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sexta-feira, 23 de dezembro de 2022

O anúncio do primeiro Natal: Esperança, alegria e paz para toda a humanidade / The announcement of the first Christmas: Hope, joy and peace for all humanity / El anuncio de la primera Navidad: Esperanza, alegría y paz para toda la humanidad

A primeira experiência de anúncio do nascimento de Jesus aconteceu de uma forma extraordinária: criaturas celestiais apareceram a pessoas humildes. A narrativa desse episódio encontra-se em Lucas 2.1-14 como parte do registro histórico do nascimento do menino Jesus. Nesse texto, dos versículos de 1 a 7, Lucas faz um relato objetivo sobre os episódios em torno do evento. Nos versículos de 8 a 14, encontra-se o relato de como se deu o primeiro anúncio desse acontecimento que mudou a história da humanidade.

O anúncio começa com a visita de um mensageiro especial e culmina com o canto conhecido como Gloria in Excelsis. A presença do anjo anunciador é acompanhada do resplendor da glória de Deus, o que conferiu ao anúncio do evento um grande significado.

A figura dos anjos na Bíblia é sempre envolta por mistérios. Eles são tratados como mensageiros de Deus aos homens. A presença do anjo é marcada pela relação entre luz e trevas: a glória divina resplendece em meio à escuridão da noite, como uma metáfora da luz divina que invade em meio às trevas humanas. Os pastores eram gente do povo, cuja profissão era considerada imunda pela tradição religiosa. Eles eram desprezados e nem podiam servir de testemunha em julgamentos.

Assim Lucas conta como isso se deu: “E aconteceu que um anjo do Senhor apareceu-lhes e a glória do Senhor resplandeceu ao redor deles [...]” (Lucas 2.9). A notícia do Natal foi dada primeiramente por criaturas dotadas de uma extraordinária capacidade de relação com Deus, e foi destinada a gente desprezada e excluída, para pessoas que não eram consideradas dignas para a sociedade.

O anúncio do Natal foi feito a partir de três mensagens simples e objetiva. A primeira mensagem do Natal é: “[...] Não tenham medo [...]” (Lucas 2.10), que remete ao fato de que o anúncio do nascimento de Jesus traz a força que vence o medo, a esperança que vence a angústia. A segunda mensagem é: “[...] Estou lhes trazendo boas novas de grande alegria [...]” (Lucas 2.10). Lembra-nos que esse anúncio renova o ânimo e restaura a alegria de quem se encontra excluído e marginalizado. E a terceira mensagem é: “[As boas novas de grande alegria] são para todo o povo” (Lucas 2.10), para deixar bem claro que o anúncio é para toda a humanidade.

A boa notícia de grande alegria é que o Salvador nasceu como um de nós, ele se fez nosso irmão, gente como a gente. O eterno se fez história. O sobrenatural se tornou parte da criação. O transcendente agora está presente entre nós. Assim o anjo proclamou: “Hoje, na cidade de Davi, lhes nasceu o Salvador que é Cristo, o Senhor” (Lucas 2.11).

Ao anunciar o nascimento de Jesus, o anjo concedeu a ele três títulos: o de Salvador, que lembra a obra restauradora de Deus para quem se encontra perdido; o de Cristo, que se refere ao ungido de Deus, o Messias prometido, aquele que vem cumprir a missão de Deus; e o de Senhor, que é o título atribuído ao próprio Deus em toda a Escritura.

Havia também um sinal para a checagem de que aquela notícia era verdadeira, com representações humanas e simples: “[...] encontrarão o bebê envolto em panos e deitado numa manjedoura” (Lucas 2.12). O Deus todo-poderoso se fez frágil como uma criança, carente de cuidado e acolhida.

Em seguida a esses acontecimentos, um coro angelical entoa um hino contendo três versos breves. Esse hino é uma exaltação a Deus pela obra redentora, que se dá a partir da pessoa de Jesus Cristo. Eles cantaram: “Glória a Deus nas alturas, e paz na terra aos homens aos quais ele concede o seu favor” (Lucas 2.14).

Os versos desse hino angelical falam de três aspectos da revelação de Deus em Cristo. O primeiro é o fato de que o Natal é a lembrança do Deus que vem a nós. A essência do Natal é a encarnação de Deus em Cristo. O segundo é o fato de que o Natal é um convite para que todos nós possamos experimentar a paz. A salvação consiste na libertação de tudo aquilo que nos oprime, nos aflige e nos distancia de Deus. E o terceiro tem a ver com o fato de que o Natal é uma proposta de nova vida como pessoas. A mensagem da salvação restaura a alegria e a esperança, renova as nossas forças para seguir em frente.

O Natal tem uma mensagem viva para toda a humanidade, de que Deus se importa conosco, mesmo sendo humildes e desprezados. Foi para isso que a graça foi revelada, para dizer para todos e todas que é possível experimentar a vida de outro modo, como nova criação, a partir da relação e compromisso com a pessoa de Jesus.

sexta-feira, 28 de outubro de 2022

O Brasil que desejamos: democracia, justiça social e direitos garantidos / The Brazil we desire: democracy, social justice and guaranteed rights / El Brasil que queremos: democracia, justicia social y derechos garantizados

 

A eleição de 2022 é atípica. Não é uma questão de escrutínio apenas, com a defesa de bandeiras partidárias. É a luta pela sobrevivência do que restou de nação no sentimento dos brasileiros depois do golpe de 2016, quando foi tirada do cargo uma Presidente democraticamente eleita. Como se isso fosse pouco, ainda prenderam o principal candidato de 2018 em um processo fraudado para que a extrema-direita vencesse aquela eleição.

O resultado está aí. Em quatro anos de governo e os quase dois anos que sucederam o golpe, o Brasil retrocedeu em todos os aspectos. Tornamo-nos uma terra sem lei, dominada pelo ódio, pelo medo e pela mentira. Nesse tempo, o país voltou ao mapa da fome, tornou-se um pária internacional e de alto risco de investimento. O que contribuiu para isso? Na esteira de causas, estão: os cortes de verbas em pesquisa, ciência e educação, a redução dos gastos em programas sociais de distribuição de renda e diminuição dos incentivos à produção. Não podemos esquecer da redução dos gastos com saúde, da diminuição dos direitos previdenciários, do corte dos direitos trabalhistas, da proteção aos abusos de patrões contra o direito de seus empregados, das ameaças aos territórios indígenas, da degradação do meio ambiente.

São tantos retrocessos que nos levam a crer que o Brasil adoeceu de uma enfermidade que contaminou sua população: a doença da falta de esperança em um país melhor, com direito e dignidade para todas e todos. Para piorar a situação, sofremos os efeitos de uma pandemia e de uma guerra com ares de guerra mundial. Podemos dizer que os últimos quase seis anos foram perdidos. Uma geração inteira não teve a chance de sequer aprender o que é lutar por justiça e igualdade, que se acostumou a normalizar a barbárie e a conviver com ideias que flertam com o fascismo e ameaçam a nossa frágil democracia.

No dia 30 de outubro de 2022, os brasileiros voltam às urnas para decidir o seu futuro. Dois candidatos representam ideias completamente antagônicas. De um lado, um que representa o que há de pior em termos de civilidade, que se beneficiou de toda trama golpista que resultou em tantas perdas e retrocessos, que nutre o clima de ódio disseminando mentiras, ameaças e medo como quem dá rajadas de 50 tiros e lança 3 granadas sobre a nação. De outro, temos aquele que chama o brasileiro a sonhar, a renovar a esperança, a defender a democracia a lutar pelos direitos mínimos de acesso à comida, trabalho saúde e educação.

Qualquer analista, por mais raso que seja, dirá que não é uma escolha difícil. Mas a doença que atinge o brasileiro cega o entendimento, cria uma sensação de insegurança e aponta para incertezas. O retrocesso tem sido tanto que o Brasil que temos hoje não se parece em nada com aquele que aprendemos a conviver na primeira década desse século. Aquele Brasil do pleno emprego, dos aeroportos lotados, da produção industrial em larga escala, das universidades cheias de pessoas oriundas de famílias pobres, da produção de alimentos pela agricultura familiar, enfim, o Brasil sonhado desapareceu. No seu lugar foi colocado um país controlado por pessoas sem escrúpulos, quer seja no parlamento, no executivo ou no judiciário, que saíram dos lugares mais obscuros de nossa história.

Entretanto, o sonho não acabou. Ele precisa ser restaurado. É preciso acreditar que podemos juntos construir um Brasil melhor, com democracia, justiça social e direitos garantidos para todas e todos. E tudo começa com o voto que será depositado na urna nesse segundo turno.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2020

Natal Fraterno / Christmas Fraternal / Navidad fraternal

O Natal lembra que Deus visitou a humanidade, se fez gente e viveu entre nós. É a declaração mais singela, porém a mais convincente, de que não estamos sozinhos. Deus vem a nós para tomar parte de nossa luta e, assim, nos ajudar a vencer o medo da solidão e da morte.

É a história de um projeto divino que vem sendo costurado há muitos anos. Na revelação bíblica, o desejo de Deus já havia sido dito: “Estabelecerei a minha habitação entre vocês e não os rejeitarei. Andarei entre vocês e serei o seu Deus, e vocês serão o meu povo” (Levítico 26.11,12).

E o desejo divino se realizou. Maria anunciou: “Louvado seja o Senhor, o Deus de Israel, porque visitou e redimiu o seu povo” (Lucas 1.68). O apóstolo João descreveu: “Aquele que é a Palavra tornou-se carne e viveu entre nós. Vimos a sua glória, glória como do Unigênito vindo do Pai, cheio de graça e de verdade” (João 1.14). E o apóstolo Paulo confirmou aquela palavra do Levítico, acrescentado que “[...] somos santuário do Deus vivo [...]” (2 Coríntios 6.16), porque Ele habita entre nós.

A história do Natal é de encorajamentos, superações e resistências. Fala de uma comunidade pobre, de uma mãe solteira, de um pai adotivo, de um bebê perseguido, da companhia de humildes, de adoradores de outras culturas e experiências religiosas, de uma família migrante. Deus escolheu as formas mais desprezíveis para conferir a elas dignidade e graça, os ingredientes necessários para seguir em frente.

O Deus que se faz presente entre nós encoraja a lutarmos em tempos difíceis. A pandemia ajudou a realçar problemas humanos que estavam bem disfarçados, como a prepotência dos poderosos, o ataque aos Direitos Humanos, a carência de justiça social e a afronta que é a desigualdade por motivos econômicos.

O Natal é o tempo de lembrarmos que Deus acolhe os mais pobres, dá força aos que estão cansados, concede honra aos humildes e encoraja os explorados e vítimas da maldade. Ele também destrói toda a soberba e desbarata todo poder. Tudo para fazer com que não estejamos sozinhos, para que todos nos sintamos incluídos em seu projeto de fazer da humanidade uma grande família de muitos irmãos e irmãs.

terça-feira, 21 de abril de 2020

Qual o lugar de Deus em tempos difíceis? / What is God's place in difficult times? / ¿Cuál es el lugar de Dios en tiempos difíciles?


Nossa geração não tinha vivido até então um tempo como esse, marcado por uma pandemia. A última que se tem notícia foi em 1918, por ocasião da chamada “gripe espanhola”, que matou mais pessoas do que a própria guerra mundial que acontecia naquele tempo. Tivemos outras epidemias, sem dúvida, que afetaram grupos sociais e regiões – como o da Aids, do vírus Ebola, do vírus Influenza, para falar das mais recentes – mas nada se compara à proporção que o Coronavírus tem alcançado. Nós nos surpreendemos ao verificar que a humanidade não estava preparada para enfrentar esse fenômeno. Tanto a ciência, quanto as estruturas econômicos e os poderes políticos acreditavam que poderiam superar todos os problemas humanos, que teríamos todas as respostas e que seríamos capazes de vencer até os limites da morte. Inclusive a igreja não estava preparada para isso, sem saber como dar uma palavra de consolo para as pessoas que estão sofrendo.
Em tempos difíceis, levanta-se uma questão: qual é o lugar de Deus? Onde Ele está? A resposta tem a ver com o mesmo lugar que Jesus ocupa. Deus está onde Jesus toma forma. Um texto bíblico importante para entender isso é aquele que fala de Jesus como uma pedra angular: “À medida que se aproximam dele, a pedra viva — rejeitada pelos homens, mas escolhida por Deus e preciosa para ele — vocês também estão sendo utilizados como pedras vivas na edificação de uma casa espiritual para serem sacerdócio santo, oferecendo sacrifícios espirituais aceitáveis a Deus, por meio de Jesus Cristo” (1 Pedro 2.4,5). Esse texto lembra que há uma maneira de Deus cuidar das nossas dores, feridas e fraquezas. O modo de Deus nos alcançar com sua graça com sua ação de consolo é através da pessoa de Jesus Cristo, que se faz presente entre nós, que age em nós por meio do seu Espírito.
Pedro diz que Jesus é essa pedra rejeitada pelos homens, mas escolhida por Deus para nos dar esperança e mudar a nossa realidade. Jesus é tudo o que temos. Jesus é o bem mais precioso que os cristãos possuem. E essa pedra preciosa, que é o modo de Deus cuidar da humanidade, nos chama para sermos como cristos no mundo. Cristo quer tomar forma no mundo através da nossa vida. Jesus escolheu gente como a gente para ser a presença dele no mundo, portadores de esperança e de uma palavra de vida para esse mundo que sofre. Deus está conosco através desse Jesus vivo que se manifesta por meio das pessoas que aceitaram o privilégio de encarnar o amor de Deus para o mundo. Os cristãos precisam ser para o mundo a encarnação da mensagem de amor, de paz, de esperança, de libertação e de justiça que Deus trouxe para o mundo através da pessoa de Jesus. Deus está conosco desse modo em que Jesus toma forma em nossa vida, até mesmo nas horas mais difíceis. Jesus também experimentou a dor, a perda, a tristeza e até mesmo a agonia da morte para que pudesse dizer que é possível anunciar vida para um mundo perdido.
Se Jesus é a resposta de Deus para um mundo em crise, tem algumas perguntas que se tornam inevitáveis. A primeira delas é: quem é Deus diante da crise, da dor da humanidade, desse fenômeno que parou o mundo inteiro? Não importa qual seja a sua definição sobre Deus, é preciso dizer que Ele é maior do que a crise. E se Deus é maior, Ele tem poder suficiente para agir na vida daqueles sofrem nesse momento. Ele é maior até que todos as nossas certezas e crenças, e está pronto a abençoar.
A segunda pergunta é: se Deus é tão grande assim, o que Deus faz em tempos difíceis? O que Ele deve estar fazendo nessa hora? Por que ele ainda não eliminou esse vírus, ou não curou as pessoas, ou não deu inteligência para os cientistas descobrirem logo uma vacina? A resposta que temos é que Deus está trabalhando incansavelmente em favor da humanidade. Deus continua trabalhando através do seu cuidado por toda a criação, desde a criação. A Bíblia diz que, após criar todas as coisas, Ele descansou da criação. Mas ele não parou de trabalhar pelo cuidado de toda criação. E, ao agir como Criador, Ele deu a todas as suas criaturas a capacidade de se autorreproduzir e de autocuidar, de gerar nova vida e ter liberdade de agir. E isso é prova do seu amor. Ele não é um Deus despótico, dominador, controlando quem vive e quem morre, quem sofre e quem se livra. Todas as criaturas podem viver de forma livre. O trabalho de Deus é o de garantir a nossa liberdade, para sermos pessoas livres. Ele nos dá força e coragem para vivermos a nossa liberdade no mundo. É o maior milagre que Deus pode realizar na nossa vida, o de nos dar a esperança de poder seguir em frente apesar da dor, da tragédia e todas as aflições. Ele nos dá força e coragem para passarmos por tempos difíceis. Essa é a sua resposta ao nosso clamor.
Mas a outra pergunta que fazemos na hora da dor é: onde Ele está na hora da crise? Cadê Deus? Ele está entre nós. Deus está ao lado dos que sofrem, sentido sua dor, aflição e temor. E Ele quer cuidar de nós, nos abraçar, demonstrar seu amor. Muitas vezes Deus se manifesta que está entre nós através do seu silêncio. Ele prometeu que estaria conosco. Toda a Escritura está cheia de suas promessas. Ele prometeu aos patriarcas da fé, também o fez através dos salmos, dos profetas e, finalmente, da pessoa de Jesus. Deus não está nem acima nem abaixo, Ele está entre nós. Não abriu mão de seguir em frente conosco.
Ao fazer a pergunta “quem é Deus?”, lembre-se: Ele é maior. Ao perguntar “o que Ele faz?”, lembre-se: Ele nos dá força e coragem. E ao perguntar “onde ele está?”, lembre-se: Ele está entre nós. Deus é maior que nossas aflições, Ele está pronto a nos fortalecer e encorajar, Ele está pronto a nos acolher em amor.
(Mensagem apresentada durante o período da quarentena por conta da pandemia do Coronavírus e do Covid-19).

sábado, 18 de abril de 2020

Lições do Sofrimento / Lessons of suffering / Lecciones de sufrimiento


O sofrimento não ocorre à revelia da vida. Há lições a serem aprendidas, apesar de ele tomar parte da nossa existência como um intruso. Ninguém o busca ou o deseja, mas ele acontece. Volta e meia enfrentamos situações que provocam dor, aflição, perda, medo, ansiedade e tormentas. Ele nos inquieta como um vilão em nossa vida. O sofrimento produz efeitos significativos, embora não identifiquemos de maneira fácil a sua causa.
Vivemos numa época em que se dá muita ênfase ao bem-estar e ao conforto. Dificilmente lembramos que a vida é marcada muitas vezes por lutas, por esforço e por situações desagradáveis. Esquecemos que o dia mal pode chegar a qualquer instante. Ninguém está isento disso, todos podemos passar por momentos difíceis, de angústia, que nos levam ao choro, que nos tiram a paz e que até desassossegam o nosso coração. Isso faz lembrar o poeta espanhol do século XVII, Calderón de la Barca, que se pergunta que mal fez para merecer o sofrimento. Ele então diz: “O maior delito do homem é ter nascido”.
O sofrimento não nos ajuda a entender suas razões. Porém, quando não entendemos a dor, temos a tendência de espiritualiza-la com a pergunta “porque comigo, Deus?”, como se houvesse uma conspiração sobrenatural contra nós. É inevitável indagar, mas precisamos compreender que o sofrimento não é produzido por Deus. Ele é resultado de nossa vida num mundo marcado por incertezas e contradições. O tempo todo estamos expostos aos nossos limites, à dor e até à finitude.
O sofrimento não precisa de justificativa, nem há um sentido para ele. Porém, é sempre uma oportunidade para crescermos como pessoas e nos aperfeiçoarmos. É bom que se diga que o sofrimento não tem essa finalidade, ninguém sofre para ter um estímulo na vida. Mas quando o infortúnio ou a tragédia nos acometem, precisamos ressignificá-lo, olhá-lo com outros olhos. Ele não acontece como obra do acaso meramente. Ele pode servir como uma oportunidade para melhorar a vida.
Em meio ao sofrimento, podemos entender melhor como Deus está conosco e como ele cuida de nós. Precisamos reconhecer que ele está disposto a estender o seu braço forte e nos abraçar de um jeito que só Ele sabe fazer. Descobrimos que Ele tem um modo peculiar de nos acolher, que Ele tem cuidado de nós, que quer tocar em nosso coração, quer trabalhar em nossa vida e fazer com que possamos dar um salto de qualidade apesar da dor, do sofrimento, da perda, da tragédia, das tribulações e até das tentações. Deus sabe lidar com nossas dores.
Há lições a serem aprendidas no meio da tormenta, em que o sofrimento se transforma num mestre de vida. Elas estão expressas na Bíblia. O apóstolo Paulo nos apontou a trilha da aprendizagem com o sofrimento. Veja o texto em que ele escreveu sobre isso: “Não só isso, mas também nos gloriamos nas tribulações, porque sabemos que a tribulação produz perseverança; a perseverança, um caráter aprovado; e o caráter aprovado, esperança” (Romanos 5.3,4).
Há três lições a serem aprendidas com o sofrimento. A primeira delas é a lição da perseverança. A dor, a angústia e o medo nos paralisam. Mas quando vêm sobre nós, essa não é a hora de desistir. Quando passar por grandes tribulações, não desanime. O apóstolo Tiago escreveu: “Meus irmãos, considerem motivo de grande alegria o fato de passarem por diversas provações, pois vocês sabem que a prova da sua fé produz perseverança. E a perseverança deve ter ação completa, a fim de que vocês sejam maduros e íntegros, sem lhes faltar coisa alguma” (Tiago 1.2-4). Quando enfrentamos um obstáculo, isso não é o fim. Temos que entendê-lo como um desafio para seguirmos adiante.
A segunda lição tem a ver com o caráter. Que tipo de pessoa é você quando enfrenta o sofrimento? Quem sou eu diante da dor? Se o problema vier, não ceda. Não faça negociações a respeito da sua dignidade, de sua condição como pessoa, de sua confiança no poder de Deus. Faça o que você o que você tem competência para fazer. Conselho do apóstolo Paulo: “Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, Pai das misericórdias e Deus de toda consolação, que nos consola em todas as nossas tribulações, para que, com a consolação que recebemos de Deus, possamos consolar os que estão passando por tribulações” (2 Coríntios 1.3,4). Lembre-se que somos observados o tempo todo. Na hora do sofrimento, temos a oportunidade de servirmos como testemunhas da fé, da esperança e da confiança no cuidado de Deus sobre nós.
A terceira lição é a da esperança. Quando vier o sofrimento, não pare, siga adiante. Não perca a esperança. É ela que nos impulsiona a seguirmos em frente, a crermos que existem novas possibilidades além da dura realidade que enfrentamos. Fé e esperança são atitudes que estão interligadas. Não existe uma sem a outra. Elas servem para crermos que Deus está no controle e para termos esperança de que suas promessas se cumprem. Palavra do apóstolo Paulo: “Considero que os nossos sofrimentos atuais não podem ser comparados com a glória que em nós será revelada” (Romanos 8.18). Lembre-se sempre: aquilo que enfrentamos agora não se compara com a glória que Deus tem preparado para todos nós. Há vitória no final de nossa luta. A luta daquele que confia no Senhor já é marcada pela vitória.
São lições que nos fortalecem e nos ajudam a cuidar dos que amamos. Se você passa por um momento de sofrimento, persevere, mantenha o seu caráter firme, tenha esperança. Há uma bênção nas Escrituras para aqueles que passam por aflições: “O Deus de toda a graça, que os chamou para a sua glória eterna em Cristo Jesus, depois de terem sofrido durante pouco de tempo, os restaurará, os confirmará, lhes dará forças e os porá sobre firmes alicerces” (1 Pedro 5.10).
(Mensagem apresentada durante o período da quarentena por causa da pandemia causada pelo Coronavírus e a doença Covid-19).

domingo, 29 de janeiro de 2017

Esperança como transgressão / Hope as transgression / La esperanza como transgresión

“Descanse somente em Deus, ó minha alma; dele vem a minha esperança” Salmos 62.5
A esperança é uma virtude de quem consegue enxergar além das circunstâncias. Ela é da ordem da transgressão. Crer que algo é possível apesar das circunstâncias contrárias não é um exercício de otimismo ou de pensamento positivo. Isso depende de uma disposição diferente de se esperar.
Não é à toa que a esperança é uma das três virtudes teologais. Juntamente com a fé e a caridade, a esperança é uma força que o Espírito Santo confere por graça ao que crê a fim de aumentar a confiança e fortalecer a que seja perseverante. Para quê? Primeiro, para que creiamos na veracidade das promessas divinas, mesmo quando tudo parece contrário. Segundo, para que pratiquemos a vontade divina, mesmo quando tudo parece dar errado.
A fé é o fundamento sobre a qual descansa a esperança, e a esperança alimenta e sustenta a fé. A esperança renova e vivifica a fé sempre de novo e cuida para que sempre de novo se levante mais forte, para perseverar até o fim. Como disse Calvino: “Se faltar a esperança, por mais que falemos da fé de forma genial e eloquente, podemos estar certos de que não temos nenhuma!”
A esperança, portanto, é o que nos encoraja a seguir adiante. Ela está presente quando somos capazes de rir na hora da dor, quando nos sentimos realizados na hora da perda, quando buscamos forças em meio à luta, quando mudamos o rumo em meio à crise. Nasce de nossas carências e nos impulsiona para a resistência contra o que nos impede de seguir em frente.
O poeta francês Charles Péguy cantou certa vez:
“O que me espanta, diz Deus, é a esperança.
Eu fico pasmo.
Essa pequena esperança que parece uma cousa de nada. [...]
A Esperança é uma meninazinha de nada. [...]
Entretanto é essa meninazinha que atravessará os mundos.”
A esperança é mais do que espera. Paulo Freire dizia que a esperança de que precisamos é a do verbo “esperançar”, e não a do verbo “esperar”. É ela que restaura o sonho e aponta um sentido. Por ela, um novo horizonte surge a cada instante que se avança. Ela é a expectativa da conquista, é o que proporciona esclarecimento e libertação. Sem esperança, a vida é só espera, viver não faz sentido algum, perde-se o horizonte e não há motivos para seguir adiante.
A falta da esperança é só perda. Enquanto a esperança nasce de nossas carências, a falta dela vem da alienação. A esperança encoraja, a falta dela cria uma relação de dominação. A esperança transforma, a falta dela favorece exploradores.
É preciso ter esperança neste tempo em que há tanto desespero. É preciso desejar como Paulo: “Que o Deus da esperança os encha de toda alegria e paz, por sua confiança nele, para que vocês transbordem de esperança, pelo poder do Espírito Santo” (Romanos 15.13).

domingo, 15 de janeiro de 2017

Inabalável: relação entre fé e cultura a partir de Daniel / Unshakeable: considerations about faith and culture from Daniel / Inamovible: la relación entre la fe y la cultura en Daniel

“Daniel, você é muito amado. [...]” (Daniel 10.11). 
Daniel é um exemplo de alguém que viveu a fé em seu tempo de maneira autêntica. Há uma relação entre fé e cultura e entre fé e realização histórica que não é levada em consideração pela maioria das pessoas que segue uma religião. A vida de Daniel, porém, conforme narrada na Bíblia, demonstra que ele enfrentou suas circunstâncias pessoais dentro de uma compreensão de seu tempo sendo perseverante e determinado em tornar-se um instrumento nas mãos de Deus para influenciar seus contemporâneos.
Daniel era um judeu de uma família nobre. Quando os caldeus dominaram a cidade de Jerusalém, em 605 a.C., ele e alguns outros jovens foram levados como escravos para Babilônia. O rei dos caldeus, Nabucodonosor, ordenou que fossem escolhidos aqueles mais capazes para que fossem preparados para servi-lo em seu palácio. E Daniel, juntamente com seus três companheiros Hananias, Misael e Azarias, estava entre os escolhidos.
Tomando por base a narrativa bíblica, dá para entender que Daniel passou o resto da sua vida naquela mesma região. Ele enfrentou várias situações que colocavam em risco sua vida, mas permaneceu firme em suas convicções de fé. Apesar de todas as provações, conseguiu desempenhar funções importantes dentro da dinâmica da vida social até o fim do império babilônico, que veio a cair diante do império medo-persa em 539 a.C. Mesmo na velhice, Daniel ainda serviu por alguns anos no governo desse novo império mantendo uma fé inabalável.
Sua fidelidade e determinação em fazer a vontade de Deus fizeram com que Daniel fosse reconhecido como um homem “muito amado” (Daniel 10.11). No livro do profeta Ezequiel, Daniel é mencionado como um dos grandes exemplos de justiça e retidão em meio a todo cenário do cativeiro babilônico, alguém tão digno como os exemplos de Noé e Jó (Ezequiel 14.12 e 20).
Essas suas credenciais permitiram que ele fosse usado pelo Senhor para ser portador de uma mensagem que trazia uma nova perspectiva história a respeito dos propósitos de Deus para a humanidade. Essa mensagem permanece viva e atual.
Através de uma linguagem simbólica, retirada da cultura de seu tempo, fica claro que ele apresenta o curso da história, apontando significados e esquadrinhando seu desenvolvimento até um final de acordo com um propósito divino. Sua narrativa demonstra que o Deus que criou o universo e a vida humana está no controle do tempo e conduz a história para um fim conforme a sua vontade.
Claro que isso não acontece sem que haja uma tensão entre os fatos históricos e as promessas divinas, entre os fenômenos culturais e a fé. O problema é que somos herdeiros de uma teologia que construiu uma separação entre revelação divina e realização histórica, entre fé e cultura. Porém, é preciso compreender que a as promessas divinas se realizam historicamente e que a fé deve ser expressa no contexto de uma cultura. E o livro de Daniel nos ajuda a compreender isso.
Para Daniel, a história humana e as manifestações sobrenaturais do poder de Deus estão inter-relacionadas. Por conta disso, podemos assumir uma atitude mais otimista diante de crises, catástrofes, conflitos e dominações. Essa compreensão bíblica da histórica nos ajuda a desenvolver a esperança e a ter uma mensagem encorajadora para aqueles que sofrem a opressão, a injustiça, a perda e a exploração.
Daniel nos ajuda a entender que a realização histórica necessita de um horizonte, caso contrário será sempre compreendida apenas como uma sucessão de acontecimentos. Os propósitos divinos apontam para um sentido da história. Por essa razão, o livro bíblico é considerado como parte de uma literatura apocalíptica, que aponta para o fato de que Deus está no controle da história, subvertendo relações de poder e trazendo seu reino aos homens a fim de que seus propósitos eternos se cumpram.

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Tragédia em voo da Chapecoense: a finitude e a transitoriedade da vida / Tragedy in flight of Chapecoense: the finitude and the transience of the life / Tragedia en vuelo de Chapecoense: la finitud y la fugacidad de la vida

O acidente que ceifou a vida da quase totalidade do time de futebol da Chapecoense, além de equipe técnica, jornalistas e muitos outros que o acompanhavam para a primeira partida da final da Copa Sul-Americana, é marcado por um sentido de dor e angústia que não dá para se descrever em palavras. O que fica é esse sentimento de perplexidade diante da finitude e da transitoriedade da vida, aspectos que fazemos o esforço de não levar em conta na hora de construir planos e sonhos, mas que gritam o tempo todo para lembrar da fragilidade humana, de nossa incompletude e de que não temos o controle de nossa existência.
Fico com a definição de Georges Bataille: “a morte é em certo sentido uma impostura”. Ela se disfarça e se apresenta nos espaços não desejados. Uma invasora da vida, uma intrusa em nossos projetos. Ela está sempre ali para nos trazer de volta à dura realidade que estamos num vazio, que somos detentores de um poder ilusório, que vivemos em meio ao imponderável, ao insólito, ao improvável.
A morte põe em questão nossa existência. Na medida em que só tenho uma vida para viver e na proporção em que minha consciência é regida pela memória, viver é como vaguear entre esperança e tentativas, procurando dar um passo de cada vez como um bêbado equilibrista, como quem dança na corda bamba. Somente a morte nos traz de volta ao senso de que estamos diante da incerteza, de que até aqui tudo o que fizemos foi transcender à fatalidade de uma vida sem expressão. Como disse Elis Regina: “A esperança equilibrista / Sabe que o show de todo artista / Tem que continuar”.
Somos sujeitos que vivem diante de uma armadilha: que nos lança o desafio de rejeitar o vazio de uma vida sem sentido, ao mesmo tempo que nos permite perceber nossa própria finitude. É o chamado para a vida eterna que se defronta com o grito “por que me abandonaste?” Nem Jesus escapou dessa agonia. Aquele que enfrentou esse mesmo dilema nos chama a uma superação. “[...] A morte foi destruída pela vitória” (1 Coríntios 15.54).
Os que embarcaram naquele voo tinham um sonho de conquistar um prêmio, mas se depararam com o grande dilema do jogo da vida. 71 mortos. 6 sobreviventes. Famílias sofridas. Uma cidade perplexa. Um país em estado de tristeza. Como fazer para seguir adiante? Logo a gente descobre que ainda persiste aquela teimosia de ir além, de que viver é se abrir para o que dá esperança, de que vale a pena encarar desafios até para honrar a memória dos que se foram.
Com o trágico acidente, somos chamados à solidariedade, ao exercício da misericórdia, à compreensão de que os títulos não representam nada diante da fugacidade da vida, de que é possível imaginar um outro modo de se construir a nossa existência. É uma pausa para pensar sobre o que estamos fazendo com o que ainda nos resta da vida. Desejo aos familiares, companheiros e torcedores da Chapecoense toda a consolação que só o Espírito Santo de Deus pode dar. Desejo o mesmo para as equipes de mídia e os demais simpatizantes que acompanhavam o time. Que Deus nos console a todos.

quinta-feira, 30 de junho de 2016

O versículo mais fofo da Bíblia / The cutest Bible verse / El más guapo versículo de la Biblia

“O Senhor o assiste no leito da enfermidade; na doença, tu lhe afofas a cama.” Salmos 41.3 ARA
Uma antiga tradução em português do Salmo 41.3 diz que Deus “afofa” a cama dos doentes durante o período de enfermidade. Não é fofo isso? O curioso é que só essa versão, que é a Revista e Atualizada de Almeida, apareceu assim. Outra versão antiga chegou a dizer: “tu lhe amaciarás a cama”. Já a versão mais recente, a Nova Tradução na Linguagem de Hoje, diz: “Quando estiverem doentes, de cama, o Senhor os ajudará e lhes dará saúde novamente”. A versão mais corriqueira, que inclusive se encontra no inglês e no espanhol também, é de que Deus nos sustenta no tempo da enfermidade e que tem o poder de nos restaurar da doença.
O que levou o tradutor daquela versão chegar àquela conclusão, a construir a figura de uma pessoa tendo todo cuidado para oferecer ao doente um leito macio e aconchegante para que suportasse o seu flagelo? Muitos comentaristas bíblicos ofereceram várias alternativas para a expressão que se encontra em hebraico. Teve quem disse que Deus torna a cama confortável, que Ele muda a cama de posição para que o enfermo se levante e até que Deus transforma a cama do doente em uma cama de saudáveis e curados.
O fato é que os salmos são ricos em poesia e, especialmente este, falam de uma forma sublime sobre o cuidado de Deus. Eugene Peterson, em sua versão conhecida como A Mensagem, o reescreveu assim: “Como é feliz aquele que dá alguma dignidade aos desafortunados: você se sentirá bem — é isso que o Eterno faz. O Eterno toma conta de todos nós e nos faz resistentes para a vida, afortunados por estar na terra, livres dos aborrecimentos dos inimigos. Se estamos doentes e acamados, o Eterno é nosso enfermeiro: ele cuida de nós até a recuperação.”
Exegeticamente falando, os termos hebraicos trazem duas ideias. A primeira, a de alguém que se encontra deitado atingido por algo que lhe acomete; a segunda, a de que a ação divina alcança todo tipo de leito e todo o tipo de enfermidade. Então, Deus pode fazer o que quiser com a cama, mudá-la de posição, mudar o enfermo de posição e até torná-la desnecessária. Nesse caso, a ideia de que Deus afofa a cama do doente com todo o cuidado é a que mais se aproxima do sentido original.
Podemos encontrar no versículo duas possibilidades. A primeira é a compreensão de que Deus se coloca como um enfermeiro junto ao doente para cuidar de seu repouso. A segunda é a afirmação de que Deus transforma toda situação que nos abate: ele transforma dor em alegria, angústia em esperança, sofrimento em felicidade. Uma vez que o salmo em si trata da enfermidade e da adversidade desde o começo, é possível perceber que Deus cuida de nós em meio a tudo aquilo que nos deixa prostrados.
Para um tempo em que a medicina era tão precária e que a doença fatalmente terminava em morte, restava ao doente depender unicamente do Senhor. Para muitos, naquela época, a doença era resultado do pecado ou da desobediência a Deus. A enfermidade era uma ameaça para o doente, para a família e para a sociedade. O medo do contágio e a culpabilização do doente transformavam o enfermo em um solitário. Não havia pior adversidade do que ser abatido pela doença.
Nesse sentido, a ideia de doença pode ser entendida como uma metáfora daquilo que nos incomoda, que altera a nossa normalidade e que é algo que precisamos nos livrar. O desejo primário é de que sejamos libertos milagrosamente e que a vida volte a uma certa normalidade. Mas Deus sabe que, na hora da adversidade, o que mais precisamos é de encorajamento para seguir adiante. Só quem já teve que passar por longos períodos em um leito sabe o quanto uma cama confortável e adequada é importante.
A ideia de alguém que afofa a cama na hora da enfermidade faz parte do imaginário popular evangélico do Brasil, por conta dessa tradução que foi largamente usada pelo segmento pentecostal. E ela faz muito bem. Ajuda a enfrentar o período da luta, da dor e da enfermidade como um tempo para descobrir que Deus está ao nosso lado como alguém que cuida.

domingo, 13 de março de 2016

Seja um intercessor / Be an intercessor / Sea un intercesor

“Antes de tudo, recomendo que se façam súplicas, orações, intercessões e ação de graças por todos os homens; pelos reis e por todos os que exercem autoridade, para que tenhamos uma vida tranquila e pacífica, com toda a piedade e dignidade.” 1 Timóteo 2.1,2
Nunca precisou-se tanto de intercessores como nos dias atuais. Vivemos um quadro de crise moral, política e econômica que vem destruindo as esperanças de nosso povo.
É fato que a crise não é só brasileira, mas ela ganha contornos especiais no Brasil tendo em vista a nossa realidade socioeconômica e histórica.
É fato também que é uma crise historicamente construída. Suas bases estão ligadas muito mais às forças de dominação que atuam sobre nossa terra, desde que Pedro Álvares Cabral deixou aqui um degredado e que se aprofundou desde que as oligarquias destituíram o imperador para dar início à famosa república “café com leite”.
A crise atual cria um quadro que ameaça o Estado Democrático de Direito – conquistado a duras penas –, que põe em risco a paz social, que aprofunda as desigualdades sociais e que compromete as conquistas sociais até aqui construídas.
Com base na nossa crença, podemos dizer que aquele que ora é um agente de transformação no mundo em que vivemos. Esta é a maior revolução que se pode realizar. Se alguém ora pelo fim de algo que aflige a sociedade, se solta o grito de “basta” como um clamor em nome dos que sofrem, isso se torna um fenômeno capaz de restaurar a esperança.
Se você sabe pelo que orar, este é o primeiro passo para saber o que fazer. É preciso se dar conta de que as formas pelas quais o poder se organiza na sociedade são complexas e dependem da atuação de diversos entes em várias instâncias e esferas. Não basta encontrar um culpado, uma vítima ou um herói. Nesse processo, estamos todos implicados.
Ore para que haja paz nas cidades; ore para que a justiça prevaleça; ore para que os mais desprovidos sejam socorridos; ore para que as desigualdades sociais diminuam; ore para que haja oportunidades iguais para todos. Se você está consciente disso, interceda por aqueles que têm a responsabilidade de colocar em prática os mecanismos para que seus motivos de oração se estabeleçam.
Seja um intercessor pelas autoridades, diz Paulo ao jovem Timóteo. Meus pastores me diziam isso também em plena ditadura militar. Para mim, especialmente, foi muito difícil colocar em prática. Mas obedeci clamando por uma mudança de coração em favor daqueles que sofreram.
Num tempo de polarizações, intercessor não é aquele que está de um lado ou de outro, mas o que sabe encontrar o equilíbrio. Interceder é colocar-se no meio, entre o que carece e aquele que pode de fato socorrer.
Pense nisso. O maior protesto que um cristão pode realizar é aquele que parte do sentimento de compaixão por aqueles que sofrem. A intercessão é a atitude que está ao nosso alcance para transformar a realidade em que vivemos.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Casa comum, nossa responsabilidade / Common home, our responsibility / Hogar común, nuestra responsabilidad

“[...] corra a retidão como um rio, a justiça como um ribeiro perene!” Amós 5.24
Vivemos um tempo de crise. Essa afirmação tem uma aceitação unânime em todos os campos de ação humana. O discurso de que vivemos sob a ameaça de uma catástrofe global tem sido uma constante em termos ecológicos, sociais, políticos e econômicos. Para o teólogo alemão Jürgen Moltmann, uma das origens dessa crise está na compreensão de Deus como um sujeito absoluto, que resultou no inevitável entendimento do mundo como objeto, de modo que a insistência em uma transcendência de Deus esvaziou a compreensão de sua imanência. “O monoteísmo do sujeito absoluto desmundanizou mais e mais a Deus, e o mundo se secularizou com mais intensidade”, disse no livro Dios em la criación.
Para outro teólogo, Andrés Torres Queiruga, essa tendência faz com que “Deus apareça para muitos como inimigo da vida humana, como ameaça para sua autonomia e impedimento de sua realização. Nessa linha, e por lógica elementar, acaba convertendo-se no inimigo total, que não deixa nada, porque ocupa tudo” (no livro Recuperar a criação). Deste modo, é possível afirmar que a dinâmica da vida autêntica não tem como se firmar na contemporaneidade fundada na ideia de um Deus imutável e indiferente. Se queremos redescobrir o valor da vida, é preciso voltar-se para a concepção do Deus criador a partir da validade da própria criação: “Deus decidiu criar o mundo: é este o fato fundamental, e nele deve-se fundar nossa reflexão. [...] Se Deus criou o mundo, é porque, apesar de tudo, o mundo vale a pena”, diz Queiruga.
A célebre frase de Irineu “a glória de Deus é o homem vivo”, deve ser compreendida na continuidade da mesma, que afirma que a vida humana se realiza na contemplação de Deus. Diante do quadro de crise na qual se encontra o mundo, chegou o momento de se fazer uma escolha: cuidar de nossa casa comum. Para Moltmann, “não se trata de uma crise passageira, e sim de uma catástrofe lenta, mas segura, em que serão destruídos os seres vivos mais fracos por primeiro, e então os mais fortes e, não por último, inclusive os seres humanos”, diz ele em outro livro, A vinda de Deus. Essa crise é provocada pela civilização que se constitui a partir da técnica e da ciência e que provoca o esgotamento da natureza a partir da exploração pelo homem. “Esta crise é mortal não só para o homem [...] é também mortífera para o entorno natural”. Moltmann reconhece ainda que “a moderna sociedade industrial provocou um desequilíbrio no organismo ‘terra’ e está a caminho da morte ecológica universal, caso não possamos alterar esse desenvolvimento [...] A catástrofe ecológica em progresso é universal e não faz distinções. Ela ameaça da mesma forma a natureza, os seres vivos e sistemas de vida e os seres humanos. Ela coloca a humanidade dividida sob a unidade do perigo. Ela põe humanidade e natureza numa comunhão de necessidade”.
Isso demanda uma conversão radical das orientações fundamentais dos modos de produção e consumo, bem como da dinâmica político-econômica das sociedades industriais, uma vez que a crise ecológica se estabelece a partir de uma crise que envolve também as relações de poder. Tanto a crise ecológica como a que envolve os estados modernos surgem no âmbito de uma cultura marcada pela cristandade. E isso exige uma atitude crítica por parte de todos, notadamente daqueles que professam a fé cristã, o que implica um novo olhar sobre a criação.
É preciso encarar o mundo como realidade contingente, na qual se compreende a existência e tudo o que está implicado nela. Deve levar em conta que tanto a realidade concebida como objeto quanto a subjetividade humana são criações divinas. Deve situar o conhecimento no âmbito da relativização, conquanto se refere também ao que não é dado a conhecer, ao invisível, ao qual ainda não se tem acesso. Deve ser solidária ao sofrimento da natureza e desenvolver a esperança da redenção de toda a criação. Deve estar a serviço da naturalização do homem, como um retorno ao cuidado com a natureza em termos de autocompreensão e como interpretação do mundo tendo a natureza como marco fundador. Para Leonardo Boff, isso implica uma nova cosmovisão em que a noção de mundo precisa abarcar a totalidade como a um organismo vivo articulado com o universo inteiro. Trata-se de uma cosmovisão ecológica que enfatiza a imanência de Deus, que está presente em todos os processos vitais e que orienta a vida a partir de uma ordem cada vez mais complexa e carregada de propósitos. Veja-se o livro Ecologia: grito da terra, grito dos pobres. Deus e mundo “estão abertos um ao outro. Encontram-se sempre mutuamente implicados”, diz Leonardo Boff.

domingo, 22 de março de 2015

As estações da vida / The seasons of life / Las estaciones de la vida

“Veja! O inverno passou; as chuvas acabaram e já se foram.” Cânticos 2.11
A vida pode ser comparada ao ciclo das estações do ano. A natureza se reveste de uma circularidade em que a vida se refaz e ganha novos sentidos à medida em que se passa pelas fases sempre na esperança da chegada de um novo tempo.
Relacionar as fases da vida às estações do ano é um exercício do imaginário. Usamos cada estação como metáforas dos diferentes momentos em que a beleza da vida se revela em suas diferentes fases. Afinal, só dá para se compreender a vida a partir de suas contradições.
As estações do ano têm seu tempo certo de começar e de terminar. A vida, nem tanto. A cada estação, a natureza passa por perdas que são restituídas na estação seguinte. Na vida, nem sempre. A natureza conhece bem cada estação e entende a sua linguagem e importância. Na vida, nem tudo está tão claro. Porém, tal como na natureza, as fases da vida são necessárias para a nossa existência.
No outono, a vida se renova. Para isso, as folhas caem, os ventos sopram de forma impiedosa como se as árvores não pudessem resistir, a estiagem proporciona um ambiente árido e desalentador. Entretanto, a beleza do degradê das folhagens colorem as paisagens de uma forma sem igual. Quantas vezes a vida já se mostrou sem esperança, em que nos sentimos desprotegidos e até sem recursos? Porém, o outono da vida passa, e só restam a lembrança dos momentos belos vividos em meio às lutas.
No inverno, a vida se retrai. O frio paralisa, faz diminuir a marcha da vida. Animais hibernam, as formigas cessam seu trabalham, até as cigarras deixam de cantar. Entretanto, o frio e os instantes de recolhimento são oportunidades únicas de acolhimento e de convívio mais próximo com quem se ama. Quem já não se sentiu paralisado pela frieza dos acontecimentos e até de pessoas? Porém, o inverno da vida passa, e só restam as lembranças das vezes em que acolhemos e fomos acolhidos.
Na primavera, a vida floresce. Tudo se renova, a natureza se reveste de cor, a vida se refaz. A vida é feita de sonhos e esperança. Eles se renovam e se tornam mais vivos após um período de lutas e turbulências. Entretanto, nem mesmo as plantas florescem sem esforço. Há que se experimentar o feliz processo de se renovar de dentro para fora. Quem nunca precisou abandonar o que ficou para trás para viver novas oportunidades? Porém, a primavera da vida passa, e o que fica é a vida em sua beleza e vitalidade.
No verão, a vida pulsa. O sol e a alegria trazem euforia e vigor. Entretanto, ninguém está isento de seus efeitos. Quem nunca se desencantou, se enganou ou se iludiu com o brilho efêmero da vida? Porém, o verão passa, e só resta a experiência de ter aproveitado bem cada momento vivido.

domingo, 8 de fevereiro de 2015

Ressentimento / Resentment / Resentimiento

“[...] Que nenhuma raiz de amargura brote e cause perturbação, contaminando a muitos.” Hebreus 12.15
Sofremos mais por causa de nossos relacionamentos do que pelas circunstâncias difíceis que enfrentamos. As pessoas que estão mais próximas são realmente capazes de exercer influência sobre nós, podem até nos ferir e provocar mágoas tão profundas cujas cicatrizes levem tempo para serem saradas.
O problema é que relacionamento é uma via de duas mãos. Isso quer dizer que também somos capazes de exercer influência e até de ferir as pessoas a quem amamos. Por outro lado, podemos desenvolver uma consciência de nosso valor de tal modo que não importa o que as pessoas digam ou façam contra nós, pois isso não altera a nossa condição.
Ressentimento é ter o mesmo sentimento destrutivo repetidas vezes provocado a partir de relações doentias na família, nas amizades, no ambiente de trabalho, na vizinhança ou na escola. Pessoas ressentidas estão aprisionadas a um círculo autodestrutivo, que consome a alegria, a paz, o amor, a comunhão e até a perspectiva de mudança.
Isso mesmo, o ressentimento é uma prisão da alma, como um calabouço escuro em que a pessoa se recolhe para alimentar seus sentimentos mais terríveis de ódio e de vingança. Pessoas ressentidas desenvolvem uma compreensão ruim da realidade, tornam-se amargas no tratamento com o outro e consigo mesma. A mágoa é a filha preferida do ressentimento que, quando se instala, destrói toda a esperança.
É fácil você identificar uma pessoa ressentida. Ela é capaz de viver em seu próprio mundo e não permitir um outro olhar sobre o problema que lhe afeta. Ela maquia seus sentimentos com ironia, desdém, juízos premeditados e até preconceito, tudo para alcançar o seu único fim: satisfazer seu eu ferido. Alimentar ressentimentos é como beber veneno achando que é o outro que vai morrer.
O único remédio para o ressentimento é o perdão. Ele interrompe o círculo vicioso que o ressentimento produz e restaura a vida daquele que está ferido. Não tenha a ilusão da reparação do dano, mas tenha a convicção de que a vida segue seu rumo, apesar de tudo. O perdão não repara o problema causado, mas restaura a condição para se seguir adiante.

Se você não é capaz de perdoar o outro por causa da ferida que lhe foi causada, perdoe por causa de você mesmo. Não há porque alimentar um ressentimento de forma contínua se a vida segue seu curso. Sentimentos se renovam e há uma alegria reservada para quem se liberta dos sentimentos ruins do passado e se abre para o novo. Ressentimentos, nunca mais.

domingo, 27 de julho de 2014

Deus está no controle / God is in control / Dios tiene el control

“Até os cabelos da cabeça de vocês estão todos contados.” Mateus 10.30
Há muitas pessoas que creem que Deus comanda o universo como se tivesse um joystick em suas mãos, apertando botões que determinam quando um nasce e outro morre, quando o mundo passa por calmaria ou quando enfrenta calamidade.
Há muitas dificuldades em tal concepção. A maior delas é a questão do mal: por que esse Deus que tem o controle de tudo não age em favor dos homens, sendo tão amoroso como diz ser? Ninguém tem essa resposta, nem a Bíblia aponta uma explicação racional para isso.
Deus é soberano, não resta a menor dúvida. Ele é o criador e sustentador de todas as coisas. O problema está na maneira como interpretamos a nossa relação com ele. Podemos entender a nossa relação com Deus a partir de um ponto de vista determinista ou de uma compreensão da liberdade.
Os deterministas afirmam que Deus controla tudo: quem nasce, quem adoece, quem morre, quem governa, quem mata. Isso inclui também o tempo, as catástrofes, a riqueza e a pobreza. Um Deus assim está mais para um tirano cruel do que para um ser amoroso.
Já a compreensão da liberdade entende que Deus é soberano o suficiente para amar. No seu poder criador, estabeleceu leis e princípios universais para a vida em dimensões cósmicas, que não é marcada por destinos, mas por uma complexa conjunção de liberdades. Alguém que ama é capaz de sofrer, chorar, se arrepender, ceder, tudo para ver o outro livre. Isso não impede que tenha uma vontade. A liberdade do outro é um valor mais caro. E nisso investe todo seu poder.

O que faz, então, acreditar que Deus está no controle? Isso não seria o mesmo que dizer que Deus é impotente e fraco diante de nossas circunstâncias? Ao contrário, compreender a ação de Deus a partir da liberdade nos conduz a descobrir que ele não é responsável por nossas dores, mas que está comprometido com tudo aquilo que envolve a nossa existência, em meio à nossa história. Nesse contexto, isso nos dá força para seguir adiante em meio às dificuldades. Ele nos fortalece e nos encoraja porque sabe quem somos e nos conhece profundamente. E por estar no controle, ele nos acompanha e nos guia para sabermos como lidar tanto com a tragédia quanto com a vitória

domingo, 1 de junho de 2014

Mais que vencedores / We are more than conquerors / Hacemos más que vencer

“Mas, em todas estas coisas somos mais que vencedores, por meio daquele que nos amou.” Romanos 8.37
O que pode fazer de você um derrotado ou um perdedor? Talvez o desânimo, a preguiça, o medo, a falta de oportunidade ou a falta de habilidades. Enfim, são muitas as circunstâncias que podem proporcionar o sentimento de fracasso.
Quando a gente fala de vencedores ou derrotados, tem-se em mente a ideia de alvos a serem alcançados, sonhos a serem realizados e até de oportunidades perdidas. Numa sociedade competitiva como a nossa, o imperativo da vitória soa mais como uma imposição. Não dar conta da exigência de vencer na carreira profissional, por exemplo, já é, em si, um sintoma do fracasso.
Não podemos esquecer que somos construtores da nossa própria história. Porém, não o fazemos nas circunstâncias desejadas, mas apenas dentro das condições concretas que nos são oferecidas. Talvez tenhamos que lutar uma vida inteira para conseguir alcançar determinadas metas, realizar alguns dos nossos sonhos.
A vitória é sinônimo de tentativa. O nosso empenho e dedicação já são grandes conquistas que podemos desenvolver nesta vida. Para que a luta seja completa, precisamos acrescentar a ela os componentes da fé e da esperança, sem os quais nenhuma luta terá valido à pena.

Talvez a luta seja maior para uns do que para outros, mas o que faz a diferença é que aquele que nos amou não permite que lutemos sem que tenhamos o gosto da vitória desde já.

segunda-feira, 31 de março de 2014

Deus de braços abertos / God with open arms / Dios con los brazos abiertos

“Vejam! O braço do Senhor não está tão curto que não possa salvar, e o seu ouvido tão surdo que não possa ouvir.” Isaías 59.1
Pelo fato de termos consciência de nossas carências e limitações, a concepção de um Deus de braços abertos e mãos estendidas faz um bem tremendo. Alguns vão achar que isso faz parte de uma compreensão que resulta da fé ingênua, projeção do desejo pelo cuidado paternal perdido na infância.
Para mim, trata-se de uma percepção resultante da esperança. Crer que um ser todo-poderoso se importa com as dores e a felicidade de um único indivíduo é um sentimento que produz vida, força para continuar adiante na hora da angústia.
Para aquele que tem esperança, no futuro não está o fim, mas o começo de uma vida plena de significados. O futuro de quem crê nunca é marcado pela tragédia escatológica, mas pela irrupção de um novo tempo de alegria.
Dor e sofrimento podem estar presentes entre o agora e esse futuro aguardado em fé. O que dá força ao que crê é saber que o melhor de Deus ainda está por vir. Mesmo que passe por situações tão difíceis, ele terá sempre a certeza de que Deus está com sua mão estendida e que há de encontrá-lo com seus braços acolhedores abertos ao final.

Isso confere força e coragem para seguir adiante, algo que pode ser experimentado tão somente pela fé. Portanto, creia sempre.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Alegria de viver: envolva-se / Rejoice / Regocijarse

A vida na pós-modernidade é marcada pela diversidade de oportunidades e de relações de consumo. Somos confrontados o tempo todo diante de coisas que se oferecem para nos realizar e nos conferir identidade. Recebemos o apelo constante para dar vazão a nossos desejos. Somos intimados a experimentar o gozo a qualquer custo, a viver o instante como um fim em si mesmo.
Essa onda, porém, tem produzido um estado de ânimo que conduz a uma atitude mesquinha, superficial e cheia de ressentimentos. Corremos o risco permanentemente de nos entregarmos a uma sequência de queixas, de desencantamentos, de perda da fé e da esperança naquilo que pode redimir a vida humana de sua própria maldade.
Essa não é a vida que Deus sonhou para nós quando criou o homem a sua imagem e semelhança. Afinal, ele não é um Deus ranheta, carrancudo e mal-humorado. Nem é o tipo de vida que o Espírito de Deus nos encoraja a viver em tempos como esse.
A vida debaixo da graça é um constante convite à alegria. Aquele que experimenta a graça e acolhe o convite amoroso para ser um participante do Reino de Deus adentra em um caminho de muitas alegrias. Ela brota do coração daquele que crê, jorra de dentro daquele que é fiel e sincero de um modo tal que contagia outros e inunda o ambiente que o cerca. A alegria de tomar parte do Reino contagia e se manifesta como missão.
Jesus disse que a nossa tristeza será transformada em alegria (João 16.20). E a alegria há de ser tanta que ninguém será capaz de tirá-la (João 16.22). Por onde Jesus passou, houve alegria. Por onde os discípulos passaram, houve alegria. Onde a graça reina, há alegria.
A promessa divina é que todo pranto será transformado em canto de alegria. E a missão profética consiste em levar essa nova de tanta alegria conde a tristeza impera.
É interessante notar que toda situação de afastamento, de desânimo, de fraqueza, de tentação e até de pecado começa com uma atitude de reclamação, de murmúrio, de queixa. A proposta do evangelho é de uma vida que desafia a nossa conformação e nos encoraja a viver de tal modo que lance fora toda a tristeza.
O chamado do evangelho é um convite à adoção de um novo paradigma, uma nova cultura que nos chame a um envolvimento de vida que supere aquilo que tem atuado como raiz de amargura. Precisamos desenvolver uma atitude que expulse os ladrões de alegria de nossa vida e nos restitua o prazer de viver de acordo com os propósitos divinos.

Viver o evangelho é viver a alegria de ter encontrado a salvação. Esse é o caminho que conduz à vida plena. É uma vida que não vive para si mesmo, mas que se abre para o outro e que faz toda a diferença por onde passa. Uma vida que só dá para ser experimentada quando a gente se envolve por inteiro e partilha com outros aquilo que nos proporciona a alegria de viver.

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