segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Espiritualidade e modernidade líquida / Spirituality and liquid modernity / La espiritualidad y la modernidad líquida

Para Zygmunt Bauman, houve um profundo processo de mudança que permitiu que tudo o que era seguro no discurso da modernidade deixou de existir para dar lugar ao que chamou de modernidade líquida. Aquela modernidade sólida teve início com as transformações operadas pelo pensamento racionalista clássico, que fez emergir um conjunto estável de valores e modos de vida cultural, político e religioso. Na modernidade líquida, entretanto, tem lugar a fragmentação, tudo torna-se volátil, as relações humanas não são mais tangíveis e a vida em comunidade, em família, o relacionamento dos casais, de grupos de amigos, de afinidades políticas e até de sentimento de fé, entre outros, perde consistência e estabilidade.
Esse modo de pensar percebido por Bauman não é exatamente novo. Ele já havia sido, de algum modo, apresentado por Karl Marx quando de seu Manifesto comunista, uma vez que aponta para a ação do éter das revoluções modernas que desmancha tudo que é sólido. Ele almejava, juntamente com Engels, que a sociedade moderna, que se encontrava estagnada e resistente, se dissolvesse para dar lugar a uma nova ordem. Isso era o mesmo que dizer que deveria se dar lugar a um cenário marcado pela profanação do sagrado, pelo repúdio e destronamento do passado, da tradição, de toda forma de crenças. Os primeiros sólidos a serem derretidos seriam as lealdades tradicionais, os direitos e obrigações que atavam pés e mãos que impossibilitavam os movimentos e iniciativas. Com isso, haveria lugar para uma progressiva prática de liberdade que envolveria a vida econômica, com mudanças radicais nas tradições culturais, éticas e políticas.
A diferença entre Marx e Bauman, no entanto, é que o segundo já elabora uma reflexão no contexto da pós-modernidade cuja característica principal é a dificuldade que se tem de fazer planos futuros para qualquer modo estável de sociedade. Toda a concepção do pensamento moderno estava baseada nos limites da razão em relação ao espaço e o tempo.
Em sua crítica aos princípios da modernidade, Marx acreditava que o seu comunismo se tornaria um modo social de vida integrado e harmônico. Nietzsche também direcionou sua crítica à modernidade para a superficialidade da sua cultura e ao apego de artistas e intelectuais modernistas nos aspectos de efeito da obra de arte e da obra de pensamento de modo geral. Entretanto, o que se vê é que todos os referenciais se diluíram. Por isso que Bauman faz uso da metáfora dos líquidos e gases para representar a fluidez de nosso tempo exatamente porque esses elementos não se fixam no espaço nem se prendem ao tempo.
As novas esferas de relacionamento são marcados pela fluidez, maleabilidade, flexibilidade e a capacidade de moldar-se a uma determinada situação. A metáfora do estado liquefeito denuncia que vivemos em um tempo de transformações sociais aceleradas, marcado pela dissolução dos laços afetivos e sociais, pelo desapego e pelo transitório. Uma falsa sensação de liberdade que traz consigo um processo de individualização marcado pelo desprendimento das redes de pertencimento social. A cultura do Eu se sobrepõe à cultura do Nós. Os frágeis laços que unem os indivíduos podem ser desfeitos diante de qualquer coisa que desagrade. Essa sensação de leveza e falta de compromisso é associada à sensação de liberdade individual.
O que a modernidade liquida esconde é que essa pseudo-liberdade é acompanhada de novas patologias que afetam o indivíduo e a sociedade. As pessoas se queixam de solidão, desamparo, isolamento, depressão. A sociedade sofre com exclusões de toda ordem como sintoma de uma perversa sensação de liberdade e desterritorialização, por ser pobre, feio, gordo, evangélico, imigrante, homessexual, negro, estrangeiro. Para os excluídos, os laços sociais são marcados por um crescente processo de tribalização, pela cultura do gueto.
Para Bauman a maior dificuldade é que faltam os referenciais, “não há mais grandes líderes para lhe dizer o que fazer e para aliviá-lo da responsabilidade pela consequência de seus atos; no mundo dos indivíduos há apenas outros indivíduos cujo exemplo seguir na condução das tarefas da própria vida, assumindo toda a responsabilidade pelas consequências de ter investido a confiança nesse e não em qualquer outro exemplo.”

Um comentário:

  1. Que maravilha unir espiritualidade com teorias literárias que abordam a pós-modernidade, gostaria de publicar seu artigo sobre o Bauman em nosso portal de cultura Blocos Online . Posso? Aguardo seu retorno, se possível para o meu e-mail (abaixo).
    Li que sua formação é pela Severino Sombra, e que você reside em Niteroi; eu moro em Maricá...
    Leila Míccolis
    blocos@blocosonline.com.br

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