domingo, 22 de fevereiro de 2015

Quem é você? / Who are you? / ¿Quién es usted?

“Porque, como imagina em sua alma, assim ele é...” Provérbios 23.7 ARA
A grande questão que inquieta é a respeito de quem nós somos. Procuramos por uma natureza humana, uma essência, algo que nos explique e nos justifique. Por conta disso, sempre achamos que falta alguma coisa, sentimo-nos incompletos e imperfeitos. A própria busca por uma perfeição comporta em si mesma um equívoco.
A expectativa da perfeição é uma ficção das mais perversas, pois é a causa de muitas frustrações, alimenta muitos ressentimentos e provoca os preconceitos. Não podemos nos esquecer de dois aspectos muito importantes: primeiro, que somos pessoas marcadas pela ambiguidade. Ao mesmo tempo que tememos o nosso fim, desejamos o que está além de nós mesmos. Segundo, que na história da humanidade houve um momento em que nos perdemos de nós mesmos. A Bíblia chama esse momento de “queda” e o trata na perspectiva do pecado de Adão e Eva no paraíso. Adão é o arquétipo do homem em condição de perdição. Tinha tudo, vivia no paraíso, poderia fazer a melhor escolha de ajustar a vida àquele estado, mas preferiu ir além e experimentar o fruto que ampliava o seu conhecimento. O resultado dessa história é que o próprio ser humano passou a olhar para si como incompleto, desalojado de sua condição primeira, em busca de algo que lhe devolva o sentido primeiro.
Para que possamos resgatar algo que nos faça sentido, precisamos de um espelho, que é a imagem do outro. É pela criação da imagem do outro que conseguimos compreender a nós mesmos. A imagem do espelho é a imagem do outro que pode ser eu mesmo, mas que só consigo me ver como outro. Esse outro é o que eu desejo ser e não há qualquer relação de unidade entre essa imagem e quem de fato sou, a não ser como imaginário.
A psicanálise nos ajuda a compreender essa nossa realidade humana. Entretanto, essas reflexões não são só da psicanálise, embora ela tenha desenvolvido uma abordagem bastante interessante sobre essa relação. A Bíblia já apontava caminho para essa compreensão. O apóstolo Paulo disse certa vez: Agora, pois, vemos apenas um reflexo obscuro, como em espelho; mas, então, veremos face a face. Agora conheço em parte; então, conhecerei plenamente, da mesma forma como sou plenamente conhecido.” 1 Coríntios 13.12
Conhecer mais a si mesmo é uma necessidade humana. Este é um princípio presente em várias culturas. O budismo ensina a conhecer a si mesmo como princípio para que possa aprender a esquecer de si mesmo. Sócrates usou o princípio do oráculo de Delfos do “conhece a ti mesmo” para orientar a prática do cuidado de si. E a Bíblia recomenda em várias passagens, especialmente do Novo Testamento, a ter essa mesmo preocupação com a descoberta de si e do cuidado consigo mesmo.

domingo, 8 de fevereiro de 2015

Ressentimento / Resentment / Resentimiento

“[...] Que nenhuma raiz de amargura brote e cause perturbação, contaminando a muitos.” Hebreus 12.15
Sofremos mais por causa de nossos relacionamentos do que pelas circunstâncias difíceis que enfrentamos. As pessoas que estão mais próximas são realmente capazes de exercer influência sobre nós, podem até nos ferir e provocar mágoas tão profundas cujas cicatrizes levem tempo para serem saradas.
O problema é que relacionamento é uma via de duas mãos. Isso quer dizer que também somos capazes de exercer influência e até de ferir as pessoas a quem amamos. Por outro lado, podemos desenvolver uma consciência de nosso valor de tal modo que não importa o que as pessoas digam ou façam contra nós, pois isso não altera a nossa condição.
Ressentimento é ter o mesmo sentimento destrutivo repetidas vezes provocado a partir de relações doentias na família, nas amizades, no ambiente de trabalho, na vizinhança ou na escola. Pessoas ressentidas estão aprisionadas a um círculo autodestrutivo, que consome a alegria, a paz, o amor, a comunhão e até a perspectiva de mudança.
Isso mesmo, o ressentimento é uma prisão da alma, como um calabouço escuro em que a pessoa se recolhe para alimentar seus sentimentos mais terríveis de ódio e de vingança. Pessoas ressentidas desenvolvem uma compreensão ruim da realidade, tornam-se amargas no tratamento com o outro e consigo mesma. A mágoa é a filha preferida do ressentimento que, quando se instala, destrói toda a esperança.
É fácil você identificar uma pessoa ressentida. Ela é capaz de viver em seu próprio mundo e não permitir um outro olhar sobre o problema que lhe afeta. Ela maquia seus sentimentos com ironia, desdém, juízos premeditados e até preconceito, tudo para alcançar o seu único fim: satisfazer seu eu ferido. Alimentar ressentimentos é como beber veneno achando que é o outro que vai morrer.
O único remédio para o ressentimento é o perdão. Ele interrompe o círculo vicioso que o ressentimento produz e restaura a vida daquele que está ferido. Não tenha a ilusão da reparação do dano, mas tenha a convicção de que a vida segue seu rumo, apesar de tudo. O perdão não repara o problema causado, mas restaura a condição para se seguir adiante.

Se você não é capaz de perdoar o outro por causa da ferida que lhe foi causada, perdoe por causa de você mesmo. Não há porque alimentar um ressentimento de forma contínua se a vida segue seu curso. Sentimentos se renovam e há uma alegria reservada para quem se liberta dos sentimentos ruins do passado e se abre para o novo. Ressentimentos, nunca mais.

domingo, 1 de fevereiro de 2015

Oração Transformadora / Transforming prayer / La oración transformadora

Mas quando você orar, vá para seu quarto, feche a porta e ore a seu Pai, que está no secreto. Então seu Pai, que vê no secreto, o recompensará.” Mateus 6.6
A oração é um exercício de espiritualidade dos mais complexos. Muitos o tem tratado como expressão de poder, como forma de “mover” o braço de Deus, como prática de pensamento positivo, enfim, como tudo, menos como o que é de fato: um exercício espiritual de transformação de si.
O universo da oração envolve estar na presença de Deus. Isso faz toda diferença. Ninguém ora como quem manda uma mensagem por rede social ao amigo ausente. A oração nasce do desejo do encontro com o inefável, como experiência pessoal de relação com aquele que tudo sabe, tudo vê e tudo pode.
Helmut Thielicke, teólogo alemão, relatou que o governo comunista da antiga Alemanha Oriental havia ficado intrigado com a capacidade de resistência e perseverança dos cristãos, que contrastava com o quadro de alto índice de suicídio entre os que não eram cristãos. Recomendou, então, estudos sobre o assunto. Os pesquisadores ateus descobriram que os cristãos haviam desenvolvido uma técnica para superar os seus problemas: conversavam sozinhos, em secreto, com um ser que não existia, mas que, no fundo, era uma projeção deles mesmos. Daí, o governo recomendou que os psicólogos elaborassem uma terapia baseada em um diálogo consigo mesmo, como se fosse um ser imaginário. O resultado apareceu em pouco tempo: o número de suicídios aumentara.
A oração comporta três realidades que poucas vezes levamos em consideração. A primeira é que a oração não muda as coisas. Ela muda as pessoas. A oração não muda as circunstâncias nem você vai mudar o modo de Deus entender a realidade, os propósitos dEle ou o quanto Ele te ama só porque você ora. A oração muda a gente por dentro.
A segunda é que a única oração que de fato funciona não é aquela que pede de forma explícita, clara e objetiva pela bênção divina. Não há um modelo de oração que funcione e outro que não funcione. A oração eficaz é aquela que pede a Deus força e coragem para enfrentar os problemas, pois é isso que Ele faz de melhor.
A terceira é que a oração pode oferecer a quem ora três possibilidades: crer que Deus pode mudar as circunstâncias; compreender que Deus pode abençoar apesar das circunstâncias; e confiar que Deus vai nos capacitar a enfrentar as circunstâncias. Ou seja: Deus pode eliminar o problema, Deus pode usar o problema como oportunidade de bênção e Deus pode abençoá-lo a enfrentar o problema. A diferença está na sua disposição de buscar a Deus em oração. O milagre está em entender isso.

domingo, 25 de janeiro de 2015

Palavra de vida / Word of life / Palabra de vida

Este é o meu consolo no meu sofrimento: A tua promessa dá-me vida. Salmos 119.50
A Bíblia é a palavra de Deus, aprendemos desde cedo em nosso catecismo. Ela não contém nem se parece, ela é. Isso faz toda a diferença. Isso nos lembra que Deus falou aos homens em um momento da história, e que estes homens que ouviram Deus registraram sua palavra em uma forma escrita.
O problema é que a ideia de palavra comporta duas possibilidades: uma, o ato da fala, com seu sistema de signos; a outra, seus significados. A primeira, objetiva, formal e que pode ser decodificada. A segunda, difusa, subjetiva e relacionada ao contexto. Ferdinand de Saussure as designou como língua e fala (langue e parole, em francês).
O Antigo Testamento emprega duas palavras em hebraico para se referir à palavra de Deus: uma é dabar, a palavra dita por Deus, a outra é imra, que se refere às promessas divinas. Ambas são usadas no mesmo sentido: a palavra que produz vida e serve como guia para o viver melhor.
O Novo Testamento também emprega duas palavras gregas para se referir à palavra de Deus: uma é logos, a outra é rhema. A primeira é a palavra dita, codificada, que faz parte do ato da fala. É a forma substantiva do verbo dizer. Os gregos entendiam que podíamos conhecer as coisas por aquilo que somos capazes de dizer sobre ela. A segunda é o que está implícito da palavra dita, o sentido que a palavra assume na consciência de quem a recebe.
Ao traduzir as palavras hebraicas para o grego, a Septuaginta (versão grega do Antigo Testamento elaborada no século II a.C.) empregou as palavras gregas indiscriminadamente para ambos os casos. Da mesma forma, os escritores do Novo Testamento empregaram tais palavras sem qualquer critério lógico entre elas. Tal como acontece em português, com o falou e disse.
Isso quer dizer que, para você ter acesso aos sentidos da palavra de Deus, precisa estar familiarizado com os modos de Deus falar. Para isso, há uma palavra escrita, codificada, expressa na língua comum a nós humanos. Ela remete a um implícito, que é o propósito de Deus a todos os homens em todos os tempos, que provoca um efeito na consciência de quem a conhece.

É somente neste sentido que a palavra de Deus é palavra de vida: que gera vida e aponta direção para a vida. A Bíblia é este livro de vida para quem examina. Não precisa de muito. Basta uma pequena porção, como uma semente, para produzir os frutos para os quais ela se destina.

domingo, 18 de janeiro de 2015

Deus é justo / The Lord is righteous / Justo es Jehová

O Senhor é justo em todos os seus caminhos e é bondoso em tudo o que faz. Salmos 145.17
Quem nunca se emocionou ao ver uma igreja evangélica cantar o tradicional hino “Justo és, Senhor” (Justus Dominus, de Lowell Masson)? Lembro-me de quando a congregação se esforçava para cantá-lo em todas as vozes possíveis e imagináveis. Até o mais desafinado procurava dar sua contribuição com seu tom formando, assim, o mais angelical dos coros entre os homens. E sempre acontecia desse mesmo modo, de forma muito espontânea.
No fundo, todos nós compreendemos que a única pessoa a quem podemos atribuir a definição de justo é Deus. Nenhum ser humano mereceu essa designação, nem mesmo o humano Jesus a reivindicou para si. Somente João se referiu a Jesus Cristo como “o Justo”.
E somos assim porque sabemos que nenhuma expressão humana de justiça se mostrou satisfatória até hoje. Como uma virtude humana, a justiça é sempre incompleta, ambígua e contraditória. Por isso Jesus Cristo reconheceu que são bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, pois é na descoberta de nossa incompletude e na nossa abertura para o único que é justo que podemos ser satisfeitos.
Esse reconhecimento, no entanto, comporta duas possibilidades de equívoco: o primeiro quando atribuímos a Deus nossa ideia racional de justiça, aquela que parte de um mediador hábil para tratar de nossas diferenças; o segundo é aquele que vê a justiça como reparadora de um dano, que exige a vingança de algo que nos ultraja, que nos atinge em nossa dignidade.
Compreender Deus como mediador em meio àquilo que causa desigualdade entre nós é o mesmo que exigir que Ele seja insensível, impessoal diante do que nos angustia. Do mesmo modo, requerer que Deus seja um reparador de nossa dignidade é considerá-lo um tirano, vingativo, iracundo. Nenhum desses dois modos são expressões do Deus que é amor, que é como a Bíblia o define. Seu critério de justiça, no entanto, é permeado pelo amor, que se manifesta como graça, misericórdia, perdão e compaixão, valores que a nossa humanidade vã tem grandes dificuldades de realizar.
O salmo que remete à ideia de um Deus justo lembra que ele é bom em tudo o que faz. Não existe melhor definição de justo do que isso: a pessoa boa é uma pessoa justa. O mesmo salmo que contém essa bela definição diz também que ele “está perto de todos os que o invocam, de todos os que o invocam com sinceridade”. Ele não é um Deus distante. Ele não é um Deus raivoso. Ele é o Deus que quer estar ao lado de gente como a gente. Isso sim é justiça.

Assista:

Assista:

LinkWithin

Related Posts with Thumbnails