quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Mensalão: corrupção, moralismo e mudanças políticas no Brasil / Corruption, moralism and political changes in Brazil / La corrupción, el moralismo y cambios políticos en Brasil

O julgamento dos 38 acusados de envolvimento no escândalo de corrupção conhecido como “Mensalão” é o maior da história do Judiciário no Brasil. Ele já é reconhecido como o mais sofisticado esquema de desvio de dinheiro público já identificado na história. Nunca antes na história do Brasil um sistema de corrupção foi revelado, embora sempre tenha havido indícios de existência de manobras e tramoias para todo tipo de facilitação de desvio de dinheiro para atender a interesses pessoais.
O fato ganhou força a partir de um conjunto de reportagens, iniciado pelo jornal A Folha de São Paulo e veiculado pela revista Veja a respeito do episódio. A crise institucional que atingiu o governo do presidente Luís Inácio Lula da Silva no ano de 2005 ficou conhecida como “mensalão” por causa do nome usado por Roberto Jefferson para descrever o pagamento de propina a parlamentares para a compra de votos. Segundo o cientista político Augusto Nunes (2005), o acontecimento foi marcado por uma sucessão de denúncias e se tornou um exemplo do moralismo com que a classe média passou a questionar o ideal de honra do Partido dos Trabalhadores e que provocou mudanças no modo de entender a corrupção no Brasil.
A revista Veja caracterizou-se como o veículo de informação que mais deu ênfase ao escândalo com uma sucessão de reportagens principais durante quase oito meses daquele ano. A primeira reportagem ocorreu em 18 de maio de 2005, denunciando um esquema de corrupção nos Correios, envolvendo a atuação de seu diretor Maurício Marinho em um momento de recepção de dinheiro da corrupção, flagrado através de um vídeo gravado.
Sistematicamente, o periódico semanal alimentou a crise com uma sequência de acontecimentos até resultar em seu esvaziamento, marcado pela reportagem da cassação do então Deputado Federal e ex-ministro José Dirceu, publicada na edição de 7 de dezembro de 2005. Durante todo o tempo, a ideia de “mensalão” foi realçada por uma sucessão de significados, construídos ao longo do percurso, muitas vezes simbolizados por dinheiro em malas, peças íntimas masculinas e outros objetos, a fim de dar materialidade aos sentidos.
O mensalão existiu? Sim. Não só existiu em relação ao epísódio, mas também em toda a história da República brasileira. E continua existindo tanto em nível federal, quanto estadual e municipal. O que diferencia o episódio de 7 anos atrás é o fato de que acontecia dentro de um governo que havia chegado ao poder com um discurso ético. Além disso, estava em jogo a figura política do operário que havia galgado o cargo mais alto da política brasileira, que sempre foi dominado por uma elite.
A pergunta que se faz é: o STF está em condições de fazer um julgamento jurídico isento de influências políticas do mensalão? A mídia influenciada por essa elite que sempre esteve ligada ao poder quer que seja um julgamento político, mas a sociedade exige que seja amplo e justo. A crise do mensalão não só foi a pior crise da República, mas também um indicativo de que conchavos não são mais eficientes para soluções de problemas relacionados ao exercício do poder.
A corrupção no Brasil - e no mundo - não é nova. Propina, recurso não contabilizado e caixa dois de campanha são outros nomes para mensalão. Essa prática ainda está longe de acabar na política brasileira. O que se imagina é que existe um recurso não contabilizado que sustenta as campanhas eleitorais no Brasil desde o início da República que só tem acesso a ele quem está no poder.
Entretanto, o Brasil não foi mais o mesmo depois das primeiras imagens de corrupção dentro dos Correios. A banalização da propina nunca mais foi a mesma, uma vez que foi exposta de forma a criar uma aversão à prática. Sem perceber, o ato de embolsar uma pequena quantia fazia história e mudava o rumo na forma de tratar a coisa pública.
Após o mensalão, a ética deixou de ser bandeira de uma legenda para ser uma exigência, assim como a forma de fazer política deixou o eixo moral e se deslocou para temas mais concretos como programas e conquistas governamentais. Segundo os autores do Memorial do Escâncalo, Gerson Camarotti e Bernmardo de La Peña, “toda vez que um país enfrenta momentos como os vividos na crise de 2005 [...] a sociedade como um todo amadurece.”

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