quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

A paz interior é possível? / Inner peace is possible? / ¿La paz interior es posible?

Certa vez me contaram uma interessante história. Num determinado lugar aconteceu um concurso de pintura que premiaria o quadro que melhor retratasse o tema “Paz”. Apresentaram-se muitos artistas talentosos. Um representou a paz pintando um cemitério onde nada havia que atrapalhasse a calma da paisagem. Outro pintou uma enseada onde o vento não aparecia e a água era um grande espelho refletindo o céu totalmente azul. Um terceiro pintou um gramado muito verde onde se viam aqui e ali singelas violetas. Mas nenhuma dessas pinturas, apesar de tão bonitas, ganhou o prêmio. Venceu o quadro no qual se via frondosa árvore à beira de um penhasco, sacudida por terrível tempestade. Num dos galhos mais altos e retorcidos, havia um pequeno ninho, e dentro dormiam calmamente dois pequenos passarinhos.
Jesus afirmou que seu discurso tinha como objetivo fazer com que seus ouvintes encontrassem a paz. Isso, porém, não era uma garantia de ficar livre de aflições. Ele mesmo enfrentou muita luta, chegou a sentir agonia pela proximidade de sua morte. Contudo, ele mesmo disse que foi um vencedor.
Ao contrário do que se tem dito, a paz não é necessariamente ausência de conflito. A Bíblia nos mostra que é possível experimentar a paz apesar das lutas que temos enfrentado. Muitos têm chamado isso de paz interior, um estado de equilibro, livre dos efeitos do estresse e das pressões do dia a dia. É um estado mental em que se toma consciência dos conflitos, uma vez que eles são contingentes. É o mesmo que serenidade, calma, tranquilidade. O oposto disso é ansiedade e estresse. Existe, inclusive, uma série de guias de autoajuda e de exercícios para orientar a busca desse estado de equilíbrio, fundamental para viver nos dias de hoje.
Jesus nos mostrou em seu ensino que a paz é resultado de um relacionamento profundo com Deus e que isso só é conquistado através de uma vida de identidade com ele. Afinal, ele é mencionado na Bíblia como o príncipe da paz e é ele quem tem a paz para nos dar: “Deixo-lhes a paz; a minha paz lhes dou.” João 14.27.
A Bíblia diz que os que amam a Palavra de Deus “desfrutam paz, e nada há que os faça tropeçar.” Salmos 119.165. Ela diz também que não dá para viver em paz vivendo longe dos propósitos de Deus: “‘Não há paz alguma para os ímpios’, diz o Senhor.” Isaías 48.22. Inclusive, o sentido da palavra hebraica shalom tem a ver com a relação necessária entre Deus e o homem. Significa estar bem e inteiro para com Deus. Por isso, a palavra era usada como uma saudação, como sinal de desejo para que o outro esteja bem em tudo na vida.
Para que se tenha a paz de forma integral – ou para que a gente esteja bem – é preciso que ela seja concedida por Deus. O profeta afirma: “Tu guardarás em perfeita paz aquele cujo propósito está firme, porque em ti confia.” Isaías 26.3.
A paz que nós desejamos é a paz do Senhor. Tudo começa em Deus. É nele que encontramos sentido para a nossa existência. É isso que deseja Paulo para os cristãos: “Não andem ansiosos por coisa alguma, mas em tudo, pela oração e súplicas, e com ação de graças, apresentem seus pedidos a Deus. E a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará os seus corações e as suas mentes em Cristo Jesus.” Filipenses 4.6-7.
Com essa mesma expressão, desejo muita paz para você, a paz do Senhor. Que você esteja realmente bem, com sua vida firmada nos propósitos de Deus. Um feliz 2011 de paz para você!

domingo, 26 de dezembro de 2010

Retrospectiva 2010: o ano dos pequenos começos / Retrospective 2010: the year of small beginnings / Retrospectiva 2010: el año de pequeños comienzos

Como foi o ano de 2010 para você? Para mim, foi um ano de muitos desafios, quando grandes decisões afetaram diretamente minha vida. Apesar de serem grandes, a superação dos desafios foi marcada por pequenos começos. Sei que é apenas o começo, que as sementes estão sendo plantadas, que tudo o que tem acontecido faz parte de um plano maior de Deus que não pode ser desprezado.
Um desses desafios foi o projeto de plantação de igreja na região oceânica de Niterói. Hoje já podemos falar de uma igreja em pleno funcionamento, que tem recebido o nome de Igreja Batista da Orla Oceânica. É claro que tem demandado um esforço enorme, que tem envolvido gente, que tem alcançado pessoas. Mas é só o começo. Um começo que tem valido à pena cada momento.
Uso isso como exemplo de que os grandes sonhos de Deus para a nossa vida são também assim. Creio mesmo que Deus tem grandes sonhos para nós, que envolvem pequenos começos. É preciso aprender a ser perseverante desde o começo, a ser fiel no pouco. Isso envolve saber lançar a rede, plantar a semente, fundar os alicerces. Tudo tem um começo, e é sempre pequeno.
Compartilho com você um pouco do que aconteceu. Assista ao vídeo e glorifique a Deus conosco. Ore por nós e venha nos conhecer. Tome parte dessa história. Um dia a gente vai olhar para trás e verificar que valeu a caminhada.




O ano dos pequenos começos
Enviado por Irenio. - Vídeos de amigos e familiares do mundo inteiro.

domingo, 19 de dezembro de 2010

Natal: o mistério da encarnação / Christmas: the mystery of the incarnation / Navidad: el misterio de la encarnación

O grande mistério do Natal é o fato de que, em Cristo, a realidade de Deus encontra-se com a realidade do mundo. Nada se compara com a encarnação de Deus em Cristo. Talvez por isso mesmo não encontremos na Bíblia nenhuma recomendação para comemorar o nascimento de Jesus Cristo. Nenhum símbolo do Natal tem expressão se não for para remeter ao mistério desse encontro do divino com o humano, em que Deus se faz culpado e frágil, e nos reconciliou consigo.
O mistério do Natal é um convite e um chamado de Deus. Um convite para experimentar o amor que Deus tem por nós e um chamado para segui-lo. Talvez seja por isso que o Natal seja um tempo de uma sensibilidade espiritual muito grande, quando todos se dão conta de que precisam fazer alguma coisa para serem mais amáveis e solidários, para ser gente com mais dignidade.
Como um convite de amor, Deus escolhe proporcionar a seu Filho nascer entre os homens, viver a nossa vida, sentir a nossa dor, olhar nos nossos olhos e morrer a nossa morte. Para isso, Jesus nasceu como um sem-teto e morreu como um marginal. O significado disso é que, em meio às nossas exclusões, Jesus viveu da melhor maneira e se tornou o maior mestre de espiritualidade que a humanidade já conheceu. Deus mesmo, em Cristo, trilha a humilhante via da reconciliação do mundo consigo. Deus se fez humano, por amor ao humano e é em Jesus Cristo que aprendemos o sentido pleno do que é humanidade.
Como um chamado para segui-lo, Jesus aponta o caminho para a vida feliz e de realização pessoal, não só através dos seus ensinos, mas também pelo modo como viveu. O convite para segui-lo vai além da caminhada, significa tomar a forma de Cristo, ser um com ele. Ter a forma de Cristo significa ser humano de fato. Isso não quer dizer que o humano vira Deus, mas que Deus toma forma no humano para que este se apresente perante Deus como humano, sem as nossas máscaras, humanizado com o caráter de Cristo.
Natal é isso: encontro entre o divino e o humano. Mesmo a manjedoura é muito pouco para lembrar o significado do Natal. No tempo de Jesus não havia guirlandas, presépios, sinos, pinheirinhos , bolas, duendes ou papai noel. Essas coisas são nossas, nosso modo de nos relacionar uns com os outros. É legal trocar presentes, ter um tempo em família e com os amigos para compartilhar um banquete especial, ir à igreja para ouvir a antiga história que todo mundo já sabe quase que de cor. Mas Natal será de fato Natal se for transformado num tempo de encontro com Deus, de nos colocarmos diante dele do jeito que somos e tomarmos a decisão de assumirmos para nós o caráter daquele que é expressão do seu amor por nós.
Sendo assim, um Feliz Natal para você e para toda a humanidade.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Leitura da Bíblia e Espiritualidade / Reading the Bible and Spirituality / Leer la Biblia y la espiritualidad

O estudo e a leitura da Bíblia devem ser considerados como desencadeadores de uma espiritualidade que possa fazer sentido para hoje. A tradição protestante já se deu conta disso há mais tempo. Porém, apesar dos 500 anos de evangelização católica na América Latina, um esforço de popularização da leitura da Bíblia só aconteceu com o estímulo do Concílio Vaticano II, a partir da década de 1960, e o surgimento das comunidades eclesiais de base, na década de 1970. Só posteriormente que se passou ao estudo nas paróquias e dioceses, independentemente das liturgias dominicais, com o aumento do desejo das pessoas de conhecer e entender melhor a Bíblia. Essa iniciativa se espalhou rapidamente nas diversas regiões do Brasil e da América Latina, sempre tentando encontrar as relações entre a vida e a Palavra de Deus. Surgiu, então, um interesse crescente pela Bíblia, e muitos textos começaram a ser lidos e comentados pelo povo mais pobre, com a ajuda de agentes de pastoral preparados para isso.
O interesse era de tornar a compreensão dos textos escriturísticos mais próximos das camadas populares, desenvolvendo-se um método que acessível às pessoas mais simples. Carlos Mesters foi um dos autores que se tornou conhecido por desenvolver uma metodologia adequada a essa iniciativa. Mesters, nascido na Holanda, veio para o Brasil aos 17 anos (em 1949) junto com os carmelitas e desenvolveu seus estudos filosóficos e teológicos. Em 1978, fundou em Angra dos Reis o Centro de Estudos Bíblicos – CEBI, entidade que vem promovendo encontros, cursos, publicações e divulgação de subsídios destinados à pastoral bíblica, buscando ao mesmo tempo o aprofundamento do método exegético a partir dos pobres.
Com uma extensa obra, Mesters se destaca pela preocupação com um projeto de leitura global da Bíblia, como é o caso de Leitura Orante da Bíblia, publicado a partir de 1990, depois chamado de Tua Palavra é a Vida. Um itinerário pode ser traçado para o seu método: a) a elaboração de um diagnóstico sobre a falta de adequação entre a proposta dos representantes e agentes da igreja e a mentalidade religiosa popular; b) a escuta e observação atenta das pessoas das camadas populares com suas características e contribuições, com a constatação de uma fé, ainda que não alinhada com a ortodoxia, revelava uma ação do Espírito Santo; c) o desenvolvimento de uma atitude pessoal de aprendiz, fazendo-se “aluno da realidade” e “discípulo dos pobres”, do mesmo modo como antes aprendera a se fazer aluno dos bancos acadêmicos e discípulo da Bíblia e da igreja; d) a simplicidade na relação entre a Bíblia e a própria vida; e) ênfase no fato de que a leitura popular da Bíblia é essencialmente comunitária; f) emprego de um instrumental científico básico, que é o método histórico-crítico, que permite o acesso ao sentido literal e original do texto bíblico; g) a mudança na mentalidade dos pobres a partir da descoberta de que a Bíblia lhes é acessível e de que eles podem ser protagonistas na vivência do Evangelho; h) a fidelidade consciente ao magistério da igreja; i) e o alcance do objetivo principal da leitura, que é interpretar a vida com a ajuda da Bíblia.
O método é baseado em um triângulo, no qual o autor faz notar que há um pré-texto (realidade) e um contexto (comunidade de fé) que determinam o “lugar” de onde se lê e interpreta o texto. Desse lugar é que surge o “novo olhar” com que o povo lê a Bíblia hoje na América Latina. O novo sujeito hermenêutico são as pequenas comunidades de fé, que leem a Bíblia buscando uma resposta para sua vida e para o sofrimento cotidiano. Elas constituem o que ele chama de “contexto” em que a Bíblia é lida de tal maneira que faz soar a mensagem do Espírito para a igreja de hoje. O cristão atua como sujeito que lê as Escrituras, qualquer que seja o seu lugar social, cuja tendência é projetar sobre o texto não só a luz da fé, mas também aquela que vem da realidade na qual está inserido. É ele intérprete como sujeito histórico, com uma leitura condicionada por uma compreensão prévia, que surge do seu contexto vital, de pobreza e luta, conflito e esperança que o caracteriza. Faz com que se reconheçam em certos episódios e personagens bíblicos, tornando desta maneira o texto do passado algo vivo e interpelador ou estimulante no presente.
O método empregado por Mesters se assemelha à proposta “Ver – Julgar – Agir”, da Ação Católica, e retoma ao mesmo tempo os passos da Lectio Divina. Sua forma simples de aplicação nos círculos bíblicos, no entanto, vem despertando novas perspectivas, sobretudo com o avanço tecnológico e a globalização. Aspectos como os de gênero e que os que contemplam pessoas que sofrem discriminação são levados também em consideração nas propostas de leitura popular da Bíblia. Além disso, o crescente problema da violência nos contextos urbanos exige novas iniciativas de ler a Bíblia a partir do contexto vital.
Até mesmo a definição do que vem a ser pobre deve incluir não só os desprovidos de bens e serviços, mas também todos os pecadores e destituídos de esperança. O que se pode chamar de novo pobre é vítima de um sistema muitas vezes injusto e violento, dando margem a preconceitos e moralismos.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Como lidar com o dinheiro/ How to deal with the money? / ¿Cómo lidiar con el dinero?

A relação com o dinheiro é uma área que todos temos problemas. Ainda não aprendemos a melhor maneira de lidar com esse recurso que a sociedade desenvolveu para regular as relações econômicas entre as pessoas.
De um modo geral, o imaginário criou alguns personagens que tipificam bem a maneira como as pessoas se relacionam com o dinheiro: o avarento, o pródigo, o ganancioso, o aproveitador.
Isso acontece porque vivemos numa sociedade que substituiu os laços de afinidade antigos pelas relações impessoais. O dinheiro é o meio que estabelece novos vínculos entre as pessoas. Lidar com ele demanda uma nova inteligência, que ponha de lado a demonização da riqueza e do poder monetário que se estabeleceu desde o começo da Modernidade, para dar lugar a uma construção de relacionamentos em que o dinheiro possa ser considerado como ele realmente é: um medidor das diferenças qualitativas entre as coisas e as pessoas, como um agente libertador dos indivíduos da tutela do estado, da igreja, da família e da sociedade.
Assista ao vídeo que editei com imanges produzidas pela HistoryChannel para a série Os Sete Pecados Capitais, episódio A Avareza.


Avareza - Como lidar com o dinheiro
Enviado por Irenio. - Explore mais vídeos sobre vida em família.

sábado, 4 de dezembro de 2010

O cristianismo ainda é relevante? / Christianity still relevant? / ¿El cristianismo sigue siendo relevante?

A questão sobre a relevância do cristianismo para a sociedade contemporânea é uma tema pertinente, principalmente em se tratando da perda de significado da fé cristã para uma sociedade que aprendeu a viver sem Deus e a encontrar caminhos sem a ajuda da religião. Porém, essa não é uma questão bem resolvida para o mundo. Ainda está em aberto a pergunta pelo sentido e busca de significado para a vida. É nessa lacuna que se encontram três livros cujas leituras apontam uma linha de abordagem sobre a fé, que visa entender como a humanidade, sobretudo o Ocidente, chegou a esse estado de coisas.
O primeiro é o livro de Paul Veyne, Como o Ocidente se tornou cristão, que trata do início da cristandade – à época de Constantino – e suas implicações para a formação de uma relação de poder com a sociedade, mostrando, com isso, que a construção de uma estrutura e de uma institucionalização do cristianismo foi um fato histórico de grande relevância, resultante de um conjunto de fatores que acabaram por permitira a consolidação do cristianismo como religião. A pergunta que fica é: a cultura Ocidental tem raízes cristãs? A resposta é sim e não. A explicação está na conceituação de individualismo e universalismo. Nesse sentido, o cristianismo é uma religião de individualidade que está aberto ao universo. Por ser uma religião proselitista, o cristianismo foi engendrado a partir de uma paixão de seus primeiros seguidores e apóstolos pela pessoa de Jesus, de origem judaica, o que criou uma religião que deixou de ser étnica. O cristianismo não se constitui como um sistema político ou social, mas um modo de se compreender o sentido da vida que ainda subsiste numa Europa secularizada sob a forma de uma identidade cultural. As origens dessa mentalidade ocidental (e europeia) contemporânea está muito mais no surgimento da Modernidade (séculos XVII e XVIII) – com Espinosa e Kant – do que nas ideias de generosidade e benevolência trazidas pelo cristianismo. Na verdade, a religião cristã preparou o terreno para um mundo que foi secularizado, no qual a religião se constitui um dos fatores que interferem nas mudanças. Como diz o autor, não foi fruto de um germe, mas o resultado de uma epigênese.
O segundo é o livro de Jean Delumeau, que procura abordar o modo como o Ocidente perdeu a sua paixão pelo cristianismo, por causa de um discurso de culpabilização, centrado no pecado e no medo, que resultou em uma teologia que se tornou distanciada da graça. Em A história do medo no Ocidente, a investigação encadeada por Delumeau segue alguns caminhos bem definidos. O primeiro aborda os medos espontâneos, provocados pelas situações caóticas pelas quais a sociedade ocidental e europeia passava, como pestes, guerras e até o Grande Cisma, que podem ser classificados como permanentes e cíclicos. O segundo vai tratar dos medos causados pelas imposições da igreja, que veio a provocar um abalo em todas as formas de representação da época, em todas as camadas sociais, substituindo o estresse dos problemas por um medo teológico. O terceiro caminho que surge diz respeito aos modos como se encontrou saída para essa dominação, dado à capacidade humana de encontrar formas de superação, de correção de rumos e de reinvenção dos itinerários em função dos obstáculos encontrados.
Em O pecado e o medo – o terceiro livro –, Delumeau está preocupado com o modo como o medo se consumou no quadro do pessimismo europeu se caracterizou como um medo de si mesmo, com uma expressão voltada para o desprezo do mundo e a desvalorização do homem. Esse é um assunto que envolve a consciência cristã desde o século IV. A doutrina do desprezo do mundo (contemptus mundi) foi dominada pela concepção dualista que distingue corpo e alma, carne e espírito, terra e céu, multiplicidade e unidade, exterioridade e interioridade, tempo e eternidade, procurando estabelecer um vínculo entre a transitoriedade da vida e a necessidade de se aproveitar bem as oportunidades. O homem é visto como suscetível à desgraça e era necessário se fazer algo para que a vida ganhasse novo sentido, dentro dos limites de compreensão do prazer e do esvaziamento interior. As breves alegrias deste mundo apontam para sofrimentos eternos. Isso desperta um sentimento de que a vida terrena é um exílio e o melhor a se fazer é desenvolver o ideal monástico, marcado pelo ódio ao corpo e ao mundo, a evidência do pecado e a fuga do tempo.
O tema da fuga do mundo (fuga mundi) apontava para uma culpabilização e para uma ética que se destinava a uma vida marcada pela mística e pelo ideal asceta. A preocupação era com o fato de que a desgraça está em toda a parte e nada é mais perigoso do que uma vida tranquila. A característica comum é o incitamento do ódio de si mesmo e a mortificação das paixões. Essa ênfase, tomará uma nova forma com a Reforma Protestante, notadamente nas obras de Calvino. Para ele, o mundo é sempre mau, mesmo naquilo em que ele pode ser melhor. O próprio espírito do homem é mau por causa da queda, e não há nada que se possa fazer para torná-lo bom, nem mesmo a fuga do mundo. Ou seja, o mal está por todo lado, dentro e fora do sujeito, tanto na vida solitária quanto na sociedade. É o desprezo de si que desperta a necessidade de entregar-se a Deus.
Delumeau assegura que o tema do medo e do pecado são ambíguos: eles comportam tanto a possibilidade de uma atitude transformadora, como também desencorajadora. O problema é que o discurso do medo no ocidente foi construído sobre a interpretação equivocada de textos mal compreendidos. Alguns aspectos são de destaque: esse discurso faz parte de uma ética monástica que acabou por ser direcionado para as multidões; foi na Renascença que se deu essa tendência, o que demonstra que o Humanismo pode não ter sido tão otimista quanto parece; o medo esteve mais presente nas elites e os mais santos. Essa preocupação revelou uma teologia que falou mais do pecado que da graça, mais de um Deus juiz e condenador do que de misericórdia e compaixão. A questão final levantada por Delumeau é pertinente: não seria essa a razão da descristianização do Ocidente?
A descoberta resultante dessas leituras é um tanto estarrecedora, mas também promissora. De uma lado, aponta para a responsabilidade dos cristãos. De outra, aponta caminhos para uma reflexão e um diálogo em busca de mudanças.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Por uma pastoral latino-americana / For a Latin American pastoral / Para una pastoral de América Latina

Salomão Luiz Ginsburg nasceu em 6 de agosto de 1867, na Polônia, filhos de pais judeus. Estudou na Alemanha e viveu um tempo na Inglaterra. Converteu-se ao protestantismo ainda jovem, na Inglaterra e foi banido da família. Fez os estudos para o trabalho missionário e apresentou-se para trabalhar em Portugal. Desde o começo, foi identificado pelo seu estilo polêmico e combativo. Ao deparar-se com a religiosidade dos católicos portugueses, escreveu folhetos que apontavam o que chamou de equívocos da igreja romana. O primeiro deles era intitulado São Pedro nunca foi Papa, e depois Religião de trapos, ossos e farinha. Sua fama logo se espalhou e Salomão foi convidado a retirar-se do país. Como dominava o português, embarcou para o Brasil a fim de trabalhar com os congregacionais no Rio de Janeiro, Niterói e Recife. Chegou ao Rio de Janeiro em junho de 1890 e constatou o rápido crescimento que o trabalho dos batistas experimentava. Ficou admirado quanto a forma de batismo empregada, a prática de imersão e não a de aspersão. Depois de fazer pesquisas sobre o termo “batismo” na língua original do Novo Testamento, convenceu-se de que a forma bíblica do batismo era a de imergir o convertido em água. Passou a ser um árduo defensor de sua descoberta, polemizando com pregadores presbiterianos e congregacionais. Com isso, juntou-se aos batistas norte-americanos, sendo nomeado pela então Junta de Richmond – como era conhecida a instituição que patrocinava o trabalho missionário batista em várias partes do mundo – como missionário juntamente com os pioneiros Willian B. Bagby e Zacary C. Taylor. Em abril de 1912, em viagem de Londres a Nova Iorque, vindo de Lisboa, escapou de embarcar no Titanic por falta de passagem. Veio falecer no ano de 1927.
Conhecer o que representou a presença e a atuação de Ginsburg no Brasil ajuda a entender a natureza do trabalho pastoral e missionário empreendido pelo protestantismo de missão no Brasil no final do século XIX e começo do século XX, Um período que compreende pouco mais de 30 anos. Considero Ginsburg como um paradigma que serve para fazer uma análise de como os protestantes iniciaram sua atuação no país. Chamo protestantismo de missão o trabalho empreendido por diversas entidades missionárias, promovidas por suas denominações de origem, para o envio de obreiros para o trabalho de implantação de igrejas e obras sociais no Brasil nos últimos 30 anos do século XIX. De um modo geral, o protestantismo de missão se caracterizou pela pregação das doutrinas relacionadas à interpretação da Bíblia conforme cada uma das entidades representadas e pelos métodos empregados para a conversão.
A atuação desses primeiros missionários foi determinante para o estabelecimento do protestantismo no Brasil. Léonard (1981) reconhece que o número de missionários no início foi considerável, mas muitos deles sofreram com a malária e a fadiga. Alguns voltaram para seu país de origem, outros faleceram no Brasil. Eles podem ser identificados como pessoas seguras de sua vocação, bem instruídos em Teologia e competentes em diversas áreas distintas além da atuação religiosa (LÉONARD, 1981). A atuação deles foi marcada por uma forte paixão pelo que faziam, o que resultava em um ardor evangelizador. O fato é que, como observa Boanerges Ribeiro (1983), no início do século XIX não havia vestígios do protestantismo no Brasil. Ao final do século, porém, essa presença era significativa. A igreja batista, por exemplo, já estava estabelecida em 10 capitais brasileiras no ano de 1900 (PEREIRA, 2001). Não são poucas as histórias de conversões espetaculares narradas pelos historiadores da época, envolvendo autoridades, opositores, ateus e religiosos oriundos do catolicismo. Entretanto, não houve uma oposição oficial ao protestantismo no Brasil. As ações se davam em algumas localidades por onde a evangelização acontecia.
Dos missionários pioneiros entre os batistas, sem dúvida alguma, a personalidade de Salomão Luiz Ginsburg chama a atenção. Ainda em vida, já idoso, escreveu uma autobiografia, intitulada Um judeu errante no Brasil, que foi publicada pela primeira vez nos Estados Unidos em 1921 e posteriormente no Brasil, em 1932, como homenagem póstuma. Seu companheiro de missão, Taylor, certa vez afirmou: “Onde o irmão Salomão está, aí é o centro.” (GINSBURG, 1970, p. 240)
Podemos resumir a atuação de Ginsburg em algumas áreas:
- Como missionário, deu início ao trabalho batista em diversas localidades: Campos e São Fidélis (RJ), Vitória da Conquista (BA), Recife (PE), além de apoiar o início do trabalho em Goiás e na região amazônica. Além disso atuou na formação das entidades missionárias, hoje conhecidas como Junta de Missões Nacionais e Junta de Missões Mundiais. Com essas entidades, estimulou o envio de missionários para áreas do sertão da Bahia, bem como para Portugal e Chile, ainda no começo do século XX. Foi um conferencista requisitado, tendo falado em diversas cidades de todo o país.
- No cuidado pastoral, notabilizou-se como evangelista e propagandista da fé, além de cuidar da consolidação do trabalho batista no Brasil, como o principal incentivador da organização da atual Convenção Batista Brasileira, que surgiu em 1907. Além disso, ocupou-se da formação de pastores, com a criação em sua casa do primeiro seminário teológico batista no Brasil, em Recife.
- No campo editorial, publicou o primeiro jornal dos batistas em uma gráfica própria, que veio a se tornar a base para a formação da editora da denominação, a Casa Publicadora Batista, e de O Jornal Batista, existente até hoje.
- No campo da música, produziu a primeira coletânea de hinos sacros dos batistas, composta de mais de 500 canções, das quais traduziu ou escreveu a letra de mais de 120 delas. O Cantor Cristão foi o hinário usado pelos batistas por mais de 100 anos.
Para a ação pastoral, a figura de Salomão Ginsburg tornou-se um paradigma a ser adotado pelas lideranças evangélicas no Brasil e como o modelo de liderança desejado pelas igrejas. Seu estilo evangelizador, que podemos chamar de evangelismo guerreiro, caracterizou o modo com que os protestantes empreenderam sua ação, notadamente proselitista e de combate ao catolicismo. Isso resultou para ele em severa oposição e perseguição, necessitando em muitas ocasiões de intervenção policial. Muitos episódios são narrados de forma pitoresca, mas revelam a sua natureza de polemista e de entusiasta que foi da fé protestante.
O que orientou a ação pastoral de Salomão Ginsburg foi o modo de compreender a religiosidade e a alma do brasileiro. Para ele, o catolicismo era o maior obstáculo ao cristianismo, por causa daquilo que chamou de idolatria (como a presença e veneração de imagens de santos nos templos católicos). Além disso, para ele, o povo brasileiro reunia em si qualidades ímpares: “Quatro traços, entre muitos outros característicos, são predominantes no povo brasileiro, devido, sem dúvida a sua formação social: inteligência, coragem, cortesia e espírito de sacrifício.” (GINSBURG, 1970, p. 219)
(Parte do artigo apresentado na disciplina sobre Teologia Pastoral no curso de Doutorado da Puc Rio)

sábado, 20 de novembro de 2010

Eleição presidencial e o futuro / Presidential election and the future / Elecciones presidenciales y el futuro

A eleição presidencial deste ano deixa um legado interessante. Apesar de todo o ambiente de boato que caracterizou a campanha eleitoral, a escolha de uma mulher para ser presidente do Brasil é indicativa de uma grande mudança de mentalidade que vai tomando lugar na sociedade brasileira. A eleição de um operário em 2002 já demonstrava isso.
Quando Lula foi eleito, ficou o indicativo de que é possível traçar um projeto de vida e chegar lá, mesmo que as condições não pareçam tão favoráveis de início. Ficou evidenciado que no Brasil a mobilidade social existe, uma vez que uma pessoa da classe menos favorecida havia chegado ao posto mais alto da vida pública.
A eleição de Dilma Roussef consolida esse processo. Isso não quer dizer que se esteja exaltando a qualidade moral ou política de alguém. Muito ao contrário. Isso não tem nada a ver com esses aspectos. Aliás, o que ficou claro é que, no que diz respeito ao exercício do poder, o quadro de corrupção não mudou e a todo instante paira uma sombra de populismo no governo que se encerra.
O fato é que uma pessoa representativa de segmentos da sociedade que sempre estiveram excluídas do poder chegou ao topo: primeiro, uma pessoa das camadas populares; agora, uma mulher. E isso carrega em si mesmo muitos significados. Não é garantia de que o Brasil vai melhorar, mas é uma evidência de que alguma coisa está mudando na cabeça das pessoas. A lição que se pode tirar disso é que, mesmo que se diga que não temos chance, é possível lutar e, quem sabe, um dia chegar lá.
Fica a suspeita de que isso faça parte de um movimento ainda maior, que nasce na periferia e nas camadas menos favorecidas que têm ganhado oportunidade de melhoria de vida nos últimos anos. Essa massa de emergentes que chega à classe média – e mesmo a que sonha poder um dia chegar – começa a influenciar decisivamente as mudanças que vêm ocorrendo na sociedade em diversos setores, determinando novos padrões de consumo, de organização do poder e até de novas formas de expressão de fé.
Esse novo Brasil que sai das urnas exige uma mudança de atitude das classes mais favorecidas e das elites. Vivemos num país que vem se tornando cada vez mais um ambiente com oportunidade para todos, um país de inclusão. É claro que isso não é resultado de um governo apenas, mas de um processo histórico que teve início nas lutas contra a repressão e a ditadura, haja vista que as atuais lideranças tiveram uma mesma origem, ainda que hoje sejam governo ou oposição. Faz parte desse processo a promulgação da Constituição de 1988 e a redemocratização.
Para quem viveu intensamente esse processo histórico, isso tudo é muito promissor. Podemos vislumbrar um Brasil melhor, que sempre sonhamos para nós e para a futura geração. Que estejamos certos disso.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

O que é Teologia da Missão Integral / Integral Mission Theology / Teología de la Misión Integral

Já não é de hoje que se fala de se produzir uma teologia que seja latino-americana, própria para a realidade vivida em nosso contexto. Uma tentativa marcante foi a da Teologia da Libertação, mas que atingiu mais os meios católicos do que evangélicos. Uma outra proposta que precisa ser mais analisada é a da missão integral.
A teologia da missão integral acontece no contexto do movimento evangelicalista latino-americano. Esse movimento inspirou-se no fundamentalismo protestante norte-americano, que se inicia com a reação, no começo do século XX, à teologia liberal. Em 1910, foram aprovados cinco pontos fundamentais da fé cristã por um grupo de presbiterianos: nascimento virginal de Jesus; ressurreição corpórea de Jesus; inerrância das Escrituras; teoria substitucionária da expiação; eminente volta de Cristo.
Como precursores dessa forma de fazer Teologia, encontra-se o pacto de Lausanne (1974) como inspirador, cuja ênfase é a afirmação de que o mundo ouça a voz de Deus (com base no texto bíblico de Isaías 61). Ele foi escrito como resultado do Congresso Internacional de Evangelização Mundial, que aconteceu naquele ano na cidade de Lausanne, Suíça, promovido pelo movimento evangelicalista, liderado pelo pregador norte-americano Billy Graham. Há ainda o modelo do Celam (a II Conferência do Conselho Geral do Espiscopado Latino-americano), em Medelim (1968), que serve como referencial para o início da teologia da libertação, como um paradigma para a formulação de uma proposta latino-americana.
O primeiro marco histórico da formulação de uma teologia da missão integral é o Clade I (Congresso Latino-americano de Evangelização, 1970), na cidade de Bogotá, Colômbia, quando surge um grupo de teólogos evangelicalistas preocupados com as tendências da teologia da libertação. Na América Latina, as diretrizes do Pacto de Lausanne começaram a ser debatidas durante o Clade II, em 1979, na cidade de Lima, Peru. No Brasil, aconteceu somente em 1983, durante o Congresso Brasileiro de Evangelização.
A preocupação era de levar o evangelho todo, a todo homem, de forma concreta, em todo lugar. A máxima é de que o mundo todo, especialmente a América Latina, seja alcançado pela proclamação do evangelho através das ações concretas. Ou seja, levar o evangelho todo, para todo o homem e o homem todo.
Costuma-se classificar a teologia da missão a partir dos seguintes aspectos: a moldura – o pacto de Lausanne; o horizonte – o evangelicalismo; a perspectiva – a missão integral.
Dentro os principais pensadores, temos: Samuel Escobar, René Padilla e Robinson Cavalcante. Atualmente, a principal entidade promotora é a FTL – Fraternidade Teológica Latino-americana. Em relação às abordagens desenvolvidas por esse modo de fazer teologia encontram-se alguns temas que merecem maior destaque, tais como: o Espírito Santo como protagonista da ação evangelizadora; uma antropologia concreta e a centralidade da Palavra.
(Resumo do trabalho apresentado para uma das disciplinas do Doutorado em Teologia na Puc-Rio)

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Quando o nosso jeito de ir deixa marcas no caminho / Leaving marks / Dejar marcas en el camino

Vida cristã tem consequência. Não há como ter uma experiência de Deus e permanecer o mesmo. A maneira como o apóstolo João tratou disso em sua comunidade foi muito interessante. Ele era testemunha ocular de Jesus, ouviu o Mestre ensinando e compartilhou o modo como Jesus viveu. Isso fazia toda a diferença. João visivelmente tinha estado com Jesus, pela sua maneira de ser, de tratar as pessoas, de se envolver com as coisas do Reino de Deus, de se relacionar e até de compreender o momento histórico e a cultura de seu tempo. É por isso que ele podia dizer: “A vida se manifestou, nós a vimos e dela testemunhamos, e proclamamos a vocês a vida eterna, que estava com o Pai e nos foi manifestada.” 1 João 1.2
Jesus chamou seus discípulos para o seguirem. Isso não tem nada a ver com uma religião nem com um sistema organizado. Ele propôs um caminho a seguir e esse caminho é ele mesmo. Isso tem a ver com nosso modo de vida, a maneira como encaramos a realidade e como fazemos as nossas escolhas. Tem a ver com a maneira como somos conhecidos como pessoas, as coisas que influenciam nossas decisões e como encaramos os nossos desafios. Tem a ver com o modo como nos importamos com os outros e como nos relacionamos. Tem a ver com a maneira como enfrentamos nossos problemas e dificuldades. E tem a ver ainda com a construção de nosso futuro.
Os primeiros cristãos não ficaram conhecidos pela estrutura religiosa que construíram. Ao contrário, eles eram tidos como pertencentes a uma seita, sem muita organização, ritual ou tradição. Eles foram inclusive chamados como os seguidores do caminho. Eles chegaram a alvoroçar o mundo com o modo como seguiram a Jesus, aquele que é o caminho.
Quem se dispõe a seguir caminho deixa rastros, vestígios, marcas por onde passa, assim como o modo como seguimos o caminho deixa também seus registros em nós. Você pode ver isso quando faz uma viagem para uma outra região, com uma cultura diferente da sua. Você tanto guarda lembranças e é afetado por aquele novo ambiente, como também deixa ali suas impressões. Da mesma forma, sempre que nos relacionamos com alguém, somos marcados por essa pessoa e deixamos também nossas marcas.
Jesus nos chama para termos um relacionamento profundo com ele. Isso deixa marcas em nossa vida. Por isso que não há como ter uma experiência de encontro com Jesus e continuar o mesmo. Somos marcados por seu amor, por seu cuidado, por seu poder manifestado em nós. O nosso caráter passa a ser semelhante ao caráter de Jesus Cristo.
Mas Jesus vai mais além. Ele nos desafia a viver no mundo deixando também as marcas de nosso relacionamento com ele. Em sua primeira epístola, João está preocupado com isso. Suas afirmações despertam alguns questionamentos. Que marcas temos deixado de nossa presença e atuação no mundo? De que maneira temos sido reconhecidos pelas pessoas que convivem conosco? Temos sido relevantes para esse tempo? Temos despertado o interesse dos outros pela maneira como vivemos o evangelho de Jesus Cristo hoje? Como podemos ter uma vida bem-sucedida de fé em meio a uma sociedade tão fragmentada?
São muitas perguntas. Mas todas elas nos apontam para a necessidade de vivermos de uma tal maneira que deixemos marcas que influenciem positivamente as pessoas que convivem conosco a respeito do que Jesus Cristo tem feito em nossa vida. Que isso ajude a elas a descobrirem, através de nosso modo de vida, o quanto vale à pena seguir a Jesus Cristo como caminho, verdade e vida. Isso vai nos proporcionar um novo tempo em nossa jornada de fé e nos fortalecer a uma vida com muito mais sentido.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Esteja na bênção / Be a blessed / Sea una bendición

O povo de Deus sempre foi alvo das bênçãos celestiais. Quando Deus abençoa, sua bênção recai sobre todos, de forma que todos são beneficiados pelo derramar da graça e da unção que vem do alto. Apesar de o Senhor se preocupar com o indivíduo e estender a sua salvação à pessoa, sua bênção sempre será compartilhada, contagiada, respingada pelos que estão por perto. Deus nunca deixa de agir em função de um conceito de comunidade, mesmo que tenha como foco o indivíduo.
Veja a seguinte passagem bíblica: “... Nossos pais estiveram todos debaixo da nuvem e todos passaram pelo mar... Mas Deus não se agradou da maior parte deles...” (1 Coríntios 10.1 e 5). Quando fala da experiência dos hebreus naqueles quarenta anos de caminhada no deserto, desde o Egito até Canaã, sob o comando de Moisés, Paulo apresenta três unidades de medida: todos, a maior parte e alguns, referindo-se ao modo como cada um reagiu diante das bênçãos divinas.
Repare que todos os hebreus estiveram debaixo da nuvem durante o dia, todos foram guiados pela coluna de fogo à noite, todos atravessaram o Mar Vermelho a pés secos, todos comeram do maná no deserto e todos beberam da água tirada da rocha.
Repare, porém, que a maior parte daquela gente não agradou a Deus e acabou ficando prostrada no deserto. Dos que saíram do Egito, somente dois pisaram em Canaã, os únicos que confiaram na promessa, contemplaram a bênção além das provas e foram fiéis até o fim.
Agora, repare ainda como Paulo fala de alguns que fazem parte dessa maioria e acabaram exagerando na dose. Alguns se fizeram idólatras adorando ao bezerro de ouro, alguns se envolveram com as mulheres estrangeiras, alguns provocaram a Deus, blasfemando e queixando-se do maná e da água, e alguns murmuraram e se amotinaram contra Moisés. Você pensa que pode estar livre dessas coisas? A Bíblia lembra nesse mesmo capítulo: “Aquele, pois, que cuida estar em pé, olhe não caia” (v. 12).
Você também faz parte do todo que recebe das bênçãos divinas. O Senhor também conduz a sua vida de maneira que venha a estar de acordo com o que ele espera de cada um de nós. Todos foram abençoados, mas a maioria não correspondeu à expectativa de Deus e alguns chegaram até a entristecer a Deus.
A lição que trago para mim disso é que não devo me deixar levar por alguns que seguem os impulsos de sua natureza humana, nem andar conforme os padrões da maioria. A famosa frase “O inferno são os outros”, de Sartre, mostra-nos que, quando damos importância ao julgamento dos outros e nos guiamos por eles, abrimos mão de nossa liberdade. Transformamos o outro em nosso carrasco. Mas, quando nos mostramos indiferentes ao julgamento dos outros por nos acharmos perfeitos e sem necessidade de mudanças, é como se aniquilássemos a nossa própria condição e não nos mostramos aptos para o novo. Esteja na bênção, mas faça diferença. É a minoria, e não a maioria, que desfruta do melhor da bênção.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Manifesto Evangélico por um Processo Eleitoral Ético

Divulgo aqui um documento articulado pelo Ariovaldo Ramos que expressa bem a preocupação com os rumos que a campanha eleitoral majoritária de 2010 tomou. Agradeço ao Levi Araujo por compartilhar. O documento é assinado por várias lideranças no seu blog: cbsampa.com.br.
"Nós, evangélicos e evangélicas, brasileiros, eleitores e cidadãos comprometidos com a verdade e a justiça, manifestamos profeticamente as nossas rejeições e defesas diante da onda de conservadorismo que se abateu sobre o país nesse processo eleitoral.
Rejeitamos os posicionamentos de alguns líderes evangélicos, que em vez de preparar cidadãos, com plenos conhecimentos de seus direitos e deveres, encaminham seus fieis para um exercício equivocado da fé.
Rejeitamos a disseminação de boatos e inverdades com fim de manipular o eleitorado.
Rejeitamos a manipulação, seja ela de que forma for, e a redução das questões cruciais e relevantes no processo eleitoral a temas presos ao mero moralismo.
Rejeitamos o uso da fé como instrumento de manipulação política no momento em que temas como erradicação da pobreza, sustentabilidade ambiental e desigualdade social precisam ser discutidos pela sociedade.
Rejeitamos o papel da mídia, que dá voz e espaço, para que a onda de conservadorismo ganhe visibilidade, desviando o foco das propostas dos candidatos.
Rejeitamos a demonização dos candidatos e partidos, além do processo eleitoral.
Rejeitamos a difusão de informações equivocadas dos papéis que cabem ao Executivo e ao Legislativo no país.
Rejeitamos qualquer forma de intolerância religiosa.
Dessa forma, defendemos que as eleições devem girar em torno das questões programáticas e dos planos de governo.
Defendemos, como herança do Protestantismo, a manutenção e o fortalecimento do Estado Laico.
Defendemos a necessidade de uma reforma política e eleitoral que leve o Brasil, do sistema proporcional, no máximo, ao distrital misto, para que os candidatos tenham vínculos comunitários.
Defendemos o aprofundamento do Estado de Direito e a consecução do estabelecimento do Estado de Equidade social, política e econômica.
Defendemos uma Igreja independente, que não se submeta aos interesses políticos e eleitorais. Ao contrário, que exerça sua função profética produzindo cidadãos livres e conscientes de seu papel cívico.
Defendemos a manutenção e o avanço das conquistas sociais que, nos últimos anos, fizeram com que uma parcela significativa de brasileiros saísse dos níveis de pobreza inaceitáveis em que viviam.
Defendemos a manutenção de políticas públicas que promovam a erradicação da pobreza e a maior igualdade entre os brasileiros.
Por fim, assumimos o compromisso de continuarmos orando e contribuindo solidariamente com a construção de um Brasil sustentável, economicamente viável, socialmente justo."
Se você deseja também subscrever este manifesto, entre no site da Petição Pública

sábado, 2 de outubro de 2010

Aprendendo a orar com Jesus / Learning to pray with Jesus / Aprender a orar con Jesús

Durante o tempo em que os discípulos estiveram com Jesus, eles pediram apenas duas coisas. Uma delas foi: “acrescenta-nos a fé.” Lucas 17.5. A outra foi para que os ensinasse a orar: “Senhor, ensina-nos a orar...” Lucas 11.1. A oração era vista como um sinal de identidade do grupo e conferia uma certa segurança. Mas a oração não é um instrumento de barganha com o qual iremos negociar com Deus alguma coisa.
Uma frase que causou um grande impacto em mim: “oração é humilhação.” Ainda não tinha pensado nisso até então. Como todo mundo, sempre entendi a oração como um exercício de diálogo com Deus marcado pela relação misteriosa entre poder e liberdade. Já ouvi muita gente boa afirmar que a oração move o braço de Deus, mas estou convencido de que nada motiva mais a ação de Deus que seu amor por nós. E não há o que se possa fazer para que Deus aumente ou diminua esse seu estranho amor.
A oração encontra-se exatamente nesse espaço em que me acho, carente desse amor e suplicante de socorro. A oração é resultado de uma experiência de descoberta e de encontro, quando me descubro desprovido de recursos para agir e quando me deparo com quem Deus de fato é.
É por isso que Jesus orientou seus discípulos a orar a partir do modelo do Pai Nosso. Primeiro, porque nos propõe ter uma nova compreensão de Deus como pai amoroso. Segundo, porque nos conduz a uma nova perspectiva de vida na dimensão do reino que vem até nós. Terceiro, porque nos desafia a uma nova forma de nos relacionar com o mundo, dependendo da provisão divina. Quarto, porque somos chamados a desenvolver uma nova forma de encarar a maldade. E quinto, porque somos expostos a um entendimento de quem realmente nós somos.
A oração do Pai Nosso traz em si uma construção que estabelece uma relação entre Deus e o homem a partir das circunstâncias vividas. Tem a ver com as grandes questões humanas, seja no que diz respeito à dimensão pessoal seja na dimensão social. Não tem referência à religião, igreja ou instituição. O princípio de interpretação está nessa relação entre Deus e o homem em meio às necessidades mais existenciais.
Tira o nosso foco do nosso pequeno horizonte e nos abre para uma nova compreensão para além de nossas circunstâncias. E a ordem é simples: é a partir de Deus que devemos entender as nossas necessidades e é em meio a nossas carências que descobrimos quem Deus é. Essa relação não foi formulada em uma doutrina, mas em forma de prece, porque trata de nossas angústias e esperanças e do processo através do qual somos resgatados para uma nova vida. Vida que se encontra entre o realizado e o que está por realizar, entre o já e o ainda não.
A oração do Pai Nosso nos ajuda a construir uma espiritualidade para hoje, que nos proporcione uma experiência de Deus mais profunda e significativa. Não é para ser rezada. É para ser vivida.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Uma espiritualidade a partir do outro / Spirituality and otherness / La espiritualidad y la alteridad

Quando a gente diz que o individualismo é uma das marcas desse tempo, não se está falando de um conceito absoluto. Até porque ninguém vive para si mesmo. O que caracteriza a nossa condição humana tem a ver com relacionamentos. As pessoas têm procurado estar junto de alguma forma, embora as motivações não sejam as mesmas. Haja vista as raves, os barzinhos, os sites de relacionamento.
Penso na possibilidade de construção de uma experiência de Deus a tal ponto que resulte no surgimento de uma comunidade que seja solidária à dor que as pessoas desse tempo sofrem. Uma das formas de imaginar isso se encontra na narrativa bíblica da cura do paralítico de Cafarnaum (Marcos 2.1-12). Aquela experiência nos ajuda a construir uma ideia de como é possível viver como comunidade num mundo marcado pela perda, pelo sofrimento, pelas incertezas.
Essa comunidade precisa ser identificada como um grupo de pessoas que chega junto às pessoas que sofrem e que precisam de apoio. Os quatro que trouxeram o paralítico chamaram a atenção de Jesus, que viu neles fé. Não foi a multidão nem foram os religiosos que enchiam a casa. Repare como diz a Bíblia: “Vendo a fé que eles tinham, Jesus disse ao paralítico: ‘Filho, os seus pecados estão perdoados.’” Marcos 2.5.
Isso provocou uma reação entre os religiosos, que criticaram a Jesus por priorizar aquele fato em relação aos demais. Afinal, uma multidão tinha ido à casa em que Jesus estava. Jesus viu naqueles quatro a imagem da igreja que ele sonhou para agir no mundo. A igreja que se solidariza age a partir de princípios que estão na contramão da mentalidade que rege as nossas ações no mundo.
Aqueles quatro estavam em comunhão para realizar uma ação concreta e é a comunhão que confere à humanidade a condição que Deus deseja para ela. Essa comunhão provoca deslocamentos nos nossos relacionamentos que podem ser encontrados na atitude daquelas pessoas. É o que nos faz ser solidários.
Para construir uma espiritualidade a partir do outro é preciso que se dê ênfase aos relacionamentos, em que a temporalidade seja definida mais pelo oportuno do que pelo relógio. A Bíblia diz que “os dias em que vivemos são maus; por isso aproveitem bem todas as oportunidades que vocês têm.” Efésios 5.16 NTLH. É preciso que se desenvolva uma experiência que procure mais viver de acordo com o que Cristo propõe como ensino e vida do que a partir de regras. A Bíblia também diz: “É ele quem nos torna capazes de servir à nova aliança, que tem como base não a lei escrita, mas o Espírito de Deus. A lei escrita mata, mas o Espírito de Deus dá a vida.” 2 Coríntios 3.6 NTLH.
Para isso, precisamos definir a nossa identidade mais nas ações concretas do que em teorias. Veja o que a Bíblia diz também: “Porém vocês, irmãos, foram chamados para serem livres. Mas não deixem que essa liberdade se torne uma desculpa para permitir que a natureza humana domine vocês. Pelo contrário, que o amor faça com que vocês sirvam uns aos outros.” Gálatas 5.13 NTLH. Então, deixe de viver menos em seu espaço e passe a viver mais no espaço do outro. O conselho bíblico é: “Dediquem-se uns aos outros com amor fraternal. Prefiram dar honra aos outros mais do que a si próprios.” Romanos 12.10 NVI. A atitude daquelas quatro pessoas chamou a atenção de Jesus porque estava em sintonia com o cuidado dele para conosco. (Baseado na mensagem apresentada na manhã do domingo 19/9/2010, na Igreja Batista da Orla Oceânica)

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Dimensão espiritual do voto / Spiritual dimension of voting / Dimensión espiritual de la votación

O exercício do voto ganhou uma dimensão simbólica nas sociedades democráticas que chega próximo do sagrado. O dia da eleição se caracteriza como um dia em que se pode parar a rotina e refletir sobre o significado das funções públicas no nosso dia a dia. É a coisa pública (que em latim seria res publica, que deu o termo república) que toma forma e invade a dimensão do privado.
Votar é um dever e um direito de todo o cidadão. Foi assim que a gente aprendeu. De um lado, somos obrigados a comparecer na seção eleitoral para sufragar o voto e, de outro, esse ato se reveste de exercício de liberdade. Parece que as duas atitudes são paradoxais, mas estão em completa sintonia com a dinâmica das relações políticas que fazem parte de nossa sociedade.
Para a grande maioria, a política se resume ao período eleitoral. É quando a gente percebe que no intervalo de dois anos não se deu conta de que a vida aconteceu. E sentimos isso no preço das coisas, no salário, nos sonhos realizados e naqueles que tiveram que ser adiados, nas relações de trabalho, quando se precisou cuidar da saúde, segurança, de locomoção, de comunicação, formação para o futuro, investimento dos recursos poupados e até nos projetos de vida, lazer e planejamento familiar. Por causa disso, levantam-se santos e pecadores, demonizam-se os culpados e beatificam-se aqueles que proporcionaram algum benefício, amaldiçoa-se os que são rejeitados e abençoa-se a quem mais interessa ao dar a ele o voto.
Nessa hora, duas coisas podem acontecer: ou sucumbimos a uma necessidade de permitir a continuidade do estado de coisas a que chegamos ou arriscamos a mudança. Alguns preferem uma terceira via, a do protesto silencioso do voto em branco ou nulo. Há também aqueles que se alienam totalmente, no sentido mesmo de transferir para outro a responsabilidade pelo seu destino. Mas isso é uma outra história.
O voto assumiu a dimensão simbólica de que é possível colocar ordem nas coisas a partir de um simples sufrágio e que, ao escolher o candidato, estamos desobrigados de nossa responsabilidade social. Quando se digita o número do candidato não se escolhe apenas um entre milhares. Escolhe-se a possibilidade de realização de um sonho, de um projeto de cidade, de nação e de mundo que imaginamos possível. Acreditamos nisso a partir daquilo que o candidato representa, seja em termos de sua proposta e plano de ação, seja por causa do seu caráter e idoneidade, seja pelas afinidades que construímos com ele.
Votar é mais do que escolher um candidato. É tomar parte de um processo histórico que define o rumo da vida social. É ter a capacidade de definir a pessoa em quem o poder irá tomar forma. Por isso que voto tem consequência, porque é um ato que nasce do exercício de nossa consciência e que, somado a outros tantos gestos semelhantes, poderá definir o rumo das circunstâncias que envolvem a nossa vida. Pense nisso quando votar. Você terá um instante para escolher e quatro anos para viver o resultado de sua escolha.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Há esperança / There is hope / Hay esperanza

Algumas vezes a gente se pergunta: o que fazer? E isso normalmente acontece quando não temos mais perspectivas, quando nossos recursos se esgotam, quando não há mais esperança. O que fazer quando estamos diante do perigo? O que fazer quando estamos em dúvida? O que fazer quando as coisas pioram? A resposta a essas perguntas não está numa fórmula mágica, não há uma receita de bolo para quando tudo não vai bem.
A grande questão que nos envolve é que a maioria das situações que vivemos é improvável. O futuro não é previsível. Viver já é correr um grande risco de que as coisas podem não dar certo conforme imaginamos.
Um médico amigo meu, tentando explicar o fenômeno do desenvolvimento biológico humano, disse que o fato de estarmos vivos é que se constitui um grande milagre. Quais são as chances de um espermatozoide fecundar um óvulo dar certo? Mínimas, diria ele. Uma em milhões. E durante o processo de multiplicação celular, que é o nosso desenvolvimento, há mais chances de haver problemas do que acertos. Estar aqui hoje falando com você, tendo tudo no lugar, é um grande privilégio, apesar dos problemas, dos defeitos físicos, das eventuais disfunções.
Isso serve para nos mostrar que, no que diz respeito à vida, nem tudo está perdido, apesar das aparências. Jesus disse para seus discípulos: “Não fiquem aflitos.” Há uma saída quando chega o dia mau. Ele disse mais: “creiam em Deus e creiam também em mim” (João 14.1 NTLH). Isso não quer dizer que ele vai eliminar todos os problemas da nossa vida. Ele não prometeu isso. Ele não disse que viver é fácil e que há soluções mágicas para os problemas. Mesmo quando realizou milagres, Jesus não o fez como um truque para encantar as pessoas.
Jesus se importou com as nossas situações de perigo sim. E ele demonstrou que pode intervir quando tudo não vai bem. Mas a razão pela qual ele quer e pode fazer isso é para que a gente aprenda a aproveitar bem a vida apesar das circunstâncias.
Em sua ação e em seu ensino, Jesus deixou claro que uma dificuldade enfrentada pode ser uma grande oportunidade para que Deus manifeste a sua glória e o seu poder em nossa vida. As situações de prova, de luta e até mesmo as tentações não devem ser vistas como uma manifestação do mal ou uma maldição que conspira contra nós. Elas são oportunidades de dependermos de Deus e confiramos em seu poder.
A experiência de Deus que precisamos ter envolve toda a nossa vida. Não faz sentido a gente ter uma experiência de Deus que fique restrita ao instante mágico ou somente quando preciso do milagre. Na verdade, a experiência de Deus está para além do mágico.
Que fique claro que ele é o Deus que intervém, o Deus do milagre, o Deus que sara nossas feridas, que se compadece de nossas dores. E ele age assim porque sabe que estamos longe de sua graça, mergulhados em um mundo de incertezas e falhas. Ele age movido pelo imenso amor e estranho amor que tem por nós. Tudo o que ele de fato quer é trazer a nossa vida à normalidade, para o lugar e o modo de viver que ele sempre imaginou para nós.
Quando você passar por uma situação limite em que parece que não há mais saída, lembre-se que essa é a hora de você repensar a sua relação com Deus e experimentar o modo dele cuidar de você, deixando que ele assuma o controle dali em diante.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

O começo de uma nova caminhada




A história da Igreja Batista da Orla Oceânica de Niterói começa assim. Vídeo apresentado durante a Festa da Chegada, no dia 5 de setembro de 2010, quando se deu início às atividades no novo espaço. Visite o blog: http://orlaoceanica.blogspot.com. Nós estamos na Rua Dr. Cornélio de Mello Jr, 31 - Piratininga, Niterói, RJ (é a antiga Rua 38, a rua do Colégio Salesiano). Confira no mapa >>.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Uma nova igreja surge / A new church arises / Una nueva iglesia surge

A partir do próximo domingo, a igreja batista da Orla Oceânica passa a ser uma realidade. Talvez você pergunte: por que mais uma igreja? Note que essa pergunta não é feita em outras circunstâncias. Ninguém pergunta, por exemplo: por que mais uma escola, hospital, farmácia, banco ou mesmo botequim? A realidade é que há muitas pessoas que precisam ser alcançadas pela mensagem do evangelho e, para isso, é importante toda sorte de igreja para alcançar todo tipo de pessoa.
A Orla Oceânica pretende ser uma igreja com uma proposta voltada para a necessidade das pessoas de nosso tempo, que vivem as consequências das mudanças que temos atravessado, a fim de sermos uma comunidade alternativa para aqueles que estão em busca de uma experiência de espiritualidade, e não de religiosidade, simplesmente.
Para isso, valorizamos: mais as pessoas do que as estruturas, mais a comunhão do que os modelos tradicionais, mais os relacionamentos do que as regras sem reflexão. E fazemos isso tendo a noção de nossa dimensão de corpo, família e comunidade, orientados por aquilo que descobrimos dos propósitos deixados por Jesus Cristo em sua palavra e da nossa vivência em oração e serviço uns pelos outros.
Queremos ser uma igreja relevante, acolhedora e dinâmica – viva, por assim dizer – que se identifica por sua preocupação em apresentar o evangelho todo a todas as pessoas e que se esforça por reunir essas mesmas pessoas alcançadas em torno dos propósitos divinos.
Nossa missão será ser uma igreja bíblica e contextualizada para alcançar pessoas com a mensagem do Evangelho de Jesus Cristo e integrá-las na vida de comunhão a fim de que se tornem autênticos discípulos de Jesus para este tempo. Nossa visão é cuidar de pessoas a fim de que pessoas transformem o mundo. Para isso, nos pautamos nos seguintes valores: a Bíblia como a nossa fonte de autoridade; a fé em Jesus Cristo como único e suficiente salvador; a autonomia de igreja local; o sacerdócio de cada crente; a vida dirigida pelo Espírito Santo; a responsabilidade de compartilhar as boas novas.
Um lugar onde vidas são transformadas por meio da graça de Jesus Cristo, aquele que se deu pela nossa salvação como prova do amor de Deus por nós. Nosso desejo é que as pessoas descubram como é possível ter um encontro genuíno de fé com o Senhor Jesus e como podem colocar em prática os propósitos de Deus para a sua vida.
Se você acredita que é possível uma igreja assim, compartilhe dessa ideia. Convidamos você e sua família a entrar nessa conosco e, juntos, construirmos um futuro possível, para a glória do nosso Deus.
Para conhecer a proposta e a localização, visite: http://orlaoceanica.blogspot.com.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Cultura de paz e espiritualidade / Culture of peace and spirituality / Cultura de paz y espiritualidad

A noção de cultura de paz diz respeito a um conjunto de valores, atitudes e estilo de vida voltados para a manutenção da vida sem violência e harmoniosa entre as pessoas em qualquer cultura. Essa ideia foi definida em um documento da Onu em 1999 chamado Declaração e programa de ação sobre um cultura de paz. A ideia de uma cultura de paz se faz necessária por causa da cultura que se tornou vigente, que valoriza a dominação do outro, que impõe medo, subordinação e exploração.
O princípio está baseado na não violência e na promoção de ações por meio da educação, do diálogo e da cooperação, tendo em vista o respeito aos direitos humanos e às liberdades fundamentais, incluindo aí a noção de sustentabilidade, de tolerância, de igualdade de condições e oportunidades, de liberdade de expressão, opinião e informação.
No livro, que virou filme, Ensaio sobre a cegueira, José Saramago tenta mostrar como essa cultura dominante toma forma quando se está em situações extremas. Seria possível controlar a violência? Freud usa a metáfora de um moinho para explicar isso. Ele diz que quando a fome chega, o esfomeado vê o moinho e imagina que pode morrer antes que a farinha chegue. E é isso que o leva a atitudes inusitadas.
Mas não só isso. Se percebermos, por trás da violência estão algumas formas que compõem a nossa realidade. A primeira dessas estruturas tem a ver com o caos. A teoria da evolução inclui a violência em todos os seus aspectos: a lei da preservação da espécie. A segunda são as estruturas de dominação. Os meios de produção, o controle do capital e as relações familiares estão marcados por mecanismos de violência. A terceira é a guerra. A lógica da guerra substitui a cooperação pela competência, o que gera desigualdades, injustiças e mais violência.
Isso comporta duas questões que quero levantar aqui: onde buscar uma diretriz para promover uma cultura de paz que possa fazer sentido para este tempo? O que pode realmente motivar a promoção e despertar iniciativas de uma cultura de paz de fato?
Muitas ONGs têm procurado realizar atividades e manifestações que despertem a sociedade para o problema. Uma delas é Rio de Paz, liderada pelo pastor presbiteriano Antonio Carlos Costa, cujas instalações e manifestações têm chamado a atenção da mídia no que diz respeito à violência. Esse é um modo de enfrentar o problema.
Jesus deixou claro em seus ensinos que estava preocupado com a maneira como os homens construíam seus relacionamentos e sua visão de mundo. Por isso, ele disse: “Tenho-vos dito isto, para que em mim tenhais paz; no mundo tereis aflições, mas tende bom ânimo, eu venci o mundo.” João 16.33 (NVI).
É nessa perspectiva do desejo de Jesus que gostaria de buscar motivação para que possamos nos comprometer com uma cultura de paz nos moldes do que a Bíblia tem a nos ensinar. Isso significa um resgate dos valores que Deus estabeleceu em sua Palavra para a vida feliz do homem na Terra. Valores esses que Jesus afirmou e que veio para cumprir a fim de se tornar o Cordeiro perfeito para resgatar o homem de sua condição de perdido.
Gostaria de sugerir as mudanças necessárias para que uma cultura de paz segundo a vontade de Deus possa ter lugar entre nós. A primeira delas é a mudança de mentalidade. A lógica que rege a cultura ocidental, afirmada a partir da Modernidade, é baseada em três princípios: a autonomia do sujeito – o que leva ao engano de acharmos que temos todas as respostas; a afirmação do homem como o centro – o que leva ao engano de acharmos que não precisamos mais de Deus para viver; a autoridade da ciência – o que leva ao engano de achar que a verdade é evidente, desprezando o valor da fé. A Bíblia nos diz: “Tenham entre vocês o mesmo modo de pensar que Cristo Jesus tinha.” Filipenses 2.5 (NTLH).
A segunda atitude é a mudança de ações. A pergunta feita hoje é: quais as atitudes necessárias para uma vida mais feliz? Chegou a hora de mudanças radicais no modo de agir. Troque a ganância pela generosidade. Troque o orgulho pela humildade. Troque o individualismo pela santidade. Siga o conselho bíblico: “Não se amoldem ao padrão deste mundo, mas transformem-se pela renovação da sua mente, para que sejam capazes de experimentar e comprovar a boa, agradável e perfeita vontade de Deus.” Romanos 12.2 (NVI).
A terceira atitude é a mudança de paradigma. As mudanças que o mundo precisa experimentar não são estruturais, mas conjunturais. A única maneira de superar toda a violência é por meio da graça. “Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus.” Efésios 2.8 (NVI). O Senhor que nos inspira a essas atitudes disse: “Deixo com vocês a paz. É a minha paz que eu lhes dou; não lhes dou a paz como o mundo a dá. Não fiquem aflitos, nem tenham medo.” João 14.27 (NTLH).

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

O corpo desprezado / The despised body / El cuerpo despreciado

O corpo assumiu um papel importante na cultura contemporânea quanto à definição de identidade. A sociedade e os grupos se organizam a partir da aparência física, pelo modo de vestir, pelo uso de tatuagens e piercings. Para superar uma situação de desconforto, para ter uma sensação de bem-estar ou mesmo para vencer a depressão, é posível procurar um tatuador ou um cirurgião plástico, perder uns centímetros na cintura ou uns quilinhos na balança, ir ao shopping tomar um banho de loja.
O caso Bruno – que envolve o desaparecimento de Eliza Samudio – traz à tona a questão de quanto vale o corpo. De um lado, um atleta no auge da carreira, que vive a diversidade e fragmentação da sua própria identidade. De outro, uma jovem que é vítima e objeto de quem se imagina acima do bem e do mal.
Por trás dessa história hedionda está retratado o novo paradigma da construção da individualidade, marcado pela fixação do narcisismo. A gente vê tomar lugar uma nova atenção ao corpo voltada para a criação de estratégias e dispositivos que visam à submissão e à desvalorização do corpo, com a ingênua aparência do cuidado.
Nesse contexto, o corpo tende a ser o lugar privilegiado de afirmação da identidade. Tanto pode ser, de forma autônoma, esculpido segundo um ideal subjetivado, fundado na noção de um corpo ideal, orientado por uma imagem referenciada na mídia, como pode ser descartado como um nada, jogado aos cães.
A cultura narcisista e hedonista que emerge valoriza um modelo e um padrão de comportamento em que o sujeito precisa ganhar visibilidade, e que ao mesmo tempo se dilui quando não mais atende às expectativas do outro.
A origem desta nova compreensão está na forma com que se construiu o pensamento ocidental, desde a cultura grega até a crise engendrada pela Modernidade. Karl Marx já havia dito que "dissolveram-se todas as relações sociais antigas e cristalizadas [...] tudo que era sólido e estável se esfumaça, tudo que era sagrado é profanado, e os homens são obrigados finalmente a encarar com seriedade suas condições de existência e suas relações recíprocas."
É em situações como essa que o Espírito de Deus geme e intercede por uma humanidade que anda errante, como ovelhas sem pastor.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Novos paradigmas da missão / New paradigms for the mission /

O modelo de igreja que o ocidente construiu está morrendo, mas as pessoas continuam precisando de uma voz que as convoque para uma vida nova, tal como propõe o Evangelho. O ideal de uma nova humanidade como Jesus Cristo nos apresenta ainda é uma necessidade, mas sem o estigma da instituição que o cristianismo produziu. Ninguém tem dúvida de que a espiritualidade é uma necessidade, que a fé cristã aponta para uma esperança, que a comunhão é um desejo, mas as instituições que materializam esses sonhos estão cada vez mais desacreditadas.
A igreja, enquanto comunidade daqueles que ouviram e atenderam o chamado de Jesus, que passaram pela experiência do encontro e que vivenciam essa experiência de Deus, precisa ser reconhecida como uma comunidade solidária: com o Cristo que foi encarnado, crucificado, ressuscitado e glorificado, mas também com o mundo que vive a angústia que permeia toda a existência, tanto em sua dimensão histórica quanto em sua relação com as estruturas de poder vigentes.
Para mim, a perspectiva da missão não é o “ide” propriamente, mas o “porque Deus amou o mundo de tal maneira”. O que move a missão não é a o imperativo da ordem dada, mas o motivo pelo qual Deus amou o mundo. Por causa desse amor, todas as barreiras são rompidas, as muralhas são derrubadas, os caminhos são aplanados. Isso não está para além de uma relação dicotômica, entre sagrado e profano, que Jesus rompeu. Ao quebrar essa separação, entretanto, inaugura-se uma tensão que aponta para um novo horizonte. Ao contrário do que se possa pensar, a igreja não está aí para implantar uma nova ordem, novos sistemas ou mesmo uma nova sociedade, mas para trazer graça e humanização para um mundo que se perdeu de si mesmo.
Isso aponta para novos paradigmas sobre o que vem a ser evangelização e salvação, os temas principais implicados na missão. Evangelizar é um chamado à conversão, para que a igreja se torne a comunidade daqueles que vivem em obediência e submissão a Deus nas estruturas da vida onde a existência humana acontece. Salvação é o reencontro do sentido de viver a nossa própria humanidade, de uma retomada do ponto em que nos perdemos de nossa condição humana. E são esses novos paradigmas que provocam revolução, que nos desalojam e nos impulsionam a uma nova atitude.
A missão da igreja como essa comunidade solidária é servir a Cristo que reclama para si o mundo inteiro. Nesse sentido, ela é capacitada pelo Espírito para essa tarefa, que não é – nem nunca foi – a de pensar na salvação como algo relacionado à vida além, mas de revelar o senhorio de Cristo sobre toda a criação, principalmente levando em consideração as lutas que envolvem as formas de organização social e política atuais. Isso implica uma nova dimensão da abordagem teológica ligada à soteriologia, à peneumatologia e à escatologia. É o fim da apologética que se afirma como defensora da fé diante do mundo mau e pecador e o nascimento de um discurso que se reveste da graça para a descoberta do modo como Cristo toma forma no mundo através da igreja.
O lugar onde a missão acontece é o mundo, junto àqueles que sofrem. Isso desperta o seguinte questionamento: de que maneira nos relacionamos com as formas de poder? Como temos nos importado com as enfermidades e epidemias que assolam a humanidade ultimamente? Como tratamos da formação da futura geração? Como nos relacionamos com a cultura em um mundo que aprendeu a viver sem Deus? Como estamos influenciando a formação das lideranças? De que maneira nos preocupamos com o tema da sustentabilidade?
Isso é mais do que contabilizar convertidos, do que plantar igrejas, do que abrir frentes missionárias. É viver plenamente o que se pode denominar hoje de Missio Dei. A grande comissão e o grande mandamento são consequências do amor incondicional de Deus pelo mundo. Foi porque ele tanto amou que nos sentimos movidos a cumprir a missão.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Novos paradigmas para a igreja / New paradigms for church / Nuevos paradigmas para la iglesia

Como a igreja pode se tornar relevante neste tempo? Tomando por base a perspectiva de Paulo, a igreja tem uma natureza tal que lhe permite fazer ajustes para cada circunstância e para cada momento vivido. “Porque assim como em um corpo temos muitos membros, e nem todos os membros têm a mesma operação, assim nós, que somos muitos, somos um só corpo em Cristo, mas individualmente somos membros uns dos outros.” Romanos 12.4-5. É desse modo que ela chegou até aqui.
Sendo assim, a igreja precisa aprender a ser grande e pequena ao mesmo tempo. A principal forma que permitirá esse aprendizado está na comunhão. Em que consiste a comunhão? Em primeiro lugar, a comunhão é uma necessidade. O homem é um ser relacional e precisa viver em comunidade. Em segundo lugar, a comunhão é um problema. Viver em comunhão não é fácil e envolve uma complexidade peculiar. E em terceiro lugar, a comunhão é um desejo. Ninguém quer viver só, todos nós queremos alguém que se importe com a nossa dor e que esteja disposto a chegar junto.
A igreja primitiva aprendeu isso cedo. A Bíblia registra: “Todos os dias, continuavam a reunir-se no pátio do templo. Partiam o pão em suas casas, e juntos participavam das refeições, com alegria e sinceridade de coração.” Atos 2.46
Ao longo da história, a igreja teve que fazer ajustes para dar conta da sua relação com o mundo. Como a igreja isso aconteceu? Costumo usar três metáforas para representar as etapas dos ajustes históricos da igreja. Primeiramente, tornou-se uma pirâmide, com sua estrutura hierarquizada e sua noção de verdade como forma de autoridade. Depois, tornou-se um retângulo, principalmente na reforma protestante, quando a relação entre clérigos e leigos tornou-se mais flexível. Hoje, a igreja precisa descobrir a circularidade, com a contribuição de todas as partes .
A igreja passa por mudanças significativas atualmente. Assistimos a uma época em que o novo toma lugar, mas na qual também o passado fala alto. Embora possamos entender que, para a igreja se tornar relevante para hoje, ela precisa contextualizar a sua estrutura e forma de organização, não podemos esquecer que ela faz parte de um movimento histórico contínuo. O que se pode chamar de pós-cristianismo não é necessariamente o fim da igreja, mas a sua renovação.
Algumas tendências devem ser observadas pela igreja contemporânea. Elas têm a ver com as novas formas com que a humanidade tem tratado o fenômeno religioso: maior esforço com pequenos grupos do que com a grande celebração; mais investimento em pessoas do que em estruturas; maior envolvimento com os de fora do que com os de dentro; maior importância quanto ao caráter do que com a formação acadêmica; maior ênfase ao aspecto carismático do que com o escriturístico; maior valorização do líder servidor do que do líder centralizador.
Essas tendências não são excludentes, nem devem servir de justificativa para o desprezo ao que é essencial. Não há como abrir mão da grande celebração, de uma estruturação funcional e flexível, de capacitação do povo de Deus, de formação acadêmica voltada para a excelência, de fundamentação escriturística e até mesmo de uma liderança mais presente. Mas nada disso tem vida por si só.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Novos paradigmas para a fé cristã/ New paradigms for faith / Nuevos paradigmas para la fe

Uma das características da fé neste tempo é que o cristianismo perdeu sua hegemonia. Ele hoje é apenas uma opção entre muitas. Na verdade, somos herdeiros de uma teologia que se firmou com o Iluminismo, em que a centralidade da razão e das explicações objetivas eram os principais interesses. Com isso, adotou-se uma missiologia que se converteu em uma estratégia de guerrilha, ao considerar o mundo como campo de batalha contra o mal. Com isso, desenvolveu-se uma abordagem que privilegia o periférico e despreza o essencial. Prova disso é que nos preocupamos muito pouco com a causa das desigualdades sociais e da origem do mal na sociedade contemporânea.
Estes sintomas ganham maior visibilidade diante do contexto de uma sociedade pós-moderna, marcada pela fragmentação e descontinuidade do conhecimento, pela instabilidade dos discursos. Temos assistido a uma redução da experiência ao presente vivido, à perda de valores e crenças tradicionais e até mesmo uma mudança na noção de temporalidade.
A pergunta é: há caminhos para a solução do problema? A minha compreensão é que precisamos estabelecer novos paradigmas para o exercício da fé. Longe de traçarmos um caminho de combate e luta contra as oposições, precisamos desenvolver atitudes que possam fazer sentido para a nossa geração. Afinal, Deus não precisa de advogados de defesa, mas de testemunhas fiéis, humildes e sinceras.
A primeira atitude está relacionada com a preocupação com o que de fato estamos comprometidos. As pessoas não estão muito interessadas sobre as nossas convicções teológicas e doutrinárias. Elas não se impressionam com a força de nossos argumentos, mas com aquilo com que estamos comprometidos. Eles querem saber como lidamos com os conflitos familiares, como nos relacionamos com o poder, como tratamos de nossas necessidades. A nossa luta é no campo de nossa consciência: “Portanto, estejam com a mente preparada, prontos para a ação; sejam sóbrios e coloquem toda a esperança na graça que lhes será dada quando Jesus Cristo for revelado.” 1 Pedro 3.13
Uma segunda atitude é de não se preocupar em oferecer respostas prontas, mas perspectivas de fé. A mentalidade engendrada pela racionalidade construiu um gosto pela cientificidade. A teologia também tentou explicar e provar a existência de Deus, a buscar respostas científicas para as questões que dominavam o cenário humano. Mas as pessoas ainda têm dúvida e a verdade é que não temos todas as respostas. Precisamos abandonar a ingenuidade de achar que as questões que dizem respeito à existência e à vida são fáceis. Isso envolve uma complexidade que demanda a cooperação de todos os campos de conhecimento, inclusive a dimensão da fé. Precisamos ser maduros o suficiente para entender que os problemas da vida são um mistério a ser explorado em uma perspectiva de fé. Isso requer reconhecimento de nossas limitações, humildade e maior dependência de Deus. Essa é a dimensão do que vem a ser santidade. “Mas, assim como é santo aquele que os chamou, sejam santos vocês também em tudo o que fizerem.” 1 Pedro 3.15
Uma terceira atitude é a de desenvolver uma reflexão mais profunda sobre o que aflige o homem contemporâneo. Precisamos aprender a refletir sobre temas que sejam relevantes para o exercício de uma fé coerente com as necessidades deste tempo. Quais foram os temas que dominaram o diálogo entre cristãos nos últimos 20 ou 30 anos? Maldição hereditária, dente de ouro, bênção do sopro, do paletó, do riso, a validade do apostolado, pregadores que urram, pulam, gritam etc. Quem já se sentiu motivado ou mobilizado para combater problemas ligados ao meio ambiente, corrupção, pobreza, analfabetismo, fome, doença, violência? Problemas que estão realmente destruindo vidas e que deveriam nos motivar a levantar um clamor por uma geração ferida por esses males.
Uma quarta atitude é de se esforçar para amar as pessoas no estado em que elas se encontram . Jesus não alcançou as pessoas pelo conhecimento da ciência ou da filosofia de sua época. Ao contrário, confrontou as pessoas em suas convicções. Jesus não foi um conquistador de argumentos, mas de corações. Ele alcançava as pessoas em suas necessidades mais íntimas. A Bíblia diz: “Pois o amor de Cristo nos constrange, porque estamos convencidos de que um morreu por todos; logo, todos morreram.” 2 Coríntios 5.14. Há circunstâncias em que é difícil amar. É difícil amar um político corrupto, quem comete um crime hediondo ou mesmo quem se levanta como um inimigo da fé. Mas Jesus intimou seus discípulos a fazerem isso. De que modo? Sei lá! Só em humildade para aprender com ele esse modo estranho de amar.
(Uma das palestras apresentadas na Catedral Presbiteriana de São Paulo, 1/8/2010)

sábado, 17 de julho de 2010

Religiosidade e consumo / Religiosity and consumption / La religiosidad y el consumo

Um amigo compartilhou comigo o relatório O estado do mundo 2010, do Worldwatch Institute, lançado no Brasil pelo Instituto Akatu em 1º de julho deste ano. O fato que mais me chamou a atenção foi que o consumo cresceu seis vezes mais que a população nos últimos 50 anos. Para dar conta disso, o mundo extrai da natureza o equivalente a 112 Empires States por dia.
Isso significa que a natureza não dará conta desse consumo, uma vez que o uso dos recursos naturais está ultrapassando a capacidade que o planeta tem de provê-los. Achei também curioso que, para a solução do problema, o primeiro artigo apresenta a necessidade de mudança de mentalidade. E isso é muito mais uma questão de espiritualidade do que de qualquer outra área.
Logo no artigo seguinte – o segundo, portanto –, o documento aponta para o envolvimento das religiões nesse processo de mudança de mentalidade. Segundo Gary Gardner, o autor, de cada cinco habitantes do mundo, quatro pessoas professam uma religião e isso pode ser um grande fator de mudança, pois podem se tornar agentes na criação de novas culturas de sustentabilidade. Destaca-se o fato de que universidades de natureza confessionais têm se preocupado em formação que relacionem práticas religiosas e sustentabilidade, inclusive o surgimento de atividades religiosas voltadas para a defesa do meio ambiente, notadamente nas esferas da conservação da água, de preservação de florestas, da energia limpa e do clima.
Entretanto, o mesmo não se pode dizer no que diz respeito aos padrões de consumo. A maneira como as religiões tem tratado a questão do consumismo tem sido paradoxal: Embora elas tenham referencial teórico para abordar a questão, e sua ajuda seja extremamente necessária, o envolvimento religioso no consumismo está basicamente restrito a declarações ocasionais e exporádicas de líderes religiosos.
O que as religiões podem oferecer em termos de formação de uma cultura de sustentabilidade? O documento do Worldwatch Institute sugere algumas diretrizes: educação sobre meio ambiente; educação sobre consumo; educação sobre investimentos; expressão do sagrado na natureza durante as liturgias; resgate de valores tradicionais. “Ironicamente,” diz Gardner, “a maior contribuição que as religiões em todo o mundo poderiam fazer ao desafio da sustentabilidade seria a de levar a sério sua própria sabedoria antiga sobre materialismo.”
Ao analisar a maneira como a Igreja Católica, por exemplo, tem tratado a questão do paradigma contemporâneo de democracia, verifica-se que houve um caminho, desde o Papa Leão XXIII, para a compreensão de que o bem comum é a meta da sociedade. As encíclicas papais e documentos episcopais, bem como o Concílio Vaticano II, afirmam que as economias devem estar voltadas para servir ao bem comum e criticam o capitalismo desenfreado que enfatiza o lucro a todo custo, com ênfase na caridade e na justiça.
Mas tudo isso é pouco, ainda mais quando se verifica o crescente apelo dos movimentos carismáticos e neopentecostais de associar prosperidade espiritual com consumo em excesso. Num mundo que avalia seus gurus pela quantidade de bens que o mesmo possui, a solução ainda se encontra distante do paradigma religioso.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Espiritualidade e cultura de consumo / Spirituality and consumer culture / La espiritualidad y la cultura de consumo

As questões que envolvem cultura de consumo e sustentabilidade têm sido alvo de preocupações das entidades ligadas a meio ambiente e cuidado com o clima. Nas últimas décadas, o mundo tem experimentado mudanças de ordem estrutural que têm provocado, tanto no campo econômico quanto no social, uma transformação significativa, principalmente a partir de 1980.
As sociedades humanas são marcadas por sistemas culturais. O homem é moldado e refreado pela cultura e orienta suas ações de acordo com as normas, símbolos, valores e tradições que acompanham o seu desenvolvimento e sua vida em sociedade. É isso que faz com que a humanidade viva cada momento como sendo de profundas transformações. A sociedade contemporânea tem se caracterizado como uma sociedade consumista e isso tem afetado as relações humanas, o que nos permite falar em novos paradigmas da moral social.
Hoje, esperar que as pessoas que vivem em sociedades de consumo venham restringir o consumo é algo não imaginável e até utópico. Como seria possível viver sem carro, tecnologia, avião, conforto doméstico, ar condicionado, geladeira? E cada vez esses bens de consumo tornam-se mais sofisticados atendendo a uma demanda desenfreada. Esses chamados “luxos” fazem parte da vida das pessoas e estão cada vez mais presentes na cultura de consumo de todo o mundo.
Embora, seja uma característica da sociedade contemporânea, a cultura de consumo é resultado de séculos de desenvolvimento e que hoje é ampliada e difundida nos países emergentes. A preocupação com o quadro em que se encontra o mundo atual evidencia uma falta de cuidado com o conceito de sustentabilidade no comportamento consumista das sociedades, principalmente das ocidentais. Daí a ênfase que tem sido dada na necessidade de uma mudança radical nos padrões culturais de consumo dominantes. Uma nova atitude de rejeitar o consumismo e adotar uma nova consciência voltada para uma cultura de sustentabilidade.
Por consumismo, entende-se como uma orientação cultural que visa à busca de satisfação e de significado através da aquisição de bens e serviços de forma excessiva. A mudança no padrão de consumo atual envolve muito mais do que a adoção de novas tecnologias ou de políticas governamentais. O que se deseja é uma mudança de mentalidade que passa pelo abandono da lógica que fundou a sociedade da indústria de consumo – baseada em um domínio ilimitado do homem sobre a natureza – e que adote a consciência de que somos parte de uma totalidade complexa em que as coisas possuem valor em si mesmas e que dependemos delas para existir – o resgate do ideal franciscano. Uma consciência de sustentabilidade que atraia indivíduos, independente de suas convicções, a se filiarem a um ideal de lutar pela existência e assumam o compromisso de ser a comunidade daqueles que amam a natureza porque amam a Deus que a criou.

terça-feira, 29 de junho de 2010

Coragem para vencer / Courage to win / Coraje para superar

Nesse tempo de competições globalizadas, surge a pergunta: o que faz um time, um técnico, um atleta ser um vencedor e outro não? Ninguém quer ser um perdedor, em nenhuma circunstância.
Perder é sinônimo de fracasso, incompetência. O mercado exige o vencedor, valoriza a intrepidez, a ousadia, a raça. E isso acaba virando sinônimo de coragem. O que não nos damos conta é que a coragem pode servir para tudo, tanto para o bem como para o mal. Ser vencedor não quer dizer absolutamente ser corajoso e nem sempre aquele que vence é o que possui tal virtude.
A coragem é a virtude de entender quem somos e, ainda assim, enfrentar os riscos de se atingir um objetivo maior. É uma forma de inteligência que nos ajuda a enfrentar o medo, a tomar decisões e a agir.
Ser corajoso não é viver sem medo nem ser ousado diante dos perigos, mas é colocar a vida em risco por uma causa que vale à pena ou mesmo tomar a decisão de se preservar. O covarde ou medroso é dependente de seu medo, mas o corajoso é aquele que orienta a sua ação entre a ousadia e a prudência.
Em nossa cultura, aprendemos que temos o controle de nosso sucesso ou fracasso. Queremos ter o controle de tudo, do outro, dos resultados, das causas. Isso faz com que o sentimento de culpa ganhe um novo sentido, o medo de fracassar.
Esse medo se justifica diante dos desafios e metas que traçamos para nós mesmos, quando nos perdemos em meio às exigências de superar as nossas deficiências em face da competitividade da vida. E é assim mesmo. As oportunidades não são iguais para todos e não há espaço para todos. Mas ninguém precisa se sentir inferior por isso.
A coragem está no fato de que podemos seguir adiante, apesar das circunstâncias, na certeza de que o melhor de Deus pra nossa vida está por vir.
(Artigo publicado no jornal Orla.com Você, junho de 2010)

sábado, 12 de junho de 2010

Experiência de Deus na pós-modernidade / Experience of God in postmodernity / La experiencia de Dios en la postmodernidad


Vi a Charge do Angeli e não resisti à tentação de copiar para compartilhar exclusivamente neste espaço. Ela retrata com muita propriedade a concepção que se tem da experiência de Deus na pós-modernidade. É exatamente isso. Sem comentários. Disponível no Uol >>.

Assista:

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