quinta-feira, 30 de junho de 2016

O versículo mais fofo da Bíblia / The cutest Bible verse / El más guapo versículo de la Biblia

O Senhor o assiste no leito da enfermidade; na doença, tu lhe afofas a cama.” Salmos 41.3 ARA
Uma antiga tradução em português do Salmo 41.3 diz que Deus “afofa” a cama dos doentes durante o período de enfermidade. Não é fofo isso? O curioso é que só essa versão, que é a Revista e Atualizada de Almeida, apareceu assim. Outra versão antiga chegou a dizer: “tu lhe amaciarás a cama”. Já a versão mais recente, a Nova Tradução na Linguagem de Hoje, diz: “Quando estiverem doentes, de cama, o Senhor os ajudará e lhes dará saúde novamente”. A versão mais corriqueira, que inclusive se encontra no inglês e no espanhol também, é de que Deus nos sustenta no tempo da enfermidade e que tem o poder de nos restaurar da doença.
O que levou o tradutor daquela versão chegar àquela conclusão, a construir a figura de uma pessoa tendo todo cuidado para oferecer ao doente um leito macio e aconchegante para que suportasse o seu flagelo? Muitos comentaristas bíblicos ofereceram várias alternativas para a expressão que se encontra em hebraico. Teve quem disse que Deus torna a cama confortável, que Ele muda a cama de posição para que o enfermo se levante e até que Deus transforma a cama do doente em uma cama de saudáveis e curados.
O fato é que os salmos são ricos em poesia e, especialmente este, falam de uma forma sublime sobre o cuidado de Deus. Eugene Peterson, em sua versão conhecida como A Mensagem, o reescreveu assim: “Como é feliz aquele que dá alguma dignidade aos desafortunados: você se sentirá bem — é isso que o Eterno faz. O Eterno toma conta de todos nós e nos faz resistentes para a vida, afortunados por estar na terra, livres dos aborrecimentos dos inimigos. Se estamos doentes e acamados, o Eterno é nosso enfermeiro: ele cuida de nós até a recuperação.”
Exegeticamente falando, os termos hebraicos trazem duas ideias. A primeira, a de alguém que se encontra deitado atingido por algo que lhe acomete; a segunda, a de que a ação divina alcança todo tipo de leito e todo o tipo de enfermidade. Então, Deus pode fazer o que quiser com a cama, mudá-la de posição, mudar o enfermo de posição e até torná-la desnecessária. Nesse caso, a ideia de que Deus afofa a cama do doente com todo o cuidado é a que mais se aproxima do sentido original.
Podemos encontrar no versículo duas possibilidades. A primeira é a compreensão de que Deus se coloca como um enfermeiro junto ao doente para cuidar de seu repouso. A segunda é a afirmação de que Deus transforma toda situação que nos abate: ele transforma dor em alegria, angústia em esperança, sofrimento em felicidade. Uma vez que o salmo em si trata da enfermidade e da adversidade desde o começo, é possível perceber que Deus cuida de nós em meio a tudo aquilo que nos deixa prostrados.
Para um tempo em que a medicina era tão precária e que a doença fatalmente terminava em morte, restava ao doente depender unicamente do Senhor. Para muitos, naquela época, a doença era resultado do pecado ou da desobediência a Deus. A enfermidade era uma ameaça para o doente, para a família e para a sociedade. O medo do contágio e a culpabilização do doente transformavam o enfermo em um solitário. Não havia pior adversidade do que ser abatido pela doença.
Nesse sentido, a ideia de doença pode ser entendida como uma metáfora daquilo que nos incomoda, que altera a nossa normalidade e que é algo que precisamos nos livrar. O desejo primário é de que sejamos libertos milagrosamente e que a vida volte a uma certa normalidade. Mas Deus sabe que, na hora da adversidade, o que mais precisamos é de encorajamento para seguir adiante. Só quem já teve que passar por longos períodos em um leito sabe o quanto uma cama confortável e adequada é importante.
A ideia de alguém que afofa a cama na hora da enfermidade faz parte do imaginário popular evangélico do Brasil, por conta dessa tradução que foi largamente usada pelo segmento pentecostal. E ela faz muito bem. Ajuda a enfrentar o período da luta, da dor e da enfermidade como um tempo para descobrir que Deus está ao nosso lado como alguém que cuida.

domingo, 26 de junho de 2016

Ele levanta o necessitado / He raises the poor from the dust / El levanta del polvo al pobre

Levanta do pó o necessitado e, do monte de cinzas ergue o pobre; ele os faz sentarem-se com príncipes e lhes dá lugar de honra [...]” 1 Samuel 2.8
No dia que Ana levou o seu filho ao templo para consagrá-lo ao Senhor, ela fez uma oração incomum. Em primeiro lugar, porque estava exultante de alegria por Deus ter atendido ao seu clamor. Em segundo lugar, porque ela reconhecia quem Deus era e quem ela era. Poucas vezes oramos assim.
A alegria por alcançar uma graça, por ser socorrido na aflição, por receber o consolo na hora da angústia, por sentir alívio na dor, por ver o milagre acontecer é inevitável. Até mesmo incrédulos e hereges podem se sentir alegres por uma solução sobrenatural de seu problema. O difícil é admitir que eu sou quem de fato sou e que Deus é quem de fato é. Eu sou humano, um ser criado e contingente, que não mereço nada de Deus. E Deus é um ser necessariamente amor, que não precisa que eu faça absolutamente nada para me amar.
A pergunta que me vem à cabeça é: o que pode fazer com que eu reconheça que Deus age como Deus, na medida que não sou merecedor de nada?
Deus é quem nos dá força e coragem para atravessarmos os dias maus.
Deus nos abençoa com a dádiva da fé a fim de que possamos ver as portas que só ele pode abrir.
Deus sinaliza a sua presença entre nós, ele dá sinais de que está ao nosso lado em todo tempo.
Deus manifesta a sua vontade na medida em que estabelecemos uma relação de pertença a ele.
E o que pode fazer com que eu expresse o meu reconhecimento pelo que Deus faz?
Ana foi um raro exemplo do que pode fazer uma pessoa agradecida. O que ela mais desejava era ter um filho. E quando ela alcança esse desejo, encontra Deus que a preenche de alegria e realização. Como sinal de sua gratidão, ela consagra a Deus seu maior desejo. Aquela mulher que vivia triste e humilhada, agora podia levantar os seus olhos e dizer quem é Deus para ela, aquele que ergue do pó o necessitado para o colocar em um lugar de honra.
Essa expressão de Ana tornou-se tão significativa para a espiritualidade do povo de Deus que foi repetida em canto pelo salmista: Ele levanta do pó o necessitado e ergue do lixo o pobre, para fazê-los sentar-se com príncipes, com os príncipes do seu povo” (Salmos 113.7,8). Que esta seja a oração do seu povo, que este seja o nosso canto.
(Foto: Sebastião Salgado.)

sexta-feira, 24 de junho de 2016

“Brexit”, crise e retrocesso: o mito de Europa revisitado / "Brexit", crisis and regression: Europe myth revisited / "Brexit", Crisis y el retroceso: El nuevo mito de Europa

Na mitologia grega, Europa era uma princesa que, quando estava à beira da praia, sonhando com a liberdade de viajar livremente pelos mares, despertou os desejos de Zeus. Tomado por uma paixão incontrolável e pelo medo dos ciúmes de sua mulher, Zeus se transforma num dócil touro e se oferece à Europa para que ela passeasse sobre seu dorso. Quando a atraiu, Zeus a sequestra para a ilha de Creta, assume a forma humana e lá vive com ela e tem três filhos.
Neste dia histórico de 24 de junho de 2016, a decisão do plebiscito no Reino Unido de romper com a União Europeia reacende o que está por traz do mito: o desejo onipotente de possuir o “velho mundo”, de transformá-lo em um bloco sólido e competitivo. Esse sonho hoje é colocado em risco.
O que está por trás dessa decisão é o avanço da extrema direita nacionalista e a crise que envolve os refugiados, dois problemas graves que perseguem a Europa nestes tempos de crise econômica e de instabilidade mundial. O Reino Unido é o país que mais recebeu imigrantes: mais de meio milhão entre europeus e não europeus. A decisão disfarça a xenofobia, mas também esconde seu real motivo: a crise econômica que afeta a Europa.
As regras de livre circulação afetam a autonomia dos países da UE para barrar a chegada de refugiados. Isso sobrecarrega os programas sociais, de educação e de saúde, além de diminuir a oportunidade de empregos para os nacionais. Porém, é bom lembrar que a maior parte das exportações britânicas se destinam à União Europeia. Essa relação econômica é que gera muitos empregos e renda para o Reino Unido. Além disso, o crescimento dos atentados terroristas na Europa – sobretudo na França e na Bélgica – despertam preocupações com a segurança interna e a defesa de interesses com relação à política externa na luta contra o terror.
O que esperar disso? Além do fim da centralização das políticas econômicas, do fim da livre circulação de pessoas e da revisão dos vistos de permanência dos imigrantes, é possível prever que aconteça um efeito cascata, com o aumento de número de países em que partidos de extrema direita vão forçar para que se adote o mesmo procedimento britânico, o que revelaria um sentimento anti-europa unida latente. É possível prever também o retrocesso na política externa dos países que formam o bloco europeu, relembrando os critérios que marcaram os períodos em que foram deflagradas a Primeira e a Segunda Guerra mundiais e a guerra fria.
Como afirmou a revista britânica The Economist, o plebiscito revelou um Reino “desunido”, uma Grã-Bretanha nem tão grande assim. O que se espera é uma economia menos vibrante, com menos emprego, menos receita e mais austeridade. Uma vez que aquilo que era impensável há um ano atrás tornou-se uma realidade, a Europa e a Inglaterra caminham em direção ao desconhecido.
O sonho de uma Europa unida fracassou. Embora o parlamento europeu e países como Alemanha, França e Itália defendam uma retomada das negociações sobre o fortalecimento da União Europeia, a decisão britânica vai exigir uma revisão de práticas econômicas na zona do Euro e a reorientação das políticas internas, com a repactuação e a reformulação do tratado Europeu.
Hoje é a Europa que desperta de sua paixão pelo sonho de onipotência. Isso é um sinal de alerta para outros blocos políticos e econômicos, principalmente os que o Brasil toma parte: o Mercosul e os Brics. Com a União Europeia fragilizada, o mundo tornou-se mais vulnerável. As rápidas transformações pelas quais a humanidade passa exigem o fim das ilusões. Quem está em crise de fato é o capitalismo mundial, com sua preocupação em concentrar renda e aumentar o controle das formas de produção da riqueza. A Europa está desiludida e junto com ela o capitalismo que inventou.

quinta-feira, 23 de junho de 2016

A construção da confiança / Building trust / La construcción de la confianza

Já se foi o tempo em que as pessoas iam à venda e só a palavra bastava para fechar um negócio, em que só o nome ou o título de alguém era suficiente para conferir credibilidade, em que o que se lia na mídia possuía veracidade. O nosso tempo está carregado de uma quantidade enorme de informações que não conseguimos processar, e isso afeta todas as nossas relações. Vivemos num tempo em que as pessoas desenvolveram a habilidade de dialogar com novas formas de inteligência, sejam elas racionais ou mesmo artificiais, e isso se reflete nas relações de confiabilidade.
O relacionamento em rede possibilitou registros pessoais da vida privada de todo mundo, que podem ser checados rapidamente por um amplo e complexo sistema de busca pela internet. A vida passou a ser marcada pelo que cada um registra, curte e compartilha por redes sociais. O excesso de informações pessoais interfere cada vez mais em nosso comportamento, o que pode ser notado ao começar relacionamento, ao se contratar um funcionário, ao se realizar uma compra ou mesmo ao se fazer um novo procedimento terapêutico.
Isso traz à tona o dilema da confiança. Confiar é algo que exige uma fonte segura de informação, que já não é mais unívoca, pois cada vez mais encontramos dados em sites de busca, em redes sociais e noticiários em tempo real. A maneira como as pessoas processam essas informações e interpretam esses dados estabelece uma nova forma discursiva de lidar com a realidade.
Isso afeta o ritmo das relações que construímos. Nossa individualidade está exposta através de imagens, curtidas, interações e opiniões que estão à disposição de qualquer interessado. O sentido do público e do privado ganhou novo contorno com as novas formas de exposição. O privado deixou de ser restrito ao campo da intimidade e os espaços públicos incluem as interações digitais.
Exemplo disso é o político flagrado acessando site pornográfico em plena sessão parlamentar, a revelação de gravações de conversas particulares para dar validação a interesses duvidosos, o vazamento de fotos sensuais registradas nos celulares de celebridades, a divulgação de imagens íntimas para atingir o outro quando o relacionamento acaba. Há nisso tudo um certo jogo de tornar público o que é privado e de considerar privado aspectos subjetivos, mesmo que isso esteja na contramão do interesse coletivo e do bem comum.
A construção da confiança hoje é uma conquista que depende de uma quantidade enorme de fontes de informação de tal modo que a verdade ficou menos evidente, ou no mínimo corresponde menos ao real. Os relacionamentos virtuais e a as narrativas permitem mais o falseamento e exigem das pessoas um exercício maior de investigação. A afirmação da confiança, por assim dizer, passa por outras formas de construção. Todos acabamos nos tornando stalkers – pessoas que buscam informações invadindo a privacidade alheia – para tomarmos decisões sobre com quem nos relacionamos, o emprego que vamos ter, os serviços e pessoas que vamos contratar e até o diagnóstico médico que vamos seguir.
Quem nunca vasculhou a vida de uma pessoa antes de aceitar uma amizade pelo Facebook? Quem nunca procurou saber sobre a descrição e a profilaxia de algum mal súbito que lhe acometeu? Quem nunca consultou a Wikipedia para se informar sobre assuntos desconhecidos? Quem nunca examinou guias de viagem na internet antes de sair de férias?
Estas ações vão se tornando cada vez mais superficiais na medida em que comportam uma diversidade de informações, assim como vão se tornando cada vez mais efêmeras na medida em que exigem um envolvimento maior. A espiritualidade que emerge desse quadro comporta tanto uma pluralidade de possibilidades como também uma superficialidade das práticas. Do mesmo modo que revela uma necessidade, perde-se pela falta de comprometimento, uma vez que todas as formas se parecem identificadas com as relações fluídas do nosso cotidiano.

domingo, 19 de junho de 2016

Enquanto dormimos / So he giveth his beloved sleep / Á su amado dará Dios el sueño

“[...] ele supre aos seus amados enquanto dormem.” Salmos 127.2 (ARA)
O que tem tirado o nosso sono? A defesa da família, a violência da cidade ou a crise econômica? A preocupação com a família desperta o cuidado com os nossos relacionamentos. A segurança na cidade tem a ver com questões de justiça. Os problemas econômicos afetam diretamente o bem-estar das pessoas. E estas são as causas dos maiores conflitos que afetam as pessoas atualmente.
O salmista entendeu que todas essas preocupações são insuficientes – vãs, por assim dizer –, se Deus não estiver no controle dos problemas que envolvem os relacionamentos, a justiça e o bem-estar. Cuidar disso sem levar em conta o que Deus pensa não passa de uma vaidade. É bom lembrar que a palavra vaidade na Bíblia tem o sentido de vazio.
Mas se Deus está no controle e se os critérios dele são levados em consideração na vida da família, na sociedade e até na conduta pessoal, então podemos dormir o sono dos justos, visto que Deus mesmo é quem supre nossas necessidades. Ele cuida de nós.
Isso não é um convite à preguiça. Não há nenhuma justificativa para abandonarmos o trabalho e o esforço. O que cabe a nós fazermos, sempre deverá ser feito, uma vez que aquilo que só cabe a Deus fazer ele sempre fará.
Não é uma fuga da realidade. Dormir é a parte reparadora de nossa atividade orgânica. Passamos um terço de nossa vida dormindo. Isso é essencial para repor as energias e nos prepararmos para o dia seguinte. O nosso relógio biológico já está programado para o processo de renovação de nosso organismo a fim de nos mantermos saudáveis, vivendo com mais qualidade e prolongando nossos dias.
Não é uma alienação. Quando dormimos, não entramos em um estágio de estagnação. As preocupações nos acompanham, por isso sonhamos. Nada como um dia após o outro para verificarmos a dinâmica da vida, que se refaz numa constante.
Bem, então surgem algumas perguntas. Quem são os amados a quem ele supre? Os mesmos a quem ele ama ao ponto de enviar seu filho unigênito. Deus cuida do humano e quer resgatar o que há de mais humano em nós.
Por que ele supre, se nos fez capazes de fazer escolhas e tomar decisões? Porque ele sabe que nossos projetos são fadados ao fracasso. Não temos o controle de nossos amanhãs, mas podemos ter a certeza de que ele já está lá.
O que ele nos dá enquanto dormimos? A condição de descansar, mesmo em meio à tormenta. Ele sabe que não somos capazes de fazer qualquer coisa para alterar as situações de tragédia, para evitar a calamidade ou mesmo para desfrutar o instante seguinte. Por isso que ele nos convida a descansar com ele.

Se Deus não cuidar da casa, em vão trabalhamos. Se Deus não cuidar da cidade, em vão nos protegemos. Se Deus não prover o sustento, em vão o granjeamos. Nele podemos descansar, pois é o único que tem cuidado de nós.

sábado, 11 de junho de 2016

Ser pastor / Be pastor / Ser pastor

E dar-vos-ei pastores segundo o meu coração, os quais vos apascentarão com ciência e com inteligência” (Jeremias 3.15).
O que acontece com os pastores de hoje? De todas as ocupações, é a que mais se encontra em descrédito, ao lado de políticos e advogados. Talvez seja assim por causa das mudanças pelas quais a sociedade passou nestes tempos pós-modernos, quando todas as formas institucionalizadas de religião foram colocadas sob suspeita. Talvez por causa da pluralidade de formas eclesiásticas e de espiritualidades que o segmento evangélico experimentou nessa virada de milênio, que afetaram em muito a noção de pastoreio. Talvez até, e acho que este é o motivo maior, por causa de uma nova moralidade que tomou conta da mente dos pastores de hoje.
O que se vê é que pastores têm se afastado do cuidado de pessoas para se transformarem em executivos que cuidam de um negócio, que veem a religião como mercado, tratam a fé como produto e se relacionam com ovelhas como clientes. Para muitos, a igreja é a sua empresa, a qual avalia a partir do orçamento e do patrimônio, e mede seu sucesso pelo número de adeptos que consegue agregar.
O que se vê é que pastores abandonaram os valores essenciais do evangelho, como a compaixão, a justiça e a misericórdia, para darem lugar a uma lógica que se tornou hegemônica, de satisfazer a necessidade das pessoas. O problema é que essa lógica está ligada à busca do prazer, à valorização do entretenimento e à solução de problemas imediatos de pessoas que são afetadas pelo individualismo, o consumismo e até a busca de autoestima. Transformaram-se em animadores e gurus de autoajuda, em vez de profetas proclamadores das boas novas do evangelho.
O que se vê é que pastores abandonaram a escuta, a meditação e a contemplação para sair em busca de métodos e fórmulas que proporcionem o sucesso na carreira, que faça a igreja crescer e se adapte à cultura de mercado que invadiu o mundo gospel. Com isso, deixam também de produzir conhecimento e de fazer teologia para reproduzir um saber formatado, que é transmitido sem reflexão crítica e base bíblica.
O que se vê são pastores autocentrados, que exercem lideranças solitárias, que têm medo da concorrência, que se apegam a um modelo, que promovem uma ideologia reacionária, que se sentem portadores de uma unção, que se valem de estratégias de poder para se manterem no cargo. Não é difícil achar pastores em busca de uma igreja para trabalhar. Difícil é achar pastores dispostos a pagarem o preço de servirem ao Reino, que fazem de Deus o seu patrão. Pastores assim existem, mas são poucos. Por isso muitas igrejas estão em busca de pastores, mas não sabem bem o que procuram, pois são elas as responsáveis pelos dilemas que o ministério pastoral atravessa.
Precisa-se de pastores pastores, que sejam vocacionados, que estejam dispostos a servirem de exemplos de uma vida transformada, que sejam habilitados na hermenêutica e na exegese bíblica, que tenham um conhecimento amplo do arcabouço que forma sua cultura, que assumam o risco de serem rejeitados por estar na contramão do mundo, que sejam sensíveis à voz dos mais vulneráveis, que sejam corajosos para denunciar as formas de exploração e de opressão. Não importa se são de tempo integral ou parcial, mas que tenham o coração voltado para as pessoas que compõem seu rebanho.
Ainda imagino o Senhor Jesus olhando as multidões aflitas e dizendo que a seara é grande e os trabalhadores são poucos. Se é Deus quem dá pastores para cuidar de gente, então está na hora de clamar por eles.
Feliz Dia do Pastor a quem, como eu, ouviu o seu chamado e insiste na caminhada apesar dos muitos conflitos que afetam o pastoreio.

quinta-feira, 9 de junho de 2016

Os sete pecados capitais / The seven capital sins / Los siete pecados capitales

O que nós conhecemos como sete pecados capitais corresponde a uma classificação de vícios usada nos primeiros ensinamentos cristãos para educar e proteger os fiéis dons excessos naquelas inclinações humanas mais básicas. Desde os primórdios, o cristianismo dividiu os pecados em dois tipos: os pecados que são perdoáveis por serem leves, e os pecados capitais, merecedores de condenação e penitência.
Para muitos teóricos ligados ao mercado corporativo, o segredo do sucesso está em saber tirar o melhor proveito dos pecados capitais. Para eles, pessoas bem-sucedidas não têm problema em cometer os sete pecados de forma equilibrada, se é que isso é possível. Porém, não adianta esperar resultados certos se não fazemos as coisas certas. Alguns até os chamam de prazeres capitais
Foi o teólogo e monge grego Evágrio do Ponto (345-399) quem escreveu, pela primeira vez, uma lista de oito paixões humanas, em uma ordem crescente de importância, que envolvem situações de pecado: a gula, a avareza, a luxúria, a ira, a melancolia, a acídia (ou preguiça), o orgulho e a vanglória. Esses sentimentos se tornam mais graves à medida que a pessoa desenvolve um comportamento egocêntrico. De todos os pecados dessa lista, o orgulho é o principal responsável por levar o pecador a alimentar uma atitude de se fechar em si mesmo.
Já no século VI, o papa Gregório reduziu essa lista a sete itens: juntou o orgulho com a vanglória, trocou a melancolia por inveja e a acídia por indolência. No século XIII, Tomás de Aquino fez uma análise sobre a gravidade dos pecados e propôs mais uma lista. Finalmente, no século XVII, a igreja romana definiu os sete pecados capitais, substituindo a indolência por preguiça.
Segundo Tomás de Aquino, os sete pecados são mortais não somente porque eles envolvem uma grande ofensa moral, mas porque promovem outros pecados, gerando uma corrente de pecados, vícios e erros, levando a própria pessoa e a sociedade a um caos moral. Eles nascem a partir do que o catecismo católico chama de tríplice concupiscência, que nos inclina sempre para o mal: a cobiça da carne, a cobiça dos olhos e a soberba da vida, com base na afirmação do apóstolo João em sua primeira epístola (2.16). Com o Renascimento, os sete pecados capitais foram popularizados e se tornaram conhecidos em todas as culturas do mundo.
Por que essas atitudes são chamadas de pecados capitais? A palavra “pecado” se refere a toda ação livre e consciente da pessoa humana em transgredir. O sentido original da palavra usada pela Bíblia hebraica para descrever o pecado é “errar o alvo”. Já a palavra “capital” vem do latim capita, que quer dizer “cabeça” ou “principal”. Ou seja, cada um desses pecados leva a outros pecados, outros vícios. São as causas para todo tipo de maldade e problemas que enfrentamos.
Falar de pecado na sociedade pós-moderna caiu em desuso. Vivemos num tempo marcado por uma pluralidade de valores em que não se pode mais definir o que é certo ou errado sem que isso venha ser questionado e relativizado. O que vale é a conquista de uma imagem púbica que resulte em um sentido de realização pessoal e do fruir de um prazer ao extremo. A nova moralidade está para além do conceito de bem e de mal.
A moralidade pós-moderna não é apegada a valores, mas àquilo que estabelece limites à liberdade individual. Pecado é ferir a dignidade humana, principalmente quando está relacionado às oportunidades de consumo. É uma moralidade ambígua, conforme defendeu Gilles Lipovetsky. Ao mesmo tempo que se promove um individualismo livre de qualquer regra, as pessoas têm desenvolvido uma atitude de vigilância da vida alheia, num comportamento que poderíamos chamar de ultramoralista.
O poeta francês Paul Valéry disse que “os homens se diferenciam pelo que demonstram e se assemelham pelo que são”. Afinal, o humano não se limita a uma definição categórica nem se presta a uma adjetivação. Somos bons e maus o tempo todo porque somos lançados no mundo para construir uma relação de liberdade e de responsabilidade. Liberdade para fazer escolhas e responsabilidade para suportar as consequências.
Diante das grandes transformações que o mundo vem atravessando, surge a pergunta sobre quais atitudes devemos assumir no contexto de uma sociedade plural. Como lidar com nossas paixões e insistente tendência para cometer erros? Ainda no século IV, o poeta cristão Prudêncio escreveu uma obra sobre a batalha constante entre vícios e virtudes que acontece na alma humana. É uma luta entre desejo e censura, entre o que se quer e o que se pode, que resulta na construção de nossa personalidade. Para cada pecado, Prudêncio associa uma virtude. Isso se popularizou em toda a Idade Média e chegou a influenciar a literatura de grandes escritores como Dante Alighieri e até de escultores renascentistas e do período barroco.
Para entender a relação entre pecados e virtudes, não basta estabelecer uma oposição, um dualismo. É preciso ir além e perceber que nossas ações demandam uma disposição firme de caráter, de inteligência e de vontade a fim de que possamos disciplinar nossas paixões e enfrentar as circunstâncias que exigem escolhas. Andrés Comte-Sponville diz que virtude “é uma força que age, ou que pode agir”. É uma forma de poder. O que é correto não é para se contemplar, mas para se fazer. E isso exige aprendizagem e esforço. A virtude tem a ver com aquilo que nos tornamos ao buscar uma vida mais excelente. É fazer da vida uma obra de arte. “Não há nada mais belo e mais legítimo do que o homem agir bem e devidamente”, disse Montaigne.
Paulo fala isso para o seu filho na fé Timóteo: “Atente bem para a sua própria vida e para a doutrina, perseverando nesses deveres, pois, fazendo isso, você salvará tanto a si mesmo quanto aos que o ouvem” (1 Timóteo 4.16). Você será mais conhecido por aquilo que faz do que por aquilo que acredita.

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