sábado, 16 de setembro de 2017

Deus absconditus / God hiding / Dios oculto

O horror da guerra, dos atentados terroristas, do drama dos refugiados e das vítimas da violência, da exploração e da desigualdade social remete à pergunta: será que Deus está indiferente ao que acontece com o mundo?
Reconhecer a presença de Deus entre nós é uma necessidade, mas ao mesmo tempo uma ousadia. Foi o que certa vez Karl Barth, em sua obra Das Wort Gottes als Aufgabe der Theologie, reconheceu: “nós, como teólogos, devemos falar de Deus. Nós, porém, somos seres humanos e, como tais, não podemos falar de Deus. Nós devemos, todavia, estar cientes de ambos, nosso dever e o nosso não-poder e, mesmo assim, dar glória a Deus”.
É uma necessidade, pois a primeira pergunta na hora da dor e da aflição é: “onde está Deus?” Mas é uma ousadia quando descobrimos que a presença divina não se reduz e nem se limita à percepção humana. Ela só pode ser tratada como um rumor que aponta para nosso desejo pelo desconhecido e o imponderável, para a nossa abertura ao que está além de nós, para aquilo que desperta a nossa esperança. Como pensar em um ser perfeito, sendo pessoas tão pecadoras? Como acreditar que Deus se importa com nossa dor, sendo pessoas tão indiferentes à dor do outro? Como reconhecer sua presença sendo tão limitados e mortais?
“A Deus há que invocá-lo antes de pensar sobre ele, falar com ele antes de aproximar-se dele”, disse Olegario Gonzalez de Cardedal em sua obra Dios. Todas as tentativas de provar sua existência foram sempre ligadas à experiência subjetiva de encontro, de sede, de busca e até de ausência. Pelo fato de não se submeter a uma experiência objetiva de análise, Deus só pode ser reconhecido ou desprezado, desejado ou rejeitado, digno de confiança ou ignorado.
Em sua teologia, Lutero desenvolveu o conceito de “Deus absconditus”, que se opõe à noção de “Deus revelatus” desenvolvido no pensamento escolástico. Esse conceito novo corresponde ao fato de que Deus não se revelou completamente em sua essência a nós, mas permanece de forma oculta e incompreensível ao homem. Só é possível conhecer Deus a partir de uma relação.
O Deus absconditus é aquele que se oculta, mas que ao mesmo tempo se desvela ao homem em meio às condições concretas de sua história. A maior dessas revelações foi a cruz, em que Ele se mostrou em meio à fraqueza, ao sofrimento e à humilhação daquele que fora encarnado, crucificado e ressuscitado. Em Cristo, Deus revelou-se completamente de modo que possamos compreender e perceber sua presença entre nós. Não é à toa que a Bíblia o chama de Emanuel, o Deus conosco.
Lutero queria que a fé cristã deixasse um pouco a preocupação com o além e se voltasse mais para a as condições em que a vida acontece. Ele queria que a teologia e a religião cristãs deixassem de lado uma teologia da gloria para se voltar para uma teologia da cruz. Esse é o grito de Jesus na cruz: “Por volta das três horas da tarde, Jesus bradou em alta voz: ‘Eloí, Eloí, lamá sabactâni?’ que significa: ‘Meu Deus! Meu Deus! Por que me abandonaste?’” (Marcos 15.34).
Deus só pode agir se escondendo. Caso contrário, não seríamos livres para fazer escolha de crer nele ou não, de confiar nele ou não, de acolher seu amor ou não. E a cruz é o retrato dessa escolha livre. Ela nos envergonha porque representa a nossa rejeição à revelação do amor de Deus por nós.
Ao olhar para a história da crucificação, dificilmente alguém que andou e viveu com Jesus aceitou sua morte na cruz como resultado da revelação divina ou que Deus havia enviado seu filho unigênito para morrer de forma tão cruel numa cruz. Principalmente após a ressurreição, os discípulos de Jesus demonstraram uma compreensão equivocada e limitada dos propósitos de Deus em relação à redenção humana, que eles eram participantes de um momento histórico único dentro do contexto dos propósitos eternos de salvar a humanidade perdida.
Foi preciso que Jesus se mostrasse de forma especial a eles. A maneira como Jesus se apresentou aos seus discípulos nos ensina como também podemos encontra-lo hoje, de uma tão forma improvável e nem tão óbvia como muitas vezes o discurso religioso tenta nos passar.
Nos relatos das experiências de encontro após a ressurreição, o que se destaca não é o fato de que os discípulos procurassem a Jesus, mas que Ele os busca e vai até o encontro deles. Aos discípulos, cabia-lhes ouvir sua voz, identificá-lo em meio a sua angústia, sofrimento e dor e acolhê-lo amorosamente. Somente após o encontro é que foi possível falar de quem ele é, o que ele diz e o que ele faz.

domingo, 13 de agosto de 2017

Pai Nosso / Our Father / Padre Nuestro

“Portanto, vós orareis assim: Pai nosso, que estás nos céus, santificado seja o teu nome.” Mateus 6.9. 
Quando Jesus ensinou seus discípulos a orar, ele pediu que se dirigissem a Deus como o “Pai Nosso”. São duas palavras carregadas de significado. Lembra que Ele é um pai que acolhe a todos, mas que também trata a todos como se fossem nossos irmãos. A expressão “Pai Nosso” nos remete a um sentido de pertença a uma grande família em que todos têm espaço.
Portanto, quando você ora “Pai nosso, que estás no céu”, deve estar aberto a acolher a todos como irmãos e a compreender a humanidade como família. Embora tenhamos muitas diferenças, estamos todos ligados por um mesmo sentimento, que é o do cuidado amoroso de um pai que é tão próximo, que se permite ser chamado de meu, mas que também muitas vezes se coloca tão distante, pois também está no céu, o lugar onde quer que todos estejamos.
Um pai assim não passa despercebido. Sua presença é significativa, mas da mesma forma o é a sua ausência. Por isso, Ele é especial. Nossa relação com Ele é marcada por diversos aspectos que estão mais voltados para o campo do numinoso do que do fenômeno. Dito de outro modo, não dá para ser percebido ou explicado pela razão, mas é aquela coisa que está tão presente que não podemos simplesmente ignorar. Ele é da ordem do sagrado, é o inefável que se fez gente, que andou entre nós cheio de graça e de verdade.
Desse modo, você não pode dizer “santificado seja o teu nome” e continuar vivendo, agindo e fazendo escolhas como se ele não existisse. Se Deus é um pai que se importa com seus filhos, imagino que ele queira que seus filhos se importem uns com os outros. Viver como se Deus não existisse é sinal de indiferença. E a pior forma de fazermos isso é sendo indiferentes com aqueles a quem Deus trata como nossos irmãos. Se não conseguimos nos importar com aquele que a gente vê, como vamos nos importar com aquele que não vemos?
Max Lucado, em A Grande Casa de Deus, reconhece que “as duas primeiras palavras da oração do Senhor são plenas de significado: ‘Pai nosso’ lembra-nos que somos bem-vindos à Casa de Deus porque fomos adotados pelo dono”. Somos filhos do pai de todos, que é dono de tudo.
Com o “Pai Nosso”, Jesus identifica quem Deus é. Ele é Pai, pois tem em si mesmo o sentido de próximo e de distante, tanto é nosso quanto está no céu. Ele é santo, pois tem em si a dimensão do sagrado, mas que escolhe tomar forma e ser como um de nós. Ele tem um nome, por isso tem em si mesmo a condição de ser conhecido, ao mesmo tempo em que não é.
Por nós mesmos, não teríamos condições de chamar Deus de Pai Nosso. Uma parte significativa da humanidade age como se Deus fosse um pai rico, interessada em seus bens, mas sem conhecer os seus sentimentos. Outra parte age como se não houvesse um pai, como se tudo fosse obra do acaso. E tem até aqueles que declaram que há um pai e que pertencem a ele como filhos, mas que excluem os muitos outros irmãos a condições de desamparo. Enfrentamos constantemente o grande desafio de clamar pelo pai em meio a uma sociedade sem pai.

sábado, 5 de agosto de 2017

Competência para viver / Life Skills / Competencia para la vida

Todos nós temos características pessoais que não só nos identificam como também nos ajudam a nos realizarmos dentro de um contexto social.
Algumas dessas características nasceram conosco, outras foram herdadas de nossos pais e outras foram adquiridas ao longo de nossa vivência. A soma dessas características é que forma a nossa personalidade.
Para enfrentarmos as diversas circunstâncias da vida, lançamos mão de diversos recursos, muitas vezes de forma criativa e inovadora, levando em consideração as necessidades do momento.
Veja, por exemplo, uma pessoa que resolve aprender a dirigir. Ela começa com operações básicas e, gradativamente, adquire determinados hábitos e procedimentos que serão aplicados em situações mais complexas no trânsito. Ela, então, terá desenvolvido esquemas que serão úteis para serem usados em ações diante de situações diversas, que necessariamente não serão idênticas entre si, mas receberão adaptações e ajustes que ocorrerão de uma forma quase que automática.
O mesmo ocorre em todos os aspectos da vida. Enfrentamos sempre situações novas que exigem de nós fazer escolhas que podem implicar se ganhamos ou perdemos, superamos ou fracassamos, melhoramos ou pioramos, vivemos ou morremos.
A vida requer de nós um conjunto de competências e habilidades que nos ajudam a nos tornarmos pessoas bem-sucedidas nas coisas que fazemos. Competências e habilidades são conceitos bastante usados no mundo corporativo, principalmente nas orientações sobre liderança, carreira, vocação e ensino.
Competência é a administração, de forma integrada e coordenada, de um conjunto de conhecimentos para se chegar a um determinado fim. A competência envolve um complexo esquema de percepções, pensamento, atitudes e até de autoavaliação.
Num documento de 2012, intitulado Competências para a vida e destinado a adolescentes, o Unicef apresentou alguns conceitos sobre as competências necessárias para uma vida mais digna. Primeiramente, uma vida realizada e bem-sucedida não acontece por acaso. Ela é uma conquista que exige muito esforço e a cooperação de muita gente. Além disso, a aquisição de competências para viver na sociedade atual é um fator crucial para viver bem e para construir relações. As competências para viver aumentam nossa criatividade, aperfeiçoam nossos talentos e nos ajudam na aquisição de novos conhecimentos.
A lista de competências é um processo em aberto. É preciso desenvolver a compreensão de que a aprendizagem bem como a aquisição de competências para a vida correspondem a um processo que dura a vida toda. Por essa razão, a Unesco apresentou os quatro pilares para a educação no século XXI: aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a conviver e aprender a ser. E são eles que dão base para a formação de projetos voltados para a qualidade de vida. Pensando nisso, veja algumas das competências que julgo serem necessárias para a vida:
a) Manejar bem as emoções de forma que nos tornemos mais flexíveis e abertos ao novo.
b) Tomar decisões certas pelas razões certas a fim de que alcancemos a excelência.
c) Colocar-se no lugar do outro.
d) Organize suas ideias para que possa comunica-las com clareza.
e) Desenvolver pensamento crítico, percebendo os aspectos éticos e políticos implicados em cada situação.
f) Conhecer a si.
Já as habilidades são a capacidade de transformar um conhecimento em ação. Têm a ver com o saber fazer. A Divisão de Saúde Mental da Organização Mundial de Saúde elaborou, desde 1993, um conjunto de dez habilidades para lidar com situações de nosso cotidiano. O objetivo é preparar as pessoas para a vida. Já existem inclusive programas educacionais voltados para a formação das pessoas para a vida social e para a realização pessoal. São elas.
a) Autoconhecimento.
b) Relacionamento interpessoal.
c) Empatia.
d) Lidar com os sentimentos.
e) Lidar com o estresse.
f) Comunicação eficaz.
g) Pensamento crítico.
h) Pensamento criativo.
i) Tomada de decisão.
j) Resolução de problemas.
“É preciso saber viver”, diz a canção popular de Roberto Carlos e gravada recentemente pelos Titãs. Os gregos antigos ensinavam que precisamos fazer da vida uma obra de arte. A Bíblia também nos ensina a lidar com os aspectos da vida com sabedoria. As circunstâncias da vida, dolorosas ou não, têm o poder de endurecer o nosso coração ou de nos tornar sábios. O fato é que mesmo o sofrimento ou o sucesso nos aperfeiçoam.

domingo, 11 de junho de 2017

Pastor

Para que servem os pastores e as pastoras? Teoricamente, para nada. Seja como gestor, conselheiro, orador, educador, agente social ou teórico, sempre há quem faça melhor. Há quem diga que pastores são um pouco de cada um desses profissionais, mas sempre soube que, em tem tempo de máxima especialização, aquele que sabe de tudo um pouco acaba não produzindo.
Sinceramente, não sei onde Jesus estava com a cabeça quando comparou a atividade de quem cuida de seus seguidores aos trabalhadores que apascentavam rebanhos. Talvez porque também utilizou a metáfora das ovelhas para se referir àqueles que o seguem. Ou talvez por não ter na época um conjunto tão grande de especialidades que abrangesse a dimensão pastoral. Ele só podia estar com a cabeça no céu.
Tenho para mim que a razão esteja mais voltada para a dimensão da ação pastoral com o cuidado com aqueles que estão a caminho. A palavra vem do grego poimen, que designava o apascentador de rebanhos. Sua tarefa seria de conduzir o rebanho até os pastos, ficar atento aos ataques dos inimigos contra as ovelhas, cuidar das que estiverem feridas, mantê-las reunidas em grupo e recolhê-las ao aprisco para o descanso. Ele teria que fazer isso todo dia ininterruptamente. Por causa do seu envolvimento direto com a ovelha, chegava a ter o cheiro delas. Por isso, era considerada uma atividade imunda.
Pastores não são forjados em uma escola, nem se tornam mais hábeis pela experiência. São pessoas comuns que recebem um chamado para servirem àqueles que querem seguir Jesus. Já por aí são diferentes, por serem sensíveis à uma voz que vem de fora e clama por uma decisão interior de orientar a vida inteira para cuidar de gente. Se espelham na pessoa de Jesus, aquele único que se apresentou como o Bom Pastor.
Pastores cuidam de pessoas que querem seguir Jesus. Como conselheiro, psicólogos fariam melhor. Porém, como pessoas que escutam as dores e angústias do outro para servirem como intercessores diante de Deus. Somente alguém com o coração sensível ao outro como Jesus o fez é capaz
Pastores cuidam de igreja. Como administradores, gerentes fariam melhor. Porém, como quem conhece a perspectiva do Reino de Deus e está comprometido com o projeto de Deus de formar em Cristo uma nova humanidade, age mais com o coração do que com estratégias, orienta-se mais pela esperança do que pelas condições concretas, decide por fé e não por racionalidade.
Pastores constroem saberes sobre nossas relações com Deus. Como educadores e pensadores, pedagogos e teóricos fariam melhor. Porém, reconhecem a Bíblia como fonte primária do saber, que oferece a base para construir novos entendimentos. Para isso, ouvem as vozes dos sábios e entendidos e se debruçam sobre as Escrituras para encontrar a melhor forma de fazê-la entendida para as pessoas do seu tempo.
Alguns até tentam desenvolver uma performance profissional, outros também se negam a desenvolver habilidades e técnicas justificando sua incapacidade com uma falsa espiritualidade. Apesar disso tudo, pastores que se colocam como servos fazem falta.
Feliz Dia do Pastor!

segunda-feira, 22 de maio de 2017

Humanização / Humanization / Humanización

Quando Jesus atravessou o mar da Galileia de barco com seus discípulos e chegou à região de Gadara, deparou-se com um quadro grotesco: uma pessoa agressiva, violenta, seminua, imunda, com sinais pelo corpo de que havia sido preso por fortes grilhões, urrando e arremessando pedras contra quem se aproximasse. Não sei o que você faria se estivesse no barco com Jesus, mas eu logo remaria na direção contrária.
Essa narrativa encontra-se em Marcos 5.1-18. Uma coisa que escapa de nosso olhar é o fato de que ali estava um ser humano. Parece contraditório, mas mesmo as pessoas mais vis, violentas e que tenham praticado as coisas mais hediondas são seres humanos e, como tais, foram feitos à imagem e semelhança de Deus. Foi assim que Jesus viu aquele homem. E é assim que Jesus nos vê: como pessoas.
A cura do endemoninhado gadareno nos lembra o quanto Jesus está interessado em restaurar as relações que constituem a nossa humanização. Jesus reivindica, por amor, para si todo ser humano a fim de que viva a sua humanidade perante Deus sem precisar se envergonhar disso.
Quando falamos de nossa condição humana, isso comporta um problema: a rejeição do projeto de Deus através da ruptura de nossas relações fundamentais. É isso que constitui o que podemos chamar de situação de não salvação. A maldade está no fato de que rejeitamos o projeto de vida proposto por Deus desde a criação. É isso que a Bíblia chama de pecado.
Jesus veio nos libertar da opressão causada pela maldade. Ao fazer isso, ele viveu a nossa vida, enfrentou a nossa morte da forma mais cruel (a cruz), ressuscitou glorificado e hoje está vivo com o Pai. É isso que dá validade ao seu ensino e promessa: “Portanto, se o Filho os libertar, vocês de fato serão livres” (João 8.36).
A salvação é, portanto, a restauração das relações rompidas pelo pecado. O pecado é o estado em que nos encontramos por termos nos desviado dos propósitos de Deus. O sentido de estar perdido é porque estamos perdidos de nós mesmos.
Jesus é o Salvador porque viveu intensamente essas relações. Nele não se encontrou pecado. Diz a Bíblia: “Pois não temos um sumo sacerdote que não possa compadecer-se das nossas fraquezas, mas sim alguém que, como nós, passou por todo tipo de tentação, porém, sem pecado” (Hebreus 4.15).
Toda religião aponta para um tipo humano baseado em obrigações, mas Jesus valoriza a liberdade. Ele disse: “E conhecerão a verdade, e a verdade os libertará” (João 8.32). Jesus não está comprometido com ideais humanistas, mas está profundamente interessado em restaurar a humanidade toda. Por isso, ele reivindica a que a humanidade toda possa segui-lo com todas as implicações que isso envolve.
(Extraído do livro Elogio da Compaixão.  Imagem: Homem pensador, de Picasso).

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