quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Teísmo aberto e as narrativas sobre Deus na pós-modernidade – Parte 2 / Open theism and narratives about God in postmodernity / El teísmo abierto y narrativas acerca de Dios en la postmodernidad

A discussão teísta na Modernidade envolve também o tema da teodiceia, termo criado por Leibniz (1646-1716), em 1710, para compreender a bondade e a perfeição de Deus diante do mal que há no mundo. Para Leibniz, não podemos responsabilizar Deus pela maldade e pelos erros existentes no mundo em função da liberdade do homem. Vivemos no melhor dos mundos possível.
Com Kant (1724-1804), desenvolve-se a compreensão de que o conhecimento de Deus não é possível às formas puras da sensibilidade, de espaço e tempo. Não se explica pelo princípio da causalidade, não é objeto de conhecimento. Só pode ser uma ideia pura da razão, como um princípio geral de unificação do conhecimento. Trata-se de uma ideia, como um mistério absoluto, cujo conhecimento é inacessível. Deus e o nada seriam a mesma coisa. É o fim da metafísica.
Com Hegel (1770-1831), o conceito de Deus e do Absoluto se referem ao pensamento que se pensa. Não se trata de uma realidade transcendente. O absoluto é a totalidade como realidade imanente, como um processo de autorreflexão. Esse pensamento que se pensa é um processo que tem um fim em si mesmo, que se forma na consciência do sujeito.
A filosofia, como se vê, chegou a um nível de abstração e distanciamento da vida que despertou a crítica de três principais pensadores – o que chamo de críticos da racionalidade ou filósofos da suspeita. São eles: Freud (1856-1839), ao afirmar que crer em Deus é uma projeção infantil; Marx (1818-1883), ao reconhecer que a religião funciona como instrumento de alienação e de opressão – “ópio do povo”; e Nietzsche (1844-1900), que declarou que “Deus morreu”.
Essa crítica, porém, não foi bem recebida no âmbito da teologia sistemática. Como o pensamento religioso esteve moldado a pensar em Deus a partir de categorias teológicas, dogmas, proposições e conceitos, a teologia volta-se para uma abordagem que leve em consideração a revelação de Deus no contexto da história.
A revelação pressupõe um Deus que age na história e um povo que interpreta essa ação. Nesse sentido, a Bíblia aponta para Deus através de uma narrativa a partir do fluxo dos acontecimentos. A teologia precisa se dar conta de que o texto bíblico, como uma fonte, está envolto em um contexto histórico com implicações socioculturais. Sua leitura é marcada pelos modos de construção dos sujeitos implicados na narrativa.
Johann Baptist Metz defende que a teologia não pode seguir sendo especulativa e que a teologia do futuro terá que ser narrativa. Uma teologia a partir da narrativa envolve aspectos relacionados à memória e à experiência vivida pelos sujeitos implicados. A compreensão mais abalizada sobre Deus não está na sistematização da teologia, mas nas narrativas das formas como Deus se revela na vida.
A fé não é a aceitação de uma verdade, mas a construção de uma relação com o outro, com o mundo e com Deus. Para Gianni Vattimo, o Deus da Bíblia não é um fundamento, mas um evento “capaz de mudar a vida daqueles que recebem o seu anúncio e cuja relevância, podemos afirmar, consiste justamente nessa mudança.” (em Depois da cristandade).
Dietrich Bonhoeffer, em suas cartas da prisão, defendeu a necessidade de se falar de Deus sem subterfúgios: “Deus nos dá a conhecer que devemos viver como indivíduos capazes de enfrentar a vida sem ele. O Deus que está conosco é o Deus que nos abandona! (Mc 15.34) O Deus que faz com que vivamos no mundo sem a hipótese de trabalho Deus é o Deus perante o qual nos encontramos constantemente. Perante e com Deus vivemos sem Deus. Deus deixa-se empurrar para fora do mundo até a cruz; Deus é impotente e fraco no mundo e exatamente assim, somente assim ele está conosco e nos ajuda.” (Resistência e submissão, p. 447-448).
(Palestra apresentada na Igreja Congregacional de Icaraí, Niterói, em 5 de setembro de 2013. Leia também a Parte 1)

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