quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

Fake News e consciência: como produzimos (e acreditamos) em notícias falsas / Fake News and conscience: how we produce (and we believe) on false News / Noticias falsas y conciencia: cómo producimos (y creemos) en noticias falsas


Fake News e consciência são dois conceitos que não deveriam estar juntos numa mesma frase. Entretanto, os modos de produção das Fake News, bem como o jeito como elas são difundidas, assimiladas e cridas, têm muito a ver com o funcionamento da consciência. Um pouco disso pode ser percebido na canção de Ataulfo Alves, quando reclamou da atitude da amada, que era diferente da serviçal Amélia: “você não sabe o que é ter consciência”. Ele ainda guardava lembrança daquela mulher submissa com quem conviveu, ao ponto de acreditar que todas as mulheres deveriam ser assim.
O Facebook e o Instagram anunciaram em outubro que vão fazer a checagem do conteúdo para atribuir um rótulo de “informação falsa” nos posts e stories que contenham notícias mentirosas. Há dois problemas nisso: o primeiro é que Fake News não são meramente notícias mentirosas (a mentira nunca se mostra tão evidente); e a segunda é que a checagem de notícias é um serviço caro (e quem posta Fake News quer atingir algum ganho com isso). As medidas incluem a redução de acessos dos sites que propagam os conteúdos que forem rotulados.
O que tem sido chamado de Fake News? Inclui: notícias mentirosas, parciais, tendenciosas e até replicadas ou tiradas de um acontecimento antigo para se referir a um fato atual. Quem produz Fake News geralmente é quem está interessado em desviar a atenção, interferir nas escolhas e decisões das massas, induzir um determinado comportamento de consumo ou mesmo uma ideologia, destruir ou mesmo construir a imagem de algum ícone, celebridade ou personagem pública que precisa estar ou não em evidência num dado momento. Os motivos podem ser diversos. E aqueles que produzem Fake News atuam como think tanks, financiados por grandes corporações, grupos políticos e movimentos ideológicos cuja base pode estar num outro país. Ou seja, o combate à Fake News envolve uma estratégia de guerra internacional.
O anúncio de que um determinado conteúdo é falso ou mentiroso desperta ainda mais a curiosidade, visto que não estamos lidando apenas com a veiculação de informações, mas com os modos de produção de sentido e de interpretação. Entramos em uma área até então nebulosa da ciência: o que é a consciência e como ela trabalha. Apesar dos avanços da neurociência, os estudos da consciência ainda são uma grande incógnita que ocupa cientistas e filósofos. A consciência é considerada por muitos como o último limite do conhecimento a respeito da condição humana. Quando esse mistério for desvendado, novas possibilidades serão abertas para a Psicologia, para o tratamento de problemas Psiquiátricos e inclusive para a Inteligência Artificial.
A consciência é tanto uma forma de conhecimento de si, como também um processo de como nossa mente lida com experiências, emoções e informações que temos durante a vida toda. Tudo está gravado para ser usado nas várias situações e contextos que vivenciamos. Nesse processo, a consciência depende da memória, da linguagem e das emoções. Num procedimento rápido, nossa memória é capaz de encontrar respostas para cada situação no meio do que está guardado de alguma forma em algum canto de nossa mente. Pela consciência, desenvolvemos uma imagem de quem somos ao mesmo tempo em que produzimos sentidos e respostas para o que enfrentamos a fim de dar conta desse eu imaginado. O que não gostamos, deixamos escondido em algum lugar – nas sombras, como diria Jung –, mas que de algum modo insiste em aparecer.
Fake News é uma notícia que, embora seja falsa ou falseada, agrada essa consciência escondida, disfarçada que carregamos dentro de nós mesmos. A verdade sempre nos confronta diante daquilo que nos envergonha ou mesmo fere saberes que acumulamos ao longo de nossa história. É horrível descobrir que você foi enganado, que acreditou numa mentira ou que foi manipulado. É mais confortável continuar acreditando nas histórias que nos contaram do que assumir a insegurança de um fato novo que coloca em xeque nossas convicções, crenças e saberes.
Não, Fake News não é coisa inventada pelos tios nos grupos da família. Elas também não são notícias mentirosas simplesmente. Elas são um produto de nosso tempo. É bem verdade que Fake News sempre existiram. Mas o modo como elas acontecem hoje está ligado à própria complexidade da produção de conhecimento. Para que uma mentira ganhe fórum de verdade, não basta ser repetida várias vezes, como ensinava o nazista Goebbels. Isso é meme. Ela precisa ser produzida de tal modo que agrade à consciência de uma massa enganada e ferida.
Publicado originalmente no site do Coletivo Bereia. Disponível em: https://coletivobereia.com.br/fake-news-e-consciencia-como-produzimos-e-acreditamos-em-noticias-falsas/

segunda-feira, 18 de novembro de 2019

Teologia e Cultura: Aproximações e distanciamentos / Theology and Culture: Approximations and Distances / Teología y cultura: aproximaciones y distancias


Uma das tarefas do fazer teológico é pensar a Teologia em sua relação com a cultura. A cultura é um sistema de significados e, como tal, é próprio de nossa condição humana. É a cultura que faz da pessoa um ser humano. A partir da cultura, a vida em sociedade se organiza e se percebe a realidade vivenciada. Isso de dá pelo fato e a cultura se realizar através das representações e das ações das pessoas em um grupo social. O ser humano é o grande ator da cultura.
A cultura se expressa na história e em meio às vivências sociais. As ações humanas são histórica e socialmente orientadas, por isso é que as práticas das comunidades humanas ao longo do tempo deixam seus vestígios. Como um movimento que questiona valores e comportamentos vigentes na cultura, o cristianismo possui um vínculo histórico e cultural de modo a propor novas possibilidades de relações humanas.
Nesse sentido, o cristianismo se expressa como contracultura, e não contra a cultura, a favor da cultura ou mesmo acultural. E, por ser uma contracultura, o cristianismo contesta os valores que se opõe ou se distinguem do fenômeno cultural, como o individualismo, o consumismo, o materialismo e a falta de pensamento crítico.
Dessa forma, a Teologia compreende as manifestações culturais, especialmente a arte, como expressões do cuidado de Deus com a humanidade. Um dos aspectos relevantes da relação entre Teologia e cultura é que ela contribui para a formação de um compromisso de expressar a fé no contexto de uma cultura, nunca fora dela.
A discussão sobre Teologia e cultura requer domínio de alguns conceitos fundamentais. Um deles é o de secularização, que envolve o esvaziamento do sagrado, sobretudo na cultura ocidental e Moderna. Outro conceito é o da globalização como um processo de integração cultural que foi acentuado a partir da Revolução Industrial e ganhou novos contornos com a era da informática. E tem ainda o conceito de enculturação, que trata da influência recíproca entre fé e cultura.
Via de regra, a Teologia lida com duas constatações sobre a relação com a cultura. O primeiro é o de que Deus está no controle da história. Não se trata de uma noção meramente determinista, mas parte da compreensão de que os propósitos divinos se realizam na história. Parte da ideia de que nem sempre aquilo que parece negativo aos nossos olhos é ruim aos olhos de Deus, pelo fato de que ele pode usar nossas situações adversas para cumprir seus propósitos. Outra constatação é que a cultura secularizada é oposta aos propósitos divinos. A fé está sempre em confronto com a cultura dominante e muitas vezes pode ser encarada como uma ameaça.
A teologia envolve dois elementos estruturantes: o texto bíblico, representativo de uma cultura, e o contexto cultural, representativo da cultura dos leitores. De um modo geral, a teologia lida com o fato de que a Bíblia tem um valor supracultural e atemporal. Isso quer dizer que os princípios e valores que orientam a condição humana em cada cultura apontam para a necessidade de uma relação com o transcendente, e isso interfere na interpretação dos textos sagrados em um dado momento.
Chamamos de supracultura as disposições culturais que transcendem à própria cultura, visto que esta reflete a situação de tensão da ambiguidade humana em meio às situações vividas, na medida em que cada um procura construir caminhos para estabelecer relações com o sagrado. Do ponto de vista teológico, a cultura é uma representação de nossa interioridade: nossas angústias, nossas esperanças, nossos temores e nossos desejos. É da natureza humana ter uma abertura para o que está além de si mesmo. Neste anseio pelo eterno e pelo inefável, o homem se dá conta de sua finitude e de sua condição limitada ao expressar suas histórias, seus rituais, seus relacionamentos, suas tecnologias e suas crenças.
Por essa razão, a humanidade procura eternizar sua cultura – a partir das relações comunitárias – para encontrar algum fator que lhe dê segurança diante de suas dúvidas, diante do mal, diante da dor e diante da morte. Quando a Teologia aborda o conceito de cultura, ela nos ajuda a encontrar maneiras de atribuir sentido para a vida, de buscar caminhos para o resgate do que há de humano em nós e de construir um caminho para restaurar a relação perdida com Deus e consigo mesmo.

quinta-feira, 14 de novembro de 2019

Exercícios espirituais e espiritualidade cristã / Spiritual Exercises and Christian Spirituality / Ejercicios Espirituales y Espiritualidad Cristiana


A espiritualidade não é uma palavra encontrada nas Escrituras. Ela também não começa no cristianismo. E também não está ligada à história bíblica ou judaico-cristã. A espiritualidade é anterior ao cristianismo, está presente em civilizações que existiram cerca de três mil anos antes de Cristo e que desenvolveram práticas de meditação e de vida contemplativa. Entretanto, foram os gregos antigos que desenvolveram um conjunto de práticas e exercícios voltados para um determinado modo de pensar a vida e de viver a partir de valores e princípios considerados elevados, ligados ao espírito, que pode ser chamado de espiritualidade.
A ideia de uma espiritualidade cristã foi adquirida a partir da aproximação do pensamento cristão com a Filosofia Ocidental e o pensamento ocidental, sobretudo em relação aos ensinos platônicos do cuidado de si. Sócrates foi o primeiro pensador a propor exercícios para adestrar o sujeito a ter uma vida digna de ser contemplada e imitada. Seus ensinos foram aprofundados por pensadores como Epicuro, Sêneca, Marco Aurélio, todos os estoicos e até os neoplatônicos como Plotino. Esses primeiros filósofos entenderam a filosofia como uma maneira de viver, como uma arte de viver, como uma askesis, Palavra grega que quer dizer “exercício”.
Essa tese é levantada pelo filósofo francês Pierre Hadot, em seu livro Exercícios espirituais e Filosofia Antiga. Para Hadot, as correntes de pensamento dos primeiros filósofos estavam a serviço de um modo de vida orientado pela Filosofia, que visava transformar o sujeito e oferecer-lhe princípios para sua conduta no mundo. Ele não emprega a ideia de “exercícios espirituais” como práticas religiosas, nem mesmo como exercícios intelectuais ou morais, mas como exercícios do pensamento. Ele afirma que a Filosofia Antiga é um “exercício espiritual porque ela é um modo de vida, uma escolha de vida”. Mais adiante ele resume que é “uma prática destinada a operar uma mudança radical do ser”. Hadot questiona a respeito do momento em que a Filosofia deixou de ser tratada como modo de vida, e passou a ser teórica e abstrata tal como a conhecemos hoje. Entretanto, reconhece que o cristianismo se apresentou como uma filosofia completa, visto que assimilou a tradição greco-romana dos exercícios espirituais como modo de vida.
Podemos falar de uma tradição dos exercícios espirituais como uma construção do cristianismo somente a partir do século II. Os primeiros exercícios espirituais cristãos foram desenvolvidos por Orígenes, posteriormente pelos monges cenobitas e os padres do deserto, conhecidos como anacoretas. A tradição dos exercícios espirituais cristãos, também chamada de ascese ou ascetismo, está ligada à história da experiência mística como uma orientação da relação com o sagrado, o divino ou o transcendente. A mística é um campo de estudos teológicos importante, desenvolvida, sobretudo, a partir dos textos atribuídos a Dionísio Areopagita, no século VI, com sua teologia apofática, oposta a uma teologia dogmática e propositiva.
Já no século XVI, Inácio de Loyola trouxe a tradição dos exercícios espirituais para dentro da esfera religiosa. Para ele, os exercícios espirituais consistem em um “modo de examinar a consciência, meditar, contemplar, orar vocal e mentalmente e outras atividades espirituais. [...] Porque, assim como passear, caminhar e correr são exercícios corporais também se chamam exercícios espirituais os diferentes modos de a pessoa se preparar e dispor para tirar de si todas as afeições desordenadas e, tendo-as afastado, procurar e encontrar a vontade de Deus, na disposição de sua vida para o bem da mesma pessoa” (em seu livro Exercícios espirituais).
Os exercícios espirituais inacianos são, na verdade, um processo que visa conduzir seus praticantes a uma experiência de libertação dos sentimentos desornados em relação à vontade de Deus, cujo objetivo é desenvolver o discernimento. O que se pretende é promover uma conversão do sujeito para uma vida de união com Cristo bem como a imersão na prática da missão cristã no mundo. Sempre que se fala de exercícios espirituais e de espiritualidade cristã, a proposta inaciana é lembrada como referência. O problema é que ela é uma resposta da contrarreforma católica, em oposição à Reforma Protestante e, por essa razão, pouco considerada nos meios do protestantismo.
A espiritualidade cristã que emerge dos evangelhos, no entanto, possui algumas características que diferem da tradição ocidental. Jesus chama seus discípulos para uma vida guiada pelo Espírito Santo, como um parákleto, alguém que se coloca ao lado como guia e defensor. Espiritualidade cristã é essencialmente vida no e pelo Espírito, vivida no contexto comunitário, inserida na realidade do mundo. Os evangelhos apontam algumas marcas dessa espiritualidade: a comunhão simbolizada pela eucaristia, o testemunho de vida transformada, o serviço em amor ao próximo, o compromisso pelo batismo, a missão de sinalizar o Reino de Deus no mundo, a oração e o exame das Escrituras.
Nós não encontramos nos evangelhos a necessidade de uma prática religiosa, de atividades devocionais e nem de um chamado à vida ascética. A espiritualidade cristã que pode ser percebida nos evangelhos aponta para um modo de viver – ou uma arte de viver – centrada em uma relação com a pessoa de Jesus e orientada pelos seus ensinos. Vida que remete à participação comunitária, ao cuidado com o outro, à atenção aos mais fragilizados e a uma prática de desprendimento em relação aos valores materiais. A espiritualidade cristã está ligada a uma ética e a uma práxis que visa transformar a vida do sujeito de forma integral.
Resgatar a espiritualidade contida nos evangelhos é fazer o caminho de volta a um tipo de cristianismo anterior ao surgimento do que ficou marcado como cristandade. Precisamos desenvolver uma espiritualidade na contemporaneidade, como um exercício de sabedoria, a partir de uma releitura dos evangelhos, tendo em vista a conquista de uma consciência de nossa humanidade como sujeitos ativos no mundo, que oriente nossa ação responsável diante das dores e alegrias no mundo neste tempo.

terça-feira, 12 de novembro de 2019

América Latina, decolonialidade e religião: provocações a partir da crise na Bolívia / Latin America, decoloniality and religion: provocations from the crisis in Bolivia / América Latina, descolonialidad y religión: provocaciones de la crisis en Bolivia


A América Latina passa por um retrocesso no cenário político. Depois de um breve período de ascensão social e econômica, alavancado pelo acesso de segmentos progressistas ao governo de alguns países, assistimos ao avanço das forças tidas como conservadoras retomando espaços que sempre foram dominados por uma oligarquia reacionária e patrimonialista.
Veja um brevíssimo retrospecto: assistimos a um golpe de Estado em 2009-2010 em Honduras, no Paraguai em 2012 e no Brasil em 2016. Em todos esses atos, havia uma questão de fundo – a atenção para com os direitos sociais – e uma estratégia – o uso do aparato militar em alguns casos de forma clara e, no caso do Brasil, de forma branda. Nesse meio tempo, as forças representativas da direita venceram no Chile, Argentina e Colômbia. O Peru tem passado por um complexo processo de afirmação política. Já neste ano de 2019, assistimos às tentativas de levantes de direita na Venezuela. Porém, os protestos populares no Equador e no Chile e a vitória da esquerda nas eleições argentinas e uruguaia (ainda que no primeiro turno) acenderam o alerta conservador. A tentativa de golpe na Bolívia é um sintoma disso.
Embora o quadro seja preocupante, não podemos nos esquecer de que a realidade latino-americana segue uma trajetória que se repete. A história da América Latina é marcada pela luta constante entre uma oligarquia branca, colonizadora, e forças políticas representativas dos trabalhadores, dos povos originários, de quilombolas e de quem sempre foi tratado como minoria. Os regimes ditatoriais que aconteceram desde a década de 1960 são a prova disso.
Nos últimos levantes populares no Equador e no Chile, bem como no golpe de Estado em curso na Bolívia, pode se notar a face explícita de um fascismo presente. A história se repete como farsa. Oligarquias se valem do fascismo, do fundamentalismo religioso e do neoliberalismo para exercerem o poder como sempre fizeram. Tempos difíceis se aproximam, de muita luta por parte dos oprimidos. O que as forças políticas conservadoras não contam, porém, é que existe uma grande massa de pobres e miseráveis que não suportam mais a opressão.
Retomando uma afirmação de Boaventura de Souza Santos, em Epistemologias do sul, a América Latina é resultado de um processo de formação marcado por três grandes influências: o colonialismo, o patriarcado e o capitalismo. Porém, precisamos acrescentar mais um elemento nesse processo, que é a presença marcante da religião calcada na concepção sacrificial e punitiva, que exige vítimas para satisfazer as necessidades do poder. As elites sempre se valeram da religião para fortalecer as estruturas de dominação, e, nesses episódios mais recentes, para dar lugar a uma mentalidade fascista e neoliberal.
O colonialismo foi superado historicamente, mas as estruturas da colonialidade ainda resistem. O patriarcalismo reproduz o discurso dominante da supremacia branca. O capitalismo procura dar conta de uma agenda neoliberal, que retira direitos sociais e favorece o capital financeiro internacional, e não mais o capital produtivo. E tudo isso debaixo dos olhares consensuais da religião. Primeiramente com a bênção do clero católico romano, ultimamente com o apoio do fundamentalismo religioso tanto evangélico quanto carismático.
Quando o fascismo se aproveita da religião para dominar, aumenta sua força destruidora de forma avassaladora. Quando o neoliberalismo faz uso da religião, se torna o mais pernicioso e iníquo sistema econômico que já existiu. É a nova face do estado exceção que estabelece uma forma de dominação que produz mais desigualdade e injustiças sociais, que põe as instituições democráticas sob risco constante e despreza as conquistas do Estado Democrático de Direito. Resistiremos.

segunda-feira, 28 de outubro de 2019

Uma Teologia a partir das vítimas: análise da poética de Augusto dos Anjos / A Theology from the Victims: Analysis of Augusto dos Anjos' Poetics / Una teología de las víctimas: análisis de la poética de Augusto dos Anjos


A discussão sobre a relação entre teologia e literatura traz consigo duas questões orientadoras. A primeira é a respeito de se a teologia é uma forma de produção literária. A segunda é se a literatura é um lugar para o olhar teológico. Essas duas questões se justificam na medida em que teologia e literatura lidam com o imaginário e as representações simbólicas de nossa relação com o mundo, com o outro e com o sagrado. Essa relação desperta a necessidade de se narrar a experiência e de que ambas sejam expressas por meio da linguagem com todas as implicações que isso envolve.
Por essa razão, não há um único modo de tratar dessa relação. Ela é por si mesmo plural, pois envolve o humano e suas muitas formas de expressar sua existência. A teologia se dirige ao humano para falar de Deus por meio de metáforas assim como a literatura busca dar sentido ao humano como ser no mundo. Cada uma, a seu modo, contribui para a construção de uma imagem do humano como ser no mundo que permite o diálogo com outras formas de conhecimento.
O papel da teologia e da literatura não é o de transmitir a mensagem verdade eterna e imutável, mas o de conduzir o homem a uma reflexão crítica de si, um olhar inquietante a respeito dos conflitos e contradições que envolvem as relações humanas. Elas convidam a uma atitude que vai além daquilo que pode ser racionalizado ou explicado por meio de uma relação causal e que remete a um dizer que não seja objetivante.
A teologia hoje se depara com a exigência de dar conta da vida e da existência humana diante de dois fenômenos já identificados por teólogos da contemporaneidade. O primeiro é o da realidade da fragmentação da teologia, conforme disse Karl Rahner (2008), que resulta em sua obsolescência como pressuposto para fé. O segundo é a noção de cristianismo arreligioso, proposto por Dietrich Bonhoeffer, que conduz a uma mudança de atitude da teologia diante do mundo plural que emergiu no contexto da pós-modernidade.
A literatura, especialmente a poesia, tem em si a capacidade de atualizar, por meio da linguagem, a experiência de produção de sentido. Por isso mesmo, a literatura provoca um constante questionamento entre as formas literárias e as possibilidades de leitura da realidade. O espaço poético se torna um lugar de convergência entre a experiência de presença no mundo e uma abertura para o que está além, para o transcendente.
Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos, nasceu no Engenho Pau d’Arco, no município de Sapé, Estado da Paraíba, em 20 de abril de 1884. Escreveu poesias desde a infância, bacharelou-se em Direito e veio morar no Rio de Janeiro depois de enfrentar problemas com a oligarquia paraibana. Em 1912, publicou seu único livro de poemas, Eu. Morreu no dia 12 de novembro de 1914, em Leopoldina (MG).
“Versos íntimos” é um soneto, com versos decassílabos. A partir da sua leitura, é possível encontrar os dilemas vividos em um tempo de transformações e a crítica à realidade social e histórica do país. O texto é marcado por uma percepção da ambiguidade e da fragilidade humanas diante das contradições e tudo aquilo que transcende à própria condição humana.
Uma poesia que retrata o pessimismo do autor e a decepção diante da condição humana. Crítica ao parnasianismo. Embora esteja inserida na arte poética do Simbolismo, alguns veem sua poesia como antissimbolista. Já se vê na arte poética de Augusto dos Anjos traços do que será a poesia modernista brasileira.
Nela, encontramos questionamentos que despertam a necessidade de um olhar teológico.
Quem se importa com o sofrimento humano? Algum sentimento de angústia tomou conta do poeta.
Vês?! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão – esta pantera –
Foi tua companheira inseparável! (ANJOS, 1971, p. 146).
O que esperar de pessoas que vivem em meio à falta de compaixão? O poeta é tomado de um desprezo para com quem ele se relaciona.
Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera. (ANJOS, 1971, p. 146).
Qual consequência da falta de solidariedade? A angústia do poeta só o remete à reclusão.
Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja. (ANJOS, 1971, p. 146).
O que fazer diante da trágica condição humana? O poeta apela para uma autopunição como único consolo para si.
Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija! (ANJOS, 1971, p. 146).
O modo como Augusto dos Anjos se expressa encontra reflexo na narrativa bíblica de Eclesiastes. “Vaidade de vaidades, diz o pregador, vaidade de vaidades! Tudo é vaidade (Eclesiastes 1.2, na versão Revista e Corrigida de Almeida). A maneira como o livro bíblico do Eclesiastes se inicia descreve bem o momento em que vivemos. A vaidade tem a ver com o grande vazio que se tornou a vida. Tem a ver com aquilo que fazemos para fugir da verdade sobre nós mesmos, daquilo que fazemos para não encararmos a nossa realidade. Numa outra versão da Bíblia, “tudo é uma grande inutilidade [...] nada faz sentido”. Fazendo um paralelo com a teologia de Eclesiastes, a poesia augustiana propõe um retorno a si, como uma reclusão, uma escuta de si, diante das amarguras da desumanidade.
Gilles Lipovetsky chamou nosso tempo de “era do vazio”, que dá título a um de seus livros em que analisa o fenômeno social da pós-modernidade. Vivemos num tempo marcado pelo enfraquecimento da sociedade e dos costumes, que carece de novas formas de afirmação de sua individualidade. Uma sociedade que se baseia no excesso de informação e no estímulo à satisfação das nossas necessidades mais emergentes, no direito a ser eu mesmo, sem imposição de regras sociais. A lógica do vazio está no isolamento do ser social e na valorização do individual. Quando falamos, portanto, de vaidade, estamos nos referindo a esse vazio, em que a vida é como um nada.
O próprio autor do Eclesiastes desejava descobrir o que todos nós queremos saber: o que faz a vida ter sentido? Ele disse: “[...] Eu queria saber o que vale a pena, debaixo do céu, nos poucos dias da vida humana.” (Eclesiastes 2.3) Ele procurou a felicidade e o sentido da vida no dinheiro, no poder, na fama e no sexo, mas não encontrou o que procurava. Depois de relatar uma trajetória de conquistas e de busca de prazer, ele conclui: “Contudo, quando avaliei tudo o que as minhas mãos haviam feito e o trabalho que tanto me esforçava para realizar, percebi que tudo foi inútil, foi correr atrás do vento; não há nenhum proveito no que se faz debaixo do sol.” (Eclesiastes 2.11).

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