segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Espiritualidade, fé e razão / Spirituality, faith and reason / Espiritualidad, fe y razón

Toda investigação sobre a razão leva a gente a compreender que ela não é suficiente para lidar com as contradições humanas. E o motivo é claro: a razão tem um a priori que é a própria vida. A modernidade ocidental, porém, construiu uma ideia de racionalização, envolvendo a religião, a política e o conhecimento, que fez a humanidade acreditar que o progresso é possível, desejável, inevitável e até irreversível.
Revivemos, com isso, o mito de Prometeu. Chegamos a desenvolver a crença de que a racionalidade, que valoriza a técnica e a ciência, é capaz de criar o mundo dos sonhos, de trazer o céu à terra. Há nisso um aspecto demoníaco da atitude humana que desperta um otimismo exagerado a respeito de si mesmo e sufoca a esperança ao que transcende o real. A razão moderna acabou por promover o divórcio entre o homem e a natureza.
Na verdade, essa razão moderna é ingênua, reducionista e desumanizante. Ao afirmar essa onipotência da razão, a própria modernidade acabou fazendo uma declaração de seu próprio fracasso. Como denunciou Heidegger, o dualismo – calcado na relação sujeito e objeto – é uma tentativa fracassada de explicação do ser.
O cristianismo tem sido, ao mesmo tempo, vítima e mentor dessa configuração ocidental. Ao colocar a racionalidade em questão, ele também é posto sob suspeita. A relação dualista tende a transformar tudo o que não é sujeito em objeto, inclusive Deus. Com isso, exclui a subjetividade do processo de conhecimento a título de uma máxima especialização, dominada pela objetividade, que não conduz à compreensão da realidade e do todo.
A crise que tem afetado a cultura e o mundo alcança também a igreja, o crente, as relações que nos cercam. As mudanças que acontecem no contexto atual estabelece exigências de diálogo com as novas possibilidades de conhecimento e de afirmação de si. Aqueles que se prendem a uma atitude conservadora tendem a se fechar ao diálogo, elegendo um momento histórico, absolutizando-o e divinizando-o. De tal maneira que a compreensão integral do ser humano não comporta mais a concepção engendrada pela modernidade.
O que se faz necessário hoje não é rejeitar a modernidade, mas reconhecer que o projeto de se abarcar a totalidade por meio de uma razão analítica, onipotente e instrumental fracassou. As conquistas estão aí para mostrar os avanços que essa maneira de pensar proporcionou. Ninguém quer voltar à pré-modernidade, a um contexto medieval. A razão esclarecida e científica continua encontrando ressonância na política, na educação e até na maneira de se construir as condições de bem-estar e de felicidade. Porém, estamos distantes de nos tornarmos pessoas que têm controle sobre a natureza. As guerras mundiais, os totalitarismos, os fundamentalismos, o individualismo, a ganância, a intolerância e o preconceito trazem de volta a barbárie, que está na base das crises atuais: ecológica, econômica, moral e religiosa, bem como as injustiças, a desigualdade e a violência.
O racionalismo nos impediu de nos sensibilizarmos com o transcendente, com o inefável, com aquilo que desperta o cuidado com o outro. Ao trazer o divórcio entre natureza e cultura, fez também o divórcio entre a razão e a ética. Gaston Bachelard disse: “eu sou o resultado de minhas ilusões perdidas.” Isso me leva a pensar que toda objetividade comporta uma subjetividade e que toda a subjetividade implica uma objetividade.
A mentalidade moderna e ocidental construiu uma noção de mundo em duas esferas, uma do bem e outra do mal, um agora e um além, uma física e outra espiritual, uma natural e outra racional. Dietrich Bonhoeffer compreendeu a importância da razão para a espiritualidade e para a fé em sua Ética. Ele disse: “A razão não é um princípio divino de saber e ordem, superior ao natural, existente no ser humano; ela própria é parte dessa forma de vida preservada, a saber, aquela parte apta a trazer à consciência, a ‘perceber’ como uma unidade o todo e geral existente no real.” Dito de outro modo, toda a fundamentação da natureza e do real está na espontaneidade subjetiva da razão. E isso também é espiritualidade.

19 comentários:

  1. É professor muito interessante seu texto. deixarei meu simples comentário de aluno. Sei que não estou preparado para grandes discussões. Minha reflexão foi a seguinte: se o racionalismo não tem uma visão transcendental, ele é limitado. Temos que ter uma visão relativizada do mundo, das coisas etc...E podemos utilizar a razão para o transcendente sim.
    Uma visão radical, uma cabeça fechada, é egoísmo e orgulho. Numa análise, não podemos tomar algo como definitivo, como verdade absoluta, temos que levar tudo em consideração. Temos que olhar o outro sim.

    Pedro Paulo Siqueira de Paiva, ed.física universo. matri: 600391666 turno: matutino




    Obs: Desculpa os erros, a falta de conhecimento, etc. Foi oque o texto me passou. Valeu a coragem de comentar rsrsrsrsr.

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  2. Olá professor com a modernidade o avanço da tecnologia e tantas mudanças em nosso meio as pessoas estão ficando descrentes daquilo que é sobrenatural, daquilo que não podemos ver mais sentir. A racionalização exagerada têm deixado o ser humano frio e sem fé. É muito bom termos uma fé racional porém que essa não abale nosso espiritual para que não esqueçamos do valor do que é natural.

    Obrigada e parabéns!

    Daniella Matozinho
    Direito Manhã
    mat:600381868

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  3. Boa tarde, Irênio.
    Entendo que o ser humano retorna contemporaneamente a um estágio do ciclo da mentalidade ocidental em que a razão é privilegiada. Penso que, diferentemente da época do Renascimento (bem como da do Período Clássico antecedente), como não havia esta(s) referência(s) históricas e a velocidade de divulgação das informações que temos hoje, em vez de "progredirmos" estamos "involuindo" neste aspecto.
    Poderíamos ter aprendido com os exemplos deixados pelos clássicos/rensacentistas.
    Considerar a razão incompatível como a espiritualidade revela paradoxalmente a limitação humana em compreender a abrangência daquela.

    Abraços.

    Antonio Ricardo Pena Ramos (matrícula 600025747)
    Curso: Educação Física (manhã)

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    Respostas
    1. Onde se lê "rensacentistas", leia-se "renascentistas". (Erro de digitação)

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  4. Professor, ao meu ver a espiritualidade , a fé e a razão não deixam de caminhar juntos , pois , um depende do outro para favorecer o ser humano em seus pensamentos e até em suas atitudes . Fazendo com que o homem tenha decisões positivas tanto para ele, quanto para toda a sociedade. Nos dias atuais temos uma sociedade muito informatizada , voltada para a conquista de seus próprios interesses, e assim faz com que a maioria da sociedade não dê a importância devida ao nosso próximo , deixando de lado os valores morais ,éticos e religiosos . Até mesmo passando por cima de seus conseitos de certo ou errado .
    Professor , parabéns por publicar um tema tão importante e ao mesmo tempo um tema que gera debates .
    aluno : fabio araujo sabino
    matrícula : 600390717
    turno : matutino

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  5. Olá Irênio.
    Na minha opinião,a Espiritualidade Fé e Razão são compatíveis, mas vendo do lado da Religião Fé e Razão são na maioria das vezes opostos. Isso não quer dizer que o pensamento religioso seja em si um pensamento desorganizado, pelo contrário, há toda uma lógica, uma explicação por trás disso tudo. Ao meu ver, um ser humano voltado demais para a razão, se torna um ser frio, sem fé.

    Nome: Renata Bastos
    Turno: Manhã
    Matrícula: 600391667

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  6. Professo Irênio, na minha concepção seu texto aborda de forma muito clara o antagonismo da vida moderna.
    Deixamos de ser marionetes das expectativas divinas e passamos a trilhar nossa própria trajetória, mesmo que para isso tenha sido necessário passar por cima de todos os valores éticos e morais pré-estabelecidos.
    Mal necessário? Talvez, porém, hoje nôs vemos em uma situação caótica e de falsas prosperidades, pois, estamos carentes das forças naturais mais fundamentais e simplórias de se obter, o AMOR ao próximo e a si próprio, pois, sem elas de nada adiantará êxito pessoal ou seguir uma linha religiosa assiduamente.

    Nome: Michel Cortes
    Curso: Educação Física
    Turno: Manhã
    Matrícula:600390727

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  7. No texto o autor critica o racionalismo afirmando que ele o afasta da natureza da ética do amor ao próximo.
    Ora, o que fazer então? A racionalidade é um caminho sem volta na humanidade. Nos dias atuais não existem mais profetas nem mártires.
    Voltaire disse, "a humanidade só será livre quando o ultimo padre for enforcado com as tripas do ultimo rei". A humanidade ainda não está livre, mas caminha para a liberdade. A razão é o único caminho para a liberdade, explicar fenômenos naturais com o misticismo é o caminho mais fácil, buscar comprovações, provas e evidências dos fenômenos e o que nos leva a liberdade e a qualidade de vida.
    Acho que o medo do fim é o que leva a maioria de nós a religião. Tudo muda e tudo acaba, um dia a minha vida vai ter um fim, um dia o planeta Terra vai ter um fim e até o universo vai ter um fim. Aceitar isso é um grande passo para felicidade.

    nome: André Gustavo Rabello de Lara
    curso: Educação física
    turno: manhã
    matrícula: 600174455

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  8. De fato em nossos dias mais do que no passado, a fé vê-se sujeita a uma série de interrogativos, que provêm duma diversa mentalidade que hoje de uma forma particular, reduz o âmbito das certezas racionais ao das conquistas científicas e tecnológicas. Mas devemos mostrar que não é possível haver qualquer conflito entre fé e ciência, porque as duas, embora por caminhos diferentes, tendem para uma verdade.

    Mislene Mendonça de Melo
    curso: Educação Física
    turno: Manhã
    600375976

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  9. O MUNDO CRESCEU DESORDENADAMENTE , A BUSCA ERA SOMENTE PELO SUCESSO FINANCEIRO, PAÍSES " DESENVOLVIDOS " FORAM OS QUE MAIS AFUNDARAM NOSSO MUNDO, AUTOMATICAMENTE A NATUREZA SE REVOLTOU CONTRA ESSES PROPRIOS QUE DESTRUIRAM A NOSSA NATUREZA.
    A HUMANIDADE SÓ ESTARÁ LIVRE E DESCARRADO DESSES PARADIGMAS QUANDO BUSCARMOS NOS AFLORAR EM NOSSA ESPIRITUALAIDADE, BUSCARMOS E SEGUIRMOS O CRIADOR, NÓSSO PODEROSO, SE FIZERMOS O BEM AO PRÓXIMO O MUNDO FICARÁ LIVRE DÉSSA OPRESSÃO E DESTRUIÇÃO.
    DIOGO MOREIRA ZIEGLER 600386956
    1 PERIODO MANHA
    PARABENS IRENIO, MUITO BOM O BLOG.

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  10. Na minha concepção sua indagação é no sentido de tentar entender porque a racionalidade não fez do homem um ser mais sensato e equilibrado. Não se trata de confrontar fé e razão, mas de criticar os nossos valores, a razão, como meios de alcançar a verdade e o bem.A fé deve estar sempre aliada à razão, em equilíbrio.
    Tadeu Barbosa Pintas 600313141
    Ed.Física Manhã

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  11. Boa tarde, Irênio.
    Entendo que o ser humano retorna contemporaneamente a um estágio do ciclo da mentalidade ocidental em que a razão é privilegiada. Aonde chegaremos com toda tecnologia, esquecendo a natureza e destruindo tudo.
    Se todos tiverem um pensamento mais voltado para um todo, creio que nos livraremos de todo esse mau.
    Henrique Milner Curi
    600258382
    Curso: Educação Física
    Turno: Manhã

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  12. Falando de um ponto de vista da história do Brasil, desde a colonização européia, quando os povos indígenas sofreram influências de Portugal havendo assim uma ambiguidade nas suas formas de expressão ( devido a imposição cultural que tinha por objetivo civilizar-los), nessa interrupção do "contato" com a natureza através de uma cultura extremamente "rígida" acarretou numa quebra entre a razão e a ética. Claro que a racionalidade é algo mundial e não apenas uma característica do povo brasileiro. Com o passar dos anos, a razão moderna, em busca de um mundo ideal, vem pondo em dúvida a fé e por consequência a espiritualidade, levando-nos a um mundo dual onde se tem de um lado o Homem e de outro Deus , e esta racionalidade impregnada no Homem, como sendo a responsável pelas crises atuais nos impossibilitando de cuidar do próximo e do que nos rodeia.

    Eduardo Borges Freitas
    Curso: Ed. Fisica
    turno: manhã
    matricula: 600388643

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  13. Ola, Professor! Confesso que nã0 absorvi muito bem as informações do texto, mas o pouco que entendi é que, com o passar dos anos, dos séculos, o ser humano se preocupou tanto com o "raciocínio" que esqueceu um pouco da fé e assim da sua espiritualidade. Não me refiro nem à religião, mas sim ao fato de cada vez mais a humanidade ter se tornado tão cética. O fato da modernidade bater em nossa porta, nos trouxe de certo modo, a incapacidade de crermos em algo que não seja apto para o nosso próprio entendimento. Bom acho que foi isso! Até...
    Aluna:Jessica s. Oliveira
    Curso:Ed. Física
    Turno:Manha
    Mat:600402376

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  14. Professor, o texto enfatiza que a razão é o começo de tudo, ou seja, de todos os questionamentos. E deixa claro que a sociedade ainda não está completamente livre que a razão é o caminho para o todos os questionamentos e ela que explica o fenômenos naturais, envolve a religião e a politica! E o texto tambem cita o dualismo que segundo Hegger é uma tentativa fracassada da explicação do ser, e as mudanças que acontece no são as novas possibilidades de conhecimento e de afirmação de si.

    Rafaella Ribeiro
    Turno: Manhã
    Curso: Educação Fisica
    Matricula: 600399675

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  15. Ao ler o texto minha opinião só se concretizou, acredito que espiritualidade, fé e razão são coisas diferentes porem se complementam. A Razão na minha opinião depende do que você acredita, da sua fé; Já a fé muitas vezes é infundada e mesmo assim continuamos a crer naquilo.
    Nossa sociedade cada vez mais caminha para o lado da razão absoluta procurando o porque de tudo acontecer, e como tudo acontece. muitos céticos afirmam que a questao da espiritualidade é pura perda de tempo, que nada disso existe. Porem cada um tem o direito de se expressar como quiser e acreditar no que quiser.
    Aluno: Caio G. de M. Barbosa
    Matricula: 600397820
    curso: ED. Fisica Turno: manhã

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  16. Bom, fé sempre será antagônica da razão, pois a razão foi desenvolvida ao longo da história da humanidade para ludibriar a verdadeira existência de Deus que é Espírito, e assim esclarecer cientificamente a origem de tudo.
    A fé não está relacionada com coisas que provém deste mundo metafísico, mas, sim associada à espiritualidade divina.

    Aluno: Hebert de Almeida Martins
    Matrícula: 600321763
    Curso: Direito manhã

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  17. wolney rosa.6003141423 de dezembro de 2012 08:21

    Fé e razão tema complexo todavia distinto entre suas semelhança pois um tenta explica o outro gerando discursão mundial em diferente esferas e partidos de grande massa.Fé é totalmente abstrata permitindo sua visibilidade somente paras aqueles que se volta para um poder soperior;e que a maioria das vezes deixa de fazer a própria vontade em prol da satisfação da fé contrariando a razão sem dispensá-la pois atravéis da razão que consegue chegar a uma fé racional e inteligente alcançando o prestígio de uma nova visão da vida em um todo.

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