domingo, 18 de novembro de 2018

Fé e política: aproximações necessárias / Faith and politics: necessary approximations / Fe y política: aproximaciones necesarias


O teólogo alemão Johann Baptist Metz, em seu livro Teologia política, afirmou que “o problema do cristianismo não são as crenças, mas os sujeitos”. O que ele chama de teologia política é aquela que tem como missão “tomar a sério a velha e sempre idêntica missão da Teologia cristã: falar do Deus de Jesus pelo fato de procurar demonstrar as relações existentes entre a mensagem cristã e o mundo atual e traduzir a tradição da fé como memória não concluída e perigosa”. Isso nos remete a uma dimensão prática da abordagem teológica visto que é preciso que a teologia esteja de fato ocupada com a mensagem divina voltada de forma crítica para a realidade vivida no mundo.
A igreja é portadora de uma mensagem de esperança para o mundo porque ela é antecipadora de uma memória histórica da liberdade e da salvação para todos os que se encontram cansados, explorados e sem esperança. Essa mensagem é o que nos faz olhar a realidade presente com outra expectativa, como quem crê em um futuro libertador, e é também o que nos impulsiona a agir pela transformação do presente a fim de proporcionar condições sociais e humanas mais justas. É o que Metz chama de memória subversiva da fé, que deveria ser a marca predominante da ação da igreja.
Porém, a relação entre fé e política deve ser compreendida à luz dos processos de construção da subjetividade e da liberdade modernos. Ao promover um divórcio entre a objetividade e a espiritualidade, a Modernidade acabou provocando uma compreensão equivocada a respeito da fé, muitas vezes tida como distanciada da vida do mundo, voltada para um outro mundo além. E isso tem sido um fator inibidor de uma fé mais engajada e comprometida com as mudanças das estruturas dominantes que favorecem o aumento das desigualdades sociais, da exploração do outro e das injustiças sociais.
Se não formos capazes de compreender e de perceber os mecanismos que têm provocado uma estrutura injusta e desigual, tenderemos sempre a reproduzir os discursos que reforçam essas mesmas estruturas e a perpetuar a lógica da dominação e da exploração. É o que poderíamos chamar de fé engajada, que é aquela que busca trazer para a realidade presente aquilo que é esperança escatológica. Para tanto, compreende de forma adequada quais são os impedimentos para a realização humana em termos de justiça, compaixão e solidariedade.
O sofrimento e a luta social enfrentados hoje trazem consigo uma memória que precisa ser desvendada. Essa memória é o que alimenta as ações em busca de superação dos modelos de desigualdade e de injustiça social. E a busca de solução e superação das condições concretas em que tais modelos acontecem se dá a partir de determinados deslocamentos. Poderíamos falar do deslocamento da exclusão para a solidariedade, do medo à esperança, da competição para a generosidade e da violência para a compaixão.
Os caminhos para a construção de uma cultura de afirmação da dimensão política da fé passam pelo testemunho público da fé, pelo caminho de uma práxis comprometida com os mais vulneráveis e pela inserção histórica na vida comunitária, como agente de transformação em meio a outros agentes.
A fé não é só uma experiência interior, mas a busca de entendimento que se manifesta a partir da relação com o outro. A vida do que crê se dá em meio às estruturas sociais e culturais em que se está inserido. Uma fé que não compreende como as formas de dominação, de exclusão e de opressão estão presentes historicamente na sociedade, bem como o modo como essas formas estão impregnadas na cultura, é alienante. Não promove transformação, não é libertadora, uma vez que o modo como os sujeitos são construídos tem a ver com processos históricos. Somos formados a partir das circunstâncias históricas concretas que nos são dadas.
A aproximação entre fé e política nos remete à ideia de que toda expressão de fé é uma experiência política na medida em que lança um olhar a partir de um determinado lugar em que somos construídos e estão intimamente ligadas às lutas e as necessidades sociais.

quinta-feira, 8 de novembro de 2018

Fundamentalismo religioso e política / Religious Fundamentalism and Politics / Fundamentalismo religioso y política


O que é fundamentalismo e por que tem exercido tanta influência na política? O fundamentalismo é um fenômeno social decorrente da racionalidade e do liberalismo tal como esses conceitos foram formulados pela Modernidade. O fundamentalismo nunca é religioso em si mesmo, pois está sempre vinculado a uma forma de perceber o mundo, os costumes e as ideias que orientam as ações políticas, a economia e a moral em uma determinada época, construído a partir de uma ideologia dominante. Corresponde à perda da visão ingênua da condição humana e do momento histórico vivido pelas sociedades, motivado por um sentimento de insegurança e de medo quanto às mudanças que estão em curso.
O racionalismo e o liberalismo são tendências que devem ser entendidas à luz de um cenário mais amplo. O racionalismo procurou exaltar o papel da razão suficiente e instrumental como também afirmar o caráter do sujeito livre e autônomo. E o liberalismo visava defender a dignidade da pessoa humana frente ao poder absoluto do Estado, representado pela defesa do direito ao livre pensamento, de propriedade e de liberdade religiosa. Essas tendências foram sendo consolidadas na medida em que, ao mesmo tempo, se afirmava o individualismo, o materialismo e a defesa de direitos fundamentais, que motivaram o surgimento de movimentos emancipatórios e de resistências diante das práticas e estratégias dos regimes de poder e do capitalismo nascente.
O fundamentalismo é, portanto, produto de uma preocupação que envolve o enfrentamento das transformações trazidas pela Modernidade. Essas transformações provocaram três movimentos que confrontaram com a religião e com o conservadorismo: a secularização, a globalização e o processo de laicização. A secularização tem a ver com o que Max Weber chamou de desencantamento do mundo. A globalização está relacionada com os processos de interferência dos valores e da lógica do consumo criados pelo capitalismo no interior de uma cultura local. E o processo de laicização corresponde a um crescente esvaziamento e abandono do elemento simbólico religioso na cultura.
Ele se constitui como um modo de perceber o mundo que se vale de elementos da tradição religiosa, e se instala no interior da estrutura religiosa – através de suas lideranças, de sua cosmologia, de suas doutrinas e até de sua práxis – para estabelecer um certo regime de saber, de controle e de poder para exercer influência na conduta de toda a sociedade. O fundamentalista é aquele que impõe sua crença e sua moral como padrão aferidor para a conduta dos demais.
Jurgen Habermas, em um artigo publicado na Folha de São Paulo, em 6 de janeiro de 2002, intitulado “Fé e conhecimento”, no qual elabora uma reflexão a respeito do impacto do episódio de 11 de setembro, viu um deslocamento da tensão entre a sociedade secularizada e a religião. Até bem pouco tempo, o centro dessa tensão estava entre os ideais científicos e a defesa da fé. De um lado, estavam aqueles que temiam o obscurantismo e defendiam o avanço científico; de outro encontravam-se aqueles que viam com suspeita o avanço do cientificismo e questionavam a neutralidade do conhecimento científico. Atualmente, o fundamentalismo estabelece essa mesma tensão em outras esferas da vida, como a política, a educação, o cuidado com a saúde e até a economia e as relações internacionais.
Só podemos falar de fundamentalismo no sentido da pluralidade. Há várias formas de fundamentalismos, principalmente os que envolvem o aspecto religioso. Os fundamentalismos religiosos são difíceis de serem tratados visto que atuam em diversas frentes, de diversos modos e através de diversos atores em diversos contextos.
Entretanto, podemos traçar algumas linhas comuns entre os diversos fundamentalismos existentes. Uma dessas características é a busca de retrocesso a um tempo em que o fundamentalista acha que havia uma suposta segurança. Outra característica é o apelo uma moral hegemônica, universal, válida para todos os indivíduos. Há também a ausência de consciência crítica, de espaços para a reflexão, principalmente para a análise das circunstâncias históricas. O que vale é o que se encontra expresso nos discursos hegemônicos fundados num texto sagrado. Os fundamentalistas de um modo geral são acríticos, anacrônicos e literalistas. Eles fazem uso da intimidação através do medo, da exclusão e da ameaça de punição eterna. E, por fim, eles têm apego ao senso comum, sobretudo com a simplificação do saber e a exaltação do elemento fantástico e sobrenatural. No conhecimento fundamentalista não cabe a complexidade.
O fundamentalismo tem arrebanhado cada vez mais adeptos. Dominam a mídia e as redes sociais. Mais recentemente tem avançado na ocupação de espaços públicos como a política. É um avanço irreversível que vem aumentando nos últimos tempos. Não há como contê-lo. A única coisa que pode deter é o exercício incansável da consciência crítica e a defesa constante das liberdades e direitos.

sexta-feira, 2 de novembro de 2018

Reconciliação: Reconectar o que se perdeu / Reconciliation: Reconnect what was lost / Reconciliación: Reconectar lo que se perdió


Em tempos de tantos desentendimentos, falar de reconciliação parece algo impossível. Entretanto, para que possamos restaurar sentimentos feridos, resgatar valores perdidos e até para restabelecer vínculos afetivos, precisamos aprender a arte de reconciliar. Diante dos conflitos que a vida nos oferece, a reconciliação é um esforço necessário para que possamos encontrar novas possibilidades para os relacionamentos que estão feridos. E isso é um assunto que a fé cristã tem muito a contribuir.
A palavra reconciliação aparece em duas ocasiões nos escritos do apóstolo Paulo, na Carta aos Romanos e na Segunda Carta aos Coríntios. Ela foi retirada do contexto do mercado de câmbio dos gregos antigos, correspondendo a uma troca por valores equivalentes. Paulo nos dá a entender que há a necessidade de um ajuste de contas diante do cuidado de Deus em nos perdoar e nos acolher como seus filhos. O ato divino em nos reconciliar com Ele deve nos conduzir a uma nova atitude diante de tudo o que se perdeu desde quando nos afastamos de Seu propósito.
Reconciliar é literalmente tentar de novo o concílio, que por sua vez, é uma palavra vem da tradição cristã. Já traz implícita a ideia de uma diversidade de ideias. Concílio dizia respeito a uma concentração de esforços para que pudessem chegar a um acordo, um entendimento comum, diante de uma controvérsia. Tinha o sentido de uma união. Vem do latim concilium, que é a junção de duas expressões: cum, que quer dizer “junto”, e silium, que corresponde a “assento” (mas também pode ser de cillia, que quer dizer “movimento”). A igreja usou essa designação como uma convocatória para que os cristãos em conflito pudessem se reunir, com o sentido de sentarem juntos mesmos, para discutir problemas e chegar a um consenso. Posteriormente, essa palavra ganhou nova significação, relacionada ao sentido do verbo conciliare, que quer dizer acordo ou um ajuste de interesses. A palavra “conciliar” em português pode significar também: ficar em paz, acalmar, combinar e tranquilizar.
A carta de Paulo a Filemom traz um magnífico exemplo de reconciliação. Filemom era um cristão admirável, de uma família tradicional e bem-sucedido em seus negócios Tanto que, mesmo sendo cristão, era proprietário de escravos, o que era uma prática comum para a sociedade de seu tempo. Porém, um daqueles seus escravos fugiu. O nome dele era Onésimo.
A carta não trata das razões da fuga de Onésimo. O que o teria feito fugir? Pode ser que tivesse feito algo muito ruim, como roubar o seu senhor. Pode ser também que tivesse se rebelado por causa dos maus tratos, das condições injustas e opressoras que lhes eram impostas de forma incoerente com a fé que o senhor dizia professar. Ou pode ser ainda que possuísse um esclarecimento a respeito da sua condição social e tenha resolvido lutar por sua liberdade tentando construir uma outra história de vida. Não importa o motivo da fuga, o fato foi que a graça do evangelho alcançou Onésimo e ele veio a tomar parte do movimento cristão e ser um dos seguidores de Jesus que acompanhavam o apóstolo Paulo.
Paulo, então, envia Onésimo de volta a Filemom com um apelo para que fosse acolhido não mais como escravo, mas como um irmão na fé. Era preciso que ambos construíssem uma nova relação, que fosse fundada no amor. Não seria mais uma relação entre senhor e escravo, mas entre cooperadores na fé. Não mais uma relação servil, mas fraterna.
Reconciliar é restaurar conexões perdidas, recuperar as possibilidades de conciliar uma diversidade de situações contraditórias. Não significa voltar ao que era antes, mas dar chance para começar uma nova caminhada juntos. A reconciliação se faz necessária quando a gente se dá conta de que o que se perdeu é maior do que nós mesmos, de que o outro é importante e indispensável para nós. Para a reconciliação acontecer, é preciso reconhecer os próprios erros, perdoar os erros do outro e respeitar a presença e a opinião do outro. Quando a reconciliação não é buscada, corremos o risco do isolamento. Sem reconciliação, só nos resta a solidão.
A reconciliação tem em Deus seu maior realizador. Ele tomou a iniciativa de aproximar o que não é conciliável. Ele é o Deus que vem a nós. Para isso, ele esvaziou-se, fez-se como um de nós. Ele se revelou como o Deus conosco para que nos tornássemos um com Ele, a fim de que exercitássemos a reconciliação como um serviço ao próximo.

segunda-feira, 29 de outubro de 2018

O golpe consolidado: eleição da extrema direita / The consolidation of the coup: election of the far right / El golpe consolidado: elección de la extrema derecha


O Brasil tem um novo presidente eleito. Jair Messias Bolsonaro é o 38° presidente da República, o oitavo desde o fim da ditadura, por ter conquistado 55,13% dos votos válidos, que corresponde a 47% dos votos totais numa eleição com recorde de ausências e votos brancos e nulos. Ele é militar da reserva, com a patente de capitão, e compôs a sua chapa com outro militar, o General da reserva Hamilton Mourão, seu vice-presidente. Curiosamente, é o 16° presidente militar do Brasil, sendo o terceiro eleito pelo voto direto e o primeiro após o fim da ditadura militar, regime pelo qual demonstra simpatia.
Sua eleição, no entanto, deve ser vista dentro de um espectro maior do que a evidente vitória nas urnas. Trata-se da eleição de um representante da extrema direita que faz parte de um processo de retomada do poder das forças oligárquicas que atuam no país. Sua chegada ao posto de mandatário da nação interrompe uma sucessão de quatro vitórias das forças progressistas e o avanço de ideias conservadoras que estão vinculadas a outros movimentos ultradireitistas que ocorrem no mundo.
A eleição de uma chapa militar em pleno exercício da democracia consolida o golpe engendrado pela elite para impedir a realização de uma proposta política voltada para os interesses das camadas menos favorecidas e das minorias. Pela primeira vez, assistimos a eleição de um candidato que obteve menos votos das pessoas de baixa renda e que recebeu críticas veementes de pessoas mais esclarecidas no Brasil e no mundo.
Veja alguns aspectos a serem ressaltados a respeito da vitória da extrema direita:
1. O avanço da extrema direita não é um fenômeno brasileiro, mas uma tendência mundial que vem preocupando lideranças e todas as partes, sobretudo nas grandes democracias.
2. Um novo modo de fazer política ganha projeção. A ausência de debate e discussão de projetos para o país, o apego a uma pauta moralista conservadora sem reflexão crítica e a afirmação de um inimigo comum foram as marcas da campanha eleitoral. A atitude acusatória, o moralismo e o antipetismo foram decisivos. Não se votou a favor de um projeto, mas contra um mal identificado, contra a ameaça do diferente e contra o partido que venceu as últimas eleições. Outro aspecto importante da campanha eleitoral foi o uso de redes sociais pela internet, com a disseminação das chamadas “fake news”, como estratégia.
3. A campanha eleitoral foi tensa, mas a eleição em si ocorreu em clima pacífico e ordeiro. O povo foi às urnas de forma consciente buscando votar naquilo que foi construído como alternativa para a solução dos problemas que mais lhe afligem diretamente.
4. O Partido dos Trabalhadores se confirmou como oposição. Era para o PT sair dessa eleição reduzido a pó. O golpe de 2016 tinha o objetivo de varrê-lo do mapa. Mas conseguiu formar a maior bancada da Câmara de Deputados, elegeu quatro governadores próprios e ainda cinco governadores aliados. Além disso, conseguiu um feito que a maioria achava impossível, que é reunir as forças de esquerda em torno de um projeto democrático.
5. A democracia se encontra profundamente ameaçada. Para se manter no poder após o golpe de 2016, a direita e o neoliberalismo se aliaram a um segmento ultradireitista e flertaram com um discurso extremista e radical, cuja inclinação aponta para o que historicamente identifica o fascismo.
Esses aspectos que ressalto aqui fazem com que a eleição 2018 represente um apelo para que a luta pelo Estado Democrático de Direito não esmoreça. A extrema direita e a direita não devem ver a eleição de Bolsonaro como uma conquista ufanista. Eles estão diante de duas missões impossíveis. A primeira, a de colocar em prática tudo aquilo que Bolsonaro disse que faria na campanha. A segunda é de atender a todas as demandas daqueles que o elegeram. Se ele não der conta dos seus desafios, perderá rapidamente a credibilidade que alcançou. Mas se partir para o endurecimento e para o regime de exceção anunciado em sua campanha, enfrentará dura oposição e resistência.
O papel da oposição também é difícil, que é o de oferecer o contraditório e o da resistência. Mas nem por isso é uma derrota, e sim uma nova maneira de encarar os desafios. Na eleição, a gente escolhe quem vai ser governo e quem vai ser oposição. A democracia não vive sem essas duas forças. Governo sem oposição é tirania. O Brasil vive de forma muito recente a sua maior experiência democrática. Há pouco mais de 30 anos, reconquistamos essa condição. Isso nos lembra que a luta por direitos, liberdade e justiça social é interminável. Só os que têm coragem e que desenvolvem esperança são capazes de enfrentá-la. Estamos começando uma nova etapa dessa caminhada e, para tanto, é preciso aproximar pessoas que tenham a capacidade de enfrentar corajosamente grandes desafios e de sonhar com uma nação mais justa. Não vamos nos afastar de nossa luta. Essa hora é de unirmos forças para sermos uma oposição consciente e responsável a tudo o que está por vir. Que Deus nos proteja e nos dê força para lutar. Vamos em frente.

segunda-feira, 22 de outubro de 2018

O que é fascismo: para entender o avanço da extrema direita no Brasil / What is Fascism? / ¿Qué es el fascismo?


Identificar o fascismo é uma tarefa difícil. Ele se mascara como uma alternativa viável para um tempo de crise, em que a população encontra-se desacreditada das soluções políticas para a superação de seus principais problemas. Trata-se de um movimento de extrema direita que marcou a primeira metade do século XX e culminou com a maior catástrofe da humanidade que foi a Segunda Gerra Mundial.
Tal como é definido historicamente, o fascismo se caracteriza como um movimento político, econômico e social que se desenvolveu em alguns países europeus após a Primeira Guerra Mundial, em decorrência das graves crises econômicas que alguns países enfrentaram, sobretudo a Itália e a Alemanha.
Para entender o fascismo, é preciso fazer uma investigação de dois movimentos anteriores no pensamento político ocidental. O primeiro é conhecido como cesarismo e o segundo é o bonapartismo. O cesarismo é um conceito que procura definir um sistema de governo baseado na autoridade suprema de um chefe militar e em seus feitos heroicos nos tempos da antiguidade greco-romana. Um novo césar surge diante de uma grave crise interna, como uma alternativa para restaurar a sociedade e para superar supostas ameaças à unidade da nação. O cesarismo foi marcado pelo forte aparato militar, pelo nacionalismo exacerbado e pelo culto à personalidade.
Quanto ao bonapartismo, trata-se de uma ideologia de governo com base no despotismo e na submissão do poder legislativo ao poder executivo que aconteceu na França do século XIX. Esse regime autoritário se inspirava nos ideais iluministas de J.J. Rousseau. O aspecto ditatorial do governo era disfarçado pela imagem carismática do líder autoritário que usava de estratégias para exercer controle sobre as diversas forças sociais. O bonapartismo baseou-se não só no controle da economia por parte da burguesia, mas também das formas hegemônicas de controle elitista do estado.
Karl Marx e Friedrich Engels fazem uma análise desses dois movimentos, no livro O 18 de Brumário de Luís Bonaparte, e percebem um aspecto ligado à formação histórica da luta de classes. Enquanto o cesarismo da antiguidade estava ligado à afirmação da elite dominante, o bonapartismo foi resultado de uma articulação no interior da burguesia francesa, na década de 1840, para salvar sua própria existência diante das manifestações das classes operárias. A burguesia abriu mão de sua existência social e política para se associar à ditadura de um político conservador. Napoleão III fora eleito inicialmente como deputado e venceu as eleições presidenciais na França com suas ideias liberais. Mas, em 1851, impedido de se reeleger, promoveu um golpe de estado que restabeleceu o império como um regime ditatorial.
O que ocorreu na Europa no começo do século XX tem mais a ver com a influência do cenário politico do bonapartismo. Dois textos nos ajudam a entender o fascismo desse período. O primeiro é de Norberto Bobbio, intitulado Do fascismo à democracia. O segundo é o discurso de Umberto Eco na Universidade de Columbia, EUA, em 1995, cujo título foi “O Fascismo Eterno”, onde se encontram 14 características dessa ideologia.
Norberto Bobbio fez uma análise das mudanças decorrentes da ascensão do fascismo na Itália após a Primeira Guerra Mundial, que pôs fim a um período de cerca de 80 anos de luta política para o estabelecimento de um estado parlamentar, liberal e democrático. “O fascismo lhe impôs, em poucos anos, um governo antiparlamentar, antiliberal e antidemocrático” (p. 27). E o fez com o uso da violência de forma belicista, autoritária e anticivilizatória, apegada à elite dominante, com um discurso simplista, a favor da higienização racial e ideológica. A ideologia fascista construiu a ideia de que o “estado é tudo, o indivíduo é nada” como a essência do que foi o totalitarismo.
A ideologia fascista, segundo Bobbio, é contrária aos regimes democráticos e marcadamente reacionária. Isso quer dizer que era contrária às ideias socialistas, às formas de organização sindical e às representações populares. Cinco aspectos que marcam a ideologia fascista: 1) leitura conservadora de teorias filosóficas da formação do estado desde Rousseau a Hegel e o positivismo, com ênfase na afirmação do estado burguês; 2) crítica histórica das transformações promovidas pela Modernidade; 3) uma análise ética centrada no moralismo favorável à dominação do senhor, do guerreiro e do sacerdote; 4) uma perspectiva sociológica centrada na ação de uma elite dominante, por uma classe política branca, religiosa e endinheirada; uma ação política contrária às instituições que sustentam a democracia e favorável a uma lógica expansionista e antipacifista. Há ainda três imagens através das quais o fascismo se manifesta: a defesa de uma ordem nacionalista e de direita; a promoção de um novo regime em que há o primado da política sobre a economia (portanto, era contrário tanto às ideias liberais quanto marxistas); a afirmação de uma ideologia higienista. Os próprios fascistas se definiam como uma síntese entre o liberalismo e o socialismo, baseado no capitalismo e na ditadura, como antítese da democracia.
Em resumo: “o fascismo, não apenas o italiano, todos os fascismos, o fascismo, em suma, como fenômeno histórico que se desenvolveu entre as duas guerras mundiais, depois do sucesso da primeira revolução socialista na história, é antes de tudo a defesa até o fim da ordem social consolidada através da expansão da economia capitalista correspondente à primeira revolução industrial” (p. 76).
Umberto Eco, por sua vez, afirmou que o fascismo tornou-se uma denominação para todos os movimentos totalitários, embora em si mesmo possuísse uma forma difusa que não permite uma única conceituação. Ele é antes uma “colmeia de contradições” formada a partir de diversas ideias políticas e filosóficas. O fascismo nasceu proclamando uma nova ordem revolucionária, financiado por uma elite conservadora que esperava uma contrarrevolução. Diz Eco: “era um exemplo de desconjuntamento político e ideológico. Mas era um ‘desconjuntamento ordenado’, uma confusão estruturada”. No entanto, o nazismo, como um regime inspirado no fascismo italiano, teve uma característica mais uniforme.
O termo “fascismo”, portanto, se refere a toda forma de dominação em que estão presentes elementos do despotismo e do fanatismo. Por isso mesmo, Eco procurou definir o que chamou de “fascismo eterno” ou “ur-fascismo”, com características que podem ser contraditórias entre si, mas que cada uma delas contribui para a formação de uma “nebulosa fascista”. Elas são apresentadas aqui de forma sintética: culto à tradição; recusa da Modernidade; culto da ação pela ação; rejeição à crítica; o medo à diferença (o fascismo é racista por definição); provém da frustração da classe média; apelo à xenofobia (nacionalismo exagerado); condenação da prosperidade do inimigo; rejeição ao pacifismo; elitismo; mito do herói fascista; exaltação do machismo; ênfase no populismo qualitativo; emprego de um discurso simplista baseado num vocabulário pobre e numa sintaxe elementar (uma espécie de “novilíngua”, de George Orwell em 1984).
Depois dessas considerações, é preciso perguntar: uma nova onda fascista se levanta no Brasil? A resposta é sim. O Brasil flerta com o fascismo desde o surgimento do movimento integralista da década de 1930. Inspirado na doutrina social do catolicismo, o integralismo brasileiro defendia o respeito à ordem social, bem como a valorização das aptidões do indivíduo e do mérito pessoal. Há quem diga que não se tratava de um movimento fascista propriamente, mas seus princípios reacionários, de proteção da família burguesa e de combate aos movimentos comunistas o aproximam do fascismo e do nazismo. Embora derrotado politicamente, os ideais do integralismo não cessaram. Eles estiveram presentes na derrubada da ditadura Vargas e na articulação para o golpe de 1964, e estão embutidos nos vários discursos que hoje caracterizam o antipetismo e o apelo da elite conservadora e oligárquica pelo retorno da ditadura militar.
Eco disse que “o fascismo eterno ainda está ao nosso redor, às vezes em trajes civis". E encerrou aquele seu discurso dizendo: “O Ur-Fascismo pode voltar sob as vestes mais inocentes. Nosso dever é desmascará-lo e apontar o indicador para cada uma de suas novas formas — a cada dia, em cada lugar do mundo”. Eu diria hoje que o fascismo voltou. Nós já o vencemos uma vez, vamos vencer de novo. A luta pela liberdade é uma tarefa que não acaba nunca.

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