sábado, 22 de maio de 2010

Espiritualidade e desejo / Spirituality and desire / La espiritualidad y el deseo

Tenho procurado compreender a espiritualidade em seu aspecto ético. E, nesse sentido, a espiritualidade como expressão de confronto e conformação com Cristo. A espiritualidade, quando entendida do ponto de vista ético, envolve a pessoa inteira, sua percepção e imaginário. Envolve a inteligência, os afetos, a vontade e a liberdade no que diz respeito ao modo como sou atingido em minha experiência com Cristo.
Nesse campo, surge uma definição que abrange a dimensão da ausência, da falta, como consequência dessa falta, que é o desejo. Não se trata de um sintoma eventual, mas constitutivo e fundante de uma busca por realização. O papel do desejo na espiritualidade é o mesmo da psicanálise, pois carrega uma espécie de luto por nós mesmos, nos desaloja e causa uma ferida, como perdidos num mundo para o qual fomos feitos, mas que precisa ganhar novo sentido.
Na verdade, é o desejo que dá sabor à vida. É uma preocupação que toca o coração, o que nos leva a canalizar todas as nossas energias. É o desejo que nos revela quem somos, como sujeitos que se constituem, como propôs Kierkegaard, numa síntese entre finito e infinito.
O homem é um ser que deseja. Caminhamos sempre vagueando entre o medo e o desejo. Necessitamos constantemente de algo e isso abre a experiência da transcendência, o que nos remete à experiência de Deus. No Antigo Testamento, a experiência de Deus era tida como refúgio. No Novo Testamento, essa experiência ganha identidade, toma forma, tem um rosto: é relacionamento com Jesus. É a experiência, por exemplo, de Santo Agostinho, que passou toda a sua vida em busca de Deus, até que o encontro dentro de si mesmo. Nos Exercícios Espirituais de Inácio de Loyola, os desejos são responsáveis por uma busca que sucede a conversão: o desejo de fazer grandes coisas, o desejo de ajudar os outros, o desejo de partilhar do sofrimento por amor a Jesus.
O desejo, então, ocupa um papel central na experiência de espiritualidade. O que se deseja é o que se pede a Deus. É o que acompanha o nosso aprendizado e a nossa caminhada. Eles tanto preenchem e dão sentido à experiência de contemplação e de admiração da manifestação do amor de Deus, quanto afetam a nossa subjetividade.
O sujeito do desejo sente-se alcançado e envolvido pela graça, e é isso que desperta uma necessidade de retribuir com generosidade ao amor de Cristo e responder aos apelos dessa mesma graça.
O desejo de fazer algo por Cristo direciona o seguimento de Cristo. O objetivo de tal experiência é nos ajudar a reconhecer e aceitar quem somos, com nossas fraquezas e potencialidades, e a nos orientar no processo de formação do que Deus quer que nos tornemos. Uma experiência de diálogo entre a realidade de Jesus e seus ensinos – como um novo paradigma do que é ser humano – e a minha realidade, a maneira como pratico seus ensinos.
É essa experiência do desejo que me impulsiona a fazer uma oferta de mim mesmo a Cristo, que se ofereceu em amor por mim. Essa é resposta ao apelo da graça, que me alcança no lugar em que me encontro, do jeito que eu sou.

4 comentários:

  1. Não me parece que a experiência com Deus seja tida como refúgio. Os salmistas demonstram plenamente seu anseio de relacionar com a divindade. A experiência da espiritualidade medieval já se encontrava descrita nos salmos. E salvo engano, são estes mesmos salmos que guiam a espiritualidade dos cristãos medievais.

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  2. Gostei do texto. Muito bem articulado. Mas não vejo uma relação entre o estatuto do desejo na espiritualidade e o estatuto do desejo na psicanálise. O desejo na psicanálise não é um desejo atua na constituição do sujeito, que quer porque quer. A neurose é uma forma inadequada de lidar com esse desejo. Na espiritualidade o desejo pode ser visto como desejo mortificado. Mas essa mortificação se dá pela inundação da Graça de Deus. E a Graça ao mesmo tempo que mortifica ela vivifica. Uma articulação possível entre o desejo na espiritualidade e na psicanálise seja o da sublimição.

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  3. Irenio, a Paz do Senhor!

    Desculpe, mas não concordo que a espiritualidade seja determinada por um desejo humano. O homem por si só é carnal, ele não entende a não ser que haja de Deus, uma ação de regeneração nesse homem pecador, “inimigo de Deus”.

    Ou seja “(...) o homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus, porque lhe são loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente.” (I Co 2:14).

    O homem, só deseja Deus pela ação do Espírito Santo, e, mesmo assim, o próprio homem tem direito de recusar esta ajuda. O que quero dizer aqui é que toda a obra de salvação do homem pecador é feita por Deus “Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus” (Ef 2:8)

    O homem por sua livre e espontânea escolha não quer saber de Deus, pois, o homem, está morto espiritualmente e não consegue atender ao Seu chamado por iniciativa própria. Por esse motivo, o homem não pode se gloriar de nada. A Salvação pertence a Deus, todas as vidas são Dele, o Sacrifício foi Dele, a Regeneração é Ele quem opera, “porque Deus é quem efetua em vós tanto o querer como o realizar, segundo a sua boa vontade.” (Fp 2:13), e a santificação “(...) sem a qual ninguém verá o Senhor,” (Hb 12:14) é uma exigência do Senhor para cada um de nós, e o Espírito Santo, nos ajuda até mesmo neste processo.

    O que vejo neste processo é a ação de Deus em todas as etapas da vida humana. A Salvação é para todos, mas nem todos reagem positivamente. Alguns nunca aceitarão o convite de Jesus, outros aceitarão imediatamente e outros com o passar do tempo. Concluindo, se temos desejo em fazer parte da família de Deus não podemos nos gloriar disto, pois foi Ele quem operou em nossa vida para que isso acontecesse.

    Que Deus nos ajude e nos abençoe!

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  4. Gente. Obrigado pelos comentários. Têm sido ótimos. Assim a gente vai construindo uma compreensão mais clara sobre o que estamos propondo. É isso aí, continuem...

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