sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Quando a misericórdia acontece / When mercy happens / Cuando la misericordia ocurre

“[...] Deus interveio em favor do seu povo” (Lucas 7.16). 
A dor da perda é dilacerante. Perder alguém que a gente ama, então, abre uma cicatriz que nem o tempo sara. A viúva de Naim vivia essa dor. E para mal da sua sorte, seu único filho, fruto do seu amor, também acabara de morrer. Alguém já disse que quem perde um pai é chamado de órfão, quem perde o cônjuge é chamado de viúvo, mas quem perde o filho não tem nome que dê conta de tamanha tristeza.
Alguns podem até argumentar o problema social da mulher naquela época. Ela ficaria completamente desamparada. Mas ela não tinha condição de avaliar isso naquele momento. No seu coração só havia espaço para o pranto, para a angústia, para o desespero. Como continuar viva sem ter ao lado aqueles a quem se ama?
Enquanto o funeral saía da cidade para o último adeus, a multidão que o acompanhava se depara com a comitiva que seguia a Jesus, que chegava. Duas multidões: uma solidária com a dor, outra cheia de esperança; uma que se perguntava sobre o sentido da vida, outra que havia encontrado o autor da vida; uma que se deparava com a finitude, outra que se enchia de esperança com o futuro.
Na chegada à cidade, a morte encontrou-se com a vida, o cortejo de dor encontrou-se com a caravana que restaura a alegria, o sentimento de perda cedeu lugar à descoberta da vida. Jesus se aproximou do cortejo fúnebre e disse apenas duas coisas. Uma delas dedicada à mulher: “Não chores”. A outra, dirigida ao jovem no caixão: “levante-se”. A misericórdia tinha se manifestado ali.
As pessoas que assistiam a tudo, tomadas pelo temor, louvavam a Deus, pois somente ele poderia fazer algo para acalmar corações sofredores, como o daquela mulher. Isso lembra o que disse Bonhoeffer: “Só o Deus que sofre pode ajudar”. Todos ali se sentiam igualmente abençoados e reconheciam que a manifestação da misericórdia se estendia a todos. Por isso, levantavam brados de alegria: “Deus interveio em favor do seu povo”.
Em todos as narrativas dos milagres realizados por Jesus, as pessoas vinham até ele e clamavam por misericórdia. No episódio do filho da viúva de Naim, podemos ver o Senhor se dirigir até aquela pessoa carente e oferecer o seu cuidado amoroso por sua própria iniciativa.
Quando a misericórdia acontece, Deus restaura a alegria, renova a vida e encoraja a ter esperança no futuro.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

O que a misericórdia realiza? / What does mercy accomplish? / ¿Qué hace la misericordia?

“[...] Eu também não a condeno. Agora vá e abandone sua vida de pecado (João 8.11). 
O que uma pessoa tomada por um sentimento misericordioso é capaz de fazer diante de alguém que carece de misericórdia? A história do encontro de Jesus com a mulher surpreendida em pleno adultério nos ajuda a descobrir o que a misericórdia pode fazer.
Naquela cena estavam vários atores: os sem misericórdia, aquela pessoa carente de misericórdia e aquele único que é cheio de misericórdia. As atitudes eram claras: aquelas pessoas que não têm misericórdia eram intolerantes e culpabilizadores, a carente da misericórdia estava totalmente vulnerável e o misericordioso agiu de forma amorosa por livre e espontânea vontade.
Os sem misericórdia ruminavam ódio, mas logo foram convencidos de que a situação deles não era muito diferente daquela que carecia de misericórdia. Se algum de vocês estiver sem pecado, seja o primeiro a atirar pedra nela, disse-lhes Jesus. A carente de misericórdia estava rendida e fragilizada pelo medo, pela vergonha, pela culpa, pela impotência e pela desesperança. Ela não era capaz de encontrar uma solução para seu conflito interior e muito menos para apaziguar seus algozes. Mulher, onde estão aqueles teus acusadores? Ninguém a condenou?”, perguntou Jesus. O cheio de misericórdia agiu como era de se esperar: ele a perdoou e e lhe ofereceu uma nova chance. “Eu também não a condeno. Agora vá e abandone sua vida de pecado, disse Jesus a ela.
A Bíblia diz que Jesus ficou só, com a mulher em pé diante dele”. Santo Agostinho, ao comentar essa passagem, diz que, após os sem misericórdia saíram, ficaram no local apenas a miséria e a misericórdia. Estavam ali o pecador e aquele que pode perdoar os pecados, a fragilidade humana e a bondade divina. Era o encontro entre o que se sente miserável e aquele que pode oferecer misericórdia. O papa Francisco argumentou que, ali, a “a miséria do pecado foi revestida pela misericórdia do amor”.
O que pode fazer a misericórdia? Ela nos humaniza. A intolerância, a culpabilização, o preconceito e o ódio são atitudes que nos desumanizam. A misericórdia divina, porém, restaura a nossa dignidade e nos torna capazes de sermos simpáticos à aflição de quem sofre as consequências da desumanização.

sábado, 3 de dezembro de 2016

Pessoas misericordiosas fazem falta / Merciful people are needed / Se necesitan personas misericordiosas

“Em Jope havia uma discípula chamada Tabita, que em grego é Dorcas, que se dedicava a praticar boas obras e dar esmolas” (Atos 9.36).
Dorcas foi uma mulher extraordinária. Ela foi chamada de discípula, no mesmo nível de compromisso dos discípulos de Jesus. Só aí dá para imaginar sua personalidade: tinha um coração cheio de misericórdia e uma vida dedicada a praticar misericórdia.
Quando Dorcas adoeceu e veio a falecer, as pessoas de Jope colocaram seu corpo num cômodo e correram para chamar Pedro e lhe pedir ajuda. Quando Pedro entrou naquele cômodo contemplou o seguinte quadro: um grupo de viúvas desamparadas, chorando diante do corpo inerte de uma mulher. Ali estava o quadro mais nítido da desesperança. A fonte da misericórdia havia cessado.
As viúvas carregavam consigo as roupas que Dorcas havia feito para elas. Mas elas não choravam por causa das roupas. Elas choravam porque a única pessoa que agiu com misericórdia com elas havia morrido. Todo mundo sabe que fazer uma roupa não é algo simples. Envolve todo processo de tirar medidas, ouvir sugestões, acertar gostos e estilos. Nisso tem o toque, a escuta, a atenção.
Pessoas que já eram marcadas pela dor da perda encontraram em Dorcas não só presentes e doações, mas alguém que lhes dava importância, que lhes servia com interesse, que lhes dedicava tempo, que lhes atribuía um valor especial. Dorcas não foi misericordiosa porque lhes dava coisas, mas porque “estava com elas”.
Tomado pela empatia da dor, Pedro quis ficar só, ajoelhou-se e orou. O que teria dito a Deus? Imagino que, em lágrimas, teria dito que não havia o que fazer ali se Deus não restaurasse sua misericórdia para com aquelas viúvas. Foi por isso que, logo depois de orar, olhou para aquele corpo e chamou pelo seu nome mais íntimo: “Tabita, volta para nós. Levante-se. Todos nós precisamos de você”.
Dorcas abre seus olhos e Pedro entende que está diante da misericórdia em pessoa. Ajuda-a a levantar-se e chama a todos para estarem de novo com ela. A cidade de Jope não era pequena, mas todos ficaram sabendo de como Deus restaurou sua misericórdia naquele lugar.
Pessoas misericordiosas fazem falta.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Qual o espaço para a misericórdia? / What is the space for mercy? / ¿Cuál es el espacio para la misericordia?

“Então Jesus lhe disse: ‘Levante-se! Pegue a sua maca e ande’” (João 5.8).
O poço de Betesda era o lugar propício para a prática da misericórdia. Seu nome significava isso mesmo: “casa de misericórdia”. Ao lado dele havia sido construído abrigos para acomodar muita gente. Porém a história era bem outra.
Conta-se que aquele era o lugar em que as famílias, para se verem livres dos seus doentes, os abandonava junto à fonte de água que jorrava ali. Com o tempo, desenvolveu-se uma crença de que um anjo visitava de vez em quando o lugar e agitava as águas do poço. O primeiro que mergulhasse seria curado.
Não se sabe se alguém chegou a receber a cura ali. Mas dá para se fazer uma ideia do tumulto que acontecia. Os mais ricos logo ocuparam os lugares mais próximos ao poço. Alguns até contratavam escravos para vigiarem a água para eles. De repente, alguém gritava: “a água foi agitada!” E todos disputavam para ver quem mergulhava primeiro. Cegos, paralíticos, mutilados, surdos, toda sorte de portadores de necessidades especiais. Eram maltrapilhos e rejeitados. Todos disputando entrar no poço.
Quanta história de fracasso e decepção cercava o poço de Betesda! Quanta esperança e fé havia ali apesar de tudo! A única coisa que não havia era misericórdia. Essa passava longe do lugar onde se dizia que era a sua habitação.
Até que um dia Jesus passou por ali. Viu um paralítico deitado em seu leito, triste e desolado.
– Há quanto tempo você está aqui?
– 38 anos...
– Depois disso tudo, você ainda tem esperança de ser curado?
– Senhor, ninguém me ajuda. E quando a água é agitada, vem outro mais esperto e entra primeiro.
– Então, levanta, pega o seu leito e anda!
Imediatamente o que era paralítico se levantou e andou.
Qual é o lugar da misericórdia? O lugar onde aquele que é misericordioso encontra-se com alguém que precisa de misericórdia.

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Tragédia em voo da Chapecoense: a finitude e a transitoriedade da vida / Tragedy in flight of Chapecoense: the finitude and the transience of the life / Tragedia en vuelo de Chapecoense: la finitud y la fugacidad de la vida

O acidente que ceifou a vida da quase totalidade do time de futebol da Chapecoense, além de equipe técnica, jornalistas e muitos outros que o acompanhavam para a primeira partida da final da Copa Sul-Americana, é marcado por um sentido de dor e angústia que não dá para se descrever em palavras. O que fica é esse sentimento de perplexidade diante da finitude e da transitoriedade da vida, aspectos que fazemos o esforço de não levar em conta na hora de construir planos e sonhos, mas que gritam o tempo todo para lembrar da fragilidade humana, de nossa incompletude e de que não temos o controle de nossa existência.
Fico com a definição de Georges Bataille: “a morte é em certo sentido uma impostura”. Ela se disfarça e se apresenta nos espaços não desejados. Uma invasora da vida, uma intrusa em nossos projetos. Ela está sempre ali para nos trazer de volta à dura realidade que estamos num vazio, que somos detentores de um poder ilusório, que vivemos em meio ao imponderável, ao insólito, ao improvável.
A morte põe em questão nossa existência. Na medida em que só tenho uma vida para viver e na proporção em que minha consciência é regida pela memória, viver é como vaguear entre esperança e tentativas, procurando dar um passo de cada vez como um bêbado equilibrista, como quem dança na corda bamba. Somente a morte nos traz de volta ao senso de que estamos diante da incerteza, de que até aqui tudo o que fizemos foi transcender à fatalidade de uma vida sem expressão. Como disse Elis Regina: “A esperança equilibrista / Sabe que o show de todo artista / Tem que continuar”.
Somos sujeitos que vivem diante de uma armadilha: que nos lança o desafio de rejeitar o vazio de uma vida sem sentido, ao mesmo tempo que nos permite perceber nossa própria finitude. É o chamado para a vida eterna que se defronta com o grito “por que me abandonaste?” Nem Jesus escapou dessa agonia. Aquele que enfrentou esse mesmo dilema nos chama a uma superação. “[...] A morte foi destruída pela vitória(1 Coríntios 15.54).
Os que embarcaram naquele voo tinham um sonho de conquistar um prêmio, mas se depararam com o grande dilema do jogo da vida. 71 mortos. 6 sobreviventes. Famílias sofridas. Uma cidade perplexa. Um país em estado de tristeza. Como fazer para seguir adiante? Logo a gente descobre que ainda persiste aquela teimosia de ir além, de que viver é se abrir para o que dá esperança, de que vale a pena encarar desafios até para honrar a memória dos que se foram.
Com o trágico acidente, somos chamados à solidariedade, ao exercício da misericórdia, à compreensão de que os títulos não representam nada diante da fugacidade da vida, de que é possível imaginar um outro modo de se construir a nossa existência. É uma pausa para pensar sobre o que estamos fazendo com o que ainda nos resta da vida. Desejo aos familiares, companheiros e torcedores da Chapecoense toda a consolação que só o Espírito Santo de Deus pode dar. Desejo o mesmo para as equipes de mídia e os demais simpatizantes que acompanhavam o time. Que Deus nos console a todos.

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