quinta-feira, 18 de julho de 2019

Fidelidade / Faithfulness / Fidelidad


O tema da fidelidade faz falta nesses tempos líquidos. A fidelidade é a qualidade daquele que é fiel. E pessoas fiéis a seus princípios, valores e planos são raras atualmente. A palavra tem origem no latim fides, que poderia significar tanto algo que é digno de confiança quanto a adesão de alguém a um princípio religioso ou a uma crença. Trata-se da virtude necessária para desenvolver relacionamentos, mas também para caracterizar uma conduta que dá sustentação para realizar negócios e até para construir planos futuros.
Muitos confundem com lealdade, com bom caráter e até com um modo religioso de ser. Porém, fidelidade é mais do que é isso. Para o filósofo Andrés Comte Sponville, aquela pessoa que é portadora dessa grande virtude é alguém em primeiro lugar fiel a si mesmo. “O espírito fiel é o próprio espírito”, diz ele. A fidelidade nunca é um valor isolado, nem mesmo algo que você possa escolher possuir entre tantos outros valores. Antes, ela dá causa a outras virtudes e valores necessários para a nossa existência como pessoas e para a nossa convivência com outros.
Por essa razão, ela se torna o fator que nos identifica como pessoas. É a fidelidade de si para consigo. Isso envolve tanto um exercício de memória, que nos remete aos valores e princípios que orientam nossas escolhas, mas também um aprendizado, que faz com que se priorize determinadas ações em detrimento de outras. Certa vez, Montesquieu afirmou: “O fundamento de meu ser e de minha identidade é puramente moral: ele está na fidelidade à fé que jurei a mim mesmo. Não sou realmente o mesmo de ontem; sou o mesmo unicamente porque eu me confesso o mesmo, porque assumo um certo passado como sendo meu, e porque pretendo, no futuro, reconhecer meu compromisso presente como sempre meu”.
A infidelidade é o apagamento dessa memória constitutiva, que faz com que os valores sejam diluídos provocando instabilidade, falta de segurança e desencanto com a vida. O que seria da Justiça se não fosse a fidelidade do justo? O que seria do amor se não fosse a fidelidade dos amantes? O que seria da paz se não fosse a fidelidade dos pacificadores? O que seria da verdade se não fosse a fidelidade dos que têm compromisso com ela?
Na narrativa bíblica, a fidelidade aparece como uma qualidade divina. Deus se apresenta como um Deus fiel, que mantém sua aliança, que é digno da confiança. Nada pode mudar essa qualidade, nem mesmo o pecado ou a apostasia. Deus sempre se mantém fiel ao que ele é e ao que prometeu, e age desse modo porque ama. O amor é a atitude que motiva a sua bondade. Esse amor fiel se transforma num convite para orientar a vida de acordo com os propósitos e mandamentos divinos.
A fidelidade divina torna-se um paradigma para avaliar a relação do homem com o sagrado. Pessoas fiéis são confiáveis, amáveis e admiradas por isso. O Novo Testamento apresenta a fidelidade como uma das características do fruto do Espírito Santo presente na vida do que crê (Gálatas 5.22). Isso lembra que Deus capacita pessoas, por meio do seu Espírito, a serem fiéis, uma vez que temos muita dificuldade de agir desse modo por nós mesmos. Jesus contou a parábola em que elogia a atitude dos servos fiéis, que foram capazes de agir de forma prudente mesmo na ausência de alguém que lhes vigiasse. A recompensa de Jesus para os servos fiéis é a bênção abundante, como participantes da alegria divina: “Muito bem, servo bom e fiel! Você foi fiel no pouco; eu o porei sobre o muito. Venha e participe da alegria do seu senhor! (Mateus 25.23).
Ser fiel em tempo de crise se constitui um grande desafio. A história de Israel foi marcada por sucessivos atos de infidelidade e de arrependimentos. Um dos escritores que se ocupou com esse tema na Bíblia de forma contundente foi o profeta Oseias, que encarnou a mensagem da graça a um povo que precisava resgatar o sentido da fidelidade no seu modo de se relacionar com Deus, uns com os outros e com o mundo.
Oseias exerceu seu ministério profético entre os anos 752-722 a.C. no território compreendido pelo que ficou conhecido como reino do norte. A nação israelita tinha se dividido após o reinado de Salomão. Das doze tribos que constituíam Israel, dez se uniram ao norte e mantiveram o nome e duas formaram uma nova nação ao sul, chamada de Judá. Israel tornou-se um estado instável, governado por líderes opressores e corruptos. Durante o reinado de Jeroboão II, começou uma sucessão de atentados e golpes de estado que fragilizaram a vida moral, política e econômica dos israelitas, resultando na dominação dos assírios e o período de cativeiro.
Oseias começou a profetizar numa época em que Israel experimentava uma certa estabilidade econômica. As lideranças israelitas se tornaram gananciosas, explorando os mais pobres e desenvolvendo uma espiritualidade distante dos ensinamentos da tradição hebraica. A maneira como Oseias sente o chamado para exercer o ministério profético difere de todos os demais profetas do Antigo Testamento. Ele teve que encarnar o que Deus estava sentindo em relação aos problemas sociais a partir do seu próprio casamento.
Curiosamente, o nome Oseias quer dizer “salvação”. Ele é reconhecido na Teologia como o profeta da graça, da compaixão, pois sua mensagem revela um profundo amor de Deus não correspondido pelo seu povo. O tema da fidelidade perpassa todo o conteúdo do livro. Primeiramente, dando ênfase à fidelidade de Deus ao seu amor pelo seu povo; depois, chamando as pessoas a um arrependimento e à retomada de uma prática da fidelidade; mas também podemos falar da fidelidade do profeta à sua mensagem, mesmo em meio a circunstâncias tão controversas no casamento com uma mulher infiel.
Oseias é reconhecido na literatura judaica, sobretudo o Talmude, como o maior profeta de sua geração. Seu livro está incluído na coletânea dos profetas menores, sendo o primeiro e maior deles. Sua mensagem é marcada pela denúncia a toda forma de opressão, de repreensão aos líderes corruptos e ignorantes que conduziam o povo à ruína. Ele também contesta a maneira como as pessoas desenvolviam sua espiritualidade e praticavam a religião de forma superficial e hipócrita. Entretanto, ele também anuncia o amor de Deus, que sempre se mostra fiel e misericordioso. Ele chama o povo ao conhecimento de Deus, não de uma forma intelectual, mas como acolhida ao seu amor.

terça-feira, 2 de julho de 2019

Cristianismo como commodity / Christianity as commodity / El cristianismo como mercancía


A religião entrou para o mercado. Este é um fenômeno típico da religiosidade no século XX, sobretudo no que diz respeito às formas que o cristianismo tem assumido na sociedade ocidental. Isso se percebe claramente a partir da performance dos pregadores, do formato dos cultos, dos produtos religiosos oferecidos, das propagandas das igrejas e seus eventos, da estratégia das chamadas megaigrejas, do layout dos sites religiosos, dos títulos dos best-sellers, dos filmes com temáticas religiosas e dos programas religiosos no rádio e na televisão.
Este fenômeno está presente até mesmo nas religiões não cristãs, que oferecem produtos e serviços em uma sociedade marcada pelo consumo, atendendo a demandas de indivíduos que se comportam como consumidores. Essa realidade transforma o modo como as organizações religiosas agem e orienta a formação de grupos religiosos a partir do comportamento de indivíduos ávidos em adquirir bens e serviços que venham satisfazer necessidades realização pessoal e busca de bem-estar e felicidade. Essa condição não só incrementa o mercado religioso, como também promove a competição religiosa e favorece o aumento da oferta de soluções fáceis e rápidas para as aflições humanas.
O cristianismo já tem em si alguns elementos mercadológicos: ele possui uma marca, que é a cruz; tem um apelo, que é a proposta de nova vida a partir da fé em Jesus Cristo, em que o indivíduo é instado a assumir sua forma no mundo; e implica uma estratégia de comunicação, que é a evangelização como anúncio da boa notícia do amor de Deus a toda criatura. Entretanto, esses elementos vão adquirir novos contornos com o processo de mercantilização que se dá a partir da Modernidade. Dois fenômenos estão presentes nesse processo: o primeiro é o da secularização, em que se verifica o colapso da religião instituída frente à humanização crescente e afirmação da liberdade; o segundo é o do pluralismo religioso, em que novas expressões de espiritualidade e de religiosidade encontram espaço diante da mudança de valores e da preocupação com aquilo que pode proporcionar segurança e bem-estar como novos sentidos para a ideia de salvação.
Dois pesquisadores da Universidade de Lausanne, Suíça, Jean-Claude Usunier e Jörg Stolz, organizaram um trabalho a respeito da “marketização” da fé, cujo título é Religions as brands: new perspectives on the marketization of religion and spirituality. Eles identificam sete fatores históricos para o que podemos chamar de tratamento da fé como mercadoria.
1) O fim da imposição das normas religiosas, que procuravam enquadrar o comportamento a partir de crenças e de práticas fundadas em uma moral.
2) A valorização da liberdade de escolha individual, o que estimulou o comportamento do consumidor contemporâneo.
3) A mudança de valores, com ênfase na autorrealização, na afirmação do eu (do self).
4) Aumento da renda, o que “empodera” os indivíduos e os estimula ao consumo e ao investimento em lazer e entretenimento.
5) A busca por segurança, que se converte em cuidados com a saúde, o bem-estar e a proteção individual aqui e agora, em substituição ao ideal metafísico oferecido pela religião.
6) O papel da mídia, que amplia o conteúdo informativo das pessoas a respeito da vida, do mundo e dos outros. Inclui-se aí a mídia social e sua capacidade de proporcionar maior interatividade e exposição do eu.
7) Aumento da mobilidade tanto social quanto de espaço. As pessoas se locomovem mais rapidamente de um lugar para outro, de uma posição social para outra e até de uma opinião para outra, o que aumenta a competitividade e diversidade de ofertas.
No seu processo de transformação histórica, o cristianismo começou como um movimento, tornou-se uma instituição no período medieval e assumiu a forma do mercado com a Modernidade. Com a contemporaneidade, o cristianismo assume de vez sua estratégia de mercado. Nesses tempos mercadológicos, a missão se volta para a captação de adeptos, o culto assimila as formas de entretenimento e a mensagem procura satisfazer as pessoas em suas necessidades imediatas. Com isso, religiosos necessitam se especializar em gestão como se fossem empresários, as mais avançadas estratégias de marketing são adaptadas à realidade religiosa, evangelistas usam táticas de venda da fé como um produto e os que ministram cultos se comportam como animadores de auditório.
Atualmente, não é estranho tratar grupos religiosos como organizações sem fins lucrativos ou não governamentais, visto que, tais como as antigas missões, elas também estão voltadas para a solução de problemas humanos e sociais. E muitas ações cristãs comunitárias e de solidariedade estão mais identificadas com ideais promovidos por ONGs do que com os valores do Reino de Deus. Outro fator que tem levado igrejas cristãs a se envolverem com uma lógica de mercado tem sido a crescente oferta de respostas às necessidades humanas por movimentos e entidades seculares, sob a forma de autoajuda, de cuidados com o corpo e com as emoções e até de práticas que promovem o bem-estar e a realização pessoal nos ambientes do trabalho, das relações familiares e das amizades.
Quais as consequências dessas transformações para a experiência religiosa e para a espiritualidade? A primeira delas é o surgimento de uma religião individualizada, ao gosto do freguês. Cada vez mais, as pessoas buscam o que poderíamos chamar de “religião de alta performance”, que é aquela que oferece um serviço religioso de alta qualidade, com boa música, bons oradores e um ambiente confortável e agradável. Os cultos passam a se preocupar mais em oferecer um bom momento para os espectadores, com um formato mais parecido com os programas de auditório e de shows. Nessas experiências, a pessoa quer se sentir livre para fazer suas escolhas de crer, de assumir compromissos e até de mudar comportamentos, como se estivessem em um shopping.
A segunda é o surgimento de um mercado de bens religiosos, como a promoção de festas, eventos significativos tanto para celebração da vida como para aplacar sofrimentos, tais como batismos, casamentos e funerais, narrativas sobre a causa dos problemas sociais e humanos, promoção de rituais mágicos para o alívio da dor e promoção de uma sensação de bem-estar pessoal, oferta de promessas de sucesso e vitória que só poderão ser realizadas no futuro, especialmente num mundo vindouro. A religião assim se torna um bem, que tem um preço e se destina a um consumo pessoal. Jesus é bom porque cura, liberta e ajuda a emagrecer. Dessa forma, as igrejas precisam engajar-se no mercado para renovar o interesse individual em seus produtos.
A terceira é a maneira de encarar a divindade como um meio para realização dos desejos pessoais. Nesse sentido, o dinheiro ocupa o lugar de Deus, cujo valor está atrelado a si mesmo, que se basta para atender ao fim desejado. É a realização do que Jesus chamou de culto a Mamom, termo hebraico que quer dizer literalmente dinheiro, que ele usou para descrever o poder das riquezas materiais na orientação de nossa conduta e de nossa personalidade. Jesus afirmou que Nenhum servo pode servir a dois senhores; pois odiará a um e amará ao outro, ou se dedicará a um e desprezará ao outro. Vocês não podem servir a Deus e ao Dinheiro” (Lucas 16.13).
Curiosamente, Usunier e Stolz iniciam sua obra citando Karl Barth: “A igreja não pode engajar-se em um mercado. A igreja não pode colocar-se em um pedestal, criar-se, adorar a si mesma. Ninguém pode servir a Deus enquanto ao mesmo tempo se ocupa de servir ao diabo e ao mundo”. Em tempos de “commoditização” da fé, assumir um compromisso de retomar o ensino de Jesus é um ato revolucionário.

terça-feira, 25 de junho de 2019

Capitalismo como religião / Capitalism as a religion / Capitalismo como religión


Há uma religião a ser percebida no capitalismo, essa é a afirmação com a qual Walter Benjamin inicia um pequeno fragmento de texto, sob a forma de um artigo, no qual identifica formas religiosas de organização do capitalismo. Diferentemente do que propôs Max Weber – ao considerar que o capitalismo foi condicionado pela religião cristã –, Benjamin compreende que o capitalismo se desenvolveu, no Ocidente, como um “parasita no cristianismo” na medida em que a religião cristã, especialmente com a reforma protestante, se converteu em capitalismo.
O artigo é de 1921, mas se tornou público apenas em 1985, com a publicação de textos inéditos do pensador da Escola de Frankfurt. Desde então, tem sido objeto de análise de pensadores como Giorgio Agamben e Michel Lowi. Esse artigo foi publicado em português pela primeira vez no jornal A Folha de São Paulo, em 18 de setembro de 2005 (no caderno Mais). Posteriormente, Michel Lowi fez uma coletânea de textos de Walter Benjamim, publicada em 2013, dentre os quais se encontra o Capitalismo como religião, que inclusive dá título ao livro.
Para Benjamin, as funções sociais exercidas pela religião hoje são marcadas pelo capitalismo, em que procura se envolver com as mesmas preocupações que a religião se ocupa, ou seja, daquilo que gera angústia, inquietação, sofrimento e também de realização pessoal. Há três traços que identificam a estrutura religiosa do capitalismo. O primeiro trata-se do fato de que o capitalismo é uma religião de mero culto, sem dogma e sem teologia, voltada exclusivamente para seu objeto de adoração. O segundo é que esse culto é permanente, sem piedade e sem esperança, visto que envolve uma tensão constante. E em terceiro, é um culto culpabilizador, em que a culpa nunca é expiada, o que implica o próprio Deus nessa culpa. O que poderia ser um quarto traço dessa religião é o modo como o deus do capitalismo se mantém oculto, como uma divindade imatura, que se faz presente em meio à culpabilização.
No capitalismo como religião, o banco ocupa o lugar do templo e do sacerdote, o mercado transforma-se em lugar de encontro para purificar as culpas, a esperança é voltada para o consumo, a fé é tratada como crédito e o dinheiro ocupa o lugar de Deus. Os três pensadores da suspeita do século XIX já alertavam para essas formas religiosas do capitalismo. Freud identificou que o capitalismo expressa o nosso desejo, em que o capital funciona como recompensa para o inferno do inconsciente. Karl Marx compreendeu que o capitalismo é uma religião do cotidiano, que trata a culpa como dívida. Um capitalismo não convertido se torna um socialismo. E Nietzsche identificou que o ideal do capitalismo é representado pela figura do super homem como modelo ideal de afirmação da humanidade.
O fim dessa religião é o desespero. Não se trata mais da reforma do ser, da reconciliação do homem consigo mesmo ou com o sagrado, mas sim sua destruição. Para Giorgio Agamben, o capitalismo não só é de fato uma religião, como é a pior e a mais implacável delas, que não conhece redenção nem trégua e que rege tudo pelo poder do dinheiro. Desse modo, o capitalismo governa o mundo aproveitando-se da esperança das pessoas no consumo, fixando o crédito que cada um pode desfrutar e o preço que deve ser pago por isso.
Apesar disso tudo, o capitalismo exerce um fascínio sobre as pessoas em geral. Porém, há dois problemas que cercam o debate atual: primeiramente, há uma crítica exacerbada com relação às formas com que o capitalismo se configura no século XXI (sobretudo o capitalismo financeiro) e, em segundo lugar, há ao mesmo tempo uma crescente preocupação com a redução da desigualdade social e das privações do acesso ao consumo e ao bem-estar para as populações mais carentes. Fala-se inclusive da formulação de um capitalismo mais inclusivo. De um lado, encontramos a aspiração desenvolvimentista que domina as políticas econômicas do mundo que se baseia no incentivo ao consumo, mas também, por outro, acreditamos que o bem-estar que todos buscamos resulta no acesso a um aparato tecnológico que se sofistica cada vez mais, que deveria ser universalizado.
Historicamente, a mentalidade que deu base ao surgimento e fortalecimento do capitalismo se funda no pensamento liberal. O liberalismo clássico afirmava que todos devem ter garantias iguais de direito de propriedade e de expressão de ideias, com suas bases humanistas. Nesse sentido, somos todos liberais em princípio. Entretanto, desde a década de 1970, há uma advertência que cada vez mais se intensifica de que os recursos existentes são limitados. Isso deu lugar ao neoliberalismo que procurou desde então demonstrar que não há garantias de conhecer os limites de nosso conhecimento a respeito das relações de consumo. O que resta como esperança é a fé no mercado. O neoliberalismo é a exaltação da liberdade individual e da satisfação do desejo pelo consumo.
Podemos falar de um pós-capitalismo ou do seu fim? Antes, porém, é preciso levar em conta que todas as alternativas do século XX ao capitalismo fracassaram. Então, como vencer a lógica do mercado sem reeditar aquilo que foi a tensão histórica do capitalismo, entre servidão e dominação? Num primeiro momento, é hora de fazer o caminho inverso da máxima de Karl Marx sobre a Filosofia: “Os filósofos apenas interpretam o mundo, a hora é de mudá-lo”. E o mundo passou por um processo de mudanças muito rápido no século XX. Agora é a hora de repensar essas mudanças. Mas também é hora de mudar as atitudes frente às transformações, propondo uma nova agenda para o mundo capitalista, tais como: a universalização de direitos essenciais nas áreas de saúde e educação, a otimização dos transportes públicos acessíveis a todos, a preocupação com a garantia de renda mínima para todos os cidadãos, a preservação dos recursos naturais e de um mundo sustentável para as gerações futuras.

domingo, 9 de junho de 2019

Pentecostes / Pentecost / Pentecostés


O Pentecostes é a festa da presença viva de Deus no meio do seu povo. É o divino que se encarna, é o eterno que se faz história, é o sagrado que se revela no profano, é a graça que se consuma, é a proclamação de liberdade para toda gente. É lembrança de que vida com Deus é vida no Espírito, para o Espírito e pelo Espírito, como sopro que renova a vida, que traz esperança, que encoraja a seguir em frente como testemunha.
Desde a tradição judaica, Pentecostes era a festa que promovia solidariedade, generosidade e gratidão. O cristianismo ofereceu ao Dia de Pentecoste um novo significado, pois foi nessa data que se deu a experiência dos primeiros cristãos com a realidade da vida no Espírito pela primeira vez. Para alguns, é a data em que a igreja saiu em missão. Para outros, foi o despertar para uma nova dinâmica de vida no poder do Espírito.
Jesus já havia orientado seus discípulos para que aguardassem a manifestação visível do Espírito Santo, que os conduziria a serem suas testemunhas em todo o mundo. Ela aconteceu exatamente na comemoração do Dia de Pentecoste que se seguiu à Pascoa da crucificação de Jesus. Para quem vivia o horror da perseguição, o medo do opressor, diante da exploração e da desigualdade, a presença do Espírito deu motivação e intrepidez para serem sinais do Reino no mundo.
O Espírito Santo é aquele nos dá ânimo e coragem para colocar a vida inteira a serviço do Reino, como também é o que nos conforta em meio às nossas lutas. Ele coloca em nossos lábios um novo canto, nos conduz a uma nova gramaticalidade, nos faz ver novas possibilidades e nos enche de alegria. Ele atua em nós como um poder, uma potência de agir, um dínamo que gera nova energia de viver.
Pentecostes é a festa da inclusão, da diversidade, da pluralidade, do diálogo e da abertura ao outro. Conforme a narrativa de Atos 2.1-13, Jerusalém estava cheia de peregrinos para a festa do Dia de Pentecoste. Nesse dia, os discípulos estavam reunidos em uma pequena sala (cenáculo) em oração, para encorajarem-se uns aos outros. Pessoas de todas as cores, de todos os dialetos, de todos os gêneros, de todas as classes e de todas as crenças são chamadas para dentro do mover de Deus.
O Espírito Santo capacita a conviver com o diferente, a acolher o estranho e a amar o próximo. O Espírito Santo capacita a cumprir a missão de Deus no mundo, a nos comunicarmos em uma nova linguagem, a pronunciarmos o idioma do amor. O Espírito Santo capacita a sair de nossa mesmice para invadir a realidade do outro, a transpirar graça em meio a um cenário de maldade, a sinalizar esperança em meio ao desespero, a ser abençoador para quem convive com a dor.
A presença do Espírito entre nós orienta a nossa ação no mundo a fim de que a amor de Deus se concretize na vida de todos. Ela nos confronta com o mistério e nos conduz a uma experiência mística. Tornamo-nos capazes de perceber e compreender os diversos modos de Deus falar, a discernir melhor a respeito da vontade de Deus e seus propósitos. É a lembrança de que a experiência de Deus é resistência às formas institucionalizadas, mas também é revolucionária como abertura para novas possibilidades de expressões.
O Espírito Santo que atua em nós é o mesmo que atuou em Jesus de Nazaré e o conduziu a realizar a obra redentora. Não se resume a uma experiência extática, a um êxtase momentâneo ou mesmo a uma atividade de culto. É vivência que se renova sempre a cada momento que é invocada, como cumprimento de promessa viva para nos conduzir em comunhão com todos e todas, que contagia e se multiplica como uma reação em cadeia.

quinta-feira, 6 de junho de 2019

Ressignificar / Resignification / Resignificación


Ressignificar é alterar o modo como você vê a realidade. É como olhar no espelho, Você vê sua aparência e tenta dar a ela um novo sentido. Você pode fazer o mesmo com seus valores, com suas crenças, com a maneira como você conduz sua vida, com sua carreira, com seus relacionamentos.
Ressignificação é um processo que envolve mudança. Acontece sempre que você se dá conta de que nada de novo vai acontecer se continuar fazendo as mesmas coisas, pensando do mesmo modo. É quando você tenta de outro modo, segue outro caminho, vê por ouro ângulo. É uma ilusão acreditar que tudo vai mudar quando nada muda.
A ressignificação é sempre intencional. Depende tanto da coragem de experimentar o novo, mas também da confiança de que nenhuma luta é em vão e da esperança de que uma vida melhor é possível. É vencer o medo de arriscar, de tentar de novo, de ir até o inexplorado. Muitas vezes, isso demanda romper paradigmas, quebrar tabus, soltar amarras, vencer amarguras.
Para ressignificar, é preciso alterar o filtro com o qual vemos a realidade. Nós só conseguimos ver o mundo através de uma lente, que pode ser também chamada de janela ou de filtro. Quando mudamos essa lente, janela ou filtro, novas possibilidades de interpretação surgem, nova forma de conhecer acontece, o significado muda. E, quando os significados mudam, as atitudes também mudam.
Ressignificar faz parte da força criativa humana, da abertura que toda pessoa tem para o que está além de si, da capacidade de transcender. Quando um fato acontece em nossa vida, seja ele bom ou ruim, temos que fazer uma escolha a respeito de como vamos lidar com ele. A forma como reagimos aos fenômenos da vida é pessoal e influenciam a maneira como vamos viver dali para frente.
Diante de um fato ruim, você pode ficar triste ou lutar contra a tristeza. Diante de uma perda, você pode pensar em desistir ou seguir adiante de forma perseverante. Diante de uma conquista, você pode extravasar sua alegria num instante ou compartilhar essa alegria com outros. Diante de uma gafe, você pode se fechar em si com vergonha ou pode aprender a rir de si mesmo. Diante de problemas, você pode viver resmungando ou aproveitar a oportunidade para crescer com eles. Ou seja, você sempre terá a chance de transformar algo ruim em algo produtivo.
Para entender o que é ressignificar, é preciso recorrer a alguns saberes. O primeiro é o da linguística. A palavra deriva de “signo” que, conforme ensinou Ferdinand de Saussure, é a união do conceito, que é o significado, com uma imagem acústica, que é o significante. Dito de outro modo, não é uma relação entre palavras e coisas, mas entre conceitos e suas representações. Essa relação presente no signo é, no entanto, arbitrária. Não existe uma razão para que um significado esteja ligado a um significante, a não ser as relações sociais de produção de sentido.
Já para a semiótica, signo é a representação que transmite a ideia de um objeto, que orienta a percepção. É, portanto, a representação de algo a que atribuímos sentido. Todo signo envolve uma relação entre em aspecto sensorial, o significante, e a compreensão do mesmo, que é o significado. Isso envolve uma aproximação entre a percepção e o entendimento, que é o que podemos chamar de significação. É o que acontece com os ícones, com os sinais e com os indicadores.
Para a psicanálise, sobretudo a lacaniana, o signo não possui uma relação equilibrada entre significante e significado, mas o significante se sobrepõe ao significado na medida em que, no ato de fala, o sujeito sempre diz mais do que pronuncia. A fala em si não serve apenas para comunicar algo para alguém, mas para a busca de reconhecimento, como um desejo de se obter resposta, de ser percebido. Para Lacan, o sujeito é sempre o que um significante representa para outro significante. Toda pessoa está sempre em busca de ser percebida e valorizada pelo outro. Nossos desejos, nossas concepções de vida, nossas paixões, nossos temores dependem da relação com o outro.
Outro psicanalista importante que procurou entender a busca de sentido foi Victor Frankl, que afirma que o desejo de sentido funciona como um “valor de sobrevivência”, relembrando os tempos de aflição nos campos de concentração durante a Segunda Guerra Mundial. Para ele, a vida tem um sentido a ser realizado, ainda que no futuro. O ser humano sempre está voltado para algo diferente dele próprio, para outro ser humano, para alguma causa à qual se entrega, para alguém que precisa ser amado, para um sentido que precisa ser realizado.
A grande questão humana é a que levanta o problema do sentido naquelas situações-limite da vida, diante do sofrimento. Para Victor Frankl, o sofrimento não é bom para ninguém, ele não ajuda em nada a encontrar o sentido da vida. Mas, por isso mesmo, é preciso buscar um explicação para ele quando nos atinge. Não é fácil encontrar sentido quando tudo não faz sentido algum. Exatamente porque o sentido não é algo que encontramos racionalmente, mas a partir de nossas vivências.
Estamos tão acostumados com o que nos é dado pronto no mundo que temos muita dificuldade de desenvolver a busca pelo sentido, de ressignificar a vida quando valores e até a alegria de viver se perderam. Mas é essa busca contínua e perseverante que faz a vida ter ritmo, é o que nos torna resilientes. Isso depende de nossa capacidade criativa e inovadora. Quando não desenvolvemos essa busca, a vida fica vazia e se torna espaço para muitas patologias.

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