quarta-feira, 25 de junho de 2014

Michel Foucault: 30 anos após sua morte – provocações para a teologia / Provocations for theology / Provocación para la teología

Após três décadas da morte de Michel Foucault, seu pensamento continua sendo uma referência para quem está em busca de mudanças, sobretudo no que diz respeito a questões éticas e às relações que envolvem a dinâmica da vida social. A maneira como entende a relação entre saber, poder e sujeito tem ajudado a diversos campos de investigação a desvendar as múltiplas formas como o poder se dá e como é instituída uma rede de saberes que visa a transformação de indivíduos em sujeitos, abrangendo aí a moral e as práticas sociais.
A partir das últimas obras de Michel Foucault, é possível problematizar a respeito da compreensão do sujeito contemporâneo e das estratégias para se desenvolver uma transformação do sujeito, uma forma de contrapoder, que permita resistir aos modos de sujeição que lhes são impostos. Ao delimitar o que tem sido denominada de “último Foucault”, o que se busca é a possibilidade de construir uma cultura de si que permita que o indivíduo se mantenha livre em relação às formas de subjetivação que lhes são impostas e que lhe permita uma afirmação de si como sujeito do conhecimento.
A obra de Michel Foucault está inserida no contexto das reflexões levadas a efeito na segunda metade do século XX e que pode ser denominada de uma filosofia da indeterminação, visto que se ocupa das questões relativas ao sentido e ao sujeito, em contraposição a uma filosofia do saber, centrada na racionalidade e no conceito. O que está em discussão é a reflexão que se faz necessária sobre as relações entre a questão do fundamento da racionalidade e as condições históricas que, na atualidade, tornam possível essa mesma racionalidade.
Foucault ocupou-se especificamente das relações do sujeito consigo mesmo e isso se tornou mais nítido em seus últimos escritos. O conjunto de seu pensamento consistia em uma abordagem ética que visava a um sujeito liberado dos atributos que lhe foram dados pelo saber da modernidade, determinadas pelo poder disciplinar e normalizador e por uma moral orientada para o código, como resultado de procedimentos históricos que vêm sendo construídos desde a antiguidade greco-romana.
Seu principal interesse foi mostrar a possibilidade de orientar os esforços de pensamento e da ação para a constituição daquilo que ele denomina “estética da existência” como um modo de vida orientado para o cuidado de si. Uma vez que a tentativa de se encontrar o fundamento para uma moral universal de caráter normativo, engendrada pela modernidade, fracassou, o que resulta é a relação do indivíduo consigo mesmo cujo centro é a liberdade.
A ética que emerge desse contexto é vista pelo próprio Foucault como a possibilidade de formação de um modo de vida que possa fazer sentido e servir de inspiração como uma obra de arte. Ele disse:
“O que me surpreende é o fato de que, em nossa sociedade, a arte tenha se transformado em algo relacionado apenas a objetos e não a indivíduos ou à vida; que a arte seja algo especializado ou feito por especialistas que são artistas. Entretanto, não poderia a vida de todos se transformar numa obra de arte? Por que deveria uma lâmpada ou uma casa ser um objeto de arte, e não a nossa vida?”
Foucault está empenhado em analisar as ações que governam outras ações a partir de categorias que orientam as práticas sociais que formam o sujeito ético, categorias essas ligadas às relações de verdade, ao poder e à ética que constituem a realidade humana. Na trajetória que ele estabelece para essa investigação – que se dá pelo método arqueológico e genealógico –, Foucault se depara com o cristianismo, que irá se apropriar de técnicas já organizadas do cuidado de si na antiguidade greco-romana para dar lugar a novas formas de uso dessas mesmas práticas.
Foucault tenta diagnosticar quais são os aspectos que caracterizam o momento atual da racionalidade ocidental, identificando os perigos que são inerentes a esse tempo, não na tentativa de redimir a humanidade dos seus perigos, mas de reconhecer que cada época tem seus próprios perigos e que é necessário enfrentá-los. Dreifus e Rabinow denominaram essa atitude de Foucault de um “pessimismo hiperativo”.
“Sua prática sugere, contudo, que ele compreenda que seu diagnóstico dos perigos atuais da luta cristã pela pureza e pela salvação, e da fé iluminista numa razão universal, assim como sua preferência por uma ética que é uma estética da existência com seus perigos, é, em última instância, uma interpretação a ser julgada em termos de sua ressonância com outros pensadores e atores da vida social e seus resultados.”
(Trecho tirado da tese de doutorado “Espiritualidade e subjetividade: a provocação de Michel Foucault e a teologia em tempos pós-modernos”.)


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