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domingo, 8 de janeiro de 2023

Crime anunciado contra a democracia: o Estado brasileiro diante de sua principal ameaça, nosso 8 de janeiro / Announced crime against democracy: the Brazilian State facing its main threat / Crimen anunciado contra la democracia: el Estado brasileño frente a su principal amenaza

 

O dia de hoje ficará marcado pelo pior atentado cometido contra a República Brasileira desde a sua redemocratização. Podemos chamar esse dia como o 8 de janeiro, quando um crime foi praticado contra a democracia, apesar de largamente prenunciado desde a divulgação dos resultados das eleições de 2022. Curiosamente, esse episódio acontece 2 anos e 2 dias depois da invasão do Capitólio, nos Estados Unidos da América, por apoiadores de Donald Trump. Aqui, vândalos e arruaceiros simpatizantes de Bolsonaro invadem os principais prédios do governo brasileiro: O Congresso, o Palácio do Planalto e a sede do STF.

O mais correto seria chamar esses manifestantes de terroristas pela quantidade de danos causados ao patrimônio público e a depredação das principais sedes governamentais, do centro do poder. Não são, nem nunca foram, movimentos pacíficos ou de acordo com a Constituição, como afirmou nesta semana o atual Ministro da Defesa do Governo eleito. São pessoas dispostas a praticaram atos de violência para imporem sua vontade política sobre uma nação inteira, desrespeitando assim o processo democrático.

Os manifestantes não agiram voluntariosamente. Houve uma articulação em várias partes do país, mobilizando ônibus e fomentando discursos de ódio, para trazer pessoas dispostas a promover o que os líderes vinham chamando de “guerra”. Além disso, pela natureza e forma de organização, pressupõem-se que haja financiadores e mentores dessa ação tramada para causar insegurança e colocar em xeque a autoridade do governo recém-empossado.

O Ministério da Justiça se preveniu convocando a atuação da Guarda Nacional. Porém, o Governo do Distrito Federal, cujo atual Secretário de Segurança é o ex-Ministro da Justiça de Bolsonaro, se mostrou leniente diante das ameaças dos atentados que se viram neste domingo. A própria polícia do Distrito Federal ofereceu apoio aos manifestantes em dado momento para que se aproximassem da Praça dos Três Poderes.

Esses atentados já haviam sido previstos por cientistas políticos e analistas desse momento histórico. Com base em outros acontecimentos, como a Noite dos Cristais do nazismo, as marchas fascistas na Itália e até mesmo a invasão do Congresso norte-americano em 6 de janeiro de 2021, era fácil imaginar que a sucessão de atos golpistas após o resultado das eleições iria resultar no que vimos.

Desde o dia 31 de outubro de 2022, assistimos à perpetração de diversos atos criminosos que não receberam o tratamento de acordo com a lei, como o bloqueio em rodovias, acampamentos em áreas militares, noite de vandalismo em Brasília, diversos atos de violência contra opositores e várias autoridades federais hostilizadas em espaços públicos. Em todos esses atos, verificou-se a inação daqueles que têm o dever de fazer cumprir a lei, como as polícias dos estados, a Polícia Federal, a Polícia Rodoviária Federal, o Ministério Público e até juízes.

O principal responsável pelo caos no Distrito Federal hoje não está no país para responder criminalmente. O fato de Bolsonaro não ter reconhecido a derrota na eleição e ter se omitido diante das manifestações criminosas que pediam ações inconstitucionais acabou aumentando a animosidade. O bolsonarismo se tornou um dos mais agressivos movimentos de extrema-direita no mundo, reproduzindo aqui cenas lamentáveis de intolerância, de preconceito e de desrespeito ao processo democrático.

Vai levar tempo para restaurar a normalidade. A única saída é a afirmação do poder do Estado para a garantia da ordem, através das aplicações dos instrumentos de regulação, como a Lei Antiterrorismo e a Lei de Defesa do Estado Democrático de Direito. Fala-se inclusive na intervenção federal na área de segurança de Brasília. A repressão direta poderia inflamar ainda mais os ânimos, embora esse teria sido o tratamento caso os manifestantes fossem outros.

O Brasil teve até aqui uma longa história de repressão às manifestações de movimentos progressistas, de trabalhadores ou de pessoas que lutam por seus direitos civis. Assistimos por décadas cenas de truculência policial, de uso de um forte aparato repressor contra aqueles que lutaram por direitos trabalhistas e previdenciários, por acesso à terra para plantar, pelo direito a moradia e até manifestações estudantis. Entretanto, os participantes dos atos terroristas de hoje são pessoas tidas como “pessoas de bem”, conservadores e até defensores da família, da fé, da moral e dos bons costumes. Um paradoxo diante da capacidade de se articular para cometerem a depredação que se viu.

Talvez o dia de hoje tenha sido necessário para pôr fim a uma hipocrisia que vinha sendo institucionalizada no país. A ideia de que quem pedia intervenção federal, ditadura militar e golpe contra a democracia eram pessoas pacíficas. Quem pede que se pratiquem ilegalidades como essas não estão bem intencionados. A democracia não combina com a ruptura da lei. Antes, para que vivamos num legítimo Estado Democrático de Direito é preciso que a lei se aplique igualmente sobre todos. Caso contrário, nos transformaremos em uma sociedade ingovernável.

A democracia garante direito à liberdade de expressão, mas exige o respeito às instituições criadas para que o Estado Democrático de Direito se realize. Esses insanos não podem ficar impunes.

(Foto: Folha de São Paulo, Evaristo Sá/AFP. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/poder/2023/01/bolsonaristas-sobem-em-teto-do-congresso-e-pm-reage-com-bombas.shtml).

segunda-feira, 19 de março de 2018

Violência: nota sobre a execução de Marielle e Anderson / Violence: note on the execution of Marielle and Anderson / Violencia: nota sobre la ejecución de Marielle y Anderson


“Sua boca está cheia de maldições, mentiras e ameaças; violência e maldade estão em sua língua” (Salmos 10.7).
A violência é fruto da impiedade e da maldade humanas. Ela é sempre resultado de uma ação intencional de agredir o outro, seja de forma física, psicológica ou moral. Da mesma forma, é também produto de uma mentalidade individualista, dominadora e discriminatória, que vê o outro, o que ele é e como pensa diferente como uma ameaça.
Estamos vivendo um tempo de crescimento de um sentimento de insegurança e instabilidade que tem dado oportunidade para o desenvolvimento de uma mentalidade preconceituosa, de ódio e de segregação que acaba resultando em mais violência. Jesus nos lembrou que “[...] todos os que empunham a espada, pela espada morrerão” (Mateus 26.52). Violência, quando não tratada, gera mais violência.
Diante da execução trágica da vereadora do Rio de Janeiro e militante em defesa dos Direitos Humanos Marielle Franco e de seu motorista, manifestamos nossa solidariedade com os familiares e amigos, bem como nossa preocupação com as dimensões que a violência tem alcançado em nosso Estado. Essa morte é simbólica do mal que campeia entre nós e que deve nos conduzir a um clamor pela misericórdia divina.
Que tanto os que efetuaram a execução quanto os foram seus mandantes sejam identificados e julgados. Que a justiça possa fluir como um rio perene entre nós, conforme diz Amós 5.24.
(Nota publicada no Boletim Informativo da Igreja Batista da Orla Oceânica, em 18/3/2018).

quinta-feira, 15 de março de 2018

Marielle: ativista de Direitos Humanos executada / Human rights activist executed / Activista de Derechos Humanos ejecutada


A morte de Marielle Franco, vereadora de um partido de esquerda, militante da favela da Maré, ativista em defesa de Direitos Humanos e relatora da comissão especial que acompanha a intervenção federal no Estado do Rio de Janeiro foi uma execução. Junto com ela, morreu também o trabalhador desempregado que lhe servia como motorista Anderson Pedro Gomes. O veículo recebeu 9 tiros. Foram 9 tiros! Todos disparados de dentro de um carro que perseguiu a vítima com a precisão de um endereço certo.
A morte de Marielle está inserida em um momento histórico vivido pelo Brasil, que assiste ao crescimento de uma mentalidade fascista, dominada por uma forte segregação social contra negros, mulheres, pobres e de esquerda. Todo discurso que é nutrido por movimentos de direita, por grupos parlamentares favoráveis ao armamento, por políticos ávidos pelo poder acabam criando um clima que favorece práticas dessa natureza.
As vozes que se levantam em favor do direito das minorias vão sendo hostilizadas ao ponto destas se tornarem vulneráveis em meio ao clima de violência que graça por todo lado. Há um ódio alimentado contra pensadores, ativistas, simpatizantes e até de quem se mostra um pouco sensibilizado com o evidente retrocesso socioeconômico que o Brasil enfrenta desde que o golpe de 2016 foi urdido e colocado em prática. Esse mesmo golpe que entregou o governo nas mãos de um grupo sem escrúpulos, que se torna manchete diária por tentar escapar das investigações de seus maus feitos.
A morte de Marielle acontece em meio a um contexto: trabalhadores são agredidos em São Paulo por lutarem por seus direitos, índios se levantam em luta pela defesa de suas terras. O sangue jorra pelo país. O golpe deixou o país em trevas. A execução de Marielle é simbólica do momento que o país vive. E o mais triste é que essa mentalidade fascista dominante ainda vai fazer muitas vítimas. Mas não vão nos calar. Marielle, presente! Anderson, presente!
Minha admiração pela militância dessa mulher, negra, mãe, socióloga e mestre, que sempre se posicionou em defesa dos mais frágeis. Minha indignação pela sua morte de forma tão brutal, que escancara o grau de impunidade e insegurança em que vivemos. Meus respeitos pelo seu legado. Uma grande perda, sem dúvida. Que outras vozes se levantem.

sábado, 17 de fevereiro de 2018

Intervenção Federal no Rio: excepcionalidade constitucional e caos social / Federal intervention in Rio: constitutional exceptionality and social chãos / Intervención Federal en Río: excepcionalidad constitucional y caos social

A decisão do governo de estabelecer intervenção no Estado do Rio de Janeiro, através do decreto assinado em 16 de fevereiro de 2018, é medida excepcionalíssima prevista no texto constitucional e que deve visar à proteção do Estado Democrático de Direito em face de anormalidades que coloquem em risco a integridade nacional. Trata-se de um remédio jurídico presente na Constituição desde sua promulgação em 1988, mas que nunca foi aplicada diante de outras situações anteriores de insegurança e de ameaça à ordem pública em diversas unidades da federação, dada a sua excepcionalidade. Isso faz com que o decreto se revista de uma condição inédita para a população e para a história da república federativa brasileira.
É bom ressaltar que o instrumento da intervenção federal sobre uma unidade da federação é um ato de natureza civil, visando “pôr termo a grave comprometimento da ordem pública” (cf. art. 34, inciso III, da CRFB), e não militar, como prevê o decreto, sobretudo em se tratando da segurança da sociedade e dos cidadãos em geral. A aplicação de tal medida, porém, não foi antecedida de um planejamento criterioso das causas do avanço da criminalidade e não caracteriza a aplicação de qualquer política pública de combate à violência.
O Estado do Rio de Janeiro, especialmente sua capital, já assistiu a outras experiências de ações de apoio militar ao policiamento e ao combate à violência que obtiveram resultados ineficazes na redução dos índices de criminalidade e contra a ação de facções criminosas ligadas ao tráfico de drogas e de armas. O combate à violência e ao crime organizado requer muito mais do que a presença de um aparato militar nas ruas ou à frente de um setor do governo. São necessários planejamento, estruturação e ações de inteligência que visem atacar o problema a partir de suas reais causas.
A intervenção federal no Rio é reflexo do caos econômico e social provocado pelo golpe de 2016, que interrompeu o processo democrático vivenciado pelo Brasil. O fato é que o país e o Estado, ambos liderados pelo mesmo partido que articulou o golpe e assumiu a presidência, estão desgovernados e sem perspectiva. Isso demonstração que a redução da força do Estado é uma ameaça à estabilidade democrática do país.
O governo que, nessa ação, usa militares para fazer intervenção no Rio é o mesmo que, no ano seguinte ao golpe, cortou gastos na saúde, educação e segurança provocando o caos em que a sociedade em geral se encontra, com aumento do desemprego, diminuição do poder de compra dos salários e precarização do trabalho.
A intervenção, que é de natureza militar, somente confirma a suspeita de que possivelmente nos encontramos sob um Estado de Exceção. É uma espécie de declaração do fracasso do governo em lidar com os problemas nacionais, com situações que têm origem no corte de direitos e no aumento da desigualdade. Com isso, o golpe entra em nova fase, que é a do controle do espaço público.
Isso desperta a preocupação com a segurança pública a fim de que ela não seja oportunidade para instaurar um Estado de Exceção, com cerceamentos de direitos civis, ameaça à liberdade de ir e vir, impedimento do exercício livre de expressão e de manifestação política. O que se espera é que o combate à violência e ao crime organizado não seja ocasião para o tratamento desigual entre comunidades carentes e logradouros urbanizados, como se a favela, o morro ou os bairros onde vivem pessoas menos favorecidas fossem lugares à margem da vida social.
É preciso que a sociedade civil organizada declare a rejeição a qualquer uso político da medida, seja para tentar resgatar a imagem de um governo com alto índice de reprovação popular, seja para servir de promoção em ano eleitoral. Para tanto, que sejam priorizadas as ações sociais e a garantia de direitos de cidadãos, principalmente em um Estado mergulhado em uma crise financeira sem precedentes, respeitando-se o pagamento dos salários dos servidores públicos em dia, mais investimentos na saúde e na educação e a aplicação das verbas prevista no equipamento e preparo do serviço de polícia.
Se a intervenção federal é, de fato, uma necessidade, que se dê ênfase à formulação de uma política pública de segurança que não permita mais o derramamento de sangue inocente de pessoas vitimadas por balas perdidas, sejam elas policiais em serviço ou mesmo crianças dentro de suas casas, de guerras de quadrilha pelo domínio de um território, pela corrupção entre agentes públicos. Para um país traumatizado por ter vivido, por mais de 20 anos, uma ditadura militar em sua história, a intervenção acende o alerta de que o Estado Democrático de Direito se encontra em risco.

quarta-feira, 27 de julho de 2016

Trégua Olímpica: um tempo de tolerância, solidariedade e paz / Olympic Truce: a time of tolerance, solidarity and peace / Tregua Olímpica: un tiempo de tolerancia, de solidaridad y de paz

Os jogos olímpicos, em sua versão primeira, foram criados para se promover a paz. Já naquela época se entendia que o esporte inspira ações de tolerância, solidariedade, de inclusão social, de educação e de pacificação, tendo em vista a construção de uma sociedade mais justa. Isso vale para hoje também. Nelson Mandela chegou a dizer que “o esporte fala às pessoas em uma linguagem que elas podem entender”. E as Olimpíadas se constituem como o ponto máximo de realização desses ideais humanos.
A Grécia antiga, por volta do século VIII a.C., vivia em meio às guerras entre suas cidades e para se proteger dos impertinentes invasores. Os gregos, então, propuseram um período de trégua, ao qual chamaram de Ekecheiria, que significa “dar as mãos”. Durante esse período, atletas, artistas e peregrinos, bem como seus familiares, poderiam viajar em segurança para Olímpia, o local dos jogos olímpicos, e retornar do mesmo modo para suas cidades. Esse tempo equivalia a sete dias antes dos jogos e a sete dias depois dos jogos, chamado de trégua olímpica ou paz olímpica. A cidade onde os jogos eram realizados era considerada como território neutro, ainda que as cidades participantes estivessem em guerra. Ali, inclusive, líderes militares poderiam fazer seus acordos de paz.
Na reedição dos jogos olímpicos na contemporaneidade, a tradição de se buscar um período de trégua durante o torneio vem sendo mantida. Mas, somente em 1991, por causa dos conflitos na extinta Iugoslávia, o Comitê Olímpico internacional começou a mobilizar meios para a adoção da trégua olímpica como um tema de interesse internacional. Desse modo, em 1992, a ONU convocou a todos os países signatários a observarem um período de trégua durante os jogos já a partir da Olimpíada de Barcelona, naquele ano. Em 1993, então, são instituídos os 100 Dias de Paz para todos os jogos olímpicos e paralímpicos de verão e inverno.
Em face dos muitos conflitos que o mundo enfrenta, Ban Ki-Moon, o Secretário-Geral da ONU, pediu um cessar das hostilidades no mundo todo, ao aproximar-se a edição deste ano dos jogos na cidade do Rio de Janeiro. “Uma pausa nas lutas manifestaria os valores que os Jogos buscam promover: respeito, amizade, solidariedade e igualdade”, disse.
Embora o esporte seja um fator importante para a promoção da tolerância, da solidariedade e da paz, nem sempre os jogos olímpicos conseguiram promover uma trégua. Durante as realizações nos tempos modernos, duas guerras mundiais aconteceram de modo a cancelar algumas edições. Até mesmo durante a chamada guerra fria, aconteceram boicotes, proibições e até atentados, como foi o caso dos jogos de Munique, em 1972, quando onze atletas de Israel foram mortos pelo grupo terrorista palestino Setembro Negro. A única edição que recebeu 100% de adesão dos países-membros da ONU foi a de Londres, em 2012.
De acordo com a decisão aprovada em outubro de 2015 na ONU, 180 dos 193 países-membros concordaram em observar uma paralisação dos conflitos durante os jogos do Rio 2016, a começar, portanto, nesta sexta-feira, 29 de julho. O documento que trata da trégua olímpica neste ano recebe o título de “Esporte para o desenvolvimento e a paz: construindo um mundo mais pacífico e melhor por meio do esporte e do ideal olímpico”. Nele, foram incluídas preocupações com a proteção e a educação de meninos e meninas em todo o mundo.
Para um tempo marcado pela crise dos refugiados e pelos ataques terroristas, a expectativa de que a trégua olímpica se torne realidade já é um alento. Isso deve valer também para que se observe um cessar na intolerância, no preconceito e nas hostilidades entre as pessoas, não só entre nações. Isso deve valer mais ainda para os conflitos internos no nosso país: guerras de quadrilha pelo controle do tráfico, agressões e ofensas por causa de intolerância religiosa e ideológica bem como a tramitação do golpe de estado em curso no país com aparência de legalidade, que é o impeachment atual.
Um evento dessa magnitude, que acontece pela primeira vez num país latino-americano, certamente comporta críticas de várias naturezas. Mas não podemos perder a chance histórica de cuidar das relações uns com os outros, de lembrarmos que somos todos humanos, de que ainda é possível sonhar com um tempo de paz para a nossa cidade, para o nosso país e para o mundo em que vivemos.

sexta-feira, 15 de julho de 2016

Ataque em Nice: Por que a França sofre com o terrorismo? / Attack in Nice: Why France is suffering from terrorism? / Ataque en Niza: ¿Por qué Francia está sufriendo con el terrorismo?

A França tem sofrido, nos últimos dois anos, os mais graves atentados terroristas ligados à jihad islâmica no Ocidente. Tudo começou depois que, em 2013, o governo francês resolveu intensificar luta contra o jihadismo e isso tem feito com que seu território se transforme num campo de batalha do terrorismo, ao ponto de o presidente François Hollande declarar que a os franceses terão que aprender a conviver com o terror.
A França vive em uma guerra de fato. Além de três grandes ataques desde o atentado contra o Charlie Hebdo, em janeiro de 2015, vários outros pequenos incidentes têm acontecido e muitos outros evitados pela inteligência e pela polícia francesa. Toda a França está sob ameaça do terrorismo. A pergunta que se faz é: por que a França está no centro desses ataques? Primeiramente – e o que parece mais óbvio –, porque os ataques são uma retaliação ao envolvimento militar dos franceses na guerra contra o Estado Islâmico. Mas não é só isso, embora essa seja uma grave explicação.
Para entender o que acontece com a França neste momento, é preciso levar em consideração dois aspectos: primeiramente, os autores dos atentados; em seguida, o momento e as circunstâncias em que eles ocorrem. No caso do ataque de Nice, o autor era um tunisiano de confissão muçulmana já radicado na França. A Tunísia, país que fica no norte da África, foi uma colônia francesa até o ano de 1956. Foi ali também que, em 2011, se desencadeou o movimento que ficou conhecido como Primavera Árabe. Entretanto, as circunstâncias em que o ataque aconteceu afetam os valores culturais e históricos dos franceses: a comemoração no feriado da Queda da Bastilha, marco histórico da luta pela liberdade, igualdade e fraternidade, os grandes ideais iluministas.
Além da causa militar, outro motivo que fica evidente é o ataque aos valores defendidos pela cultura francesa, voltados para a defesa da democracia, para a laicidade e para a liberdade. Tais valores são opostos aos ideais islâmicos, notadamente os que o EI defende de forma radical. O que os fundamentalistas parecem pretender é a criação de uma mentalidade “islamofóbica”, que desencadeie um estado de instabilidade civil nas populações muçulmanas que já vivem na Europa, e não só em relação aos movimentos migratórios que atualmente acontecem.
Mas uma outra causa está por trás dessa onda de ataques terroristas na França, que é o colapso do capitalismo mundial. O sistema econômico criado, desenvolvido e mantido pelo Ocidente dá sinais evidentes de que entrou em declínio. Já não dá mais para se sustentar uma mentalidade que promove a concentração de renda por uns poucos (aquele 1%) e que explora todo restante relegando uma massa de gente a uma série de condições de desigualdade. Alguns teóricos, como o jornalista britânico Paul Mason, chegam a afirmar que já vivemos num período que podemos chamar de pós-capitalista. E, de fato, já se verifica no mundo um conjunto de práticas, ações e até de formas organizacionais que não se rendem mais à lógica de mercado, mas que também buscam alternativas para substituir o poder hegemônico da minoria que detém a riqueza e o controle de sua produção.
Há sinais históricos do colapso do capitalismo, tais como: a queda do muro de Berlim em 1989, a crise da Bolsa de Nova Iorque em 2008 e o fenômeno recente do “Brexit” na Inglaterra. Há sinais históricos do fracasso da política das grandes potências: o ataque às torres gêmeas 11 de setembro de 2001, a Guerra do Iraque que começou em 2003 e crise de migração no mediterrâneo que preocupa o mundo desde o seu auge em 2015. Há sinais históricos de que o mundo está perdido: o agravamento da questão climática, o fortalecimento da extrema direita e os atentados terroristas na Europa, não só na França.
Um porta-voz do Estado Islâmico disse em setembro de 2014: “Bata com uma pedra na cabeça, ou mate com uma faca, ou atropele com seu carro, ou empurre de um lugar alto, ou asfixie, ou envenene [todos os descrentes ocidentais]. Especialmente, os sujos e desprezíveis franceses”. Este não é apenas um chamamento ao ódio e à vingança, embora esteja muito claro na fala de um jihadista. Porém, o implícito está ligado a tudo o que o Ocidente construiu, que é um regime de exploração – que beneficia uma oligarquia formada por banqueiros e grandes empresários – sustentado por estruturas políticas resultantes de uma democracia representativa que favorece a manutenção desse mesmo regime de exploração. A França é um símbolo dessa lógica predominante no Ocidente. A gente aqui no Brasil não pode se esquecer que não só somos um produto do Ocidente, mas que também somos ocidentais em nossa formação cultural.
(Charge de Warren Brown para o jornal britânico The Daily Telegraph, em novembro de 2015, reproduzido pelo site do Uol Notícias).

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Migração e sobrevivência: a nova face da mobilidade humana / Migration and survival / La migración y la supervivencia

Duas fotos me chamaram a atenção hoje. A primeira retrata um grupo de pessoas mortas no mar, provavelmente vítimas de um naufrágio. Não sei se é montagem ou real. O fato é que, se a foto for verdadeira, refere-se provavelmente a corpos de pessoas oriundas do norte da África, Síria ou Iraque, que se arriscam na travessia do mar Mediterrâneo, em direção à Europa, fugindo da guerra em busca de sobrevivência. Curiosamente, os corpos formam um círculo no meio da imensidão azul, lembrando a bandeira europeia.
A outra foto mostra uma criança morta numa praia da Turquia, trazida pelas ondas. Trata-se de um dos quadros mais terríveis, que expõe a tragédia humana das migrações contemporâneas. Quando crianças são expostas a situações de riscos, é sinal que estamos diante de uma busca desesperada por sobrevivência.
Movimentos migratórios sempre existiram. A ocupação das regiões e dos territórios sempre foi marcada pelos deslocamentos de grupos étnicos e até de civilizações inteiras. O que sempre motivou tais movimentos é a busca de novas condições de vida. Entretanto, a nova face da mobilidade humana envolve a fuga desesperada das condições que ameaçam a sobrevivência. Portanto, não são só migrantes. São refugiados.
Os principais destinos dos movimentos migratórios contemporâneos têm sido os Estados Unidos e a Europa. Até mesmo o Brasil tem recebido grupos que se deslocam de seus países em busca de melhores condições de vida. Por aqui, são povos andinos, africanos e até haitianos que chegam aos grandes centros urbanos em busca de um novo começo.
Porém, a Europa vive mais recentemente um problema que difere de tudo o que já se viu: o grande número de pessoas que fogem das regiões dominadas pelos regimes opressores e fundamentalistas que ameaçam a sua sobrevivência. São pessoas que têm que fazer a dura escolha entre ficar e morrer ou arriscar-se numa viagem desesperada e, quem sabe, sobreviver.
Nesse percurso, enfrentam “coiotes” que oferecem situações precárias de viagem em embarcações e até caminhões frigoríficos a custos altos, esbarram em bloqueios nas fronteiras e ainda recebem o ódio e o preconceito por onde passam. Não sei o que é mais trágico: se a realidade humana da opressão e da guerra que provoca o fluxo migratório atual ou se as manifestações de rejeição e os casos extremos de xenofobia.
Estamos diante de uma tragédia humana. Quando se ouve falar de gente que chega à Europa em situação precária, em levas com companheiros abandonados e morrendo pelo caminho afogados, asfixiados ou queimados, é preciso lembrar que se trata de seres humanos. São pessoas com suas histórias e com seu passado. Não são “invasores”, são seres humanos pertencentes a uma cultura, com seus valores, crenças, linguagem e costumes, que ainda enfrentarão a dura realidade de começar tudo de novo num outro contexto.
Segundo o Alto Comissariado da ONU para Refugiados, só em 2014 cerca de 219 mil pessoas chegaram à Europa nessas condições e, neste ano, mais de 300 mil estão nas mesmas condições. Se levarmos em consideração que, nos 4 anos de guerra na Síria, mais de 215 mil pessoas morreram, estamos diante de uma verdadeira catástrofe.
A crise migratória é uma crise humanitária. Os migrantes que saem do norte da África e do Oriente Médio não o fazem por uma vontade, mas oprimidos pelos conflitos sangrentos, pela fome e pela miséria. Em função disso, podemos imaginar que é uma crise que ainda vai durar por muito tempo. A indiferença dos governos mundiais em relação à causa dos problemas que geram a migração demonstra que a solução está longe de ser encontrada.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Liberdade de expressão sob ameaça: reflexão a partir do ataque a Charlie Hebdo / Freedom of expression under attack: “Je Suis Charlie” / Libertad de expresión amenazada

O 7 de janeiro vai ficar marcado como mais uma data divisora neste começo de século XXI. O terror vai impondo a nós uma agenda em que o calendário vai se enchendo de datas que nos fazem chorar por causa da intolerância. Tal como o 11 de setembro, que atentou contra os símbolos econômicos e políticos do ocidente, agora o que está em questão é a liberdade de expressão, cara conquista da cultura ocidental.
Quando a liberdade de imprensa é atacada, estamos todos vulneráveis. O atentado contra a equipe da revista Charlie Hebdo foi um golpe contra a liberdade de expressão, um ato de intolerância, uma violência contra a democracia, além de ser uma grande perda para imprensa internacional, uma vez que ceifou a vida de seus principais articulistas.
Alguém pode argumentar que o jornal pecou pela irreverência, exagerou na dose com seu humor ácido. Nada justifica tal atrocidade, que, pelo requinte de crueldade e eficiência, foi sucintamente planejada e friamente realizada. Duas realidades estão em questão nisso tudo: primeira, o quanto estamos vulneráveis quando o assunto é respeito à liberdade e aos direitos individuais; a segunda é que este atentado na França é uma prova do que pode fazer uma espiritualidade sem compromisso com a humanidade.
Se uma ideologia, sentimento religioso ou mesmo uma convicção política é capaz de atacar a imprensa, que tem a arte e a palavra como defesa, o que fará de nós, mortais, que pensamos diferente? O conceito de liberdade, engendrado pelo liberalismo moderno, vai aos poucos sendo colocado sob ameaça. Essa tal noção, além de ser uma abstração, está longe de ser um direito desfrutado pela maioria. Dá a entender que liberdade como um bem comum será sempre um estado de permanente confrontação.
Além do mais, a ideia agir de tal modo para vingar um deus ofendido parece algo surreal, que nem mesmo nas histórias medievais mais espúrias daria para ser imaginada. Afinal, um Deus que precisa de quem o defenda ou de advogados é um deus fraco. O Deus vivo e verdadeiro é aquele que se deixa morrer pela ignorância dos homens, e não aquele que precisa ter sua ira aplacada por causa de ofensas, principalmente pela ação intolerante, sem compaixão, revoltada e violenta de quem o diz seguir.
Uma religião que não desenvolve nos seus seguidores a capacidade de autocrítica e que não permite rir de si mesmo é uma religião desprezível, desumana, risível e esquizofrênica. Seja ela qual for. Vale para fundamentalistas que há em todas elas. Vale também para a cultura. Ao que tudo indica, um mundo que se secularizou tanto, perdeu a capacidade de rir de si mesmo, de enxergar suas próprias incoerências. Um mundo tão sério assim é incapaz de pensar outros caminhos possíveis. Nesse mundo sem imaginação, fazer humor tornou-se uma atividade de risco.

sexta-feira, 28 de março de 2014

50 anos da ditadura militar: lembrar para não repetir / 50 years of the dictatorship / 50 años de la dictadura militar

Há 50 anos, em 31 de março de 1964, o Brasil experimentou um movimento histórico que consolidou o golpe que depôs o então presidente João Goulart e implantou a intervenção militar no governo federal. Durante 21 anos, a partir do golpe, o país viveu sob um governo com plenos poderes e práticas próprias de um regime ditatorial. Não há como negar, esse fato entrou para a nossa história como o período da ditadura militar marcado pela censura, pela cerceamento à liberdade de expressão, pela cassação de direitos políticos e pela repressão aos movimentos de reação.
O golpe militar foi resultado de uma compreensão equivocada, por parte das forças conservadoras que sempre atuaram no Brasil, a respeito da ação dos movimentos de esquerda que influenciavam o governo federal à época. Além disso, havia o temor, por parte do governo norte-americano, de um avanço do comunismo na América Latina, que marcou todo o período da guerra fria. A elite conservadora e o patrocínio dos EUA possibilitaram o golpe.
Durante o período da ditadura, aconteceram ações de repressão por parte do Estado, com práticas arbitrárias de prisão, tortura e extermínio daqueles que se manifestavam contrários aos rumos políticos. Ao mesmo tempo, o regime ditatorial procurou imprimir um progresso tecnológico e econômico à custa de arrocho salarial e aumento da desigualdade social, bem como o aumento do endividamento externo e da inflação.
Através do uso dos meios de comunicação e a propaganda ideológica a favor do liberalismo econômico e do anticomunismo – práticas discursivas que perduram até hoje – as forças conservadoras permitiram que o país vivesse um regime de exceção que cometeu diversas arbitrariedades em nome da democracia que só agora são esclarecidas pela Comissão da Verdade.
O Brasil, desde a implantação da República em 1889, ainda não viveu um tempo de democracia plena, uma vez que os sistemas políticos sempre estiveram voltados para a satisfação dos interesses das elites conservadoras. E mesmo hoje não a experimentamos. É possível dizer que estamos aprendendo lentamente o gosto pela democracia e pela liberdade de expressão. As grandes reformas políticas que precisam ser implementadas ainda são esperadas.
O fim da ditadura militar não significou o fim da opressão e da desigualdade. Ainda soa como ameaça a frase do discurso de Jarbas Passarinho, que chegou a ser ministro da educação, no congresso: “Às favas todos os escrúpulos de consciência”. O processo de abertura ampla geral e irrestrita ainda não se deu de forma plena. Há no ar uma constante suspeita de intervenção nas instituições com fins moralizadores por parte do conservadorismo reinante.
Relembrar esses episódios tristes de nossa história nos ajuda a buscar uma atitude mais consciente em relação à nossa participação política de tal maneira que essa tendência golpista não consiga prosperar. Para mim, espiritualidade é também estar comprometido com uma ação coerente em favor de ações concretas pelas mudanças políticas. A democracia não é um sistema perfeito, exatamente porque depende da justiça, da liberdade e do fim da desigualdade. Não há como haver democracia enquanto houver estruturas que promovem injustiça, opressão e exploração do outro.
Em relação aos 50 anos da ditadura, não há o que comemorar, mas há que se lembrar dela a fim de que não se repita.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Justiça silenciada: morte de juíza em Niterói é o limite do tolerável / Justice silenced / Justicia silenciada

Quando a violência atinge aqueles que lutam pela justiça, é sinal que já se ultrapassou o limite do tolerável. É hora de gritar por socorro e clamar pelo fim de toda impunidade. Como pastor na região oceânica de Niterói, especificamente na localidade de Piratininga, não posso me calar diante da morte da juíza Patrícia Acioli, em frente a sua própria casa, na noite de 11 de agosto de 2011.
Por que isso nos inquieta? Porque é um crime hediondo, que atinge uma representante do poder que tem a função de promover a justiça e a dignidade das pessoas. Porque é um crime brutal e cruel, que ceifa a vida de uma mulher, mãe e profissional com 21 tiros, na porta de sua residência. Porque é um crime que amordaça a justiça, uma vez que é atribuído ao crime organizado que se articula como um poder paralelo. Porque é um crime que atinge a todos nós, pois ameaça o exercício legítimo do poder em defesa da sociedade.
Quando em 1992 a máfia itáliana matou o juiz Falconi e depois o promotor Boselino pelos mesmos motivos atribuídos ao atentado contra Patrícia Acioli, houve uma forte comoção popular que culminou na destabilização do governo italiano. O caso foi visto à época como um atentado contra a dignidade humana e ao Estado Democrático de Direito. Não foi visto como um crime comum, mas como uma ação desumana, com repercussões em todo o mundo.
O Estado não pode silenciar-se quanto a isso. Quando falo de Estado, não me refiro ao Rio de Janeiro, que já se mostrou incapaz e insuficiente para dar conta dessa guerra. O crime organizado a quem se atribui tal covardia inclui policiais e membros do poder público envolvidos com práticas de abuso, ações de milícia e tráfico de influência e de entorpecentes. Estou falando de Brasil, que precisa garantir a nós brasileiros, através de seus poderes constituídos, o direito ao exercício da legalidade e dos princípios que a Constituição estabelece como sociedade organizada.
Na Itália, o nome dos juristas mortos é lembrado em monumentos para ficar registrada a memória de quem lutou pelo bem comum. Entre nós, a morte de Patrícia Acioli não pode representar uma mordaça na justiça, mas o começo de uma mudança radical que termine de vez com a impunidade.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Tiros em Realengo: o atentado contra crianças no Rio de Janeiro e as incertezas / Bowling for Realengo / atentado y inseguridad

A manhã do dia 7 de abril de 2011 vai ficar marcada na memória da cidade do Rio de Janeiro. É uma data para não ser esquecida. O lugar que deveria servir como espaço para a construção do futuro e para se vivenciar a esperança de melhoria de vida foi transformado no cenário de um acontecimento patético que levará muito tempo para sequer entendermos. Não podemos evitar de associar esse fato aos assassinatos provocados por francoatiradores nos Estados Unidos da América, perpetuado no conhecido documentário Tiros em Columbine, de Michael Moore. Mas a diferença é conjuntural: o atentado carioca envolve uma comunidade pobre do subúrbio e um jovem marcado por perdas e uma vida destituída dos mesmos elementos culturais. O problema não passa tão somente pelo consumo de armas, nem mesmo pelo caso de bullying. Acho também que não se está a procura de culpados. O agente dessa chacina está morto. Entendo que estamos diante de um quadro que é ao mesmo tempo aterrador e resultado desse momento que vivemos, uma combinação explosiva de circunstâncias. Alguns elementos não podem escapar de nossa atenção. O primeiro deles tem a ver com a crescente banalização do mal, que estimula a indiferença e nos empurra para um isolamento social e a perda do sentido de comunhão, que faz com que a vida do outro não tenha valor a não ser para dar vazão ao que eu sinto. Outro elemento é o fenômeno dos relacionamentos fugazes, fluidos, transitórios e fragmentados, a supervalorização do agora e do instante vivido, que não finca raízes, nem produz história. Há também o problema do fundamentalismo (seja de que religião ou ideologia for) como alternativa a esse mundo de incertezas, que afirma a necessidade de uma saída que garanta a verdade e a purificação numa perspectiva totalmente sem ética e sem sentido. O efeito da globalização bem como o surgimento da sociedade virtual e midiática tem produzido uma mentalidade que cria um mundo irreal, fundado em modelos que estão presentes nos videogames e sites de relacionamento. Some-se a isso uma personalidade psicopata e sociopata, então se tem uma bomba relógio prestes a explodir de forma imprevisível, cujas vítimas são os mais inocentes. Não. Essa não é a primeira vez que isso acontece no Brasil. Ou será que esquecemos o caso da escola de São Paulo, em 2003, e do Shopping Morumbi, em 1999? E o que falar da Candelária, em 1993, e de Vigário Geral, naquele mesmo ano? Está claro que a intenção do assassino era de chocar e chamar a atenção sobre si. Isso é típico do perfil de todos os assassinos nessa modalidade. Ele premeditou tudo para ter, de forma macabra, o seu instante de fama. Poderia ter proporções maiores, não fosse o policial que o interceptou. A dor que essas famílias sentem e a perda de meninos e meninas de 12 a 14 anos de idade não podem ser consolados com uma explicação dessa. Isso pode até nos ajudar a entender um pouco esse mundo que geme, mas não apaga a marca que fica. Não há como enxugar lágrimas nessa hora. O momento é de choro copioso, sentido, que se transforme em grito de socorro a fim de que outras vidas sejam poupadas, principalmente de crianças... Porque essa doeu demais! O que nos consola é saber que há um Deus que se importa, exatamente porque ele percebe toda essa maldade e se oferece como caminho, por meio de Jesus Cristo, e nos acolhe como filhos que precisam de cuidado. É a ele que devemos orar: "livra-nos também desse mal".

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Cultura de paz e espiritualidade / Culture of peace and spirituality / Cultura de paz y espiritualidad

A noção de cultura de paz diz respeito a um conjunto de valores, atitudes e estilo de vida voltados para a manutenção da vida sem violência e harmoniosa entre as pessoas em qualquer cultura. Essa ideia foi definida em um documento da Onu em 1999 chamado Declaração e programa de ação sobre um cultura de paz. A ideia de uma cultura de paz se faz necessária por causa da cultura que se tornou vigente, que valoriza a dominação do outro, que impõe medo, subordinação e exploração.
O princípio está baseado na não violência e na promoção de ações por meio da educação, do diálogo e da cooperação, tendo em vista o respeito aos direitos humanos e às liberdades fundamentais, incluindo aí a noção de sustentabilidade, de tolerância, de igualdade de condições e oportunidades, de liberdade de expressão, opinião e informação.
No livro, que virou filme, Ensaio sobre a cegueira, José Saramago tenta mostrar como essa cultura dominante toma forma quando se está em situações extremas. Seria possível controlar a violência? Freud usa a metáfora de um moinho para explicar isso. Ele diz que quando a fome chega, o esfomeado vê o moinho e imagina que pode morrer antes que a farinha chegue. E é isso que o leva a atitudes inusitadas.
Mas não só isso. Se percebermos, por trás da violência estão algumas formas que compõem a nossa realidade. A primeira dessas estruturas tem a ver com o caos. A teoria da evolução inclui a violência em todos os seus aspectos: a lei da preservação da espécie. A segunda são as estruturas de dominação. Os meios de produção, o controle do capital e as relações familiares estão marcados por mecanismos de violência. A terceira é a guerra. A lógica da guerra substitui a cooperação pela competência, o que gera desigualdades, injustiças e mais violência.
Isso comporta duas questões que quero levantar aqui: onde buscar uma diretriz para promover uma cultura de paz que possa fazer sentido para este tempo? O que pode realmente motivar a promoção e despertar iniciativas de uma cultura de paz de fato?
Muitas ONGs têm procurado realizar atividades e manifestações que despertem a sociedade para o problema. Uma delas é Rio de Paz, liderada pelo pastor presbiteriano Antonio Carlos Costa, cujas instalações e manifestações têm chamado a atenção da mídia no que diz respeito à violência. Esse é um modo de enfrentar o problema.
Jesus deixou claro em seus ensinos que estava preocupado com a maneira como os homens construíam seus relacionamentos e sua visão de mundo. Por isso, ele disse: “Tenho-vos dito isto, para que em mim tenhais paz; no mundo tereis aflições, mas tende bom ânimo, eu venci o mundo.” João 16.33 (NVI).
É nessa perspectiva do desejo de Jesus que gostaria de buscar motivação para que possamos nos comprometer com uma cultura de paz nos moldes do que a Bíblia tem a nos ensinar. Isso significa um resgate dos valores que Deus estabeleceu em sua Palavra para a vida feliz do homem na Terra. Valores esses que Jesus afirmou e que veio para cumprir a fim de se tornar o Cordeiro perfeito para resgatar o homem de sua condição de perdido.
Gostaria de sugerir as mudanças necessárias para que uma cultura de paz segundo a vontade de Deus possa ter lugar entre nós. A primeira delas é a mudança de mentalidade. A lógica que rege a cultura ocidental, afirmada a partir da Modernidade, é baseada em três princípios: a autonomia do sujeito – o que leva ao engano de acharmos que temos todas as respostas; a afirmação do homem como o centro – o que leva ao engano de acharmos que não precisamos mais de Deus para viver; a autoridade da ciência – o que leva ao engano de achar que a verdade é evidente, desprezando o valor da fé. A Bíblia nos diz: “Tenham entre vocês o mesmo modo de pensar que Cristo Jesus tinha.” Filipenses 2.5 (NTLH).
A segunda atitude é a mudança de ações. A pergunta feita hoje é: quais as atitudes necessárias para uma vida mais feliz? Chegou a hora de mudanças radicais no modo de agir. Troque a ganância pela generosidade. Troque o orgulho pela humildade. Troque o individualismo pela santidade. Siga o conselho bíblico: “Não se amoldem ao padrão deste mundo, mas transformem-se pela renovação da sua mente, para que sejam capazes de experimentar e comprovar a boa, agradável e perfeita vontade de Deus.” Romanos 12.2 (NVI).
A terceira atitude é a mudança de paradigma. As mudanças que o mundo precisa experimentar não são estruturais, mas conjunturais. A única maneira de superar toda a violência é por meio da graça. “Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus.” Efésios 2.8 (NVI). O Senhor que nos inspira a essas atitudes disse: “Deixo com vocês a paz. É a minha paz que eu lhes dou; não lhes dou a paz como o mundo a dá. Não fiquem aflitos, nem tenham medo.” João 14.27 (NTLH).

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Dimensão espiritual da violência / Spiritual dynamics of violence / La dinámica espiritual de la violencia

Começo a segunda-feira com a notícia trágica da morte do professor Almir, que teve sua vida interrompida pela violência. Não quero estabelecer juízo sobre a ação de quem atuou como franco-atirador. Mas preciso entender como que nos permitimos como sociedade construir quadros como esse e que nos deixam perplexos diante do drama humano. Para isso, quero adotar aqui alguns conceitos do livro A violência e o sagrado, de René Girard (publicado no Brasil pela Editora da Unesp e Paz e Terra), que desenvolve um modo de compreender que a vítima da violência hoje tem as mesmas características dos atos sacrificiais primitivos.
Para Girard, a violência está fundamentada no caráter mimético do desejo, em que um sujeito estabelece uma relação assimétrica de discípulo e modelo com outro sujeito, de tal modo que um deseja imitar o outro e, diante da impossibilidade de o fazer, o vê como um rival. O sentido dos sacrifícios nas sociedades primitivas era fundado nessa concepção. A própria palavra sacrifício significa tornar-se sagrado. Diante de uma situação de crise, é necessário encontrar uma vítima, personificado em idéias como de um bode expiatório, que absorva todo o mal enfrentado pelo grupo e que passe ser a fonte de realização para o grupo que o vitima. Essa experiência é fundadora de uma dimensão sagrada da violência e que se constitui também como fundadora de cultura.
A violência que ameaça a sociedade é transferida para uma vítima. Essa é uma solução pacificadora que racionaliza e equaciona o problema da violência. Em lugar da violência de um contra o outro, adota-se a violência de todos contra um como efeito preventivo. Desse modo, a vítima escolhida não tem o direito de vingar-se exatamente porque vive à margem da sociedade. Por isso, deve ser eliminada. E aí que se estabelece a distinção entre o mesmo e o outro, a base da diferenciação. O grande problema está no risco da indiferença, quando não se consegue identificar a vítima para se transferir a culpa.
É dentro da esfera da indiferença que está a violência generalizada, que cada vez mais se instala na sociedade contemporânea. As pessoas hoje precisam encontrar culpados pelos seus fracassos, de tal modo que a ação de franco-atiradores tem se constituído em uma paranóia desse tempo. É o mesmo problema que constitui o poder paralelo do tráfico e do crime organizado, através dos “tribunais” que julgam os traidores e os condenam ao extermínio.
Mas também está a banalização do mal, aquilo que Hanna Arendt se referiu a Eichmann, quando de seu julgamento pelos crimes praticados em nome do nazismo: um homem horrivelmente comum e normal, que era capaz de cumprir ordens, mas não conseguia estabelecer uma diferença entre bem e mal, incapaz de pensar por si mesmo. Essa atitude faz parte da complexidade da condição humana e emerge quando se compactua com o sofrimento, a tortura e a própria prática do mal como parte de nossa rotina, quando os fatos violentos já não nos chocam mais, a menos que se tornem hediondos.
Diante das muitas formas que a face da violência se apresenta, surge a pergunta: de que forma podemos lidar espiritualmente com o problema da violência? Cabe, então, a afirmação de Martin Luther King: “Hoje não temos mais a opção entre violência e não-violência. É somente a escolha entre não-violência ou não-existência.”

segunda-feira, 9 de março de 2009

Excomunhão, aborto e violência / Excommunication, abortion and violence / Excomunión, el aborto y la violencia

O recente caso envolvendo aborto que tomou conta da mídia apontam vários caminhos para a discussão a respeito da maneira como construímos a nossa relação com a realidade. O fato, porém, ficou polarizado em suas duas extremidades: de um lado, um crime hediondo em que uma menina de nove anos é abusada sexualmente pelo seu padrasto; de outro, a decisão do bispo católico em excomungar todos os envolvidos no aborto dos fetos gêmeos resultantes do abuso sexual.
À primeira vista, temos um quadro que representa o drama humano. Logo de início, somos lembrados que convivemos com pessoas que desenvolvem comportamentos que nos agridem. A pedofilia é um desses comportamentos inaceitáveis porque nos chamam a atenção para o quanto somos vulneráveis, somos violentados como pessoas, e isso nos remete à nossa fragilidade, indefesos que somos diante da opressão dos mais fortes.
Mas somos lembrados também que vivemos em uma sociedade de regras e normas, orientados por autoridades que são regidas por uma lógica linear, que determina que suas decisões sejam cumpridas como resultantes de uma relação hierárquica, sem direito de questionar. A excomunhão é a expressão de um poder que vai além do humano, que arvora o direito de abrir e fechar as portas que nos apontam para aquilo que pode nos tornar livres e nos trazer de volta para o que fomos criados para ser.
Mas o problema é muito maior do que esse. O caso da pedofilia nos lembra também que há milhões de outros meninos e meninas que vivem oprimidos por pessoas que não reconhecem a dignidade humana na vida de uma criança. São oprimidos porque estão relegados ao trabalho infantil, ao mundo do tráfico, à prostituição, à privação ao seu direito mais emergente: o direito de existir.
O caso da excomunhão nos lembra ainda que há uma sociedade construída sobre um equívoco, que constrói uma idéia de mundo em duas esferas, a do sagrado e a do profano. Só que a dimensão do sagrado mudou de ares, não está mais sob o domínio de uma instituição ou de uma formulação teológica. O sagrado tem mais a ver com aquilo que nos estimula a seguir adiante na construção de um mundo mais justo. A humanidade aprendeu a não mais dar ouvidos a uma orientação que a distancie de seus anseios. Mas que ainda se recente de uma voz que lhe aponte o caminho, por isso que essa excomunhão lhe soa tão estranha.
O crime da pedofilia é hediondo. A excomunhão motivada por um aborto praticado dentro das normas jurídicas do país é um equívoco. Mas, e daí? Continuamos indefesos, vendo nossas crianças e os desvalidos sem quem lhes garanta a dignidade, continuamos desorientados sem uma voz que nos guie no caminho que precisamos trilhar para reencontrarmos a nós mesmos.
Diante disso, posso imaginar Jesus Cristo ainda numa esquina qualquer da cidade olhando as pessoas passarem de um lado para o outro. De vez em quando se deparam com a triste notícia, resmungam alguma coisa e continuam em sua caminhada. Diz a Bíblia que Jesus, “ao ver as multidões, teve compaixão delas, porque estavam aflitas e desamparadas, como ovelhas sem pastor.” Mateus 9.36.

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

Para não deixar de falar de oração

Ia escrever sobre oração. Mas fui dormir esta noite com as últimas imagens da violência no Rio. Um verdadeiro filme de guerra mostrando a ação da polícia na favela da Coréia. Acordei cedo e as imagens nos primeiros noticiários ainda chocavam. O saldo de 12 mortos é constrangedor. Alguém dirá: mas foram 10 bandidos, um policial e uma criança.
Não tem saldo positivo.
Sei que esse confronto é inevitável. O tráfico cria um poder paralelo que tenta instaurar uma nova ordem na sociedade. Essa nova ordem aí está de forma velada e que dá suporte ao tráfico. É uma ingenuidade pensar que aqueles meninos alvejados no meio do mato são os grandes responsáveis pelo tráfico. A ação dos bandidos é ostensiva, sistemática e se organiza a cada dia.
A tentativa de se ter uma nova ordem é porque a ordem atual está corrompida, comprometida com uma série sem fim de vícios historicamente construídos. Vai desde uma estrutura de poder centrado em si mesmo até as atitudes particulares de ver sempre a ordem como que para prejudicar, própria para ser burlada.
E assim vamos. Sei que muito mais a gente ainda vai ver. Mas está chegando a um ponto de saturação tal que exige uma tomada de decisão urgente. Essa decisão não passa por nenhuma instituição da sociedade. Acredito que essa decisão está num plano mais acima, no plano da espiritualidade, que demanda uma atitude pessoal comprometida com o todo.
Somente um grande despertamento espiritual, que caminha na direção do outro, pode apontar caminhos para uma sociedade mais justa e mais igual.
Pode ser que seja só utopia, mas acredito nisso. Por isso eu oro a oração de Habacuque: "Aviva, Senhor, a tua obra no meio dos anos".

terça-feira, 25 de setembro de 2007

Resultado da última enquete: Violência e Espiritualidade


A nossa última enquete tratava da relação da violência/espiritualidade e a maioria esmagadora concordou que a disseminação da violência está ligada a fatores espirituais. Embora a gente saiba que existem vários fatores que causam a violência , a gente não pode negar que a questão espiritual ou o modo como desenvolvemos a nossa espiritualidade afeta a nossa atitude. O problema é que não estamos acostumados a ver a espiritualidade como caminho para a solução de qualquer problema. O apelo imediato para a solução do problema da violência aponta para intolerância (ou "tolerância zero"), mas a espiritualidade aponta para um exame de si mesmo. Aí podemos descobrir que a causa da violência não está no outro, mas nos valores que adotamos como válidos para a construção de nossa identidade. Eu sei que isso dá um bocado de questionamentos. Vamos tratar disso numa outra hora. Continue participando de nossas enquetes. É um bom começo de conversa.

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