terça-feira, 15 de julho de 2008

Onde estão os santos? / Where are the saints?

Tomei a liberdade de tomar emprestado algumas palavras de João Pereira Coutinho, em sua coluna do jornal Folha de São Paulo. Trata-se de uma interessante reflexão para hoje, de como a dimensão de santidade tem assumido contornos ambígüos, como tudo o que caracteriza esse tempo pós-moderno.
"(...) A religião não é apenas um conjunto de dogmas e ritos destinados a celebrar a transcendência; a religião é, como diria Durkheim, um fato social. Ela permite "ligar" uma comunidade de estranhos num propósito comum.
(...) A comunidade cristã pode estar em declínio nas nossas sociedades; o número de fiéis diminui drasticamente no Ocidente "rico" e "pós-moderno"; e, para sermos honestos, quem observa as recomendações do Vaticano em matéria sexual?
Mas o recuo da comunidade cristã, com seus dogmas e ritos, não aboliu a necessidade de crença: a necessidade que temos de acreditar em algo que é maior do que nós e que redime a nossa precária condição.
E se as pessoas já não adoram figuras de madeira ou pedra, como em Fátima ou Lourdes, são os grandes mitos pop, na música ou no cinema, que servem a esse propósito: eles congregam "romarias", inspiram momentos de "transcendência", permitem que o "crente", convertido em "fã", possa assim encontrar um caminho e um exemplo.
Os santos morreram. Mas ninguém sobrevive sem o seu.
Para os ingleses, a santa era Diana. Para o mundo de hoje, a santa é Angelina Jolie. Mas quem é Angelina Jolie?
Atriz, sim. Atriz mediana, sem dúvida. Mas Angelina, com inteligência imaculada, entendeu o ar do seu tempo e agiu em conformidade: antigamente, os diamantes eram os melhores amigos das mulheres. Mas hoje, num mundo democratizado, em que qualquer milionário anônimo pode entrar em loja da Quinta Avenida e torrar uma pequena fortuna em joalheria fina, a verdadeira marca distintiva não é mais material; é espiritual.
Um diamante é fácil. Um órfão cambojano não é fácil, nem está à venda na Quinta Avenida: exige esforço, disponibilidade e, finalmente, o triunfo pio que a estrela de Hollywood gosta de exibir perante as lentes fotográficas. O caçador e o seu troféu.
Angelina não tem jóias para mostrar. Mas tem um filho cambojano, um vietnamita e uma etíope, além de uma biológica. E, agora, o Altíssimo concedeu a santa Angelina não mais um filho, e sim dois: um par de gêmeos nascidos em hospital francês, em clima de sacralidade absoluta. Cá fora, hordas de jornalistas e alienados procuravam uma imagem do milagre. Ver, sentir e eventualmente tocar os ungidos sempre consolou os crentes.
O milagre será mostrado, sim, mas por meio de revista americana que já conseguiu os direitos da "revelação" por US$ 11 milhões. A cifra será distribuída por obras de caridade.
E se os leitores ficam impressionados com os contornos religiosos do fenômeno, aviso que estamos apenas no início. Com o fim das religiões tradicionais, as celebridades pop ocuparão o lugar dos velhos santos, espalhando a palavra redentora e, quem sabe, curando os cegos, os loucos e os paralíticos. (...)" (jornal Folha de São Paulo, 15 jul 2008)

segunda-feira, 14 de julho de 2008

Não a minha vontade / Not my will

Devemos aprender a oração de Henry Martyn: "Senhor, não permitas que eu tenha nenhuma vontade que seja propriamente minha, ou que considere a minha verdadeira felicidade como dependente, no mínimo grau, de qualquer coisa que me sobrevenha exteriormente, mas como consistindo inteiramente na confirmação com a Tua vontade".
Reconhecer que não temos uma vontade autônoma, que somos limitados em nossa capacidade de entendimento, que somos dependentes de um relacionamento com Deus é o primeiro passo para a espiritualidade. Pensar assim é o mais nobre ato de nossa humanidade: descobrir que somos humanos. Isso nos impões dois princípios: o de que somos criaturas e o de que somos aprendizes.
Como criaturas, seguimos um modelo criado para um fim específico. Como aprendizes, descobrimos que o que nos torna verdadeiramente humanos é o processo de aprendizagem a que estamos inseridos. Fomos criados para um propósito e só chegaremos lá por meio de um processo de aprendizagem.
O fato de ter sido criado como ser humano não é suficiente, por si só, para nos garantir o sentido da vida. Estamos sempre insatisfeitos, queremos sempre mais e melhor. Ânsiamos por um mundo melhor, estamos sempre em busca da felicidade. Esse caminho entre o que fomos criados e o que precisamos ser é que se constitui naquilo que podemos chamar de espiritualidade. Tanto é que o que mais importa não é o que você realiza, mas aquilo em que você está se tornando. Isso é um exercício, em que você precisa abrir mão daquilo que você acha que é para tornar-se aquilo para o qual você foi criado.

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