sexta-feira, 8 de julho de 2011

Experiência mística / Mystical experience / La experiencia mística

A experiência humana é um fenômeno relacionado ao campo cognitivo. Para Paul Ricouer, “toda experiência é uma síntese de presença de interpretação”. O que se depreende disso é que nunca se pode falar de uma consciência pura, visto que a experiência não se esgota naquilo que o sujeito realiza. Schillebeeckx fala que toda experiência de algo se dá dentro de um quadro prévio interpretativo, que dá significado à experiência particular. É o que faz com que se torne uma experiência significativa. A consciência que faz a experiência não é como a tábula rasa de John Locke. Ela é sempre marcada pela ideologia, presente na forma simbólica da linguagem. Experimentar é, em primeira mão, a capacidade de levar à linguagem algo que se experimenta.
Sendo assim, Schillebeeckx vê a experiência em sua dimensão dialética, que só é “abalizada com a experiência refletida; [...] é mais que mera vivência”. A experiência é sempre refletida e interpretada dentro de um contexto. O pensamento retorna continuamente a experiências vividas. O que Schillebeeckx chamou de autoridade de experiências é uma competência baseada em experiências anteriores para novas experiências. Todo aquele que fez uma experiência torna-se testemunha. Abre-se para uma nova possibilidade de vivência, põe algo em movimento.
Não pode se deixar de levar em consideração que o ser próprio de Deus supera toda a capacidade humana de racionalização, que, por isso mesmo, toda representação de Deus torna-se sem sentido e toda tentativa de uma definição categórica de Deus tornou-se historicamente ineficaz. Mas ao mesmo tempo a forma com que Deus se revela e se doa aniquila todas as formas de representação e se mostra tão próximo. É partir desse paradoxo que se pode falar que a experiência mística tem sempre algo que pode se chamar de uma “noite escura”. Schillebeeckx entende que essa proximidade de Deus é imediata, mas sua imediatez é sempre mediada por nossas estruturas humanas de percepção e de linguagem. Ele elabora o conceito de “imediaticidade mediada” para descrever o problema da experiência mística.
Martin Buber trata da questão da experiência mística de união com Deus a partir de um princípio dialógico, como experiência de encontro. Tal como na experiência do amor humano, a união mística com Deus não elimina a individualidade, mas fortalece na sua profundidade. O que vivencia a experiência mística se sente seduzido, de tal modo que tudo, inclusive ele mesmo, fica em segundo plano, esquecido, como um “nada”, embora isso o fortaleça. Talvez a expressão de Teresa de Lisieux possa resumir bem essa experiência: “Se você é nada, não deve esquecer que Jesus é tudo. Por isso você deve perder o seu pequeno nada no tudo infinito dele e pensar apenas neste único tudo que merece ser amado.”
Maria Clara L. Bingemer vê que o que se pode compreender como mística passa pelo caminho da experiência, que é fundamentalmente uma experiência de relação. E é nesse sentido que se pode falar do campo cognitivo que propôs Schillebeeckx. “A mística é, portanto, sim, um conhecimento; porém, um conhecimento que advém da experiência e no qual a inteligência e o intelecto apenas entram no sentido de compreender não a experiência abstratamente falando, mas o que sente o sujeito concreto que está no centro do ato de experimentar. E este sentir é um sentir que implica uma alteridade e uma relação”.
Nessa experiência de encontro e de relação que se constitui o evento místico, encontra-se o sujeito que conhece e o Outro, um alguém que se dirige para o sujeito da experiência, que fala com ele e para quem o sujeito responde. Um Outro que também é um sujeito que se revela e se mostra. Um Outro que se relaciona e que por sua essencialidade transforma radicalmente a vida do sujeito da experiência, não lhe restando nada mais do que o desejo.
Podemos associar esse campo em que se dá a experiência mística como do sagrado, conforme a categoria definida por Rudolf Otto como um elemento ou momento que foge ao racional, sendo algo impronunciável, indizível ou mesmo inefável, na medida em que foge completamente de uma compreensão conceitual, a que chama de “numinoso”. Numa nota de rodapé, Otto reconhece que Calvino já falava de uma percepção da divindade como uma dimensão santa, uma categoria de interpretação e de valoração que possa abranger esse algo mais e suas derivações.
Embora a experiência mística possa se dar em diferentes contextos, Velasco se dedica a compreender aquilo que se chama de experiência de fé, dotada de um sentido subjetivo, que tem a fé por objeto. “Por ser uma atitude teologal, que tem Deus como seu fim, a experiência de fé é – sempre no interior da fé e nunca como alternativa à mesma – experiência de Deus.” A experiência de fé não se dá por atalhos, não se restringe a uma fórmula ou a um enunciado, mas mergulha no interior do mistério divino e desperta a linguagem que se expressa como testemunho. Por isso, a linguagem mística é sempre transgressora, como uma “metáfora viva”, muito mais que uma figura de linguagem, que comporta uma inovação semântica, que se realiza como um discurso. Tem a ver com o paradoxo que constitui a linguagem religiosa, que rompe o nível do pensamento para despertar uma nova forma de conhecimento que corresponde a uma realidade inefável.

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