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sábado, 16 de agosto de 2014

Utopia e Não-Lugar: pensar a esperança em meio à solidão / Utopia and Non-Places / Utopia y No-Lugar

Todavia, de acordo com a sua promessa, esperamos novos céus e nova terra, onde habita a justiça.” 2 Pedro 3.13
A utopia é uma forma de pensar as mudanças que desejamos a partir da compreensão da nossa realidade. O termo foi inventado pelo filósofo renascentista Thomas More para se referir a uma cidade ideal, perfeita, onde as pessoas vivem num ambiente de completa justiça.
Analisada etimologicamente, a palavra utopia corresponde literalmente a “não-lugar”. Não é um lugar que não existe, mas o lugar imaginado em que habita o desejo de uma sociedade mais justa e um mundo melhor. O propósito da utopia é fazer com que, em meio a uma situação difícil, sejamos capazes de pensar que uma vida melhor é possível.
Marc Augé, sociólogo contemporâneo, faz uso dessa ideia de não-lugar para se referir aos espaços urbanos em que nos movimentamos em meio a uma multiplicidade de interações, mas que na verdade revelam o quanto estamos sós. Nesses não-lugares, somos cercados por um universo de imagens e de sons que nos dizem como devemos agir de forma passiva, sem muita reflexão.
Imagine uma pessoa que sai de manhã de casa, se dirige ao ponto de ônibus, embarca no mesmo, se assenta e coloca o fone de ouvido ligado ao seu celular que toca a sua música preferida. Em todo percurso, passou por pessoas que, como você, se movimentam pelo mesmo espaço sem revelar sua identidade e sem qualquer relação.
Esses não-lugares, que são criados por uma sociedade globalizada, pós-moderna e consumista, nos induzem à individualidade e a uma consensualidade em relação a determinados padrões de comportamento que interferem na maneira como percebemos a realidade. Nesses não-lugares é que circulamos, nos comunicamos com o mundo e consumimos. Eles são, portanto, sem identidade histórica, resultam da perda de relação afetiva entre as pessoas e são marcados pela solidão.
A utopia se difere dessa concepção do não-lugar visto que é um chamado a imaginar uma vida melhor. O utópico é o lugar imaginado, sonhado e que aponta para uma esperança. Não é fantasioso, pois nasce da percepção do contexto vivido. É na medida em que nos apercebemos da realidade que podemos imaginar e construir um espaço em que esteja garantida a vida plena das pessoas, relações mais justas entre elas e a proteção dos mais vulneráveis.
Pessoas que esperam novos céus e nova terra vivem um desejo utópico de superação de toda injustiça, o que só é possível mediante a fé.

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Ao meu redor / God is always around me / Dios siempre está a mi alrededor

O anjo do Senhor é sentinela ao redor daqueles que o temem, e os livra.” Salmos 34.7
Um hino tradicional da fé evangélica diz: “Ao meu redor Deus sempre está ao meu redor, ao meu redor, para me guiar”. Saber que Deus está por perto nas horas mais difíceis é uma afirmação de fé que serve como consolo.
O hino tem três estrofes bem simples que correspondem a momentos importantes de reflexão para quando as lutas vêm. Diante da angústia e da dor, não há coisa mais importante a fazer do que refletir sobre onde está Deus naquele situação: ele está sempre ao nosso redor.
A primeira reflexão trata da experiência de amor. Pessoas que nunca experimentaram ou desconhecem o amor de Deus desenvolvem a percepção de que estão só. A solidão é resultado da falta de experiência de amor. E é porque Deus nos ama que podemos ter a certeza de que ele está sempre por perto.
A segunda reflexão trata das experiências de perda e de abandono. Qualquer um de nós pode passar por isso. A vida é marcada por essa contínua ameaça. Somente a relação com Deus não se altera, pois ele é fiel em estar ao nosso lado, mesmo nessas horas.
A terceira reflexão fala do inefável, do indizível, do inexplicável que é a sensação que a presença de Deus proporciona nos nossos momentos mais difíceis. Saber que ele está ao redor encoraja e dá força para seguir adiante e até para tomar as decisões necessárias.
O resultado desses momentos de reflexão leva à conclusão inevitável de que, aconteça o que for, Deus está ao redor. Ele está sempre perto não para evitar problemas, mas para nos guiar.
Deus está ao nosso redor. Sempre. Ele nos dá a garantia de que não estamos sós nos momento de turbulência da vida.

Ouça a canção na voz do grupo Vencedores por Cristo, em 1968.

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Compromisso, missão e serviço / Commitment, mission and service / El compromiso, la misión y el servicio

Uma das marcas de nosso tempo é a ausência de compromisso. Isso não quer dizer que as pessoas não têm comprometimento algum. A grande maioria está mais interessada com aquelas situações que satisfazem um sentimento individualista repleta de narcisismo. Vivemos em meio ao complexo de Carolina, aquela da música de Chico Buarque de Hollanda, para quem o tempo passou na janela e só Carolina não viu.
Pessoas sem compromisso desconhecem seu potencial e as possibilidades de transformações da realidade a partir de sua própria ação. Desconhecem também o fato de que não vivemos sozinhos. Precisamos uns dos outros para realizar nossos sonhos e desejos. A ideia de compromisso lembra um acordo em que o outro está implicado como parceiro.
O primeiro paço para uma grande mudança é estar comprometido com aquilo que queremos nos tornar. Isso implica mudar a mentalidade, fazer ajustes, estabelecer metas e redefinir estratégias, o que pode provocar um deslocamento de nossa zona de conforto. Essa talvez seja a maior dificuldade de se assumir compromissos que gerem mudança. Queremos melhorias, mas estamos pouco preocupados em fazer as mudanças daquilo que nos dá segurança e comodidade.
Jesus foi um grande exemplo de uma pessoa comprometida. A maior razão para que ele realizasse o seu ministério humano com tantos resultados extraordinários e para que influenciasse tanto a humanidade não estava em sua natureza divina ou poder sobrenatural. Jesus estava comprometido com uma missão, e ela consistia na realização histórica do Reino de Deus.
A maneira como Jesus se comprometeu com sua missão pode ser melhor compreendida pela menção profética de Isaías: Eis o meu servo, a quem sustento, o meu escolhido, em quem tenho prazer. Porei nele o meu Espírito, e ele trará justiça às nações. Não gritará nem clamará, nem erguerá a voz nas ruas. Não quebrará o caniço rachado, e não apagará o pavio fumegante. Com fidelidade fará justiça; não mostrará fraqueza nem se deixará ferir, até que estabeleça a justiça sobre a terra. Em sua lei as ilhas porão sua esperança.” Isaías 42.1-4.
A maneira como Jesus viveu e serviu é um convite para colocar a vida a serviço da mesma causa. Jesus serviu de forma integral como consequência de sua mensagem a respeito do Reino de Deus. Em última análise, isso significa experimentar a salvação que vem de Deus. A vida de serviço cristão tem seu fundamento e justificativa na própria vida de serviço de Jesus de Nazaré. Ele mesmo disse que envia seus discípulos da mesma forma com que foi enviado.
A missão do discípulo, daquele que segue a Cristo, consiste em levar às últimas consequências o testemunho do evangelho. Pessoas comprometidas com a causa do evangelho formam a comunidade daqueles que cumprem missão no mundo, que é o verdadeiro sentido de ser igreja. Resumir a missão a um conjunto de práticas, ainda que seja a pregação ou a assistência aos necessitados, é reduzir o sentido da missão. A igreja que serve de forma integral não é um refúgio, mas um lugar de acolhida que nos capacita para seguir caminho.

Ninguém faz ideia do que gente comprometida é capaz. Pessoas com compromisso de estarem juntas para cumprir missão é o que dá sentido e forma à caminhada cristã no mundo. Não há razão de uma igreja existir apenas como mais uma forma de fazer religião, a não ser que seus participantes estejam comprometidos em fazer a diferença para o contexto em que estão inseridos.

domingo, 27 de julho de 2014

Deus está no controle / God is in control / Dios tiene el control

Até os cabelos da cabeça de vocês estão todos contados.” Mateus 10.30
Há muitas pessoas que creem que Deus comanda o universo como se tivesse um joystick em suas mãos, apertando botões que determinam quando um nasce e outro morre, quando o mundo passa por calmaria ou quando enfrenta calamidade.
Há muitas dificuldades em tal concepção. A maior delas é a questão do mal: por que esse Deus que tem o controle de tudo não age em favor dos homens, sendo tão amoroso como diz ser? Ninguém tem essa resposta, nem a Bíblia aponta uma explicação racional para isso.
Deus é soberano, não resta a menor dúvida. Ele é o criador e sustentador de todas as coisas. O problema está na maneira como interpretamos a nossa relação com ele. Podemos entender a nossa relação com Deus a partir de um ponto de vista determinista ou de uma compreensão da liberdade.
Os deterministas afirmam que Deus controla tudo: quem nasce, quem adoece, quem morre, quem governa, quem mata. Isso inclui também o tempo, as catástrofes, a riqueza e a pobreza. Um Deus assim está mais para um tirano cruel do que para um ser amoroso.
Já a compreensão da liberdade entende que Deus é soberano o suficiente para amar. No seu poder criador, estabeleceu leis e princípios universais para a vida em dimensões cósmicas, que não é marcada por destinos, mas por uma complexa conjunção de liberdades. Alguém que ama é capaz de sofrer, chorar, se arrepender, ceder, tudo para ver o outro livre. Isso não impede que tenha uma vontade. A liberdade do outro é um valor mais caro. E nisso investe todo seu poder.

O que faz, então, acreditar que Deus está no controle? Isso não seria o mesmo que dizer que Deus é impotente e fraco diante de nossas circunstâncias? Ao contrário, compreender a ação de Deus a partir da liberdade nos conduz a descobrir que ele não é responsável por nossas dores, mas que está comprometido com tudo aquilo que envolve a nossa existência, em meio à nossa história. Nesse contexto, isso nos dá força para seguir adiante em meio às dificuldades. Ele nos fortalece e nos encoraja porque sabe quem somos e nos conhece profundamente. E por estar no controle, ele nos acompanha e nos guia para sabermos como lidar tanto com a tragédia quanto com a vitória

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Não me envergonho do evangelho / I am not ashamed of the gospel of Christ / No me averguenzo del evangelio

Não me envergonho do evangelho, porque é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê [...].” Romanos 1.16
O evangelho é a boa notícia de que Deus se importa com nossas dores. É ouvir a voz de Jesus que nos chama para segui-lo e a viver no mundo a nova vida que nos propõe.
Acolher o evangelho, porém, tem implicações na vida do crente, remete a uma tomada de posição. Seguir a Jesus é um fato histórico que só dá para ser realizado na mesma dimensão da revelação de Deus na figura histórica de Jesus de Nazaré, o verbo encarnado.
O poder do evangelho só faz sentido no contexto do Reino de Deus. Não corresponde a uma acumulação de forças nem manifestação de autoridade, mas uma relação que se expressa sob a forma de missão. É poder de Deus que me interpela a que faça um deslocamento para o lugar do outro.
Para que o poder do evangelho seja exercido, é preciso conjugar proclamação e compaixão que brotam do amor comprometido. A proclamação é testemunho da fé e a compaixão é a capacidade de sentir a dor do outro.
Aquilo que não gera compaixão pelas pessoas que são vítimas de um mundo desigual, acaba mutilando, inibindo e envergonhando o evangelho em nós. A vergonha do evangelho é o que impede o testemunho e conduz a uma vida omissa em relação às possibilidades de transformação que ele proporciona.
Pessoas que não têm vergonha do evangelho são aquelas que são úteis nas mãos de Deus e se oferecem como agentes de transformação para um mundo carente de vida.
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