domingo, 12 de abril de 2015

Temor e tremor / Fear and trembling / Temor y temblor

Adorem ao Senhor com temor; exultem com tremor. Salmos 2.11
Abraão tinha tudo para se tornar uma pessoa feliz. Estava seguro que fizera a vontade de Deus durante toda a sua vida: atendeu ao chamado de sair da sua terra, conduziu sua família a reconhecer o único Deus vivo e verdadeiro e ainda tinha o filho da promessa, que faria de sua descendência uma grande nação. Porém, Deus quis colocá-lo à prova mais uma vez ao requerer o sacrifício de Isaque.
O que Abraão mais temia era o que o chamava a um confronto. O poder que era incompreensível e inevitável agora lhe exigia algo que o desestabilizava emocionalmente. Ele estava dominado pela crença em Deus como consolador e julgador ao mesmo tempo. O que estava em jogo naquela prova de fé? Soren Kierkegaard compreendeu que Abraão tinha uma fé somente para esta vida. Ele confiava que isso o ajudaria a envelhecer de forma honrada junto ao que mais amava.
Uma fé que se limita às garantias do bem-estar e da felicidade aqui e agora é destituída de propósito. Isso até pode ajudar a ser o sujeito ético, admirado e louvado pelos outros, mas não é suficiente para gerar mudanças significativas que coloquem em risco a nossa própria condição diante de Deus. É uma fé sem temor.
Uma fé que não se abre a uma relação marcada pelo despojamento de tudo que mais amamos também é destituída de propósito. A fé que nos mantém apegados ao que nos dá segurança (sejam relacionamentos, bens, certezas ou crenças) não gera transformação e não serve para nada. Não abala nossas estruturas e não nos leva a agir. É uma fé sem tremor.
Somos pessoas em busca de significados e isso nos conduz a uma experiência religiosa que comporta uma variação entre o medo e a esperança, entre a reverência e euforia, entre o que dá segurança e o que se abre a uma expectativa, entre o sofrimento e a cura, entre o amor e o juízo, entre o bem-estar no presente e a felicidade futura, entre a vida dura na terra e a glória celeste.
Paulo afirmou que a salvação é algo que precisa se realizar em meio a essa variação entre o temor e o tremor, ou seja, que leve em conta esse respeito e reverência diante daquele que tudo pode, bem como as atitudes concretas de transformação da vida. É resultado de realização do amor de Deus em nós de maneira que nos leva a agir por amor a Deus.

Para Kierkegaard, a fé é um paradoxo: “A fé é a mais alta paixão de todo homem”, disse. Em relação a Abraão, seria um paradoxo assassinar um filho para agradar a Deus. Contudo, a atitude de obedecer a isso foi resultado da fé. Não há raciocínio lógico que justifique tal ato. A fé que se realiza entre o temor e o tremor é o que liberta da angústia, suscita a alegria em meio às lutas e o que nos dá coragem no meio do deserto. Temer a Deus liberta a vida. Tremer diante de Deus é experimentar transformações que nos ajudam a superar nossas fragilidades.

domingo, 5 de abril de 2015

Ressurreição e vida / Resurrection and life / La resurrección y la vida

“Disse-lhe Jesus: ‘Eu sou a ressurreição e a vida. Aquele que crê em mim, ainda que morra, viverá’.” João 11.25
O teólogo alemão Jürgen Moltmann afirmou que “uma fé cristã que não é fé na ressurreição não pode por isso ser chamada nem de cristã nem de fé.” Crer na ressurreição é reconhecer aquele que foi ressuscitado como o mesmo que suportou a cruz e é também confiar naquele que o ressuscitou. O testemunho de fé dos discípulos e a ousadia da proclamação do evangelho fortalecem a convicção de que a ressurreição foi um fato que se deu na história e que produziu efeitos históricos sobre a humanidade toda.
Crer na ressurreição de Jesus é tomar por inteiro a realidade da revelação divina. Em Cristo, Deus assumiu a nossa humanidade. A encarnação não seria humana se não incluísse a morte. Na cruz, Deus morreu. Em sua morte estavam também todas as crenças, todas as esperanças, todas as ilusões. Mas aqueles que creram puderam vê-lo ressuscitado, vivo, em todo o seu esplendor.
Em que acreditamos quando afirmamos a fé na ressurreição de Jesus? Em primeiro lugar, aquele que foi crucificado apareceu aos seus discípulos e a quem mais amava. Em segundo lugar, aquele que apareceu vivo dentre os mortos é o mesmo que veremos quando estivermos face a face com ele. E em terceiro lugar, aquele que nem mesmo a morte pode deter é o que está conosco e nos estimula a caminhar. Você crê nisso?
E o que acontece por crermos na ressurreição? Em primeiro lugar, isso fortalece a nossa confiança naquele em quem cremos. Em segundo lugar, isso restaura a nossa esperança em relação ao futuro que teremos. E em terceiro lugar, isso nos motiva a cumprir a missão que recebemos. A fé na ressurreição desperta a vida que renasce a partir do encontro com aquele que ressurgiu.
Quando os primeiros discípulos, testemunhas oculares, viram a Jesus ressuscitado, isso lhes fez lembrar a promessa da glória divina que encheria a Terra e fez com que aumentasse a esperança de que esta mesma glória seja consumada no futuro. Quem crê na ressurreição consegue visualizar a glória futura e conceber o que até então não era possível ao entendimento humano: nos o veremos em toda a sua glória.
A ressurreição é o começo do fim. Estava diante daquelas pessoas o símbolo da ressurreição futura, da vitória sobre o medo e a morte e a expectativa do que nos aguarda no futuro. Sem isso, toda a fé se torna sem sentido. “Se Cristo não ressuscitou, é inútil a nossa pregação, como também é inútil a fé que vocês têm” (1 Coríntios 15.14).

sexta-feira, 3 de abril de 2015

Um dia para viver / A day to live / Un día para vivir

O que você faria se soubesse que tem apenas um dia de vida? Este foi o dilema de Jesus nas últimas 24 horas antes de sua crucificação. Porém, ele fez coisas e deixou lições que valeram para toda a humanidade.
Como lidar com a ambiguidade da vida e ainda assim deixar um legado para as próximas gerações? Viver cada momento como se fosse o último, mesmo em situações adversas, pode ser determinante para as escolhas que temos a fazer.
Você certamente já conhece a série de tevê norte-americana “24 horas”, em que um agente secreto tem apenas 24 horas para desvendar um caso. O mais curioso da série é o título em inglês que ela recebe: “Deadline”, que pode ser traduzido como “prazo final” ou mesmo “tempo determinado”. Literalmente quer dizer “linha da morte”. O termo é usado para definir o prazo de entrega de um determinado projeto ou serviço.
Isso lembra a necessidade de aproveitar bem o tempo e as oportunidades. Para não perder nem uma coisa nem outra, você precisa ter propósito naquilo que faz, principalmente quando a vida de outros está implicada. Precisamos aprender a conviver com o fato de que a vida é limitada e as oportunidades são únicas e decisivas para a nossa realização pessoal.
Mais do que isso: a nossa vida é uma oportunidade única para sermos aquilo para o qual Deus nos criou. Se levarmos em consideração o que o astrônomo brasileiro Marcelo Gleiser tem afirmado, chegaremos à conclusão de que, de fato a vida é rara. Ele disse: “temos que repensar nossa importância cósmica, como seres pensantes num universo em que a vida é extremamente rara.O físico inglês Stephen Hawking reconhece que não só a Terra, mas o universo inteiro é propício à vida, e em particular à vida humana. Isso deve nos levar a celebrar a vida e a fazer dela mais significativa. Os dinossauros e os neandertais viveram milhares de anos neste planeta sem precisar de automóveis, avião ou celular. Nós, no entanto, temos inteligência suficiente para torná-la mais significativa sem que isso signifique um risco para a sua manutenção.
Viver, por si mesmo, não tem um plano. Nós é que precisamos dar à vida um sentido de existência. E o prazo que temos para fazer isso é agora. Ninguém pode decidir o que acontecerá amanhã, por isso é que se torna muito importante fazer bom uso de cada momento vivido. As coisas que fazemos, nossas escolhas e os relacionamentos que desenvolvemos hoje são oportunidades únicas de fazermos com que nossa vida seja mais significativa tanto para nós mesmo quanto para aqueles que amamos.
Nas últimas horas de Jesus, ele tomou decisões importantes e realizou coisas expressivas para aqueles a quem amava que tiveram consequências para toda a humanidade. Em seu último dia de vida antes da cruz, ele fez questão de estar em comunhão com seus amigos, foi traído por um dos seus, gastou tempo a sós com Deus, foi preso e julgado injustamente e ainda trilhou o caminho humilhante da cruz. A maneira como enfrentou cada circunstância, mesmo as mais duras e contraditórias, foi enfrentá-las como oportunidades únicas para deixar uma lição de vida.
O tempo que passamos ao lado de pessoas queridas, a maneira como lidamos com aqueles que nos fazem mal, nossa intimidade com Deus, os juízos que nos são lançados e as lutas que temos que enfrentar são situações que estão sempre presente em nosso cotidiano. Elas exigem de nós escolhas e atitudes que podem deixar marcas profundas que vão afetar as pessoas a quem amamos.
Jesus deixou seu exemplo de vida até mesmo no seu último dia. A cruz não foi o seu fim, mas o começo de uma grande obra transformadora que atinge a toda a humanidade. E ele soube aproveitar cada momento em que aqui viveu para colocar a sua vida toda a disposição do propósito divino de salvar a humanidade. Isso deve nos levar a pensar no que fazer neste tempo que nos resta, não importa o quanto seja.

domingo, 29 de março de 2015

Quem precisa de igreja? / Who needs church? / ¿Quién necesita la iglesia?

Portanto, vocês já não são estrangeiros nem forasteiros, mas concidadãos dos santos e membros da família de Deus.” Efésios 2.19
Quantas vezes você já ouviu dizer que a igreja perdeu sua utilidade no mundo, que as pessoas não estão nem aí para ela? Quantas vezes você ouviu falar que a igreja está ultrapassada e que ela defende valores e crenças que ninguém mais acredita?
Estas duas perguntas, que estão presentes nos discursos tanto de cristãos quanto de não cristãos, remetem a uma necessidade de reflexão mais profunda sobre a relevância da igreja para os dias atuais. Essa reflexão pode começar com a pergunta inquietante: quem precisa de igreja? A resposta pode ser “ninguém” e “todos nós”.
São respostas antagônicas, mas que refletem bem o grau de confusão que se criou em torno da experiência de ser igreja no mundo. É a partir delas que podemos descobrir a utilidade e atualidade da missão que a igreja possui.
Ninguém precisa de uma organização hierárquica, com estruturas rígidas, conservadoras, que cria uma barreira entre clérigos e leigos. Essa igreja clerical não corresponde ao chamado de Jesus a servir uns aos outros.
Ninguém precisa de uma instituição que se afirme como guardiã da moral e bons costumes, de valores eternos e imutáveis, de saberes divinos e inquestionáveis. Até mesmo o discernimento das Escrituras é dado a gente simples por meio da ação do Espírito Santo.
Ninguém precisa de um espaço ou de um tempo mais sagrado que o outro. Sagrada é a vida que se renova a cada dia, que se faz e se refaz na dimensão do encontro com o outro, que é ao mesmo tempo aquele que anda com a gente, que nos vê por inteiro. Para se fazer conhecido, Deus se fez gente na pessoa de Jesus, ele mesmo teve um rosto e possuiu uma identidade para que pudesse se relacionar conosco.
Porém, todos nós precisamos ser acolhidos em uma relação de comunhão, como partes integrantes de uma família, que partilha o amor de Deus entre todas as suas criaturas. Uma igreja que se faz necessária e atual é aquela que assume suas fraquezas em meio às dores do mundo, que empreende sua caminhada em meio a gente vulnerável como todos nós somos e que se faz confiável em apontar caminhos para uma vida mais digna e mais feliz.

Uma igreja assim faz falta. A outra, que há mais de mil anos vem sendo tentada pela cristandade, não faz o menor sentido para um tempo em que a humanidade aprendeu a viver por si mesma e, por isso mesmo, se perdeu. Somos chamados a ser igreja hoje, viva, relevante e acolhedora. Todos precisamos disso. Urgentemente.

domingo, 22 de março de 2015

As estações da vida / The seasons of life / Las estaciones de la vida

Veja! O inverno passou; as chuvas acabaram e já se foram. Cânticos 2.11
A vida pode ser comparada ao ciclo das estações do ano. A natureza se reveste de uma circularidade em que a vida se refaz e ganha novos sentidos à medida em que se passa pelas fases sempre na esperança da chegada de um novo tempo.
Relacionar as fases da vida às estações do ano é um exercício do imaginário. Usamos cada estação como metáforas dos diferentes momentos em que a beleza da vida se revela em suas diferentes fases. Afinal, só dá para se compreender a vida a partir de suas contradições.
As estações do ano têm seu tempo certo de começar e de terminar. A vida, nem tanto. A cada estação, a natureza passa por perdas que são restituídas na estação seguinte. Na vida, nem sempre. A natureza conhece bem cada estação e entende a sua linguagem e importância. Na vida, nem tudo está tão claro. Porém, tal como na natureza, as fases da vida são necessárias para a nossa existência.
No outono, a vida se renova. Para isso, as folhas caem, os ventos sopram de forma impiedosa como se as árvores não pudessem resistir, a estiagem proporciona um ambiente árido e desalentador. Entretanto, a beleza do degradê das folhagens colorem as paisagens de uma forma sem igual. Quantas vezes a vida já se mostrou sem esperança, em que nos sentimos desprotegidos e até sem recursos? Porém, o outono da vida passa, e só restam a lembrança dos momentos belos vividos em meio às lutas.
No inverno, a vida se retrai. O frio paralisa, faz diminuir a marcha da vida. Animais hibernam, as formigas cessam seu trabalham, até as cigarras deixam de cantar. Entretanto, o frio e os instantes de recolhimento são oportunidades únicas de acolhimento e de convívio mais próximo com quem se ama. Quem já não se sentiu paralisado pela frieza dos acontecimentos e até de pessoas? Porém, o inverno da vida passa, e só restam as lembranças das vezes em que acolhemos e fomos acolhidos.
Na primavera, a vida floresce. Tudo se renova, a natureza se reveste de cor, a vida se refaz. A vida é feita de sonhos e esperança. Eles se renovam e se tornam mais vivos após um período de lutas e turbulências. Entretanto, nem mesmo as plantas florescem sem esforço. Há que se experimentar o feliz processo de se renovar de dentro para fora. Quem nunca precisou abandonar o que ficou para trás para viver novas oportunidades? Porém, a primavera da vida passa, e o que fica é a vida em sua beleza e vitalidade.
No verão, a vida pulsa. O sol e a alegria trazem euforia e vigor. Entretanto, ninguém está isento de seus efeitos. Quem nunca se desencantou, se enganou ou se iludiu com o brilho efêmero da vida? Porém, o verão passa, e só resta a experiência de ter aproveitado bem cada momento vivido.

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