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sábado, 23 de agosto de 2025

Exercícios de Ecoespiritualidade: Somos parte da Criação / Eco-spirituality Exercises: We are part of Creation / Ejercicios de eco-espiritualidad: Somos parte de la Creación

“Então os olhos dos que veem não estarão mais fechados, e os ouvidos dos que ouvem escutarão” (Isaías 32.3).

 No ano de 2024, aconteceu na cidade de Cali, Colômbia, a 16ª Conferência das Partes, também conhecida como COP 16. O foco era o de implementar um quadro global de diversidade conforme ficou definido pela Conferência de Biodiversidade das Nações Unidas em 2022 e adotado pela COP 15, composto por 23 metas e 4 objetivos. Porém, a principal lacuna que ainda precisa ser preenchida para proteger a diversidade é a alocação de recursos financeiros.

O tema da conferência foi “Paz com a Natureza” para enfatizar a ideia de que a conservação da biodiversidade requer um compromisso de toda a humanidade. Para isso, seria necessário mobilizar recursos financeiros para procurar reverter a perda da diversidade até o ano de 2030. Porem, não houve um consenso acerca de quanto seria necessário para promover as ações para conter a perda da diversidade biológica, principalmente entre os países mais desenvolvidos.

Entretanto, houve conquistas históricas. A COP 16 definiu acordos para a partilha das informações dos códigos genéticos visando promover o seu uso sustentável e garantir o acesso equitativo aos benefícios da biodiversidade. Outra conquista foi o reconhecimento da importância e a inclusão dos povos originários e das comunidades afrodescendentes no âmbito da Convenção das Nações Unidas sobre Diversidade Biológica. O objetivo foi o de garantir espaço direto de voz e de influência nas tomadas de decisão por possuírem conhecimentos e práticas que contribuem para a concretização dos objetivos do Quadro Global de Diversidade.

Mas é preciso fazer mais. Necessitamos de um diálogo para desenvolver juntos e juntas  formas de moldar o futuro do planeta. Papa Francisco, em sua encíclica Laudato Si, lançou esse desafio para que seja possível construir um novo ambiente de solidariedade universal em que todos os seres vivos, desde os mais vulneráveis, possam viver com dignidade.

Trata-se de uma mudança de mentalidade que atinge também a fé, que precisa abrir mão da crença de que o homem é o centro de tudo para desenvolver ações que envolvam práticas de espiritualidade com o cuidado de toda a Criação. A ecoespiritualidade emerge como um exercício de fé em busca da reconciliação do ser humano com a natureza, compreendendo a sacralidade da vida de todas as criaturas e a responsabilidade de proteger a dignidade da vida. Eco vem de oikos, que é casa em grego. A ecoespiritualidade é o exercício de cuidado com a casa comum em perspectivas ética, política, social, econômica e espiritual.

Necessitamos também de uma voz profética de arrependimento e de compromisso com a justiça e a paz com toda a Criação. Isso envolve uma Teologia da Criação que proponha um caminho de reconciliação uns com os outros e com o Criador a fim de promovermos justiça genuína para todos os seres vivos. Só assim a Criação encontrará paz.

Essa preocupação pode ser encontrada na Escritura, especificamente no livro do profeta Isaías. Ele disse: “Meu povo viverá em paz, tranquilo em seu lar; terá descanso e segurança” (Isaías 32.18 NVT). A promessa de paz e segurança é consequência do compromisso com a justiça. É uma mensagem que nos desafia a nos constituirmos como uma sociedade justa, baseada em princípios de equidade e respeito mútuo, onde todos e todas possam desfrutar a vida com tranquilidade.

O profeta inicia, no capítulo 32, a descrever a perspectiva messiânica do Reino de Deus. Um reino futuro, mas que já começava a despontar naquele tempo em Judá com promessa de justiça e paz para toda a Criação. Um reino de retidão que agirá com justiça, o que é um contraste à tirania, à corrupção e à injustiça dos regimes de poder com os quais Judá já havia convivido.

Um governo assim se transforma em um refúgio para os oprimidos. É como um vento suave em meio ao calor escaldante, como uma corrente de água em terra seca e como a sombra no deserto. Um verdadeiro oásis de esperança em meio ao deserto da incerteza, da exploração e da maldade. A mensagem profética é marcada por uma linguagem poética que destrói falsas narrativas e que aponta para a restauração da dignidade da vida em todos os aspectos.

O resultado da justiça é a transformação do cenário de desolação em que a sociedade vive. As pessoas em geral serão curadas da cegueira e da surdez que as impedem de lutar por direitos e dignidade. O povo terá sabedoria e entendimento para tomar decisões acertadas. Os tolos não terão mais tanta influência e os sem caráter não terão tanto poder, como acontece em nossos dias. Parece que Isaías se dirige a nós em tempo de fake news, pós-verdade, disseminação do ódio, negacionismos e extremismos nas redes sociais.

Nesse tempo messiânico, Isaías vê que o papel das mulheres é fundamental. Elas são tratadas como agentes de transformação com sua capacidade e sabedoria. O chamado é para que se levantem com urgência, porque a terra não mais produzirá os frutos para o sustento de suas famílias por causa da maldade dos homens. Suas vozes de lamento e de protesto devem ecoar por todas as partes, desde as casas até às cidades.

Isaías descreve o cenário da natureza devastada pela ganância e pela exploração da terra, resultado do afastamento de Deus e de seus propósitos para toda a Criação. A consequência se reflete nas relações sociais, na vida das cidades e nas estruturas de poder, que estão deterioradas pelo pecado humano. O afastamento de Deus tem afetado toda a Criação. Aquilo que foi criado para trazer segurança, paz e suprimento para todos estava em ruínas. Terras, biomas, rios e oceanos sofrem com a cultura da arrogância, da acumulação e da ganância.

O projeto da Criação divina foi fundado no senso de justiça e paz, mas a humanidade quebrou essa relação promovendo uma verdadeira guerra através da exploração desordenada dos recursos naturais, do consumo exagerado e do extermínio de espécies. A economia capitalista moderna estabeleceu práticas insustentáveis de exploração dos recursos naturais colocando em risco a vida de todo o planeta.

Nós, que somos coparticipantes da Criação, nos tornamos cúmplices e corresponsáveis pela crise provocada pela devastação. A maneira como consumimos, empreendemos e orientamos a economia voltada para o lucro esbarra com a dificuldade de colocar em prática princípios de sustentabilidade. O resultado é mais poluição, crises sanitárias, fenômenos ambientais cada vez mais devastadores, desmatamento ilegal para dar lugar a monoculturas, exploração de minerais que colocam em risco biomas inteiros e emissão de gases do efeito estufa.

A responsabilidade tanto é coletiva e estrutural, como também é individual. O apego ao luxo, o desperdício, o uso de veículos e equipamentos poluentes, a aplicação de produtos químicos e o descarte de resíduos são algumas dessas coisas que fazemos que contribuem para o quadro atual de desolação.

Quando olhamos ao nosso redor, vemos um cenário de conflitos e destruição. A palavra desolação resume bem o contexto da atual crise ambiental e climática. Em todas as partes do mundo podemos ver que a causa dessa desolação é o próprio ser humano que insiste em provocar danos à natureza. Ao mesmo tempo, os próprios seres humanos são também vítimas dessa desolação.

O mundo está em crise e a resposta passa por uma mudança de mentalidade. A mensagem profética de Isaías lança as bases dessa mudança necessária e urgente, que fala de justiça, paz e reconciliação com a Criação. Como apelou o Papa Francisco em sua encíclica Laudato Si: “Qual é o objetivo do nosso trabalho? Que necessidade tem a terra de nós? Deixar um planeta habitável às gerações futuras depende de nós” (2015, § 160).

A Teologia se vê impelida a mover-se pelo Espírito Santo, o sopro da vida, que é derramado sobre nós nesse momento, trazendo esperança de renovação para a terra e de restauração da harmonia da Criação. Nesse tempo, somos chamados como cristãos e cristãs a nos unir com alegria, justiça e paz a toda a Criação para vivermos o que fomos criados para ser: cooperadores uns dos outros, como embaixadores da justiça, da paz e da reconciliação.

segunda-feira, 6 de maio de 2024

Inundações no Rio Grande do Sul acendem o sinal vermelho da crise ambiental / Floods in southern Brazil turn on the red flag of the environmental crisis / Inundaciones en el sur de Brasil encienden la bandera roja de la crisis ambiental

 

As chuvas que caíram sobre o Estado do Rio Grande do Sul, na região Sul do Brasil, na última semana provocaram uma catástrofe ambiental sem precedentes. Dos 497 municípios, 336 se encontram em estado de calamidade. O Estado inteiro registrou inundações, sendo que em grande parte foram confirmadas inundações severas.

A explicação científica desse fenômeno climático remete à crise ambiental que afeta a vida no planeta com impactos expressivos sobre o clima e, consequentemente, ao meio ambiente. já há algumas décadas, estudiosos vêm alertando sobre os riscos e as consequências da exploração da natureza, medindo aquilo que poderia ser considerado como ponto de não retorno. Ou seja, o limite em que a vida no planeta encontra-se em situação de colapso.

O sinal vermelho acendeu para toda a humanidade. É preciso parar para socorrer as vítimas e reparar os danos. A mentalidade consumista, acumuladora e gananciosa não comporta mais diante do que se viu – e ainda se vê. O Rio Grande do Sul é um Estado forte, de economia pujante, responsável por grande parte da produção nacional de grãos, carnes e vinhos, possui uma indústria sólida e uma atividade cultural dinâmica. Sua história é marcada por lutas para a afirmação de um povo que se orgulha de suas origens.

Essa tragédia tem culpados, e é preciso aponta-los: são todos aqueles que negaram os muitos alertas da ciência e que não tomaram as providências devidas tendo em suas mãos o poder de fazê-lo. Antes de dar nomes ao bois, é preciso socorrer as vítimas e atuar de forma justa para aliviar o sofrimento das famílias e ajuda-los a reconstruir o que perderam.

Além de acender o sinal vermelho para a crise ambiental, essa tragédia é também a prova inequívoca de que é preciso praticar a Justiça Climática e Ambiental. O objetivo deve ser não só amparar os que foram atingidos pelos temporais, mas também reverter o cenário de crise que ameaça a vida. Trata-se de se levantar um conjunto de ações que envolvam tanto os governos como também o setor produtivo e a sociedade civil em geral para parar de vez os desmatamentos e as agressões aos biomas que ainda restam.

Quando falamos em Justiça climática, nos referimos ao o modo como os movimentos sociais têm abordado os problemas decorrentes das mudanças climáticas vividas nos últimos tempos. Eles vão além do aquecimento global. A alteração do clima na natureza não afeta só o meio ambiente, mas todas as relações sociais, econômicas e políticas da humanidade.

Para tratar da Justiça climática, é preciso levar em conta princípios de Justiça Social, ética e responsabilidade histórica pelas causas e feitos das mudanças climáticas. O apelo da Justiça climática é para que haja igualdade de direito para com os grupos que são desproporcionalmente afetados, geralmente que se encontram entre as camadas mais pobres da sociedade e pessoas vulneráveis, como mulheres, negros, idosos e crianças.

As mudanças climáticas são, de fato, uma realidade global, mas suas consequências afetam as populações de forma desigual. As pessoas mais afetadas pelas mudanças climáticas são aquelas que menos participam das causas do aquecimento global.

E quando falamos de Justiça ambiental, no referimos à desigualdade da distribuição dos riscos ambientais. A ideia é reunir esforços coletivos para que nenhum grupo social tenha que sofrer consequências da degradação ambiental mais do que o outro.

Ao longo do tempo, as grandes potências mundiais destinaram suas indústrias mais poluentes para países em desenvolvimento enquanto a administração se localizava nas sedes das grandes cidades dos países mais desenvolvidos. O que a Justiça ambiental deseja é que haja tratamento justo para que todos e todas tenham acesso a uma vida mais saudável.

Quando escrevo esse texto, novas chuvas são previstas para esta semana, mas ainda tem gente ilhada, muitas ainda sobre os telhados de suas casas, esperando serem resgatadas. A cidade de Porto Alegre, capital do Estado, continua inundada, numa cena jamais imaginada. Para nós que estamos longe, só resta apelar pelo socorro divino.

Foto: Renan Matos/Reuters, publicado pelo Uol.

quarta-feira, 21 de setembro de 2022

O grito da Criação: é tempo de escutar a voz da natureza, do planeta, dos pobres e dos excluídos / The cry of Creation: it is time to listen to the voice of nature, the planet, the poor and the excluded / El grito de la Creación: es tiempo de escuchar la voz de la naturaleza, del planeta, de los pobres y excluídos

O salmista declara que há uma voz que vem sendo silenciada que emerge do meio da Criação: “Sem discurso nem palavras, não se ouve a sua voz” (Salmos 19.3). É uma voz sufocada que vem de todas as criaturas que apontam para o Criador. Essa voz que vem da Criação é a voz do próprio Criador que clama pelo cuidado com os que sofrem com o avanço da degradação da vida no planeta e do aumento da desigualdade social.

É preciso que todas e todos se unam para fazer ressoar essa voz “por toda a terra, e as suas palavras, até os confins do mundo” (Salmos 19.4). A Criação é a primeira e mais eloquente forma de Deus se revelar. Quando ouvimos essa voz que vem da Criação, compreendemos quem somos, onde estamos e qual é o nosso compromisso como cooperadores de Deus.

É urgente unir as vozes de cristãs e de cristãos de todo o mundo em um clamor pela proteção de nossa casa comum, em defesa dos pobres e dos que são excluídos. A oração em favor de toda a criação Corresponde a um despertar em defesa da vida como proclamadores das Boas Novas para toda a Terra.

De todas as partes, de todos os povos, de todas as nações e em todas as línguas, é possível ouvir o grito de cada pessoa, de cada comunidade, de cada bioma, de cada espécie que tem sido silenciado pela exploração provocada pela ganância e pelo consumo desenfreado. São vidas que estão ameaçadas pela perda das condições mínimas de sobrevivência por causa das mudanças climáticas.

Escutar a voz da Criação exige um tipo de escuta que envolve nossa sensibilidade em ouvir os modos em que Deus fala conosco. Santo Agostinho escreveu que a Criação “é a página divina que você deve escutar; é o livro do universo que você deve observar. As páginas da Escritura só podem ser lidas por aqueles que sabem ler e escrever, enquanto todos, mesmo os analfabetos, podem ler o livro do universo” (apud Tempo da Criação: Guia de celebração 2022, p. 7). Martinho Lutero também pregou que o Evangelho não foi apenas escrito em livros “mas também em árvores e outras criaturas” (idem).

Através desse exercício de escuta, é possível desenvolver uma nova espiritualidade que implica a percepção da verdade, a virtude da bondade e as expressões de beleza presentes na vida do outro, das relações comunitárias e da natureza. Somos também conduzidos a experiência de tomada de consciência de quem Deus é e como ele vem a nós, como Trindade santa, na qual todas as coisas existem e se movem. Como afirmou o teólogo alemão Jürgen Moltmann: “Deus cria, reconcilia e redime sua criação por meio do Filho. Na força de Espírito, Deus está presente na sua criação, na reconciliação e na redenção da criação” (Dios en la creación, p. 29).

A Bíblia nos diz que toda a natureza geme. “Sabemos que toda a natureza criada geme até agora [...]” (Romanos 8.22). É possível ouvir nos dias atuais o clamor que nos interpela a refletir a respeito dos modos como conduzimos nossa própria vida. Algo precisa ser feito para mudar o rumo de nossa história, que aponta para um fim trágico. Cuidamos da natureza e uns dos outros porque amamos ao Deus da Criação.

quinta-feira, 9 de setembro de 2021

Uma casa para todos / A home for all / Un hogar para todos

Os povos originários do Brasil dão à casa um sentido mais abrangente do que estamos acostumados. A oca, como a casa é chamada na língua tupi-guarani, é uma construção em grande dimensão, podendo chegar a 40m de comprimento, feita de forma comunitária usando troncos e taquaras amarradas com cipós e cobertas com palhas retiradas da natureza no entorno. Nela não há divisão interna e ela serve como habitação para todas as famílias da aldeia.

Essa experiência dos povos originários, que se apresenta em diferentes modalidades, ressalta a importância da casa como lugar de acolhimento. Parte do dia, os moradores realizam suas atividades fora da oca, recolhendo-se no interior da mesma para o descanso, a alimentação e o cuidado uns com os outros. No interior das casas, cada família convive com as demais de forma harmoniosa e colaborativa. Esse sentido da casa comum serve como inspiração para repensarmos a maneira como vivemos no planeta.

O papa Francisco tem feito constantes apelos ao cuidado do planeta como nossa a casa comum. Já na encíclica Laudato Si, ele lançou o desafio de unir toda a família humana na busca de um desenvolvimento sustentável e integral para o bem da vida no planeta. “A humanidade possui ainda a capacidade de colaborar na construção da nossa casa comum” (FRANCISCO. 2015, § 13). Deixar de cuidar dela é um pecado grave que põe em risco toda forma de vida. Portanto, é preciso cuidar-se, cuidar uns dos outros e deixar-se ser cuidado.

De que forma podemos cometer um pecado grave em relação à nossa casa comum? Tornando-se indiferente aos mais vulneráveis, explorando a natureza indiscriminadamente e desenvolvendo uma mentalidade gananciosa e acumuladora. Precisamos aprender de forma solidária, participativa e preocupada com a sustentabilidade. A isso poderíamos chamar de a grande revolução do cuidado.

Há um ditado popular espanhol que diz: “Deus perdoa sempre; nós perdoamos às vezes; a natureza não perdoa nunca”. Estamos vivendo um momento único na história da humanidade em que temos a chance de lutar para reverter o avanço da crise ambiental, agindo pelo cuidado da casa comum. É urgente que cada um assuma a responsabilidade de tomar a iniciativa para fazer algo em favor da criação e da preservação de todas as formas de vida existentes no planeta. O nosso grande alvo deve ser o de, juntos, desenvolvermos as condições  para um planeta sustentável e acolhedor para todas as criaturas.

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Rio+20: o legado para o futuro que queremos / The legacy for the future we want / El legado para el futuro que queremos

A Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável deixa algum legado para a construção de um futuro melhor? Embora muitos comentários apontassem para o fracasso de um acordo com fixações de metas ambiciosas para as ações dos governos, acredito que há uma interessante contribuição dada pela Rio+20. Alguns até entendem que houve um retrocesso na tentativa de se formar uma consciência global no cuidado do meio ambiente e da vida, mas vejo que houve uma mobilização que irá orientar as discussões em torno do tema daqui por diante.
Em termos concretos, a gente pode dizer que o Espaço Humanidade se constituiu numa oportunidade de oferecer por meio da arte a reflexão sobre o modo como temos estabelecido nossas relações com a natureza e como temos lidado com a vida. A própria iniciativa de se criar um centro de pesquisa sobre sustentabilidade ligado a uma das maiores universidades da América Latina também é uma grande inovação. Podemos falar também da ênfase que se deu na formação de uma consciência planetária, baseada no princípio do agir localmente e pensar globalmente.
O maior legado, no entanto, é a capacidade demonstrada para se construir novas utopias, como a afirmação que as próximas gerações precisam ter as garantias mínimas de disporem dos mesmos recursos que hoje podemos contar. Uma outra utopia é a ideia de que uma nova mentalidade precisa substituir a que domina o consumo atual. Ficou evidente também a aspiração de uma nova consciência política a fim de que não haja mais espaço para a corrupção e regimes exploradores. A maior de todas as utopias, porém, é a convicção de que é preciso e é possível erradicar a pobreza extrema com ações concretas.
Ficou também a abertura para novas possibilidades de se cuidar da vida humana e suas relações. As manifestações que tumultuaram a cidade do Rio de Janeiro, os eventos paralelos e os discursos das autoridades durante a conferência deram conta de que há uma exigência para uma nova relação do homem consigo mesmo. Uma atitude que possa levar à superação do narcisismo e do hedonismo que marcam o comportamento que tem levado às principais causas que impedem a afirmação de uma consciência de sustentabilidade. Uma nova espiritualidade se faz necessária, que dê conta da salvação do homem de sua própria perdição. Não se salva o mundo abraçando árvores. Num tempo em que se dá tanta ênfase aos direitos individuais e de minorias, a Rio+20 colocou em questão a necessidade humana de se viver com dignidade e de se construir valores que estejam relacionados ao resgate de nossa humanização. O maior direito a ser garantido é o da vida. E é nessa hora que ouço a voz de Jesus em meio a tantas vozes que clamam por uma vida melhor: “eu vim para que tenha vida, e a tenham em abundância.”

terça-feira, 19 de junho de 2012

Rio+20: Caminhos para um mundo mais sustentável / Ways to a sustainable world / Caminos hacia un mundo sostenible

A Rio+20, Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, já começou prometendo ser um fracasso no que diz respeito à produção de um acordo para aquilo que tem se chamado de “economia verde”. Seu grande legado, no entanto, será envolver a sociedade organizada em um leque de discussões que pode suscitar mudanças de atitude.
O maior problema enfrentado tem a ver com a adequação do modelo econômico adotado para comportar o princípio da sustentabilidade. Outro problema grave é a respeito de quem vai pagar a conta da implantação de um novo paradigma para a economia mundial. O que se prevê é que esse custo represente cerca de 2% de toda a riqueza produzida no mundo. O custo com material bélico e até mesmo o custo para cobrir o rombo dos bancos em meio às grandes crises envolvem somas muito maiores.
Já se chegou à conclusão de que este é o momento para tomada de decisões a fim de possibilitar os mesmos recursos de que dispomos para a próxima geração. Caso não sejamos capazes de uma decisão que contenha os avanços do consumo, as possibilidades de solução diminuem conforme o tempo passa.
Já se chegou à conscientização de que a natureza fornece recursos para o consumo sustentável para um planeta com até doze bilhões de habitantes. Entretanto, se cada pessoa consumir como um cidadão norte-americano, serão necessários três planetas Terra para dar conta.
Uma outra constatação é que o fenômeno do aquecimento global tem sido questionado cientificamente. Sua principal causa pode não ser a emissão de gases do efeito estufa. Outros problemas precisam de maior atenção, tais como as causas do processo de desertificação e o comprometimento dos mananciais de água para o consumo humano.
Os caminhos para o desenvolvimento sustentável passam, portanto, por atitudes do tipo:
- erradicação da miséria, proporcionando oportunidade de geração de renda e a desocupação das áreas de risco;
- repensar o papel das cidades, as formas de organização da vida urbana e a relação das cidades com as áreas de preservação ambiental;
- mudança do modelo econômico vigente, substituindo a lógica do lucro pela lógica da parceria, a base monetária por uma preocupação mais social e o consumismo pela dinâmica do contentamento;
- cuidado com a geração futura, com ênfase no conhecimento e na formação de valores para o sentido de comunidade e não da competição;
- formação de lideranças participativas, com o combate à corrupção e a rejeição às lideranças autocentradas a partir de princípios de transparência no trato do bem comum.
Pensar em sustentabilidade é imaginar um mundo ecologicamente mais limpo, socialmente mais justo e politicamente mais ético. Embora a Rio+20 possa resultar em poucas soluções práticas, isso desperta a necessidade de uma nova espiritualidade. “Noutros tempos, blasfemar contra Deus era a maior das blasfêmias [...] Agora, o mais espantoso é blasfemar da terra”, disse Nietzsche. Não resta a menor dúvida que acima das decisões dos governos está o chamado divino a uma atitude de respeito à vida como resposta de amor ao Deus da vida.

sábado, 17 de julho de 2010

Religiosidade e consumo / Religiosity and consumption / La religiosidad y el consumo

Um amigo compartilhou comigo o relatório O estado do mundo 2010, do Worldwatch Institute, lançado no Brasil pelo Instituto Akatu em 1º de julho deste ano. O fato que mais me chamou a atenção foi que o consumo cresceu seis vezes mais que a população nos últimos 50 anos. Para dar conta disso, o mundo extrai da natureza o equivalente a 112 Empires States por dia.
Isso significa que a natureza não dará conta desse consumo, uma vez que o uso dos recursos naturais está ultrapassando a capacidade que o planeta tem de provê-los. Achei também curioso que, para a solução do problema, o primeiro artigo apresenta a necessidade de mudança de mentalidade. E isso é muito mais uma questão de espiritualidade do que de qualquer outra área.
Logo no artigo seguinte – o segundo, portanto –, o documento aponta para o envolvimento das religiões nesse processo de mudança de mentalidade. Segundo Gary Gardner, o autor, de cada cinco habitantes do mundo, quatro pessoas professam uma religião e isso pode ser um grande fator de mudança, pois podem se tornar agentes na criação de novas culturas de sustentabilidade. Destaca-se o fato de que universidades de natureza confessionais têm se preocupado em formação que relacionem práticas religiosas e sustentabilidade, inclusive o surgimento de atividades religiosas voltadas para a defesa do meio ambiente, notadamente nas esferas da conservação da água, de preservação de florestas, da energia limpa e do clima.
Entretanto, o mesmo não se pode dizer no que diz respeito aos padrões de consumo. A maneira como as religiões tem tratado a questão do consumismo tem sido paradoxal: Embora elas tenham referencial teórico para abordar a questão, e sua ajuda seja extremamente necessária, o envolvimento religioso no consumismo está basicamente restrito a declarações ocasionais e exporádicas de líderes religiosos.
O que as religiões podem oferecer em termos de formação de uma cultura de sustentabilidade? O documento do Worldwatch Institute sugere algumas diretrizes: educação sobre meio ambiente; educação sobre consumo; educação sobre investimentos; expressão do sagrado na natureza durante as liturgias; resgate de valores tradicionais. “Ironicamente,” diz Gardner, “a maior contribuição que as religiões em todo o mundo poderiam fazer ao desafio da sustentabilidade seria a de levar a sério sua própria sabedoria antiga sobre materialismo.”
Ao analisar a maneira como a Igreja Católica, por exemplo, tem tratado a questão do paradigma contemporâneo de democracia, verifica-se que houve um caminho, desde o Papa Leão XXIII, para a compreensão de que o bem comum é a meta da sociedade. As encíclicas papais e documentos episcopais, bem como o Concílio Vaticano II, afirmam que as economias devem estar voltadas para servir ao bem comum e criticam o capitalismo desenfreado que enfatiza o lucro a todo custo, com ênfase na caridade e na justiça.
Mas tudo isso é pouco, ainda mais quando se verifica o crescente apelo dos movimentos carismáticos e neopentecostais de associar prosperidade espiritual com consumo em excesso. Num mundo que avalia seus gurus pela quantidade de bens que o mesmo possui, a solução ainda se encontra distante do paradigma religioso.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Espiritualidade e cultura de consumo / Spirituality and consumer culture / La espiritualidad y la cultura de consumo

As questões que envolvem cultura de consumo e sustentabilidade têm sido alvo de preocupações das entidades ligadas a meio ambiente e cuidado com o clima. Nas últimas décadas, o mundo tem experimentado mudanças de ordem estrutural que têm provocado, tanto no campo econômico quanto no social, uma transformação significativa, principalmente a partir de 1980.
As sociedades humanas são marcadas por sistemas culturais. O homem é moldado e refreado pela cultura e orienta suas ações de acordo com as normas, símbolos, valores e tradições que acompanham o seu desenvolvimento e sua vida em sociedade. É isso que faz com que a humanidade viva cada momento como sendo de profundas transformações. A sociedade contemporânea tem se caracterizado como uma sociedade consumista e isso tem afetado as relações humanas, o que nos permite falar em novos paradigmas da moral social.
Hoje, esperar que as pessoas que vivem em sociedades de consumo venham restringir o consumo é algo não imaginável e até utópico. Como seria possível viver sem carro, tecnologia, avião, conforto doméstico, ar condicionado, geladeira? E cada vez esses bens de consumo tornam-se mais sofisticados atendendo a uma demanda desenfreada. Esses chamados “luxos” fazem parte da vida das pessoas e estão cada vez mais presentes na cultura de consumo de todo o mundo.
Embora, seja uma característica da sociedade contemporânea, a cultura de consumo é resultado de séculos de desenvolvimento e que hoje é ampliada e difundida nos países emergentes. A preocupação com o quadro em que se encontra o mundo atual evidencia uma falta de cuidado com o conceito de sustentabilidade no comportamento consumista das sociedades, principalmente das ocidentais. Daí a ênfase que tem sido dada na necessidade de uma mudança radical nos padrões culturais de consumo dominantes. Uma nova atitude de rejeitar o consumismo e adotar uma nova consciência voltada para uma cultura de sustentabilidade.
Por consumismo, entende-se como uma orientação cultural que visa à busca de satisfação e de significado através da aquisição de bens e serviços de forma excessiva. A mudança no padrão de consumo atual envolve muito mais do que a adoção de novas tecnologias ou de políticas governamentais. O que se deseja é uma mudança de mentalidade que passa pelo abandono da lógica que fundou a sociedade da indústria de consumo – baseada em um domínio ilimitado do homem sobre a natureza – e que adote a consciência de que somos parte de uma totalidade complexa em que as coisas possuem valor em si mesmas e que dependemos delas para existir – o resgate do ideal franciscano. Uma consciência de sustentabilidade que atraia indivíduos, independente de suas convicções, a se filiarem a um ideal de lutar pela existência e assumam o compromisso de ser a comunidade daqueles que amam a natureza porque amam a Deus que a criou.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Espiritualidade e aquecimento global / Spirituality and global warming / La espiritualidad y el calentamiento global

Os mais recentes relatórios que tratam do problema do aquecimento global apontam para o fato de que, caso não sejam tomadas atitudes radicais em favor da contenção das suas causas, a população mundial sofrerá por causa dos seus efeitos. A maior consequência disso é que, num futuro bem próximo, mais de um terço da humanidade não terá acesso à água por causa da urbanização maciça, a redução dos habitats animais e a concentração de rebanhos para a produção de alimentos. Esse quadro tende ainda a dar lugar a novas pandemias. Além disso, a escalada das mudanças climáticas não só afetará os padrões climáticos, como também influenciará a produção de alimentos e provocará até o desaparecimento de alguns estados. A perspectiva é que um contingente de mais da metade da população enfrentará mais violência e instabilidade social devido ao aumento do desemprego e à escassez de água, alimentos e energia.Quando o assunto é questão climática, não se trata mais de um problema social ou político, mas de definição do futuro e destino da vida humana. A compreensão é de que esse quadro dos efeitos do aquecimento global é resultado de decisões motivadas por atitudes ambiciosas e desonestas que têm afetado todos os campos da ação humana, sobretudo o da economia. É isso que tem levado à compreensão de que as soluções passam pelas relações de interdependência e pela ética. Temas como recessão global e aquecimento global estão inter-relacionados, pois têm uma causa comum. Muitos compreendem que se trata de uma oportunidade para inovar na geração de novas tecnologias ecologicamente corretas e reorientar a economia para colocar o mundo no caminho para um futuro melhor. São decisões de natureza política, que envolvem governos. Porém, o que se deseja é uma mudança de mentalidade que passa pelo abandono da lógica que fundou a sociedade da indústria de consumo – baseado em um domínio ilimitado do homem sobre a natureza – e que adote a consciência de que somos parte de uma totalidade complexa em que as coisas possuem valor em si mesmas e que dependemos delas para existir – o resgate do ideal franciscano. Uma ética da sustentabilidade atrai indivíduos, independente de suas convicções, a se filiarem a um ideal de lutar pela existência e assume o compromisso de ser a comunidade daqueles que amam a natureza porque amam a Deus que a criou.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Espiritualidade e sustentabilidade / Spirituality and Sustainability / Espiritualidad y Sostenibilidad

A relação entre espiritualidade e sustentabilidade já foi apontada pela Carta da Terra: “Estamos diante de um momento crítico na história da Terra, numa época em que a humanidade deve escolher o seu futuro. [...] A escolha é nossa: formar uma aliança global para cuidar da Terra e uns dos outros, ou arriscar a nossa destruição e a da diversidade da vida.” A questão é: de que maneira podemos construir uma relação de fé que possa contribuir para somar forças em prol de uma luta universal pelo respeito à natureza e aos direitos humanos? Até que ponto somos responsáveis por isso?
O desafio que a Carta da Terra lança é constrangedor: “A escolha é nossa: formar uma aliança global para cuidar da Terra e uns dos outros, ou arriscar a nossa destruição e a da diversidade da vida.” Não é uma questão de afirmação, mas de escolha: “[...] decidir viver com um sentido de responsabilidade universal, identificando-nos com toda a comunidade terrestre bem como com nossa comunidade local.” Uma vez que somos parte de uma mesma “aldeia global”, para usar um termo de Marshal McLuhan, diz a carta que “necessitamos com urgência de uma visão de valores básicos para proporcionar um fundamento ético à emergente comunidade mundial”.
De que maneira isso é possível? A própria carta aponta o caminho: “Que o nosso tempo seja lembrado pelo despertar de uma nova reverência face à vida, pelo compromisso firme de alcançar a sustentabilidade, a intensificação da luta pela justiça e pela paz, e a alegre celebração da vida.” É nessa perspectiva que se encontra uma questão ética emergente.
Albert Schwitzer, no começo do século XX já havia comentado: “Até agora, o grande delito de todos os sistemas éticos é crer que só lhes concerne tratar da relação do homem para com o homem.” O caminho da sustentabilidade passa a ser uma necessidade para toda a humanidade nesse momento em que se pergunta sobre o seu futuro. Porém, não se pode negar que o cristianismo é um grande responsável pela mentalidade ecológica dominante que tem tratado da natureza de um modo devastador. Para a solução dos problemas ecológicos, ainda ressoa a crítica feita por Lynn White Jr.: “Pessoalmente duvido que nosso desastroso retrocesso ecológico possa ser evitado simplesmente pela aplicação de mais ciência e tecnologia a nossos problemas. [...] O que fazemos com a ecologia dependerá de nossas ideias sobre a relação homem-natureza.”
Para White Jr., a noção cristã de um Deus transcendente, separado da natureza, que se comunica com ela somente através da revelação, removeu o espírito da natureza, permitindo uma exploração mais fácil da mesma a partir de uma ideologia individualista e consumista. Toda a conquista tecnológica e científica é fruto de uma compreensão engendrada por um cristianismo arrogante que associa pecado a ignorância intelectual e entende o progresso como fruto do domínio ilimitado do homem sobre a natureza. Como justificativa de tal desastre, encontra-se uma perspectiva escatológica equivocada que condena a natureza a um fim catastrófico como resultado do juízo divino. Uma vez que a origem do problema está em uma compreensão religiosa, a solução, segundo White Jr., deve ser também religiosa.
O caminho que se pode vislumbrar está associado ao que se tem afirmado como sustentabilidade. “[Sustentabilidade é] suprir as necessidades da geração presente sem afetar a habilidade das gerações futuras de suprir as suas.” Esse conceito foi usado pela primeira vez em 1987 a partir de um relatório da Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento da ONU, conhecido pelo sugestivo título Nosso futuro comum. A preocupação é com o fato de que vivemos além de nossos recursos, de modo que a ênfase deve estar centralizada na atitude da geração atual tendo em vista a garantia de satisfação de nossas necessidades tanto agora quanto no futuro. Como afirmou o Papa João Paulo II em 1999, em seu discurso pela paz mundial: “Com efeito, a maneira mais segura de salvaguardar a criação consiste em pôr o bem-estar do ser humano no centro da solicitude pelo meio ambiente.”
Uma ética cristã que esteja comprometida com a sustentabilidade tem a ver com o modo como se entende a relação do homem com Deus. A garantia de um futuro feliz passa pela construção de um relacionamento com Deus em que o homem se reconhece como criatura. Tudo o que foi criado por Deus se reveste de um valor intrínseco, de tal modo que o valor que as coisas possuem está diretamente vinculado ao valor que atribuo para mim mesmo. O que as pessoas fazem no campo da ecologia depende do que se compreende a respeito de si mesmo e das relações que se estabelece com tudo à sua volta.

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