segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Pensar em desistir / Thinking about quitting / Pensar en la renuncia

Fim de ano e começo de ano novo são sempre assim. Muitos desejos, muitos planos, porém pouca reflexão sobre o que ficou para trás. Uma geração que aprendeu a valorizar o instante vivido tem muita dificuldade em estabelecer metas para o futuro exatamente por que tem dificuldade de olhar para seu passado de forma crítica. Isso é fazer história, a história de sua própria vida.
Nesse exercício de olhar criticamente para as marcas do que ficou, percebo que muitas vezes já pensei em desistir. E fiz isso de fato. A minha história é feita de muitas desistências. Muitos dos meus desejos ficaram no esquecimento, muitos planos tiveram que ser cancelados, muitas metas foram refeitas para dar lugar ao que se vive na realidade. E não tenho vergonha de ter pensado em desistir por tantas vezes. A desistência, em certos casos, não é sinônimo de fracasso, mas de amadurecimento.
O problema é que a gente olha para o futuro como um lugar para onde estamos indo, em que nossas escolhas, motivadas por sonhos e desejos, vão pavimentar o caminho até lá. Essa é uma ideia cujo sentido se esvazia diante das contingências da vida, das exigências do próprio caminhar, da necessidade de mudança que se faz como uma constante.
Olhar para o futuro a partir dos nossos desejos é um forte apelo para a angústia. Só dá para ter um olhar para o futuro a partir da esperança. E quando a gente fala de esperança no futuro, só dá para ter sentido quando ela está vinculada à fé. Quando se olha para o futuro apenas a partir dos nossos desejos, isso gera frustração. É o futuro visto como um fim em si mesmo. Quando se olha para o futuro a partir da esperança que brota da fé, isso muda nossas perspectivas. Isso é assim porque a vida de fé é uma imersão na história, ampliando horizontes, mobilizando a vida toda como abertura rumo ao novo, ao desconhecido, um convite a experimentar sempre um novo início.
Por que, então, alimentamos tantos desejos? Já reparou como são os desejos para um ano novo feliz? “Muito dinheiro no bolso, saúde pra dar e vender”. Tem gente que deseja fazer um novo curso, mudar de vida, acertar na mega-sena da virada, encontrar um novo amor, emagrecer. E a gente nota que desejar essas coisas de sempre envolve um processo mais complexo do que se imagina.
Os epicuristas afirmavam que só se pode desejar aquilo que já se tem. Platão dizia que o desejo é sempre uma questão de carência. Para Aristóteles, corajoso é aquele que vence seus desejos, pois a maior virtude e vencer a si mesmo. Na verdade, os desejos têm a ver com uma representação do que se considera como meio de satisfação, de realização, de alívio das tensões de suprimento de uma carência.
A palavra “desejo” tem origem em desiderare, que significa deixar de olhar os astros. É um despojar-se, uma perda que impulsiona uma tomada de decisão. Como já não é possível guiar-se pelos astros, toma-se a decisão de guiar-se por si mesmo. O desejo, então, comporta em si mesmo uma ambiguidade. É uma potência de decidir quando se reconhece carente.
Para Santo Agostinho, desejo é transgressão, é autorrealização, é querer a si mesmo, deixando Deus do lado de fora. Entretanto, para Espinosa, desejo é conatus, força de existir, movimento que nasce das relações entre seres que sofrem afecções. Ter desejos é sinal de humanidade. Ele esconde uma vitalidade que aspira o mistério, que só se encontra pela fé. Pior do que ter desejos é não ter desejos. Como diria Nietzsche, “o homem prefere querer o nada a não querer”.
Quero arriscar um desejo para o ano novo. Ele não é propriamente meu, mas que o torno parte da minha consciência. Ele está na Bíblia. É o desejo que alimentemos a esperança de um futuro de alegria e paz. Se você preferir a Bíblia, então leia: Que o Deus da esperança os encha de toda alegria e paz, por sua confiança nele, para que vocês transbordem de esperança, pelo poder do Espírito Santo.” Romanos 15.13.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Natal: a vida estava nele / Christmas: life was in him / Navidad: la vida estaba en él

Dos quatro evangelistas, somente dois narram o nascimento de Jesus: Mateus e Lucas. Dos outros dois, Marcos nem sequer menciona. Talvez por achar que não fosse relevante o modo como Jesus veio ao mundo, mas sim o que ele fez e falou, assim como o modo como terminou sua vida aqui. Já João escreve um prólogo, um requinte literário para obras mais rebuscadas, como sendo um resumo de toda a vida de Jesus. Quem lê esse texto inicial tem a ideia total do livro e do que foi a vida de Jesus.
Nesse prólogo, há uma afirmação que é a síntese da pessoa de Jesus. Uma expressão de sua identidade, do que ele significou para as pessoas de seu tempo. “Nele estava a vida, e esta era a luz dos homens”. João 1.4. Foi assim que João preferiu falar de Jesus. O que era apenas uma ideia, uma coisa de que apenas se ouviu falar, agora estava ali diante dos seus olhos. Não importa como chegou. Melhor ainda que as narrativas deem conta de alguém que tenha nascido de forma tão humilde, tendo apenas os céus, a natureza e gente simples como testemunhas.
Para João, era mais expressivo o fato de que, quem olhasse para ele, mesmo não o conhecendo, perceberia a vida em sua plenitude, alguém que transborda de vida, que é a verdadeira síntese da vida. Alguém que sabia o que é viver, pois experimentava isso no seu modo de ser. Um humano assim só podia ser divino.
A palavra viva se fez vida. Isso sim é natal. O Deus vivo se fez gente. Isso sim é natal. Todos podiam ver isso e encontrar nele fortes razões para viver e reconhecer que, por pior que fossem as circunstâncias, ser gente valia a pena. Estava ali, diante dos olhos de quem o visse, alguém que carregava consigo toda a ambiguidade e contradição humanas e que, ainda assim, demonstrava que a vida é bela, dom precioso que precisa ser bem aproveitado.
O fato de ser divino e ser a própria vida não isentou Jesus de sofrer e sentir dor, de ser enganado e traído, de ser tentado e questionado, de até morrer a nossa morte de forma tão cruel. Quem olhasse para Jesus veria que a vida não se resume a uma série de atitudes fundadas numa lógica em que Deus está ausente. Nem mesmo numa necessidade de acumular coisas e saberes que não resultam em realização pessoal. A vida é mais. É ser aquilo para o qual Deus pensou para nós. Gente que vivia o engano de uma vida sem sentido encontrava na pessoa de Jesus uma luz, um indicativo, um direcionamento sobre o que é de fato viver.
O profeta já sabia que seria assim desde o passado: “O povo que caminhava em trevas viu uma grande luz; sobre os que viviam na terra da sombra da morte raiou uma luz.” Isaías 9.2. Os discípulos souberam que é assim que Deus faz conosco: “Pois ele nos resgatou do domínio das trevas e nos transportou para o Reino do seu Filho amado.” Colossenses 1.13.

O natal em nosso calendário serve para nos lembrar isso: que quando a vida não faz mais sentido, precisamos olhar de novo para Jesus. Nele encontramos vida. Quando nos perdemos nos caminhos errantes de nossa vida, precisamos olhar para aquele que nos chamou para segui-lo como caminho. Ter um feliz natal é ter a vida invadida pela vida. Um Feliz Natal para todos.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Espiritualidade libertadora / Liberating spirituality / Espiritualidad liberadora

Ora, o Senhor é o Espírito e, onde está o Espírito do Senhor, ali há liberdade.” 2 Coríntios 3.17
Não é de hoje que se fala da necessidade de uma abordagem mais humanizadora quando o assunto é espiritualidade. Aliás, o Humanismo, desde o Renascimento, já clamava por isso. Entretanto, quando se fala de espiritualidade, não se deve confundir com formatos religiosos.
Leonardo Boff defende a ideia de que, no que diz respeito à espiritualidade, devemos nos concentrar na fonte, que é Deus, e não nos rios, que são as religiões. É isso que faz a diferença entre religiosidade e religião. Embora a religião seja um fenômeno cultural que faz parte de nossa condição humana, transformar a religiosidade em uma gaiola ou camisa de força para a experiência de Deus é, no mínimo, reduzir a sua relevância.
Dalai Lama afirmou que a melhor religião é a que te faz melhor. Isso não é o mesmo dizer que a melhor religião é aquela que te faz bem. Para que você seja uma pessoa melhor, ainda há muitos ajustes a serem feitos. E isso passa pelo desenvolvimento de uma espiritualidade humanizadora e libertadora.
Percebo que ao longo do tempo o cristianismo desenvolveu três tipos de espiritualidade significativos, que marcaram época e movimentos. Muitos desses movimentos repercutem entre nós através dos vários segmentos cristãos e das várias teologias que produziram.
O primeiro tipo é o que chamarei de espiritualidade de dominação. O princípio se baseava na ascese, na prática de exercícios espirituais de orações, meditações e de abstinências. O foco era transformar o indivíduo em um sujeito obediente, capaz de dizer a verdade sobre seus conflitos interiores. O resultado foi o formalismo religioso, o ritualismo e a vida reclusa.
O segundo tipo é o que chamarei de espiritualidade de introspecção. O princípio se baseava na capacidade crítica da pessoa, na autonomia do sujeito de pensar por si mesmo. O foco era de levar o sujeito à descoberta de uma verdade universal, revelada sob a forma de um texto. O resultado foi o fundamentalismo religioso, a interpretação literal das Escrituras, a fuga de um mundo mal e cada vez mais ameaçador.
O terceiro tipo é o que chamarei de espiritualidade de humanização. O princípio se baseia na alteridade, na relação com o outro. O foco é de fazer com que o indivíduo seja reflexo do amor de Deus por criaturas imperfeitas e marcadas pelo conflito, que viva a sua espiritualidade em meio às situações concretas vividas por pessoas no mundo. O resultado é o sentido de realização pessoal e de descoberta do valor da vida em comunhão.

Estou a procura do terceiro tipo. Parece-me que os resultados justificam. Pelo menos é o que parece ser mais libertador.

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Congresso de Teologia: Missão, Espiritualidade e Diálogo

Estão abertas as inscrições para o primeiro Congresso de Teologia na Primeira Igreja Evangélica Congregacional de Icaraí. O tema será "Missão, Espiritualidade e Diálogo" e terá como palestrantes: Jorge Henrique Barro, Marcelo Santos, Márcio Leal e Irenio Chaves. Todos são pastores e estudiosos de teologia, com trabalhos publicados nessa área. As inscrições podem ser feitas pelo telefone (21) 2710-3705, com Albanize. O investimento será de R$ 50,00 por inscrito. As palestras acontecerão nas dependências da igreja, que fica na rua Dr. Carlos Halfeld, 22, em Icaraí, Niterói (a rua da delegacia).

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Teísmo aberto e as narrativas sobre Deus na pós-modernidade – Parte 1 / Open theism and narratives about God in postmodernity / El teísmo abierto y narrativas acerca de Dios en la postmodernidad

A discussão sobre o teísmo aberto, empreendida no contexto do evangelicalismo norte-americano, põe em questão a relação entre soberania divina e liberdade humana. O conceito de “teísmo aberto” foi usado por um grupo de pensadores voltados para uma teologia mais relacional e voltada para o processo histórico. Para estes, o homem e Deus são coparticipantes da história e da construção do futuro.
A discussão, no entanto, não é nova para a teologia protestante, embora não tenha recebido essa nomenclatura desde o começo. O pelagianismo, por exemplo, já afirmara, no século V, que todo homem é totalmente responsável pela sua própria salvação e, por essa razão, não necessita da graça divina para salvar-se. Pode fazer isso por si mesmo, uma vez que é moralmente neutro. Esse tema foi a base de uma grande controvérsia sobre o pecado original, que levou a Santo Agostinho formular a ideia de que a queda de Adão fez com que toda a humanidade estivesse escravizada ao pecado. Mesmo que possa fazer escolhas, o homem, por exemplo, não pode escolher não pecar.
O tema da soberania de Deus é o foco central da teologia reformada e se fundamenta no pensamento de João Calvino (1509-1564). Essa concepção pressupõe um Deus que tem o controle e o domínio sobre todas as coisas. Sendo assim, todas as coisas ocorrem como resultado de um plano divino. Os teólogos do teísmo aberto questionam a abrangência da noção de soberania, onipotência e oniciência divina do calvinismo e apontam para uma abordagem em que a condição de todo-poderoso é que faz com que Deus despoje dessa condição em função da liberdade humana. Isso, no entanto, não faz dele um Deus fraco, visto que é nesse despojamento que ele demonstra deu poder.
A reflexão teísta, no seu sentido mais amplo, é uma atitude filosófica cuja tendência se dá a partir de uma perspectiva histórica. É, portanto, um produto da racionalidade moderna. Ela se fez necessária em função de algumas questões teológicas que estão em aberto. Até que ponto a revelação de Deus é afetada pela condição humana? Até que ponto a ação humana é afetada pela revelação divina?
A modernidade construiu uma compreensão inicial de Deus dentro de uma concepção racional defendida por René Descartes (1596-1650). Ele afirmou que Deus é sumamente perfeito, bondoso e verdadeiro e que as faculdades humanas da razão encontram-se aptas a conhecer a verdade, e por isso, podem conhecer a Deus. A preocupação era de procurar oferecer uma explicação sobre o Deus cristão utilizando os paradigmas da filosofia grega e ocidental.
Nicolas Malebranche (1638-1715) aprofundou o conceito metafísico de Descartes ao afirmar que Deus é a razão universal que ilumina a razão humana. Esse Deus é livre e criou o melhor mundo que um Deus livre poderia criar. A crítica mais contundente sobre o Deus cartesiano foi feita por Espinosa (1632-1677). Ele desenvolve uma compreensão diferente de Deus ao afirmar seu princípio do Deus sive natura: um Deus que age e existe a partir de sua própria natureza é a própria natureza. Rejeita, assim, a ideia de um Deus pessoal e o afirma como a substância na qual existem todas as coisas. Todas as coisas são e existem em Deus.
Como se pode perceber, a modernidade desenvolveu modos de abordagem sobre Deus: o teísmo – concepção filosófica que admite a existência da divindade, sem relação com um sistema de crença ou valores morais ( por exemplo, o cristianismo como uma forma de teísmo. O oposto é ateísmo) – e o deísmo – concepção filosófica naturalista que afirma a existência de um Deus que pode ser conhecido por meio da razão e da percepção pessoal, sem a necessidade da revelação (por exemplo, a afirmação de Voltaire que, para se chegar a Deus, não é preciso da religião).
(Palestra apresentada na Igreja Congregacional de Icaraí, Niterói, em 5 de setembro de 2013. Leia também a Parte 2)

Teísmo aberto e as narrativas sobre Deus na pós-modernidade – Parte 2 / Open theism and narratives about God in postmodernity / El teísmo abierto y narrativas acerca de Dios en la postmodernidad

A discussão teísta na Modernidade envolve também o tema da teodiceia, termo criado por Leibniz (1646-1716), em 1710, para compreender a bondade e a perfeição de Deus diante do mal que há no mundo. Para Leibniz, não podemos responsabilizar Deus pela maldade e pelos erros existentes no mundo em função da liberdade do homem. Vivemos no melhor dos mundos possível.
Com Kant (1724-1804), desenvolve-se a compreensão de que o conhecimento de Deus não é possível às formas puras da sensibilidade, de espaço e tempo. Não se explica pelo princípio da causalidade, não é objeto de conhecimento. Só pode ser uma ideia pura da razão, como um princípio geral de unificação do conhecimento. Trata-se de uma ideia, como um mistério absoluto, cujo conhecimento é inacessível. Deus e o nada seriam a mesma coisa. É o fim da metafísica.
Com Hegel (1770-1831), o conceito de Deus e do Absoluto se referem ao pensamento que se pensa. Não se trata de uma realidade transcendente. O absoluto é a totalidade como realidade imanente, como um processo de autorreflexão. Esse pensamento que se pensa é um processo que tem um fim em si mesmo, que se forma na consciência do sujeito.
A filosofia, como se vê, chegou a um nível de abstração e distanciamento da vida que despertou a crítica de três principais pensadores – o que chamo de críticos da racionalidade ou filósofos da suspeita. São eles: Freud (1856-1839), ao afirmar que crer em Deus é uma projeção infantil; Marx (1818-1883), ao reconhecer que a religião funciona como instrumento de alienação e de opressão – “ópio do povo”; e Nietzsche (1844-1900), que declarou que “Deus morreu”.
Essa crítica, porém, não foi bem recebida no âmbito da teologia sistemática. Como o pensamento religioso esteve moldado a pensar em Deus a partir de categorias teológicas, dogmas, proposições e conceitos, a teologia volta-se para uma abordagem que leve em consideração a revelação de Deus no contexto da história.
A revelação pressupõe um Deus que age na história e um povo que interpreta essa ação. Nesse sentido, a Bíblia aponta para Deus através de uma narrativa a partir do fluxo dos acontecimentos. A teologia precisa se dar conta de que o texto bíblico, como uma fonte, está envolto em um contexto histórico com implicações socioculturais. Sua leitura é marcada pelos modos de construção dos sujeitos implicados na narrativa.
Johann Baptist Metz defende que a teologia não pode seguir sendo especulativa e que a teologia do futuro terá que ser narrativa. Uma teologia a partir da narrativa envolve aspectos relacionados à memória e à experiência vivida pelos sujeitos implicados. A compreensão mais abalizada sobre Deus não está na sistematização da teologia, mas nas narrativas das formas como Deus se revela na vida.
A fé não é a aceitação de uma verdade, mas a construção de uma relação com o outro, com o mundo e com Deus. Para Gianni Vattimo, o Deus da Bíblia não é um fundamento, mas um evento “capaz de mudar a vida daqueles que recebem o seu anúncio e cuja relevância, podemos afirmar, consiste justamente nessa mudança.” (em Depois da cristandade).
Dietrich Bonhoeffer, em suas cartas da prisão, defendeu a necessidade de se falar de Deus sem subterfúgios: “Deus nos dá a conhecer que devemos viver como indivíduos capazes de enfrentar a vida sem ele. O Deus que está conosco é o Deus que nos abandona! (Mc 15.34) O Deus que faz com que vivamos no mundo sem a hipótese de trabalho Deus é o Deus perante o qual nos encontramos constantemente. Perante e com Deus vivemos sem Deus. Deus deixa-se empurrar para fora do mundo até a cruz; Deus é impotente e fraco no mundo e exatamente assim, somente assim ele está conosco e nos ajuda.” (Resistência e submissão, p. 447-448).
(Palestra apresentada na Igreja Congregacional de Icaraí, Niterói, em 5 de setembro de 2013. Leia também a Parte 1)

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Crer em Deus e viver como se ele não existisse / Believing in God but living as if He doesn't exist / Creer en Dios y vivir como si Él no existiera

Crer em Deus tornou-se sinônimo de ignorância e alienação. A humanidade saiu de um tempo em que crer em Deus era uma exigência para um outro em que crer já não é mais necessário e até desprezível. E isso num período de pouco mais de 300 anos, o que é muito pouco, considerando-se os processos de mudança a que somos submetidos. E o mais impressionante é que o cristianismo assimilou essa mudança produzindo um tipo de fé completamente dissociada da espiritualidade. O cristão, a partir da modernidade, enfrenta um grande risco: crê em Deus, mas vive como se ele não existisse.
Crer em Deus é afirmar seu amor e graça, é não ignorar a injustiça e desigualdade no mundo, é desenvolver a capacidade de perdoar, é superar a tentação de ser autocentrado, é viver no contexto da comunhão. É isso que me leva a buscar uma experiência de fé que vá além das expressões religiosas convencionais. Busco por um cristianismo que vá além das dicotomias que estão presentes nos debates religiosos: sagrado e profano, pentecostal e tradicional, teologia da salvação individual e teologia da prosperidade, católico e protestante.
Acredito que estamos vivendo o momento de viver a fé que seja religare, que produza uma teologia que restaure a relação entre Deus e a pessoa, entre as pessoas e os outros e entre as pessoas e o meio ambiente. Precisamos de uma compreensão de fé que supere a apatia e promova uma atitude simpática. Não há como ser cristãos que creem em Deus e até desenvolvem uma prática religiosa, mas age de modo que o chamado para o cumprimento da missão torne-se irrelevante.
As maiores críticas à fé elaboradas pela modernidade não foram sem motivos Freud disse que crer é uma projeção infantil, Marx afirmou que crer é um instrumento de alienação. Nietzsche bradou que crer é uma atitude inútil. A religiosidade e a teologia modernas firmaram-se a partir de um divórcio entre fé e razão, em que a espiritualidade é lançada para fora do mundo do conhecimento. O descentramento – em que Deus é tirado do centro do conhecimento para dar lugar o homem – levou à fragmentação e ao equívoco.
Isso afeta a maneira como vivenciamos a fé na sociedade contemporânea. Principalmente em relação à comunicação do evangelho. Todos os recursos e métodos de evangelização tornaram-se sem sentido para uma humanidade que aprendeu a viver sem Deus. Mais do que nunca, é preciso reafirmar que evangelizar é dizer com a vida que há um Deus que ama. Uma notícia boa alcança a pessoa humana por inteiro porque faz sentido na vida de quem anuncia.
O melhor evangelista não é o que promove um marketing religioso, mas o que se compromete com uma vida santa. Os evangelistas precisam falar de um Deus a quem eles mesmos conhecem com intimidade, como alguém que vive aquilo que prega. Não faz sentido falar de uma vida melhor depois da morte, num céu distante, se não há o que promova libertação e transformação hoje. A mensagem que aponta para o céu precisa também apontar para a transformação aqui e agora.

sábado, 31 de agosto de 2013

Teísmo aberto e as narrativas sobre Deus na pós-modernidade

Na ´quinta-feira, 5/9, teremos mais uma palestra da Quinta Teológica, na Igreja Congregacional de Icaraí (Rua Dr. Carlos Halfeld, 22 - Icaraí, Niterói - próximo à Delegacia). Dessa vez, o tema será sobre a questão de Deus: "Teísmo aberto e as narrativas sobre Deus na pós-modernidade". A palestra é aberta ao público e consta do programa do Curso de Formação de Líderes que acontece naquela igreja todas as quintas-feiras. Não há necessidade de inscrição prévia e a entrada é franca. Haverá oportunidade para debates ao final.

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Espiritualidade e identidade: Quem é você? / Spirituality and Identity / Espiritualidad y Identidad


A pergunta “quem é você?” é própria do contexto do ocidente principalmente na modernidade. Aristóteles já havia definido o princípio da identidade, em que “o que é, é”, o que se distingue do princípio da contradição. O resultado será a afirmação do sujeito centrado em si mesmo do pensamento moderno e a fragmentação do mesmo na pós-modernidade. A pergunta remete ao conhecimento de si, como algo que precisa ser dissecado e analisado. Fernando Pessoa define bem essa angústia que resulta dessa desintegração do sujeito ao dizer: “Eu me vejo e estou sem mim, conheço-me e não sou eu [...] começo a conhecer-me. Não existo.”
A primeira resposta a essa pergunta é que você é uma pessoa. A palavra pessoa vem do latim persona, que, por sua vez, corresponde ao grego prósopon. Tem o sentido original relativo àquilo que aparece aos olhos, o que se pode ver. É o mesmo que rosto, a face visível, o que o outro vê em nós ou a imagem que o outro tem da gente. Isso vai além do aspecto estético e da aparência. Implica as relações com o outro e consigo mesmo. Envolve a consciência com que são percebidos e vivenciados os valores aceitos pela sociedade que estão presentes na cultura.
Como pessoas, somos dotados de liberdade e de vontade, podemos fazer escolhas e agir conforme a nossa consciência. Porém, o aspecto moral da nossa condição humana nos leva a ser confrontados com os valores, as virtudes e as normas que existem na vida em companhia de outros. É isso que estimula comportamentos e práticas tendo em vista o estabelecimento de virtudes e sanções que definem o que é bem ou mal dentro da dinâmica da vida social.
Somos o tempo todo marcados por um conflito entre liberdade e responsabilidade. A nossa condição de liberdade é que nos permite compreender e interpretar as circunstâncias vividas. Ao mesmo tempo, a nossa condição de responsabilidade, nossas ações são determinadas a partir das relações com o outro, que nos interpela com exigências e necessidades que demandam escolhas e deliberações de aceitação ou rejeição. Esse outro é um intruso que se manifesta como meu semelhante e compete comigo pela busca de reconhecimento e autenticidade.
Jacques Lacan procurou esclarecer essa questão ao afirmar que não há o eu sem o outro. As perguntas definidoras dessa relação: “quem sou eu em relação ao outro?” e “quem é o outro diante de mim?” O eu e o outro se confundem a ponto de dar lugar a outra indagação: “que garantia tenho de que sou eu mesmo e não o outro?”
Como pessoas, representamos e interpretamos papéis. Somos habilidosos nisso e é o que Nietzsche compreendeu como dissimulação. É a representação como arte, que conduz o “parecer” ao “ser”. Sempre nos permitimos nos enganar e a representar como atores de uma grande tragédia: a vida. “Se alguém quer parecer algo, por muito tempo e obstinadamente, afinal lhe será difícil ser outra coisa”, afirmou Nietzsche, lembrando da hipocrisia como a arte grega da representação cênica.
Jesus tratou disso ao chamar as pessoas a um exercício de análise de si, uma vez que não há como estar diante de Deus sem que se seja o que é. Como um retorno a si, Jesus faz um apelo ao desejo de tornar-se quem é, sem dissimulações. Isso implica um processo de autorrealização que envolve a tomada de consciência de que se é um projeto inacabado, que a vida é marcada por desencontros e que estamos num processo com muitos recomeços. O convite “vinde a mim” é o apelo para essa conversão de si, de um estado de engano e de sabotagem a uma vida em que se cultiva aquilo que se é, do jeito que Deus criou para ser, tal como Jesus o foi.

terça-feira, 30 de julho de 2013

Evolucionismo e Criacionismo: Novas Tendências do Debate Atual

Palestra: Evolucionismo e Criacionismo, novas tendências do debate atual.
Quinta-feira, 1 de agosto, às 19h30.
Local: Igreja congregacional de Icaraí (próxima à delegacia).
Haverá oportunidade para debate ao final.
Entrada franca.

domingo, 28 de julho de 2013

Legado da visita do papa Francisco ao Brasil: Uma igreja mais acolhedora e um cristianismo mais humano / Legacy of the Pope's visit to Brazil / El legado de la visita del Papa a Brasil

Qual o legado da visita do papa Francisco ao Brasil? A primeira viagem ao exterior do primeiro papa jesuíta e latino-americano foi marcada por muitas surpresas, principalmente relacionadas ao perfil do próprio pontífice e aos novos caminhos que vem propondo para a igreja católica. O que mais me marcou não foram as manifestações espetaculares que o catolicismo ofereceu ao mundo. Claro que tudo foi bonito de se ver, superando expectativas e demonstrando uma grande vitalidade em tempos de tantos ataques que a religião vem recebendo. Não foi também o modo gentil, simpático e bem humorado do papa. Nem mesmo o seu gesto simbólico pela simplicidade, andando em carro simples, carregando sua própria bagagem de mão abraçando crianças e gente do povo. São gestos bem populistas.
Suas mensagens, sim, marcaram profundamente sua passagem pelo Brasil. A opção pelo discurso simples e objetivo indica uma nova atitude da igreja para com a sociedade, o que a aproxima de fato às pessoas em sua própria circunst6ancia de vida. Alguns pontos foram definidores de uma nova práxis que deve influenciar todo o cristianismo, católicos, ortodoxos e protestantes. Anoto aqui alguns desses pontos que julgo serem os mais importantes:
a)      A igreja deve ser reconhecida como uma comunidade acolhedora e não como uma instituição que detém o poder ou que tem todas as respostas para o drama humano.
b)      O cristianismo deve ser visto como caminho que encoraja, que estimula a fé, que produz alegria.
c)       A fé é a experiência do encontro com Cristo e com o outro. Um não acontece sem o outro.
d)      A missão do cristão é missão de Deus partilhada aos homens. Ser discípulo e ser discipulado são virtudes que caminham juntas. A evangelização é mais um testemunho de vida do que uma busca por adeptos.
e)      No caminho do diálogo com o mundo, busca-se a afirmação da perspectiva comunitária da ação política, que se dá em solidariedade e generosidade, e não com elitismo e distanciamento de Deus.
f)       A vida de serviço e a ação comunitária do cristão devem estar na contramão dos valores enfatizados nesta era secular. O combate à corrupção se dá primeiramente pela rejeição ao egoísmo e à ganância nas nossas relações.
Como se vê, não são afirmações dogmáticas ou moralistas. São temas que estão na pauta do cristianismo como um todo e que atendem ao clamor por mudanças por parte de cristãos de todo o mundo. Não se pode esperar que o catolicismo rompa com uma herança histórica da noite para o dia. Como protestante, ainda estranho os rituais e o apego aos santos, mas me alegro em ver novos ventos que sopram sobre a fé católica. Se queremos que o mundo inteiro seja alcançado para Cristo, é primordial que todos estejamos unidos naquilo que é essencial.
Nesta hora em que a humanidade atravessa um momento tão crítico e que a cultura ocidental se vê diante de tantas ameaças, a mensagem que faz sentido é de somarmos força para a construção de valores que resgatem a dignidade da pessoa e aponte caminho para a salvação. Acredito que ficará muito difícil para lideranças cristãs, e evangélicas em especial, levarem a efeito uma mensagem que destoe do paradigma proposto pelo papa ou uma atuação que se diferencie da simplicidade e da gentileza que ele demonstrou.

sábado, 27 de julho de 2013

Keep Calm: Mantenha a calma e siga adiante / Keep Calm and Carry On / Mantener la calma y seguir adelante


“Mantenha a calma” foi a mensagem que o governo britânico encaminhou para a população diante da ameaça de que as tropas alemãs invadiriam a Inglaterra durante a Segunda Guerra Mundial. Ela foi preparada para ser divulgada através de um cartaz que fazia parte de um conjunto de ações para encorajar as pessoas a enfrentarem aqueles tempos difíceis. Era o ano de 1939, quando a guerra começou.
Outros dois cartazes já haviam sido publicados e afixados em lugares públicos como fachadas de casas e trens. O primeiro dizia: “Sua coragem, sua alegria, sua determinação nos trarão a vitória”. O segundo tinha os seguintes dizeres: “A liberdade está em perigo, defenda-a com toda sua força”. O terceiro ficou guardado para o caso de uma situação crítica mais intensa. Ele dizia: “Mantenha a calma e siga adiante”. Somente 61 anos depois, este terceiro cartaz foi encontrado perdido em uma livraria antiga e acabou se tornando um “meme” que invadiu a internet e as redes sociais.
Na época, essas mensagens de ânimo e motivação em meio à crise foram alvos de crítica e censura por parte da imprensa. No entanto, a frase simples e objetiva é um dos maiores conselhos para tempos trabalhosos. O que fazer quando se passa pelo sofrimento, quando se enfrenta barreiras, quando a fé acaba ou quando o fracasso acontece? Mantenha a calma e siga em frente.
A importância do cartaz não está em seu acabamento artístico. O design é simples, com letras grandes e fundo vermelho. O que impressiona é a atualidade de sua mensagem como uma voz que ecoa através da história. A maneira como essa mensagem simples, mas necessária, vem sendo reproduzida, parafraseada e parodiada fez com que se transformasse numa marca deste começo de século. Uma mensagem que nos remete ao fato de que, quando chega o dia mau, só nos resta prosseguir.
Este é o conselho de Jesus: “Tenham ânimo”. Foi também o conselho de Deus a Moisés e todo povo durante o êxodo: “Marchem!” Esta é a melhor atitude para as situações difíceis da vida: não entre em desespero, siga em frente. Toda crise passa e o que fica é o que nos motivou a perseverar.

terça-feira, 23 de julho de 2013

Visita do papa ao Brasil: um convite a repensar a fé / Pope visits Brazil / La visita del Papa a Brasil

A visita do papa Francisco ao Brasil se reveste de muitos significados: é a primeira viagem de seu pontificado; ele vem para participar da Jornada Mundial da Juventude católica e para trazer uma mensagem aos jovens; trata-se do primeiro papa latino-americano visitando o país com a maior população católica no mundo. Mas não é só isso.
A visita do papa serve também para que o cristianismo, de um modo geral, repense sua caminhada no Brasil e no mundo. Não afeta só o catolicismo. Aliás, reduzir a visita a uma forma de reconquistar seguidores perdidos ou para fazer novos adeptos é desconhecer completamente a fé cristã. Católicos e protestantes têm uma grande oportunidade de refletirem sobre a relevância da religião para este tempo. Os discursos papais e a programação da JMJ levantam questões que preocupam cristãos de todos os segmentos e de todas as regiões.
A primeira delas tem a ver com o apelo por uma vida mais simples em resposta ao crescimento do consumo que põe em risco a vida no planeta e aumenta a desigualdade social. O desapego ao luxo e à ostentação é uma mensagem oportuna para políticos e pessoas que detém o controle dos meios de produção.
Outra questão se refere à busca por uma espiritualidade voltada para os excluídos e não para as formas de exercício de poder de onde demandam as forças de opressão. Uma espiritualidade que resgate a dignidade da pessoa humana diante da angústia, do desespero, da violência e das formas com que a maldade nos atinge.
A reflexão aponta para uma religiosidade voltada para a missão e não para o dogma e para a liturgia. Isso não quer dizer que não sejam importantes, mas, diante dos riscos iminentes que afetam a humanidade não há como encarnar a mensagem de salvação e libertação de Jesus Cristo.
Também há um apelo por uma fé mais relacional e menos contemplativa. Um exercício de fé que seja mais solidário, que conduza o cristão a uma vida de aproximação com o outro, que se expõe aos riscos de uma vida comprometida com as necessidades do outro.
Pode se afirmar ainda que esse acontecimento chama a igreja a se tornar mais imitadora de Cristo, como seguidora dos seus ensinos, como sal e luz para o mundo. Uma igreja que assuma de vez o desafio do Concílio Vaticano II de ser portadora de toda mensagem do evangelho ao homem todo.
O que será menos relevante é aquilo que chama a atenção da mídia: os tratamentos diplomáticos, as formalidades eclesiásticas, o espetáculo religioso e até as manifestações festivas. A JMJ passará e o que restará é o cristianismo que praticamos. Por enquanto, nos alegramos com a mobilização da juventude. Afinal, de fato é a janela para o futuro e é de onde se espera que venham as verdadeiras mudanças.

terça-feira, 18 de junho de 2013

Brasil vai às ruas: Protestos contra corrupção, impunidade e descaso político / Protests in Brazil / Manifestaciones en Brasil


O 17 de junho entra para a história como o dia em que o Brasil saiu às ruas. Ele já é identificado pela marca 17J, dada a relevância do fato de que jovens saíram às ruas para protestar em várias capitais e grandes cidades contra o quadro a que chegou a vida pública no país, abrangendo todas as esferas do poder. Engana-se quem ainda acha que é por causa do aumento de 20 centavos na passagem. Isso foi só o estopim para se dar o grito de basta.
O quadro emblemático desse movimento foi marcado pela ocupação da rampa do Congresso Nacional e pela multidão de mais de 100 mil pessoas no centro do Rio de Janeiro. O movimento começou a tomar forma em São Paulo e se inflamou com as cenas de violência da polícia contra os manifestantes, usando de um forte aparelhamento repressor que relembrava os anos de chumbo da ditadura militar. Essa insatisfação já vinha sendo expressa nas redes sociais. Agora, ganhou as ruas, com repercussões em todo o mundo.
O ambiente é propício. Cansou-se de se gritar “fora Renan” e vê-lo eleito presidente do Senado. A demora de um desfecho do julgamento do “mensalão” soa como impunidade. As negociatas no Congresso Nacional para elaborar leis chegam a ser escandalosas. O risco da volta da inflação como resultado da especulação do mercado é uma ameaça aos salários. E, como se já não bastassem os problemas internos, os preparativos para a Copa 2014 proporcionaram a construção de estádios com custos elevados, surgindo verbas de onde se dizia que não havia e que poderiam ser destinadas para sanar deficiências nas áreas de educação, saúde e infraestrutura.
Histórico, sem dúvida. Mas não inédito na história. Foi assim em 1968, contra a ditadura. Foi assim entre 1983 e 1984 com a campanha das Diretas Já. Foi assim com o movimento dos caras pintadas pelo impeachment do então presidente Collor. A diferença de hoje é que não há uma coordenação do movimento, sem uma entidade com credibilidade para dar forma a uma ação de mudança concreta. É um movimento de indignação, de gente que vai para a rua dizer que não aguenta mais o quadro de corrupção, impunidade e desmando político que grassam em todos os níveis de poder.
Ideológico, sem dúvida. O movimento nasce de uma mentalidade engendrada no contexto de uma sociedade marcada pelo consumo e pelo espetáculo. O importante é ganhar visibilidade e usar as redes sociais para expandir as manifestações com efeito viral. Além disso, a cultura pós-moderna aprendeu a questionar as instituições da sociedade e a colocar em xeque as estruturas de poder vigentes, sejam religiosas, governamentais e até político-partidárias. E isso é tremendamente caracterizado por uma ideologia neoliberal, influenciada pelo comportamento da classe média, apesar de ser apartidária, a favor da não violência e não direcionada a uma pessoa específica.
O dado positivo desse movimento é o grau de amadurecimento político a que chegou a juventude, ao afirmar que não aceita mais conviver com esse estado de coisas. De uma forma ingênua, talvez, mas que tem a coragem de dizer que do jeito que está não dá para continuar. Não dá para se ter mais uma mídia vendida a interesses políticos, confundindo a informação. Não dá para continuar aumentando impostos e tarifas sem a melhoria dos serviços. Não dá para gastar mal o dinheiro público, sem priorizar a educação, a saúde e a infraestrutura. Não dá mais para usar a força policial contra o povo, quando não a usa na mesma intensidade contra a criminalidade.
É isso. Escrever aqui é uma forma de protesto. Estou junto dessa juventude que conscientemente diz “basta”. Depois de ter assistido a tantos movimentos que foram explorados por forças de esquerda e de direita, torço daqui para que não descambe para atender a interesses de grupos hegemônicos. E oro para que uma voz profética se levante, como foram Dietrich Bonhoeffer e Martin Luther King Jr., para dizer que essa luta só terá sentido se for materializada na esperança de uma sociedade mais justa, com pessoas com direitos iguais, melhor distribuição de renda e tratamento digno como cidadãos.

terça-feira, 11 de junho de 2013

Por uma fé que se torna cultura / Gospel and culture / Evangelio y cultura

Uma fé que não possa ser partilhada e vivenciada de modo significativo pelas pessoas a partir do seu contexto cultural não vale a pena ser vivida. É celebre a formulação do papa João Paulo II: “Uma fé que não se torna cultura é uma fé que não foi plenamente recebida, não inteiramente pensada, não fielmente vivida”. O cristianismo sempre vagueou entre a inculturação e a globalização da fé, entre uma fé que se expressa no contexto da cultura e a universalização de valores e princípios que orientam a vida de fé. A grande questão que envolve a teologia tem a ver com a maneira como se torna possível vivenciar a chamada “fé uma vez por todas confiada a santos” (Judas 1.3).
Uma fé assim tem a ver com a identidade de uma comunidade local, com a maneira como as pessoas enfrentam seus conflitos de vida. Isso é o que está presente no cotidiano da vida comunitária, é o que encoraja as pessoas diante da crise, é o que ilumina a busca de sentido, é o que fortalece a esperança e o que aponta um futuro. Uma experiência de fé assim está sujeita a uma atualização constante, carece de aperfeiçoamento a partir de um processo permanente de diálogo. Já houve tempo em que fazer missão era exportar um modelo cultural, confundido-se unidade com uniformidade.
O fenômeno da globalização, marcado pelas novas tecnologias de informação, permite um fluxo cultural maior entre o global e o local num efeito de complementaridade. Daí a máxima “pensar globalmente, agir localmente”. O que se percebe é que o global é sempre assimilado localmente de uma forma muito particular, de modo que a experiência de uma cultura local só pode ser compreendida à luz de paradigmas globalizados. E isso se dá no campo da fé também.
A realização da missão no contexto da cultura é a característica principal do Reino de Deus. Nesse sentido, Jesus afirmou que seu Reino não é deste mundo, mas que é trazido para as pessoas que nele vivem como realização plena de sua humanização. A realização do Reino em diferentes épocas e em diferentes espaços traz exigências para a vida de fé. Sua essência permanece, mas suas formas de expressão podem mudar, como mudou ao longo da história.
O que é comum todos os povos, línguas e nações é a graça salvadora, revelada na pessoa de Jesus de Nazaré e proclamada no Evangelho. Trata-se de uma iniciativa divina de se autocomunicar com a humanidade toda, de modo que a fé deve ser entendida sempre como a resposta a esse gesto de Deus. Fé que não acolhe o gesto divino como graça não faz sentido. O gesto divino se realiza nessa acolhida de fé por parte das pessoas e se expressa por meio das representações e ações no âmbito da cultura. O humano é marcado pela cultura. É por causa dela que fazemos uso da linguagem e de gestos para interagir com outras pessoas. Sendo assim, toda a revelação só é compreendida como inculturada. Não dá para falar em uma fé pura, mas que é sempre vivenciada no interior de uma realidade cultural.
Uma fé que não se expressa através das habilidades e talentos das pessoas em seu contexto cultural carece de aperfeiçoamento. Uma comunidade de fé que não consegue compreender isso não alcançou o sentido da missão e precisa rever seus conceitos. Além disso, a vida marcada pela fé envolve a experiência com o transcendente de modo tal que a graça salvadora se manifesta de forma diversa para o bem comum. É a fé que expressa como dom, é a graça que se torna concreta nas ações em favor do outro. Dons espirituais são amostras da multiforme graça de maneira que possa ser acolhida em fé. Uma fé que se transforma em dom, talentos e habilidades é o que permite que a missão seja levada a efeito e de tal modo que possa ser relevante para um tempo que aprendeu a viver sem Deus.

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Curso de Desenvolvimento Pessoal Estratégico, em João Pessoa - PB


Entre os dias 17 e 20 de julho, estarei ministrando um curso sobre Desenvolvimento Pessoal Estratégico. Será na Igreja Batista Litorânea, João Pessoa - PB. As vagas são limitadas e as inscrições podem ser feitas pelo telefone (83) 3245-2741.

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Por uma fé que nos conduz a ser como Cristo / To be like Christ / Ser como Cristo


John Stott, em seu último sermão, disse que o propósito de Deus é que nos tornemos semelhantes a Cristo. Isso tem a ver com o que o apóstolo Paulo escreveu no passado: “Meus filhos, novamente estou sofrendo dores de parto por sua causa, até que Cristo seja formado em vocês.” Gálatas 4.19. Ser semelhante a Cristo é um projeto de vida.
O centro da mensagem cristã é que Deus se fez humano por amor ao humano. Jesus Cristo não pode ser visto como simplesmente um humano, mas o ser humano. A encarnação, a maneira como viveu e a crucificação de Jesus estabeleceram um novo paradigma para a noção de realização humana. Quando a gente fala do humano, sempre é a partir de um campo limitado. O único que pode elaborar um conhecimento do humano em sua condição real é Deus, não só como criador, mas também por ter assumido a própria condição humana.
Até mesmo quando se pensa no sucesso como uma forma de realização humana, sempre será pelo viés da incompletude, dentro dos limites de nossa razão. Ser bem-sucedido levando-se em consideração os modelos fornecidos pela sociedade de consumo ou pela lógica da competitividade é uma forma de rejeição de nossa humanização. O novo paradigma proposto pela fé é ser semelhante a Cristo. Sem dúvida, é muito mais confortável ajustar-se ao modo de vida aceito pela sociedade do que aceitar o desafio de viver como Cristo.
Somente pela fé em Jesus Cristo é possível ter esperança de humanização, pois nele a humanidade se fez nova, ganhou novo significado. O milagre da encarnação, o fenômeno da crucificação, a ressurreição de Jesus deu à luz a um novo modo de ser, uma nova vida, uma nova criatura: o novo homem reconciliado com Deus. Isso significa que Deus toma forma no humano para que possamos viver a nossa humanidade perante Deus. Significa que Cristo toma forma no humano a partir de circunstâncias concretas vividas. Significa dizer que desperta o chamado para viver em novidade de vida na medida em que somos interpelados pelo tempo e pelo espaço, marcados pela cultura, pelos processos históricos e pela abertura na relação com o outro.
Bonhoeffer afirmou que “o ser humano real, julgado e renovado não existe senão na forma de Jesus Cristo e, consequentemente, na conformação com ele”. O evangelho nos convida a adotar um modo de vida em que Cristo tome forma nele. Entretanto, ninguém consegue fazer isso sozinho. Isso é uma experiência trinitária e comunitária: trinitária porque o Espírito Santo nos encoraja a assumir o caráter em Cristo e comunitária porque a igreja se constitui o espaço onde se pratica a conformidade com Cristo. A Trindade está envolvida nisso e a comunidade dos que aceitam esse desafio está implicada nisso também.
Em função disso, Paulo também dizia: “Trazemos sempre em nosso corpo o morrer de Jesus, para que a vida de Jesus também seja revelada em nosso corpo.” 2 Coríntios 4.10. Muitos hoje têm muita informação sobre a figura histórica de Jesus, mas a grande maioria não faz ideia do que significa fazer disso um projeto de vida. Esse conhecimento só será possível a partir do momento em que eu mesmo fizer disso o meu projeto de vida.

segunda-feira, 18 de março de 2013

A eleição do papa Francisco e o futuro do cristianismo / The election of Pope Francisco and the future of Christianity / La elección del Papa Francisco y el futuro del cristianismo

A sucessão do papa está cercada de surpresas: a surpresa da renúncia, a surpresa da escolha rápida, a surpresa do primeiro papa jesuíta e latino-americano e a surpresa do nome Francisco. O Cardeal Jorge Mario Bergoglio, Arcebispo de Buenos Aires, escolhido no dia 13 para ser o novo papa, traz expectativas de mudanças para uma igreja que se encontra em crise. É, sem dúvida, um fato histórico cercado de muitos significados e que exige muito cuidado para sua análise e compreensão.
A princípio, ventos de mudança sopram pelo Vaticano e o cristianismo como um todo. Primeiro por que a igreja passa por uma crise diferente das que já passou em outras épocas. A igreja que já enfrentou feras, fogueiras, imperadores e heresias enfrenta uma crise que é deste tempo, marcado pelo desencantamento do mundo, pela fragmentação do sujeito e pelo fim dos absolutos. O que está em jogo não é mais a autoridade e identidade da igreja, mas a validade da fé em Jesus Cristo como único meio de salvação. O homem contemporâneo aprendeu a viver sem Deus e se sente muito bem com isso, de tal maneira que é indiferente à proposta de fé cristã.
O discurso religioso do cristianismo é como uma voz em meio a muitas outras vozes que soam aos ouvidos de uma humanidade errante como ovelhas sem pastor ao mesmo tempo em que a voz do pastor como aquele que guia já não faz mais qualquer sentido hoje se não for marcada pelos apelos da sociedade de consumo, do prazer e do individualismo que se formou.
A chegada do novo papa é marcada pela esperança de que as mudanças sonhadas pela cristandade desde o fim da Idade Média finalmente cheguem até nós. É desde lá que se diz que a igreja precisa mudar o rumo. Essa foi a vocação de Francisco, o de Assis. Esse foi o legado de John Wycliff, João Huss e Savonarola. Essa foi a intenção dos reformadores protestantes. Essa foi a proposta do Concílio Vaticano II. E que mudanças são essas? A retomada de um modo de vida marcado pelo caráter de Jesus de Nazaré.
Conforme Leonardo Boff afirmou, o nome Francisco é um arquétipo das possibilidades de mudanças. Uma igreja pobre para os pobres, centrada nos valores anunciados pelo Cristo, como o perdão, a misericórdia e a simplicidade. Conseguiremos ver isso acontecer? Num espaço curto de tempo, será difícil de se ver. As mudanças na igreja romana fazem parte de um processo muito lento, dado o seu gigantismo e seu milenarismo, que pode levar tempo, séculos talvez. O importante é que o discurso se faz ouvir a partir do núcleo, do centro em que se exerce o poder da igreja, o próprio pontífice, não mais das suas periferias.
Tenho para mim que as mudanças que são de fato necessárias não são estruturais, eclesiológicas ou políticas. Elas são conjunturais. Cristãos precisam assumir uma nova consciência, a de que somos parte de um todo complexo e que dependemos uns dos outros para existir. Precisamos nos dar conta do fato de que não somos espectadores de um naufrágio, seguros em um porto. Estamos todos num mesmo barco e corremos os mesmos perigos.
O fato de o novo papa ser argentino, latino-americano e jesuíta é secundário. O que pesou mais em sua escolha foi o fato de ser conservador e ter uma história de cuidado no campo pastoral. Afinal, um colégio de cardeais conservadores elegem sucessores a sua imagem e semelhança. Suas primeiras palavras indicam que há duas tendências que serão pautadas: a experiência mística e a ação pastoral. Não são alternativas novas. É o apelo da fé e da missão. Não são alternativas entre muitas. São as únicas alternativas viáveis. Que esses ventos de mudança soprem sobre protestantes também.

segunda-feira, 11 de março de 2013

Direitos humanos, intolerância e preconceito: a propósito da indicação de Marco Feliciano / Human rights, intolerance and prejudice / Los derechos humanos, la intolerancia y los prejuicios

Os protestos contra a indicação do pastor evangélico Marco Feliciano à presidência da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados traz à tona a discussão em torno de um tema que envolve a relação com as liberdades individuais: questão dos direitos das minorias. A própria indicação em si já é resultado de uma manobra que está longe de interessar a quem luta pelos direitos universais do homem, quanto mais às minorias. Acho até que haverá muita dificuldade para encontrar um nome de consenso dentro da própria comissão – e da composição atual do parlamento brasileiro – para estar à frente da pasta.
Pelo fato de ser pastor e estar à frente de um movimento oriundo no seio do protestantismo, Marco Feliciano supostamente teria tudo para responder ao cargo. Afinal, a função pastoral é de ajudar as pessoas a governarem bem a sua vida de tal maneira que encontrem sua realização plena. Além disso, a luta pelos direitos humanos, pela tolerância e pela liberdade de expressão nasceu em um contexto peculiar ao movimento da reforma protestante e se tornou sua bandeira de luta na Modernidade. Há também que se falar no apelo cristão e evangélico – do Evangelho mesmo – à liberdade, ao respeito aos valores humanos e à fraternidade.
O que se vê, no entanto, é que o pastor Marco Feliciano carrega consigo um rastro de preconceitos e intolerâncias que estão completamente em oposição à história da igreja evangélica no mundo e ao cerne da mensagem cristã. E o pior disso tudo é que não há como ele se dar conta disso, pois está inserido no contexto de uma teologia triunfalista e ufanista, herdeira de uma cultura de culpabilização, que constitui hoje a teologia evangélica praticada no Brasil, notadamente a que faz uso dos meios de comunicação de massa e arrasta multidões aos seus templos.
O resultado é um desastre: as minorias lideradas por um patrulhamento ideológico, consequência da intolerância e preconceito, combatem a pessoa de Marco Feliciano com mais intolerância e preconceito. Não, ele não é inocente e nem é a pessoa indicada para o cargo. Sua indicação é prova do fracasso da sociedade politicamente organizada que não dispõe de melhores exemplos de luta pela defesa dos direitos humanos. Essa luta é que não é pessoal. Ele é de toda a sociedade. Não basta que celebridades midiáticas chamem o pastor de “monstro”. Monstruoso é ver que chegamos a um ponto de saturação da tolerância em que não dá mais para se tolerar, pois aqueles que tinham o dever de fazê-lo são os mais intolerantes.
Isso abre um caminho perigoso: não dá para aceitar o pastor intolerante e preconceituoso na Comissão de Direitos Humanos, mas dá para se silenciar diante da nomeação de um acusado de corrupção para a Comissão de Finanças, um acusado de fraude na Comissão de Justiça e um acusado de desmatamento na Comissão de Meio Ambiente. O caminho dessa nova moralidade é que é perigoso, que diz o que pode e o que não pode na vida pública como se isso fosse numa troca, que permite que alguns erros sejam intoleráveis e outros aceitos com mais passividade. E como se faz essa distinção? Pela intensidade do grito, pelo patrulhamento e pela execração da figura pública nas redes sociais, abaixo-assinados e outros.
A indicação de Marco Feliciano para a Comissão de Direitos Humanos é um absurdo. Por trás disso está a figura de um pastor que deveria ser um exemplo e testemunha do amor de Jesus a todas as criaturas. Está também o retrato de uma sociedade errante que não tem quem a guie como um pastor. Quando a sociedade começa a questionar com razão aqueles que têm o dever de guiá-la, é hora de chorar. Fracassamos na nossa missão.

sexta-feira, 1 de março de 2013

Uma fé que precisa do outro / A faith that needs the other / Una fe que necesita del otro

O que é a fé senão uma experiência de encontro? Muitos a veem como uma dádiva concedida para que, através de sua posse, sejamos salvos. Outros a veem como um saber adquirido, um conjunto de prescrições, valores e princípios que orientam a vida. Sim, a fé é isso: dádiva e conquista, o que orienta a vida, o que dá sentido à existência. Isso não é uma mera faculdade humana. É graça à qual temos acesso pelo ouvir.
Entretanto, quero apontar um terceiro modo de entender a fé: experiência de encontro. O cristianismo se apropriou de uma palavra que os gregos usavam para descrever a fé: pistis. Essa palavra significava uma confiança que a pessoa poderia adquirir ou receber por dar credibilidade a alguma coisa ou a alguém. Implicava uma conduta, uma relação com o outro. Daí a ideia de fidelidade. Só posteriormente que recebeu um sentido de convicção, no sentido de um destino final.
A cultura judaica já conhecia esse sentido primordial da fé como confiança. A palavra hebraica aman significava “ser digno de confiança”. Sendo assim, a fé é elemento fundador de uma relação, de acolher e de ser acolhido pelo outro. O cristianismo é isso: resultado de uma experiência de encontro com o Cristo vivo, que nos acolhe por amor e deseja que o acolhemos em amor.
A fé assim implica encontro com o que está para além de nós, com o transcendente. E o fazemos na medida em que percebemos esse transcendente como uma pessoa que se faz ausente e distante. É na ausência de Deus que podemos elaborar uma experiência de busca e, em meio a isso, permitir que Deus revele a nós quem ele é.
A fé que é encontro também nos confronta com o outro. Não é um isolamento monástico, um afastamento do mundo, uma reclusão. Antes, é a abertura para as interpelações que o outro me impõe na medida em que ele mesmo se mostra para a mim e me reconhece como pessoa. É como um espelho em que tudo o que se dá não passa de representações que exigem múltiplas interpretações. Gestos, palavras e expressões compõem o misterioso universo do dito, do não dito e do interdito que atravessa nossas interações com o outro.
A fé como encontro é um mergulho no ser, um encontro consigo mesmo. Implica coragem de desvendar para si o que está por trás das muitas máscaras que se usa e que acabam confundindo e iludindo a respeito de quem se é. Uma fé que não ajuda a descobrir a si mesmo não passa de alienação, de delírio, de entorpecimento. Um exercício de introspecção que não contribui em nada se não servir para me lançar de volta a uma busca de Deus e a uma caminhada com o outro com todos os perigos que isso envolve.
Por isso que os cristãos primitivos usavam tanto a expressão “uns aos outros”. A experiência de fé exige uma aceitação do outro do jeito que é. Exige o exercício de paciência a fim de que as condições históricas de uma caminhada possível se concretizem. Exige um exercício de parceria, de solidariedade, que implica muito mais o que se tem a oferecer do que o que se tem a receber. Exige uma vivência em amor, nos moldes do que Cristo viveu ao assumir o perigo da cruz.
A fé que não pode ser partilhada como uma experiência “uns aos outros” parece estranha à proposta do cristianismo. Ao contrário, a fé é condição para ser cristão porque nos tira no isolamento, do e egoísmo e da morte para nos devolver à vida e nos remeter de volta ao que nos dá sentido. O que nos tira disso é pecado: “o que não provém da fé é pecado”. Romanos 14.23.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Renúncia do Papa Bento XVI e Missão da Igreja / Resignation of the Pope and the Church's Mission / Renuncia del Papa y de la misión de la Iglesia

A notícia do pedido de renúncia do Papa Bento XVI, no último dia 11 de janeiro de 2013, e a vacância do cargo no Vaticano, a partir de 28 de fevereiro, reacende a questão sobre a natureza e missão da igreja em sua dimensão histórica. Não é só pelo fato de ser um acontecimento único na história do cristianismo, mas porque deixa em aberto questões que perturbam o papel da igreja e a luta por sua relevância num mundo que aprendeu a viver sem Deus. Há 600 anos que um Papa não renuncia. Até mesmo muitos daqueles primeiros líderes cristãos – do século I ao IV –, que são apontados como os primeiros papas, deixaram o cargo pelo martírio.
Está claro que a igreja de Roma não é a única representação cristã no mundo. Entretanto, a sucessão no Vaticano afeta todos os segmentos cristãos. Os cismas com o Oriente e a Reforma Protestante permanecem uma ferida aberta difícil de ser cicatrizada. Há também os temas contemporâneos sem solução, como a relação com os conservadores radicais, o impasse da Teologia da Libertação na América Latina, o problema da pedofilia, o diálogo inter-religioso e os caminhos apontados pelo Concílio Vaticano II que não foram ainda vivenciados em sua totalidade pelo catolicismo.
Quando o Papa assume divulgar sua decisão de renunciar, há alguns implícitos nessa atitude. Primeiro, o de que a igreja é feita de pessoas que se deixam afetar e que sofrem afetos , que se sensibilizam com a fragilidade uns dos outros e que se veem reproduzidas naquele que assume a função de servir como guia. Segundo, o de que o papa é um ser humano com todas as suas dimensões humanas de imprevisibilidade e finitude, movido por expectativas e temores, fé e incertezas, esperanças e incompletude. Terceiro, o de que a igreja se rende ao domínio e à lógica do mercado, como uma instituição humana, que exige cada vez mais competência e desempenho para lidar com as questões que emergem de modo frenético nos embates atuais.
A igreja de Roma e o cristianismo como um todo se dão conta de que, para atender às demandas de um mundo que cada vez mais rejeita os discursos e as formas de dominação tradicionais, se faz necessário rever os paradigmas atuais. O que resta disso é que a figura do papa continua sendo agregadora, reunindo em torno de si um elemento que confere unidade ao cristianismo: a necessidade e a relevância de se manter a figura papal, ou não.
São sinais de mudança que trazem boas expectativas. Haverá um tempo em que a igreja terá que assumir sua condição humana e declarar que aquela fumaça branca do colegiado comporta algo muito maior que a sucessão do trono de Pedro. Haverá um tempo em que a igreja terá que admitir que o papel pastoral tem mais a ver com o serviço do que com a soberania. Haverá um tempo em que se acreditará que é possível intervir socialmente no mundo assumindo de vez que somos, todos os cristãos, o espaço em que Cristo toma forma no mundo. Esse tempo imagino que esteja chegando e que já deu o seu primeiro sinal.

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Tragédia e memória: às vítimas de Santa Maria / Tragedy and memory / Tragedia y la memoria

Desde a manhã de domingo, o Brasil inteiro é tomado de uma perplexidade e dor sem fim. A dor dos moradores de Santa Maria, principalmente das famílias que perderam seu futuro, é mesma de todos nós. Alguém já disse que quem perde um pai é chamado de órfão, quem perde um cônjuge é chamado de viúvo, mas quem perde um filho não tem nome devido a tamanha dor. Dor que não se aplaca com palavras, dor do vazio, dor da perda. Mas uma dor que não nos deixa esquecer que por trás de toda essa tragédia está uma história de descaso e arbitrariedade que tem marcado a vida em sociedade no nosso país.
Eu sei que esse não é um problema brasileiro. Outras tragédias como essa, com boates sendo incendiadas por descuidos de integrantes de bandas ou por ganância dos proprietários, já aconteceram na Argentina, na França, na Rússia e nos Estados Unidos. Em todas elas, as vítimas eram jovens cheios de sonhos e planos. O problema é que outras tragédias já aconteceram em nosso país e pouco aprendemos com elas. O incêndio do Gran Circo em Niterói, por exemplo, foi há 51 anos. Acontecimentos assim nos trazem à memória um histórico de perda. A dor das mães se torna dor coletiva em que todos nós sofremos perdas e danos.
As vítimas de Santa Maria não nos deixam esquecer de que há responsabilidade do poder público e que há corrupção por parte do setor privado, o que provoca consequências com essa dimensão. O que falar dos mortos em chacinas, emboscadas, golpes e traições? Em toda essa história de perdas, duas marcas predominam: de um lado, a marca da impunidade e, de outro, a da superação. Se de um lado temos poucas expectativas de que mudanças significativas aconteçam, por outro as ações de solidariedade abrem novos caminhos de justiça. Se de um lado temos a suspeita de que os verdadeiros culpados ficarão impunes, de outro temos expectativas de que podemos viver num mundo mais solidário, de pessoas que se ajudam a superar a dor. Se de um lado a impunidade impera, de outro o grito de superação prevalece.
Até quando vamos ter que chorar as vítimas de tragédias anunciadas, da impunidade, do desmando e da ganância? Depois da tragédia, restam outras vítimas, os sobreviventes que se perguntam: por que meu filho? Por que meu melhor amigo? Por que ele e não eu? Somos todos nós que, junto com pais, irmãos e amigos, nos sentimos impotentes por não termos conseguido evitar o pior, morremos um pouco a cada dia por saber que isso ainda não acabou. Nessa hora, vale a atitude de Jeremias: “Todavia, lembro-me bem do que pode me dar esperança.” Lamentações 3.21. Às muitas vítimas de Santa Maria, deixo a minha solidariedade em oração a fim de que a esperança permaneça como uma sobrevivente em meio a tanta dor.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

A vida é uma viagem / Life is like a journey / La vida es como un viaje


“Navegar é preciso, viver não é preciso”, disse Fernando Pessoa. Alguns podem imaginar que a vida é uma viagem em que navegar ou seguir adiante é mais necessário do que viver propriamente. A frase remonta ao tempo de Pompeu, quando comandava uma frota com suprimentos para Roma. Era urgente e imperioso navegar até o destino, para cumprir a missão. A figura poética, porém, remete mais ao caráter da imprecisão da vida do que da necessidade. A vida não é como uma navegação, que se baseia em dados precisos e objetivos. A vida é marcada por muitas perguntas que muitas vezes não encontraremos respostas.
Uma expressão antiga: ”vivere navigare est”. Ou seja: “viver é fazer uma viagem”. Pode ser curta para alguns ou longa para outros. O que importa é que do outro lado há um porto de chegada, apesar de todos os riscos que a viagem comporte. Para chegar lá, o barco foi pensado e preparado para fazer todo o percurso, capaz de enfrentar grandes ondas e tempestades. Não faz sentido ficar ancorado no porto, sem cumprir sua missão: navegar. O mais importante não é tanto a maneira como você parte, mas o fato de ter chegado lá.
Isso exige um mergulho no ser. Quem sou eu para que alguém se importe tanto comigo? O nosso valor não está naquilo que temos, nem no que sabemos e muito menos nos relacionamentos que fazemos. O nosso valor está no fato de que somos seres amados por alguém que se importa. Comparados com a grandeza do universo, somos como uma poeira insignificante. Mas mesmo assim a nossa vida se reveste de significado, nos sentimos valorizados e até achamos que somos importantes. E de fato o somos. Porém, nada disso é tão expressivo do que quando nos sentimos acolhidos e amados por quem nos criou, apesar de nossas limitações. Você é alguém amado por Deus, mesmo com tantas limitações. Portanto, busque ajuda para reconhecer esse amor e a correspondê-lo na vida diária.
Isso provoca um salto para o além. Quem é Deus para que eu me preocupe com ele? O ser humano tem em si mesmo um misto de finito e infinito, uma faculdade que o torna capaz de olhar para dentro de si e uma abertura para imaginar o que está além. Ao mesmo tempo em que somos pessoas limitadas, ansiamos pela liberdade. Algumas vezes, por vaguearmos entre nossos limites e nossos anseios, nos perdemos de nós mesmos. É nessa hora que Deus se faz mais presente, como aquele que nos acolhe e nos conduz de forma segura. Por sermos assim tão imprecisos, precisamos de um guia seguro. E Deus se oferece para conduzir-nos para desfrutarmos o melhor que ele tem preparado nessa vida. Quando Deus está no controle da nossa vida, nada nos faz sentir medo. Agradeça por Deus ser o seu guia seguro, mesmo quando não o percebe nem o reconhece.
Isso desperta um grito por socorro. Afinal, o que estou fazendo aqui? A vida é feita de incertezas. Embora possamos nos cercar de tantos recursos e estratégias para nos sentirmos seguros, não temos a garantia de que estamos livres dos imprevistos. O improvável, o imponderável e a incerteza fazem parte do nosso cotidiano mais do que aquilo que podemos provar, conhecer ou ter convicção. Isso pode gerar angústia e medo, principalmente no que diz respeito ao nosso futuro. Quando a dúvida e a incerteza vêm, somente Deus se oferece como segurança. Ele quer ser o protetor em todo o tempo a fim de que, na hora da angústia, nos sintamos amparados. Na hora da dor, Deus é o primeiro a ouvir o nosso grito, o último recurso de que dispomos e o único que não nos abandona. Reconheça que o Senhor é refúgio na hora da angústia.
Isso implica um ato de sabedoria. O que mais importa nessa vida? Se a vida é marcada por tanta incerteza, por que então lutar por uma vida melhor? Não há nada de errado em desejar o melhor nessa vida. Afinal, também somos constituídos de fé e esperança. É por isso que não nos conformamos com as situações de injustiça e de violência a que somos submetidos. É por isso também que fazemos planos e sonhamos com dias melhores. E é isso que dá sabor à vida, principalmente quando temos a confiança de que Deus está no controle e que ele trabalha para que desfrutemos sempre do melhor. Ele também tem sonhos e planos para nós que valem a pena serem conhecidos. O melhor de Deus para a nossa vida ainda está por vir. Faça uma entrega de sua vida a Deus para que ele realize nela o seu melhor.
Isso demanda uma escolha necessária. Como vou viver daqui por diante? Não dá para viver do mesmo jeito depois que a gente sabe que alguém nos ama. Isso é desconcertante para nós e nos desaloja de uma tal maneira que não faz sentido para nós viver sem desfrutar desse amor. A única decisão necessária diante do amor e do cuidado de Deus por nós é acolhê-lo e reorientar a nossa vida em função disso. Você vai descobrir que o Deus que ama também fala e tem ensinos maravilhosos e úteis para uma vida feliz. Você vai descobrir ainda que há outras pessoas com quem você precisa compartilhar essa alegria de ser amado por Deus. Afinal, ele não faz distinção de ninguém. Você foi feito para viver de acordo com os propósitos de Deus. Ore agora: “Senhor, eu quero conhecer e desfrutar mais do seu amor por mim.”

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Escolhas / Choices / Decisiones


A todo momento estamos fazendo escolhas. Alguém já chegou a dizer que a vida é a arte de fazer escolhas. Que roupa usar, que carreira seguir, com quem se relacionar, o que consumir? Trata-se de uma atitude interior carregada de intencionalidade, a partir da qual tomamos decisões. As principais escolhas da vida são construídas lentamente, parte de um processo histórico, como uma rede de pequenas decisões cotidianas, que orientam nossas atitudes diante do mundo e das pessoas.
O ato de escolher requer que se abra mão de uma coisa em favor de outra, implica atitudes que influenciam o nosso futuro. Mesmo quando decidimos por não escolher, isso já é uma escolha. O tempo todo recebemos propostas de como podemos ser felizes, bem-sucedidos, santos e até ricos. O problema é que os caminhos propostos para essas conquistas não são os mesmos para todas as pessoas. O processo de escolha e de tomada de decisões envolve toda a pessoa e a maneira como ela é social e culturalmente construída.
A ética é o campo do saber que lida com a nossa capacidade de fazer escolhas ao tentar responder à pergunta sobre por que fazemos as coisas que fazemos do jeito que fazemos. Normalmente, envolve os aspectos relacionados ao que se quer, ao que se pode e ao que se deve. O problema é que nem tudo o que eu quero, posso; nem tudo que eu devo, quero e nem tudo o que posso, devo. As maiores crises da nossa vida não acontecem por causa de grandes erros, mas por causa de pequenas escolhas. O poeta chileno Pablo Neruda afirmou que “você é livre para fazer escolhas, mas é prisioneiro das consequências”.
Tomar decisões responsáveis não é uma tarefa fácil, principalmente quando as escolhas são feitas diante da dor e do sofrimento. Isso pode gerar atitudes como a acomodação, a frustração, a sublimação, o recalque e até a depressão. Como reagimos quando fazemos escolhas erradas, principalmente em relação àquilo que mais desejamos? Sêneca afirmou: “Você é as suas escolhas.”
Santo Agostinho identificou o campo da liberdade da vontade (ou livre-arbítrio) em nossa condição humana. Leibniz compreendeu que toda escolha, que é marcada pela contingência, pela espontaneidade e pela reflexão, torna-se determinante da ação. Para Soren Kierkegaard, o homem, depois de pecar, ganhou a liberdade de fazer escolhas e o faz em meio a uma vivência de angústias. Para Jean Paul Sartre, o ser humano torna-se o que é ao fazer suas escolhas. Afinal, “viver é isso: ficar se equilibrando o tempo todo entre escolhas e consequências”.
No seu livro sobre a teoria da escolha, William Glasser afirmou que sempre podemos fazer escolhas acertadas por piores que sejam as condições em que nos encontremos. Todo comportamento é uma escolha, proposital e dirigida, para satisfazer nossas necessidades básicas de sobrevivência, pertencimento, poder, liberdade e diversão.
Como se vê, escolher tem a ver com uma disciplina da vida, considerando-se a disciplina como uma atitude que procura adiar um gozo em nome de um prazer maior. Em tempos de um hedonismo a qualquer custo, do individualismo exacerbado e da busca de realização do instante ao extremo, isso requer um esforço maior. O imediatismo da escolha e o pequeno espaço dado à reflexão crítica tem produzido um quadro de pessoas que desaprenderam fazer escolhas por si mesmas e que precisam de guias que as auxiliem ou até que tomem decisões em seu lugar.

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