quinta-feira, 29 de abril de 2010

Espiritualidade e família / Spirituality and family / La espiritualidad y la família

Desde crianças somos acostumados aos contos de fada. Normalmente, essas histórias traziam embutidas uma ideia que acabou fazendo parte de nosso imaginário e formando as expectativas que regem muitos relacionamentos. Elas sempre começavam com “era uma vez” e terminavam com o “e foram felizes para sempre”. De um lado, construímos uma noção de que nossos desejos e aspirações estão ligados a uma realidade da qual não fazemos parte. O ideal de uma vida feliz e de realizações nos relacionamentos se encontra muito distante de nós.
Com isso, alimentamos nossos sonhos com a esperança de um mundo perfeito em que todos os obstáculos podem ser superados apenas pela realização do inefável e do mágico. Aquelas histórias nutriam o desejo ingênuo de uma vida feliz a partir da realização dos sonhos, que em um dado momento, como que por encanto, seriam finalmente consumados, simbolizado pelo casamento. Nesse caso, o casamento resumia todo o ideal da vida feliz e de uma felicidade duradoura.
O ruim é que as histórias terminavam aí. Ficávamos sem saber sobre o que vem depois. Como vêm os filhos? O que fazer nas adversidades? E quando chega a hora da perda? Num tempo como esse, em que o casamento passa por tantos questionamentos, é preciso reconhecer que há um outro olhar possível nessa área. Primeiro, para afirmarmos que há vida depois do casamento. Segundo, a união de duas vidas não pode ser vista como um fim em si mesmo. Terceiro, o casamento é o começo de uma nova caminhada, a dois.
Ser feliz para sempre pode ter o sentido de que é possível construir a felicidade a dois. Não é fácil, mas é possível. A vida conjugal implica amadurecimento pessoal porque envolve a aquisição de traços da personalidade que só se realizam no contexto do casamento. O interessante é que a maioria dos nossos problemas estão ligados aos relacionamentos afetivos, principalmente o matrimônio. Isso ganha a dimensão de problema exatamente porque o casamento está inserido num ponto de tensão, que é inerente à nossa condição humana. Envolve o conflito entre o que eu quero e o que eu posso, tanto para mim quanto para o outro.
O amor consiste no fato de que duas vidas se habilitam a começar essa caminhada nova, sem que isso seja uma ameaça para a identidade sua e do outro, sem violar o direito seu e do outro de serem felizes.
Uma vida assim não nasce pronta. Ela é, como tudo na vida, resultado de aprendizagem. Uma aprendizagem a dois, com todos os erros e acertos, fracassos e sucessos que isso envolve. A felicidade está no fato de olhar para trás e ver que valeu a pena ter tentado, e que você seria capaz de continuar tentando, e de tentar de novo se tivesse a chance de recomeçar.

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