sábado, 18 de fevereiro de 2012

Como falar de Deus no contexto da pós-modernidade -I / How to speak of God in postmodernity / ¿Cómo hablar de Dios en la postmodernidad

Tenho me ocupado há alguns anos com a seguinte questão: como falar de Deus a uma sociedade que aprendeu a viver sem Deus? Em função disso, tenho orientado meus estudos na busca de uma resposta que possa direcionar a minha própria ação pastoral e teológica. Quando me dei conta que estava diante desse problema, desenvolvi a percepção de que estamos diante de uma crise. Essa crise é ética – e não moral – e está relacionada à formação do discurso. De início, tratava apenas como uma desconfiança. Com o avançar dos estudos em nível de pós-graduação nas áreas de Filosofia, Linguística e Teologia, estou convencido de que a linha de investigação que me levará a uma resposta mais consistente passa pelas relações éticas e pelas formações discursivas.
Para orientar nossa compreensão a respeito dessa questão, faz-se necessário primeiramente lançar luz para entender esse tempo, chamado por muitos de pós-moderno, marcado pela fragmentação, pela relativização, pelo fim das utopias e pela perda de confiança nas instituições. Daí surge a pergunta: como definir a pós-modernidade? Podemos falar de uma nova ordem mundial ou numa afirmação da lógica engendrada pela modernidade?
O conceito de pós-moderno ainda não foi claramente definido. Para uns, estamos de fato num tempo em que uma nova lógica tem se estabelecido como paradigma para interpretar a realidade. Para outros, trata-se de uma Modernidade tardia, um desdobramento do paradigma estabelecido na Modernidade.
Quando falamos de pós-moderno, diz respeito a algo que tem a ver com o que vem depois da Modernidade. Os postulados que orientaram a Modernidade tiveram início nas afirmações de Descartes, no século XVII, que trouxeram a crença de que a ciência é o modo pelo qual conseguimos chegar à verdade. Essa crença se baseia na ideia de que a verdade pode ser alcançada pelo sujeito a partir de meios próprios, pelo exercício livre e autônomo de sua própria razão. Em função disso, só é possível conhecer aquilo que aparece à consciência, numa relação de espaço e tempo.
A Modernidade se desenvolveu a partir de uma crise, entre subjetividade e objetividade. A tentativa de solução dessa crise chegou ao seu auge com o Iluminismo (século XVIII) quando se afirmou a autonomia da razão e da vontade para se conhecer aquilo que aparece à consciência, que pode ser compreendido a partir das categorias de tempo e de espaço. O conhecimento de Deus passa a ser uma impossibilidade porque não se enquadra nessas categorias.
Do ponto de vista teológico, a Modernidade pode ser vista como uma das consequências das feridas provocadas pelo orgulho humano. As narrativas bíblicas apontam para as origens desse problema a partir de textos como os da queda e da torre de Babel, que funcionam como metáforas dessa angústia por superação de sua finitude e de suas limitações. O desejo de autonomia e de alcançar o conhecimento verdadeiro sempre foi o ideal humano. Na sua fase mítica, todas as civilizações acreditaram que a verdade plena é um saber oculto aos homens, mas acessível à divindade. O desejo de superação das circunstâncias que nos privam da verdade orientaram as descobertas humanas desde sempre.
É curioso fazer a descoberta de que Jesus também se preocupou com essa questão em seu tempo. No discurso contra os fariseus e doutores da lei, registrado em Lucas 11.37-52, Jesus relata uma série de ações que estão ligadas à maneira de interpretar a realidade, principalmente no que diz respeito à aplicação das Escrituras à vida. Os problemas vividos também estavas ligados a questões éticas – confundidas com moral – e estavam exatamente nas formações discursivas.
Continua no próximo post >>
(Resumo da aula inaugural do Seminário Teológico Batista de Niterói, no dia 9/2/2012)

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