sábado, 18 de fevereiro de 2012

Como falar de Deus no contexto da pós-modernidade -II / How to speak of God in postmodernity / ¿Cómo hablar de Dios en la postmodernidad

Jesus acusou os fariseus de serem dualistas, de serem literalistas e de basearem suas interpretações em aparência. Ou seja, eles estavam seduzidos pela mesma lógica e mentalidade ocidental, representada pelo pensamento grego, deixando de lado a essência do pensamento hebreu. Para os gregos, a verdade é uma evidência, que precisa ser percebida objetivamente e compreendida logicamente. Os hebreus tinham como herança a compreensão de que a verdade jamais será alcançada plenamente por um ser humano, uma vez que é percurso, relação, envolve caráter e a afirmação como sujeitos.
O dualismo foi uma forma de compreender o mundo em duas esferas: uma material e outra espiritual, uma que aprisiona e deteriora a alma que busca se emancipar e alcançar aquilo que só pertence de direito ao divino. O dualismo leva a um desprezo do corpo, ao vê-lo como mau e como instrumento para que o sujeito possa manipulá-lo para elevar a alma. Essa compreensão não é bíblica. É grega e ocidental.
A interpretação literalista também é uma construção fruto dessa necessidade de se ter evidências. O saber precisa ser linear, explícito, dotado de gramaticalidade, que pode ser dissecado e aperfeiçoado para ser conhecido. Isso leva a um distanciamento das relações fundamentais e ao equívoco de que a verdade corresponde ao conhecimento explícito em forma de texto, de lei ou de retórica.
O conhecimento a partir da aparência também está na base do pensamento grego. Eles diziam que só se pode conhecer aquilo que aparece – o ser é aparência –, que se manifesta à consciência como fenômeno. O logos é dispersivo, está para a consciência como devir. Esse tipo de compreensão tanto leva à absolutização quanto à relativização, tanto ao todo quanto à parte, numa lógica dedutiva de construir o raciocínio e assim se chegar às ideias verdadeiras.
Jesus afirma que essa maneira de compreender e de construir o entendimento é como um fermento e como uma hipocrisia. As duas metáforas podem significar a maneira como os saberes são construídos e disseminados na vida social, mas também a maneira como que o conhecimento precisa ser buscado além daquilo que é evidente ou da aparência.
A metáfora do fermento está ligada à figura que o judaísmo sempre atribuiu à disseminação de ideias que tendem a orientar a um tipo de comportamento e de pensamento que determinam a vida social para atender a fins que têm a ver com interesses que distanciam as pessoas das suas relações mais fundamentais: com Deus, com a natureza, com o outro e consigo mesmo.
A metáfora do hipócrita tem a ver com as formas de representação dessa mesma compreensão. Hipócrita era o nome dado ao ator das tragédias. É aquele que vive das representações.
Em Lucas 12.1-3, após esse pesado discurso aos fariseus, Jesus chamou seus discípulos a vencerem a tendência farisaica de interpretação da realidade. Da mesma forma, creio que Jesus nos chama ainda hoje a vencermos essa mesma tendência, que vai se atualizando no contexto atual.
A Teologia hoje precisa se configurar como uma construção que rompe com as formas de pensar engendradas pela Modernidade e que atualmente a humanidade começa a se dar conta. Como tem se dado essa tendência? Ela se debate entre o niilismo e o fundamentalismo. Tanto um quanto o outro são consequências do Iluminismo, que tanto ajudou a formar um arcabouço teológico tão vasto, mas que também ajudou a fundar as bases do cientificismo que domina a busca do conhecimento.
Como o ambiente teológico pode contribuir para a superação dos postulados e assim ajudar a formar uma mensagem sobre Deus nesse contexto? Isso tem a ver com a superação dessa lógica que ajudou a formar o saber teológico em vigor. Em primeiro lugar, a superação do pensamento dualista para dar maior abertura para a totalidade. Em segundo lugar, a superação do individualismo narcisista, característico desse tempo, para o desenvolvimento do sentido de comunidade. Em terceiro lugar, a superação das metanarrativas para dar maior espaço para as metáforas. Metanarrativa tem a ver com a crença nas verdades universais, uma narrativa de nível superior capaz de explicar todo o conhecimento existente ou capaz de representar uma verdade absoluta sobre o universo. A aspiração de um saber globalizado, por exemplo, tem levado à ilusão de que a ciência tem todas as respostas. Finalmente, a superação do dogmatismo para a compreensão da distinção entre fé e afirmação da fé.
(Resumo da aula inaugural do Seminário Teológico Batista de Niterói, no dia 9/2/2012)

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