quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Teísmo aberto e as narrativas sobre Deus na pós-modernidade – Parte 1 / Open theism and narratives about God in postmodernity / El teísmo abierto y narrativas acerca de Dios en la postmodernidad

A discussão sobre o teísmo aberto, empreendida no contexto do evangelicalismo norte-americano, põe em questão a relação entre soberania divina e liberdade humana. O conceito de “teísmo aberto” foi usado por um grupo de pensadores voltados para uma teologia mais relacional e voltada para o processo histórico. Para estes, o homem e Deus são coparticipantes da história e da construção do futuro.
A discussão, no entanto, não é nova para a teologia protestante, embora não tenha recebido essa nomenclatura desde o começo. O pelagianismo, por exemplo, já afirmara, no século V, que todo homem é totalmente responsável pela sua própria salvação e, por essa razão, não necessita da graça divina para salvar-se. Pode fazer isso por si mesmo, uma vez que é moralmente neutro. Esse tema foi a base de uma grande controvérsia sobre o pecado original, que levou a Santo Agostinho formular a ideia de que a queda de Adão fez com que toda a humanidade estivesse escravizada ao pecado. Mesmo que possa fazer escolhas, o homem, por exemplo, não pode escolher não pecar.
O tema da soberania de Deus é o foco central da teologia reformada e se fundamenta no pensamento de João Calvino (1509-1564). Essa concepção pressupõe um Deus que tem o controle e o domínio sobre todas as coisas. Sendo assim, todas as coisas ocorrem como resultado de um plano divino. Os teólogos do teísmo aberto questionam a abrangência da noção de soberania, onipotência e oniciência divina do calvinismo e apontam para uma abordagem em que a condição de todo-poderoso é que faz com que Deus despoje dessa condição em função da liberdade humana. Isso, no entanto, não faz dele um Deus fraco, visto que é nesse despojamento que ele demonstra deu poder.
A reflexão teísta, no seu sentido mais amplo, é uma atitude filosófica cuja tendência se dá a partir de uma perspectiva histórica. É, portanto, um produto da racionalidade moderna. Ela se fez necessária em função de algumas questões teológicas que estão em aberto. Até que ponto a revelação de Deus é afetada pela condição humana? Até que ponto a ação humana é afetada pela revelação divina?
A modernidade construiu uma compreensão inicial de Deus dentro de uma concepção racional defendida por René Descartes (1596-1650). Ele afirmou que Deus é sumamente perfeito, bondoso e verdadeiro e que as faculdades humanas da razão encontram-se aptas a conhecer a verdade, e por isso, podem conhecer a Deus. A preocupação era de procurar oferecer uma explicação sobre o Deus cristão utilizando os paradigmas da filosofia grega e ocidental.
Nicolas Malebranche (1638-1715) aprofundou o conceito metafísico de Descartes ao afirmar que Deus é a razão universal que ilumina a razão humana. Esse Deus é livre e criou o melhor mundo que um Deus livre poderia criar. A crítica mais contundente sobre o Deus cartesiano foi feita por Espinosa (1632-1677). Ele desenvolve uma compreensão diferente de Deus ao afirmar seu princípio do Deus sive natura: um Deus que age e existe a partir de sua própria natureza é a própria natureza. Rejeita, assim, a ideia de um Deus pessoal e o afirma como a substância na qual existem todas as coisas. Todas as coisas são e existem em Deus.
Como se pode perceber, a modernidade desenvolveu modos de abordagem sobre Deus: o teísmo – concepção filosófica que admite a existência da divindade, sem relação com um sistema de crença ou valores morais ( por exemplo, o cristianismo como uma forma de teísmo. O oposto é ateísmo) – e o deísmo – concepção filosófica naturalista que afirma a existência de um Deus que pode ser conhecido por meio da razão e da percepção pessoal, sem a necessidade da revelação (por exemplo, a afirmação de Voltaire que, para se chegar a Deus, não é preciso da religião).
(Palestra apresentada na Igreja Congregacional de Icaraí, Niterói, em 5 de setembro de 2013. Leia também a Parte 2)

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