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sábado, 18 de outubro de 2014

“Mar de lama”: desigualdade, corrupção e inflação em tempos eleitorais / Inequality, corruption and inflation / La desigualdad, la corrupción y la inflación

Os discursos da oposição estão orquestrados com as manchetes da grande imprensa: o Brasil está mal. Não resta a menor dúvida de que o Brasil vai mal, mas nunca esteve tão melhor. Não chega a estar tão a ponto de ser o tal “mar de lama” anunciado pelo candidato oposicionista, assim como nunca tivemos na história do país uma condição que se possa chamar de “mar de rosas”. O fato é que a vida das pessoas melhorou: há mais emprego, há mais oportunidade de estudo, há mais pessoas na classe média e menos gente vivendo na miséria e, por incrível que pareça, há mais pessoas ricas.
Na configuração do processo eleitoral de 2014, o que está em jogo não é somente uma situação moral, mas a escolha entre dois projetos de poder: um que é favorável à luta contra as estruturas que promovem a desigualdade e outro que atende às exigências do mercado que estimulam a concentração de renda; um que representa as lutas das organizações de classe dos trabalhadores e outro que representa os ideais das forças conservadoras de direita.
O que a oposição alardeia como um caos social e econômico está ligado a uma realidade dura e cruel vivida pelas camadas menos favorecidas, embora não apresente planos e metas para a sua diminuição. Alguns desses fatores podem ser aqui elencados:
a) a saúde pública ainda enfrenta situações precárias de atendimento;
b) a educação pública carece de investimentos e incentivos;
c) o transporte público de massa enfrenta condições que não atendem à demanda;
d) a violência chegou a níveis insuportáveis, com um aparato de organização e sofisticação nunca vistos.
A solução para esses graves problemas passa pela conjugação de forças dos poderes constituídos, quer seja em instâncias federal, estadual e municipal, quer seja por parte do executivo, do legislativo e do judiciário. É uma ilusão acreditar que a solução do problema virá pela escolha de um candidato que se autoproclame portador de soluções, como um “salvador da pátria”.
As condições em que se dão os problemas de saúde, educação, transporte público e violência são as mesmas que favorecem a desigualdade social, a corrupção e a inflação, corroboradas por práticas de autoritarismo e de injustiça que infestam todas as esferas da vida pública. Isso se deve a uma prática histórica ligada à distribuição de terras, à política de favorecimentos e à concessão de oportunidades melhores aos que circulam mais próximos ao poder.
Trata-se de uma política de exclusão que relegou à margem da sociedade uma enorme parcela da população que sempre foi discriminada por razões de cor, religião e posição social. A república brasileira é um produto histórico dessa política excludente. Ela foi proclamada por uma elite branca e aristocrática, que estabeleceu uma democracia voltada para a manutenção do poder nas mãos das pessoas com maior poder aquisitivo. Qualquer tentativa de se reverter essa configuração foi tratada com ataques moralistas e golpes institucionais, com o uso intenso dos grandes órgãos de imprensa e da influência por afinidade com representantes dos poderes instituídos, sobretudo em relação ao legislativo e ao judiciário.
O discurso do “mar de lama” foi usado por representantes da direita – como Carlos Lacerda – para desestabilizar o governo de Getúlio Vargas, o que o levou ao suicídio. Foi usado também na campanha eleitoral de Jânio Quadros, que sucedeu a Juscelino Kubitschek, mas que renunciou sete meses depois da posse. Foi usado ainda para justificar o golpe militar de 1964 e estabelecer um regime de exceção no país.
Reacender esse discurso neste momento eleitoral traz o implícito de que as políticas sociais, que combatem as estruturas que favorecem a desigualdade, que combate a fome e a miséria e que promovem correções na distribuição de renda, não agradam às ditas forças conservadoras de direita.
O combate à desigualdade social inclui a rejeição das práticas que a favorecem, que promovem a má distribuição de renda e exploram os menos favorecidos. Programas como o Bolsa Família, Minha Casa Minha Vida, Prouni e equivalentes, embora sejam relevantes e decisivos para a inclusão social de milhões de brasileiros, são alternativos. O que se faz necessário mesmo é de uma política que penalize o poder do ganho de capital sobre a s forças produtivas.
O combate à corrupção deve envolver o tratamento das relações que a favorecem, incluindo o agente público envolvido na prática, mas também a origem do dinheiro, que está vinculado a prestadores de serviços, fornecedores e empreiteiros que se beneficiam da corrupção. Uma denúncia que é feita por um agente criminoso, que aponta apenas um lado do problema e esconde a fonte da corrupção não contribui para o combate à corrupção.
O combate à inflação não pode se dar apenas por uma política de controle dos juros e do câmbio, mas por uma combinação de práticas que levem em consideração os ataques especulativos do mercado, que cuidem da relação entre oferta e demanda no mercado interno, que levem em consideração as exigências do mercado externo e o repasse de ganhos das multinacionais.
O que o Brasil precisa hoje é de uma política de Estado e de um programa de governo que tenha por princípio o combate constante às estruturas que promovem a desigualdade social, o tratamento permanente da corrupção como um mal intolerável que resulte na condenação do corrupto e do corruptor, e o controle da inflação tendo em vista os ataques especulativos do mercado com sua sede ganhos cada vez mais abusivos. Sem um compromisso público de campanha por parte dos candidatos, o discurso e suas plataformas eleitorais não passam de demagogia. 

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Ser criança / Be a child / Ser un niño

Portanto, quem se faz humilde como esta criança, este é o maior no Reino dos céus Mateus 18.4
Quando Jesus quis deixar uma lição sobre a vida no Reino de Deus, ele usou a figura de uma criança como metáfora. Quatro afirmações foram feitas:
a) Você precisa se converter em uma criança.
b) Você precisa ser humilde como uma criança.
c) Você precisa acolher Jesus como quem acolhe uma criança.
d) Você precisa dar bons exemplos para uma criança.
A razão para que fizesse isso não foi por que a criança é pura ou ingênua, mas por ela ser expressão de nossa condição real, incapazes de dar conta de nós mesmos.
Por que isso não tem a ver com a pureza e a ingenuidade de uma criança? Porque ela não é isso. A criança é uma pessoa que já traz em si toda a ambiguidade da vida humana. Se ainda me lembro bem de minha infância, foi nesse período que empreendi muitas ações maldosas, que hoje considero como falhas de caráter: chantagem emocional, trapaças, mentiras cotidianas.
Certa vez, minha mãe deu ordem para não comer os biscoitos. Colocou o pote de biscoitos no alto do armário e foi tirar o seu cochilo depois do almoço. Eu desobedeci sua ordem, escalei o armário e, para minha tristeza, quando estava quase alcançando o pote, o armário veio abaixo quebrando muitas louças.
Isso é ser criança: ser o que se é e contar com a ternura de um cuidado amoroso maternal e paternal, depender de ser corrigido em nosso rumo e estar aberto para a aventura de uma vida nova.
Quando criança, imaginamos o que vamos ser quando crescer, cada descoberta é uma grande aventura e ainda nos abrimos para a experiência da amizade e do conhecimento. O crescimento é que nos traz, com o tempo, a ilusão do autocontrole, da razão suficiente e até da liberdade incondicional. Porém, não nos damos conta de que perdemos o essencial, que é a capacidade de acolhimento e de redirecionamento da vida diante das incertezas.
O convite de Jesus para ser como criança é para redescobrir o encanto de se viver de forma autêntica e de acolher o seu convite amoroso. Ser criança é ser humano em sua forma inicial, inclui a necessidade de se crescer e de amadurecer até a mesma estatura de Cristo, implica tratar de nossas fragilidades com abertura para as possibilidades para a nossa vida.

domingo, 12 de outubro de 2014

Celebrar a vida / Celebrate life / Celebrar la vida

O maior desafio de ser cristão hoje não é enfrentar a oposição de ateus ou seguidores de outras crenças. Não é o embate com grupos de defesa de direitos individuais diante de afirmações morais de grupos fundamentalistas. Não é nem mesmo a rejeição à fé que a secularidade vem promovendo nos meios de comunicação. O maior desafio para ser cristão hoje é a indiferença.
Quando se fala de indiferença, isso está relacionado tanto à maneira como o pensamento contemporâneo trata a questão de Deus, quanto ao modo como cristãos vivem no mundo. Explicando melhor. O mundo atual aprendeu a viver sem a compreensão de Deus como uma hipótese válida para explicar a complexidade da vida. Além disso, ser cristão e não ser cristão hoje envolve uma assimilação de valores seculares que não dá mais para diferenciar o que orienta as escolhas das pessoas.
O apóstolo Pedro disse certa vez: Vivam entre os pagãos de maneira exemplar para que, naquilo em que eles os acusam de praticarem o mal, observem as boas obras que vocês praticam e glorifiquem a Deus no dia da sua intervenção. 1 Pedro 2.12. Parece que esse era um problema também na época do começo do cristianismo. Cristãos que orientam sua vida pelos mesmos valores que uma sociedade secularizada tornam-se indiferentes aos apelos do evangelho para o exercício da missão.
Há alguns que poderão olhar para essa afirmação de Pedro como uma advertência moral, porém o que está em jogo quando o assunto é viver é a capacidade de levar em conta as circunstâncias em que se dá a nossa existência. Talvez isso leve até a pensar que fazer as coisas certas resulta em uma vida melhor e encoraja outros a que façam o mesmo. Entretanto, essa conclusão é precipitada e equivocada.
Viver é uma experiência rara, única. A vida está aí, dada para ser vivida em meio às circunstâncias concretas do mundo, no qual estamos inseridos. É o que nos remete ao sentido do ser-aí – o dasein de Martin Heidegger. Cada um é uma história que está acontecendo e caminha para um final. Isso corresponde a uma angustiante ambiguidade: quando se olha para o futuro, temos uma indeterminação; mas quando olhamos para o passado, vemos o que nos determina e confere significado, de tal modo que a cada passo dado a história se transforma. Por essa razão, Riobaldo – o personagem de Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa – dirá: “Moço, viver é muito perigoso”.
Viver é a melhor dádiva que recebemos, e viver de acordo com os propósitos de Deus é fazer dessa dádiva uma oportunidade única de realização pessoal e de encontro. Vivemos melhor quando experimentamos a vida na vida de Deus. Uma vida nessa dimensão desperta o sentido celebrativo. Isso é adoração. É no curso da vida que somos chamados a uma experiência de encontro com Deus, na pessoa de Jesus Cristo, que nos remete a um encontro com o próximo em missão. E essa é uma vivência que se atualiza e se renova a cada dia, de modo que viver é estar sempre aberto para o novo.
Viver desse modo para o cristão é viver a dispensação da graça. Quando se vive a vida de Deus, descobre-se que não existimos para nós mesmos, mas para o cumprimento da missão. Isso nos remete a um deslocamento, que vai da minha autossatisfação para a realização do encontro, que parte do individualismo para a vida em comunhão. O que nos permite fazer este deslocamento é a fé como experiência individual que se expressa coletivamente. Missão não é oferecer um espetáculo para a admiração de todos, mas ser a comunidade dos que celebram a vida por que a experimentam na fé no Deus vivo.
Isso deve orientar uma nova vida em comunidade, ser a igreja de Deus no mundo. A igreja que não assume a missão de Deus em sua vida comunitária, como sua forma de ser no mundo, torna-se como um clube religioso, fechado em si mesmo, insensível às dores do mundo. Ela pode até ser espetacular em suas celebrações – o que é bom e deve ser sempre buscado e aperfeiçoado – mas será sempre um lugar de fuga, nunca um lugar de esperança e acolhida. Será mais um esconderijo, e não um lugar de descanso para tratar das dores da vida.

domingo, 5 de outubro de 2014

O que falta? / “What do I still lack?” / “¿Qué más me falta?”

“Disse-lhe o jovem: ‘A tudo isso tenho obedecido. O que me falta ainda?’”Mateus 19.20
A pergunta do jovem rico a Jesus é a pergunta de toda a humanidade: o que eu posso fazer para ter uma vida melhor? Ela contém duas ideias embutidas: a primeira é a de que por mais que eu conquiste bens na vida, isso nunca será suficiente para uma vida melhor; a segunda é que por mais que eu faça o bem, isso do mesmo modo nunca será suficiente.
O conceito de vida que o jovem traz consigo não corresponde ao aspecto material e circunstancial do viver. Ele pergunta pela vida além da vida, a que excede o biológico e até o existencial. Refere-se à suspeita de que todos nós temos de que há um porvir, o que fortalece a hipótese de que não fomos feitos apenas para uma vida aqui, limitada, entre o nascer e o morrer.
Para essa vida que se abre para o que está além, para o eterno, a humanidade tem tentado se orientar a partir desses dois princípios: o da satisfação material e o do merecimento. De um lado, a sede de se realizar por possuir aquilo que ainda não se tem; de outro, o anseio de fazer o certo para se conseguir o almejado. Ora o pêndulo aponta para um, ora para outro.
Para o moço rico, esses dois princípios não eram suficientes. Por mais rico que fosse e por mais que praticasse os dez mandamentos, ainda lhe faltava alguma coisa. Assim como ele, todos nós temos a ilusão de que a o bem-estar é resultado unicamente de uma conquista pessoal.
Jesus, porém, aponta para um teste de realização: o jovem teria que abrir mão de tudo o que lhe dava segurança para seguir a Jesus.
Um grande desafio. Se você tivesse que escolher hoje deixar tudo o que tem para seguir a Jesus, qual seria a sua decisão? A maior dificuldade das pessoas em entender essa proposta é que seguir a Jesus não é uma alternativa: é a única escolha sensata para uma vida melhor e mais feliz. E a razão dessa minha afirmação é a vida que se baseia no seguimento de Jesus é a única maneira de se alcançar o sentido de realização pessoal.

O jovem rico saiu triste. Possivelmente ainda não estivesse preparado para essa decisão. Ele é um retrato fiel das escolhas que fazemos. É muito mais fácil você se ocupar acumulando bens ou cumprindo uma agenda de boas maneiras e boas atitudes do que fazer os ajustes na vida para seguira a Jesus. Porém, não há nada que nos realize mais do que viver de acordo com os seus ensinos. Garanto.

domingo, 28 de setembro de 2014

Poder / Power / Poder

“Não será assim entre vocês. [...]” Mateus 20.26
Onde está aquele Jesus que questiona as estruturas dominantes que causam desigualdade e injustiça? A relação da cristandade com o poder tem produzido seus encantos e não falta quem deseje a implantação de um sistema político dominado pela fé cristã.
São dois grandes equívocos da relação entre fé cristã e política: um, o de confundir poder com sistemas de poder; outro, de confundir a mensagem de justiça que brota do evangelho com a implantação de uma estrutura política. O resultado desses equívocos é um só: desconhecer as causas reais que provocam toda forma de injustiça e desigualdade social no mundo.
Jesus teve a oportunidade de tratar disso quando a mãe de dois dos seus discípulos o procurou para fazer um pedido inusitado. Ela queria garantir uma vida estável e confortável para seus filhos no reino de justiça que Jesus veio implantar. Porém, a lógica do evangelho é outra: menos é mais e poder significa influência.
Jesus reconheceu que era legítimo o direito dos discípulos serem tratados como o seu mestre. Então, que seja assim. Se alguém quiser ser o maior, que seja o menor; se alguém quer ser o primeiro, que seja o último, se alguém quer ser servido, que seja o servo de todos; se alguém quer ganhar a vida, que a perca por amor a Jesus; se alguém quer ser perdoado, que aprenda a perdoar; e se alguém tiver vergonha disso, será envergonhado.
A maior lição de relações de poder dentro do cristianismo foi dada a partir de uma toalha e uma bacia. Isso é completamente diferente do que a cristandade construiu desde a aproximação do poder romano com os cristãos lá pelos idos do século IV.
O reino de Deus não precisa de uma estrutura de poder para produzir seus efeitos. Ele já é a manifestação do poder de Deus entre os homens, que precisa ser sinalizado historicamente através dos atos de justiça e compaixão dos que tomam parte dele. Ao contrário, as estruturas humanas de poder estão contaminadas por fatores que não se coadunam com a boa notícia do Reino. Os sistemas de poder são exercidos por um jogo de dominação, por uma estratégia de persuasão e por técnicas de controle.

O evangelho é a graça de Deus que chega aos homens em amor, que acolhe o mais indigno, fortalece o mais vulnerável e exalta o que fora humilhado. Não tem como misturar as coisas, nem como regatear a alegria da graça com qualquer proposta política de mudança da conjuntura atual. A boa nova do Reino é o único modo de mudar a realidade, porque transforma a vida de quem a acolhe por dentro.
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