terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Renúncia do Papa Bento XVI e Missão da Igreja / Resignation of the Pope and the Church's Mission / Renuncia del Papa y de la misión de la Iglesia

A notícia do pedido de renúncia do Papa Bento XVI, no último dia 11 de janeiro de 2013, e a vacância do cargo no Vaticano, a partir de 28 de fevereiro, reacende a questão sobre a natureza e missão da igreja em sua dimensão histórica. Não é só pelo fato de ser um acontecimento único na história do cristianismo, mas porque deixa em aberto questões que perturbam o papel da igreja e a luta por sua relevância num mundo que aprendeu a viver sem Deus. Há 600 anos que um Papa não renuncia. Até mesmo muitos daqueles primeiros líderes cristãos – do século I ao IV –, que são apontados como os primeiros papas, deixaram o cargo pelo martírio.
Está claro que a igreja de Roma não é a única representação cristã no mundo. Entretanto, a sucessão no Vaticano afeta todos os segmentos cristãos. Os cismas com o Oriente e a Reforma Protestante permanecem uma ferida aberta difícil de ser cicatrizada. Há também os temas contemporâneos sem solução, como a relação com os conservadores radicais, o impasse da Teologia da Libertação na América Latina, o problema da pedofilia, o diálogo inter-religioso e os caminhos apontados pelo Concílio Vaticano II que não foram ainda vivenciados em sua totalidade pelo catolicismo.
Quando o Papa assume divulgar sua decisão de renunciar, há alguns implícitos nessa atitude. Primeiro, o de que a igreja é feita de pessoas que se deixam afetar e que sofrem afetos , que se sensibilizam com a fragilidade uns dos outros e que se veem reproduzidas naquele que assume a função de servir como guia. Segundo, o de que o papa é um ser humano com todas as suas dimensões humanas de imprevisibilidade e finitude, movido por expectativas e temores, fé e incertezas, esperanças e incompletude. Terceiro, o de que a igreja se rende ao domínio e à lógica do mercado, como uma instituição humana, que exige cada vez mais competência e desempenho para lidar com as questões que emergem de modo frenético nos embates atuais.
A igreja de Roma e o cristianismo como um todo se dão conta de que, para atender às demandas de um mundo que cada vez mais rejeita os discursos e as formas de dominação tradicionais, se faz necessário rever os paradigmas atuais. O que resta disso é que a figura do papa continua sendo agregadora, reunindo em torno de si um elemento que confere unidade ao cristianismo: a necessidade e a relevância de se manter a figura papal, ou não.
São sinais de mudança que trazem boas expectativas. Haverá um tempo em que a igreja terá que assumir sua condição humana e declarar que aquela fumaça branca do colegiado comporta algo muito maior que a sucessão do trono de Pedro. Haverá um tempo em que a igreja terá que admitir que o papel pastoral tem mais a ver com o serviço do que com a soberania. Haverá um tempo em que se acreditará que é possível intervir socialmente no mundo assumindo de vez que somos, todos os cristãos, o espaço em que Cristo toma forma no mundo. Esse tempo imagino que esteja chegando e que já deu o seu primeiro sinal.

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