domingo, 29 de março de 2015

Quem precisa de igreja? / Who needs church? / ¿Quién necesita la iglesia?

Portanto, vocês já não são estrangeiros nem forasteiros, mas concidadãos dos santos e membros da família de Deus.” Efésios 2.19
Quantas vezes você já ouviu dizer que a igreja perdeu sua utilidade no mundo, que as pessoas não estão nem aí para ela? Quantas vezes você ouviu falar que a igreja está ultrapassada e que ela defende valores e crenças que ninguém mais acredita?
Estas duas perguntas, que estão presentes nos discursos tanto de cristãos quanto de não cristãos, remetem a uma necessidade de reflexão mais profunda sobre a relevância da igreja para os dias atuais. Essa reflexão pode começar com a pergunta inquietante: quem precisa de igreja? A resposta pode ser “ninguém” e “todos nós”.
São respostas antagônicas, mas que refletem bem o grau de confusão que se criou em torno da experiência de ser igreja no mundo. É a partir delas que podemos descobrir a utilidade e atualidade da missão que a igreja possui.
Ninguém precisa de uma organização hierárquica, com estruturas rígidas, conservadoras, que cria uma barreira entre clérigos e leigos. Essa igreja clerical não corresponde ao chamado de Jesus a servir uns aos outros.
Ninguém precisa de uma instituição que se afirme como guardiã da moral e bons costumes, de valores eternos e imutáveis, de saberes divinos e inquestionáveis. Até mesmo o discernimento das Escrituras é dado a gente simples por meio da ação do Espírito Santo.
Ninguém precisa de um espaço ou de um tempo mais sagrado que o outro. Sagrada é a vida que se renova a cada dia, que se faz e se refaz na dimensão do encontro com o outro, que é ao mesmo tempo aquele que anda com a gente, que nos vê por inteiro. Para se fazer conhecido, Deus se fez gente na pessoa de Jesus, ele mesmo teve um rosto e possuiu uma identidade para que pudesse se relacionar conosco.
Porém, todos nós precisamos ser acolhidos em uma relação de comunhão, como partes integrantes de uma família, que partilha o amor de Deus entre todas as suas criaturas. Uma igreja que se faz necessária e atual é aquela que assume suas fraquezas em meio às dores do mundo, que empreende sua caminhada em meio a gente vulnerável como todos nós somos e que se faz confiável em apontar caminhos para uma vida mais digna e mais feliz.

Uma igreja assim faz falta. A outra, que há mais de mil anos vem sendo tentada pela cristandade, não faz o menor sentido para um tempo em que a humanidade aprendeu a viver por si mesma e, por isso mesmo, se perdeu. Somos chamados a ser igreja hoje, viva, relevante e acolhedora. Todos precisamos disso. Urgentemente.

domingo, 22 de março de 2015

As estações da vida / The seasons of life / Las estaciones de la vida

Veja! O inverno passou; as chuvas acabaram e já se foram. Cânticos 2.11
A vida pode ser comparada ao ciclo das estações do ano. A natureza se reveste de uma circularidade em que a vida se refaz e ganha novos sentidos à medida em que se passa pelas fases sempre na esperança da chegada de um novo tempo.
Relacionar as fases da vida às estações do ano é um exercício do imaginário. Usamos cada estação como metáforas dos diferentes momentos em que a beleza da vida se revela em suas diferentes fases. Afinal, só dá para se compreender a vida a partir de suas contradições.
As estações do ano têm seu tempo certo de começar e de terminar. A vida, nem tanto. A cada estação, a natureza passa por perdas que são restituídas na estação seguinte. Na vida, nem sempre. A natureza conhece bem cada estação e entende a sua linguagem e importância. Na vida, nem tudo está tão claro. Porém, tal como na natureza, as fases da vida são necessárias para a nossa existência.
No outono, a vida se renova. Para isso, as folhas caem, os ventos sopram de forma impiedosa como se as árvores não pudessem resistir, a estiagem proporciona um ambiente árido e desalentador. Entretanto, a beleza do degradê das folhagens colorem as paisagens de uma forma sem igual. Quantas vezes a vida já se mostrou sem esperança, em que nos sentimos desprotegidos e até sem recursos? Porém, o outono da vida passa, e só restam a lembrança dos momentos belos vividos em meio às lutas.
No inverno, a vida se retrai. O frio paralisa, faz diminuir a marcha da vida. Animais hibernam, as formigas cessam seu trabalham, até as cigarras deixam de cantar. Entretanto, o frio e os instantes de recolhimento são oportunidades únicas de acolhimento e de convívio mais próximo com quem se ama. Quem já não se sentiu paralisado pela frieza dos acontecimentos e até de pessoas? Porém, o inverno da vida passa, e só restam as lembranças das vezes em que acolhemos e fomos acolhidos.
Na primavera, a vida floresce. Tudo se renova, a natureza se reveste de cor, a vida se refaz. A vida é feita de sonhos e esperança. Eles se renovam e se tornam mais vivos após um período de lutas e turbulências. Entretanto, nem mesmo as plantas florescem sem esforço. Há que se experimentar o feliz processo de se renovar de dentro para fora. Quem nunca precisou abandonar o que ficou para trás para viver novas oportunidades? Porém, a primavera da vida passa, e o que fica é a vida em sua beleza e vitalidade.
No verão, a vida pulsa. O sol e a alegria trazem euforia e vigor. Entretanto, ninguém está isento de seus efeitos. Quem nunca se desencantou, se enganou ou se iludiu com o brilho efêmero da vida? Porém, o verão passa, e só resta a experiência de ter aproveitado bem cada momento vivido.

segunda-feira, 16 de março de 2015

Juntos na caminhada / Together in walking / Juntos en la caminata

“Um ao outro ajudou, e ao seu companheiro disse: Esforça-te.” Isaías 41.6 
Tem coisas que só dá pra fazer quando estamos juntos. Em tempos de supervalorização do individualismo e de escolhas centradas no eu, não custa lembrar que somos pessoas criadas para viver em comunidade.
O ser humano é o único ser vivo que depende do outro para viver. Várias espécies animais já nascem andando e lutando pelo seu alimento. As plantas nascem, crescem e morrem no solo sem que precise de qualquer intervenção humana. Mas nós precisamos da ajuda do outro durante a vida inteira para existirmos. Isso acontece desde o nascimento até a morte.
No século XIII, o imperador Frederico, da Germânia, achava que seria muito útil para os homens saberem qual teria sido o primeiro idioma dos homens: Hebraico? Grego? Latim? Intrigado, Frederico mandou que se fizesse a seguinte experiência: vários bebês seriam isolados de qualquer convívio com os demais seres humanos. Argumentava que, sem nenhum contato com os idiomas falados, tais bebês se expressariam naquilo que teria sido o idioma original dos homens. A alimentação dos bebês foi confiada a amas de leite, cuja única função seria amamentá-los. Mas antes tiveram que fazer o juramento de que jamais produziriam qualquer som junto desses bebês. Assim, em completo silêncio, faziam elas o seu trabalho. Desde o instante do nascimento, os bebês jamais ouviram qualquer palavra ou som de um ser humano. Um ano depois, divulgou-se o resultado da experiência: todos os bebês haviam morrido.
Viver em comunhão estimula o nosso sentido de existência e nos mobiliza a ações que fazem com que a vida ganhe novos significados. É interessante observar que a racionalidade humana foi capaz de criar muitas tecnologias para facilitar a vida, mas fez muito pouco para aperfeiçoar nossas relações em comunidade. Conforme o conhecimento científico veio avançando, desenvolvemos a capacidade de nos isolar e alimentar a ilusão de que podemos viver sozinhos.
O resultado disso é que a mesma razão que inventa e cria novas tecnologias para proporcionar bem-estar é capaz de usá-las para destruir e aniquilar o outro. Chegamos ao ponto em que a humanidade se encontra, sob ameaça real de extinção. Entretanto, para superarmos essa tendência, encontra-se a nossa capacidade de encorajarmos uns aos outros.
A Bíblia estimula essa capacidade e nos chama a uma relação baseada na ação de uns para com os outros. Viver em comunhão é parte do propósito divino desde a criação. Este propósito se concretiza na pessoa de Jesus, que convoca a todos a que se voltem para tomar parte do projeto de restauração do sentido de humanidade. Crer em Jesus e segui-lo é resgatar o que há de mais humano em nós e nos abrirmos a uma relação em que o outro está implicado.

sexta-feira, 13 de março de 2015

Impeachment, manifestações e exercícios de aprendizagem na democracia / Impeachment, protests and democracy / Acusación, manifestaciones y la democracia

O Estado Democrático de Direito reconhece como válido impedir a continuidade de um governo que esteja, em seu exercício, atentando contra a lei e contra as próprias instituições. Embora a palavra impeachment não faça parte do vocabulário jurídico brasileiro, ela ronda e ameaça presidentes democraticamente eleitos nos últimos 25 anos. A Constituição Brasileira fala de “perda do mandato” e a Lei nº. 1.079/1950 trata da “perda do cargo”.
Foi assim com Collor, o primeiro presidente eleito depois da redemocratização do país, resultado de uma forte mobilização de jovens de classe média que saíram às ruas de cara pintada pedindo o seu afastamento, o que aconteceu em 1992. O segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso, cuja emenda constitucional que permitiu sua reeleição foi marcada por um suspeito esquema de voto que nunca foi investigado, também foi alvo de tentativas de impedimento. Nem mesmo o elogiado programa de estabilização econômica do Plano Real – mantido a duras penas por uma política de arrocho e congelamento de salários e de privatizações – impediram que se ouvisse o retumbante “Fora FHC” e que acontecesse a Marcha dos 100 Mil, em Brasília, no ano de 1999. Lula também foi alvo de tentativas de impeachment como resultado dos escândalos do processo conhecido como “mensalão”, ao final do seu primeiro mandato. E o governo atual vem enfrentando pressões desde a reeleição.
A crise pela qual o Brasil passa hoje é de governabilidade. Problemas sociais e econômicos não são criações deste governo nem dos governos mais recentes, mas resultado histórico de um regime de exploração e de discriminação das camadas mais pobres. O quadro de instabilidade envolve: o Congresso Nacional, em que os presidentes das duas casas estão envolvidos em denúncias de corrupção; o Poder Judiciário, que é conservador e se rege por uma estrutura arcaica que visa favorecer ricos e poderosos em detrimento do bem comum; um Poder Executivo exercido por um partido que herda um preconceito e um ódio às forças de esquerda que, na maior parte da história, viveu na clandestinidade. Há ainda um processo investigativo de crimes de corrupção que envolvem altos funcionários da maior empresa do Brasil, a estatal Petrobras, e as principais empreiteiras que prestam serviços à ela. Some-se a isso a economia em recessão, o crescimento da inflação e o crescimento de um moralismo de direita que estimula o ódio e o preconceito a qualquer tentativa de se respeitar o processo democrático que reelegeu a presidente atual.
É bom lembrar que corrupção é uma palavra que tem sua origem na ideia de fragmentação. Lidar com a corrupção é um grande desafio, principalmente quando o corrupto se disfarça de uma pessoa de bem, de “excelência”, e se aproveita disso para desviar recursos públicos. Quando a sociedade está fragmentada, o combate à corrupção torna-se ainda mais difícil, pois não se sabe a quem de fato está combatendo.
Resta à população o direito de se manifestar. O Brasil pagou um alto preço para ver restabelecido o direito de expressar publicamente o seu estado de indignação pelo que aí está. Portanto, é legítimo que o povo saia às ruas e levante suas bandeiras pelas mudanças que deseja. É bom que se diga: impeachment não é golpe, mas um instrumento democrático de defesa das instituições políticas majoritárias. A tentativa de golpe está na motivação e nas articulações que são feitas para alcançá-lo.
Quando você observa de onde partem as articulações para as manifestações neste momento, verifica-se que estão ali representantes dos segmentos oligárquicos e conservadores que sempre foram responsáveis pela exploração e a opressão das camadas inferiores da população. O pior é que o fazem instigando um sentimento de revolta em gente simples que não leva em consideração os aspectos históricos que têm levado o país à situação que nos encontramos hoje. O resultado é um comportamento que beira à irracionalidade, de ofensas e sentimentos de vingança contra qualquer tentativa de diálogo.
A nossa jovem democracia ainda carece de muito aprendizado. Isso quer dizer que ainda está muito viva no imaginário das pessoas o tempo dominado por figuras despóticas, de coronéis e salvadores da pátria, de ditadores que chamam golpes de revolução, de figuras públicas que ainda conseguem escapar das investigações para assumirem condutas moralistas contra quem não atende mais a seus interesses.
Acredito que mudança de fato irá acontecer quando a população se der conta de que o que precisamos mesmo não é de um movimento de peças do tabuleiro ou de uma brincadeira de dança das cadeiras. O que o Brasil precisa urgentemente é de uma reforma política intensa, que mobilize meios para que os serviços públicos de saúde, educação, segurança e transporte sejam equivalentes para ricos e pobres; que estimule formas de ganho e de produção que vão além de políticas de distribuição de renda; que resgate valores morais que viabilizem oportunidades iguais de trabalho e renda para todos, em que um não necessite mais ser explorado pelo outro.
Para isso, precisamos ir às ruas todos os dias, para lembrar aos parlamentares que precisam legislar com justiça, e não preocupados com critérios de distribuição de verba; para lembrar aos juízes e procuradores de justiça que a prioridade é o bem-estar da população, e não a legitimação do estado; e, claro, lembrar aos governantes (presidente, governadores e prefeitos) que eles foram eleitos para cuidarem de forma digna do direito de todos.

Este é o meu protesto. Também estou indignado, mas sei contra quem eu dirijo a minha indignação.

domingo, 8 de março de 2015

Dia Internacional da Mulher / International Women's Day / Día Internacional de la Mujer

A beleza é enganosa, e a formosura é passageira; mas a mulher que teme ao Senhor será elogiada. Que ela receba a recompensa merecida, e as suas obras sejam elogiadas à porta da cidade.” Provérbios 31.30-31
O Dia Internacional da Mulher é um dia de luta e relembra as operárias têxteis de Nova Iorque em greve por melhores condições de trabalho, as mulheres russas que lutavam por paz, pão e terra, além de tantas outras batalhas. Muitas são as versões sobre a origem do Dia Internacional da Mulher.
A mais mencionada é a data de 8 de março de 1857, dia em que centenas de trabalhadoras de uma fábrica têxtil, em Nova York, entraram em greve. Eram 129 operárias têxteis, exigindo aumento de salários, redução da jornada de trabalho de dezesseis para oito horas diárias, melhores condições de trabalho e licença maternidade.
Apesar de todo o esforço, as trabalhadoras não foram atendidas em suas solicitações. O movimento terminou em tragédia. Para reprimir as grevistas, as forças policiais e os patrões atearam fogo na fábrica, após trancarem as portas, e as operárias morreram queimadas no interior da empresa, onde estavam concentradas. A partir de 1922, o Dia Internacional da Mulher tem sido celebrado oficialmente no dia 8 de março.
Pensa que essa história acabou? Um relatório anual do Fundo para Populações da ONU divulgado no início do ano 2001 revelou que as mulheres em todo o mundo enfrentam situações mais difíceis que os homens, como agressões físicas e tratamento diferenciado e discriminatório. O relatório mostrou que uma em cada três mulheres já foi agredida fisicamente. Sessenta milhões de meninas poderiam estar vivas se não tivessem sido vítimas de aborto seletivo, homicídio ou negligência. Aproximadamente 13 milhões de mulheres já foram forçadas à mutilação genital e, a cada ano, milhares morrem nos chamados crimes de honra. Além disso, dois milhões de mulheres de 5 a 15 anos entram para o mercado da prostituição.
O mesmo se dá no Brasil: segundo uma pesquisa do Instituto Superior de Estudos da Religião (Iser) e as estatísticas da Secretaria de Segurança Pública do Estado do Rio de Janeiro, o número de casos de lesão corporal dolosa contra mulheres quase dobrou nos últimos nove anos do século XX, passando de 17.596 para 34.831. 59% dos registros feitos por mulheres são de queixas de lesões dolosas. Devido ao resultado, o Conselho Estadual dos Direitos da Mulher tem realizado uma campanha de combate à violência em todo o Estado do Rio de Janeiro, com apoio do governo estadual, cujo slogan é “Quem cala consente”.

Neste Dia Internacional da Mulher, nossos mais sinceros respeitos por sua luta. Não é um dia só de comemorações, mas também de consciência e respeito à dignidade da figura humana na pessoa da mulher.

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