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sábado, 23 de agosto de 2025

Exercícios de Ecoespiritualidade: Somos parte da Criação / Eco-spirituality Exercises: We are part of Creation / Ejercicios de eco-espiritualidad: Somos parte de la Creación

“Então os olhos dos que veem não estarão mais fechados, e os ouvidos dos que ouvem escutarão” (Isaías 32.3).

 No ano de 2024, aconteceu na cidade de Cali, Colômbia, a 16ª Conferência das Partes, também conhecida como COP 16. O foco era o de implementar um quadro global de diversidade conforme ficou definido pela Conferência de Biodiversidade das Nações Unidas em 2022 e adotado pela COP 15, composto por 23 metas e 4 objetivos. Porém, a principal lacuna que ainda precisa ser preenchida para proteger a diversidade é a alocação de recursos financeiros.

O tema da conferência foi “Paz com a Natureza” para enfatizar a ideia de que a conservação da biodiversidade requer um compromisso de toda a humanidade. Para isso, seria necessário mobilizar recursos financeiros para procurar reverter a perda da diversidade até o ano de 2030. Porem, não houve um consenso acerca de quanto seria necessário para promover as ações para conter a perda da diversidade biológica, principalmente entre os países mais desenvolvidos.

Entretanto, houve conquistas históricas. A COP 16 definiu acordos para a partilha das informações dos códigos genéticos visando promover o seu uso sustentável e garantir o acesso equitativo aos benefícios da biodiversidade. Outra conquista foi o reconhecimento da importância e a inclusão dos povos originários e das comunidades afrodescendentes no âmbito da Convenção das Nações Unidas sobre Diversidade Biológica. O objetivo foi o de garantir espaço direto de voz e de influência nas tomadas de decisão por possuírem conhecimentos e práticas que contribuem para a concretização dos objetivos do Quadro Global de Diversidade.

Mas é preciso fazer mais. Necessitamos de um diálogo para desenvolver juntos e juntas  formas de moldar o futuro do planeta. Papa Francisco, em sua encíclica Laudato Si, lançou esse desafio para que seja possível construir um novo ambiente de solidariedade universal em que todos os seres vivos, desde os mais vulneráveis, possam viver com dignidade.

Trata-se de uma mudança de mentalidade que atinge também a fé, que precisa abrir mão da crença de que o homem é o centro de tudo para desenvolver ações que envolvam práticas de espiritualidade com o cuidado de toda a Criação. A ecoespiritualidade emerge como um exercício de fé em busca da reconciliação do ser humano com a natureza, compreendendo a sacralidade da vida de todas as criaturas e a responsabilidade de proteger a dignidade da vida. Eco vem de oikos, que é casa em grego. A ecoespiritualidade é o exercício de cuidado com a casa comum em perspectivas ética, política, social, econômica e espiritual.

Necessitamos também de uma voz profética de arrependimento e de compromisso com a justiça e a paz com toda a Criação. Isso envolve uma Teologia da Criação que proponha um caminho de reconciliação uns com os outros e com o Criador a fim de promovermos justiça genuína para todos os seres vivos. Só assim a Criação encontrará paz.

Essa preocupação pode ser encontrada na Escritura, especificamente no livro do profeta Isaías. Ele disse: “Meu povo viverá em paz, tranquilo em seu lar; terá descanso e segurança” (Isaías 32.18 NVT). A promessa de paz e segurança é consequência do compromisso com a justiça. É uma mensagem que nos desafia a nos constituirmos como uma sociedade justa, baseada em princípios de equidade e respeito mútuo, onde todos e todas possam desfrutar a vida com tranquilidade.

O profeta inicia, no capítulo 32, a descrever a perspectiva messiânica do Reino de Deus. Um reino futuro, mas que já começava a despontar naquele tempo em Judá com promessa de justiça e paz para toda a Criação. Um reino de retidão que agirá com justiça, o que é um contraste à tirania, à corrupção e à injustiça dos regimes de poder com os quais Judá já havia convivido.

Um governo assim se transforma em um refúgio para os oprimidos. É como um vento suave em meio ao calor escaldante, como uma corrente de água em terra seca e como a sombra no deserto. Um verdadeiro oásis de esperança em meio ao deserto da incerteza, da exploração e da maldade. A mensagem profética é marcada por uma linguagem poética que destrói falsas narrativas e que aponta para a restauração da dignidade da vida em todos os aspectos.

O resultado da justiça é a transformação do cenário de desolação em que a sociedade vive. As pessoas em geral serão curadas da cegueira e da surdez que as impedem de lutar por direitos e dignidade. O povo terá sabedoria e entendimento para tomar decisões acertadas. Os tolos não terão mais tanta influência e os sem caráter não terão tanto poder, como acontece em nossos dias. Parece que Isaías se dirige a nós em tempo de fake news, pós-verdade, disseminação do ódio, negacionismos e extremismos nas redes sociais.

Nesse tempo messiânico, Isaías vê que o papel das mulheres é fundamental. Elas são tratadas como agentes de transformação com sua capacidade e sabedoria. O chamado é para que se levantem com urgência, porque a terra não mais produzirá os frutos para o sustento de suas famílias por causa da maldade dos homens. Suas vozes de lamento e de protesto devem ecoar por todas as partes, desde as casas até às cidades.

Isaías descreve o cenário da natureza devastada pela ganância e pela exploração da terra, resultado do afastamento de Deus e de seus propósitos para toda a Criação. A consequência se reflete nas relações sociais, na vida das cidades e nas estruturas de poder, que estão deterioradas pelo pecado humano. O afastamento de Deus tem afetado toda a Criação. Aquilo que foi criado para trazer segurança, paz e suprimento para todos estava em ruínas. Terras, biomas, rios e oceanos sofrem com a cultura da arrogância, da acumulação e da ganância.

O projeto da Criação divina foi fundado no senso de justiça e paz, mas a humanidade quebrou essa relação promovendo uma verdadeira guerra através da exploração desordenada dos recursos naturais, do consumo exagerado e do extermínio de espécies. A economia capitalista moderna estabeleceu práticas insustentáveis de exploração dos recursos naturais colocando em risco a vida de todo o planeta.

Nós, que somos coparticipantes da Criação, nos tornamos cúmplices e corresponsáveis pela crise provocada pela devastação. A maneira como consumimos, empreendemos e orientamos a economia voltada para o lucro esbarra com a dificuldade de colocar em prática princípios de sustentabilidade. O resultado é mais poluição, crises sanitárias, fenômenos ambientais cada vez mais devastadores, desmatamento ilegal para dar lugar a monoculturas, exploração de minerais que colocam em risco biomas inteiros e emissão de gases do efeito estufa.

A responsabilidade tanto é coletiva e estrutural, como também é individual. O apego ao luxo, o desperdício, o uso de veículos e equipamentos poluentes, a aplicação de produtos químicos e o descarte de resíduos são algumas dessas coisas que fazemos que contribuem para o quadro atual de desolação.

Quando olhamos ao nosso redor, vemos um cenário de conflitos e destruição. A palavra desolação resume bem o contexto da atual crise ambiental e climática. Em todas as partes do mundo podemos ver que a causa dessa desolação é o próprio ser humano que insiste em provocar danos à natureza. Ao mesmo tempo, os próprios seres humanos são também vítimas dessa desolação.

O mundo está em crise e a resposta passa por uma mudança de mentalidade. A mensagem profética de Isaías lança as bases dessa mudança necessária e urgente, que fala de justiça, paz e reconciliação com a Criação. Como apelou o Papa Francisco em sua encíclica Laudato Si: “Qual é o objetivo do nosso trabalho? Que necessidade tem a terra de nós? Deixar um planeta habitável às gerações futuras depende de nós” (2015, § 160).

A Teologia se vê impelida a mover-se pelo Espírito Santo, o sopro da vida, que é derramado sobre nós nesse momento, trazendo esperança de renovação para a terra e de restauração da harmonia da Criação. Nesse tempo, somos chamados como cristãos e cristãs a nos unir com alegria, justiça e paz a toda a Criação para vivermos o que fomos criados para ser: cooperadores uns dos outros, como embaixadores da justiça, da paz e da reconciliação.

sexta-feira, 6 de setembro de 2024

Exercícios para uma teologia da criação / Exercises for a theology of creation / Ejercicios para una teología de la creación

As imagens que têm ocupado os noticiários nesses últimos anos são evidências de que alguma coisa não vai bem com a natureza. A criação dá sinais evidentes de que não está bem. A criação está enferma e a causa somos nós, seres humanos. Fiz uma breve lista de calamidades desconexas: incêndios nos biomas mais úmidos do planeta; excesso de calor nas regiões em que predomina o clima frio; anúncio de que o Oceano Pacífico já apresenta marcas de elevação que comprometem a existência de alguns territórios ocupados por pessoas.

A criação sofre por causa de nossas ações egoístas, consumistas e despreocupadas com a sustentabilidade. Estamos literalmente devorando o nosso planeta. Chegamos ao ponto de não retorno, em que a natureza não consegue mais repor aquilo que dela tiramos para dar conta de nossa necessidade de consumo.

A teologia como forma de saber orientada para a reflexão e para a construção de esperanças não pode ficar de fora do diálogo necessário para se encontrar saídas para o cuidado da vida no planeta. Esse é o tempo em que se faz necessário emergir uma teologia da criação que ouse apontar para toda a humanidade os caminhos para uma ação consciente como cooperadores de Deus no cuidado com a natureza.

Elementos para uma teologia da criação para esse tempo:

a) Uma teologia da criação que dê ênfase à natureza como dádiva divina, e não como recurso a ser explorado.

b) Uma teologia da criação que nos leve a sofrer, a prantear e a lutar por causa de nossas próprias ações que destroem a natureza.

c) Uma teologia da criação que nos aponte a esperança de um futuro melhor.

d) Uma teologia da criação que nos motive a celebrar ao Deus criador com nossas ações como primícias da esperança.

e) Uma teologia que nos mobilize a trabalhar juntos e unidos à Criação pela construção de um novo tempo e de uma nova mentalidade.

f) Uma teologia da criação que entenda a origem da natureza em diálogo com a ciência como um mistério a ser desvendado.

g) Uma teologia da criação que aponte novos horizontes para a vida no planeta na perspectiva da consumação do Reino de Deus.

Os subsídios para a reflexão teológica a respeito do cuidado humano com a criação emergem das Escrituras. Em Romanos 8.19-25, Paulo apresenta um brevíssimo tratado de teologia da criação em que estão apontados os caminhos para uma reflexão mais profunda e transformadora.

Paulo apresentou nessa passagem da carta ao Romanos um retrato da natureza como alguém que geme com dores de parto. Diante desse estado de “ardente expectativa”, Paulo declara que a esperança de libertação para toda a criação é a atitude daqueles e daquelas que acolhem o convite amoroso de Deus para se tornarem seus filhos.

A redenção de toda a criação só pode vir da mudança de atitude de pessoas que restauram em sua própria vida a condição primeira de cuidadores da criação. Fomos criados para viver em harmonia com a natureza. Homens e natureza formam a totalidade da criação, que existem para se cuidarem mutuamente. É uma pretensão acharmos que podemos salvar o planeta, mas é sinal de esperança crermos que podemos experimentar em nós uma conversão ecológica a fim de restaurarmos nossa relação cósmica como pertencentes à grande família da criação.

Espera-se que filhos de Deus sejam capazes de mudar. Mudar a sua mentalidade de consumo, a maneira como descartam seus resíduos, a forma com que colocam em prática a estratégia de reusar, reciclar e reutilizar, o jeito de compartilhar seus bens e recursos, de ser solidários, de superar o individualismo e o egoísmo.

Esse é o papel dessa geração de filhos de Deus, a nossa geração. Temos um legado para deixar para as gerações futuras a respeito do que fizemos com a natureza, com o mundo que deixamos para nossos netos. É um compromisso que envolve responsabilidade ética mas também o exercício da fé no Deus que criou todas as coisas.

segunda-feira, 6 de maio de 2024

Inundações no Rio Grande do Sul acendem o sinal vermelho da crise ambiental / Floods in southern Brazil turn on the red flag of the environmental crisis / Inundaciones en el sur de Brasil encienden la bandera roja de la crisis ambiental

 

As chuvas que caíram sobre o Estado do Rio Grande do Sul, na região Sul do Brasil, na última semana provocaram uma catástrofe ambiental sem precedentes. Dos 497 municípios, 336 se encontram em estado de calamidade. O Estado inteiro registrou inundações, sendo que em grande parte foram confirmadas inundações severas.

A explicação científica desse fenômeno climático remete à crise ambiental que afeta a vida no planeta com impactos expressivos sobre o clima e, consequentemente, ao meio ambiente. já há algumas décadas, estudiosos vêm alertando sobre os riscos e as consequências da exploração da natureza, medindo aquilo que poderia ser considerado como ponto de não retorno. Ou seja, o limite em que a vida no planeta encontra-se em situação de colapso.

O sinal vermelho acendeu para toda a humanidade. É preciso parar para socorrer as vítimas e reparar os danos. A mentalidade consumista, acumuladora e gananciosa não comporta mais diante do que se viu – e ainda se vê. O Rio Grande do Sul é um Estado forte, de economia pujante, responsável por grande parte da produção nacional de grãos, carnes e vinhos, possui uma indústria sólida e uma atividade cultural dinâmica. Sua história é marcada por lutas para a afirmação de um povo que se orgulha de suas origens.

Essa tragédia tem culpados, e é preciso aponta-los: são todos aqueles que negaram os muitos alertas da ciência e que não tomaram as providências devidas tendo em suas mãos o poder de fazê-lo. Antes de dar nomes ao bois, é preciso socorrer as vítimas e atuar de forma justa para aliviar o sofrimento das famílias e ajuda-los a reconstruir o que perderam.

Além de acender o sinal vermelho para a crise ambiental, essa tragédia é também a prova inequívoca de que é preciso praticar a Justiça Climática e Ambiental. O objetivo deve ser não só amparar os que foram atingidos pelos temporais, mas também reverter o cenário de crise que ameaça a vida. Trata-se de se levantar um conjunto de ações que envolvam tanto os governos como também o setor produtivo e a sociedade civil em geral para parar de vez os desmatamentos e as agressões aos biomas que ainda restam.

Quando falamos em Justiça climática, nos referimos ao o modo como os movimentos sociais têm abordado os problemas decorrentes das mudanças climáticas vividas nos últimos tempos. Eles vão além do aquecimento global. A alteração do clima na natureza não afeta só o meio ambiente, mas todas as relações sociais, econômicas e políticas da humanidade.

Para tratar da Justiça climática, é preciso levar em conta princípios de Justiça Social, ética e responsabilidade histórica pelas causas e feitos das mudanças climáticas. O apelo da Justiça climática é para que haja igualdade de direito para com os grupos que são desproporcionalmente afetados, geralmente que se encontram entre as camadas mais pobres da sociedade e pessoas vulneráveis, como mulheres, negros, idosos e crianças.

As mudanças climáticas são, de fato, uma realidade global, mas suas consequências afetam as populações de forma desigual. As pessoas mais afetadas pelas mudanças climáticas são aquelas que menos participam das causas do aquecimento global.

E quando falamos de Justiça ambiental, no referimos à desigualdade da distribuição dos riscos ambientais. A ideia é reunir esforços coletivos para que nenhum grupo social tenha que sofrer consequências da degradação ambiental mais do que o outro.

Ao longo do tempo, as grandes potências mundiais destinaram suas indústrias mais poluentes para países em desenvolvimento enquanto a administração se localizava nas sedes das grandes cidades dos países mais desenvolvidos. O que a Justiça ambiental deseja é que haja tratamento justo para que todos e todas tenham acesso a uma vida mais saudável.

Quando escrevo esse texto, novas chuvas são previstas para esta semana, mas ainda tem gente ilhada, muitas ainda sobre os telhados de suas casas, esperando serem resgatadas. A cidade de Porto Alegre, capital do Estado, continua inundada, numa cena jamais imaginada. Para nós que estamos longe, só resta apelar pelo socorro divino.

Foto: Renan Matos/Reuters, publicado pelo Uol.

sábado, 9 de setembro de 2023

Justiça Ambiental: desigualdade, desproporcionalidade e responsabilidade dos riscos / Environmental Justice: inequality, disproportionality and responsibility for risks / Justicia Ambiental: desigualdad, desproporcionalidad y responsabilidad por los riesgos

Nos dias atuais, assistimos a biodiversidade ser perdida em velocidade nunca vista antes. O futuro de nossas crianças e jovens está ameaçado pelas consequências das mudanças climáticas. É urgente que haja uma mudança de mentalidade a fim de que haja tratamento justo na distribuição de oportunidades entre todas as criaturas. A Justiça nos chama a uma conversão de natureza ecológica. À medida que nos juntarmos a esse rio poderoso de Justiça e Paz criamos esperança de um mundo melhor para todos e todas.

Para reverter o atual cenário da crise ambiental, as ações individuais não são suficientes, embora imprescindíveis. Precisamos de um poderoso movimento de Justiça, aliada à Paz, a fim de cobrar as ações de governos e do setor produtivo por mudanças. Esses são os principais responsáveis pela emissão dos gases poluentes e de resíduos que são lançados na natureza, bem como pelas políticas públicas que envolvem a preservação do meio ambiente.

A Justiça ambiental, que também é social, climática, hídrica e alimentar, envolve o pagamento de dívidas históricas. As conferências do clima promovidas pela ONU já reconheceram que, em nível global, as nações com mais poder e controle da riqueza têm o dever de lidar de forma justa e honesta em favor das comunidades que mais sofrem com os fenômenos ambientais e climáticos.

Preservar a biodiversidade, manter a expectativa de aumento do clima do planeta abaixo de 1,5° C de aquecimento global, promover responsabilização dos danos ecológicos, garantir acesso a direitos às comunidades mais afetadas pelos fenômenos climáticos e ambientais, buscar soluções justas e urgentes para acesso à água e à alimentação para todos e todas. Essas são ações que reacendem a esperança de um mundo melhor para todos e todas, para que um rio poderoso de justiça e paz inunde a vida no planeta.

O profeta Isaías anunciou no passado que Deus estava realizando uma grande obra de Justiça para toda a humanidade: “Pois estou prestes a realizar algo novo. Vejam, já comecei! Não percebem? Abrirei um caminho no meio do deserto, farei rios na terra seca” (Isaías 43.19). Sua misericórdia, bondade e amor, que são os Seus modos fazer Justiça, iriam fluir em abundância até nos desertos. Nos lugares onde há desigualdade e onde os riscos recaem mais sobre os oprimidos e carentes, ali vai jorrar o manancial de Justiça e de Paz que vêm do Senhor.

Somos convidados a nos juntarmos a esse rio de justiça e de paz em favor da criação e fazer convergir todos os nossos esforços em favor de uma nova mentalidade em que todos e todas tenham direito à Justiça ambiental, à Justiça climática, à Justiça hídrica e à Justiça alimentar. Como os afluentes se unem para formar um caudaloso rio, assim devemos agir juntos para que a Justiça e a paz fluam de forma poderosa.

quinta-feira, 20 de outubro de 2022

Novo E-book: Bem Viver, Decolonialidade e Cuidado com a Criação / New E-book: Good Living, Decoloniality and Care for Creation / Nuevo E-book: Buen Vivir, Decolonialidad y Cuidado de la Creación /

A vida está em risco. Porém, a saída não será encontrada se a matriz filosófico-teológica não for encarada com a devida seriedade. A solução para a crise ambiental é acima de tudo moral, pois diz respeito às nossas relações com o meio ambiente. Sendo assim, precisamos ter uma resposta a respeito do que estamos fazendo com a vida que temos. Do ponto de vista cristão, é preciso resgatar o sentido original da criação, em que a vida é dádiva que precisa ser cuidada e preservada. Nesse sentido, precisamos de uma teologia da criação que diga que toda forma de vida importa. A vida é o espaço sagrado onde Deus habita. Toda forma de vida importa para Deus porque ele está nelas.

É nesse contexto de compreensão que emerge o campo epistemológico do Bem Viver, do pensamento decolonial e do cuidado com a Criação.

Este livro é resultado de um trabalho de investigação sobre religião e Teologia na América Latina desenvolvido ao longo dos anos últimos anos.

São considerados três eixos de compreensão a respeito da proposta de leitura e diálogo teológico a partir da vivência e o contexto da América Latina: o do Bem Viver, o da decolonialidade e o do cuidado da vida.

Ao final, são apresentadas propostas de abordagens teológicas a partir das epistemologias do Bem Viver, da decolonialidade e do cuidado com a vida. A primeira delas, relacionada com os discursos de Jesus numa perspectiva do Bem Viver e do pensamento decolonial. A segunda, sobre a proposta de uma teologia da criação a partir da ética do Cuidado com a Criação.

Bem Viver, Decolonialidade e Cuidado com a Vida: Teologia Pública em diálogo a partir da América Latina
Investimento: R$ 9,99 (aproximadamente US$1,90, dependendo da cotação)
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quarta-feira, 21 de setembro de 2022

O grito da Criação: é tempo de escutar a voz da natureza, do planeta, dos pobres e dos excluídos / The cry of Creation: it is time to listen to the voice of nature, the planet, the poor and the excluded / El grito de la Creación: es tiempo de escuchar la voz de la naturaleza, del planeta, de los pobres y excluídos

O salmista declara que há uma voz que vem sendo silenciada que emerge do meio da Criação: “Sem discurso nem palavras, não se ouve a sua voz” (Salmos 19.3). É uma voz sufocada que vem de todas as criaturas que apontam para o Criador. Essa voz que vem da Criação é a voz do próprio Criador que clama pelo cuidado com os que sofrem com o avanço da degradação da vida no planeta e do aumento da desigualdade social.

É preciso que todas e todos se unam para fazer ressoar essa voz “por toda a terra, e as suas palavras, até os confins do mundo” (Salmos 19.4). A Criação é a primeira e mais eloquente forma de Deus se revelar. Quando ouvimos essa voz que vem da Criação, compreendemos quem somos, onde estamos e qual é o nosso compromisso como cooperadores de Deus.

É urgente unir as vozes de cristãs e de cristãos de todo o mundo em um clamor pela proteção de nossa casa comum, em defesa dos pobres e dos que são excluídos. A oração em favor de toda a criação Corresponde a um despertar em defesa da vida como proclamadores das Boas Novas para toda a Terra.

De todas as partes, de todos os povos, de todas as nações e em todas as línguas, é possível ouvir o grito de cada pessoa, de cada comunidade, de cada bioma, de cada espécie que tem sido silenciado pela exploração provocada pela ganância e pelo consumo desenfreado. São vidas que estão ameaçadas pela perda das condições mínimas de sobrevivência por causa das mudanças climáticas.

Escutar a voz da Criação exige um tipo de escuta que envolve nossa sensibilidade em ouvir os modos em que Deus fala conosco. Santo Agostinho escreveu que a Criação “é a página divina que você deve escutar; é o livro do universo que você deve observar. As páginas da Escritura só podem ser lidas por aqueles que sabem ler e escrever, enquanto todos, mesmo os analfabetos, podem ler o livro do universo” (apud Tempo da Criação: Guia de celebração 2022, p. 7). Martinho Lutero também pregou que o Evangelho não foi apenas escrito em livros “mas também em árvores e outras criaturas” (idem).

Através desse exercício de escuta, é possível desenvolver uma nova espiritualidade que implica a percepção da verdade, a virtude da bondade e as expressões de beleza presentes na vida do outro, das relações comunitárias e da natureza. Somos também conduzidos a experiência de tomada de consciência de quem Deus é e como ele vem a nós, como Trindade santa, na qual todas as coisas existem e se movem. Como afirmou o teólogo alemão Jürgen Moltmann: “Deus cria, reconcilia e redime sua criação por meio do Filho. Na força de Espírito, Deus está presente na sua criação, na reconciliação e na redenção da criação” (Dios en la creación, p. 29).

A Bíblia nos diz que toda a natureza geme. “Sabemos que toda a natureza criada geme até agora [...]” (Romanos 8.22). É possível ouvir nos dias atuais o clamor que nos interpela a refletir a respeito dos modos como conduzimos nossa própria vida. Algo precisa ser feito para mudar o rumo de nossa história, que aponta para um fim trágico. Cuidamos da natureza e uns dos outros porque amamos ao Deus da Criação.

quinta-feira, 9 de setembro de 2021

Uma casa para todos / A home for all / Un hogar para todos

Os povos originários do Brasil dão à casa um sentido mais abrangente do que estamos acostumados. A oca, como a casa é chamada na língua tupi-guarani, é uma construção em grande dimensão, podendo chegar a 40m de comprimento, feita de forma comunitária usando troncos e taquaras amarradas com cipós e cobertas com palhas retiradas da natureza no entorno. Nela não há divisão interna e ela serve como habitação para todas as famílias da aldeia.

Essa experiência dos povos originários, que se apresenta em diferentes modalidades, ressalta a importância da casa como lugar de acolhimento. Parte do dia, os moradores realizam suas atividades fora da oca, recolhendo-se no interior da mesma para o descanso, a alimentação e o cuidado uns com os outros. No interior das casas, cada família convive com as demais de forma harmoniosa e colaborativa. Esse sentido da casa comum serve como inspiração para repensarmos a maneira como vivemos no planeta.

O papa Francisco tem feito constantes apelos ao cuidado do planeta como nossa a casa comum. Já na encíclica Laudato Si, ele lançou o desafio de unir toda a família humana na busca de um desenvolvimento sustentável e integral para o bem da vida no planeta. “A humanidade possui ainda a capacidade de colaborar na construção da nossa casa comum” (FRANCISCO. 2015, § 13). Deixar de cuidar dela é um pecado grave que põe em risco toda forma de vida. Portanto, é preciso cuidar-se, cuidar uns dos outros e deixar-se ser cuidado.

De que forma podemos cometer um pecado grave em relação à nossa casa comum? Tornando-se indiferente aos mais vulneráveis, explorando a natureza indiscriminadamente e desenvolvendo uma mentalidade gananciosa e acumuladora. Precisamos aprender de forma solidária, participativa e preocupada com a sustentabilidade. A isso poderíamos chamar de a grande revolução do cuidado.

Há um ditado popular espanhol que diz: “Deus perdoa sempre; nós perdoamos às vezes; a natureza não perdoa nunca”. Estamos vivendo um momento único na história da humanidade em que temos a chance de lutar para reverter o avanço da crise ambiental, agindo pelo cuidado da casa comum. É urgente que cada um assuma a responsabilidade de tomar a iniciativa para fazer algo em favor da criação e da preservação de todas as formas de vida existentes no planeta. O nosso grande alvo deve ser o de, juntos, desenvolvermos as condições  para um planeta sustentável e acolhedor para todas as criaturas.

quinta-feira, 22 de abril de 2021

Salvar o planeta é salvar a humanidade / Saving the planet is saving humanity / Salvar el planeta es salvar a la humanidade

É uma pretensão e uma arrogância dizer que a humanidade salvará o planeta. É preciso muita coragem, sabedoria e humildade para admitir que a humanidade é responsável até aqui pela ameaça de sua própria extinção. E a única forma de frear esse desastre é preservar o que ainda resta de equilíbrio ecológico.

A crise ambiental que tem ameaçado o planeta é provocada pela própria atitude humana. Se queremos cuidar (ou salvar) o planeta, temos que reconhecer suas causas, quais são as atitudes humanas que desencadearam esse processo de degradação que parece irreversível. Neste Dia da Terra, quando líderes do mundo inteiro são convocados pelo Presidente dos Estados Unidos da América Joe Biden para a formação de uma cúpula para refletir sobre o que fazer, precisamos nos conscientizar de que esse assunto deve afetar a todos.

Essa crise tem três matrizes causadoras, que vêm sendo engendradas ao longo da história da civilização ocidental. Portanto, ela não é de hoje. Já faz algum tempo que a vida vem sofrendo com o esgotamento da natureza. A humanidade também tem produzido tentativas para a superação dessa crise, embora insuficientes. Entretanto, é preciso uma tomada de consciência de que somente uma conversão radical quanto à maneira como a humanidade tem orientado sua conduta pode apontar uma saída e isso se faz mais do que urgente.

A crise não se limita ao campo da biologia, mas à maneira como a vida como um todo vem sendo tratada, sobretudo a partir da racionalidade moderna. Essas três matrizes causadoras são identificadas pelos seus vieses tecnológico-científico, político-econômico e teológico-filosófico em que um está intimamente relacionado com o outro.

As conquistas tecnológicas e científicas, conquanto tenham proporcionado um avanço na conquista do bem-estar e na solução de problemas que afetam as condições humanas de vida, têm custado a depredação da natureza. A mentalidade científica ocidental foi construída a partir da ilusão de que, através das ciências naturais, o homem é capaz de exercer domínio e controle sobre a natureza.

As relações de poder produziram a concepção dos estados modernos industrializados. Com isso, a fonte de riqueza passou a ser a transformação de recursos naturais em bens de consumo, cujo auge se deu com a chamada revolução industrial. A economia e a politica deixaram de ser atividades de cuidado com a casa e a cidade para serem estratégias de controle e de interdição na vida dos indivíduos, a partir da necessidade de consumo. Para que esse intento fosse consolidado, dependeu-se cada vez mais do uso da mão de obra servil a disposição daqueles que detém o direito de propriedade, sob a proteção de estados que promovem leis que favoreceram (e ainda favorecem) a concentração de riqueza.

Tudo isso se deu a partir de uma cultura marcada pelo cristianismo. Tanto a concepção cristã da criação quanto a ideia de que o ser humano é dotado de autorização divina para explorá-la forneceram o fundamento ideológico para o uso desordenado dos recursos naturais sem a preocupação com sua recuperação. Essa ambição humana foi reforçada por uma interpretação equivocada das Escrituras e instrumentalizada de tal modo para validar a ideia de que a exploração da Terra é um mandamento divino. Um desses equívocos é a tradução e a interpretação da expressão: “[...] subjuguem a terra” (Gênesis 1:28).

As ciências naturais formulam tecnologias que afetam diretamente as condições de vida no planeta. As políticas econômicas se baseiam na exploração dos recursos naturais, sobretudo as fontes de energia que dependem da extração. A necessidade de atender às demandas de consumo dos países em desenvolvimento se depara com a forte desigualdade de oportunidades em comparação com países desenvolvidos. Na medida em que todos querem ter acesso aos bens de consumo, se percebe que a natureza não dispõe de recursos para dar conta da quantidade que lhe é exigida.

A vida está em risco. Porém, a saída não será encontrada se a matriz filosófico-teológica não for encarada com a devida seriedade. A solução para a crise ambiental é acima de tudo moral, pois diz respeito às nossas relações com o meio ambiente. Sendo assim, precisamos ter uma resposta a respeito do que estamos fazendo com a vida que temos. Do ponto de vista cristão, é preciso resgatar o sentido original da criação, em que a vida é dádiva que precisa ser cuidada e preservada. Nesse sentido, precisamos de uma teologia da criação que diga que toda forma de vida importa. A vida é o espaço sagrado onde Deus habita. Toda forma de vida importa para Deus porque ele está nelas.

sábado, 12 de setembro de 2020

Motivações para despertar a nossa paixão pelo cuidado da criação / Motivations to awaken our passion for the care of creation / Motivaciones para despertar nuestra pasión por el cuidado de la creación

A vida cristã nesses tempos de grandes transformações requer dos cristãos uma conversão radical. É preciso desenvolver uma consciência nova, uma mudança de entendimento, uma nova orientação a respeito de nosso modo de viver, de conviver, de crer e de organizar a vida em sociedade. Essa é a perspectiva da metamorphousthe e anakainwsei (palavras gregas empregadas por Paulo em Romanos 12.2 para se referir à transformação e renovação da mente) conforme proposta pelo Evangelho: uma mudança integral a partir do encontro com Jesus.

A vida de Francisco, o santo dos pobres, é um convite a pensar em como viver de forma intensa, nos dias atuais, as consequências do encontro com Jesus. Num tempo em que o testemunho de maus cristãos fala mais alto e sobressai nas mídias como exemplo do que há de pior no mundo, ser alguém que encarna a mensagem de amor, de perdão, de comunhão, de fé, de confiança, de esperança, de alegria e de discernimento que emana do evangelho é algo desafiador e tremendamente necessário.

Francisco de Assis nasceu em 1181 e viveu até o ano de 1226. Atuou como mercador, serviu como um soldado e viveu sua juventude como um burguês até o encontro com Jesus. Sua conversão desencadeou um processo lento de mudanças que o transformaram em alguém que se fez pobre junto aos pobres. Francisco encarnou a mensagem do amor ensinada por Jesus que conduz a ações concretas de cuidado com o próximo, de perdão, de acolhimento e de escuta do outro.

Francisco foi um pacifista, numa época em que a igreja promovia a solução de conflitos com uso de armas e violência. Ele foi também alguém que renunciou a riqueza, num tempo em que a igreja mantinha os privilégios dos mais abastados. Ele creu num Cristo mais humano, pobre e humilde, enquanto a cristandade enfatizava o glorioso, “pantocrator”, triunfalista, assentado num trono distante. Ele também optou por uma vida de comunhão plena com a criação em geral num tempo de total indiferença e falta de respeito com a natureza. Chamava a todos e todas de seus irmãos e irmãs.

Em seu Testamento, Francisco se apresentou como o irmão menor ou o “menor de vossos servos”, numa atitude de respeito e unidade com o corpo de Cristo. No encontro que teve com o comandante do exército islâmico, sultão Malik al Kamil, foi reconhecido como um promotor e mensageiro da paz. O sultão teria dito: “se os cristãos fossem como você, não haveria guerra entre nós”. Já em sua oração, deixou uma proposta de vida de serviço e dedicação ao outro, para a promoção da paz e da comunhão. E no “Cântico das Criaturas”, ele louvou ao Senhor por toda a criação, chamando a cada elemento – como o Sol, a Lua, o vento e até a morte – de irmão e irmã.

O princípio de Francisco para viver intensamente as consequências do seu encontro com Jesus está na proposta de observar o Evangelho como regra de vida (conforme o capítulo I da Regula Bullata). Sua vida inspirou a muitos relatos sobre sua santidade, motivou muitos jovens a abraçarem a obra da sua Ordem dos Frades Menores e promoveu uma renovação da fé cristã no mundo. Por essa razão, foi chamado por Dante Alighieri, na Divina Comédia, como “a luz que inspirou o mundo”.

A conversão radical que se requer dos cristãos passa pelos caminhos da construção de uma espiritualidade que seja mais humana e solidária, que atenda ao chamado divino de encarnar no mundo o amor uns pelos outros, de colocar a vida inteira a serviço do cuidado da criação e a exerce com criatividade nossos dons e talentos de forma relevante para o mundo. Ocupar o nosso tempo e o nosso pensamento nisso é um esforço urgente e necessário.

quinta-feira, 24 de outubro de 2019

Bem Viver e Decolonialidade: uma abordagem a partir dos discursos de Jesus / Living Well and Decoloniality: An Approach from Jesus' Discourses / Buen Vivir y decolonialidad: una aproximación desde los discursos de Jesús


A cultura ocidental vivencia uma crise profunda que coloca em questão os valores relativos à vida e ao próprio modelo civilizatório que vem sendo adotado, sobretudo a partir da Modernidade. A humanidade chegou a um ponto em que a desigualdade social, a ascensão de formas autoritárias de poder e o aquecimento global colocam em xeque o padrão desenvolvimentista e consumista que vem sendo praticado pelas sociedades atualmente.
É nesse sentido que emerge uma cosmovisão que se baseia na mentalidade dos povos originários no contexto latino-americano, voltada para um novo paradigma que pode nos ajudar a superar os problemas que temos enfrentado. Trata-se do Bem Viver como princípio organizador das relações com a natureza, abrangendo aspectos sociais, econômicos, políticos e espirituais.
O Bem Viver tem a ver com a experiência das comunidades e povos indígenas na América Latina, com um conjunto de elementos que podem nos inspirar a repensar valores e práticas da cultura contemporânea. O trabalho de resgate dessa forma de pensar tem mobilizado antropólogos, cientistas sociais e políticos bem como teólogos para apontar para a humanidade uma nova utopia no sentido de se construir uma sociedade mais solidária e sustentável.
O Bem Viver vivenciado pelas culturas indígenas difere dos ensinamentos éticos do Ocidente, como a busca pela vida boa, do bem-estar e da felicidade. Ele se opõe à exploração e à dominação. Por isso, deve ser reinterpretado para se tornar um projeto de vida concreto, capaz de revolucionar nossas maneiras de pensar, nossas formas de interagir com a natureza e nossas relações humanas.
Assim como não podemos falar de uma única experiência cultural dos povos originários da América Latina, também não é possível compreender o Bem Viver a partir de um único viés. Precisamos falar de varias formas de Bem Viver, que podem ser percebidas através das várias linguagens desses mesmos povos. Sendo assim, podemos falar de um tratamento da vida em sua plenitude, de um modo de conviver com a natureza e as pessoas, de contentamento e até de um jeito de se relacionar que leva em consideração a temporalidade, a alteridade e a relação com a natureza.
De um modo geral, o Bem Viver procura superar a dicotomia homem-natureza trazida pelos colonizadores europeus. De acordo com essa mentalidade, a América Latina deveria servir como fornecedora de recursos naturais e de mão de obra para dar conta do padrão de vida das nações que se consideravam desenvolvidas. Entretanto, esse modelo tem se mostrado insuficiente e superado, sobretudo a partir da década de 1980, que coincide com o neoliberalismo que se levantou na economia, ao mesmo tempo em que a natureza começou a dar sinais de esgotamento de seus recursos renováveis.
O Bem Viver, então, se apresenta como um pensamento em construção, que procura resgatar os saberes dos povos originários, sobretudo das comunidades andinas, acompanhado por uma reflexão acadêmica a respeito dos movimentos sociais e da necessidade de implementação de políticas públicas voltadas para a superação dos graves problemas decorrentes da economia exploratória e de mercado. Uma das marcas desse processo de construção foi a inserção do Bem Viver nas leis fundamentais do Equador e da Bolívia, assim como o surgimento de várias experiências de aplicação das práticas em comunidades em várias partes do continente.
O Bem Viver, portanto, é um conceito plural que precisa ser analisado a partir da interação com outros saberes voltados para o cuidado com a natureza, à crítica ao modelo socioeconômico que orienta o consumo e a uma reelaboração do modo de pensar a vida e o bem-estar nos dias atuais. O Bem Viver é, por assim dizer, uma forma decolonial de pensar, ou seja, se se desvencilhar da influência da mentalidade colonizadora e construir respostas a partir de sua própria experiência cultural. É uma forma de pensar em aberto, o que torna possível inclusive dialogar com outros saberes tradicionais e buscar respostas que emanam da experiência de povos marginalizados e explorados em outras partes do mundo. Segundo a particularidade de cada povo, emergem conceitos que se complementam e apontam caminhos para o diálogo.
Uma das possibilidades de diálogo é com a Teologia. Os povos originários da América Latina foram influenciados por uma visão cristã dualista, que opõe corpo e alma, céu e inferno, mundo e espiritualidade. A aproximação da teologia com a ideia do Bem Viver passa pelo resgate da relação entre o homem e a natureza como uma unidade integradora, na medida em que ambos estão interligados e são coexistentes.
Para dialogar com as formas do Bem Viver, uma das possibilidades é fazer uma releitura dos discursos de Jesus a respeito do sentido da vida e dos valores imprescindíveis para uma vida digna no mundo. Jesus não se preocupou apenas com uma vida no porvir, mas com a vivência de forma plena já aqui nesse tempo presente. Ele ensinou princípios de vida, deixou mandamentos, fez advertências e recomendou práticas para que as pessoas pudessem viver bem umas com as outras e também experimentassem uma vida de realizações no mundo.
A aproximação dos ensinos de Jesus com o Bem Viver nos ajuda a perceber que a mensagem do evangelho é para toda criatura, que se atualiza e se insere no contexto das culturas para promover o resgate do que há de mais humano.

domingo, 1 de setembro de 2019

A teia da vida: a biodiversidade como bênção divina / The web of life: biodiversity as a divine blessing / La red de la vida: la biodiversidad como una bendición divina


Todos nós fazemos parte de uma teia de vida, maravilhosamente complexa e única, que foi criada pelas mãos de Deus. Essa é a ideia que tem mobilizado cristãos para interceder por um mundo mais sustentável e justo, onde todos possam viver de modo digno e ainda venhamos garantir às gerações futuras as mesmas condições de existência que hoje temos.
Vivemos hoje uma realidade desconcertante: a crise ambiental que coloca em risco a vida no planeta e que tem como causa principal a ação do próprio homem. Essa crise tem cinco sintomas: (1) a biodiversidade vem sendo reduzida; (2) os ecossistemas vêm sendo destruídos; (3) os recursos naturais renováveis estão sendo esgotados; (4) a poluição tem aumentado; e (5) há um maior risco de desastres ambientais provocados pela ação do homem. Essa crise é resultado de uma desarticulação entre os processos cíclicos da vida na natureza e as técnicas de extração, transformação e emprego dos recursos que ela oferece. E a causa é clara: é preciso dar conta da demanda de consumo de uma sociedade cada vez mais exigente em termos de bem-estar, segurança e padrões de beleza e saúde.
Dentre as consequências da crise que vêm sendo apontadas por vários estudiosos da questão ambiental, duas são alarmantes. A primeira é que o planeta não dispõe de recursos naturais suficientes para atender à necessidade de todas as pessoas, conforme o hábito de consumo que a sociedade industrial e do capital desenvolveu. Se as pessoas mais pobres consumirem o mesmo que os mais ricos, serão necessários pelo menos mais dois planetas como o nosso. O segundo é que a vida humana na Terra está em risco de extinção, por conta do aquecimento global, que já se pode ser sentido com os vários efeitos de desequilíbrio nas geleiras e camadas polares, nos cumes das cordilheiras, nos grandes biomas como a Amazônia, o Cerrado, a Caatinga e Mata Atlântica, entre outros no nosso país e também no mundo.
Diante desse quadro de crise, surge a necessidade de se pensar a vida a partir de paradigmas distintos daqueles que levaram a humanidade ao caos ecológico que nos deparamos. O teólogo brasileiro Leonardo Boff, em seu livro Ecologia: grito da terra, grito dos pobres, entende que é preciso compreender a Terra como um organismo dinâmico e complexo, que possui identidade e harmonia. Para isso, surge a necessidade de se formar um novo paradigma, que supere a lógica da razão instrumental, e se valorize mais uma razão simbólica e cordial, que envolve todos os nossos sentidos e sentimentos, que aponta para uma atitude de encantamento e que desperte a gratidão por ser parte de uma totalidade de vida.
Esse cuidado com a vida remete a um conjunto integrado de ações, que deve envolver uma dimensão científica que seja capaz de compreender o impacto da ação humana sobre o meio ambiente, uma dimensão política que estabeleça políticas públicas e princípios de governança vinculados a compromissos globais, uma dimensão ética que seja capaz de questionar nossas ações humanas diante das condições de vida no planeta e o enfrentamento responsável dessa crise, e uma dimensão de espiritualidade que aponte para a fé e a esperança de que seremos capazes de juntar esforços para cuidarmos de nossa casa comum e de superarmos os grandes obstáculos que estão no meio do caminho.
Em meio a uma diversidade de formas de vida, há também uma diversidade de culturas que nos ajuda a compreender a humanidade como uma família que convive numa mesma comunidade cósmica enfrentando os mesmos desafios e caminhando para um destino comum. Tudo isso precisa ser amado e cuidado a fim de que seja possível florescer a vida em sua plenitude em todos os seus aspectos. Uma das formas de se fazer isso é resgatar o sentido bíblico da criação, na metáfora do cuidado com o jardim já presente no Gênesis.
A crise ambiental destrói a diversidade das condições de vida na Terra. A perda da biodiversidade está vinculada também às condições de pobreza, visto que são os pobres e migrantes que mais sentem os efeitos da ruína dos sistemas naturais que sustentam a vida. Para estancarmos essa tragédia, precisamos dar um sim à vida. Isso implica compreendermos que toda a forma de vida assim como todo modo como ela se manifesta é criação divina. Deus ama a diversidade, por isso criou a natureza desse modo. Temos uma dupla tarefa no cuidado com a vida: devemos respeitar a diversidade como também temos a responsabilidade de preservá-la. E pessoas que afirmam amarem a Deus devem demonstrar o seu amor pela sua criação. Uma espiritualidade que cuida da criação começa por compreender a natureza e culmina em colocar-se a serviço da vida em sua diversidade como o mundo criado e amado por Deus.
A Bíblia começa dizendo que Deus reconheceu que tudo na criação foi “muito bom”. Cada espécie foi cuidadosamente criada e reflete aspectos do cuidado divino com a vida. Quando uma pequena criatura, por menor que seja, é extinta, desaparece também a chance de contemplarmos a riqueza do amor de Deus por sua criação. Cristãos de um modo geral têm o dever moral de dar uma resposta a essa crise ambiental, como expressão de justiça e de zelo pela dignidade da vida em toda sua complexidade e especificidade, como parte da missão.

sexta-feira, 23 de agosto de 2019

Amazônia em chamas: um desastre em nossa casa comum / Amazon Burns: A Disaster in Our Common Home / Arde la Amazonia: un desastre en nuestro hogar común:


O mundo encontra-se perplexo diante do aumento dos incêndios na Amazônia. Só no Brasil, o aumento foi de 82% em relação ao mesmo período do ano anterior, que é conhecido como um tempo em que as queimadas são comuns. O que surpreende desta vez é que o aumento dos incêndios é resultado de uma política equivocada de controle do desmatamento, com incentivo à exploração e a falta de respeito aos povos amazônicos. Enquanto a Amazônia arde, o mundo grita por socorro. O Grupo Fé e Política: Reflexões emitiu Nota em Defesa da Amazônia, somando-se às muitas vozes que se pronunciam nesse sentido. Eis a nota:
Nota em Defesa da Amazônia
"As nações se iraram; e chegou a tua ira. Chegou o tempo de julgares [...] e de destruir os que destroem a terra" (Apocalipse 11.18)
Manifestamos nosso profundo pesar e preocupação com os recentes acontecimentos relativos às dezenas de focos de incêndio que destroem parte da floresta amazônica, sobretudo em território brasileiro. Essa tragédia que afeta a maior biodiversidade do planeta prejudica comunidades locais, povos indígenas, espécies de plantas e animais, cultura e economia local, mas acima de tudo representa um grave risco para o equilíbrio ambiental global e coloca em risco toda forma de vida.
Compreendemos que a responsabilidade é de todos, quer sejam autoridades locais, regionais, nacionais e mundiais, lideranças religiosas, judiciais, educacionais, civis e militares, quer sejam cidadãos comuns. Entretanto, não podemos deixar de registrar que o quadro geral se agrava em função das atuais políticas brasileiras de cuidado com o meio ambiente e das atitudes do governo que enfraquecem as organizações ambientalistas diante do poder do capital. Diante de um governo que não assume suas responsabilidades e transfere competências, os danos são irreversíveis de uma política de extermínio da vida em todos os aspectos.
“Por causa disso a terra pranteia, e todos os seus habitantes desfalecem; os animais do campo, as aves do céu e os peixes do mar estão morrendo” (Oseias 4.3).
A questão não se trata mais de um problema social ou político, mas de definição do futuro e destino da vida humana. Estamos diante de um fenômeno que traz à luz o valor da vida, em que nos inserimos numa mesma realidade para a qual necessitamos de todos os recursos que a natureza dispõe para existirmos. É urgente que as autoridades, tanto dos países que formam a Amazônia Legal quanto da ONU e da comunidade internacional, se mobilizem para a preservação da Amazônia e assumam posições efetivas pelo fim do desmatamento, pelo respeito aos povos locais e pela proteção da biodiversidade.
Por essa razão, unimos nossas vozes às vozes de todos que, independente de suas convicções, se filiam a um ideal de lutar pela existência e assumem o compromisso de ser a comunidade daqueles que amam a natureza porque amam a Deus que a criou. A Amazônia é um patrimônio humano que precisa ser cuidado em toda a sua extensão cultural, civilizatória e biológica. Declaramos a nossa fé, como diz as Escrituras, “de que a própria natureza criada será libertada da escravidão da decadência em que se encontra para a gloriosa liberdade dos filhos de Deus” (Romanos 8.21).
Agosto de 2019.
Grupo Fé e Política: Reflexões
Foto: El País, edição digital de 22/8/2019. Disponível em: https://brasil.elpais.com/brasil/2019/08/21/album/1566384483_259997.html?id_externo_rsoc=TW_CC

domingo, 27 de janeiro de 2019

Crime ambiental: as lições não aprendidas de Mariana e Brumadinho / Environmental crime: the lessons not learned from Mariana and Brumadinho / Crimen ambiental: las lecciones no aprendidas de Mariana y Brumadinho


Mais uma vez assistimos a uma tragédia humana. Não, não foi uma tragédia ambiental, mas uma tragédia humana provocada pelo crime cometido contra o meio ambiente. Tragédias ambientais são provocadas por fenômenos naturais. O que aconteceu em Brumadinho no começo da tarde de 25 de janeiro de 2019 foi provocado pela ação humana. Dois dias depois do rompimento da barragem dos rejeitos da mineradora privatizada Vale, a contabilização dos mortos cresce cada vez mais, o drama dos parentes dos desaparecidos aumenta e os sinais de degradação da vida pela invasão da lama tóxica vão aparecendo de forma dramática. Se compararmos com o acidente de proporções semelhantes de Mariana em 2015, podemos dizer que se trata de uma tragédia anunciada.
A todo tempo, pela mídia e pelas redes sociais, vão sendo apontados os possíveis culpados: uns dizem que são os governos atuais que prometeram afrouxar as fiscalizações ambientais; outros dizem que foram os governos anteriores que fizeram vistas grossas para a falta de cuidado com as barragens. Sem tirar a razão dessas críticas, é preciso voltar os olhos para outro ator. A verdadeira e única culpada da tragédia de Brumadinho – que também o foi de Mariana em 2015 – é a privatizada Vale, cujos acionistas e executivos financiam lobbies para cooptar políticos, juízes e procuradores a fim de que estes facilitem a exploração do homem e da natureza.
O crime ambiental tem sempre o mesmo viés: é resultado de uma visão capitalista de produção, que é voltado para a exploração da natureza visando a obtenção de lucro. A lógica capitalista obriga a que empresas aumentem sua lucratividade reduzindo custos de exploração da mão de obra para a extração da matéria prima da natureza logo no começo da cadeia produtiva. Incentiva o uso de técnicas predatórias, isso para não falar do emprego de venenos que destroem a natureza e comprometem a qualidade dos alimentos.
Para essa ação, empresas nunca atuam sozinhas. Contam com a falta de políticas públicas de preservação da natureza e cuidado com a terra, com uma legislação frágil de regulação e de fiscalização das atividades econômicas ligadas à vida e ainda com instituições reguladoras e fiscalizadoras tomadas por pessoas comprometidas com interesses do capital. Esse cenário forma um círculo vicioso que não permite punir o verdadeiro culpado. Numa sociedade séria, os principais executivos da empresa responsável deveriam estar presos preventivamente.
A extensão do estrago deveria ser, por si só, motivo de punição: o Rio Paraopeba – que deságua no Rio São Francisco que deságua no mar dos estados de Alagoas e Sergipe – teve suas águas contaminadas num trecho de cerca de 220 quilômetros; a produção agropastoril da região foi devastada por onde a lama passou afetando diretamente a economia; áreas de preservação ambiental foram invadidas. Isso sem contar com o mais trágico: vidas soterradas, a maioria de trabalhadores da mineradora em questão. Fazendo mau uso do trocadilho, a vida não vale nada para a Vale.
Não são poucos os estudiosos de várias áreas que alertam para o risco que a humanidade enfrenta. Pela primeira vez na história humana, estamos diante da ameaça de extinção da humanidade em que o principal responsável é o próprio ser humano. O episódio de Brumadinho, como o de Mariana e outros crimes ambientais em diversas partes do planeta, é um sinal de que o alerta precisa ser levado a sério. Ou mudamos a forma como lidamos com a natureza ou a humanidade sofrerá danos irreversíveis.
(Foto: Folha de São Paulo)

sábado, 3 de março de 2018

Conversão ecológica: uma proposta de espiritualidade a partir da Encíclica Laudado Si / Ecological conversion: a spirituality from the Laudato Si / Conversión ecológica: la espiritualidad de la Encíclica Laudato Si


A segunda encíclica do Papa Francisco, escrita em seu terceiro ano de pontificado e que recebeu o nome de Laudato Si, aposta em uma mudança de estilo de vida que nasça de uma nova consciência, a de que temos uma origem comum, de um sentimento de pertença e da percepção de que temos um futuro partilhado por todos, mas também que sirva para exercer uma influência sobre aqueles que detêm o controle dos poderes econômico, político e social.
A constatação de que vivemos um tempo de crise tem uma aceitação unânime em todos os campos de ação humana. O discurso de que vivemos sob a ameaça de uma catástrofe global tem sido uma constante em termos ecológicos, sociais, políticos e econômicos. A própria encíclica revela que esse quadro provoca um sentimento de fragilidade e de insegurança, que favorece a formação de toda sorte de expressões de egoísmo.
O tema geral da encíclica é o cuidado da casa comum, que deve emergir de uma atitude de gratidão, de amor e de louvor ao autor da criação. O título é retirado do Cântico das Criaturas, de Francisco de Assis, que repete a expressão “Louvado sejas” em relação ao cuidado de Deus de nos doar a natureza e o universo como irmãos. Ele diz: “Louvados sejas, meu Senhor, por nossa irmã e mãe Terra que nos sustenta e governa, e produz frutos diversos e coloridas flores e ervas”. A questão crucial levantada é: “Que tipo de mundo queremos deixar a quem vai suceder-nos, às crianças que estão a crescer?” (LS, § 160). As previsões catastróficas dão conta de que, pelo ritmo do consumo, pela degradação do planeta e pelo estilo de vida atual, não deixaremos mais que ruínas, desertos e lixos.
A boa notícia da encíclica é que nem tudo está perdido. Pois “os seres humanos, capazes de tocar o fundo da degradação, podem também superar-se, voltar a escolher o bem e regenerar-se, para além de qualquer condicionalismo psicológico e social que lhes seja imposto” (LS, § 205). Trata-se de uma proposta que retoma a ideia da Carta da Terra, que apontava para um novo começo que seja marcado por uma reverência pela vida. Essa proposta tem um viés teológico na medida em que “não há sistemas que anulem, por completo, a abertura ao bem, à verdade e à beleza, nem a capacidade de reagir que Deus continua a animar no mais fundo dos nossos corações” (idem). A teologia, portanto, deve ser encarada como um campo de saber que não pode ficar de fora dessa reflexão que envolve os riscos que ameaçam a vida em nossa casa comum.
Voltando para a encíclica, ela diz que a atual “crise ecológica é um apelo a uma profunda conversão interior” (LS, § 217). Não se trata apenas de ser uma pessoa melhor permanecendo cada um em sua individualidade, mas de desenvolver atitudes que possam desencadear ações generosas e cheias de ternura. Isso implica no reconhecimento de que o mundo é uma dádiva do amor de Deus que deve despertar em nós sentimentos de gratidão, de comunhão com todas as criaturas e de entrega.
Diz a encíclica textualmente: “O crente contempla o mundo, não como alguém que está fora dele, mas dentro, reconhecendo os laços com que o Pai nos uniu a todos os seres. Além disso a conversão ecológica, fazendo crescer as peculiares capacidades que Deus deu a cada crente, leva-o a desenvolver a sua criatividade e entusiasmo para resolver os dramas do mundo, oferecendo-se a Deus ‘como sacrifício vivo, santo e agradável’ (Rm12, 1)” (LS, § 220).
Essa condição de vida que nasce da conversão ecológica gera um novo sentido de espiritualidade cristã, que encoraja a um novo estilo de vida que possa ver o mundo como amado por Deus e sentir a alegria de tomar parte do seu cuidado. Um estilo de vida que prima pela simplicidade, que se contenta com o pouco, que nos liberta da dominação do consumo e da acumulação de prazeres. A razão para isso é que “a felicidade exige saber limitar algumas necessidades que nos entorpecem, permanecendo assim disponíveis para as múltiplas possibilidades que a vida oferece” (LS, § 223).
“É necessário voltar a sentir que precisamos uns dos outros, que temos uma responsabilidade para com os outros e o mundo, que vale a pena ser bons e honestos” (LS, § 229). Após a Laudato Si, os discursos cristãos que orientam a vida religiosa não podem ser mais os mesmos. Eles terão que estar voltados para a comunhão com Deus e com o próximo, mas também com a natureza.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Casa comum, nossa responsabilidade / Common home, our responsibility / Hogar común, nuestra responsabilidad

“[...] corra a retidão como um rio, a justiça como um ribeiro perene!” Amós 5.24
Vivemos um tempo de crise. Essa afirmação tem uma aceitação unânime em todos os campos de ação humana. O discurso de que vivemos sob a ameaça de uma catástrofe global tem sido uma constante em termos ecológicos, sociais, políticos e econômicos. Para o teólogo alemão Jürgen Moltmann, uma das origens dessa crise está na compreensão de Deus como um sujeito absoluto, que resultou no inevitável entendimento do mundo como objeto, de modo que a insistência em uma transcendência de Deus esvaziou a compreensão de sua imanência. “O monoteísmo do sujeito absoluto desmundanizou mais e mais a Deus, e o mundo se secularizou com mais intensidade”, disse no livro Dios em la criación.
Para outro teólogo, Andrés Torres Queiruga, essa tendência faz com que “Deus apareça para muitos como inimigo da vida humana, como ameaça para sua autonomia e impedimento de sua realização. Nessa linha, e por lógica elementar, acaba convertendo-se no inimigo total, que não deixa nada, porque ocupa tudo” (no livro Recuperar a criação). Deste modo, é possível afirmar que a dinâmica da vida autêntica não tem como se firmar na contemporaneidade fundada na ideia de um Deus imutável e indiferente. Se queremos redescobrir o valor da vida, é preciso voltar-se para a concepção do Deus criador a partir da validade da própria criação: “Deus decidiu criar o mundo: é este o fato fundamental, e nele deve-se fundar nossa reflexão. [...] Se Deus criou o mundo, é porque, apesar de tudo, o mundo vale a pena”, diz Queiruga.
A célebre frase de Irineu “a glória de Deus é o homem vivo”, deve ser compreendida na continuidade da mesma, que afirma que a vida humana se realiza na contemplação de Deus. Diante do quadro de crise na qual se encontra o mundo, chegou o momento de se fazer uma escolha: cuidar de nossa casa comum. Para Moltmann, “não se trata de uma crise passageira, e sim de uma catástrofe lenta, mas segura, em que serão destruídos os seres vivos mais fracos por primeiro, e então os mais fortes e, não por último, inclusive os seres humanos”, diz ele em outro livro, A vinda de Deus. Essa crise é provocada pela civilização que se constitui a partir da técnica e da ciência e que provoca o esgotamento da natureza a partir da exploração pelo homem. “Esta crise é mortal não só para o homem [...] é também mortífera para o entorno natural”. Moltmann reconhece ainda que “a moderna sociedade industrial provocou um desequilíbrio no organismo ‘terra’ e está a caminho da morte ecológica universal, caso não possamos alterar esse desenvolvimento [...] A catástrofe ecológica em progresso é universal e não faz distinções. Ela ameaça da mesma forma a natureza, os seres vivos e sistemas de vida e os seres humanos. Ela coloca a humanidade dividida sob a unidade do perigo. Ela põe humanidade e natureza numa comunhão de necessidade”.
Isso demanda uma conversão radical das orientações fundamentais dos modos de produção e consumo, bem como da dinâmica político-econômica das sociedades industriais, uma vez que a crise ecológica se estabelece a partir de uma crise que envolve também as relações de poder. Tanto a crise ecológica como a que envolve os estados modernos surgem no âmbito de uma cultura marcada pela cristandade. E isso exige uma atitude crítica por parte de todos, notadamente daqueles que professam a fé cristã, o que implica um novo olhar sobre a criação.
É preciso encarar o mundo como realidade contingente, na qual se compreende a existência e tudo o que está implicado nela. Deve levar em conta que tanto a realidade concebida como objeto quanto a subjetividade humana são criações divinas. Deve situar o conhecimento no âmbito da relativização, conquanto se refere também ao que não é dado a conhecer, ao invisível, ao qual ainda não se tem acesso. Deve ser solidária ao sofrimento da natureza e desenvolver a esperança da redenção de toda a criação. Deve estar a serviço da naturalização do homem, como um retorno ao cuidado com a natureza em termos de autocompreensão e como interpretação do mundo tendo a natureza como marco fundador. Para Leonardo Boff, isso implica uma nova cosmovisão em que a noção de mundo precisa abarcar a totalidade como a um organismo vivo articulado com o universo inteiro. Trata-se de uma cosmovisão ecológica que enfatiza a imanência de Deus, que está presente em todos os processos vitais e que orienta a vida a partir de uma ordem cada vez mais complexa e carregada de propósitos. Veja-se o livro Ecologia: grito da terra, grito dos pobres. Deus e mundo “estão abertos um ao outro. Encontram-se sempre mutuamente implicados”, diz Leonardo Boff.

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Rio+20: o legado para o futuro que queremos / The legacy for the future we want / El legado para el futuro que queremos

A Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável deixa algum legado para a construção de um futuro melhor? Embora muitos comentários apontassem para o fracasso de um acordo com fixações de metas ambiciosas para as ações dos governos, acredito que há uma interessante contribuição dada pela Rio+20. Alguns até entendem que houve um retrocesso na tentativa de se formar uma consciência global no cuidado do meio ambiente e da vida, mas vejo que houve uma mobilização que irá orientar as discussões em torno do tema daqui por diante.
Em termos concretos, a gente pode dizer que o Espaço Humanidade se constituiu numa oportunidade de oferecer por meio da arte a reflexão sobre o modo como temos estabelecido nossas relações com a natureza e como temos lidado com a vida. A própria iniciativa de se criar um centro de pesquisa sobre sustentabilidade ligado a uma das maiores universidades da América Latina também é uma grande inovação. Podemos falar também da ênfase que se deu na formação de uma consciência planetária, baseada no princípio do agir localmente e pensar globalmente.
O maior legado, no entanto, é a capacidade demonstrada para se construir novas utopias, como a afirmação que as próximas gerações precisam ter as garantias mínimas de disporem dos mesmos recursos que hoje podemos contar. Uma outra utopia é a ideia de que uma nova mentalidade precisa substituir a que domina o consumo atual. Ficou evidente também a aspiração de uma nova consciência política a fim de que não haja mais espaço para a corrupção e regimes exploradores. A maior de todas as utopias, porém, é a convicção de que é preciso e é possível erradicar a pobreza extrema com ações concretas.
Ficou também a abertura para novas possibilidades de se cuidar da vida humana e suas relações. As manifestações que tumultuaram a cidade do Rio de Janeiro, os eventos paralelos e os discursos das autoridades durante a conferência deram conta de que há uma exigência para uma nova relação do homem consigo mesmo. Uma atitude que possa levar à superação do narcisismo e do hedonismo que marcam o comportamento que tem levado às principais causas que impedem a afirmação de uma consciência de sustentabilidade. Uma nova espiritualidade se faz necessária, que dê conta da salvação do homem de sua própria perdição. Não se salva o mundo abraçando árvores. Num tempo em que se dá tanta ênfase aos direitos individuais e de minorias, a Rio+20 colocou em questão a necessidade humana de se viver com dignidade e de se construir valores que estejam relacionados ao resgate de nossa humanização. O maior direito a ser garantido é o da vida. E é nessa hora que ouço a voz de Jesus em meio a tantas vozes que clamam por uma vida melhor: “eu vim para que tenha vida, e a tenham em abundância.”

terça-feira, 19 de junho de 2012

Rio+20: Caminhos para um mundo mais sustentável / Ways to a sustainable world / Caminos hacia un mundo sostenible

A Rio+20, Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, já começou prometendo ser um fracasso no que diz respeito à produção de um acordo para aquilo que tem se chamado de “economia verde”. Seu grande legado, no entanto, será envolver a sociedade organizada em um leque de discussões que pode suscitar mudanças de atitude.
O maior problema enfrentado tem a ver com a adequação do modelo econômico adotado para comportar o princípio da sustentabilidade. Outro problema grave é a respeito de quem vai pagar a conta da implantação de um novo paradigma para a economia mundial. O que se prevê é que esse custo represente cerca de 2% de toda a riqueza produzida no mundo. O custo com material bélico e até mesmo o custo para cobrir o rombo dos bancos em meio às grandes crises envolvem somas muito maiores.
Já se chegou à conclusão de que este é o momento para tomada de decisões a fim de possibilitar os mesmos recursos de que dispomos para a próxima geração. Caso não sejamos capazes de uma decisão que contenha os avanços do consumo, as possibilidades de solução diminuem conforme o tempo passa.
Já se chegou à conscientização de que a natureza fornece recursos para o consumo sustentável para um planeta com até doze bilhões de habitantes. Entretanto, se cada pessoa consumir como um cidadão norte-americano, serão necessários três planetas Terra para dar conta.
Uma outra constatação é que o fenômeno do aquecimento global tem sido questionado cientificamente. Sua principal causa pode não ser a emissão de gases do efeito estufa. Outros problemas precisam de maior atenção, tais como as causas do processo de desertificação e o comprometimento dos mananciais de água para o consumo humano.
Os caminhos para o desenvolvimento sustentável passam, portanto, por atitudes do tipo:
- erradicação da miséria, proporcionando oportunidade de geração de renda e a desocupação das áreas de risco;
- repensar o papel das cidades, as formas de organização da vida urbana e a relação das cidades com as áreas de preservação ambiental;
- mudança do modelo econômico vigente, substituindo a lógica do lucro pela lógica da parceria, a base monetária por uma preocupação mais social e o consumismo pela dinâmica do contentamento;
- cuidado com a geração futura, com ênfase no conhecimento e na formação de valores para o sentido de comunidade e não da competição;
- formação de lideranças participativas, com o combate à corrupção e a rejeição às lideranças autocentradas a partir de princípios de transparência no trato do bem comum.
Pensar em sustentabilidade é imaginar um mundo ecologicamente mais limpo, socialmente mais justo e politicamente mais ético. Embora a Rio+20 possa resultar em poucas soluções práticas, isso desperta a necessidade de uma nova espiritualidade. “Noutros tempos, blasfemar contra Deus era a maior das blasfêmias [...] Agora, o mais espantoso é blasfemar da terra”, disse Nietzsche. Não resta a menor dúvida que acima das decisões dos governos está o chamado divino a uma atitude de respeito à vida como resposta de amor ao Deus da vida.

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