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sábado, 9 de setembro de 2023

Justiça Ambiental: desigualdade, desproporcionalidade e responsabilidade dos riscos / Environmental Justice: inequality, disproportionality and responsibility for risks / Justicia Ambiental: desigualdad, desproporcionalidad y responsabilidad por los riesgos

Nos dias atuais, assistimos a biodiversidade ser perdida em velocidade nunca vista antes. O futuro de nossas crianças e jovens está ameaçado pelas consequências das mudanças climáticas. É urgente que haja uma mudança de mentalidade a fim de que haja tratamento justo na distribuição de oportunidades entre todas as criaturas. A Justiça nos chama a uma conversão de natureza ecológica. À medida que nos juntarmos a esse rio poderoso de Justiça e Paz criamos esperança de um mundo melhor para todos e todas.

Para reverter o atual cenário da crise ambiental, as ações individuais não são suficientes, embora imprescindíveis. Precisamos de um poderoso movimento de Justiça, aliada à Paz, a fim de cobrar as ações de governos e do setor produtivo por mudanças. Esses são os principais responsáveis pela emissão dos gases poluentes e de resíduos que são lançados na natureza, bem como pelas políticas públicas que envolvem a preservação do meio ambiente.

A Justiça ambiental, que também é social, climática, hídrica e alimentar, envolve o pagamento de dívidas históricas. As conferências do clima promovidas pela ONU já reconheceram que, em nível global, as nações com mais poder e controle da riqueza têm o dever de lidar de forma justa e honesta em favor das comunidades que mais sofrem com os fenômenos ambientais e climáticos.

Preservar a biodiversidade, manter a expectativa de aumento do clima do planeta abaixo de 1,5° C de aquecimento global, promover responsabilização dos danos ecológicos, garantir acesso a direitos às comunidades mais afetadas pelos fenômenos climáticos e ambientais, buscar soluções justas e urgentes para acesso à água e à alimentação para todos e todas. Essas são ações que reacendem a esperança de um mundo melhor para todos e todas, para que um rio poderoso de justiça e paz inunde a vida no planeta.

O profeta Isaías anunciou no passado que Deus estava realizando uma grande obra de Justiça para toda a humanidade: “Pois estou prestes a realizar algo novo. Vejam, já comecei! Não percebem? Abrirei um caminho no meio do deserto, farei rios na terra seca” (Isaías 43.19). Sua misericórdia, bondade e amor, que são os Seus modos fazer Justiça, iriam fluir em abundância até nos desertos. Nos lugares onde há desigualdade e onde os riscos recaem mais sobre os oprimidos e carentes, ali vai jorrar o manancial de Justiça e de Paz que vêm do Senhor.

Somos convidados a nos juntarmos a esse rio de justiça e de paz em favor da criação e fazer convergir todos os nossos esforços em favor de uma nova mentalidade em que todos e todas tenham direito à Justiça ambiental, à Justiça climática, à Justiça hídrica e à Justiça alimentar. Como os afluentes se unem para formar um caudaloso rio, assim devemos agir juntos para que a Justiça e a paz fluam de forma poderosa.

domingo, 8 de janeiro de 2023

Crime anunciado contra a democracia: o Estado brasileiro diante de sua principal ameaça, nosso 8 de janeiro / Announced crime against democracy: the Brazilian State facing its main threat / Crimen anunciado contra la democracia: el Estado brasileño frente a su principal amenaza

 

O dia de hoje ficará marcado pelo pior atentado cometido contra a República Brasileira desde a sua redemocratização. Podemos chamar esse dia como o 8 de janeiro, quando um crime foi praticado contra a democracia, apesar de largamente prenunciado desde a divulgação dos resultados das eleições de 2022. Curiosamente, esse episódio acontece 2 anos e 2 dias depois da invasão do Capitólio, nos Estados Unidos da América, por apoiadores de Donald Trump. Aqui, vândalos e arruaceiros simpatizantes de Bolsonaro invadem os principais prédios do governo brasileiro: O Congresso, o Palácio do Planalto e a sede do STF.

O mais correto seria chamar esses manifestantes de terroristas pela quantidade de danos causados ao patrimônio público e a depredação das principais sedes governamentais, do centro do poder. Não são, nem nunca foram, movimentos pacíficos ou de acordo com a Constituição, como afirmou nesta semana o atual Ministro da Defesa do Governo eleito. São pessoas dispostas a praticaram atos de violência para imporem sua vontade política sobre uma nação inteira, desrespeitando assim o processo democrático.

Os manifestantes não agiram voluntariosamente. Houve uma articulação em várias partes do país, mobilizando ônibus e fomentando discursos de ódio, para trazer pessoas dispostas a promover o que os líderes vinham chamando de “guerra”. Além disso, pela natureza e forma de organização, pressupõem-se que haja financiadores e mentores dessa ação tramada para causar insegurança e colocar em xeque a autoridade do governo recém-empossado.

O Ministério da Justiça se preveniu convocando a atuação da Guarda Nacional. Porém, o Governo do Distrito Federal, cujo atual Secretário de Segurança é o ex-Ministro da Justiça de Bolsonaro, se mostrou leniente diante das ameaças dos atentados que se viram neste domingo. A própria polícia do Distrito Federal ofereceu apoio aos manifestantes em dado momento para que se aproximassem da Praça dos Três Poderes.

Esses atentados já haviam sido previstos por cientistas políticos e analistas desse momento histórico. Com base em outros acontecimentos, como a Noite dos Cristais do nazismo, as marchas fascistas na Itália e até mesmo a invasão do Congresso norte-americano em 6 de janeiro de 2021, era fácil imaginar que a sucessão de atos golpistas após o resultado das eleições iria resultar no que vimos.

Desde o dia 31 de outubro de 2022, assistimos à perpetração de diversos atos criminosos que não receberam o tratamento de acordo com a lei, como o bloqueio em rodovias, acampamentos em áreas militares, noite de vandalismo em Brasília, diversos atos de violência contra opositores e várias autoridades federais hostilizadas em espaços públicos. Em todos esses atos, verificou-se a inação daqueles que têm o dever de fazer cumprir a lei, como as polícias dos estados, a Polícia Federal, a Polícia Rodoviária Federal, o Ministério Público e até juízes.

O principal responsável pelo caos no Distrito Federal hoje não está no país para responder criminalmente. O fato de Bolsonaro não ter reconhecido a derrota na eleição e ter se omitido diante das manifestações criminosas que pediam ações inconstitucionais acabou aumentando a animosidade. O bolsonarismo se tornou um dos mais agressivos movimentos de extrema-direita no mundo, reproduzindo aqui cenas lamentáveis de intolerância, de preconceito e de desrespeito ao processo democrático.

Vai levar tempo para restaurar a normalidade. A única saída é a afirmação do poder do Estado para a garantia da ordem, através das aplicações dos instrumentos de regulação, como a Lei Antiterrorismo e a Lei de Defesa do Estado Democrático de Direito. Fala-se inclusive na intervenção federal na área de segurança de Brasília. A repressão direta poderia inflamar ainda mais os ânimos, embora esse teria sido o tratamento caso os manifestantes fossem outros.

O Brasil teve até aqui uma longa história de repressão às manifestações de movimentos progressistas, de trabalhadores ou de pessoas que lutam por seus direitos civis. Assistimos por décadas cenas de truculência policial, de uso de um forte aparato repressor contra aqueles que lutaram por direitos trabalhistas e previdenciários, por acesso à terra para plantar, pelo direito a moradia e até manifestações estudantis. Entretanto, os participantes dos atos terroristas de hoje são pessoas tidas como “pessoas de bem”, conservadores e até defensores da família, da fé, da moral e dos bons costumes. Um paradoxo diante da capacidade de se articular para cometerem a depredação que se viu.

Talvez o dia de hoje tenha sido necessário para pôr fim a uma hipocrisia que vinha sendo institucionalizada no país. A ideia de que quem pedia intervenção federal, ditadura militar e golpe contra a democracia eram pessoas pacíficas. Quem pede que se pratiquem ilegalidades como essas não estão bem intencionados. A democracia não combina com a ruptura da lei. Antes, para que vivamos num legítimo Estado Democrático de Direito é preciso que a lei se aplique igualmente sobre todos. Caso contrário, nos transformaremos em uma sociedade ingovernável.

A democracia garante direito à liberdade de expressão, mas exige o respeito às instituições criadas para que o Estado Democrático de Direito se realize. Esses insanos não podem ficar impunes.

(Foto: Folha de São Paulo, Evaristo Sá/AFP. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/poder/2023/01/bolsonaristas-sobem-em-teto-do-congresso-e-pm-reage-com-bombas.shtml).

terça-feira, 24 de março de 2020

Como manter a saúde mental durante a quarentena / How to maintain mental health during quarantine / Cómo mantener la salud mental durante la cuarentena


Após a segunda semana de impacto da chegada da pandemia, começamos a nos dar conta de que não estávamos preparados para um tempo longo de isolamento social. É como uma negação de nossa condição humana, que nascemos como seres que vivem em comunidade. O Coronavírus é um vilão que veio para destruir o sentido de comunhão, para afastar-nos uns dos outros. Mas ele não provocou nada novo. Já vínhamos fazendo isso de outros modos, mas veladamente, mantendo muitos disfarces para nos afastarmos uns dos outros, para sermos indiferentes com o outro.
A solidão, o isolamento, a indiferença são fatores que contribuem para o surgimento e o agravamento de problemas ligados à saúde mental. Medo, angústia, ansiedade, esgotamento, desespero e até depressão fazem parte de um elenco de males que podemos enfrentar em tempos de quarentena, se não cuidarmos de nossa saúde mental com o mesmo esforço com que cuidamos de nosso corpo. É interessante que, para a saúde física, há campanhas educativas para se lavar as mãos, usar álcool em gel, alimentar-se com as fibras das frutas e legumes, ingerirmos muito liquido, praticarmos exercícios. E para a mente, o que precisamos fazer?
Perguntei a minha esposa o que ela recomendaria. Solange é psicóloga clínica, com mestrado em psicologia do trabalho e organizacional, especialista em arteterapia e psicologia positiva. Sua experiência em tratar da saúde e do bem-estar das pessoas em relações coletivas fornecem contribuições interessantes para nós em um tempo como esse. Ela, então, parou suas leituras e anotou uma lista de perguntas que podemos fazer a nós mesmos. Veja o que ela escreveu:
“Como extrair coisas boas do isolamento social? Dicas para uma boa reflexão:
1.         Qual é o meu propósito de vida, qual o sentido e o significado dela?
2.         Qual é a minha missão aqui?
3.         Qual a importância da minha família, dos amigos e daqueles que não são tão próximos a mim?
4.         O que tenho feito até aqui? Devo continuar fazendo?
5.         Quem é a pessoa que me tornei? Devo continuar sendo?
6.         Qual a minha importância e missão no mundo?
7.         Qual a minha responsabilidade como ser humano?
8.         Como enxergo as pessoas que estão a minha volta?
9.         Tenho a compreensão de que o outro é a extensão de mim?
10.     Tenho feito algo em favor do crescimento do outro?
11.     Tenho doado um pouco do meu tempo para ouvir o outro falar das suas angústias?
12.     Quando eu não estiver mais aqui, será que deixarei saudades? Como contarão a minha história?”
Tudo leva a crer que essa quarentena pode durar bem mais do que a gente imagina. Em Wuhan, a cidade onde se deu o epicentro do Coronavírus, deve observar cerca de 76 dias de isolamento social. O primeiro caso de infecção foi registrado no Brasil em 26 de fevereiro de 2020. Mas, no Rio de Janeiro, a quarentena começou oficialmente hoje (24 de março), embora o governo estadual oriente medidas de contenção desde o dia 13 de março. As previsões no Brasil apontam que devemos ter que observar essa restrição por mais uns dois ou três meses. A recomendação para não sair de casa é séria e deve ser observada por todos. Não é só uma questão de esforço individual, mas uma consciência coletiva de que não há outra saída. Embora se fale de outras possibilidades, a sociedade não pode abrir de nenhuma delas.
Essa pandemia veio revelar sentimentos que possuíamos que estavam escondidos nas sombras: desprezo aos idosos, mentalidade consumista, egoísmo e despreparo para agir em comunidade. Mas também veio nos apontar que somos capazes de superar, de construir novas formas de relacionarmos, de ver o mundo de outro modo, de se abrir para o que está além de nós mesmos. A pandemia vai passar, a quarentena não vai durar para sempre. Uma boa iniciativa é começar a cuidar de nós mesmos para sairmos dessa situação  como pessoas melhores.
Minha esposa se chama Solange Maia da Silva Chaves, psicóloga, mestre em Psicologia Social com concentração em psicologia organizacional e do trabalho, e tem especializações em Marketing, Arteterapia e Psicologia Positiva. Se precisar de ajuda, deixe um comentário logo a seguir.

domingo, 22 de março de 2020

Coronavírus: Aprendizagens em tempo de calamidade / Coronavirus: Learning in times of calamity / Coronavirus: El aprendizaje en tiempo de calamidad


Que lições podemos aprender dessa pandemia que assola o mundo? Estamos em um tempo de calamidade. Talvez você esteja entre aqueles que não concordam com isso e até ache que há um certo exagero e uma histeria com isso. Mas não duvide que estamos apenas na fase inicial da contaminação e que a tendência – levando em consideração com o que aconteceu na China e com o que acontece na Itália – é que teremos tempos muito difíceis pela frente. Vai ser um tempo que vai exigir muito de todos nós, da economia e das políticas públicas. Os que são mais ricos terão que entender que será necessário abrir mão de seus ganhos em favor de quem não tem nada. Essa fase vai ser de muitos sacrifícios, e talvez de algumas perdas, e temos que nos prepararmos para o que está por vir a fim de ajudarmos uns aos outros.
Toda fase de crise tem uma lição a ser aprendida. Qual a lição que podemos tirar desse tempo de pandemia do coronavírus? Precisamos reportar a um momento da história do cristianismo para podermos encontrar caminhos de aprendizagem para hoje. O apostolo Pedro, ao orientar os primeiros cristãos diante das perseguições da época, disse: “para que, no tempo que lhe resta, não viva mais para satisfazer os maus desejos humanos, mas sim para fazer a vontade de Deus” (1 Pedro 4.2). Essa palavra serve para nós também. Estamos vivendo um tempo de perplexidade diante das possibilidades que estão por vir.
As pessoas mais conceituadas que têm emitido opiniões sobre os últimos acontecimentos e sobre o que podemos fazer diante do que está acometendo a humanidade em geral, todos usam uma palavra em comum: solidariedade. A única coisa que podemos fazer é sermos solidários. Essa palavra tem chamado a atenção das pessoas no mundo todo. A humanidade está perplexa. Chegamos a um ponto de descobrirmos que éramos orientados por uma grande ilusão. Tínhamos a ilusão de que possuíamos o controle de tudo, que a ciência poderia dar todas as respostas, de que tínhamos um sistema econômico que podia comprar soluções para todos os problemas, que detínhamos o poder nas mãos e que havíamos chegado ao auge de nossa capacidade de criação e de produção. Na Itália, as famílias não conseguem sequer sepultar os seus mortos nem se despedir deles.
Será que esse vírus não veio para dizer para a humanidade toda que somos limitados, que precisamos abrir mão de nossos preconceitos, que é hora de reconhecermos que somos membros de uma mesma família humana e vivemos numa mesma casa comum, que precisamos da graça de Deus em nossa vida? Há relatos de que as pessoas estão redescobrindo belezas naturais e valores sociais e culturais que haviam sido esquecidos. Tudo isso tem ajudado a vermos que a humanidade adotou um modo de vida completamente distante do propósito de Deus para a vida, diferente do que seria ideal para as pessoas, que vivemos até aqui um grande engano. No meio dessa dor, de luta e de busca de respostas contra o avanço do vírus, a gente começa a ter esses vislumbres de que estávamos errados até aqui, que alguma coisa escapou do controle e que está na hora de restaurar isso.
Em vez de ficarmos enclausurados esperando alguma resposta milagrosa chegar ou que algum remédio mágico possa ser encontrado, vamos aproveitar para aprender algumas lições a partir dessas situações dolorosas que estamos vivendo. No dia 22 de março, o filósofo italiano Domenico de Masi escreveu no jornal A Folha de São Paulo sobre sua perplexidade ao ver a gloriosa cidade de Roma, onde vive, vazia e sem ninguém nas ruas. Ele afirmou: “Talvez tenhamos aprendido que o caso agora é de vida ou de morte e que ninguém pode enfrentar sozinho um vírus tão ardiloso e potente”.
Isso lembra um conselho de Paulo a Tito: “[A graça] nos ensina a renunciar à impiedade e às paixões mundanas e a viver de maneira sensata, justa e piedosa nesta era presente” (Tito 2.12). Nesse tempo, precisamos descobrir o quanto estamos precisando da graça de Deus em nossa vida, o quanto carecemos do amor, da misericórdia e da compaixão de Deus. Essa graça maravilhosa, que faz falta na vida, foi deixada para trás. A humanidade a abandou em troca de conhecimento, de poder e de capacidade econômica. Mas é ela que vai nos ajudar a viver nesse tempo de maneira sensata, justa e piedosa, que pode nos levar a rejeitar paixões ilusórias, que vai nos libertar do engano que o conhecimento, o poder e a economia nos proporcionaram até aqui. Essa graça vai nos conduzir adiante para uma nova vida daqui para frente.
Se é isso que pode acontecer, precisamos pensar em alguns sentidos da graça, de como ela se realiza na vida. Há quatro sentidos da graça na vida que precisam ser resgatados. O primeiro deles é o da comunhão. Graça tem a ver com a oportunidade de estarmos juntos e de descobrirmos que o outro é o melhor retrato que temos de Deus para nós. Fazemos parte de uma aldeia global em que todos que estão produzindo alguma coisa em termos de conhecimento e de cultura importam. Precisamos descobrir que precisamos de todos e todas, de todos os saberes e de todas as formas de vida. O segundo sentido é o da solidariedade. Não se iluda, não há ainda (até este presente momento) um remédio na farmacologia para essa pandemia. A doença provocada pelo coronavírus só tem um remédio, que é a solidariedade. O terceiro sentido é o da esperança. As pessoas estão entrando em pânico, mas é preciso desenvolver a crença de que todos sairemos dessa, de que Deus está cuidando de nós e que precisamos fazer a nossa parte também. Isso nos leva a pensar que toda vida importa, que o nosso compromisso é de lutar até a última pessoa a ser salva. Precisamos estar juntos ao combinar nossas ações com o cuidado divino até superarmos tudo isso. O quarto sentido é o da humanidade. A graça nos ajuda a sermos humanos melhores, ela restaura o humano que há em nós, ela desperta em nós o desejo por atos que promovam a dignidade da pessoa humana. As políticas públicas, as práticas econômicas, as decisões corporativas devem estar voltadas para a garantia de direitos que valorizam a dignidade humana.
Esse tempo de calamidade, de pandemia, de peste é uma oportunidade para termos mais comunhão, sermos mais solidários, a termos mais esperança e a sermos mais humanos. A graça nos ajuda a construirmos essa condição. É preciso relembrar a experiência de Jó. Em meio aos momentos de aflição que enfrentou, ele não abriu mão de crer que á uma chance de restauração. Ele dizia: “Eu sei que o meu Redentor vive, e que no fim se levantará sobre a terra” (Jó 19.25). Os prognósticos apontam para o fato de que o quadro geral vai piorar. Mas tenha certeza que a vitória vai chegar e que poderemos enfrentar esse tempo juntos.

terça-feira, 12 de novembro de 2019

América Latina, decolonialidade e religião: provocações a partir da crise na Bolívia / Latin America, decoloniality and religion: provocations from the crisis in Bolivia / América Latina, descolonialidad y religión: provocaciones de la crisis en Bolivia


A América Latina passa por um retrocesso no cenário político. Depois de um breve período de ascensão social e econômica, alavancado pelo acesso de segmentos progressistas ao governo de alguns países, assistimos ao avanço das forças tidas como conservadoras retomando espaços que sempre foram dominados por uma oligarquia reacionária e patrimonialista.
Veja um brevíssimo retrospecto: assistimos a um golpe de Estado em 2009-2010 em Honduras, no Paraguai em 2012 e no Brasil em 2016. Em todos esses atos, havia uma questão de fundo – a atenção para com os direitos sociais – e uma estratégia – o uso do aparato militar em alguns casos de forma clara e, no caso do Brasil, de forma branda. Nesse meio tempo, as forças representativas da direita venceram no Chile, Argentina e Colômbia. O Peru tem passado por um complexo processo de afirmação política. Já neste ano de 2019, assistimos às tentativas de levantes de direita na Venezuela. Porém, os protestos populares no Equador e no Chile e a vitória da esquerda nas eleições argentinas e uruguaia (ainda que no primeiro turno) acenderam o alerta conservador. A tentativa de golpe na Bolívia é um sintoma disso.
Embora o quadro seja preocupante, não podemos nos esquecer de que a realidade latino-americana segue uma trajetória que se repete. A história da América Latina é marcada pela luta constante entre uma oligarquia branca, colonizadora, e forças políticas representativas dos trabalhadores, dos povos originários, de quilombolas e de quem sempre foi tratado como minoria. Os regimes ditatoriais que aconteceram desde a década de 1960 são a prova disso.
Nos últimos levantes populares no Equador e no Chile, bem como no golpe de Estado em curso na Bolívia, pode se notar a face explícita de um fascismo presente. A história se repete como farsa. Oligarquias se valem do fascismo, do fundamentalismo religioso e do neoliberalismo para exercerem o poder como sempre fizeram. Tempos difíceis se aproximam, de muita luta por parte dos oprimidos. O que as forças políticas conservadoras não contam, porém, é que existe uma grande massa de pobres e miseráveis que não suportam mais a opressão.
Retomando uma afirmação de Boaventura de Souza Santos, em Epistemologias do sul, a América Latina é resultado de um processo de formação marcado por três grandes influências: o colonialismo, o patriarcado e o capitalismo. Porém, precisamos acrescentar mais um elemento nesse processo, que é a presença marcante da religião calcada na concepção sacrificial e punitiva, que exige vítimas para satisfazer as necessidades do poder. As elites sempre se valeram da religião para fortalecer as estruturas de dominação, e, nesses episódios mais recentes, para dar lugar a uma mentalidade fascista e neoliberal.
O colonialismo foi superado historicamente, mas as estruturas da colonialidade ainda resistem. O patriarcalismo reproduz o discurso dominante da supremacia branca. O capitalismo procura dar conta de uma agenda neoliberal, que retira direitos sociais e favorece o capital financeiro internacional, e não mais o capital produtivo. E tudo isso debaixo dos olhares consensuais da religião. Primeiramente com a bênção do clero católico romano, ultimamente com o apoio do fundamentalismo religioso tanto evangélico quanto carismático.
Quando o fascismo se aproveita da religião para dominar, aumenta sua força destruidora de forma avassaladora. Quando o neoliberalismo faz uso da religião, se torna o mais pernicioso e iníquo sistema econômico que já existiu. É a nova face do estado exceção que estabelece uma forma de dominação que produz mais desigualdade e injustiças sociais, que põe as instituições democráticas sob risco constante e despreza as conquistas do Estado Democrático de Direito. Resistiremos.

domingo, 29 de janeiro de 2017

Esperança como transgressão / Hope as transgression / La esperanza como transgresión

“Descanse somente em Deus, ó minha alma; dele vem a minha esperança” Salmos 62.5
A esperança é uma virtude de quem consegue enxergar além das circunstâncias. Ela é da ordem da transgressão. Crer que algo é possível apesar das circunstâncias contrárias não é um exercício de otimismo ou de pensamento positivo. Isso depende de uma disposição diferente de se esperar.
Não é à toa que a esperança é uma das três virtudes teologais. Juntamente com a fé e a caridade, a esperança é uma força que o Espírito Santo confere por graça ao que crê a fim de aumentar a confiança e fortalecer a que seja perseverante. Para quê? Primeiro, para que creiamos na veracidade das promessas divinas, mesmo quando tudo parece contrário. Segundo, para que pratiquemos a vontade divina, mesmo quando tudo parece dar errado.
A fé é o fundamento sobre a qual descansa a esperança, e a esperança alimenta e sustenta a fé. A esperança renova e vivifica a fé sempre de novo e cuida para que sempre de novo se levante mais forte, para perseverar até o fim. Como disse Calvino: “Se faltar a esperança, por mais que falemos da fé de forma genial e eloquente, podemos estar certos de que não temos nenhuma!”
A esperança, portanto, é o que nos encoraja a seguir adiante. Ela está presente quando somos capazes de rir na hora da dor, quando nos sentimos realizados na hora da perda, quando buscamos forças em meio à luta, quando mudamos o rumo em meio à crise. Nasce de nossas carências e nos impulsiona para a resistência contra o que nos impede de seguir em frente.
O poeta francês Charles Péguy cantou certa vez:
“O que me espanta, diz Deus, é a esperança.
Eu fico pasmo.
Essa pequena esperança que parece uma cousa de nada. [...]
A Esperança é uma meninazinha de nada. [...]
Entretanto é essa meninazinha que atravessará os mundos.”
A esperança é mais do que espera. Paulo Freire dizia que a esperança de que precisamos é a do verbo “esperançar”, e não a do verbo “esperar”. É ela que restaura o sonho e aponta um sentido. Por ela, um novo horizonte surge a cada instante que se avança. Ela é a expectativa da conquista, é o que proporciona esclarecimento e libertação. Sem esperança, a vida é só espera, viver não faz sentido algum, perde-se o horizonte e não há motivos para seguir adiante.
A falta da esperança é só perda. Enquanto a esperança nasce de nossas carências, a falta dela vem da alienação. A esperança encoraja, a falta dela cria uma relação de dominação. A esperança transforma, a falta dela favorece exploradores.
É preciso ter esperança neste tempo em que há tanto desespero. É preciso desejar como Paulo: “Que o Deus da esperança os encha de toda alegria e paz, por sua confiança nele, para que vocês transbordem de esperança, pelo poder do Espírito Santo” (Romanos 15.13).

domingo, 15 de janeiro de 2017

Inabalável: relação entre fé e cultura a partir de Daniel / Unshakeable: considerations about faith and culture from Daniel / Inamovible: la relación entre la fe y la cultura en Daniel

“Daniel, você é muito amado. [...]” (Daniel 10.11). 
Daniel é um exemplo de alguém que viveu a fé em seu tempo de maneira autêntica. Há uma relação entre fé e cultura e entre fé e realização histórica que não é levada em consideração pela maioria das pessoas que segue uma religião. A vida de Daniel, porém, conforme narrada na Bíblia, demonstra que ele enfrentou suas circunstâncias pessoais dentro de uma compreensão de seu tempo sendo perseverante e determinado em tornar-se um instrumento nas mãos de Deus para influenciar seus contemporâneos.
Daniel era um judeu de uma família nobre. Quando os caldeus dominaram a cidade de Jerusalém, em 605 a.C., ele e alguns outros jovens foram levados como escravos para Babilônia. O rei dos caldeus, Nabucodonosor, ordenou que fossem escolhidos aqueles mais capazes para que fossem preparados para servi-lo em seu palácio. E Daniel, juntamente com seus três companheiros Hananias, Misael e Azarias, estava entre os escolhidos.
Tomando por base a narrativa bíblica, dá para entender que Daniel passou o resto da sua vida naquela mesma região. Ele enfrentou várias situações que colocavam em risco sua vida, mas permaneceu firme em suas convicções de fé. Apesar de todas as provações, conseguiu desempenhar funções importantes dentro da dinâmica da vida social até o fim do império babilônico, que veio a cair diante do império medo-persa em 539 a.C. Mesmo na velhice, Daniel ainda serviu por alguns anos no governo desse novo império mantendo uma fé inabalável.
Sua fidelidade e determinação em fazer a vontade de Deus fizeram com que Daniel fosse reconhecido como um homem “muito amado” (Daniel 10.11). No livro do profeta Ezequiel, Daniel é mencionado como um dos grandes exemplos de justiça e retidão em meio a todo cenário do cativeiro babilônico, alguém tão digno como os exemplos de Noé e Jó (Ezequiel 14.12 e 20).
Essas suas credenciais permitiram que ele fosse usado pelo Senhor para ser portador de uma mensagem que trazia uma nova perspectiva história a respeito dos propósitos de Deus para a humanidade. Essa mensagem permanece viva e atual.
Através de uma linguagem simbólica, retirada da cultura de seu tempo, fica claro que ele apresenta o curso da história, apontando significados e esquadrinhando seu desenvolvimento até um final de acordo com um propósito divino. Sua narrativa demonstra que o Deus que criou o universo e a vida humana está no controle do tempo e conduz a história para um fim conforme a sua vontade.
Claro que isso não acontece sem que haja uma tensão entre os fatos históricos e as promessas divinas, entre os fenômenos culturais e a fé. O problema é que somos herdeiros de uma teologia que construiu uma separação entre revelação divina e realização histórica, entre fé e cultura. Porém, é preciso compreender que a as promessas divinas se realizam historicamente e que a fé deve ser expressa no contexto de uma cultura. E o livro de Daniel nos ajuda a compreender isso.
Para Daniel, a história humana e as manifestações sobrenaturais do poder de Deus estão inter-relacionadas. Por conta disso, podemos assumir uma atitude mais otimista diante de crises, catástrofes, conflitos e dominações. Essa compreensão bíblica da histórica nos ajuda a desenvolver a esperança e a ter uma mensagem encorajadora para aqueles que sofrem a opressão, a injustiça, a perda e a exploração.
Daniel nos ajuda a entender que a realização histórica necessita de um horizonte, caso contrário será sempre compreendida apenas como uma sucessão de acontecimentos. Os propósitos divinos apontam para um sentido da história. Por essa razão, o livro bíblico é considerado como parte de uma literatura apocalíptica, que aponta para o fato de que Deus está no controle da história, subvertendo relações de poder e trazendo seu reino aos homens a fim de que seus propósitos eternos se cumpram.

domingo, 13 de março de 2016

Seja um intercessor / Be an intercessor / Sea un intercesor

“Antes de tudo, recomendo que se façam súplicas, orações, intercessões e ação de graças por todos os homens; pelos reis e por todos os que exercem autoridade, para que tenhamos uma vida tranquila e pacífica, com toda a piedade e dignidade.” 1 Timóteo 2.1,2
Nunca precisou-se tanto de intercessores como nos dias atuais. Vivemos um quadro de crise moral, política e econômica que vem destruindo as esperanças de nosso povo.
É fato que a crise não é só brasileira, mas ela ganha contornos especiais no Brasil tendo em vista a nossa realidade socioeconômica e histórica.
É fato também que é uma crise historicamente construída. Suas bases estão ligadas muito mais às forças de dominação que atuam sobre nossa terra, desde que Pedro Álvares Cabral deixou aqui um degredado e que se aprofundou desde que as oligarquias destituíram o imperador para dar início à famosa república “café com leite”.
A crise atual cria um quadro que ameaça o Estado Democrático de Direito – conquistado a duras penas –, que põe em risco a paz social, que aprofunda as desigualdades sociais e que compromete as conquistas sociais até aqui construídas.
Com base na nossa crença, podemos dizer que aquele que ora é um agente de transformação no mundo em que vivemos. Esta é a maior revolução que se pode realizar. Se alguém ora pelo fim de algo que aflige a sociedade, se solta o grito de “basta” como um clamor em nome dos que sofrem, isso se torna um fenômeno capaz de restaurar a esperança.
Se você sabe pelo que orar, este é o primeiro passo para saber o que fazer. É preciso se dar conta de que as formas pelas quais o poder se organiza na sociedade são complexas e dependem da atuação de diversos entes em várias instâncias e esferas. Não basta encontrar um culpado, uma vítima ou um herói. Nesse processo, estamos todos implicados.
Ore para que haja paz nas cidades; ore para que a justiça prevaleça; ore para que os mais desprovidos sejam socorridos; ore para que as desigualdades sociais diminuam; ore para que haja oportunidades iguais para todos. Se você está consciente disso, interceda por aqueles que têm a responsabilidade de colocar em prática os mecanismos para que seus motivos de oração se estabeleçam.
Seja um intercessor pelas autoridades, diz Paulo ao jovem Timóteo. Meus pastores me diziam isso também em plena ditadura militar. Para mim, especialmente, foi muito difícil colocar em prática. Mas obedeci clamando por uma mudança de coração em favor daqueles que sofreram.
Num tempo de polarizações, intercessor não é aquele que está de um lado ou de outro, mas o que sabe encontrar o equilíbrio. Interceder é colocar-se no meio, entre o que carece e aquele que pode de fato socorrer.
Pense nisso. O maior protesto que um cristão pode realizar é aquele que parte do sentimento de compaixão por aqueles que sofrem. A intercessão é a atitude que está ao nosso alcance para transformar a realidade em que vivemos.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Liberdade de expressão sob ameaça: reflexão a partir do ataque a Charlie Hebdo / Freedom of expression under attack: “Je Suis Charlie” / Libertad de expresión amenazada

O 7 de janeiro vai ficar marcado como mais uma data divisora neste começo de século XXI. O terror vai impondo a nós uma agenda em que o calendário vai se enchendo de datas que nos fazem chorar por causa da intolerância. Tal como o 11 de setembro, que atentou contra os símbolos econômicos e políticos do ocidente, agora o que está em questão é a liberdade de expressão, cara conquista da cultura ocidental.
Quando a liberdade de imprensa é atacada, estamos todos vulneráveis. O atentado contra a equipe da revista Charlie Hebdo foi um golpe contra a liberdade de expressão, um ato de intolerância, uma violência contra a democracia, além de ser uma grande perda para imprensa internacional, uma vez que ceifou a vida de seus principais articulistas.
Alguém pode argumentar que o jornal pecou pela irreverência, exagerou na dose com seu humor ácido. Nada justifica tal atrocidade, que, pelo requinte de crueldade e eficiência, foi sucintamente planejada e friamente realizada. Duas realidades estão em questão nisso tudo: primeira, o quanto estamos vulneráveis quando o assunto é respeito à liberdade e aos direitos individuais; a segunda é que este atentado na França é uma prova do que pode fazer uma espiritualidade sem compromisso com a humanidade.
Se uma ideologia, sentimento religioso ou mesmo uma convicção política é capaz de atacar a imprensa, que tem a arte e a palavra como defesa, o que fará de nós, mortais, que pensamos diferente? O conceito de liberdade, engendrado pelo liberalismo moderno, vai aos poucos sendo colocado sob ameaça. Essa tal noção, além de ser uma abstração, está longe de ser um direito desfrutado pela maioria. Dá a entender que liberdade como um bem comum será sempre um estado de permanente confrontação.
Além do mais, a ideia agir de tal modo para vingar um deus ofendido parece algo surreal, que nem mesmo nas histórias medievais mais espúrias daria para ser imaginada. Afinal, um Deus que precisa de quem o defenda ou de advogados é um deus fraco. O Deus vivo e verdadeiro é aquele que se deixa morrer pela ignorância dos homens, e não aquele que precisa ter sua ira aplacada por causa de ofensas, principalmente pela ação intolerante, sem compaixão, revoltada e violenta de quem o diz seguir.
Uma religião que não desenvolve nos seus seguidores a capacidade de autocrítica e que não permite rir de si mesmo é uma religião desprezível, desumana, risível e esquizofrênica. Seja ela qual for. Vale para fundamentalistas que há em todas elas. Vale também para a cultura. Ao que tudo indica, um mundo que se secularizou tanto, perdeu a capacidade de rir de si mesmo, de enxergar suas próprias incoerências. Um mundo tão sério assim é incapaz de pensar outros caminhos possíveis. Nesse mundo sem imaginação, fazer humor tornou-se uma atividade de risco.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Tragédia e espiritualidade / Tragedy and spirituality / La tragedia y la espiritualidad

Nós nos acostumamos a chamar os acontecimentos com dimensões catastróficas, dolorosos, acompanhados de muitas vítimas, diante dos quais nos sentimos impotentes, de tragédia. Na verdade, a palavra tragédia tem sua origem na Grécia antiga. Quer dizer literalmente “canto dos bodes”, talvez uma referência direta a Dionísio, o deus grego meio homem, meio bode, ou ao gemido desses animais quando vão para o sacrifício. O fato é que o trágico está ligado ao aniquilamento do ser, quando as coisas perdem sentido, quando a esperança se vai. Uma filosofia do trágico tem a ver com a reflexão sobre aquilo que provoca a calamidade e os resultados sobre a vida humana.
A tragédia se constituiu num gênero de drama entre os gregos. Por volta do século IV a.C., havia festivais e concursos para a apresentação dessas peças teatrais. Alguns autores se tornaram famosos, como Ésquilo, Sófocles e Eurípedes. Algumas de suas peças foram perpetuadas no tempo. Eram frutos de uma poética invejável, desenovolvida desde tempos remotos, com cânticos – ditirambos – dedicados a Dionísio, divindade grega ligada às orgias. Normalmente, representavam um conflito entre o herói e uma força superior, um esforço de superação de si e o desafio diante do sagrado, através do autoconhecimento.
A tragédia tornou-se uma inspiração para a filosofia platônica. Mas foi Aristóteles que desenvolveu um saber teórico a respeito dessa forma de arte, vendo nas representações o seu efeito catártico, a purgação da emoção dos espectadores. Para ele, a tragédia era uma forma elegante de tratar dos atos de grandeza do herói. Uma representação da vida – mimesis – que desperta a compaixão e o horror diante das terríveis dilacerações do herói trágico e o infortúnio que o destino lhe reserva. Com isso, o público deveria passar por uma espécie de exorcismo coletivo de suas paixões – catarse.
A filosofia estoica também foi influenciada pela tragédia, que serviu para demonstrar os efeitos que a paixão humana provoca e a necessidade do cuidado de si. Sêneca se referiu a várias peças para tratar do desespero humano, principalmente daqueles que se deixam guiar por suas paixões, sem lhes impor limites.
Foi com a influência cristã que a tragédia perdeu sua força. Com a ascensão do cristianismo, a principal representação passou a ser a do drama da cruz, a fim de levar o homem à experiência do encontro com Deus. Nem mesmo o Novo Testamento emprega essa palavra. Foi só na Modernidade que se desenvolveu uma reflexão sobre o trágico. Até o século XVIII, a tragédia foi estudada como arte poética a partir da concepção aristotélica. Mas foi com Schelling, Hegel, Schopenhauer e Nietzsche que se pode elaborar uma filosofia do trágico, tendo como base o conteúdo da tragédia.
É possível perceber um aspecto ontológico na tragédia, uma vez que está relacionada com o ser em si, com a essência de nossas contradições e o conflito que é inerente ao homem. Com a Modernidade, principalmente no século XIX, passou-se a construir uma visão do trágico que faz parte de uma visão do mundo. Nietzsche trabalhou a questão do trágico e da tragédia ao deslocar o tema do campo poético para a filosofia como forma de pensamento que elabora uma visão trágica do mundo. Ele mesmo afirmou: “Sou o primeiro filósofo trágico; os próprios gregos ainda foram moralistas.”
Para Nietzsche, a visão trágica do mundo se constitui numa alternativa ética, uma afirmação integral da vida para além do bem e do mal. A natureza humana comporta em si mesma dois impulsos, os quais ele chama de apolíneo e dionisíaco, como ideais oníricos. O apolíneo tem a ver com a contemplação do mundo imaginado e sonhado como perfeita harmonia, de beleza. O dionisíaco, por sua vez, corresponde a uma exaltação do trágico, uma referência ao modo como Dionísio renasce da destruição. Segundo o mito, Dionísio foi esquartejado pelos Titãs após nascer. Atena resgatou o seu coração e o entregou a Zeus, seu pai, que o engoliu e o fez nascer de novo. O impulso dionisíaco é o que nos devolve a nossa natureza e nos leva ao aniquilamento do sonho, para dar lugar a um novo sonho. É a concepção ativa do devir. Essa é a ideia do trágico. Nem mesmo um herói é capaz de escapar desse conflito entre o que se quer e o que se pode. Por isso que, segundo Nietzsche, a tragédia nos deixa um “consolo metafísico [...] de que a vida, no fundo das coisas, apesar de toda a mudança das aparências fenomenais, é indescritivelmente poderosa, e cheia de alegria.”
A calamidade é tragédia porque ela nos lembra quem somos e nos devolve à nossa realidade. O mundo de beleza e harmonia construído pelo homem não é seguro. Nem mesmo o mais poderoso é capaz de resistir aos efeitos desastrosos de uma catástrofe. E é isso que nos leva a indagar quem somos e o que fazemos. Ela nos ajuda a pensar em nós mesmos e a buscar um cuidado de si. O trágico também nos ajuda a pensar no outro, a sentir a dor do outro e, com isso, purgar a nossa própria dor. É o que nos leva a ser solidários e somar forças para ajudar o outro na sua superação, porque também é a superação de nós mesmos. O trágico nos remete ainda a Deus, quando nos perguntamos por ele e buscamos nele forças para superar a perda e o sofrimento. É o que lembra que somos criaturas e não criador, que somos homens e não deuses, que temos um pai amoroso pronto para nos acolher com amor, sarar nossas feridas e nos dar forças para recomeçar.
No dia da calamidade, o convite dos Salmos ainda parece ser o melhor caminho: “Aquietai-vos e sabei que eu sou Deus; serei exaltado entre as nações; serei exaltado sobre a terra.” Salmos 46.10.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

sábado, 21 de fevereiro de 2009

Avivamento: o remédio de Deus para a crise / The God's antidote to crisis / Aviva: la medicina de Dios para la crisis

Como será que Deus olha para a crise que estamos enfrentando? Muitos críticos da fé cristã têm acusado a Deus como um insensível às dores humanas. Afirmam que se Deus existe ele está ausente ou então é um Deus fraco. Mas é na sua fraqueza e ausência que Deus se mostra poderoso e presente.
A pergunta comum em meio à crise é: o que fazer diante de tantos problemas que temos atravessado? A Bíblia aponta para o fato de que, quando as coisas chegam a ficar fora do controle, essa é a hora de Deus agir.
A única solução para tempos difíceis é permitir que Deus se manifeste entre nós com seu poder e sua graça, de tal modo que possa deixar marcas profundas da transformação de vidas para a glória dele.
Essa manifestação especial do poder de Deus tem sido analisada e até mesmo buscada pela igreja evangélica como um tempo da visitação de Deus ao seu povo. O tempo da visitação especial de Deus ao seu povo tem sido chamado de avivamento.
Tem sido assim ao longo da história do cristianismo. Deus tem visitado o seu povo com ventos de avivamento em meio a momentos de grande enfrentamento.
O primeiro grande avivamento entre os cristãos está registrado na Bíblia. Foi quando o Espírito Santo inaugurou o seu ministério no Dia de Pentecostes, registrado em Atos 2.
Outros movimentos de avivamento continuaram a acontecer, como entre os cristãos celtas (do século V ao século IX), ou através de João Huss na Tchecoslováquia (no século XIV), a própria reforma protestante no século XVII, o movimento pietista europeu no século XVIII.
Mas o maior avivamento que já se tem notícia foi o que aconteceu na Inglaterra e na América do Norte no século XVIII, que resultou na maior expansão missionária da igreja em toda a sua história. A igreja evangélica brasileira é resultado desse mover de Deus.
Hoje, mais do que nunca, precisamos de uma visitação do Espírito Santo em todo o mundo. Alguns até identificam que esse novo tempo para a igreja significa o surgimento de uma atitude que entenda o coração do homem contemporâneo a fim de o conduzir em sua experiência com Deus.
O detalhe interessante é que, quando o avivamento acontece, é sinal de que houve antes um profundo declínio moral e espiritual. E é essa condição que nos permite entender que Deus possibilitou algo que restaura a nossa comunhão íntima com ele.
Note bem:
a) Para que o avivamento aconteça, é preciso que as pessoas reconheçam que precisam dele.
b) E se o avivamento acontece, isso é acompanhado por uma ardente paixão em atrair as pessoas para que participem de nossa experiência com Deus.
Ainda no século XIX, Spurgeon - um inflamado pregador inglês - reconheceu que muitos movimentos tidos como avivamentos causaram mais danos do que benefícios para a obra de Deus. Leonard Ravenhill faz a pergunta: por que tarda o pleno avivamento? Esse é o título de seu pequeno livro, muito antigo, sobre esse assunto. Dentre as muitas respostas que apresenta está o fato de que roubamos a glória que pertence a Deus.
Alguém um dia perguntou:
– Qual o segredo para o avivamento?
– Não há segredo. Ore! – Foi a resposta.

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Motivação para enfrentar a crise / Motivation to face the crisis / Motivación para hacer frente a la crisis

Qual é a sua motivação para enfrentar crises?
Veja em qual dessas atitudes você se enquadra:
a) A atitude do Leão da Montanha. Ele era um simpático felino rosa que se vestia com punhos e gola de uma camisa antiga, além de uma inconfundível gravata. É um personagem de desenho animado da década de 1960. O Leão da Montanha caiu no gosto do público graças ao seu charme, elegância e estilo. Educado, articulado e com um “ar” de ator canastrão, tinha uma estratégia para se livrar das crises: com o uso do jargão característico, “Saída, pela esquerda”, fazia menção do caminho para sair de cena. Seu perfil deixou uma marca inesquecível para os fãs da série: o genial jogo de cintura para sair de situações complicadas. Sua pose mais conhecida é justamente a em que coloca os braços em posição de quem vai sair correndo para fugir de uma confusão!
b) A atitude da hiena pessimista. Quem não se lembra também de Hardy, ainda na década de 1960, uma hiena que sempre via problema em tudo. Sua frase preferida era “Eu sei que não vai dar certo... Oh, dia, oh, céus, oh, azar...”, que virou um bordão conhecido. Seu companheiro era Lippy, um leão otimista, que sempre bolava planos curiosos para os dois se darem bem, mas Hardy, com todo o seu pessimismo, nunca acreditava que teriam sucesso.
Neste momento em que tanto se fala de crise mundial, gostaria de ajudá-lo a entender como é possível ter disposição para enfrentar tempos difíceis. Não é que você saia por aí procurando uma crise para viver. Você não precisa procurá-la. Ela virá até você, quer você queira ou não.
Segundo os dicionários da língua portuguesa, crise significa: um momento decisivo, uma alteração repentina no curso de algo. Vem da palavra grega krisis, que significa juízo, o que leva à necessidade de discernimento. John Kennedy lembrou, no auge da crise da guerra fria, em 1959, que a palavra crise no dialeto chinês é escrita com dois caracteres: o primeiro significa abismo, perigo, risco; o segundo, oportunidade.
Tenho para mim que a crise financeira atual, que se abateu sobre o mercado mundial, serve para trazer de volta a preocupação com as desigualdades humanas. Isso nos leva a pensar que a crise não é o problema em si, mas a maneira como somos afetados pelos problemas gerados pela crise. O modo como reagimos ao problema é que define a proporção da crise.
É certo que vamos enfrentar tempos difíceis, mas o que importa é que façamos disso uma oportunidade de crescer e aprofundar o nosso relacionamento com Deus e com as pessoas que nos cercam. Certamente há aquelas pessoas que, diante da crise, desistem. Mas há aqueles que, em meio à crise, encontram motivação para seguir adiante e tentarem de um outro modo.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Como enfrentar um tempo de crise / how to win in a time of crisis? / cómo ganar en un momento de crisis

O ano de 2009 tem sido anunciado como um ano de crise. Em seu discurso de posse, o presidente norte-americano Barack Obama reconheceu isso. Ele afirmou ainda: “Hoje eu lhes digo que os desafios diante de nós são reais. São sérios e são muitos. Eles não serão superados facilmente ou num curto período de tempo.”
Embora todos os indicativos apontem para um tempo de crise, a melhor atitude não é fugir ou ter medo. Mesmo que a crise não nos afete, a melhor atitude não é também olhar para os lados e simplesmente suspirar de alívio dizendo que isso não é conosco. A Bíblia nos aponta um caminho mais seguro para enfrentar esse tempo de crise.
Diante da crise, o salmista pergunta: “Quando os fundamentos estão sendo destruídos, que pode fazer o justo?” Salmos 11.3. Se a pergunta é: o que é possível fazer diante da crise? O conselho bíblico é: “Olhem para o Senhor e para a sua força; busquem sempre a sua face”. 1Crônicas 16.11.
Atitude correta daquele que confia no Senhor é reconhecer que, sem Deus, não há esperança, mas com Deus tudo fica bem melhor. “Temam o Senhor, vocês que são os seus santos, pois nada falta aos que o temem”. Salmos 34.9.
Pode ser que você diga que isso não te afeta, afinal a crise econômica não ameaça o seu emprego. Mas quando a gente houve falar que grandes corporações demitiram dez, vinte mil funcionários de uma vez, isso pode afetar toda a cadeia produtiva e, de alguma forma, um dia vai chegar até você. Quando se fala de demissões, não se fala só de números, mas de pessoas que têm compromissos, família, sonhos.
A atitude mais adequada, numa hora como essa que a crise toma a todos, é perguntar para você mesmo: de que maneira ou posso ajudar as pessoas a superar esse momento de crise? Ou então: como posso influenciar as pessoas que estão mais próximas de mim a enfrentarem a crise de um outro modo?
O mundo está em crise há muito tempo. A crise econômica atual é apenas um lado do problema. Gostaria de sugerir algumas atitudes para enfrentar crises, sejam elas de que natureza for. Em primeiro lugar, apresente para Deus seu problema. Jó não teve dúvidas. Veja o que ele fez: “Por isso não me calo; na aflição do meu espírito desabafarei, na amargura da minha alma farei as minhas queixas”. Jó 7.11. Reconheça a grandeza de Deus. Não importa o que aconteça, Deus não vai te desamparar. “Deus é o nosso refúgio e a nossa fortaleza, auxílio sempre presente na adversidade. Por isso não temeremos, ainda que a terra trema e os montes afundem no coração do mar, ainda que estrondem as suas águas turbulentas e os montes sejam sacudidos pela sua fúria”. Salmos 46.1-3 .
Peça forças ao Senhor. A Bíblia diz: “Recorram ao Senhor e ao seu poder; busquem sempre a sua presença”. Salmos 105.4. E, acima de tudo, mantenha o seu foco nas promessas divinas. “Por isso não desanimamos. Embora exteriormente estejamos a desgastar-nos, interiormente estamos sendo renovados dia após dia, pois os nossos sofrimentos leves e momentâneos estão produzindo para nós uma glória eterna que pesa mais do que todos eles. Assim, fixamos os olhos, não naquilo que se vê, mas no que não se vê, pois o que se vê é transitório, mas o que não se vê é eterno”. 2Corítios 4.16-18

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Crise de confiança no mercado financeiro / Crisis of confidence in financial market / Crisis de confianza en los mercados financieros

A crise que se abateu no mercado financeiro é uma crise de confiança. A confiança que está em questão está relacionada com a idéia ilusória e ingênua que tem sido apresentada, a de que fora do capitalismo não há salvação. Estamos assistindo inertes à agonia de uma ideologia neoliberal que invadiu o mundo corporativo. Uma ideologia que valoriza a aquisição de bens em que ter é representativo de ser, só que em uma perspectiva irracional: adquirir fortuna é mais importante que produzir bens e serviços.
O capital assumiu plenamente seu valor virtual. O problema dessa concepção – e que por isso a torna irracional – é de que se privatiza o lucro ao extremo. Nesse esforço, a política do Estado menor só é interessante para o mercado da iniciativa privada. Este, por sua vez, tem vida própria e precisa de autonomia para progredir e atingir o seu fim principal: o lucro. Esse mercado infalível, autônomo, precisa produzir movimentos especulativos. São as “bolhas” que são insufladas e tendem a estourar e gerar as crises financeiras.
O outro lado desse problema conhecemos agora. Se o lucro foi privatizado, os prejuízos, por sua vez, serão certamente socializados. Nessa hora da fuga de capitais, busca-se o Estado como única salvação. E é nesse momento em que se vê o tamanho do poder político: o Estado, que até então foi incapaz de solucionar os gigantescos problemas sociais, dispõem de recursos, como os que hoje são oferecidos, que seriam capazes de erradicar a fome mundial ou tirar da ignorância uma geração inteira com o incentivo ao ensino.
Somados os valores que cada Banco Central está injetando no mercado, isso equivaleria ao PIB de algumas potências mundiais. Dinheiro que servirá apenas para sustentar a estrutura e funcionamento do mercado formado por acionistas ávidos por lucratividade, não os meios de produção. O custo tende a ser maior porque, como conseqüência da crise, vem a restrição do crédito, que acarreta diminuição do consumo e da produção, que provoca diminuição do emprego formal.
Essas são as contradições culturais do capitalismo. Esse é o tempo do fim de todas as nossas certezas. O fracasso do capitalismo pode ser medido pela desilusão que a crise provoca. O mercado não pode mais ser o árbitro das relações econômicas e sociais, o ideal de ter não pode mais ser regido pelo consumo, os valores humanos não podem mais ser restringidos pelo progresso tecnológico. Não pode haver confiança onde há ênfase no risco.
O preço dessa crise será pago pelos cidadãos comuns. Mais uma vez, a conta da especulação vai se refletir sobre a camada mais pobre. Por isso que o mercado financeiro precisa ser inteiramente revisto. Mais do que isso, o capitalismo precisa ser revisto. Um outro mundo possível precisa ser tentado, aquele mesmo da utopia, que seja economicamente justo e politicamente democrático. Só que hoje com uma utopia a mais: a de ser ecologicamente viável. A dificuldade do mercado financeiro em resgatar o critério principal de sua sustentabilidade – a confiança – é uma prova de sua irracionalidade. Só que essa confiança não voltará. Não do mesmo modo. Virá com perdas dificilmente reparáveis para a camada mais pobre, mas também com o fortalecimento de uma nova mentalidade política que possa oferecer maior segurança. É o que veremos.

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Pânico, euforia e crise financeira / Panic in financial market / Pánico en los mercados financieros

O mundo mudou, e tudo indica que foi para pior. Há um temor por trás do atual colapso nos mercados financeiros. Esse temor é tão exagerado quanto a ganância que o provocou. O chamado “efeito manada” dos mercados de capitais é provocado por um pânico que tem causado devastação da capacidade financeira de bancos, empresas, nações.
A raiz do problema está na relação entre o investidor e o modo de gestão e financiamento de setores empreendedores. Como se sabe, um investidor adquire ações de uma empresa com o objetivo de ter participação nos seus ganhos. Ele não é o empresário, o empreendedor. Ele compra ações ou participações acionárias em uma decisão tanto racional quanto emotiva, em função de informações sobre o desempenho de determinada empresa. Mas ele mesmo não é o administrador e, por isso mesmo, não se ocupa da atividade da empresa, dos meios de produção e de rentabilidade. Ele não tem um compromisso com a prescrição de uma estratégia ou de uma determinada conduta comercial. Ele não decide acerca de investimentos, reorganização, política de pessoal, marketing e outras ações de gestão.
Em outras palavras, como mero investidor, ele deposita confiança na estratégia, nos conteúdos, nos objetivos e nas potencialidades de um capital produtivo e em sua administração. Essa confiança é o seu risco. Essa é a lógica racional do capitalismo.
Desde o início, o capitalismo enfatizou um modo de produção baseado numa concepção funcional abstrata do capital. Se no passado estava em jogo a produção e o consumo de bens concretos, reais, a confiança era depositada tanto na seriedade dos métodos administrativos quanto na qualidade e boa aceitação do produto. Hoje, a velocidade dos mercados financeiros e de suas rendas ditam o desempenho econômico. As decisões estão mais ligadas a aspectos subjetivos em face de uma limitação interna de valorização real do capital, que diminuiu a importância dos valores do trabalho humano. O capital se tornou um bem virtual e volátil.
A pergunta que hoje é levantada é: a reação do mercado a cada nova notícia é racional ou emocional? É preciso entender o que se passa na cabeça dos investidores em momentos de crise como o atual. Essa, porém, é uma tarefa complexa, pois não se trata de uma ciência exata, uma vez que a forma como as pessoas lidam com dinheiro varia muito. Faz-se necessário identificar alguns comportamentos comuns à maioria dos investidores.
Em recente entrevista à revista Exame, o estrategista de Investimentos Pessoais do ABN Amro Real Asset Management, Aquiles Mosca, explicou: “O ser humano tem a necessidade de fazer parte de um grupo. Se todos estão tomando determinada decisão, ele tende a agir da mesma maneira. Ninguém quer ser o último a sair da bolsa quando o mercado começa a cair”.
O “efeito manada” consiste nesse comportamento do investidor, que vai do pânico à euforia numa velocidade enorme. O investidor, nessa hora, age de forma inconsciente levado pela avalanche de informações veiculadas pela mídia. Se um determinado índice cai e isso provoca um comentário alarmante, a tendência é que esse comportamento de queda se perdure. Portanto, ganha mais quem resolve estar na contra-mão do “efeito manada” e sobrevive.
O pânico e a euforia diante dos índices das bolsas de valores são duas faces de uma mesma atitude, a expectativa de lucratividade com a virtualidade do capital. É possível ir de um polo ao outro com muita facilidade. E é isso que dá a dimensão da crise do mercado financeiro.

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