segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Consciência Negra: Por que ainda precisamos de um dia para lembrar? / Black Consciousness: Why do we need a day to remember / Consciencia Negra: ¿Por qué necesitamos un día para recordar

É preciso ter vivido a condição de negro para saber o porquê de um Dia da Consciência Negra. Eu, que nasci branco, não sei qual é a dor de se sentir excluído, oprimido e marginalizado por causa da cor da pele. O fato de ter sido pobre, estudado em escolas públicas em todos os níveis, crescido na periferia de um grande centro, convertido à fé evangélica e formado em meio à luta contra desigualdades a partir de um viés mais à esquerda não me dão a ideia do que um negro ou uma negra passa em termos de discriminação, preconceito e falta de oportunidades.
Por mais que eu me esforce, ou estude, ou leia, jamais vou alcançar o sentimento de quem se descobre diferente por causa de um tratamento ofensivo, de uma agressão moral ou física, de um olhar de desconfiança somente pela aparência. Nunca fui expulso de um ambiente, barrado em uma festa, excluído de um grupo ou demitido por causa da minha feição física. Isso para não falar da maneira desigual em que é tratado durante uma ação policial, diante de uma concorrência por emprego, na busca de cuidado por bem-estar.
Vivo num país dominado por uma elite branca, em meio a uma população de maioria formada por negros e pardos. Só nisso dá para se ter uma ideia de que a luta da comunidade dita afrodescendente – de acordo com o politicamente correto – é desigual. Políticas de cotas, leis contra o racismo e campanhas publicitárias pelo fim do preconceito não têm sido suficientes. As marcas de uma história escravocrata e de um racismo velado ainda estão vivas nas principais mídias, nas universidades, nas altas instituições da sociedade.
Volta e meia você precisa assistir, nesta terra, discursos como o do notável jurista Ives Gandra da Silva Martins, que se acha um “modesto” professor, injustiçado por ser branco em face da luta por espaço por aqueles que não tiveram a mesma sorte de ser luso-descendente. Ou as reações a uma piada racista feita pelo âncora de um dos principais noticiários da maior empresa de TV do país. E há até quem tenta substituir a ênfase do Dia da Consciência Negra por uma consciência humana. Se não formos capazes de nos darmos conta da humanidade que há nesse dia, não é mudando o foco que vamos conseguir. O primeiro passo para a formação de uma consciência humana passa pelo mínimo de respeito à consciência negra.
Não, eu não sei o que é ser negro. E nunca vou saber. E nem adianta tentar buscar formas de entender. O que preciso fazer é me dar conta da história de dor, de luta e de sofrimento de quem não é branco como eu. E não é um fato que envolve o Brasil. Ela está presente em todos os lugares do mundo em que o negro, em todas as épocas, foi visto como sub-humano. Até mesmo na mãe África, explorada por quem sempre se achou civilizado.
A lógica da escravidão, da segregação, do Apartheid, da supremacia branca e de outras mentalidades racistas só têm lugar em meio à falta de consciência sobre a condição humana de quem nasceu negro. E elas estão ainda aí fazendo suas vítimas. O Dia da Consciência Negra é para lembrar que quem quer manter o negro oprimido é uma sociedade dominada por uma elite branca. Se você não consegue perceber isso, é sinal de que precisamos dessa conscientização. Que em pelo menos um dia do ano a gente seja capaz de parar para pensar nisso, e tomar consciência. Se isso nos conduzir a uma atitude de respeito, é um bom começo.

domingo, 5 de novembro de 2017

O poder extraordinário da oração / The Extraordinary Power of Prayer / El poder extraordinario de la oración

Todo mundo enfrenta circunstâncias difíceis na vida. Se você não está passando agora, certamente já passou alguma vez e muito provavelmente virá a enfrentar lutas e grandes desafios. Isso faz com que todos nós precisemos de algo que nos dê um impulso, que nos encoraje, que desperte em nós um estímulo para seguir adiante apesar das condições desfavoráveis que possamos experimentar.
A oração é um recurso de que dispomos como um alento para as horas de aflição, como um grito de socorro na hora do medo, como um refúgio diante de nossos fracassos. Orar é o reconhecer nossa dependência de Deus, uma declaração de que não somos tão suficientes como imaginamos, que não temos o controle sobre as circunstâncias, que somos mais orientados pelas nossas incertezas do que pelas nossas convicções.
A oração é sinônimo de aproximação, de diálogo, de intimidade. Aquele que ora se abre para uma relação mais íntima com Deus, aceita humildemente a oportunidade de estar diante daquele que tudo pode mesmo apesar de ser aquele que nada pode. Ela alimenta a nossa relação com Deus e nos estimula a viver a fé em meio às nossas condições mais concretas de vida.
O maior mestre de oração foi Jesus Cristo não só por ter ensinado seus discípulos a orar, mas também por desenvolver uma vida significativa de oração. E essa é uma forte justificativa por que devemos orar: Jesus orou e ensinou a orar. Jesus orou ao começar o seu ministério e orou quando teve que suportar a cruz. A oração esteve presente nos momentos mais expressivos, como a ressurreição de seu amigo e a preparação para a sua prisão final, como também nos seus momentos de maior solitude. Jesus orou em companhia dos seus discípulos, diante das dores das pessoas e pelo futuro daqueles que o viriam segui-lo.
Se queremos experimentar o poder extraordinário da oração, precisamos aprender com Jesus. Jesus também enfrentou situações difíceis. E em todas elas, Jesus demonstrou que, quando nossos sentidos estão voltados para Deus, encontramos confiança e segurança de maneira singular. Jesus estava certo de que estava cumprindo o propósito de Deus para sua vida em seu tempo.
A oração é o remédio divino para a ansiedade, para o medo e a solidão. A oração não muda a realidade externa, mas altera completamente o nosso interior. A oração não move o braço de Deus, mas move o nosso coração na direção de experimentar a vontade de Deus. Ela nos ajuda a manter o foco nos propósitos divinos e, com isso, descansar no Senhor e descobrir o que realmente importa para cada circunstância vivida.
A falta de oração na vida é um grave problema. Mas, pior do que isso, a oração usada equivocadamente é um pecado gravíssimo. Usar a oração como arma de defesa, como fuga da alma, como instrumento de barganha ou tentativa de controlar o poder de Deus é sinônimo de fracasso espiritual. A oração revela o nosso caráter. Se você quer saber qual é a sua índole, quais as suas reais intenções de caráter e a maneira como você compreende Deus, basta fazer uma análise honesta dos seus motivos de oração.
Assim como a oração pode desvendar nossas ambiguidades e equívocos, ela é o caminho seguro para reparar nossas distorções, visto que Deus conhece nossas fragilidades e está sempre pronto a nos fortalecer. A oração é sinônimo de uma espiritualidade madura. Quando oramos, nossa mente e coração estão atentos ao cuidado divino, que fala e age como um pai amoroso. Deus se revela com poder e graça ao coração mais acolhedor e humilde.

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Celebrar a Reforma / Celebrate the Reformation / Celebrar la Reforma

A geração atual tem o privilégio de comemorar o quinto centenário da Reforma Protestante de uma forma única na história. Nunca antes o cristianismo pode celebrá-la tal como tem sido marcado, com conferências, publicações e reconhecimentos do mérito e do legado dos reformadores, envolvendo não só protestante, mas também católicos.
Há duas razões para isso. A primeira é a superação dos mal-entendidos produzidos pela contrarreforma católica, não só com as tentativas reformadoras do concílio de Trento, de 1545 a 1563, como também pelas campanhas difamatórias empreendidas pela igreja católica contra Lutero. Em 1529, Johannes Cochlaeus, que era um adversário do luteranismo e também o primeiro biógrafo de Lutero, descreveu o Reformador como “tendo sete cabeças”, filho “ilegítimo de Satanás”, “instrumento do demônio” que trouxe “à Alemanha e à cristandade a desgraça e a miséria” e “uma cópia humana de Lúcifer”. E essa foi a ideia que se nutriu por muito tempo.
A compreensão sobre a pessoa de Lutero só começou a ser alterada a partir do começo do século XX, com o trabalho do teólogo católico Yves Congar, que considerou a obra de Cochlaeus como “uma imundície que não pode ser desculpada nem mesmo pela intenção do autor de servir à sua igreja” (apud Elben M. Lenz Cesar, em Conversas com Lutero). Por ocasião do quinto centenário do nascimento de Martinho Lutero, em1983, o Papa João Paulo II escreveu uma carta ao cardeal Johannes Willebrands, então Secretário para a União dos Cristãos, sobre a necessidade de se chegar a uma compreensão “justa” sobre a imagem de Lutero como alguém que contribui decisivamente para as transformações da igreja no Ocidente. Recentemente, o atual Papa Francisco tem afirmado a necessidade de diálogo e aproximação entre católicos e protestantes em face das comemorações dos 500 anos da Reforma.
Quando a Reforma completou o seu primeiro centenário, a Europa estava mergulhada nos atos provocados pela inquisição católica. Somente entre os séculos XVI e XVII, os tribunais católicos efetuaram mais de mil execuções. A perseguição aos movimentos protestantes huguenotes na França e valdenses na Itália foi violenta. A repressão ao protestantismo ceifou milhares de vidas.
Quando a Reforma completou o seu segundo centenário, a Europa estava tomada por uma nova mentalidade científica. O Iluminismo nascente apregoava a superioridade da razão sobre a fé. Voltaire começava seus discursos sobre as liberdades civis e a necessidade de uma reforma racional, por meio do progresso da ciência e da tecnologia, em que a religiosidade não poderia mais ter lugar.
Quando a Reforma completou seu terceiro centenário, o mundo passava por uma grande transformação política e econômica. Emergia o conceito de estado burguês, assim como um crescimento vertiginoso da concentração de renda motivado pela revolução industrial. As antigas colônias buscavam sua emancipação, o capitalismo ampliava suas bases teóricas, o cientificismo tomava conta dos meios acadêmicos e o romantismo marcava a estética e a arte literária daquele tempo.
Quando a Reforma completou seu quarto centenário, o mundo estava em guerra. Era o auge da Primeira Guerra Mundial e as revoluções populares que levaram ao fim do czarismo na Rússia e às transformações sociopolíticas em todo o mundo. Pela primeira vez, as tropas usavam tecnologia para a destruição do inimigo. A humanidade, que havia sonhado com o tempo em que poderia voar e se locomover em maior velocidade, agora via o uso do avião, da metralhadora e do automóvel como armas de combate. É o começo do grande desencantamento e a afirmação do niilismo.
Quando a Reforma completa o seu quinto centenário, o mundo não está em paz e muito menos tem se transformado em um lugar melhor para se viver. Pela primeira vez, a humanidade se vê diante de uma possibilidade real de extinção em que a principal causa é o próprio homem. Problemas como o aquecimento global, a crise migratória, o crescimento da mentalidade de extrema direita e até as novas faces dos fundamentalismos religiosos colocam em risco a vida humana no planeta. Lembrar a Reforma e trazer de volta um sentido de espiritualidade que restaura a compreensão em um Deus de graça e misericórdia, que resgata o homem de sua própria perdição por meio da fé em Jesus Cristo.
Celebrar a Reforma hoje não pode se restringir a uma declaração ufanista de um movimento que deu certo, até por que teve seus problemas. É claro que deve haver um reconhecimento do importante papel que ela exerceu no campo da política, da economia, da teologia, da filosofia e das relações sociais. Entretanto, faz-se necessário compreender o espírito dos reformadores, que não quiseram apenas dividir a igreja, mas renová-la para enfrentar as grandes transformações que o mundo atravessava e que ainda vem atravessando.
Celebrar a Reforma tem um sentido de gratidão pela coragem dos primeiros reformadores, mas também de um chamamento a uma resistência à tendência de se prender a um conservadorismo paralisante, um moralismo discriminatório e a um fundamentalismo obscurantista. Celebrar a Reforma deve ser muito mais um ato de resistência às muitas formas de cercear a liberdade, de impor mais opressão e de exercício de totalitarismos. É promover a grande revolução que restaura o sentido de humanidade e que nos conduz a uma vida mais humana diante de Deus e uns dos outros.

terça-feira, 31 de outubro de 2017

O Futuro da Reforma / The future of the Protestant Reformation / El futuro de la Reforma Protestante

Após cinco séculos da Reforma Protestante, a pergunta que se levanta é: qual é o seu futuro? Isso remete a outras indagações: precisamos de uma nova reforma hoje? As transformações que o cristianismo precisa experimentar hoje são da mesma natureza das do tempo da Reforma de Lutero? As respostas a essas indagações são complexas e exigem um olhar crítico para o momento pelo qual a fé cristã atravessa no mundo.
As causas da Reforma são mais profundas do que os desvios morais e a corrupção do clero da igreja do Ocidente. Nas confissões protestantes – principalmente a luterana de Augsburg e a anglicana de Westminster –, haverá mais preocupação com questões teológicas do que morais, haverá mais ênfase à comunhão dos santos do que aos ofícios. “A tese segundo a qual os Reformadores teriam deixado a Igreja romana porque ela estava repleta de devassidões e impurezas é insuficiente”, dirá o historiador Jean Delumeau em Nascimento e afirmação da Reforma. Da mesma forma, as consequências da Reforma vão além do cisma na igreja ocidental. Ela se desdobra em novas conquistas sociais num mundo em grande transformação.
A Reforma Protestante trouxe uma nova perspectiva política, econômica e cultural num mundo em efervescência. Não se pode separar os acontecimentos da Reforma dos movimentos ligados à afirmação dos estados nacionais na Europa, do surgimento da economia de mercado e as raízes do capitalismo, da formação do pensamento liberal e o humanismo nascente. Os pensadores da Reforma dialogaram com as grandes correntes de pensamento de seu tempo e influenciaram de forma decisiva as ideias emergentes. A Reforma Protestante contribuiu para a uma nova compreensão do papel da cultura, do conhecimento e da participação social do indivíduo. Isso se deu a partir do esforço de trazer a Bíblia para as línguas nacionais, ao propor um projeto educacional extensivo às populações mais pobres e até ao fortalecer as formas de organização das sociedades que tiveram uma experiência reformista.
Karl Marx, em sua Crítica da filosofia do direito de Hegel, reconheceu: “Sem dúvida, Lutero venceu a servidão por devoção porque pôs no seu lugar a servidão por convicção. Quebrou a fé na autoridade porque restaurou a autoridade da fé. Transformou os padres em leigos, transformando os leigos em padres. Libertou o homem da religiosidade exterior, fazendo da religiosidade o homem interior. Libertou o corpo dos grilhões, prendendo com grilhões o coração”. Para ele, a Reforma foi um acontecimento revolucionário, que transformou a Alemanha, não como solução, mas como “o modo correto de colocar o problema”.
Se no período renascentista o cristianismo passava por uma crise interna que envolvia a moral e o exercício da autoridade eclesiástica, hoje há uma crise que tem mais a ver com a maneira como a fé cristã enfrenta os dilemas e as dores do mundo. Se as causas da Reforma diziam respeito a um retorno à essência do cristianismo, hoje há a necessidade de se buscar relevância. O que se faz necessário hoje não é uma “reforma”, mas uma revisão dos rumos, do discurso e da práxis do cristianismo. Se as causas da Reforma eram internas, hoje as transformações precisam se dar na esfera pública.
O cristianismo perdeu relevância. Uma das evidências disso é que, quando alguém procura uma experiência de espiritualidade, o último lugar em que se vai buscar é a igreja. Há mais sentido para o mundo na espiritualidade dos movimentos orientais, da vida alternativa e até da autoajuda do que na vida de devoção ou mesmo no seguimento de Cristo. E isso se deve à maneira como ficou configurado aquilo que o cristianismo tem de pior: o fundamentalismo religioso, a pretensão de religiosidade hegemônica e a incapacidade de dialogar com o mundo.
Se os reformadores enfatizavam o livre exame da Escrituras, o sacerdócio universal dos crentes e a justificação pela fé como orientadores de uma nova teologia, as igrejas herdeiras da reforma precisam apontar suas reflexões e condutas não para reafirmar ou rever tais princípios, mas para reorientar sua ação no mundo. Nesse sentido, a esfera pública faz emergir uma nova compreensão teológica que dê conta de uma igreja comprometida com o chamado divino de ser servidora de um mundo perdido. Afinal, essa foi a proposta de Jesus de Nazaré ao comissionar seus discípulos: “Antes, dirijam-se às ovelhas perdidas de Israel” (Mateus 10.6).
Uma igreja que se ocupa da esfera pública precisa rever a maneira como se identifica como povo de Deus, não como sectário, mas como corpo de Cristo no mundo. Há uma necessidade de se empreender um esforço ecumênico para se ressaltar mais o que une os cristãos no mundo do que aquilo que os divide. A igreja cristã precisa se afirmar como uma família de muitos irmãos e irmãos, e não como um gueto ou um lugar de fuga do mundo.
Uma igreja que se ocupa da esfera pública precisa desenvolver um sentido de comunhão para além da sua realidade interna. Isso implica o resgate do sentido de comunidade, que se desloca do círculo restrito das relações eclesiásticas e se estende para dentro do mundo. A igreja precisa deixar de ser a expectadora de um mundo em naufrágio, como se vivesse uma realidade distante, para ser coparticipante do cuidado com o mundo como sendo parte dele. É preciso ver o mundo como nossa casa comum, e não como um além.
Uma igreja que se ocupa da esfera pública precisa possuir um sentido de missão voltada para o ser humano em sua totalidade. A igreja não é portadora de uma verdade absoluta, imutável e inquestionável. Ela é anunciadora da boa nova de salvação a toda criação: o ser humano em suas múltiplas relações e complexidades. Ela não tem que defender verdades, mas ser agente de transformação e de libertação num mundo que perdeu-se de si mesmo. Foi Jesus quem lançou as bases para uma nova vida a fim de que possamos viver de forma humana diante de Deus. A igreja tem a missão de levar a toda humanidade a boa notícia de que é possível uma vida humana mais digna, justa e solidária conforme Jesus ensinou e viveu.
Após 500 anos, é importante entender o que foi a Reforma, não para repeti-la ou reafirmá-la, mas para inspirar um novo movimento em direção a uma vida cristã mais autêntica no mundo. O momento é de gratidão pelo legado da Reforma, o que ela contribuiu para a história da igreja como um todo. Mas também é de crítica, reconhecendo limitações e falhas que a igreja vem enfrentando ao longo do tempo.

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Reforma protestante e pluralidade / Protestant reform and plurality / Reforma protestante y pluralidad

Quando se fala de Reforma Protestante, não se refere a um movimento único e uniforme. Ela precisa ser compreendida a partir de uma perspectiva plural, que aconteceu em um contexto de pluralidade, desenvolveu-se de forma variada e configura-se também por uma diversidade. O correto seria falar de reformas protestantes ao se tratar do fenômeno de transformação que o cristianismo experimentou no limiar da Modernidade.
Entretanto, esse aspecto plural nunca foi visto como um fator positivo, identificado como promotor de uma relação entre “inimigos de si mesmos”, para usar a expressão empregada no título do livro de Rowland Croucher que faz uma abordagem sobre o fenômeno do evangelicalismo, do socialismo evangélico e do neopentecostalismo característicos do movimento protestante a partir da década de 1960.
O pluralismo protestante tem sido objeto de um diálogo impossível, marcado muito mais por aspectos organizacionais, doutrinários, litúrgicos e até moralistas do que aqueles voltados para a essência da fé, da comunhão e do amor cristão.
Como afirmou Claudio de Oliveira Ribeiro, no artigo Espiritualidades plurais da Reforma: “a vivência comunitária e a pluralidade constituem privilegiado potencial de geração de utopia e que a ausência de referenciais utópicos dá lugar a formas de individualismos exacerbados, de lógicas de exclusão e de sectarismos, de imediatismos políticos, de racionalismos e de absolutismos, o que enfraquece a vivência autêntica e gratuita da fé e a noção de diaconia como canal de solidariedade, partilha e serviço. Tal pressuposição está em íntima sintonia com os princípios teológicos da Reforma”.
Essa pluralidade está refletida na formação histórica, na proposta teológica e na concepção eclesiológica. Não há uma história única do protestantismo: a reforma aconteceu de forma distinta na Alemanha, na Suíça, nos Países Baixos, na Inglaterra, Europa Central. Houve também movimentos que foram duramente combatidos na França, na Itália e Espanha. Também não é possível se falar de uma única teologia protestante: a chamada “teologia reformada” pode ser entendida a partir de tendências luterana, calvinista e as que marcaram a chamada reforma radical, com os grupos anabatistas e grupos separatistas. Da mesma forma, não se pode falar de uma única eclesiologia protestante, visto que os grupos foram adotando diversas formas de organização e de estrutura, como os presbiterianos, os congregacionais, os metodistas, uns mais hierárquicos e outros mais democráticos.
Embora haja essa diversidade histórica de expressões da Reforma, essa condição de surgimento, formação e configuração não representa uma oportunidade de diálogo fácil entre as várias manifestações do protestantismo nem com outras formas de expressão do cristianismo.
É preciso desenvolver uma análise crítica das condições de construção do que ficou conhecido como Reforma Protestante e identificar suas várias tendências bem como os fatores que promovem aproximações e distanciamentos entre eles. Nesse sentido, é possível falar de antecedentes, de ações e de desdobramentos que são plurais em seu âmbito.
1) Antecedentes plurais – Os séculos XIII-XIV foram marcados por movimentos após o chamado Grande Cisma que reivindicavam mudanças na igreja do Ocidente que envolviam dois aspectos. O primeiro, voltado para a reforma da fé e da hierarquia eclesiástica, com a atuação de expoentes como Pedro Valdo, John Wycliff, João Huss, Comênio e Savanarola. O segundo, que propunha uma mudança de costumes, mais voltado para aspectos morais, como foi o caso da reforma humanista de Erasmo.
No fim da Idade Média, especialmente nos séculos XIV e XV, havia uma grande insatisfação popular envolvendo questões sociais e ações religiosas que provocavam um clima de insegurança. Como consequências desse quadro, podemos citar a contestação ao clero e a busca por justiça social.
Podemos encontrar pelo menos três vertentes que antecederam a Reforma:
a) Uma vertente acadêmica, marcada pelo declínio da escolástica e o apelo à volta da simplicidade do Evangelho. Um dos textos conhecidos é Imitação de Cristo, de Tomás de Kempis.
b) Uma vertente popular, marcada por movimentos marginais que se inspiravam em antigas ordens religiosas, como as dos franciscanos e dos dominicanos. Havia um apreço à vida monástica, um apego à prática de flagelos e penitências e a defesa de crenças escatológicas.
c) Uma vertente mística, marcada pela vida contemplativa e a ênfase numa teologia apofática. O Mestre Eckhart é um de seus representantes.
2) Ações plurais – Embora Lutero seja a figura de destaque do movimento da Reforma, o luteranismo não foi único. Outras expressões aconteceram ao longo de toda a Europa. Não podemos esquecer da participação de nomes como Zwinglio e Calvino, do anglicanismo, dos huguenotes franceses, de grupos radicais como os anabatistas e os separatistas ingleses, dos movimentos de reforma da Escócia e da Espanha, das comunidades mendicantes dos Países Baixos e do desdobramento místico do alemão Jacob Boehme e do espanhol João de Valdez. Outro teólogo que atuou de forma marcante foi Thomas Müntzer, que liderou um movimento de camponeses assumindo uma dimensão política e revolucionária do pensamento da Reforma, mas acabou sendo derrotado, preso e morto pelos próprios luteranos.
3) Desdobramentos plurais – Embora a Reforma Protestante tenha acontecido no final do período renascentista, ela se desenvolveu ao longo da Modernidade. Os acontecimentos históricos acabam se entrelaçando com outros eventos significativos desse período. Entre eles podemos mencionar a formação dos estados nacionais, o surgimento do pensamento liberal e a ênfase ao individualismo. Max Weber, inclusive, já tem identificado uma grande afinidade entre o protestantismo e o espírito do capitalismo, sistema político-econômico que se afirma no contexto da Modernidade.
No contexto do luteranismo alemão, surge o movimento pietista, que enfatizava a dimensão individual da experiência de Deus, com uma forte inclinação moralista e um apelo ao estudo das Escrituras. O pietismo defendeu crenças e práticas como a necessidade da conversão pessoal, da fuga do mundo e da prática piedosa da caridade e da tolerância.
Já no contexto inglês, onde se deu a reforma anglicana, surge outro movimento, o puritano, que procurar retirar os vestígios do catolicismo que foram mantidos na igreja da Inglaterra. O puritanismo pode ser considerado como um esforço pelo avivamento da igreja com importantes consequências para a expansão da compreensão da missão da igreja no mundo. Quando o puritanismo foi levado para a América, ali se expandiu e estabeleceu bases para a formação dos Estados Unidos como nação democrática.
Essa condição plural do protestantismo tem sido objeto de diversas investigações a respeito de suas causas e consequências. Entretanto, o que se pode notar é que, em meio a sua diversidade, há um distanciamento do espírito e das intenções que marcaram a Reforma Protestante.
O protestantismo é marcado hoje por pelo menos três características predominantes, cada uma delas como uma pluralidade de possibilidades:
a) Um viés fundamentalista.
b) Um viés carismático.
c) Um viés progressista.
O fenômeno do pluralismo protestante é um fator de divisão que tem desencadeado uma identidade marcada pela falta de diálogo interno. Essa falta de diálogo se reflete na esfera pública, com práticas e discursos que deixam claro que uma nova onda de “reforma” precisa acontecer. Os grupos protestantes são mais conhecidos pelo que proíbem do que pelo que defendem.
Essa diversidade decorre de princípios orientadores que precisam ser revisitados hoje no sentido de se contribuir bases para relações ecumênicas e de diálogo inter-religioso. Rubem Alves, no livro Protestantismo e repressão, identificou que o protestantismo foi, em seu primeiro momento, “a explosão de um grito reprimido de liberdade”. Entretanto, como salientou Bonhoeffer em sua Ética, a igreja protestante encarna o tema de nosso tempo, que é o da decadência.

Assista:

LinkWithin

Related Posts with Thumbnails