relevante, proporcionando uma experiência de espiritualidade que seja transformadora e libertadora.
Haight propõe alguns critérios para uma Teologia que denomina de construtiva. O primeiro deles é o da fidelidade às Escrituras e ao desenvolvimento histórico das doutrinas cristãs fundamentais. Para ele, o que se pode chamar de ortodoxia tem a ver com a interpretação coerente da experiência de transcendência mediada pelos símbolos herdados do passado. O segundo é o da inteligibilidade, que atribui um novo campo para a apologética. Em vez de ter que se justificar diante das demais teologias, desenvolver uma argumentação comparativa com as demais formas de pensamento e de se defender de argumentos que pareçam ameaçadores para a fé cristã, uma nova apologética deve se preocupar em tornar a mensagem cristã coerente, relevante e inteligível para seus interlocutores, em um diálogo que faz com que essa mensagem seja compreensível para o homem contemporâneo. O terceiro e último critério é o da potencialização da vida cristã. A vida humana deve ser tomada em sua totalidade e todas as dimensões das relações do homem, com o mundo, com o outro, consigo mesmo e com Deus. Isso não implica ter que encontrar um sentido intrínseco para a condição humana que seja próprio da Teologia, nem de atribuir valor moral para a existência, mas de mediar a experiência de encontro do homem com Deus. Esses três critérios não podem ser vistos isoladamente. Eles devem fazer brotar um fazer teológico que apresente a experiência cristã de Deus como confiável e aplicável à realidade vivida pelo homem, uma vez que a presença de Deus na história humana é manifestação de amor pessoal ao alcance de toda criatura.

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